• Nenhum resultado encontrado

O pressuposto relacional e a co-originação

2.2 Whitehead enquanto precursor de Winnicott

2.2.4 O pressuposto relacional e a co-originação

O sistema filosófico criado por Whitehead em Processo e Realidade também evidencia como o meio-ambiente e os organismos interagem e se co-originam e como esta co-originação se diferencia em função da apropriação que cada

hipótese, Dumoncel afirma que ele se diferencia de Bergson ainda que convergindo com ele. Vale a pena, aos interessados, consultar seu desenvolvimento deste tema em Searchig for New Contrasts, p. 125-128.

organismo faz e pode fazer do meio ambiente. Sherbourne75 faz uma leitura de processo e realidade em que destaca o caráter sistêmico da filosofia de Whitehead ao descrever a co-originação entre organismo e meio ambiente. Evidencia como cada entidade existente é formada por um processo de concrescência, tal como em Locke, e como cada entidade é uma célula que se apropria dos dados do mundo através de uma afetação. A filosofia do organismo é uma teoria celular da existência. Cada célula é exibida como se apropriando, para a fundação de sua própria existência, de vários elementos do universo do qual emerge. As apropriações são positivas e negativas. As positivas são incorporadas à entidade existente. As preensões negativas são excluídas deixando de contribuir para a constituição interna subjetiva. Uma entidade é a concrescência de suas apropriações. A entidade está sempre em processo, afetada pelos dados, causada.

Em consequência daquilo de que se apropria ou exclui, a entidade existente torna-se efeito do processo.

Phillip Rose aponta como, na filosofia de Whitehead, as ocasiões existentes (actual occasions) são as constituintes básicas da realidade. Elas podem ser vistas através de duas perspectivas: a macroscópica e a microscópica. Vista pela perspectiva macroscópica, cada ocasião existente está localizada num campo de relações estruturado temporalmente. Enquanto elementos sintetizadores ou centros auto-organizadores de relações, as ocasiões existentes são constituídas por relações objetivas antecedentes, contemporâneas e conseqüentes. Por outro lado, de uma perspectiva microscópica, cada ocasião existente é analisável em termos de um processo interno temporalmente estruturado de desenvolvimento individual.

Cada ocasião existente é macroscopicamente determinada por seu ambiente objetivo, e, também, microscopicamente determinada por sua própria atividade de autoconstrução enquanto um centro de síntese e auto-organização das relações herdadas. Como consequência, ela nunca é redutível às condições objetivas ou macroscópicas, pois há sempre alguma atividade microscópica de autoconstrução que entra para determinar seu caráter final. (Whitehead, 1985: 210)

75 Para maior aprofundamento ver SHERBURNE, Donald W. A key to Whitehead’s Process and reality Chicago: The University of Chicago Press,1981.

Cada ocasião existente tem, a cada momento, uma perspectiva relacional que lhe é peculiar. Afetar e ser afetado forma, então, uma rede de relações entre ocasiões existentes. Whitehead em Adventures of ideas afirma:

“O verdadeiro sentido da existência é ser um “fator de agenciamento” ou, em outras palavras, ”fazer diferença”. Então, ser algo é poder ser descoberto enquanto fator na análise de alguma existência. Segue-se que, em um certo sentido, tudo é

“real” de acordo com sua própria categoria de ser. Mas o termo

“realização” refere-se às entidades existentes que incluem a entidade em questão como um fator positivo nas suas constituições. Então, apesar de tudo ser real, pode-se não estar necessariamente realizado num determinado conjunto de ocasiões existentes. Mas, é necessário ser passível de ser descoberto em algum lugar para ser realizado como existência.” [tradução livre] (Whitehead, 1967a: 197)

A rede de relações entre ocasiões existentes é considerada por Whitehead como um continuum extenso no tempo e no espaço. Uma extensão passível de ser atomizada por uma ocasião ou uma entidade existente seja através de uma atividade teleológica de autoconstrução, seja através de sua consideração como causa eficaz no processo de autoconstrução de outra entidade. Este último tipo de relação faz com que mesmo entidades que já completaram seus processos microscópicos possam ainda estar incompletas no que diz respeito a sua inclusão no processo macroscópico, o que reafirma a persistência do passado e a indeterminação do futuro.

A partir da colocação reproduzida acima, feita em Adventures of ideas - que, coincidentemente, é o livro de Whitehead que Winnicott cita explicitamente como tendo lido - a frase em que ele afirma que “é uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser achado” (Winnicott, 1983:169) parece adquirir um sentido maior.

