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Transformações de si no processo analítico

No documento Fania Goltsman Izhaki Transformações de si (páginas 158-190)

transicionalidade rompe com a oposição entre agir e simbolizar descrevendo um processo que funde a simbolização num processo perceptivo-motor. O jogar na terceira área do viver que persiste ao longo de toda a vida pressupõe motricidade corporal e a existência de objetos que, ainda que existam por si só e com suas características, devem estar disponíveis para serem apropriados em função do processo que está sendo vivido.

Até mesmo as palavras conservam esta característica de serem símbolos, mas também terem valor por sua própria materialidade. Não se pode esquecer que elas encarnam algo com sua plasticidade que está no som, na entonação e até mesmo no tipo de experiência vivida a que elas estão singularmente associadas. Isto nos conduz de volta à consideração de Ogden de que Winnicott escreve para ser lido “explorando o que a linguagem está fazendo em acréscimo ao que ela diz”

levando em conta que, como num poema, elas podem estar sendo consideradas como “uma simultânea compressão da linguagem e expansão do significado”

(Ogden, 2001:10). As conseqüências clínicas destas colocações parecem relevantes, pois nos levam à homofonia, às palavras –valise e sintoma que não exploraremos aqui.133

sempre uma forma de delimitar este tipo de ocasiões especiais no continuum extenso), mas também cultural porque em situações diferenciadas no tempo e no espaço, a terceira área do viver se institui em diferentes domínios. As possibilidades de usar este parêntese transgressor, esta “área de manobra” como a denomina Winnicott varia entre indivíduos e ocasiões.

A leitura coligada de Winnicott e Whitehead abre algumas possibilidades interessantes para pensar a psicanálise na contemporaneidade. Para Winnicott, “a psicanálise foi desenvolvida como uma forma altamente especializada de brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros. Precede ao brincar da criança forma natural de comunicar e de chegar a relacionamentos consigo mesmo e com os outros” (Winnicott, 1975:61). Por esta definição, o processo psicanalítico é um parêntese transgressor em relação ao viver cotidiano ou ao sonhar, co-criado pelo brincar do analista e do analisando.

Ele propõe que a psicoterapia se efetua na superposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta e que, nos casos em que o brincar é impossível ao cliente o terapeuta deve dirigir seu trabalho para capacitá-lo a brincar.

O atendimento analítico deve ocorrer em função das possibilidades do paciente na ocasião específica. O reconhecimento das situações analíticas em que o espaço intermediário está atuante, não se constituiu ou se dissolveu, dadas determinadas condições específicas do meio ambiente, é uma contribuição preciosa de Winnicott à psicanálise. Ela muda o brincar do analista, pois o leva a reconhecer que nem sempre é possível ao paciente transformar-se através de interpretações. Para viver uma experiência é necessário ter lugar para guardá-la, poder apropriar-se subjetivamente da realidade e poder viver uma experiência mútua em que o outro está separado de mim. Winnicott se diferencia radicalmente dos kleinianos quando afirma que o estarrecia pensar em quantas mudanças profundas havia impedido antes de descobrir que interpretar fora do momento adequado do processo produz submissão e que “Interpretar quando o paciente não tem capacidade para brincar, simplesmente é inútil, ou causa confusão” e que somente nas ocasiões em que

“existe um brincar mútuo, então a interpretação segundo os princípios psicanalíticos aceitos, pode levar adiante o trabalho terapêutico” (Winnicott, 1975:75).

Em certas condições, cabe ao analista recriar condições para que o espaço de superposição entre seu brincar e o do cliente possa simular o espaço potencial e que o cliente possa usá-lo de modo a transformá-lo num espaço intermediário,

primeiro dentro do consultório e com o analista e depois fora dele, com outras pessoas e em outras situações.

Lendo Winnicott com Whitehead, salientamos como ele enfatiza a permanente concrescência do self e o grau de autonomia em relação ao meio como variável diferenciadora na definição de apropriações e de domínios do continuum extenso bem como das transformações de si dentro e fora da clínica psicanalítica. Se pensarmos usando conceitos whiteheadianos, podemos dizer que as apropriações na contemporaneidade passam a ser feitas com menos concernimento, que a ligação do presente com o passado imediato e com o futuro imediato está permanentemente em cheque, que o nexus entre entidades e ocasiões se faz de forma frouxa. Pode-se inferir, também, que as relações possíveis entre diferentes indivíduos são menos intensas, alterando as possibilidades de se sentir real e, portanto, saudável.

