A partir das hipóteses desenvolvidas, procedeu-se a análise por meio da regressão linear múltipla. Foram testadas as hipóteses utilizando o grupo de 270 empresas, que apresentaram relatórios de sustentabilidade ou integrado. Os resultados da regressão podem ser observados na Tabela 6.
Tabela 6 - Regressão no período de 2018 a 2020
Variável Dependente Equação 1
Variáveis explicativas Coef. B Estat. T
Constante - -11,599
IE_PAL -0,003 -0,056
NGC 0,004 0,061
LN_Ativo Total 0,64034 12,295
ISE -0,202 -2,406
IE_PAL*NCG -,092 -1,283
IE_PAL*ISE 0,083 0,904
Estatística F 25,760
R² ajustado 0,356
Tolerance 0,286 a 0,986
VIF 1,014 a 3,501
DW 1,905
N 270
Fonte: Dados da Pesquisa.
Foi utilizada a regressão linear múltipla para verificar qual a influência do índice de evidenciação de palavras, do NGC, do ISE e do ativo da empresa na variável valor de mercado. A análise resultou em um modelo estatisticamente significativo, mostrando que o modelo é melhor que o acaso. O R² (Figura 4) indicou um percentual de variação de 37% na variável dependente valor de mercado, sob influência das variáveis independentes.
Figura 4 - Resumo do modelo
Resumo do modelob
Modelo R R quadrado R quadrado ajustado Erro padrão da
estimativa Durbin-Watson
1 ,608a ,370 ,356 36638695,51471038
0000000 1,905
a. Preditores: (Constante), IE_PAL*NGC, IE_PAL, ISE, LN Ativo Total (TAM), NGC, IE_PAL*ISE b. Variável Dependente: Valor de mercado
De acordo com o teste, somente o ativo da empresa possui distribuição normal (Figura 3), apresentando distribuição anormal para as demais variáveis, devido a isso e ao tamanho da amostra, será usado o pressuposto do teorema do limite central, assumindo que a distribuição será aproximadamente normal.
O teste de auto correlação dos resíduos, medido pelo Durbin-Watson (Figura 4), procedeu um bom resultado, sendo 1,905, ou seja, quase não há autocorrelação dos resíduos, sendo os mesmos independentes. O teste do modelo também apresentou a ausência de multicolinearidade (Figura 5), não havendo redundância de informação entre as variáveis independentes.
Figura 5 - Resultados dos Testes de Tolerância e VIF no período de 2018 a 2020
Modelo T Sig.
Estatísticas de colinearidade
Tolerância VIF
1 (Constante) -11,599 ,000
IE_PAL -,056 ,956 ,986 1,014
LN Ativo Total (TAM) 12,295 ,000 ,884 1,131
ISE -2,406 ,017 ,338 2,957
NGC ,061 ,951 ,613 1,632
IE_PAL*ISE ,904 ,367 ,286 3,501
IE_PAL*NGC -1,283 ,201 ,467 2,143
No fator heterocedasticidade (Figura 6), o modelo indicou dispersão desigual nos resíduos, havendo diferenças nas médias dos grupos.
Figura 6 - Anova
ANOVAa
Modelo Soma dos Quadrados df Quadrado Médio Z Sig.
1 Regressã
o 207482578069259104,000 6 34580429678209848,000 25,760 ,000b Resíduo 353049624372170110,000 263 1342394009019658,000
Total 560532202441429380,000 269 a. Variável Dependente: Valor de mercado
b. Preditores: (Constante), IE_PAL*NGC, IE_PAL, ISE, LN Ativo Total (TAM), NGC, IE_PAL*ISE
Com a disposição da tabela de regressão, é possível extrair os resultados e comparar com as hipóteses anteriormente levantas:
Em relação a hipótese H₁:O ativo resultou em significância para o modelo, sendo a variável com maior relevância e relação positiva de influência com o valor de mercado, o que corrobora hipótese. Conforme resultados obtidos por Nossa (2002), o fato de uma empresa ser menor resultava em uma menor quantidade de informações
ambientais evidenciadas. A hipótese também pode ser explicada conforme abordado por Pacassa et al. (2021), onde foi comprovado em seus estudos que o tamanho das empresas influencia positivamente na publicação de informações associadas a sustentabilidade. Sendo assim, a H₁ está validada nesta pesquisa.
