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2‐ OS SENTIDOS DE UM TEXTO

Trecho 4 Trecho 4

manicômio. Como você interpreta esse incêndio? O que ele poderia significar para o  desenrolar da narrativa? 

Trecho 4 

Passou uma hora, subiu a lua, a fome e o temor afastam o sono, ninguém dorme nas  camaratas. Mas esses não são os únicos motivos. Ou seja por causa da excitação da  recente batalha, ainda que tão desastrosamente perdida, ou por algo indefinível que  percorrera o ar, os cegos estão inquietos. Ninguém se atreve a sair para os corredores,  mas o interior de cada camarata é como uma colmeia só povoada de zângãos, bichos  zumbidores, como se sabe, pouco dados à ordem e ao método, não há registo de  alguma vez terem feito pela vida ou de se preocuparem, um mínimo que fosse, com o 

futuro,  ainda  que  no  caso  dos  cegos,  infeliz  gente,  seria  injusto  acusá‐los  de  aproveitadores ou de chupistas, aproveitadores de que migalha, chupistas de que  refresco, há que ter cuidado com as comparações, não vão elas sair levianas. Porém,  não há regra que não tenha a sua excepção, e esta não faltou aqui, na pessoa de uma  mulher que, mal entrou na camarata, a segunda do lado direito, se pôs a remexer nos  seus trapos até encontrar um pequeno objecto que apertou na palma da mão, como  se o quisesse esconder da vista dos outros, os velhos hábitos custam a esquecer,  mesmo quando chega um momento em que já os julgávamos de todo perdidos. Aqui,  onde deveria ter sido um por todos e todos por um, pudemos ver como cruelmente  tiraram os fortes o pão da boca aos débeis, e agora esta mulher, tendo‐se lembrado de  que trouxera um isqueiro na malinha de mão, se em tanto desconcerto o não perdera,  foi ansiosamente por ele e ciosamente o está a esconder, como se fosse condição da  sua própria sobrevivência, não pensa que talvez um destes seus companheiros de  infortúnio tenha por aí um último cigarro, que não pode fumar por lhe faltar o  pequeno lume necessário. Nem já iria a tempo de pedi‐lo. A mulher saiu sem dizer  palavra, nem adeus, nem até logo, segue pelo corredor deserto, passa rente a porta da  primeira camarata, ninguém de dentro deu por ela ter passado, atravessa o átrio, a lua  descendo traçou e pintou um tanque de leite nas lajes do chão, agora a mulher está na  outra ala, outra vez um corredor, o seu destino é ao fundo, em linha recta, não tem  nada que enganar. Além disso, percebe umas vozes a chamá‐la, maneira só figurada de  dizer, o que lhe chega aos ouvidos é a algazarra dos malvados da última camarata,  estão a festejar o vencimento da batalha comendo do bom e bebendo do fino, passe o  exagero intencional, não esqueçamos que tudo na vida é relativo, comem e bebem  simplesmente do que há, e viva o velho, bem gostariam os outros de meter‐lhe o  dente, mas não podem, entre eles e o prato há uma barricada de oito camas e uma  pistola carregada. A mulher está de joelhos à entrada da camarata, mesmo junto às  camas, puxa devagar os cobertores para fora, depois levanta‐se, faz o mesmo na que  está por cima, ainda na terceira, à quarta não lhe alcança o braço, não importa, os  rastilhos estão preparados, agora é só atear‐lhes o fogo. Ainda se recorda de como  deverá regular o isqueiro para produzir uma chama comprida, já aí a tem, um pequeno  punhal de lume, vibrante como a ponta duma tesoura. Começa pela cama de cima, a  labareda lambe trabalhosamente a sujidade dos tecidos, enfim pega, agora a cama do  meio, agora a cama de baixo, a mulher sentiu o cheiro dos seus próprios cabelos  chamuscados, deve ter cuidado, ela é a que deita fogo à pira, não a que nela deve  morrer, ouve os gritos dos malvados lá dentro, foi nesse momento que pensou, E se  eles têm água, se vão conseguir apagar, desesperada meteu‐se debaixo da primeira  cama, passeou o isqueiro ao comprido do colchão, aqui, além, então de repente as  chamas multiplicaram‐se, transformaram‐se numa única cortina ardente, um jorro de  água ainda passou através delas, foi cair sobre a mulher, porém inutilmente, já era o  seu próprio corpo o que estava a alimentar a fogueira. Como vai aquilo lá por dentro,  ninguém pode arriscar‐se a entrar, mas a imaginação para alguma coisa nos há‐de  servir, o fogo anda a saltar velozmente de cama em cama, quer deitar‐se em todas ao  mesmo tempo, e consegue‐o, os malvados gastaram sem critério nem proveito a  pouca água que ainda tinham, tentam agora alcançar as janelas, mal equilibrados  sobem às cabeceiras das camas a que o fogo ainda não chegou, mas de repente o fogo  já lá está, eles resvalam, caem, e o fogo já lá está, com a ardência do calor as vidraças  começam a estalar, a estilhaçar‐se, o ar fresco entra silvando e atiça o incêndio, ah, 

