A PMERJ demonstrou sua preocupação com o assunto ao criar, em 2009, por determinação do Estado Maior Geral da Corporação, o Programa de Assistência Psicológica para Policiais Militares Envolvidos em Ocorrências com Potencial Risco de Estresse Pós- traumático,19 para oferecer suporte psicológico aos policiais militares envolvidos em ocorrências de risco que resultassem em morte ou lesão corporal grave de componentes da guarnição. O objetivo do programa é oferecer amparo ao policial militar em situação de
19 Boletim PM nº 24, de 10 de agosto de 2009, p. 34-35.
potencial risco subjetivo, com possíveis repercussões em sua condição psíquica e profissional, proporcionando apoio técnico para retorno ao convívio profissional com a sociedade e relacionamento com os familiares.
O programa prevê que os policiais militares envolvidos em ocorrências que resultassem em morte ou lesão corporal grave de componentes de guarnição serão avaliados inicialmente em sua condição emocional e psicológica por um oficial psicólogo da corporação, previamente escalado, conforme escala extra em Boletim da PMERJ, que será acionado exclusivamente para realizar essa avaliação. Entretanto, na prática, esses psicólogos infelizmente têm sido acionados com frequência em caso de morte de policial militar para acompanhar a família e não para dar o suporte aos policiais.
Digo ―infelizmente‖, pois o atendimento psicológico não deve se confundir com amparo em funerais, nem o psicólogo deve ser o profissional mensageiro das notícias de morte. Penso que é mais respeitoso com os familiares que um superior hierárquico, de preferência o comandante do policial, esteja à frente nestas situações. O atendimento psicológico deve, sim, ser oferecido como suporte emocional para os familiares num segundo momento, após o sepultamento, salvo casos excepcionais. Tendo trabalhado por dois anos com familiares de policiais falecidos, pude comprovar que esta é a melhor forma de acolher familiares de policiais mortos e que não há condições de abordagem terapêutica em meio a um sepultamento e nem o psicólogo tem nenhum saber especial que lhe conceda lugar de mensageiro de notícias de morte.
Importante mencionar que o Setor de Psicologia do Hospital Central da PMERJ tem um projeto desde 2007 que oferece ao policial vítima de projétil de arma de fogo (PAF) atendimento psicológico durante a internação hospitalar. Tal serviço visa diminuir os danos emocionais oriundos do processo de hospitalização através do atendimento individual à beira do leito, assim como trabalhar em interconsulta com a equipe de saúde responsável pelos casos.
A equipe responsável pelo atendimento relata que, no caso específico do PAF, por ocorrer no exercício da profissão e fazer parte da realidade da prática policial militar, a internação representa para o policial o confronto direto com os perigos da profissão e com a possibilidade real de morrer. A consciência de finitude parece instaurar-se tão fortemente no sujeito, que suas fragilidades e limitações vêm à tona de forma abrupta e desestruturante.
Assiste-se, em sua grande maioria, a um policial com forte sentimento de impotência e
fragilizado emocionalmente, o que muito pode contribuir para o estabelecimento de quadros posteriores de ansiedade generalizada, estresse, pânico, fobia ou depressão (BRAGA;
GONÇALVES; TOLEDO, 2009, p. 40).
Embora não voltado especificamente para o TEPT, sabemos que o pronto- atendimento psicológico está incluído no suporte do entorno, que é um dos fatores que ajuda a prevenir o TEPT, juntamente com o apoio da família, extremamente fundamental e dos colegas de trabalho, incluindo os superiores hierárquicos no caso de instituições militares.
Sendo assim, esse projeto tem grande relevância para esta pesquisa.
No curso de aperfeiçoamento de oficiais (CAO), realizado por todos os oficiais quando na patente de capitães, já foram realizados três trabalhos de final de curso sobre esse tema nos últimos anos.20 Em outros estados, existem iniciativas relativas ao tema que valem a pena ser citadas.
Braga, Gonçalves e Toledo (2009) fizeram levantamento em alguns estados e encontraram os seguintes resultados: a polícia de São Paulo tem um programa de assistência aos policiais militares envolvidos em ocorrências de alto risco desde 2002, o Programa de Acompanhamento e Apoio ao Policial Militar (PAAPM), subordinado à Diretoria de Pessoal da Polícia Militar de São Paulo, através do Centro de Assistência Social e Jurídica. O programa foi criado a partir da constatação de que o policial militar, no exercício de sua profissão, está exposto ao que eles chamam de ―ocorrência de alto risco, evento crítico e circunstâncias trágicas‖. A ―ocorrência de alto risco‖ seria todo acontecimento, de qualquer natureza, que provoque ou represente perigo ou muita probabilidade deste. Já os ―eventos críticos‖ são aqueles relativos ao gerenciamento de uma crise, com consequências graves e imprevisíveis, com pouco tempo para articulação de possibilidades e decisão. As
―circunstâncias trágicas‖, por sua vez, são situações vinculadas a uma tragédia e trazem no seu conteúdo aspectos sinistros e funestos.