Não ser achado significa não poder se realizar enquanto fazendo diferença, sendo um fator de agenciamento para outros, o que se constitui num modo de ser real tão ou mais importante do que tomar outras entidades do mundo como relevantes para si.

Da localização simples à relatividade e à realização

Coerente com sua idéia de que filosofia e ciências devem caminhar juntas, Whitehead rompe com a física do século XVII que, com seu princípio da localização simples, propunha considerar a matéria ocupando uma região simples no espaço em um instante dado do tempo.76

Com isto, uma trajetória no tempo ou no espaço deixa de variar unicamente com a localização espaço-temporal e passa a depender de relações estabelecidas no tempo e no espaço. Como afirma Stengers:

Uma trajetória, longe de ser uma simples descrição do movimento, é um ser físico-matemático cuja definição depende das escolhas das variáveis de que a trajetória será função (Stengers, 2002:222).

Esta colocação acaba com qualquer determinismo espaço-temporal. Estar em dado lugar, em dado tempo ou com determinada idade não determina nada, pois tudo depende das relações que alguém estabeleça no tempo e no espaço. Como adverte Stengers, com a relatividade geral, a presença na terra é diferenciada através da estruturação espaço-temporal e não através da simples localização no tempo e no espaço.

A estruturação espaço-temporal é um processo interminável em que a continuidade daquilo que é potencial é sempre rompida tornando “o existente incuravelmente atômico” (Whitehead, 1985:61). Whitehead considera que, a cada momento, há uma série de relações entre ocasiões existentes no tempo e no espaço que pode ser abordada por uma perspectiva que inclua todas as possíveis relações, até mesmo aquelas contrárias entre si que ele chama de mero extenso continuum 77. Mas, que também pode ser abordado através daquelas relações que são reais potencialidades de relações para as entidades existentes que ele chama de real ou extenso contínuo. As entidades existentes atomizam o extenso continuo através de relações de preensão fazendo com que ele se concretize.

Whitehead pensava assim desde o capítulo sobre relatividade em Science and the Modern World (1926) quando ele considerava a relação entre potencialidade e realização. Quando a realização é pensada como concreção de uma

76 Ver terceiro capítulo de Science and Modern World para maior desenvolvimento desta idéia.

77 Extensive continuum porque estas relações são extensas, divisíveis e sem fronteiras.

potencialidade78 e como realidade em processo, o existente deixa de se situar

“dentro do tempo”, porque ele não pode ser caracterizado nem observado do exterior em referência a um tempo contínuo comum. O existente produz sua situação, faz uma época, exige uma duração para se dar.

“Na realização, a potencialidade se concretiza. Mas a estrutura potencial tem necessidade de uma duração e a duração tem que ser exibida como uma época através da realização de uma estrutura... A temporalização é realização. A temporalização não é um processo contínuo. É uma sucessão atômica”.

(Stengers, 2002:220)

Realização é um processo no qual atos do vir a ser implicam posições irredutíveis à dedução em relação a potencialidades que são irredutíveis a uma dedução. As leis deixam de ser causais e conservadoras. Não há funções capazes de definir o vir a ser. Whitehead chama a atenção como

“Há uma prevalente concepção errônea que vir a ser (becoming) envolve uma noção única de serialidade para que a novidade ocorra. Esta é a noção clássica de tempo, que a filosofia retirou do senso comum. A humanidade fez uma desafortunada generalização da experiência dos objetos que perduram”.[tradução livre] (Whitehead, 1985:35).

Quando o conceito de realização afirma sua relação como possibilidade e algo passa a ser, não pode haver continuidade do vir a ser, mas sim vir a ser da continuidade. Nas palavras de Whitehead:

“Enfim, o contínuo extenso do universo físico se constitui, em geral, para significar que há uma continuidade no vir a ser.

Mas, se nós admitimos que algo vem a ser, é fácil, empregando o método de Zeno, de provar de que não pode haver continuidade no vir a ser. Existe um vir a ser da continuidade, mas não uma continuidade do vir a ser. As ocasiões existentes são as criaturas que vem a ser e elas constituem um mundo continuamente extenso. Em outras palavras, extensividade vem

78 Rorty dedica sua tese de mestrado a analisar o conceito de potencialidade em Whitehead - Whitehead’s Use of the Concept of Potentiality. A. M. Thesis, University of Chicago, 1952.- e a de doutorado ao conceito de potencialidade - The Concept of Potentiality. Ph. D. Thesis, Yale University, 1956.

a ser, mas vir a ser não é, por si só, extenso” [tradução livre]

(Whitehead, 1985:35).