Considerando a hipótese H₂, verifica-se que a variável ISE também apresentou significância no modelo. Todavia, sua relação com o valor de mercado ocorreu de forma negativa, o que demonstra que fazer parte da carteira ISE da B3 não é sinônimo de uma influência positiva no valor de mercado da empresa.
Félix, Granzotto e Sonza (2019) já haviam demonstrado em sua pesquisa a relação inversa entre a sustentabilidade e o desempenho, evidenciando que o maior gasto com responsabilidade social resultava em um menor desempenho. Ao buscar entender o resultado para hipótese H₂, é de grande valia lembrar que o impacto de tais medidas socioambientais não são facilmente identificáveis no presente ou a curto prazo, mas que repercutem em resultados futuramente.
Vital et al. (2009) também conseguiu expor em sua pesquisa que empresas não participantes do ISE têm um lucro superior em 20 vezes ao se comparar com empresas que compõem a carteira ISE, outras variáveis afetadas negativamente foram: o crescimento, a lucratividade, o endividamento, o EBITDA e a rentabilidade.
Entretanto, se relacionarmos junto com o índice de evidenciação de palavras ligadas aos ODS, a relação se torna significativa e positiva. Sendo assim, hipótese rejeitada com base no modelo se compararmos somente com o ISE, porém validada se relacionada junto com o índice de palavras.
Considerando por sua vez a hipótese H₃, destaca-se que o NGC possuiu uma modesta relação que se deu de forma positiva, todavia não gerou significância para o modelo.
Por não ter ocorrido significância, não é possível confirmar por meio deste estudo o que foi demonstrado por Nascimento et al. (2018), onde foi comprovada a existência de uma relação positiva entre governança corporativa e o valor da empresa.
Também não foi possível corroborar com Lima et al. (2015), o qual reforçou a concepção de que empresas que possuem um sistema de governança corporativa desempenham uma melhor performance. Logo, hipótese rejeitada.
Por fim, a hipótese H₄, a qual se refere ao nível de evidenciação dos ODS influenciando positivamente no desempenho de mercado, tem-se que o modelo não apresentou significância para a variável IE_Pal. A relação que ocorreu entre as duas
variáveis, dependente e independente, foi negativa, o que se traduz em um modelo em que a evidenciação de palavras ligadas aos ODS não resulta em um aumento do valor de mercado da empresa. Sendo assim, hipótese rejeitada.
A averiguação obtida nesta pesquisa vai de encontro com o que foi levantado por Fernández, Jara-Bertin e Pineaur (2015), visto que a divulgação de informações sobre práticas sociais e éticas não ocasionaram um impacto positivo no valor da empresa. Também faz contraposição com o exposto por Romero (2021), o qual retratava que empresas que assumem estratégias socioambientais obtém maior valor de mercado.
Aqui cabe ressaltar que o resultado diz respeito a um curto período de tempo, sendo que esta pesquisa não foi aplicada no longo prazo. Consequentemente, o resultado obtido diz respeito a uma análise de curto prazo, o que não comprova que, conforme mencionado por Simão (2022), a integração e o alinhamento dos ODS na atividade empresarial não seja, de fato, um instrumento de criação de valor a longo prazo.
Tabela 7 – Resultados encontrados para as hipóteses criadas no estudo
Hipótese Resultado
H₁ Validada
H₂
Rejeitada (somente considerando ISE) Validada (considerando a influência do ID_ODS)
H₃ Rejeitada
H₄ Rejeitada
Fonte: Dados da Pesquisa
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho teve como objetivo avaliar a influência dos ODS no desempenho de mercado das empresas de capital da [B]³. O estudo demonstrou que, entre as variáveis analisadas, a maioria está positivamente relacionada, havendo destaque para a relação entre o valor de mercado e o tamanho da empresa, sendo que, quanto maior o seu ativo, maior será o seu valor perante o mercado. Isso se constitui como um indicativo de que a percepção do público em relação à saúde e as perspectivas de crescimento de grandes empresas contribui para um maior valor atribuído a estas pelos compradores e vendedores.
