1. Introdução
1.4 Tratamento da hipersensibilidade dentinária
A fim de determinar um tratamento apropriado e eficaz, é fundamental chegar a um diagnóstico correto para a hipersensibilidade dentinária. Um diagnóstico definitivo é geralmente alcançado através da exclusão de outras condições que necessitam de variedades de opções de tratamento. Qualquer condição que cause exposição da dentina, hiperemia da polpa dentária, sensibilização do nervo dentário e neuropatia pode induzir dores curtas e agudas, mesmo com apenas um pequeno estímulo (23).
Antes de serem consideradas quaisquer estratégias de tratamento, é importante saber que existem grupos de indivíduos cujo risco de desenvolvimento desta condição é maior, nomeadamente pacientes submetidos a tratamento periodontal, bulímicos, que sofram de xerostomia, consumidores regulares de comidas ou bebidas com maior teor acídico, pacientes com recessões gengivais, que realizem uma escovagem mais energética ou agressiva e consumidores de tabaco de mascar (24).
A partir deste diagnóstico inicial, podem ser eliminadas ou tratadas algumas causas da HD, que não exijam os tratamentos tradicionais (24,29). Isto envolve, primeiramente, uma instrução e motivação para uma correta higiene oral diária, com a técnica adequada e sem pressões excessivas, o conhecimento dos momentos certos para realizar a escovagem, um aconselhamento nutricional sobre os alimentos e bebidas que podem predispor ou aumentar uma situação de HD, entre outros conselhos adaptados a cada paciente (24,29,30).
Por outro lado, se estiver presente uma patologia que provoque erosão do esmalte, o paciente deve ser encaminhado para um médico gastrenterologista de forma a minimizar o avanço dessa condição (30).
Segundo o estudo clássico de Grossman (64), os produtos destinados ao tratamento da HD devem cumprir determinados requisitos que ainda hoje são válidos na escolha destes agentes, como: ser indolores, de fácil aplicação e ação rápida, ter efeito a longo
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termo, ser biocompatíveis, isentos de reações pulpares adversas e não podem alterar a cor da estrutura dentária.
Os agentes utilizados para a HD são classificados em dois grupos conforme o modo de administração: produtos de uso em ambulatório pelo paciente e produtos de aplicação profissional usados em consultório (65). A maioria destes agentes são compostos dessensibilizantes e visam bloquear os túbulos dentinários abertos, diminuindo ou cessando completamente a dor provocada pela condição (46).
Os métodos de aplicação pelo paciente são simples, acessíveis e mais direcionados para a HD generalizada (24,29,66,67), por outro lado, os tratamentos profissionais são mais complexos e indicados usualmente para a HD localizada ou persistente/refratária (24,65).
A vantagem dos produtos de aplicação profissional em consultório é o seu efeito instantâneo, contudo pode ser gradualmente eliminado por efeitos de erosão-abrasão, expondo os túbulos dentinários, não sendo a opção ideal a longo prazo. Tendo isto em conta, a solução ideal para o tratamento eficaz da HD é a exposição frequente a produtos contendo os ingredientes ativos responsáveis pelo bloqueio dos túbulos.
A utilização de dentífricos é uma opção conveniente para permitir a exposição frequente aos princípios ativos (65). Atualmente, existem muitos dentífricos disponíveis no mercado que afirmam ter um efeito dessensibilizador.
Os compostos fluoretados, como o fluoreto de sódio, o fluoreto de cálcio e o fluoreto de estanho, podem ter efeito na redução da permeabilidade dentinária através da deposição do agente ativo nos túbulos dentinários (24,31). Estudos feitos por Ladalardo (67) e Pereira (68) sugerem que a precipitação de fluoreto de cálcio (CaF2) ocorre através do contacto com a superfície dentária mineralizada, e estes cristais sendo bastante instáveis dissociam-se pouco tempo após a sua formação, fazendo com que o efeito barreira dos fluoretos seja transitório, apesar de não existirem dados fundamentados sobre a longevidade deste tratamento. Uma vez que estes compostos formam apenas pequenas quantidades de fluorapatite, são necessárias várias aplicações por um longo período para que se obtenha um efeito significativo na redução da HD (69).
Existe ainda um estudo (68) que comparou a permeabilidade dos túbulos dentinários após tratamento com géis de fluorofosfato acidulado a 1,23% a géis de 3% e
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6% de oxalato de potássio, e concluiu que os géis de oxalato de potássio mostraram resultados significativamente mais eficazes quando comparados com o gel de flúor.
