Logo que fossem admitidas pelas irmãs sacramentinas para ocuparem uma das concorridas vagas do asilo, as órfãs eram inseridas num sistema de educação que incluía o ensino de
[...] línguas portuguesa e francesa, arithemetica, systhema métrico, instrução religiosa, história sagrada e noções geraes de história no Brasil, alem das
prendas domesticas e trabalhos de agulha e outros adequados ás suas condições, como lavar, gomar e cozinhar. 237
É nítido que currículo escolar do ANSL tinha por objetivo preparar as meninas para serem futuras donas de casa prendadas, compatíveis com o ideal estabelecido para o gênero feminino da época ou trabalharem enquanto professoras primárias do próprio asilo ou escolas na urbe feirense. O ser professora, profissão majoritariamente desempenhada por mulheres, vinha ancorado segundo o discurso que via a
[...] mulher como possuidora de uma certa tendência natural ao cuidado das novas gerações; com um destino e uma missão biológica de mãe, comum a todas as mulheres, em voga na época nos livros de psicologia e fisiologia.
Estes afirmavam ser da natureza feminina o cuidado e amor às crianças, mesmo naquelas mulheres que a natureza impedisse de gerar filhos. 238
No ano de 1908 ainda não haviam sido introduzidos no cotidiano das órfãs os trabalhos de datilografia, visto a ausência de descrição desta atividade no relatório do período citado. Mesmo com a inserção dessa nova atividade parece que os serviços de costura, bordados e outros trabalhos com agulha eram os mais apreciados pela direção do estabelecimento devido a posterior venda de toalhas, panos de prato, fraldas e toalhas de mesa em quermesses, feiras, saraus e outras festas realizadas pela administração das Senhoras de Caridade. 239
Caso desejassem um trabalho feito sob encomenda as pessoas interessadas poderiam fazer qualquer pedido de bordado ou costura a mão ou máquina que as órfãs estariam aptas a realizar trabalhosa atividade. 240 Vivenciar o cotidiano no ANSL era antes de tudo trabalhar para a sua própria permanência, em vista das dificuldades financeiras enfrentadas pela administração do asilo desde os primeiros anos de fundação.
Na fotografia abaixo, mais uma concernente ao álbum encomendado pela administração da casa supostamente afim de evidenciar aspectos cotidianos e estruturais do ANSL, é possível encontrar ao menos quatro órfãs em atividade de bordado a mão
237 BCPO. Estatutos do Asilo Nossa Senhora de Lourdes, 1908, artigo 17, p. 5.
238 SOUSA, Ione Celeste. Garotas tricolores, deusas fardadas: as normalistas em Feira de Santana, 1925 a 1945. São Paulo: EDUC, 2001, p. 12.
239 BCPO, Relatório do Asilo Nossa Senhora de Lourdes, 1921, p. 16.
240 BCPO, Relatório do Asilo Nossa Senhora de Lourdes, 1930, p. 17.
(localizadas nas extremidades direita e esquerda da fotografia), outras duas meninas trabalhando em costuras feitas à máquina (mais deslocadas à esquerda da imagem, em fila) e uma última órfã operando uma máquina de escrever (à direita, virada de lado), todas sob estrita supervisão de uma mulher que aparece sombria na fotografia, mas cuja identidade, com base nos relatórios do asilo, acreditamos ser de uma irmã sacramentina.
Imagem 14: órfãs em aula de costura e datilografia, década de 1930.
