2‐ OS SENTIDOS DE UM TEXTO
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manicômio. Como você interpreta esse incêndio? O que ele poderia significar para o desenrolar da narrativa?
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Passou uma hora, subiu a lua, a fome e o temor afastam o sono, ninguém dorme nas camaratas. Mas esses não são os únicos motivos. Ou seja por causa da excitação da recente batalha, ainda que tão desastrosamente perdida, ou por algo indefinível que percorrera o ar, os cegos estão inquietos. Ninguém se atreve a sair para os corredores, mas o interior de cada camarata é como uma colmeia só povoada de zângãos, bichos zumbidores, como se sabe, pouco dados à ordem e ao método, não há registo de alguma vez terem feito pela vida ou de se preocuparem, um mínimo que fosse, com o
futuro, ainda que no caso dos cegos, infeliz gente, seria injusto acusá‐los de aproveitadores ou de chupistas, aproveitadores de que migalha, chupistas de que refresco, há que ter cuidado com as comparações, não vão elas sair levianas. Porém, não há regra que não tenha a sua excepção, e esta não faltou aqui, na pessoa de uma mulher que, mal entrou na camarata, a segunda do lado direito, se pôs a remexer nos seus trapos até encontrar um pequeno objecto que apertou na palma da mão, como se o quisesse esconder da vista dos outros, os velhos hábitos custam a esquecer, mesmo quando chega um momento em que já os julgávamos de todo perdidos. Aqui, onde deveria ter sido um por todos e todos por um, pudemos ver como cruelmente tiraram os fortes o pão da boca aos débeis, e agora esta mulher, tendo‐se lembrado de que trouxera um isqueiro na malinha de mão, se em tanto desconcerto o não perdera, foi ansiosamente por ele e ciosamente o está a esconder, como se fosse condição da sua própria sobrevivência, não pensa que talvez um destes seus companheiros de infortúnio tenha por aí um último cigarro, que não pode fumar por lhe faltar o pequeno lume necessário. Nem já iria a tempo de pedi‐lo. A mulher saiu sem dizer palavra, nem adeus, nem até logo, segue pelo corredor deserto, passa rente a porta da primeira camarata, ninguém de dentro deu por ela ter passado, atravessa o átrio, a lua descendo traçou e pintou um tanque de leite nas lajes do chão, agora a mulher está na outra ala, outra vez um corredor, o seu destino é ao fundo, em linha recta, não tem nada que enganar. Além disso, percebe umas vozes a chamá‐la, maneira só figurada de dizer, o que lhe chega aos ouvidos é a algazarra dos malvados da última camarata, estão a festejar o vencimento da batalha comendo do bom e bebendo do fino, passe o exagero intencional, não esqueçamos que tudo na vida é relativo, comem e bebem simplesmente do que há, e viva o velho, bem gostariam os outros de meter‐lhe o dente, mas não podem, entre eles e o prato há uma barricada de oito camas e uma pistola carregada. A mulher está de joelhos à entrada da camarata, mesmo junto às camas, puxa devagar os cobertores para fora, depois levanta‐se, faz o mesmo na que está por cima, ainda na terceira, à quarta não lhe alcança o braço, não importa, os rastilhos estão preparados, agora é só atear‐lhes o fogo. Ainda se recorda de como deverá regular o isqueiro para produzir uma chama comprida, já aí a tem, um pequeno punhal de lume, vibrante como a ponta duma tesoura. Começa pela cama de cima, a labareda lambe trabalhosamente a sujidade dos tecidos, enfim pega, agora a cama do meio, agora a cama de baixo, a mulher sentiu o cheiro dos seus próprios cabelos chamuscados, deve ter cuidado, ela é a que deita fogo à pira, não a que nela deve morrer, ouve os gritos dos malvados lá dentro, foi nesse momento que pensou, E