Apesar de ter atuado no cargo ao longo de quase todo o ano de 1994, Junia Nogueira de Sá foi uma das ombudsmans que menos abordaram o tema “eleições” em suas colunas:
foram apenas 14 textos. A baixa produtividade pode ter se dado em decorrência de uma campanha que a própria jornalista classificou como de “uma chatice inacreditável”
(“Enquanto a campanha não esquenta”, de 28 de agosto de 1994), frustrando expectativas de uma corrida eletrizante após o trauma do impeachment vivenciado pelo presidente Fernando Collor de Melo, dois anos antes. Além disso, em muitas das colunas, a ausência de fatos relevantes parece contaminar a própria ombudsman, que se repete na reprodução de reclamações de leitores sobre um suposto “fernando-henriquismo” na cobertura da Folha a cada pesquisa que era divulgada e que mostrava a virada de jogo de FHC sobre o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que começou a fase de pré-campanha na liderança.
Tamanha insistência dos leitores na reclamação e a visível repetição da ombudsman nas abordagens sobre o assunto em suas colunas indicam, contudo, que o jornal vinha adotando, sem correção a contento e de forma contumaz, as práticas que eram motivo de críticas de quem lia o jornal em casa e da própria colunista. Em “Por um punhado de manchetes”, de 17 de abril de 1994, Junia cita o problema pela primeira vez nesses termos e o atribui não só à Folha, mas a outros veículos da chamada grande imprensa, concluindo que
“diante da possibilidade de ver reeditada no Brasil uma Operação Mãos Limpas como a que sacudiu a Itália,” a imprensa estava “evidentemente maravilhada – e anda trocando seu compromisso com a precisão, a isenção e a verdade por um punhado de manchetes” (SÁ, 1994c):
O campeão de reclamações da semana, no entanto, foi o título transformado em manchete na edição do último domingo, "Lula e FHC lideram pesquisa". Bastava ler a reportagem para perceber que Lula está 16 pontos percentuais à frente de Fernando Henrique na pesquisa Datafolha – o candidato do PT alcançou 36% e o do PSDB, 20%. Nem todas as explicações vão convencer a mim e aos muitos leitores que protestaram de que a Folha não praticou "fernando-henriquismo" naquela manchete.
Esse, ao que parece, está virando o esporte preferido pela imprensa nacional (SÁ, 1994c – “Por um punhado de manchetes”, 17 de abril de 1994).
O problema com os títulos, aliás, virou uma espécie de desafio semanal, em que os leitores eram provocados a entrarem em contato com a ombudsman, por carta ou telefone, para narrar os erros que haviam encontrado. Com a campanha eleitoral em curso, os exemplos de manchetes com conteúdo duvidoso apareceram aos montes nas colunas de Junia Nogueira de Sá:
Na edição de terça-feira, "FHC quer o real em 1º de julho". A reação de uma leitora paulistana: "Ele nem é mais o ministro da Fazenda. Parece campanha da Folha pelo candidato. Será que o título seria o mesmo se fosse Lula quem quisesse o real nessa data?" Boa pergunta. (...) O outro saiu na edição de quinta-feira: "Lula declarou admirar Hitler e Khomeini". O verbo, sutilmente no passado, não foi o bastante para fazer os leitores entenderem que a declaração tinha quinze anos de idade. "Só ficou faltando explicar isso, esse pequeno detalhe", ironizou um leitor do Rio de Janeiro.
"Tive que ler a matéria inteira para descobrir." Boa observação (SÁ, 1994d – “A foto de perto, a foto de longe”, 24 de abril de 1994).
Quando esses desvios não apareciam nos títulos, podiam ser observados no teor das matérias. Em 13 de março de 1994, na coluna “O declaratório e o explicatório”, Junia Nogueira de Sá não chega a falar em “fernando-henriquismo”, mas critica o jornal por aderir a termos divulgados pelo Governo Federal sem questioná-los, como as narrativas de que estavam sendo praticados preços abusivos e que atentavam contra a política fiscal do Governo Itamar Franco. Já em “A hora da virada”, de 17 de julho de 1994, a ombudsman critica o fato de que, apesar de os candidatos a vice de Lula, José Paulo Bisol, e de FHC, Guilherme Palmeira, terem enfrentado denúncias, o caso do postulante da campanha do PSDB recebeu menor atenção nas coberturas, algo que, novamente, a ombudsman joga na conta não só da Folha de S. Paulo, mas da grande imprensa, de forma geral:
O noticiário sobre irregularidades na vida pregressa do vice de Lula, José Paulo Bisol, continuou dando tom da semana que passou nas páginas de política de toda a imprensa. Enquanto se discute o que o ex-senador fez ou deixou de fazer, e se ele renuncia ou é mantido pelo PT, outro vice denunciado por irregularidades (no caso, recebimento de propinas de uma empreiteira beneficiada por emendas ao Orçamento) passa quase despercebido. Ainda que a Folha tenha reagido e voltado ao assunto nas edições de sexta-feira e sábado, Guilherme Palmeira tem sido mais poupado do que certamente esperava. O vice de FHC se beneficia do "fernando- henriquismo" que acomete a imprensa brasileira. Ou, como já perguntei antes, isso tem outro nome? (SÁ, 1994g – “A hora da virada”, 17 de julho de 1994).