Fonte: BCPO
A catequização das crianças ficava a cargo do capelão do asilo, Padre Mário Pessoa, que tinha por companhia uma mulher responsável pela vigilância das órfãs. Na imagem a seguir, cuja sala de aula improvisada tinha por mesa de estudo caixas de madeira que comportavam gasolina, curiosamente estão dispostos meninos e meninas, cada grupo no seu canto da sala. Talvez esse fosse um dos poucos momentos onde as meninas asiladas podiam compartilhar seu cotidiano com outras crianças do gênero oposto, ainda que estivessem sob o olhar atento da senhora. Tamanho cuidado com a separação entre meninos e meninas, advinha do temor que pairava sobre as diretoras e administradoras do ANSL acerca das possibilidades de envolvimento prematuro entre os gêneros. Essa aliás foi uma das maiores motivações do Padre Ovídio quando planejou construir o asilo: salvaguardar o corpo das meninas vulneráveis à prática sexual como se fosse um templo de Deus, preparando-as para serem futuras mulheres
comprometidas com os ideais da sociedade de outrora.
Imagem 15: catequização de meninos e órfãs do ANSL, em 1926.
Fonte: BCPO. Vestindo batina preta, Padre Mário Pessoa. Somente a título de curiosidade, a tabela da página 136 indicou que em 1926, ano de registro da fotografia, o ANSL possuía 26 órfãs. Contando as meninas da imagem, elas somavam 27.
Além das aulas de Português, História, Economia Doméstica e Religião ficou evidente que outras disciplinas e/ou atividades destinadas às órfãs perpassaram por aquilo que Gilberto Freire denominou de reeuropeização dos costumes no Brasil.
Segundo o autor pernambucano, uma vastidão de novos hábitos de comer e vestir advindos da França e Inglaterra tomaram conta do cotidiano dos grupos abastados brasileiros: vestimentas com duas ou três saias, botinas de pelica preta e gorras de veludo destinadas às meninas eram responsáveis pelo surgimento de assaduras nas pernas e brotoejas pelo corpo.241
Muitas de origem francesa, algumas poucas da Alemanha, as irmãs sacramentinas cruzaram o Atlântico trazendo em suas bagagens muito da cultura europeia para o cotidiano do ANSL. O currículo educativo implantado na instituição
241 FREIRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos: Introdução à História da sociedade patriarcal no Brasil – 2.
Decadência do patriarcado rural e desenvolvimento urbano. 10ª Ed. Rio de Janeiro, Record, 1998.
seguia de perto os preceitos destacados por Gilberto Freire: “a educação toda reeuropeizou-se, ao contato maior da colônia e, mais tarde, do Império com as ideias e as modas inglesas e francesas”. 242 O estudo do francês entre as órfãs era obrigatório e tendência entre as mulheres mais abastadas da sociedade feirense, contando inclusive a população europeizada da terra de Lucas243 com textos e poesias em língua inglesa e francesa publicados costumeiramente no semanário Folha do Norte.
Além do idioma estrangeiro, as órfãs ainda praticavam exercícios físicos, estando de acordo com os preceitos médico-higienistas do período que alertavam sobre a necessidade de sintonizar corpo e mente numa mesma frequência. As atividades físicas desempenhadas pelas órfãs estavam, entretanto, muito distantes daquelas que eram comumente praticadas por crianças na urbe feirense: exercícios de ginástica sueca ocupavam as horas de Educação Física praticada pelas meninas asiladas. 244
Voltando à imagem 15 perceberemos que predominavam entre órfãs do ANSL as crianças negras, característica que nos remete de imediato às reminiscências da escravidão abolida há menos de quarenta anos no país. Lana Lima e Renato Venâncio abordaram esta perspectiva sócio-histórica para a cidade do Rio de Janeiro a partir da efetivação da Lei do Ventre Livre de 1871, quando passou a ser registrado um aumento no número de crianças pardas e negras enjeitadas nas rodas dos expostos, adros de igrejas ou mesmo pelas ruas da cidade. 245
A constatação dos autores sobre esta correlação direta não deixou de antes considerar outras possibilidades, tais como as flutuações econômicas atuantes no empobrecimento dos grupos sociais financeiramente carentes e pela investigação da ilegitimidade nos casamentos como fator influente no abandono de crianças negras e pardas na capital carioca de outrora. Através do método comparativo os autores anularam estas duas últimas hipóteses e, ainda que a Lei de 1872 não tenha libertado tantas crianças escravas como se “supunha”, ficou evidente que ela era a chave