Em O Brincar e a Realidade, Winnicott estava particularmente interessado na exposição de casos clínicos de pacientes em que algum acidente de percurso no âmbito da dependência absoluta ou relativa foi capaz de alterar o processo de concrescência e trazer sofrimento. Nesta parte do trabalho, discuto, ainda que exemplarmente, como a formalização proposta através das matrizes de apropriação e de domínio do continuum extenso pode contribuir para mostrar que as observações clínicas de Winnicott sobre os pacientes que persistiram na dependência apontam caminhos importantes em situações clínicas contemporâneas.

Winnicott expõe o “caso do barbante” como adendo ao primeiro capítulo de O Brincar e a Realidade para deixar bem claro como enquanto há indiferenciação entre o bebê e sua mãe, privações ou falta de contato levam a um “aumento de incerteza”

que pode fazer com que o objeto transicional se estabilize como fetiche.134 Winnicott considera este caso como de interesse especial por tornar possível o acompanhamento do desenvolvimento de uma perversão. Ele volta a ver o paciente depois de 14 anos e ele havia evoluído tanto para a impossibilidade de se separar da mãe quanto para a drogadição.

134 Freud define o fetichismo (1927) como “um signo de triunfo sobre a ameaça de castração e um meio de se proteger“, como um substituto do falo materno em que o menino acreditou e de que não está disposto a abrir mão. Freud (1938) considera fetichista aquele que mantém através de uma clivagem defensiva duas imagens opostas dos órgãos genitais femininos. Winnicott, mais uma vez, vai considerar o fetichismo como advindo de fase mais precoce considerando a dificuldade de separação, a adição ao objeto e sua reificação como podendo se originar antes da castração freudiana.

Neste caso, a própria mãe declara para Winnicott que, a seu ver, a “separação mais importante fora a perda dela quando estivera gravemente deprimida; não fora apenas o fato de ela se ter afastado, disse, mas sua falta de contato com ele por causa da inteira preocupação dela com outros assuntos”.(Winnicott, 1975:34) Winnicott se interessa pelo agir do menino face à situação que viveu. Para ele há um processo que vai da tentativa inicial de comunicar sua necessidade de manter a união que, não sendo ouvida, passa a ser exagerada em função de uma certa desesperança. Este processo pode chegar ao ponto em que o barbante passa a comunicar a negação da separação.

“Como negação, o cordão torna-se uma coisa em si, algo que possui propriedades perigosas e necessidades que precisam ser dominadas. Quando a esperança está ausente, o cordão representa uma negação da separação, surge então um estado de coisas muito mais complexo, um estado que se torna difícil de curar, por causa dos ganhos secundários oriundos sempre que um objeto tem que ser manuseado a fim de ser dominado“

(Winnicott, 1975:36).

Se pensarmos o caso a partir da matriz de apropriações e de domínios do continuum extenso conseguimos generalizar conclusões sobre sua importância contemporânea. A falta de contato com a mãe ambiente impossibilitou este menino de viver a justaposição o que o fez continuar privilegiando sinais nas relações com o meio. A comunicação por sinais que não pode ser ouvida e acolhida terminou por ocasionar a fetichização dos objetos como capazes de estabilizar o aniquilamento que vem com a separação.135 O tratamento de adictos como sujeitos para quem a droga sintetiza a negação da separação redimensiona o trabalho analítico com adictos para a área do restabelecimento da confiança e do contato numa relação em que se afirma a justaposição antes impossível.

Um segundo caso clínico apresentado por Winnicott sob o título “aspectos do fantasiar”, coloca a idéia da possibilidade de recuo no processo de concrescência.

Winnicott coloca como questão: o que acontece quando a relação com a mãe

135 Joyce Mc Dougall vem estudando este processo através da definição de objetos transitórios que permanecem como objetos de adição para aqueles que não puderam introjetar a função materna (Lehmann, 2003:252). Bollas estuda o mesmo processo através de outro ângulo quando define objetos transformacionais como aqueles que

“são buscados por sua função de transformação” ou a quem o adicto se entrega para que ele possa transformá-lo.

Bollas privilegia a falha do meio ambiente, em geral materna, que não permetiu que o modo de relação com o

permite formação de símbolos, mas, posteriormente, por quebra de confiança (mentira) passa-se a duvidar daquilo que os objetos e fenômenos transicionais estavam simbolizando. Ou seja, quando aquilo de que os objetos eram símbolos, a devoção e a confiabilidade da mãe não era real.

