oficialização de um ensino discriminatório e segregacionista. O autor considera que os Portugueses evocavam as leis naturais inseridas na teoria evolutiva para explicar e justificar supostas diferenças:
Verificadas as diferenças do nível intelectual médio das crianças europeias e indígenas nos anos de idade escolar, considerado estado “semi-selvagemˮ dos indígenas, cuja a civilização não se pode fazer de um jato, mas tem de obedecer as leis da evolução; e tendo em vista o fato de elas desconhecerem a língua portuguesa, impunha-se a necessidade de uma organização especial do Ensino Primário a ministrar aos indígenas iniciando-os na “Civilização ˮ e no uso da língua e dos costumes portugueses (AUGUSTO, 1957, p.11).
Conforme Augusto (1957), o EP Rudimentar era gratuito e obrigatório para as crianças indígenas, dos 7 aos 12 anos, mas em muitos casos, eles entravam na escola com 12 anos e tinham a pré-primária, uma classe que servia de adaptação à língua escrita. Concluída a 3ª classe rudimentar, passava-se para a 3ª elementar e finalizava-se na 4ª classe, e, daí, os alunos seguiam o seu destino. Este ensino era acompanhado muitas vezes com recurso à férula.
Este sistema perdurou por alguns anos, tendo sido, entretanto, abolida a 3ª rudimentar, mantendo-se, portanto, a 3ª classe e toda a dureza do ensino e do uso da férula. O sistema de ensino só veio a mudar em 1983, quando se introduziu o 1º Sistema Nacional de Educação (SNE), depois da independência, que aboliu a pré-primária e criou novos ciclos de ensino, do primário até 12ª, e manteve o português como língua oficial de ensino.
O autor mostra-nos que a questão da Unidade Nacional e Sentimento de Nacionalidade são coisas que sofrem constantes transformações, não há razão para considerar uma língua melhor que as outras hoje porque a identidade é uma questão cultural e não política e depende sobretudo da língua de socialização praticada na comunidade.
Este assunto conduz-nos para a questão da aculturação e inculturacão, conceitos que se mostram úteis para esta pesquisa. Concordando com Montero (1996), a inculturacão foi adotada, pela primeira vez, pela Igreja na década de 1970, diante da nova conjuntura da diversidade cultural que ganhava força em todos os quadrantes do mundo. Esta adoção do termo atenta por um lado à igreja a abrir mão de certas ortodoxias que desvalorizavam as outras culturas, crenças culturais, crenças e valores não ocidentais e, por outro, à busca de alternativas para autodefesa do seu projeto universalista inicial. Esta postura se deu muito provavelmente diante das independências de muitos países, e da nova demanda que possibilitava o readaptar-se a situação mundial que se desenhava.
Monteiro (1996) afirma ainda que a noção de aculturação nos foi legada pelos antropólogos americanos que, na virada do século, procuravam elaborar uma teoria geral do contato entre civilizações. Contudo, segundo a autora, o conceito foi abandonado pelos antropólogos e posteriormente apropriado pelos pensadores católicos na tentativa de justificar a legitimidade científica à ambição de construir na América uma cultura mestiça. Assim, o conceito de aculturação enfatiza, segundo a autora, o movimento do nativo em direção à civilização, e o termo inculturação pretende descrever o movimento inverso, no qual o missionário se desciviliza, assumindo para si os valores locais. Lembra-nos que várias ações relacionadas a este pressuposto foram desencadeadas nas colônias, a produção da escrita em línguas dos nativos constitui um exemplo deste pressuposto.
Embora pareça uma resolução não equilibrada dentro de um espaço negociável, é salutar verificar que neste espaço negociável entre a missão inicialmente civilizatória e o nativo existem relações de poder que sempre tenderam a centrar em torno dos valores aos quais se identificam.
Neste cenário, encontramos casos de nativos em um processo visivelmente contraditório de assimilação, aliados a modelos externos modernos. Não é para menos. Esta situação possibilita a posição confortável e elitista com relação à maioria populacional pobre, que vive dentro das culturas e ladeada pelas suas línguas vernáculas.
De acordo com Firmino (2006), dada a desigualdade da distribuição do poder, a imposição de certo discurso será um privilégio dos que controlam os mecanismos e as instituições relacionadas com essa imposição. A diferença entre falantes de português e de línguas nacionais verifica-se com a oficialidade e prática de legitimação da língua estrangeira (português), que são sustentadas através da discriminação, marginalização das línguas nacionais. Os pressupostos de Estado-Nação dentro da perspectiva moderna possibilitaram, provavelmente, a luta desenfreada contra as características etnolinguístico e culturais dos moçambicanos, resultando na não valorização das línguas nacionais e, consequentemente, efetivando-se através da língua das relações de poder. Como já dizia Buck 1916, Greenfield 1998 – apud Rajagopalan 2003:
De todas as instituições que sinalizam uma comum nacionalidade, a língua é uma da qual um povo é altamente consciente e à qual se encontra fanaticamente ligado. Ela é a bandeira mais conspícua de nacionalidade, para ser defendida contra invasores, como também é o primeiro alvo de ataque por parte dos conquistadores que se dedica a destruir o sentimento de nacionalidade dos povos sob o seu domínio (BUCK 1916, GREENFIELD 1998, apud RAJAGOPALAN, 2003, P 93).
Nas condições políticas e econômicas em que Moçambique se encontra, não está sendo fácil implementar o ensino fundamental só com as línguas locais, porque, segundo Lopes (1999), o próprio ensino exige um grande investimento a priori e tinha que ser feito em línguas mais veiculares de todo o país, porque, de contrário, haverá mais conflitos tribais mais do que já temos. Já no tempo passado, o colonizador utilizou essa técnica entre duas etnias (NDAU e SENA), criando intrigas, guerras, fomentando o sentimento de que a língua de uma era melhor que a da outra tribo. Como resultado deste conflito, estas duas tribos são, até o momento, rivais, embora todas pertençam à mesma região e, concretamente, à mesma província. Aliás, mesmo na Igreja fez-se observar o mesmo conflito, onde cada grupo etnolinguístico reivindicava a primeira missa dominical, até que o Bispo resolveu em alternar semanalmente os idiomas para minimizar a confusão. Depreende-se, portanto, que um problema político se tornou um caso cultural.
Rajagolapan considera que: “a língua é muito mais que um simples código ou um instrumento de comunicação. Ela é antes de qualquer outra coisa, uma das principais marcas da identidade de uma nação, um povo. Ela é a bandeira políticaˮ (Rajagolapan, 2003, p. 93).
Moçambique é diferente da experiência do Brasil, onde se registra a tendência de prática de uma só língua (o português) apesar das variações. Em Moçambique o sentimento de “identidade nacional” quase que não existe, porque não se partilha o mesmo idioma, pois cada grupo tem a
sua língua e sua cultura diferente do outro grupo, com sérias dificuldades de se comunicar na língua oficial.