242 FREIRE, Gilberto, idem, p. 315.
243 Outra alcunha da cidade de Feira de Santana que diferente da “Princesa do Sertão”, tem se manifestado como o símbolo da resistência à escravidão quando este sistema vigorou na cidade. Ao atribuir à imagem de Feira de Santana o nome de um escravo rebelde deseja-se evidenciar que, apesar dos momentos de dificuldades enfrentados no cotidiano da urbe elas foram encaradas “com muita coragem pelos oprimidos” ajudando “a pensar que memória é o lugar de disputas entre grupos dominantes e subalternizados”.
244 BCPO, Relatório do Asilo Nossa Senhora de Lourdes, 1941, p. 10.
245 LIMA, Lana Lage da Gama e VENÂNCIO, Renato Pinto. Abandono de crianças negras no Rio de Janeiro. In: PRIORE, M.D. (org.). História da criança no Brasil. São Paulo. Contexto. 1991, p. 61-75
necessária à compreensão da ampliação de abandonos de meninas e meninos pardos e negros.
As limitadas documentações disponíveis nos arquivos que guardam registros sobre a cidade de Feira de Santana do século XIX não nos permitiu enveredar pelos mesmos caminhos mas considerando a totalidade como um aspecto fundamental no fazer História temos em pauta as mesmas perspectivas lançadas pelos autores supracitados.
A criação do ANSL em 1879, oito anos após a criação da Lei do Ventre Livre, não foi aleatória considerando as pretensões do fundador do asilo em retirar das ruas meninas em completo estado de abandono. Ora, já está mais do que esclarecido pela historiografia da infância que o enjeitamento de crianças no Brasil data do período colonial, levando-nos a afirmar que crianças vagando sozinhas pelas ruas da cidade de Feira de Santana eram muito anteriores à efetivação da lei de 1871. Consideramos ainda o fato desta cidade baiana ter sido palco de uma das maiores feiras semanais do Brasil, atraindo comerciantes, vendedores ambulantes e compradores dos lugares mais distantes da Bahia e de outros estados. Nestes espaços possivelmente se misturavam famílias fugidas das secas comuns à Bahia do século XIX e talvez não fosse difícil encontrar crianças soltas perambulando abandonadas pela urbe feirense.
Parece que a efetivação da Lei do Ventre Livre incitou o jovem Padre Ovídio a fundar o ANSL. Sua ação caritativa teve por resposta o advento de uma demanda de meninas filhas da escravidão, completamente abandonadas segundo o ponto de vista da inclusão social.
Imagem 16: órfãs no recreio, década de 1930.
Fonte: BCPO.
Durante a permanência no asilo, as órfãs trabalhavam e estudavam para que assim que idade máxima de 21 anos se aproximasse elas pudessem deixar a instituição com um casamento arranjado, preparadas para trabalharem no próprio asilo como professoras ou para serem empregadas domésticas requintadas em casas de famílias abastadas. Poucas órfãs vivenciaram uma perspectiva pós asilamento que fugisse desse padrão inscrito nos relatórios do ANSL. A menina Maria Alves dos Santos foi uma delas: natural da Chapada Diamantina, 246 Maria Alves dos Santos surpreendeu as Senhora de Caridade administradoras do asilo com um desempenho escolar admirável aliado ao bom comportamento, o que lhe garantiu “[...] auxilio preciso para estudar na Escola Normal, afim de obter carta de alumna-mestra”. 247
Ser normalista era, segundo Ione Sousa, viver sob um manto imagético que via as garotas sorridentes, alegres e em processo de preparação para “ser professora, ser mestra nas vilas, distritos e povoados do município de Feira de Santana e circunvizinhos”. 248 Pesquisando mais a fundo a historiadora percebeu a relação existente entre a Escola Normal e os projetos de transformação social vigentes no Brasil elaborados na intenção de formar novas gerações disseminadoras de comportamentos e práticas nascidos com o alvorecer da República.