Está se falando aqui de uma situação em que se chegou à dependência relativa, mas as condições que permitiram a transição foram rompidas a posteriori.

Para Winnicott, nesta fase a presença da mãe como avalista do brincar ainda é crucial. Ainda se é só com a presença de outro. Sem esta presença ainda “perco a mim mesmo”. Então, valorizar o negativo é uma forma de não perder tudo. Nestes casos, a falta, a ausência, a morte e a amnésia podem ser a única coisa real que restou a ser valorizada. O tema da nostalgia, a valorização do ausente é corriqueira.

A relação entre a descrença naquilo que tinha valor e a valorização do negativo aparecem aqui como temas a serem explorados.

Para falar ainda dos aspectos do fantasiar e da diferenciação entre sonhar, fantasiar e viver, Winnicott apresenta um caso clínico em que a dissociação primária sob a forma de negação do ambiente imediato é usada como forma de defesa contra um ambiente que ocasionou uma completa desesperança em relação às possibilidades reais de intervenção e de ação. Jogos obsessivos e um fantasiar estéril substituem o agir e o sonhar. Se voltarmos às matrizes de apropriação e de domínio fica claro como não houve a oportunidade para a experiência amorfa136 e para os impulsos criativos, motores e sensórios, que constituem a matéria prima do brincar. A atuação analítica tem que, então, enfatizar ou, em certos casos, facilitar a ocorrência de atos criativos em que a realidade possa ser apropriada subjetivamente ou trabalhar sonhos aonde as coisas têm valor simbólico e, necessariamente, tem ligação com a realidade e com a vida. A perda do valor poético da vida pelo excessivo amoldar-se ao agir adaptativo que preside este caso clínico de Winnicott levanta questões clínicas extremamente contemporâneas.

Finalmente, quero trazer o caso clínico em que Winnicott falando com um paciente homem, ouve uma menina falar e explicita isto ao paciente. Neste caso, Winnicott funciona como “um derivado complexo do rosto que reflete o que há para

objeto se torna prioritariamente transicional. Para o desenvolvimento da relação entre a predominância do modo transformacional de relação com o objeto e o uso de drogas ver Souza (2002).

136 Para Winnicott a amorfia é “a experiência de um estado não-intencional, uma espécie de tiquetaquear, digamos assim, da personalidade não-integrada” (Winnicott, 1975:81).

ser visto” (Winnicott, 1975: 161) e permite ao paciente falar de uma mãe que o cuidava, bastante precocemente como menina o que fazia com que o paciente mantivesse, dissociado em seu ego, uma parte feminina. Quando Winnicott admite sua “loucura” de estar frente a uma mulher ainda que saiba que o paciente é homem, permite que o paciente, pela primeira vez perceba, que há uma peculiaridade nele que veio da peculiaridade materna ao cuidá-lo em criança.

Winnicott comentando esta experiência clínica chama atenção para o fato de que o que aqui há de novo não é nem a consideração da bissexualidade, nem o alto grau de dissociação que pode ser encontrado com respeito às identificações masculina e feminina. O ponto central para ele está no manejo da transferência e na tensão sobre os sentimentos contransferenciais produzida pela aceitação do papel atribuído. Segundo ele,

“Poder-se-ia dizer que o paciente se achava na busca do tipo certo de analista louco e que, a fim de atender às suas necessidades tive que assumir esse papel. É esse detalhe especial que considerei ser a parte importante do artigo, uma questão de manejo da transferência e a tensão sobre os sentimentos contransferenciais produzida pela aceitação do papel atribuído”

(Winnicott, 1994:148)137.

Winnicott, na transferência aceita ser o espelho que reflete a imagem que o paciente estava “pedindo” para ser refletida e que atualiza o modo como a mãe o via. Winnicott cita Francis Bacon138 para ilustrar seus argumentos. Ele afirma que nada conhece da vida privada do artista, mas adverte que

“... o trago à baila apenas porque ele força sua presença em qualquer debate atual sobre o rosto e sobre o self. Os rostos de Bacon parecem muito afastados da percepção do real; olhando para rostos, parece-me ele empreende um penoso esforço no

137 Cito o artigo “Os elementos masculinos e femininos ex-cindidos encontrados em homens e mulheres” que aparece publicado em Explorações psicanalíticas em sua versão integral enquanto uma versão parcial aparece em O brincar e a realidade ao capítulo “A criatividade e suas origens”.