sim, não estão esquecidos, os gritos de raiva e medo, os uivos de dor e agonia, aí fica  feita a menção, note‐se, em todo o caso, que irão sendo cada vez menos, a mulher do  isqueiro, por exemplo, está calada há muito tempo.  

A estas alturas já os outros cegos estão a fugir espavoridos para os corredores cheios  de fumo, Há fogo, há fogo, gritam, e aqui se pode observar ao vivo como têm sido mal  pensados e organizados estes ajuntamentos humanos de asilo, hospital e manicómio,  repare‐se em como cada um dos catres, só por si, com a sua armação de ferros  bicudos,  pode  tornar‐se  em  uma  mortal  armadilha,  vejam‐se  as  consequências  terríveis de haver uma só porta em camaratas que levam quarenta pessoas, fora as  que dormem no chão, se o fogo chega lá primeiro e lhes tapa a saída, não escapa  ninguém. Felizmente, como a história humana tem mostrado não é raro que uma coisa  má traga consigo uma coisa boa, fala‐se menos das coisas más trazidas pelas coisas  boas,  assim  andam  as  contradições  do  nosso  mundo,  merecem  umas  mais  consideração  do  que  outras,  neste  caso a  boa  coisa  foi  precisamente terem  as  camaratas uma única porta, graças a isto é que o fogo que queimou os malvados se  demorou por lá tanto tempo, se a confusão não se tornar maior, talvez não tenhamos  que lamentar a perda doutras vidas. Evidentemente, muitos destes cegos estão a ser  pisados, empurrados, esmurrados, é o efeito do pânico, um efeito natural, pode‐se  dizer, a natureza animal é mesmo assim, também a vegetal se comportaria de igual  maneira se não tivesse todas aquelas raízes a prendê‐la ao chão, e que bonito seria  poder ver as árvores do bosque a fugir ao incêndio. O refúgio da parte interior da cerca  foi bem aproveitado por cegos que tiveram a idéia de abrir as janelas existentes nos  corredores e que davam para ela. Saltaram, tropeçaram, caíram, choram e gritam, mas  por ora estão a salvo, tenhamos esperança de que o fogo, quando fizer desmoronar‐se  o telhado e atirar por ares e ventos um vulcão de labaredas e tições a arder, não se  lembre de propagar‐se às copas das árvores. Na outra ala o medo anda pelo mesmo, a  um cego basta cheirar‐lhe a fumo e logo imagina que o lume está mesmo ao lado dele,  o que não será sendo verdade, em pouco tempo o corredor ficou entupido de gente,  se não houver quem ponha alguma ordem nisto, vamos ter tragédia. Num momento  alguém se recorda de que a mulher do médico ainda tem uns olhos que vêem, onde  está ela, pergunta‐se, ela que nos diga o que se passa, por onde deveremos ir, onde  está, estou aqui, só agora é que consegui sair da camarata, a culpa foi do rapazinho  estrábico que ninguém conseguia saber onde tinha se metido, agora já está aqui,  agarro‐o com força pela mão, teriam de arrancar‐me o braço para que eu o largasse,  com a outra mão seguro a mão do meu marido, e depois vem a rapariga dos óculos  escuros, e depois o velho da venda preta, onde está um está outro, e depois o primeiro  cego, e depois a mulher dele, todos juntos, apertados como uma pinha, que, espero  bem, nem este calor há‐de abrir. Entretanto uns quantos cegos daqui tinham seguido o  exemplo dos da outra ala, saltaram para a cerca interior, não podem ver que a maior  parte do edifício do outro lado é já uma fogueira, mas sentem na cara e nas mãos o  bafo ardente que vem de lá, por enquanto o telhado ainda se agüenta, as folhas das  árvores vão‐se encarquilhando devagar. Então alguém gritou, Que é que estamos aqui  a fazer, por que é que não saímos, a resposta, vinda do meio deste mar de cabeças, só  preciso de quatro palavras, Estão lá os soldados, mas o velho da venda preta disse,  Antes morrer de um tiro que queimados, parecia a voz da experiência, por isso talvez  não tenha sido propriamente ele a falar, talvez pela boca dele tenha falado a mulher  do isqueiro, que não teve a sorte de ser apanhada por uma última bala disparada pelo 