A órfã Maria foi uma destas garotas normalistas em formação responsável por dar continuidade a uma espiral histórica da qual ela foi protagonista duas vezes:
246 BCPO, Relatório do Asilo Nossa Senhora de Lourdes, 1922, p. 15.
247 BCPO, Relatório do Asilo Nossa Senhora de Lourdes, 1929, p. 26.
248 SOUSA, Ione Celeste. Garotas tricolores, deusas fardadas: as normalistas em Feira de Santana, 1925 a 1945. São Paulo: EDUC, 2001, p. 64.
vítima de abandono e depósito do futuro da nação. Parafraseando a obra de Georges Duby, A História Continua...
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao interromper as investigações que se consolidaram neste estudo podemos suscitar algumas hipóteses que de modo algum são conclusivas tendo em vista ser este um estudo primário e levando em consideração a quantidade de documentações coligidas porém não analisadas que estão a espera de pesquisadores desejosos em consolidar a infância como um novo campo de estudos na historiografia feirense.
A escolha de um recorte temporal extenso, tendo em vista as publicações mais recentes na historiografia nacional privilegiarem as curtas durações, nos possibilitou enxergar as nuances da transição política, econômica, social e cultural na passagem dos séculos XIX e XX refletidas na questão da infância pobre e abandonada brasileira e mais precisamente a feirense.
Não é novidade historiográfica levantar aqui a influência que a Lei do Ventre Livre de 1871 teve no desenrolar das políticas públicas a nível nacional direcionadas a pensar essa infância enquanto um problema passível de intervenção.
Embora a lei tenha sido um verdadeiro fisco, eficaz apenas no sentido de acalmar os ânimos dos abolicionistas, a situação das poucas crianças libertas parece ter atormentado os amantes da civilização e do progresso nacional, notadamente os médicos, juristas, políticos e a Igreja.
Em Feira de Santana o interesse em “proteger” as meninas órfãs, abandonadas e majoritariamente negras que vagavam pelas ruas da cidade foi contemporâneo à efetivação da lei de 1871, o que nos leva a acreditar que o desejo do Padre Ovídio em construir uma instituição destinada ao acolhimento dessas meninas, efetivada em 1789, tenha relação direta não só com as preocupações decorrentes da presença de filhas da escravidão pelas ruas da urbe feirense mas também em “moldar”
essas meninas segundo os postulados cristãos de uma sociedade que enxergava no gênero feminino o pilar da família.
Além das fortes influências cristãs na sociedade feirense outras determinantes contribuíram para que o município, o estado, o governo federal dessem um passo em prol da questão da infância pobre e abandonada de Feira de Santana. No Rio de Janeiro a medicina-higienista caminhava a passos largos tendo na figura de Moncorvo Filho um dos percussores do movimento que pensava a infância pobre e
abandonada de outrora como futuros trabalhadores disciplinados de amanhã, moldados nos aparatos ordem e saúde, elementos indispensáveis para o desenvolvimento da nação brasileira. Para tal fim, os estados e municípios, além da esfera civil, não deveriam medir esforços no sentido de fortalecer a “raça doente e preguiçosa” que se via vagar perdida e desamparada, segundo os discursos do período.
Aos poucos as influências de Moncorvo Filho se fizeram sentir em outros estados brasileiros ficando os problemas da infância baiana a cargo do médico Martagão Gesteira. Interessado em promover um assistencialismo médico-higienista para as crianças pobres da Bahia, vitimadas aos milhares no mais das vezes por descuidos alimentares e higiênicos, Gesteira se viu diante de embaraços advindos de um governo estadual acostumado a não financiar projetos sociais, uma vez que a constituição de 1891 não admitia serem as mazelas sociais responsabilidade do poder público.