138Pintor irlandês (1909-1992) que pinta recorrentemente o corpo e o rosto humano deformado em auto-retratos ou em retratos. Neles aparecem, com freqüência, espelhos. Além disso, o pintor gosta de usar vidro nas molduras de seus quadros de forma que o espectador veja seu rosto refletido no quadro.

sentido de ser visto, que está na base do olhar criativo”

(Winnicott, 1975:157).

Trazer Bacon à baila quando se trata de ver e ser visto me parece uma idéia genial de Winnicott, mas, ele simplifica as ponderações que faz sobre o autor fazendo psicanálise aplicada. Para ele, Bacon pinta o rosto humano significantemente deformado porque “está se vendo no rosto da mãe, mas com uma peculiaridade nele, ou nela, que enlouquece tanto a ele quanto a nós” (Winnicott, 1975:157). Proponho que se guarde a idéia sem procurar saber se ela se aplica a Bacon enquanto pessoa. O importante é chamar a atenção para o modo como o jogo de espelhos que aparece constantemente nos retratos pintados por Bacon, funciona para mostrar que um retrato para ser pintado precisa levar em conta as imagens refletidas por diversos espelhos. Bem como para o modo como Winnicott pode ser um espelho identificado ao olhar e cuidar que havia sido exercido pela mãe do paciente ao mesmo tempo em que denunciava uma falha fundamental no modo como este espelho gerava seus reflexos.

Winnicott nos ensinou a trabalhar estes casos em que a mãe ambiente falha seja por tratar um menino como menina, seja por ser caótica, seja por não suportar a força de vida em ação. Na transferência, ele explicita aquilo que falhou no objeto antes que a separação sujeito-objeto pudesse ser feita possibilitando ao sujeito reconhecer a falha no outro em vez de em si. Na contemporaneidade, os casos e as posturas clínicas propostas por Winnicott adquiriram uma importância ímpar. Com o brincar do analista e o do analisando, joga-se o interjogo entre separação e união, entre real e fictício, entre adaptação e criação, respeitando-se as experiências concretas passíveis de serem vividas pelos pacientes para que eles possam inventar a vida, dentro e fora do consultório.

O reconhecimento efetivo do pressuposto relacional, da coexistência de um objeto construído e de um objeto real, da prevalência do processual e da consideração da radicalidade da ocasião em processo no interjogo possível entre analisando e analista traz novas referências à psicanálise e ao trabalho psicanalítico.

A prática da psicanálise a partir da consideração dos pressupostos explicitados inviabiliza o uso de hipóteses teóricas fixas para tornar intelegível aquilo que se está passando no setting e tem como conseqüência a consideração mais radical de

nossos clientes em seu processo de tratamento. Isto me parece potencializar o interesse pelo uso das referências winnicottianas para nós, analistas de brasileiros.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Eu tenho paixão por pensar.

Mas não tenho medo que isto me prejudique porque inda tenho mais paixão pela vida.”

Mario de Andrade

Vivemos um cotidiano que institucionalizou a transição e a recriação permanente dos indivíduos e de suas práticas sociais. Neste contexto, a dualidade entre adaptação e liberdade ou entre aquiescência e criação, como a definiria Winnicott, torna-se questão primordial. Na psicanálise, não é diferente.

Parafraseando Duclo podemos dizer que hoje as transformações de si dentro dos consultórios devem se exercer, mais do que nunca, como invenção da liberdade dentro da legalidade. O psicanalista pode exercer sua liberdade inventiva, mas sempre levando em conta uma legalidade aberta que envolve, não só a consideração das regras que limitam os movimentos, mas a produção de possibilidades de ação a partir destas regras compatíveis com o processo analítico em curso.

É neste contexto que esta tese se originou. Compartilho da revalorização dos escritos de Winnicott tanto para a clínica quanto para a teoria psicanalítica numa época em que os indivíduos têm que conviver com a incerteza e a necessidade de transformação cotidiana. Mas, reconheço que ele é um autor cuja forma de escrever enfatiza as possibilidades de ação em detrimento da explicitação das regras do jogo em que está se apoiando. Isto pode levar a leituras ingênuas ou empobrecidas de seus escritos.

Nesta tese procurei explicitar como o tecer de teias entre os escritos de Winnicott e Whitehead leva-nos a um aprofundamento dos pressupostos e noções que podem potencializar a revalorização dos escritos winnicottianos. Ao longo do trabalho propus uma releitura das noções de criatividade e deleite, self, meio ambiente, vida, saúde e apropriação. Elas permitiram que chegássemos a apontar para uma redefinição metapsicológica. Por outro lado, a coligação dos escritos dos dois autores permite-nos uma leitura das transformações de si que enfatiza os processos de concrescência e transição, a diversidade de apropriações e o brincar.