cego da contabilidade. Disse então a mulher do médico, Deixem‐me passar, vou falar  aos soldados, eles não podem deixar‐nos morrer assim, os soldados também têm  sentimentos. Graças à esperança de que os soldados tivessem de facto sentimentos,  pôde abrir‐se no aperto um estreito canal, por onde a mulher do médico avançou com  dificuldade levando atrás de si os seus. O fumo tapava‐lhe a visão, em pouco tempo  estaria tão cega como os outros. No átrio mal se podia romper. As portas que davam  para  a  cerca  tinham  sido  rebentadas,  os  cegos  que  ali  se  haviam  refugiado  aperceberam‐se  rapidamente  de  que  o  sítio  não  era  seguro,  queriam  sair,  empurravam, mas os do outro lado resistiam, faziam finca‐pé conforme podiam, por  enquanto neles ainda era mais forte o medo de aparecerem à vista dos soldados, mas  quando as forças cedessem, quando o fogo se aproximasse, o velho da venda preta  tinha razão, mais valeria morrer de um tiro. Não foi preciso esperar tanto, a mulher do  médico conseguira enfim sair para o patamar, praticamente vinha meio despida, por  ter ambas as mãos ocupadas não se pudera defender dos que queriam juntar‐se ao  pequeno grupo que avançava, apanhar, por assim dizer, o comboio em andamento, os  soldados iam ficar de olho arregalado quando ela lhes aparecesse pela frente com os  seios meio descobertos. Já não era o luar que iluminava o espaço amplo e vazio que ia  até ao portão, mas o clarão violento do incêndio. A mulher do médico gritou, Por  favor, pela vossa felicidade, deixem‐nos sair, não disparem. Ninguém respondeu de lá. 

O holofote continuava apagado, nenhum vulto se movia. Ainda a medo, a mulher do  médico  desceu  dois  degraus,  Que  se  assa,  perguntou  o  marido,  mas  ela  não  respondeu, não podia acreditar. Desceu os restantes degraus, caminhou em direcção  ao portão, puxando atrás de si o rapazinho estrábico, o marido e companhia, já não  havia dúvidas, os soldados tinham‐se ido embora, ou levaram‐nos, cegos também eles,  cegos todos por fim. 

Então, para  simplificar,  aconteceu  tudo  ao  mesmo  tempo,  a  mulher  do médico  anunciou em altas vozes que estavam livres, o telhado da ala esquerda veio‐se abaixo  com  medonho  estrondo,  esparrinhando  labaredas  por  todos  os  lados,  os  cegos  precipitaram‐se para a cerca gritando, alguns não conseguiram, ficaram lá dentro,  esmagados contra as paredes, outros foram pisados até se transformarem numa  massa informe e sanguinolenta, o fogo que de repente alastrou fará de tudo isto  cinzas. O portão está aberto de par em par, os loucos saem. (p. 205‐210) . 

 

No documento LEITURA E IMAGENS NO ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (páginas 166-169)

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