Os discursos médicos ganharam respaldo a nível nacional e o sucesso na efetivação das suas ideias tinha sido possível devido as iniciativas do corpo civil da sociedade brasileira. Foram os grupos economicamente abastados que patrocinaram a priori os projetos direcionados à questão da infância pobre e abandonada brasileira interessados evidentemente em promover os postulados positivistas importados da Europa e há pouco em voga em no país.
As influências médicas se fizeram sentir em outros campos de estudo, sendo o Direito um dos campos de atuação a partir de então mais eficazes no debate da infância abandonada brasileira como problema social do governo público. A efetivação de leis, projetos, decretos e portarias muito comuns no Brasil a partir da década de 1920 era uma resposta às influências dos juristas na consolidação permanente da infância como um dever do Estado – materializado no Código de Menores de 1927.
A Feira de Santana devido sua proximidade com a capital Salvador pareceu compartilhar os mesmos momentos de eferverção cultural, política e social comuns às grandes cidades brasileiras. Do mesmo modo, por sua grandiosa influência comercial e por ser entroncamento rodoviário obrigatório para quem desejasse cruzar o país, Feira vivenciou sintomas muito comuns de cidades grandes, como a existência de crianças pobres e abandonadas nas principais ruas da urbe num desejado momento de ver consolidado um projeto civilizatório que perpassava, por um lado, pelo silenciamento e ocultação das antigas tradições e, por outro lado, pela inscrição de novos comportamentos e hábitos.
Em meio a esse emaranhado de situações políticas, desejos culturais e crises econômicas estavam os personagens deste trabalho. Meninos e meninas pobres e abandonados, vivenciaram seu cotidiano ora no âmbito privado, ora no público, manifestaram seus comportamentos naturais de ser criança com bola, badogue, pongando em trem e nadando em lagoas. As vezes ultrapassaram os limites pensados para suas idades e seu gênero quando constatamos meninos pequenos manuseando armas e meninas praticando furto para sobreviver em períodos de crise. Vezes vimos estas mesmas crianças trabalhando, como catarinas ou carregadores nas portas das marinetes. Outras, com muito esforço, vivenciaram seu cotidiano sob a vigilância e disciplina das irmãs sacramentinas e senhoras de caridade do ANSL.
Mesmo com a atuação das esferas públicas e civis de Feira de Santana e da Bahia promovendo políticas e obras destinadas ao recolhimento dos personagens deste estudo, vimos que poucas foram as instituições exitosas em seus projetos. O ANSL foi um exemplo marcante neste contexto, uma vez que por muitos anos esteve operando em saldo negativo devido o bloqueio no repasse das subvenções públicas, sendo as doações da sociedade civil as maiores responsáveis pelo sustento desta obra cristã. Outros tantos projetos promovidos por pessoas comuns direcionados à assistência da infância pobre e abandonada da cidade mal saíram das páginas dos semanários feirenses e o Albergue Noturno, obra que não foi exclusivamente direcionada à infância, só foi possível graças a barganhas políticas num período de oito anos.
Seria anacrônico de nossa parte julgar o Estado de outrora como ineficiente no trato com o assistencialismo à infância pobre e abandonada pois o período abarcado neste estudo marca o princípio desta qualidade de debate no Brasil. Mais fácil talvez seja assinalar que as esferas públicas não tinham o interesse em acolher e proteger as crianças pobres e abandonadas, mas usá-las em benefício de um determinada ordem a implantada na sociedade. Feira de Santana que comungava deste postulado também enxergou nos seus capitães e nas outras crianças deste trabalho sujeitos que destoavam de uma lógica citadina pautada da civilidade e progresso. Assim, os grupos dominantes tentaram de todas as formas lançar mão de estratégias capazes de anular o cotidiano das crianças nas ruas da Feira com o Código Sanitário do Estado de 1925, Código de Posturas de 1937, portarias nomeando pessoas responsáveis por eliminar a presença dos meninos das ruas da cidade.