As consequências dessa exposição podem gerar reações de estresse, que ocorrem quando as respostas emergenciais são envolvidas em aspectos confusos e superam a capacidade pessoal do agente, podendo desaguar em efeitos físicos e emocionais, desenvolvendo assim o que se tem por estresse pós-traumático.
20 Os três trabalhos realizados por oficiais psicólogos no Curso de aperfeiçoamento de oficiais da PMERJ são: Estudo sobre o Acompanhamento psicológico de Policial Militar em situação de pós-confronto, de 2009; Dando voz a quem escuta:
avaliação de oficiais psicólogos acerca do programa de assistência psicológica para policiais militares envolvidos em ocorrências com potencial risco de estresse pós-traumático e Levantamento de ações do oficial psicólogo na prevenção a eventos críticos, ambos de 2012.
O programa tem como diretriz de acolhimento o Estágio de Aprimoramento Profissional/Desenvolvimento Psicoemocional, que visa restabelecer a saúde mental dos policiais militares envolvidos em ocorrência de risco ou aqueles que eventualmente manifestem alterações emocionais e comportamentais. Dele fazem parte as seguintes direções:
a) encaminhamento ao programa para avaliação inicial psicológica do policial militar envolvido em qualquer ocorrência, potencial ou concretamente, causadora de trauma psíquico (até mesmo acidentes, incêndios, salvamentos, etc.);
b) a aplicação também em relação ao policial militar que se envolver em ocorrências nas horas de folga, mas em razão da função;
c) inclusão no programa do policial militar que apresentar qualquer alteração comportamental ou emocional, independente do prévio envolvimento em ocorrência;
d) as linhas e diretrizes referentes ao emprego de técnicas da psicologia em estrita consonância com o preconizado pelo Conselho Federal e Regional de Psicologia;
e) estabelecimento de uma comissão de análise encarregada de analisar a situação individual de cada policial militar participante do programa e decidir quanto a sua liberação para o serviço policial militar ou aplicação de prescrições de atividades supervisionadas.
Os objetivos descritos no programa são: o restabelecimento do equilíbrio emocional do policial militar; a readequação da atitude e do comportamento frente aos desafios e exigências do novo conceito de polícia comunitária; a sensibilização do policial militar para a valorização da vida humana; a não-banalização do evento morte e a defesa da dignidade da pessoa humana; e a promoção da perfeita interação do policial militar com a sociedade.
O fluxograma do programa se dá a partir da apresentação do policial militar à secretaria do PAAPM, que, após o preenchimento de uma ficha de coleta de dados, é encaminhado para uma avaliação psicológica individual. Quando é diagnosticada uma
―alteração‖, o policial é referido às turmas do Estágio de Aprimoramento Profissional (EAP).
Caso o policial receba uma avaliação positiva, retorna à unidade de origem.
O Estágio de Aprimoramento Profissional, citado anteriormente, tem a forma de um curso, onde matérias ligadas à administração pública, às doutrinas de polícia comunitária, aos cuidados com a alimentação e sobre elementos da psicologia, são ministradas em 102 (cento e duas) hora/aulas durante 17 (dezessete) dias letivos.
Outro estado que conta com trabalho voltado para o atendimento a policiais militares envolvidos em situações de risco ou confronto é Santa Catarina. O Programa de Gerenciamento de Estresse Profissional e Pós-Traumático da Polícia Militar de Santa Catarina (PROGESP) funciona desde 2007. Tem como objetivo minimizar os efeitos nocivos do TEPT e restabelecer as condições psicológicas, fisiológicas e sociais dos envolvidos, oferecendo acolhimento, acompanhamento e suporte psicológicos. Também faz parte do programa a promoção de cursos e sensibilizações para as questões ligadas ao estresse profissional cumulativo e pós-traumático, com ênfase na autoidentificação e autogerenciamento do estresse, por meio de medidas preventivas.
