Cabe aqui destacar que as alterações realizadas no Largo da Matriz acompanham processos de transformação de toda a cidade. Quando da reforma do largo em 1911, Araraquara, desde 1908, já passava por febril processo de construção de elementos urbanos. A elite cafeeira, no início do século XX, investiu na construção de uma paisagem urbana e visou através desta a determinação espacial da cidade. Deste modo, a transformação do capital proveniente do café em poder político no espaço urbano foi permeada por um projeto, ou, como aponta Augé:
A linguagem política é naturalmente espacial (nem que seja quando se fala em direita e esquerda), sem dúvida porque lhe é necessário pensar simultaneamente a unidade e a diversidade – sendo a centralidade a expressão mais aproximada, mais cheia de imagens e mais material, ao mesmo tempo, dessa dupla e contraditória obrigação intelectual (AUGÉ, 2007, p.61)
É a esta linguagem política em uma dimensão espacial que tanto o largo quanto a própria Igreja estão submetidos. Um largo que abriga uma serpente e uma igreja eternamente em reforma. Bem como todos os elementos urbanos que compõem a cidade constituem sua paisagem urbana em cada época. Organizar os elementos urbanos é um projeto político. Como bem aponta Halbwachs:
Quando um grupo vive muito tempo em lugar adaptado a seus hábitos, não somente os seus movimentos, mas também seus pensamentos se regulam pela sucessão das imagens que lhes representam os objetos exteriores (HALBWACHS, 1990, p.136)
progresso por 100 anos, e que, do ódio daquele linchamento, gerara-se o gérmen de uma serpente que viveria embaixo do prédio da matriz. E que, se Araraquara um dia terminasse a reforma da Igreja, a serpente sairia à luz com o objetivo de destruir a cidade 62.
5.2.2 Segunda versão
Diz a lenda que uma mulher teve um filho indesejado e o jogou no córrego que ficava em frente à Igreja Matriz de São Bento (atualmente canalizado).
A criança se transformou numa serpente, que estaria vivendo no porão da igreja até os dias de hoje, e cada vez que a serpente se mexe ela derruba uma parte da igreja que nunca fica pronta. A cada oito anos, durante sete minutos a serpente acordaria, derrubando um pedaço da Igreja. A mesma lenda conta ainda que a cabeça da serpente se encontra na própria igreja e o rabo se estende até o Cemitério dos Brito. Esse é um dos motivos pelo qual há uma águia na frente da igreja. O animal, que não faz parte da fauna brasileira, deve “caçar” a serpente quando ela “acordar”. (PORTAL G1, 2012)63
5.2.3 Terceira versão
Com certeza você que mora em Araraquara já entrou ou passou perto pelo cemitério dos Brito, este relato foi mandado para o nosso e-mail e não querem se identificar, eu colocarei do mesmo jeito que escreveram para nosso email” (INFORMATIVO RIZADÃO64. 2012 ou 2013 [indefinido]) E segue:
Afirmam que o linchamento foi testemunhado por uma criança, não identificada, e pelo Padre Antonio Cezarino, o qual recolheu os restos dos Brito com uma carriola enquanto amaldiçoava a família Carvalho e a cidade.
A mãe de Rozendo arrasada, deixou a cidade logo após o crime. Conta a lenda que raspou a sola dos sapatos para não levar a terra desta cidade maldita, e que a cidade não se desenvolveria da Matriz para baixo. Uma das versões diz que os corpos foram arrastados por cavalo até o local onde foram enterrados. Outra versão da maldição diz que os corpos dos Brito estão enterrados no altar da capela do cemitério dos Brito e que anos mais tarde deveriam ser retirados de lá, mas o coveiro não o fez pois eles vertiam sangue (INFORMATIVO RIZADÃO. 2012 ou 2013 [indefinido]).
5.2.4 Quarta versão
Versão oferecida por Rita Michelutti65, contada por seu pai Oswaldo Michelutti, sobre as razões do assassinato dos Brito. A história que seu pai contou afirma que o Padre Cesarino organizou na época quermesses para
62 Das versões sobre o mito esta é a mais popularmente conhecida
63O Portal G1 é um site de notícias de abrangência nacional que na oportunidade de matéria sobre a atual reforma da Igreja Matriz abordou a questão do mito da serpente.
