• Nenhum resultado encontrado

Um relato de morar

No documento ÉTICA DA TENACIDADE (páginas 88-91)

2.2 Relatos do cotidiano

2.2.1 Um relato de morar

O primeiro breve relato é proveniente do bairro195. Este surge como lugar de engajamento social, e também afetivo, porque seu espaço sedia a prática de uma “arte de conviver com parceiros (vizinhos, comerciantes)”.196

192 Para os pormenores acerca da metodologia científica da pesquisa e os modelos de análise empregados pode-se consultar o volume 2 de A Invenção do Cotidiano: morar, cozinhar, L. Giard (Momentos e Lugares), Introito, p.

17-29; Capítulo X, p. 222-226 e Pierre Mayol (Morar, p.37-45).

193 A primeira publicação desse volume é datada de fevereiro de 1980. Recebeu uma nova edição revista e ampliada em 1994, com dois artigos de De Certeau, já falecido em 1986. Por isso mesmo, foi publicada em homenagem à memória do mentor da pesquisa e idealizador do projeto e, ao contrário da primeira edição, contém o nome de Michel de Certeau como coautoria. Essa segunda edição, de 1994, apresenta revisão de dados sociodemográficos, revisão estilística, dezenas de notas explicativas atualizadoras sem, contudo, alterar a estrutura e o projeto da primeira edição.

194 GIARD, Momentos e lugares, p. 26-27.

195 Para uma definição precisa sobre o bairro a partir da Sociologia do bairro e a Análise socioetnográfica da vida cotidiana, ver MAYOL, P. Morar. In: DE CERTEAU, M.; GIARD, L.; MAYOL, P. A Invenção do Cotidiano:

morar, cozinhar. v.2. 12.ed. Petrópolis: Vozes, 2013, p. 36-185.

196 MAYOL, Morar, p. 39.

A família R. no seu bairro

Até 1933, a família R. morava no quartier Saint-Jean. Ali nasceu Madame Marie, na casa dos pais; nesse mesmo apartamento ela morou depois de se casar, em 1917, em uma das licenças do seu noivo; ali também lhe nasceu o primeiro filho, Maurice. Ainda ocorria muitas vezes, naquela época, que os recém-casados vivessem na casa dos pais de um deles, ao menos até nascer o primeiro filho. Isso permitia “fazer economia”, mas pode-se logo adivinhar à custa de quantos conflitos familiares, dado que os apartamentos eram minúsculos. Viviam todos amontoados, uns sobre os outros, sem poder sempre proteger a sua intimidade. A crise gerada pelo regresso da Grande Guerra, a falta de poupança que esta originara (como os homens não estavam trabalhando, não sobrava nada para “pôr de lado”) forçaram o jovem casal a permanecer ainda mais um tempo na casa dos pais de Marie. Encontraram enfim, numa rua próxima, uma espécie de moradia miserável, de um só cômodo como uma alcova, uma minúscula janela que se abria para o norte, e tendo como única paisagem o muro do prédio em frente, à distância de poucos metros na ruela apertada. Ali nasceu o segundo filho, Joseph (1923). Umidade, escuridão, falta de espaço: a vida se tornava sempre mais difícil, com dois filhos. Não encontrando coisa alguma no lugar, os R. alugaram um apartamento, numa das ladeiras da Croix-Rousse, tendo uma das amigas cedido a eles o contrato de aluguel. Marie pôde enfim instalar-se decentemente

“em casa”, dezesseis anos depois do casamento.

O apartamento fica situado no terceiro andar de um prédio de canuts, na rue Rivet. [...] Em seu apartamento, a família R. fez uma instalação hidráulica na sala de estar, com uma “pia de esmalte branco”, mais funcional que a pequena pia original, talhada na pedra e instalada no fim do corredor de entrada. Essas transformações na casa constituem as grandes datas na história interna da família R., dispondo os “antes” e os “depois” a partir dos quais ganha sentido uma sucessividade orientada para o “progresso” ou ao menos para o bem- estar.197

Aqui temos a realidade simples de uma família operária francesa. Um jovem casal que, nos anos iniciais do matrimônio, aceita viver na casa dos pais para economizar e reunir condições para alugar um espaço próprio e poder chamá-lo de lar. O relato, que segue, é feito por um terceiro, no caso o pesquisador-observador, que colhe os testemunhos e os dispõe em um discurso indireto.

Tradição operária da família

De um ponto de vista objetivo e subjetivo, a família R. (que é, como lembro aqui, a síntese de numerosos testemunhos) se percebe inteiramente mergulhada em uma tradição cultural operária com a qual ela se acha fortemente identificada. Isto significa diversas coisas: em primeiro lugar, o sentimento de ser urbano de “geração em geração”; “até onde a gente se lembra, nossa família sempre foi operária”, diz Madame Marie, o que é uma certa forma de significar que ela não tem mais nenhuma relação com possíveis ramos familiares camponeses. Em seguida a própria noção de operário não remete exclusivamente ao trabalho na fábrica, mas sobretudo à ideia de