Nenhuma das estratégias acima parece ter sido capaz de impedir que as táticas e comportamentos das crianças pobres e abandonadas desaparecessem do cotidiano de Feira de Santana. Embora a cidade tenha experimentado as transformações estruturais consolidadas, dentre outros, com a abertura de novas avenidas, demolição dos antigos casarios e construção de praças iluminadas com luz elétrica os hábitos e comportamentos dos capitães prosseguiram no cotidiano da terra de Lucas, fortalecendo as lembranças de um passado do qual os grupos dominantes não conseguiam se desvencilhar.
Por fim vale ressaltar que a história do assistencialismo à infância pobre e abandonada brasileira se manteve mais atrelada às permanências do que às mudanças, na medida em que ainda hoje as práticas sociais direcionadas ao amparo das crianças carentes são exercidas majoritariamente pela sociedade civil. À sociedade política coube estar presente do modo que lhes era peculiar, qual seja, vigiando e financiando ações sociais afim de ampliar seu poder sob o Estado.
FONTES
1. Museu Casa do Sertão – Centro de Estudos Feirenses.
1.1 Jornais.
Jornal Folha do Norte (1909 – 1945).
Jornal O Município (1908 – 1911).
Jornal Gazeta do Povo (1892 – 1899).
Jornal O Propulsor (1896).
1.2 Decreto Lei de 29 de dezembro de 1937 (Código de Posturas).
2. Biblioteca e Arquivo do Colégio Padre Ovídio.
2.1 Estatutos do Asilo Nossa Senhora de Lourdes (1908).
2.2 Relatório apresentado ao Asilo Nossa Senhora de Lourdes da cidade de Feira de Santana pela Presidente das Senhoras de Caridade Claudina Barboza de Souza Borges (1898).
2.3 Relatório do Asilo Nossa Senhora de Lourdes (1900 – 1945).
2.4 Registros fotográficos do Capítulo Terceiro.
3. Arquivo Público do Estado da Bahia.
3.1 Código Sanitário da Bahia (1925)
3.2 Decreto Lei que cria no Departamento de Saúde a Divisão de Amparo à Maternidade, Infância e Adolescência (1942).
3.3 Enciclopédia dos Municípios Brasileiros (1958).
3.4 Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia (IPAC.BA) – Vol. VII:
Monumentos da Região Pastoril do Estado da Bahia (2002).
3.5 Planta da cidade de Feira de Santana – P711.435 (812.8-2 F. de Sant’Anna (sem data).
3.6 Planta da cidade de Feira de Santana – P711.433 (812.8-2 F. de S. (1878).
3.7 Relatório do Serviço de Higiene Infantil da Bahia, apresentado no 4° Congresso Americano da Criança pelo Dr. Martagão Gesteira (1924).
3.8 Processo pedindo subvenção para o Asilo Nossa Senhora de Lourdes de Feira (1944).
4. Acervo digital da República Federativa Brasil disponível no site do Governo.
4.1 Constituições
Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil (24 de fevereiro de 1891).
Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil (16 de julho de 1934).
Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil (10 de novembro de 1937).
4.2 Lei n° 3987 de 02 de janeiro de 1920.
4.3 Decretos
Decreto n° 16.300 de 13 dezembro de 1923.
Decreto n° 16.272 de 20 de dezembro de 1923.
Decreto nº 17.943-A, de 12 de Outubro de 1927 – Código de Menores.
Decreto n° 24.278 de 22 de maio de 1934.
Decreto-Lei nº 2.024, de 17 de Fevereiro de 1940.
5. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – Seção Conteúdo Histórico.
5.1 Anuário Estatístico do Brasil - Asilos e recolhimentos (1931 - 1936).
5.2 Censos do Brasil e Municípios (1872 – 1939).