se eles têm água, se vão conseguir apagar, desesperada meteu‐se debaixo da primeira cama, passeou o isqueiro ao comprido do colchão, aqui, além, então de repente as chamas multiplicaram‐se, transformaram‐se numa única cortina ardente, um jorro de água ainda passou através delas, foi cair sobre a mulher, porém inutilmente, já era o seu próprio corpo o que estava a alimentar a fogueira. Como vai aquilo lá por dentro, ninguém pode arriscar‐se a entrar, mas a imaginação para alguma coisa nos há‐de servir, o fogo anda a saltar velozmente de cama em cama, quer deitar‐se em todas ao mesmo tempo, e consegue‐o, os malvados gastaram sem critério nem proveito a pouca água que ainda tinham, tentam agora alcançar as janelas, mal equilibrados sobem às cabeceiras das camas a que o fogo ainda não chegou, mas de repente o fogo já lá está, eles resvalam, caem, e o fogo já lá está, com a ardência do calor as vidraças começam a estalar, a estilhaçar‐se, o ar fresco entra silvando e atiça o incêndio, ah,
sim, não estão esquecidos, os gritos de raiva e medo, os uivos de dor e agonia, aí fica feita a menção, note‐se, em todo o caso, que irão sendo cada vez menos, a mulher do isqueiro, por exemplo, está calada há muito tempo.
A estas alturas já os outros cegos estão a fugir espavoridos para os corredores cheios de fumo, Há fogo, há fogo, gritam, e aqui se pode observar ao vivo como têm sido mal pensados e organizados estes ajuntamentos humanos de asilo, hospital e manicómio, repare‐se em como cada um dos catres, só por si, com a sua armação de ferros bicudos, pode tornar‐se em uma mortal armadilha, vejam‐se as consequências terríveis de haver uma só porta em camaratas que levam quarenta pessoas, fora as que dormem no chão, se o fogo chega lá primeiro e lhes tapa a saída, não escapa ninguém. Felizmente, como a história humana tem mostrado não é raro que uma coisa má traga consigo uma coisa boa, fala‐se menos das coisas más trazidas pelas coisas boas, assim andam as contradições do nosso mundo, merecem umas mais consideração do que outras, neste caso a boa coisa foi precisamente terem as camaratas uma única porta, graças a isto é que o fogo que queimou os malvados se demorou por lá tanto tempo, se a confusão não se tornar maior, talvez não tenhamos que lamentar a perda doutras vidas. Evidentemente, muitos destes cegos estão a ser pisados, empurrados, esmurrados, é o efeito do pânico, um efeito natural, pode‐se dizer, a natureza animal é mesmo assim, também a vegetal se comportaria de igual maneira se não tivesse todas aquelas raízes a prendê‐la ao chão, e que bonito seria poder ver as árvores do bosque a fugir ao incêndio. O refúgio da parte interior da cerca foi bem aproveitado por cegos que tiveram a idéia de abrir as janelas existentes nos corredores e que davam para ela. Saltaram, tropeçaram, caíram, choram e gritam, mas por ora estão a salvo, tenhamos esperança de que o fogo, quando fizer desmoronar‐se o telhado e atirar por ares e ventos um vulcão de labaredas e tições a arder, não se lembre de propagar‐se às copas das árvores. Na outra ala o medo anda pelo mesmo, a um cego basta cheirar‐lhe a fumo e logo imagina que o lume está mesmo ao lado dele, o que não será sendo verdade, em pouco tempo o corredor ficou entupido de gente, se não houver quem ponha alguma ordem nisto, vamos ter tragédia. Num momento alguém se recorda de que a mulher do médico ainda tem uns olhos que vêem, onde está ela, pergunta‐se, ela que nos diga o que se passa, por onde deveremos ir, onde está, estou aqui, só agora é que consegui sair da camarata, a culpa foi do rapazinho estrábico que ninguém conseguia saber onde tinha se metido, agora já está aqui, agarro‐o