Os conceitos de potencialidade e de realização tal como considerados por Whitehead permitem que se defina processo através da diferença entre o potencial que adviria da realização daquilo que já estava colocado no passado, por transição e o vir a ser (becoming) que se realiza quando se leva em conta a concrescência da entidade existente. Em suas palavras:

“A noção de potencialidade é fundamental para o entendimento da existência, assim que a noção de processo é admitida. Se o universo for interpretado como realidade estática, então a potencialidade desaparece. Tudo é o que é. A sucessão é mera aparência advinda da limitação da percepção.

Mas se começamos com o processo como fundamental, então as existências do presente estão derivando suas características do processo e estão conferindo suas características ao futuro.

Esperança e medo, alegria e desilusão tiram seu significado das potencialidades essenciais na natureza das coisas.

Estamos seguindo uma trilha de esperança ou fugindo, com medo, dessa busca. As potencialidades nos fatos imediatos constituem as forças condutoras do processo” [tradução livre]

(Whitehead, 1968:99).

Duração

A consideração do fluxo das coisas e a relevância dada ao processo, ao tempo e à criatividade aproximam Whitehead de Bergson. Rose aponta para a influência de Bergson sobre Whitehead afirmando que a metafísica das ocasiões em processo de Whitehead é a atomização do princípio de duração de Bergson.

Breuvart (1996) ajuda-nos a entender esta afirmação. Por um lado, Whitehead aceita que “o conceito de duração, no sentido bergsoniano, permite compreender como se opera a articulação entre a continuidade do fluxo vital e a cristalização desse fluxo em um ponto dado da existência”. (Breuvart, 1996:47) Por outro lado, diferentemente de Bergson, confere à duração um caráter espacial e divisível, dada uma porção indivisível da duração realizada.

Whitehead se afasta de Bergson por se negar a trabalhar com a dicotomia inteligência e intuição que faz com que a abstração seja vista, por Bergson, como

uma deformação em si. Para ele, a abstração não é um erro a não ser que queiramos tomá-la como o concreto. A abstração é central no sistema filosófico de Whitehead: o concreto existe e é o que é, mas existem entidades abstratas que dele participam. A tarefa da filosofia é lidar com as entidades abstratas correlacionadas ao concreto. Whitehead cita Platão que procura as formas nos fatos sabendo que cada fato é mais do que a sua forma e que cada forma participa no mundo dos fatos.

(Whitehead, 1985:20) Como afirma Whitehead, “na filosofia do organismo não é a substância que é permanente, mas a forma. Formas se alteram com relações em mudança”. (Whitehead, 1985:29) É através de um esquema de categorias que Whitehead especula sobre a experiência concreta.

A abstração é, em sua concepção, simplesmente uma operação de construção que permite destacar no fluxo das experiências sensíveis, estruturas objetivas primordiais para a constituição da realidade. Mas, apesar do esquema categorial complexo que cria, Whitehead não reifica as abstrações, elas são sempre instrumento para dar conta da experiência. Não esqueçamos sua metáfora do avião que levanta vôo a partir da experiência e volta ao solo para, de novo conviver com ela.

A discordância de Bergson e Whitehead sobre a abstração conduz a visões bastante diversas do que seja espacialização. Bergson a vê como uma deformação nascida da inteligência humana e acusa a inteligência de dar à vida as características do espaço. Para Bergson, “a inteligência se aliena em seu outro que é a exterioridade e o faz por necessidade de ação, a fim de responder a solicitações externas” (Breuvart. 1996:51).

Whitehead, ao contrário, propõe que se dê ao espaço às características da vida isto é, que se considere na estruturação espaço-temporal, a intensidade emocional que caracteriza a vida. Rose explicita esta colocação quando afirma que no sistema de Whitehead, a realidade é definida em termos relacionais uma vez que todas as coisas são definidas por relações que se estabelecem como resposta positiva ou negativa a um dado estado de coisas:

“Definido a realidade em termos de uma estrutura relacional de respostas positivas e negativas, Whitehead nos proveu com uma perspectiva radical e muito nova para vermos a nós mesmos e o mundo. Este novo mundo dissolve a distinção

absoluta entre fatos e valores em favor de um mundo mergulhado em valores” [tradução livre] (Rose, 2002:2).

Para Whitehead, espaço e tempo são compostos de relações impregnadas de valores. “Afetar e ser afetado pelo mundo” é um fato primário da experiência que sempre pressupõe um sujeito que é afetado tanto pelo objeto da experiência quanto pelo meio ambiente em que se encontra, mas que se constitui singularmente pela forma como se deixa afetar. No sistema de Whitehead, as entidades existentes através de suas preensões constituem ocasiões existentes de experiência (actual occasions of experience) que estabelecem divisões em um mundo de potencialidades reais.