Embora a medida de correlação seja bem menor se comparado com o ativo, o NGC também apresentou significância na relação positiva com o valor de mercado, o que sugere que, de fato, um nível elevado de governança corporativa pode aumentar a confiança dos investidores e dos stakeholders na empresa, o que, por sua vez, pode levar a uma avaliação mais alta do valor de mercado da empresa. Isso ocorre porque uma boa governança corporativa pode garantir que a empresa esteja sendo administrada de forma eficiente e ética, o que pode aumentar as perspectivas de crescimento e lucratividade a longo prazo. Por outro lado, empresas com baixos níveis de governança corporativa podem ser vistas como menos confiáveis e propensas a riscos, o que pode levar a uma avaliação mais baixa de seu valor de mercado.
Embora as preocupações com ESG estão ganhando importância entre os investidores, os quais estão procurando empresas que estejam comprometidas com questões como sustentabilidade, responsabilidade social e boa governança corporativa, o resultado do modelo indicou que fazer parte da carteira ISE, a qual é um indicador que avalia a performance de uma empresa em relação a questões ambientais, sociais e de governança, não gerou um maior valor de mercado. Isso invalida a terceira hipótese deste estudo e corrobora com os achados de Félix, Granzotto e Sonza (2019), demonstrando que há uma relação inversa entre sustentabilidade e desempenho, onde quanto maior o gasto com responsabilidade social, menor seria o desempenho destas organizações.
É importante ressaltar que essa pesquisa foi feita com dados de curto prazo e que o ISE foi criado em 2005. Além disso, existem muitas empresas que se preocupam mais com a sustentabilidade do que com o desempenho de mercado.
Essas organizações acreditam que é possível equilibrar a responsabilidade financeira com a responsabilidade social e ambiental, e que devem ser avaliadas de acordo com seu impacto social e ambiental, além de seu desempenho financeiro, buscando promover práticas empresariais mais responsáveis e éticas, essas organizações têm um papel importante na criação de um mundo mais sustentável, tendo grande representatividade os seus planos estratégicos de longo prazo, conscientes sobre os benefícios que as atividades socioambientais repercutem no longo prazo.
A pesquisa também possibilitou visualizar que as maiores posições no índice de evidenciação de palavras são ocupadas, na sua grande maioria, por empresas ligadas ao ramo de energia, o que significa que há um vasto campo para outros segmentos da indústria e comércio avançarem na publicação de relatórios com maior abordagem em ações relacionados aos ODS. Um ponto negativo percebido no decorrer da coleta de dados foi a diminuição do índice de evidenciação, o que pode ter ocorrido pela não identificação dos termos nos relatórios, ou por realmente haver uma redução expressiva na evidenciação. A atenuação da quantidade de palavras publicadas é um ponto de atenção para as organizações, que possuem participação na construção de um futuro mais sustentável.
No decorrer da pesquisa, houve exclusões de algumas empresas, anteriormente citadas, as quais, apesar da existência de seus relatórios de sustentabilidade, não constavam na Economática, não sendo possível operacionalizar com as suas variáveis, caracterizando-se como uma limitação de pesquisa. Outra limitação são as medidas escolhidas para avaliar o efeito, sendo que a sustentabilidade poderia ter sido medida por meio de outras maneiras.
Como sugestão de pesquisas futuras, é recomendado medir a relação entre as variáveis independentes com a variável valor de mercado em uma perspectiva de longo prazo, para constatar se as hipóteses rejeitadas nesse estudo são realmente refutadas em uma perspectiva de longo prazo.
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MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de metodologia científica. 7.ed. São Paulo: Atlas, 2010.