com força pela mão, teriam de arrancar‐me o braço para que eu o largasse, com a outra mão seguro a mão do meu marido, e depois vem a rapariga dos óculos escuros, e depois o velho da venda preta, onde está um está outro, e depois o primeiro cego, e depois a mulher dele, todos juntos, apertados como uma pinha, que, espero bem, nem este calor há‐de abrir. Entretanto uns quantos cegos daqui tinham seguido o exemplo dos da outra ala, saltaram para a cerca interior, não podem ver que a maior parte do edifício do outro lado é já uma fogueira, mas sentem na cara e nas mãos o bafo ardente que vem de lá, por enquanto o telhado ainda se agüenta, as folhas das árvores vão‐se encarquilhando devagar. Então alguém gritou, Que é que estamos aqui a fazer, por que é que não saímos, a resposta, vinda do meio deste mar de cabeças, só preciso de quatro palavras, Estão lá os soldados, mas o velho da venda preta disse, Antes morrer de um tiro que queimados, parecia a voz da experiência, por isso talvez não tenha sido propriamente ele a falar, talvez pela boca dele tenha falado a mulher do isqueiro, que não teve a sorte de ser apanhada por uma última bala disparada pelo
cego da contabilidade. Disse então a mulher do médico, Deixem‐me passar, vou falar aos soldados, eles não podem deixar‐nos morrer assim, os soldados também têm sentimentos. Graças à esperança de que os soldados tivessem de facto sentimentos, pôde abrir‐se no aperto um estreito canal, por onde a mulher do médico avançou com dificuldade levando atrás de si os seus. O fumo tapava‐lhe a visão, em pouco tempo estaria tão cega como os outros. No átrio mal se podia romper. As portas que davam para a cerca tinham sido rebentadas, os cegos que ali se haviam refugiado aperceberam‐se rapidamente de que o sítio não era seguro, queriam sair, empurravam, mas os do outro lado resistiam, faziam finca‐pé conforme podiam, por enquanto neles ainda era mais forte o medo de aparecerem à vista dos soldados, mas quando as forças cedessem, quando o fogo se aproximasse, o velho da venda preta tinha razão, mais valeria morrer de um tiro. Não foi preciso esperar tanto, a mulher do médico conseguira enfim sair para o patamar, praticamente vinha meio despida, por ter ambas as mãos ocupadas não se pudera defender dos que queriam juntar‐se ao pequeno grupo que avançava, apanhar, por assim dizer, o comboio em andamento, os soldados iam ficar de olho arregalado quando ela lhes aparecesse pela frente com os seios meio descobertos. Já não era o luar que iluminava o espaço amplo e vazio que ia até ao portão, mas o clarão violento do incêndio. A mulher do médico gritou, Por favor, pela vossa felicidade, deixem‐nos sair, não disparem. Ninguém respondeu de lá.
O holofote continuava apagado, nenhum vulto se movia. Ainda a medo, a mulher do médico desceu dois degraus, Que se assa, perguntou o marido, mas ela não respondeu, não podia acreditar. Desceu os restantes degraus, caminhou em direcção ao portão, puxando atrás de si o rapazinho estrábico, o marido e companhia, já não havia dúvidas, os soldados tinham‐se ido embora, ou levaram‐nos, cegos também eles, cegos todos por fim.
Então, para simplificar, aconteceu tudo ao mesmo tempo, a mulher do médico anunciou em altas vozes que estavam livres, o telhado da ala esquerda veio‐se abaixo com medonho estrondo, esparrinhando labaredas por todos os lados, os cegos precipitaram‐se para a cerca gritando, alguns não conseguiram, ficaram lá dentro, esmagados contra as paredes, outros foram pisados até se transformarem numa massa informe e sanguinolenta, o fogo que de repente alastrou fará de tudo isto cinzas. O portão está aberto de par em par, os loucos saem. (p. 205‐210) .