Segundo dados levantados junto à Junta Médica da Corporação (JMC) da Polícia Militar de Santa Catarina, cerca de 35% das Licenças para Tratamento de Saúde (LTS) são decorrentes dos problemas de saúde mental, onde o estresse profissional é fator desencadeante ou agravante destes quadros. Atenção importante é dada à pesquisa, pois os dados registrados são sistematizados em um banco de dados específico que permite avaliar os resultados, bem como serve de fonte de pesquisa para modificações do programa e proposição de novos trabalhos na área.
A equipe do PROGESP deve ser acionada nas seguintes situações:
sempre que uma ocorrência policial caracterizar um evento crítico, o Comandante da Organização Policial Militar deverá ficar atento ao envolvimento de policiais subordinados, informando através da Notificação de Evento Crítico (NEC) à equipe do PROGESP;
qualquer ocorrência que tenha causado impacto emocional nos policiais envolvidos;
ocorrência com morte ou lesão grave de policial militar;
ocorrência envolvendo múltiplas vítimas fatais ou politraumatizadas;
ocorrência com morte ou ferimento grave de cidadão civil relacionada à ação ou operação policial;
ocorrências com grave risco de morte para o policial militar, provocado pela ação intencional de terceiros;
ocorrências de confronto com a utilização de armas de fogo com o resultado de ferimento ou morte de cidadão civil;
ocorrência com morte traumática e dolorosa de uma ou mais crianças com envolvimento, causal ou não, dos policiais.
O programa é composto de uma parceria entre o serviço de psicologia e a assistência social através da Diretoria de Saúde e Promoção Social daquela organização policial militar.
A Polícia Militar do Paraná, por sua vez, dispõe de um centro terapêutico com especialistas que orientam o policial que tenha passado por determinada situação de estresse.
O trabalho é descrito no Portal do Servidor do Estado do Paraná e a proposta do acolhimento é prevenir o estresse pós-traumático. O trabalho dos profissionais envolve uma avaliação médica e psicológica da condição do policial pela equipe e, a partir desta, o mesmo é encaminhado para atendimento individualizado ou para projetos preventivos do serviço social.
A Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) também está atenta a este transtorno, que vem sendo foco de atenção nos anos recentes em vários países, e elaborou um conjunto de medidas estabelecidas pelo Governo Federal para a promoção de saúde e melhoria da qualidade de vida dos profissionais de segurança pública e a prevenção de acidente e danos à saúde relacionados ao trabalho.
A instrução normativa nº 01, de 26 de fevereiro de 2010, que institui o Projeto Qualidade de vida aos Profissionais de Segurança Pública e agentes penitenciários, propõe, dentre suas diretrizes, no inciso VII a
criação de programas de acompanhamento à saúde mental e física abordando temas como prevenção ao suicídio, gerenciamento de estresse, prevenção ao transtorno de estresse pós- traumático-TEPT, dependência química, tabagismo, obesidade, distúrbio do sono e outros (2010).
Na seção IV, Da Atenção aos Profissionais Envolvidos em Incidente Crítico ou Ocorrência de Risco, o artigo 16, no inciso VIII, estabelece a ―prevenção de adoecimentos em decorrência de reações ao estresse grave e transtornos de adaptação, entre eles, transtorno de estresse pós-traumático-TEPT‖ (idem).
Também devo mencionar a Portaria Interministerial de Direitos Humanos SDH/MJ nº 2/2010, que estabelece as Diretrizes Nacionais de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos dos Profissionais de Segurança Pública (2010), que propõe:
a) Quanto à saúde:
- Item 19: ―desenvolver programas de acompanhamento e tratamento destinados aos profissionais de segurança pública envolvidos em ações com resultado letal ou alto nível de estresse‖.
- Item 22: ―Criar núcleos terapêuticos de apoio voltados ao enfrentamento da depressão, estresse e outras alterações psíquicas‖.
b) Quanto à reabilitação e reintegração:
-Item 27: ―promover a reabilitação dos profissionais de segurança pública que adquiram lesões, traumas, deficiências ou doenças ocupacionais em decorrência do exercício de suas atividades‖.
-Item 28: ―Consolidar como valor institucional, a importância da readaptação e da reintegração dos profissionais de segurança pública ao trabalho em caso de lesões, traumas, deficiências ou doenças ocupacionais adquiridos em decorrência do exercício de suas atividades‖.
Esses dados apontam que o TEPT é um tema atual, objeto de estudos e de preocupação. Acredito que isto se deva aos prejuízos que acarreta às instituições que tem seus trabalhadores adoecidos e aos estados, sendo um problema de saúde pública, visto que a especificidade da atividade profissional do policial militar, nosso foco em questão, contribui, como já se sabe, para o desenvolvimento deste transtorno.