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Verbum exterius e Verbum interius

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 96-99)

3. UNIVERSALIDADE DO LINGUÍSTICO

3.2 Verbum exterius e Verbum interius

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problema da Trindade sempre instigou a racionalidade de Agostinho, e junto com este problema clássico da Cristandade, vem a questão da Encarnação. Pois bem, com o intuito de esclarecer o quanto possível a Encarnação do Filho de Deus, sem decaí-lo demasiado, Agostinho utilizou-se dos conceitos da Stóa, os quais emprestavam às questões nascidas recentemente no cristianismo uma compreensibilidade maior.

É com o intuito de aprofundar ainda mais esta noção nascida na filosofia estóica que abordaremos seu correlato direto na filosofia de Agostinho: o verbum interius (lógos endiáthetos) e o verbum exterius (lógos proforikós). Com efeito, esta reflexão terá por fim aprofundar a compreensão dos conceitos sugeridos pela Stóa e esclarecer de que modo eles podem nos ajudar na tarefa de defender nosso autor, Hans-Georg Gadamer, das investidas de Habermas.

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Este elogio à hermenêutica elaborada por Agostinho parte de Martin Heidegger. De fato, o que leva Heidegger a fazer tão alto elogio à hermenêutica elaborada por Agostinho é a retomada da noção estóica de lógos endiáthetos e lógos profórikos, valorizada por Agostinho.

Tamanha é a admiração de Heidegger a Agostinho, que Gadamer afirma ser ele o único filósofo da tradição sobre o qual a crítica heideggeriana acerca do esquecimento não deve ser aplicada: Existe, no entanto, um pensamento [o agostiniano] que não é grego e que faz justiça ao ser da linguagem: a ela se deve que o esquecimento da linguagem pelo pensamento ocidental não se tornasse total124.

E Heidegger tem Agostinho em tão alta conta por causa da sua retomada da questão da palavra interior e exterior. Embora a doutrina estóica não pareça contribuir muito para um pensador confessadamente cristão, ela é fundamental para entender um dogma crucial para o cristianismo: a Encarnação. A teoria da Stóa repercute na reflexão teológica e encontra um entusiasta de suas teorias em Agostinho de Hipona, mais especificamente na tarefa de esclarecer conceitualmente como o Verbo Eterno pôde entrar no tempo. Essa é a aplicação principal da tese da palavra interior e exterior: como é possível “o Filho de Deus ser, de tal forma, pensado como Verbum ou Logos, sem conceber o Verbum como simples exteriorização sensível de Deus125? Responde Agostinho: A palavra é o que dizemos no coração: que não é nem grego, nem latim, nem qualquer outra língua”126.

O Verbo Eterno, embora não seja ainda o verbo encarnado, já é o verbo encarnado.

Entramos (só de passagem) no campo do “já” e do “ainda não” do teólogo. A reflexão hermenêutica tem que lidar com a questão da Eternidade do Verbo e da sua concretização histórica. Assim como existe um hiato e uma aproximação entre a palavra exterior e a interior,

124 VM, p. 611. Destaque nosso.

125 GRONDIN, Jean. Introdução à hermenêutica filosófica. São Leopoldo: Unisinos., p. 75.

126 AGOSTINHO. De Trinitate, XV, cap. 10, 19. São Paulo: Paulus, 1995: “Verbum est quod in corde dicimus:

quod nec graecum est, nec linguae alicujus alterius”.

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Agostinho sugere que entre o Verbo Eterno e o encarnado existe a mesma natureza de relação.

De algum modo, a palavra interior e a palavra exterior agem na filosofia de Agostinho de modo aproximativo e contencioso:

Já a maneira como a especulação teológica sobre o mistério da encarnação se conecta, na patrística, ao pensamento helenístico, é muito significativo para a nova dimensão a que aponta. De início procurou-se fazer uso da oposição conceitual estóica entre logos exterior e interior. Essa distinção deveria destacar na origem o princípio estóico do mundo que era o logos, da exterioridade do puro falar por imitação127.

A Encarnação só é possível se o Verbo Eterno não necessitar ser idêntico ao Verbo Encarnado. Ora, a nossa referência que é a doutrina dos estóicos, afirma que o lógos exterior nunca esgotará o lógos interior. Mais: é o lógos interior quem funda o lógos exterior, e não o contrário. A reflexão de Agostinho sobre a natureza da Trindade, e muito especialmente sobre a idéia de Encarnação, toma emprestada dos estóicos a distinção entre Palavra Interior e Palavra Exterior. O Mistério da Encarnação alcança seu grau mais elaborado na analogia entre os termos utilizados pela Stóa e os novos conceitos introduzidos pela Patrística e por Agostinho. Assim como o Verbo Eterno é imaterial e imutável, a Palavra Interior se lhe assemelha. O mesmo ocorre com o Verbo Encarnado, que tem como análogo a Palavra Exterior, material e mutável. No entanto, ainda que Agostinho indique uma dupla orientação na reflexão acerca do lógos, é evidente nos textos a desvalorização da palavra exterior promovida por Agostinho: Não afirmamos como é, senão como pode ser visto e ouvido pelo corpo128.

Não importa o que se diz, nunca se dirá o suficiente. Esta perspectiva acerca da palavra exterior gera em Agostinho uma grande resistência a qualquer sinal de linguagem exterior, concreta. Com efeito, a noção de Verbum Interius subverte a noção de que a

127 VM, p. 610.

128 Citado por Gadamer in: VM, p. 611: Non dicitur, sicut est, sed sicut potest videri audirive per corpus.

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linguagem fala do que é. O máximo que a linguagem pode realizar é uma aproximação do problema e uma indicação para se aprofundar propriamente na questão a partir do Verbum Exterius. Para Agostinho, o foco da reflexão não é jamais a palavra exterior, mas aquele lógos interiorizado: A ‘verdadeira’ palavra, o verbum cordis, é inteiramente independente dessa manifestação... Essa palavra interna é, pois, o espelho e a imagem da palavra divina129.

Enfim, a reflexão de Agostinho, que encantou Heidegger, ocupa-se em determinar a relação entre o lógos profórikos e o endiáthetos, aplicando “um desprezo inteiramente platônico pela manifestação sensível130, e valorizando a palavra interna. A intenção é explicitar o modo como o Verbo Eterno pôde entrar no tempo sem desvincular-se de seu caráter divino.

Ao que parece, a reflexão acerca do duplo modo de ver o verbum em Agostinho recebeu um grande impulso na perspectiva de Heidegger. Com o intuito de compreendermos o que este autor tem a nos dizer, nos debruçaremos agora sobre o modo como ele herdou as noções de palavra exterior e interior, pré-existentes em Agostinho e nos Estóicos.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 96-99)