Novamin® é o nome comercial dado ao composto fosfossilicato sódico de cálcio, um vidro bioativo desenvolvido nos últimos anos para o tratamento da HD (70). Quando introduzido em ambiente oral, o material liberta iões sódio, cálcio e fosfato, que interagem com os fluidos orais e resultam na formação de uma camada cristalina semelhante à estrutura dentária, quer a nível estrutural como químico, constituída por hidroxicarbonato apatita (HCA) (70,71). Quando incorporadas em dentífricos, as partículas de Novamin®
depositam-se na superfície dentinária e ocluem mecanicamente os túbulos (72).
Os oxalatos, tal como os compostos fluoretados, atuam pela deposição de cristais na superfície e/ou interior dos túbulos dentinários (29). Embora haja pouca evidência clínica do efeito dos oxalatos (24,33), diversos autores (68,73,74) defendem a sua eficácia em estudos in vitro, apresentando uma redução da permeabilidade de cerca de 98% (73), e ao aplicar oxalato de potássio a 3%, este demonstra-se eficaz após procedimentos como o alisamento radicular (73).
Um estudo realizado por Pereira (68) determinou que, para além de um efeito eficaz na redução da permeabilidade, os oxalatos mostraram-se insolúveis em ácidos, podendo desta forma ter um efeito mais prolongado quando em ambiente oral sujeito a constantes ataques ácidos.
Por outro lado, existem também autores (28,33) que refutam os dados anteriormente mencionados, demonstrando que os oxalatos não reduzem de forma significativa a HD e que os cristais formados são removidos facilmente pela escovagem diária.
Adicionalmente, a utilização dos oxalatos deve ser cuidadosa devido à toxicidade associada a estes compostos, podendo originar problemas gástricos (29,31).
A arginina caracteriza-se por ser um aminoácido presente na saliva que tem sido associado ao carbonato de cálcio em dentífricos. A saliva transporta cálcio e fosfato presentes na proximidade dos túbulos dentinários, induzindo a oclusão dos mesmos – este processo é favorecido por um pH alcalino (34). Deste modo, a arginina vai aumentar o pH da superfície dentinária e facilitar a ligação dos iões cálcio e fosfato aos túbulos dentinários, possibilitando a obliteração dos mesmos (34). Quando este produto é aplicado na dentina exposta tem a capacidade de formar uma camada de arginina, cálcio, fosfato e carbonato, resistente à pressão pulpar e a mudanças ácidas, que pode influenciar a
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obstrução dos túbulos dentinários, e consequentemente a permeabilidade dentinária e sintomatologia dolorosa (75).
O efeito remineralizador dos fosfopeptídeos de caseína com fosfato de cálcio amorfo (CPP-ACP) tem sido estudado nos últimos anos.
O CPP-ACP deriva do leite de vaca e parece reduzir o processo de desmineralização, tornando os tecidos mais resistentes à erosão e potenciando a remineralização (76,77). Este composto atua modulando a biodisponibilidade dos iões cálcio e fosfato, provocando uma precipitação rápida de cristais de fosfato de cálcio na superfície e interior dos túbulos dentinários (73).
Porém, a eficácia deste componente enquanto tratamento da HD não está comprovada, porque enquanto existem estudos que defendem a sua ação na remineralização do esmalte e redução da HD (76), também potenciada com a aplicação conjunta de fluoretos (77), outros concluem que o efeito do CPP-ACP no tratamento da HD é insuficiente e são necessários mais estudos (78).
Num estudo realizado em 2020 (79), a maioria dos dentífricos apresentaram melhores resultados do que placebo ou os sais de flúor (fluoreto de amina, monofluorfosfato de sódio ou fluoreto de sódio) no tratamento de todas as formas de hipersensibilidade dentinária. O estrôncio e o potássio mostraram uma eficácia moderada para a estimulação tátil e a arginina para a estimulação por ar. O potássio combinado com SnF2 ou hidroxiapatite foi eficaz para estimulação táctil e de frio.
De todos os agentes, o Novamin foi considerado o mais eficaz para os três estímulos. As preparações à base de SnF2 também parecem ser mais eficazes do que as pastas de dentes com flúor convencionais no tratamento de estímulos tácteis e induzidos pelo ar (79). Os dentífricos com Novamin em concentrações de 2,5% a 7,5% parecem ser os mais eficazes (80).
Uma vez que uma parte dos produtos existentes no mercado para aplicação pelo paciente têm um caráter temporário, existem materiais com maior potência e mais aderentes que permitem uma ação dessensibilizante prolongada e melhorada (24,29), para além de terem uma ação imediata (31).
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Estes materiais, aplicados profissionalmente, formam uma smear layer artificial que permite a selagem dos túbulos dentinários, reduzindo a HD (29,31,34). Geralmente apresentam-se em formato de resinas compostas e adesivos dentinários, ou vernizes.