197 MAYOL, Morar, p. 74-75, aspas e itálicos do autor.

trabalhador assalariado, seja qual for a profissão exercida. Folheando os álbuns de páginas amarelecidas, vemos surgir do passado “operários”

fotografados com seu capacete e seu avental na saída das oficinas; empregados da cidade (operário de construção, condutor de bonde), um pequeno funcionário do correio, um empregado da prefeitura. Um tio-avô trabalhava numa fábrica de tecidos, um outro em um ateliê onde se fabricavam guarda- chuvas. O pai de Madame Marie trabalhava em uma bijuteria (joalheiro) em

“uma grande casa”: trabalhava admiravelmente, pelo que parece. A fotografia o representa em pose muito digna, com o cabelo aparado, os olhos ligeiramente saltados das órbitas por causa das horas de trabalho em pedras ou metais preciosos. Sua mulher, mãe de Marie, polia pedras em uma outra firma. Como diz Madame Marie, sorrindo: “Aqui todos trabalhavam com ouro e a prata; oh, sim! Mas, ter dinheiro em casa... isto já é outra coisa!”. Ser operário, por conseguinte, não é tanto estar sujeito a uma tarefa específica e sim participar, e isto é que é fundamental, de uma cultura popular, urbana, na qual predominam valores de identificação, essenciais, que giram principalmente em torno de práticas de solidariedade. À falta de ritos e contos camponeses recolhidos pelos folcloristas, a cultura urbana tem por fundamento uma prática das relações (de amizade ou familiares). Retomando as categorias propostas por Jacques Caroux, pode-se dizer que os R. e muitos dos seus vizinhos se inscrevem na classe dos operários tradicionais (que tem na ideologia do companheirismo o cimento, propondo a solidariedade como imperativo moral) e dos operários de transição (já tomados na grande empresa longe do domicílio, mas beneficiando-se ainda da solidariedade por inércia sociológica do ambiente cultural, quando vivem ainda em bairros operários tradicionais).198

O pesquisador-narrador, ainda que mantenha o discurso indireto, permite perceber na sua exposição a memória do esforço de trabalho e dura conquista de algum bem-estar pela família R. O valor da solidariedade é cultivado pela família e reflete uma disposição de cooperação entre a categoria do operariado. A mudança na qualidade de vida é fruto de um trabalho duro e que alcança resultado de geração a geração no grupo familiar. Na mesa de refeição é possível observar a raiz dos valores dessa família.

Família R. na refeição

O pão é o símbolo das durações da vida e do trabalho; é a memória de um maior bem-estar duramente conquistado no decorrer das gerações anteriores.

Por sua presença real (os R. consomem geralmente “coroas”) em cima da mesa onde reina, mostra que não há nada a temer, por enquanto, das privações de outrora. Enquanto as condições de vida mudaram consideravelmente em vinte ou trinta anos, resta o testemunho indelével de uma “gastronomia de pobreza”.

Ele não é tanto um alimento básico, mas sobretudo um símbolo cultural” de base, um monumento sem cessar restaurado para conjurar o sofrimento e a fome. Pois ele é precisamente "o que a gente gostaria muito de ter durante a

“guerra” (o pai só tinha algumas côdeas de pão que tínhamos que dividir entre todos. Papai estava muito velho e fraco, isso já não era suficiente para ele). O pão suscita o respeito mais arcaico, é quase sagrado. Jogá-lo ao chão, pisá-lo é visto como sacrilégio. O espetáculo de um pedaço de pão na lata de lixo

198 MAYOL, Morar, p. 81-82.

desperta indignação. O pão é um bloco só com a condição operária: não é tanto o pão que foi para a lata do lixo, mas a pobreza. O pão é um memorial. Em casa, o pão é colocado sobre a sua tábua própria, na extremidade da mesa, envolto no seu papel de seda, assim que se volta das compras. Só raramente ele é cortado antes da refeição. Ao principiar a refeição, o chefe de família fica em pé, na extremidade da mesa, e corta tantas fatias quantos são os comensais. Depois o serviço continua conforme os comensais vão pedindo.

Raramente há mais de uma fatia ou duas “de antemão”, por medida de precaução, para não se correr o risco do desperdício. De resto, nunca se joga fora: quando ele está muito “velho”, serve para fazer pudim ou, no inverno, para a sopa. [...] O pão tem às vezes o valor de uma prova que permite descobrir a origem social de um conviva. Se ele desperdiça o pão, de modo a pôr em risco a seriedade que o pão representa, esse conviva poderá perder todo crédito: “Ele nunca passou necessidade, esse aí, logo se percebe”. Graças ao pão, muito indiretamente, descobre-se se alguém “é por nós ou contra nós”.199

Simplicidade e comedimento no uso dos bens marcam o essencial da axiologia dos R.

A memória dos tempos de privação das gerações passadas da família e, mais amplamente, da categoria social de trabalhadores da qual fazem parte, leva-os a celebrar a vida com alegria com o gozo das conquista de um bem-estar, ao mesmo tempo que cultivando a modéstia na relação com os bens. O pão é símbolo memorial desse novo lugar alcançado e os faz recordar o percurso feito com esforços e lutas para aí ter chegado.

No documento ÉTICA DA TENACIDADE (páginas 88-91)