CAPÍTULO 4: METODOLOGIA
4.3 Variáveis e hipóteses
4.3.2 Variáveis e hipóteses do IL2
Determinamos a alternância de sequências [Cs±] ~ [Cis±] como a primeira variável dependente a ser investigada no IL2, cujos níveis são: (0) sequência [Cs±] e (1) sequência [Cis±].
Apresentamos, a seguir, hipóteses associadas à influência das variáveis independentes sobre a variável dependente em questão:
Quadro 11 - Variáveis e hipóteses do estudo “alternância de sequências [Cs±] ~ [Cis±]” no IL2.
(1) Padrão Ortográfico Espera-se que maiores índices de sequências [Cs±] ocorram em palavras que apresentam o padrão ortográfico <Cs> do que em palavras que apresentam o padrão ortográfico <Ces>. Silveira (2007) reportou que a epêntese vocálica de [i] foi favorecida em palavras do IL2 que apresentam o grafema <e> em final de palavra (e.g. made), em contraste com palavras que não apresentam tal grafema na mesma posição (e.g. mad). Outros estudos, como o de Bassetti (2017) e o de Sokolović-Perović et al. (2020), indicam que falantes de uma L2 que se deparam com um novo sistema ortográfico frequentemente atribuem um som para cada grafema (correspondência biunívoca).
(2) Tipo silábico Espera-se que determinados tipos silábicos favoreçam em maior grau a produção de sequências [Cs±] no IL2. Adicionalmente, espera-se que os tipos silábicos que favorecem a manifestação de [Cs±] no PB contribuam para produção deste padrão no IL2. Esta hipótese decorre do estudo de Nascimento (2016), que reportou que o fator tipo silábico influencia a produção de encontros consonantais em posição medial no inglês falado
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por brasileiros, e que determinadas sequências em emergência na L1 servem como atratores para a produção de sequências análogas na L2. Na presente tese, investigaremos os tipos silábicos [ps], [ts], [ks], [bz], [dz] e [gz].
(3) Tarefa de produção Espera-se que maiores índices de produção de sequências [Cs±] ocorram na tarefa de contagem de figuras do que na tarefa de leitura. Delatorre (2006) investigou sequências de oclusivas adjacentes por falantes brasileiros de IL2. Segundo a autora, o input ortográfico, presente na tarefa de leitura, favoreceu maiores índices de produção da vogal epentética do que a tarefa de produção oral livre, que não apresentou qualquer estímulo ortográfico. Demais estudos que avaliam a epêntese vocálica por falantes de IL2, como o de Silveira (2007) e o de Fernandes (2009), também apontam a relevância desta variável.
(4) Nível de proficiência Espera-se que maiores índices de produção de sequências [Cs±] ocorram entre falantes de nível avançado, em contraste com falantes de nível básico. Estudos sobre a ocorrência de epêntese no discurso de falantes brasileiros de IL2 investigaram a relevância deste fator (GOMES, 2009;
SCHNEIDER; SCHWINDT, 2010; NASCIMENTO, 2016;
NASCIMENTO, 2019). Todos eles foram unânimes ao afirmarem que há uma correlação positiva entre o nível de proficiência e o desenvolvimento fonológico da L2.
(5) Item lexical Espera-se que cada item lexical esteja sujeito a um percurso de desenvolvimento distinto, estando mais ou menos propenso à realização de sequências [Cs±] em posição final. Esta hipótese se baseia nas premissas da Teoria de Exemplares (JOHNSON, 1997; BYBEE, 2001, 2016; PIERREHUMBERT, 2001), cuja palavra se mantém como o lócus das representações mentais.
(6) Indivíduo Espera-se que cada indivíduo apresente diferentes índices de produção de sequências [Cs±] em posição final. Estudos pautados no desenvolvimento de L2, como o de Verspoor, de Bot e Lowie (2011), apontam que a variação intra e interindividual é essencial para a compreensão de fenômenos linguísticos e de novos padrões de comportamento nos SDCs.
Fonte: o autor.
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De modo análogo aos estudos conduzidos no PB, esta tese também propõe uma análise gradiente para os dados do IL2. Determinamos o vozeamento da sibilante final como variável dependente do segundo estudo, cujos níveis são contínuos e expressam valores da razão harmônico-ruído (HNR). Apresentamos, a seguir, as hipóteses associadas às variáveis independentes do IL2:
Quadro 12 - Variáveis e hipóteses do estudo “vozeamento da sibilante final” no IL2.
(1) Contexto fonológico seguinte
Espera-se que a sibilante final do IL2 seja vozeada em maiores índices quando é seguida de uma vogal (e.g. two bag[z] are seen), em contraste com quando a sibilante é seguida de uma pausa (e.g. two bag[s]). No PB, sibilantes em limite de palavra estão sujeitas à assimilação regressiva de vozeamento (e.g. o[z] animais). Assim, é possível que os falantes brasileiros de inglês transfiram tal propriedade de vozeamento para a L2 (FRAGOZO, 2017).
(2) Contexto fonológico precedente
Espera-se que a sibilante final do IL2 seja vozeada em maiores índices quando é precedida de consoante vozeada (e.g. bags [bæɡz]) ou de vogal epentética (e.g. pubs [pʌbiz]), em contraste com quando a sibilante é precedida de consoante não vozeada (e.g. cats [kæts]). Esta hipótese segue de resultados reportados no estudo piloto desta tese (cf. seção 2.4).
(3) Tarefa de produção Espera-se que maiores índices de vozeamento da sibilante final ocorram na tarefa de contagem de figuras do que na tarefa de leitura. Young- Scholten e Langer (2015) investigaram a produção da fricativa alveolar vozeada em início de palavra por falantes ingleses de alemão como L2.
Segundo os autores, a presença do grafema <s> em testes de leitura induziu os participantes a produzir a sibilante [s] ao invés da forma-alvo [z]. A expectativa, portanto, é de que falantes brasileiros de IL2 também sejam influenciados negativamente pela presença de input ortográfico.
(4) Nível de proficiência Espera-se que a sibilante final do IL2 seja vozeada de forma mais acurada entre falantes de nível avançado, em contraste com falantes de nível básico. Esta hipótese decorre do estudo de Fragozo (2017), que avaliou a produção de sibilantes finais cujo vozeamento é esperado. Segundo a autora, a produção da fricativa [z] estava mais associada a falantes de nível avançado do que a falantes de nível básico. Adicionalmente, a Teoria de
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Exemplares assume que um maior grau de experiência com a L2 conduz a representações cognitivas mais robustas e acuradas.
(5) Item lexical Espera-se que cada palavra apresente diferentes graus de vozeamento da sibilante final no IL2. Isso porque a Teoria de Exemplares considera que a palavra é o lócus da representação. Consequentemente, cada palavra tem a sua representação detalhada e pode ser afetada de forma distinta por fenômenos linguísticos diversos (JOHNSON, 1997; BYBEE, 2001;
PIERREHUMBERT, 2001).
(6) Indivíduo Espera-se que cada indivíduo apresente diferentes graus de vozeamento da sibilante final no IL2. Isto porque o comportamento de cada aprendiz é único, devido às suas experiências individuais de aprendizado com a língua. A análise do comportamento de cada indivíduo dialoga com a Teoria de Exemplares e com a Teoria dos Sistemas Dinâmicos Complexos, uma vez que a variação intra e interindividual é um componente central para a compreensão do sistema linguístico (BYBEE, 2001, 2016; VERSPOOR; DE BOT; LOWIE, 2011).
Fonte: o autor.
Passemos, neste momento, à descrição do protocolo experimental adotado nesta tese.