64 O Informativo Rizadão é um jornal de circulação restrito, geralmente disponibilizado em pequenos estabelecimentos comerciais. Aborda temas cotidianos da cidade e circula em bairros da cidade, como por exemplo, a Vila Xavier.
65 Moradora de Araraquara e funcionária pública. Por ter conhecimento de pesquisa que realizo, transmitiu esta versão em diálogo na mesa da cozinha de sua casa. Esta versão contada por Rita foi veiculada na cidade de Santa Lúcia. Santa Lúcia é uma cidade de porte pequeno, vizinha a Araraquara, as duas cidades compartilham elementos históricos e fluxo populacional. O diálogo foi anotado no caderno de campo.
arrecadar fundos para a reforma da igreja Matriz. A comunidade doa objetos e animais para a igreja, que são leiloados. O dinheiro arrecadado seria utilizado para a reforma da igreja. Os Brito, por sua vez, eram responsáveis por guardar este dinheiro em sacos, amarrar suas bocas e guardá-los na sacristia da igreja. Um dia a família (Rita faz referência aos Carvalho) vai buscar este dinheiro e encontram a sacristia vazia. Os Brito são acusados de ladrões, o povo, enfurecido, lincha-os, pelo roubo do dinheiro da comunidade. Prova desta versão é que jamais poderiam ter sido linchados sem a conivência do padre, pois o linchamento ocorreu em frente à igreja.
Neste caso o padre foi conivente, pois eles foram acusados de roubar o dinheiro da igreja. O bispo de São Carlos, ao saber do ocorrido, lança a praga a Araraquara, em represália às mortes. Mais tarde, um membro da comissão responsável pela gestão do dinheiro da quermesse retorna de São Paulo e afirma que o dinheiro foi guardado em sua casa, antes de sua viagem, por segurança, dado o volume arrecadado na quermesse. Os Brito teriam sido então julgados injustamente.
5.2.5 Quinta versão66
No início da colonização de Lages, mulheres lavavam roupas em alguns olhos d’água transformados em um lago onde hoje está o Parque Jonas Ramos, o Tanque, bem no Centro da cidade.
Conta a lenda que, naquela época, um coronel engravidou uma escrava. A mulher, com medo que o homem a matasse e o bebê, jogou o próprio filho no lago.
A criança virou uma grande cobra, cuja cabeça está no Tanque e o corpo ao longo do Rio Carahá, que corta a cidade. A padroeira de Lages, Nossa Senhora dos Prazeres, estaria com um pé sobre a cabeça do animal.
Se os devotos tirarem a imagem da Catedral ou não agirem corretamente, como bons cidadãos, a Santa deixará de proteger a cidade, tirando o pé de cima da cobra, e Lages será completamente inundada. Apenas a cruz da igreja Santa Cruz, no Centro, ficará fora da água.
Todo cuidado é pouco. A serpente está mais viva do que nunca!
5.2.6 Sexta-versão
Quando esse lamentável assassinato ocorreu, houve grandes tumultos na cidade e desde então surgiu a lenda: No decorrer do caminho de onde eles foram assassinados até onde eles foram enterrados (onde hoje é o cemitério Brito) formou-se um rastro, e este rastro se transformou em uma gigantesca serpente que viria para vingar suas mortes. Para manter a serpente presa em terra foi construída em cima dela uma igreja, no caso, a Matriz de São Bento.
Lenda ou não, a construção da igreja jamais foi terminada, gerando o rumor de que a serpente se debatia em baixo da terra tentando sair quando
66 Versão apresentada em ambiente virtual por Pedro Gomes da cidade de Lages, Santa Catarina. Esta versão foi obtida através de pesquisa via internet com o objetivo de encontrar versões que pudesses ter relação com o mito da serpente analisado neste trabalho. Acessado em: 30 de novembro de 2014. Disponível em: Fonte:
http://wp.clicrbs.com.br/diariodaserra/2013/06/19/serpente-gigante-ameaca-inundar-toda- lages/?topo=67,2,18,,,67
começavam a reformar. A igreja diz não ter dinheiro o suficiente para terminar a reforma do local (CARDILLO, 2010)