Desde o capítulo sobre relatividade em Science and the Modern World,, Whitehead descreve processo através da consideração da diferença entre o potencial e o vir a ser. Em Processo e realidade, ele associa a duração ao “ato de experiência” através do qual uma atualidade rompe as determinações da potencialidade do continuum extenso. Considera que os atos de experiência são discretos e indivisíveis, apoiando-se em William James quando afirma que “O inteirar-se da realidade, o conhecer, cresce literalmente por florescimento ou num gota a gota de percepções. Intelectualmente ou na reflexão, pode-se dividi-los em componentes, mas como dado imediato ou elas vêm como totalidade ou não vêm”

(Tradução livre)79.

Para Whitehead, a articulação entre continuidade do fluxo vital e a cristalização desse fluxo em um dado ponto é operada por ocasiões de experiência que conferem à duração um caráter espacial e divisível, rompendo as determinações da potencialidade. Para ele, “cada ato do vir a ser é o vir a ser de algo com extensão, mas o ato, em si é inextenso” (Whitehead, 1985:69).

Afinidades com Winnicott

Na filosofia de Whitehead, as ocasiões existentes são as constituintes básicas da realidade. Cada ocasião existente é macroscopicamente determinada por seu ambiente objetivo, e, também, microscopicamente determinada por sua própria

79 Esta citação de James provém do capítulo X do livro Some problems of philosophy e foi citada por Stengers (2002).

atividade de autoconstrução enquanto um centro de síntese e auto-organização das relações herdadas. Como conseqüência, ela nunca é redutível às condições objetivas, pois há sempre alguma atividade de autoconstrução que contribui para determinar seu caráter final. Cada ocasião existente tem, a cada momento, uma perspectiva relacional que lhe é peculiar. Afetar e ser afetado forma, então, uma rede de relações entre ocasiões existentes que é considerada como um continuum extenso no tempo e no espaço. Uma extensão passível de ser atomizada por uma ocasião ou uma entidade existente seja através de uma atividade teleológica de autoconstrução, seja através de sua consideração como causa eficaz no processo de autoconstrução de outra entidade, conforme já mencionamos.

Quando se leva em conta o pressuposto relacional definido por Whitehead, passa-se a valorizar as relações entre organismo e meio ambiente ou, entre sujeito e realidade, rompendo-se com a divisão estrita de processos internos e externos que isolava processos relativos a sujeitos e organismos como internos e os relativos ao meio ambiente e realidade como externos. Winnicott, afetado pelo darwinismo, se propõe a dar relevância ao meio ambiente em suas análises. O que fica claro, para nós, a partir do que expusemos nos capítulos precedentes é que sua forma de levar em conta o meio ambiente é adotando, como Whitehead, um pressuposto relacional.

Ogden80 vem trabalhando na forma que Winnicott escolheu para comunicar suas idéias. Chama a atenção para o estilo poético de Winnicott em que a condensação de idéias de modo alusivo e, até certo ponto espontânea, é freqüentemente usada.

Uma das frases que ele analisa é aquela em que são introduzidas as idéias de relação de uso, de encontro e do que é viver a vida: "Estes dois fenômenos [o bebê com ímpetos e idéias predatórias e a mãe com ímpetos de ser atacada por um bebê faminto] não entram em relação um com o outro até que a mãe e a criança vivam uma experiência conjunta” (Winnicott. 1993: 279).

Para ele, esta frase sugere, ainda que Winnicott na época não tivesse consciência disso, uma transformação da teoria e das relações terapêuticas em psicanálise que coloca o pressuposto relacional em primeiro plano. Ogden analisa a expressão “viver juntos uma experiência” como aquela que condensa esta transformação:

80Ogden, T. H. (2001). Reading Winnicott. Psychoanalytic Quarterly, 70: 299-323. Este artigo também está disponível on line em Psyche Matters ou em português na Revista Brasileira de Psicanálise vol.36, n4, 2002.

a expressão viver uma experiência juntos torna a frase digna de nota. A mãe e a criança não “tomam parte em, ”partilham”,