Além das vantagens que estas colocações possam ter, por si só, parece importante salientar que elas permitem questionar leituras essencialistas, desenvolvimentistas

ou ingenuamente realistas dos textos de Winnicott assim como o espontaneismo e as posturas supostamente maternais na clínica.

Nestas considerações finais, achei relevante apresentar aos leitores um pequeno resumo do percurso feito ao longo do trabalho em três áreas específicas: a explicitação de pressupostos, a inovação metapsicológica e o estudo das transformações de si.

A afinidade de pressupostos “Um galo sozinho não tece uma manhã”

João Cabral de Melo Neto

A leitura coligada de Winnicott e Whitehead me permitiu avançar numa direção a que Winnicott costumava dar pouca relevância e que me parece fundamental para o aprofundamento de suas considerações clínicas ou intervenções teóricas: a explicitação de pressupostos. Destaquei a ênfase no processo e na experiência, o pressuposto relacional e o uso do método especulativo.

Whitehead constrói sua filosofia valorizando o processo em detrimento da natureza das coisas que perduram ou que se combinam para formar processos.

Ao longo da tese, mostramos como os escritos de Winnicott revelam uma aproximação com a filosofia do processo tanto através de opções lingüísticas - como o uso do infinitivo em vez de substantivos ao abordar o brincar ou o fantasiar -, quanto pela prioridade que concede aos processos quando define seus principais conceitos. Neles, o movimento, o processo em curso, as capacidades adquiridas através de um processo têm prioridade em relação ao estudo de coisas ou conceitos em si. A adoção do processualismo explica porque muitos conceitos winnicottianos variam ao longo do processo a que estão atrelados causando estranheza àqueles que estão acostumados em lidar com definições transcendentes.

Para falar de processo, Whitehead propõe que se passe a considerar que uma trajetória no tempo ou no espaço não varia unicamente com a localização espaço-temporal (princípio da localização simples), pois depende das relações estabelecidas no tempo e no espaço (pressuposto relacional). Este pressuposto afasta a subjetivação e a clínica das pré-determinações etárias, diagnósticas, desenvolvimentistas e conduz a uma posição em que regras e determinações

passam a ser usadas para a produção de possibilidades de ação. Em seus escritos e também em sua clínica, Winnicott produz possibilidades de ação, a partir das regras do jogo dos processos em curso.

Para Whitehead, a cada momento, há um certo continuum de tempo e espaço em que cada ocasião ou entidade existente afeta ou é afetada por uma rede de relações peculiar que ele denomina o real. O processo de realização depende da ocasião de experiência e do modo como cada entidade existente se apropria deste real. Cada apropriação se dá através de atos de experiência que rompem o contínuo extenso através de novas relações.

Para falar nas relações estabelecidas no tempo e no espaço, o filósofo cria a noção de preensão, como ocorrências em processo num mundo em eterna mudança sempre ligadas a uma situação concreta cujo padrão estrutural é a relação sujeito–

objeto. A preensão é uma experiência momentânea permeada, necessariamente, por um concernimento que faz com que tanto os seres quanto suas relações sejam valorativos. A preensão depende não só do corpo e de seus órgãos sensoriais, mas também das emoções, dos sentimentos, das crenças, dos usos e das ações associadas. É um ato de construção performativa em que se conjuga tudo aquilo que vive ativamente no presente independente de pertencer ao passado ou ao futuro.

Para Whitehead, a fusão do passado imediato e do futuro, enquanto antecedente, com o presente imediato se efetiva a cada experienciar. Ele chama a atenção como a experiência humana é peculiar uma vez que a herança dominante das ocasiões ligadas ao passado imediato, que apontam para a continuidade, são quebradas por outras avenidas que vêm da mútua imanência com a ocasião em processo, sejam elas sensações corporais, emoções ou relações entre entidades.

Neste experienciar, a continuidade temporal é continuamente rompida e por contiguidade.

Para Winnicott, a experiência também é uma ocorrência em processo que não pode ser considerada, separadamente, da situação concreta a que está ligada. Ele pensa a relação de objeto, em psicanálise, considerando sujeito e objeto sempre dependentes da ocasião em processo. Reconhece a existência de um sujeito ativo, promotor das apropriações ao longo de toda sua vida e diferencia as possibilidades deste sujeito em função de um desenvolvimento emocional que se diferencia por etapas que não se sucedem e nem dependem da passagem do tempo. Winnicott

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