”participam de” ou “entram em” uma experiência juntos...Nesta passagem, o modo específico como Winnicott usa a linguagem é critico para a natureza dos sentidos que estão sendo gerados. Na frase “viver uma experiência juntos” viver é um verbo transitivo e a experiência é seu objeto.Viver uma experiência é fazer algo sobre alguém ou alguma coisa (tanto quanto atingir uma bola é fazer algo à bola); é o ato de infundir vida à experiência. A experiência humana não tem vida até que a vivamos (em oposição a tê-la do jeito operacional). A mãe e a criança não atingem a relação uma com a outra até que cada uma possa fazer algo para experienciar -isto é, vivê-la juntas, não simplesmente ao mesmo tempo, mas vivendo a experiência levando em conta simultaneamente aquilo que está experienciando e respondendo aos atos do estar vivo do outro enquanto alguém separado de si [tradução livre]

(Ogden,2002:749)

Ogden apontou para a mudança de pressupostos em seu nascedouro.81 Ao priorizar o relacional - a experiência humana não tem vida até que a vivamos juntos, Winnicott mudava a perspectiva da teoria psicanalítica.

Já salientamos como a metapsicologia winnicottiana é fundamentalmente relacional. Sob o ponto de vista econômico, a força vital inaugural característica do organismo humano logo é modificada pela interação com o mundo que a cerca.

Além disso, Winnicott sistematiza um percurso de desenvolvimento emocional que vai da dependência absoluta a uma independência relativa em relação ao meio ambiente. Em termos dinâmicos, considera as possibilidades de quebras de continuidade tanto em termos daquilo que vem do meio ambiente para o organismo quanto em termos do modo como o organismo vai poder reagir a elas, apontando para uma adesão inconteste à interação organismo meio ambiente. Por fim, é na contínua ligação e re-ligação com o meio ambiente que se fundamenta a importância que a terceira área do viver adquire para a teorização winnicottiana.

Por outro lado, se relacionarmos a expressão - viver uma experiência conjunta - com o conceito de nexus de Whitehead, ganhamos bastante na compreensão do relacionar-se em Winnicott. Um nexus é um conjunto de entidades

81 Para Ogden, viver juntos não é uma experiência de viver no mesmo tempo, mas, sim, uma experiência de mutualidade que pressupõe empatia com a experiência vivida pelo outro e resposta a ela. Winnicott, como veremos depois, diferencia o viver junto na dependência absoluta, na dependência relativa e na independência relativa.

existentes consideradas na unidade das relações constituídas pelas preensões de cada uma ou, alternativamente, pela objetificação de uma na outra.

Ao considerarmos o bebê e sua mãe sabemos que o bebê considerado por Winnicott, inicialmente, como uma unidade biológica tem formas limitadas de preender seu ambiente. Ainda que a mãe o preenda como um bebê que demanda e até que deseja, há um total afastamento do modo como ele é considerado pela mãe e o modo como ele consegue preender o mundo. A unidade das relações constituídas pelas preensões de cada um que constitui o nexus entre os dois tem, neste caso, uma característica bastante especial em que a mãe como adulta tem que estar disponível para este tipo de relação.

Ao longo do processo de subjetivação e ao longo da vida de cada um, as relações também podem ser mais bem compreendidas se enfatizamos o conceito de nexus na medida em que ele prioriza o conjunto formado pelas apreensões singulares em um dado encontro. Com o conceito de nexus, a cada encontro entre duas entidades existentes, preensões singulares são tomadas como tal, isto é, como um conjunto entre um e o outro está sempre sendo formado por dois no momento presente.82 Como veremos a seguir, este encontro é diferenciado no caso de pessoas que estabelecem relações enquanto pessoas justapostas, pessoas que formam um conjunto ou pessoas que formam um conjunto disjunto.

Por fim, uma afinidade entre Winnicott e Whitehead também pode ser reconhecida na consideração da atomicidade, dos atos de experiência que rompem o continuum extenso criando concrescências o que veremos com detalhes nos próximos capítulos.

Neste capítulo, fiz um recorte didático da teoria de Whitehead procurando destacar o que podia caracterizá-lo enquanto precursor de Winnicott. Procurei reunir elementos para, nos próximos, fazer a teoria de Winnicott “gravitar em torno da estrutura de categorias proposta por Whitehead” (Riffert & Weber, 2003:9) esperando que, com esta interação possamos chegar a aprofundamentos na teoria winnicottiana.

É preciso salientar que a difusão de Whitehead dentro da própria filosofia foi limitada e descontínua. Por um lado, o modo como ele expõe suas idéias parece

82 O conceito de nexus é interessante para afastar de vez a terapia winnicottiana das terapias baseadas na co- vivência, pois salienta o modo como a identificação com o outro é sempre relativa na medida em que parte de uma preensão singular que não se mantém quando se considera o conjunto entre um e o outro que está sempre sendo formado por dois no momento presente.