A ombudsman aproveita essa crítica para reproduzir a reclamação didática de um leitor sobre a expectativa do público em relação à imprensa:
Na quinta-feira recebi telefonema de um leitor da capital que resume o sentimento de eleitores de outros partidos, PSDB incluído. Dizia ele: "Se o vice do meu candidato fez maracutaias, eu quero saber. Não quero que a imprensa esconda isso de mim, porque quero votar sabendo exatamente o que estou fazendo. Posso até considerar que as irregularidades denunciadas não são relevantes, e achar que Fernando Henrique e seu vice ainda merecem o meu voto. Mas isso, só eu posso decidir. E para decidir, tenho que saber a verdade" (SÁ, 1994g – “A hora da virada”, 17 de julho de 1994).
Durante a análise das colunas sobre as eleições presidenciais de 1994, observa-se que, apesar de dar vazão a todas essas críticas, a ombudsman se pronuncia de maneira apenas a constatar o problema, como quando usa expressões como “boa observação” ou “verdade” para pontuar o término dos relatos dos leitores, pouco problematizando questões como
objetividade, neutralidade e equilíbrio na cobertura. Quando isso é feito, limita-se tão somente a explicações sobre os procedimentos organizacionais que levaram à prática do expediente criticado pelo leitor. Em um dos raros momentos didáticos sobre essa temática, a ombudsman explica ao público as razões de a Folha de S. Paulo contar com um time de colunistas com as mais variadas opiniões e o porquê de não acolher reclamações de leitores pedindo a demissão de articulistas com os quais eles não concordam, especialmente na abordagem de temas políticos e relativos às eleições presidenciais daquele ano:
Ao contrário do que me pediram os leitores irados, não vou comentar as opiniões expressas nos artigos de [Carlos Heitor] Cony. Aceitei o cargo de ombudsman da Folha porque, entre outras coisas, concordo integralmente com sua proposta de ser um jornal pluralista. Está escrito na página 20 do Novo Manual da Redação: "Numa sociedade complexa, todo fato se presta a interpretações múltiplas, quando não antagônicas. O leitor da Folha deve ter assegurado seu direito de acesso a todas elas.
Todas as tendências ideológicas expressivas da sociedade devem estar representadas no jornal". Assino embaixo. Mesmo que não concorde com algumas ideias veiculadas pelo jornal, minha tarefa hoje é zelar para que opiniões divergentes encontrem a mesma acolhida. Em defesa do direito do leitor de ser corretamente informado (SÁ, 1994a – “O direito de ter opinião”, 30 de janeiro de 1994).
Um trecho anterior desse mesmo comentário é interessante pelo fato de a própria ombudsman parecer admitir a possibilidade de interferência da direção do jornal em alguns conteúdos, negando que isso estivesse ocorrendo especificamente com Carlos Heitor Cony, alvo da ira de alguns leitores porque, em coluna publicada na Folha, associou o PT ao Partido Nazista. Uma leitura possível é também a de que ela estivesse apenas reafirmando que todo e qualquer colunista não sofre censura por parte da redação do periódico:
Cony é um jornalista conhecido, de opiniões bem lidas, a quem o jornal reservou um lugar nobre nas edições diárias. Pode escrever o que quiser naquele espaço sem sofrer restrições da Redação, menos por tudo isso do que pelo compromisso da Folha com ele e com mais de 2 milhões de leitores (SÁ, 1994a – “O direito de ter opinião”, 30 de janeiro de 1994).
Em “A foto de perto, a foto de longe”, de 24 de abril de 1994, a ombudsman volta a falar em pluralismo e apartidarismo, reafirmando a posição do jornal como isento após novas provocações de leitores sobre a suposta preferência do periódico por um candidato:
O Conselho Editorial da Folha não se reúne há um mês e meio. No último encontro, testemunhas tão confiáveis como o jornalista Janio de Freitas asseguram que nenhum apoio a qualquer candidatura foi discutido, e o nome de Lula não chegou a ser mencionado. O jornal continua com sua opção preferencial pelo leitor, buscando um jornalismo independente, apartidário e pluralista – ainda que com falhas que a ombudsman pode e deve apontar, na defesa do direito do leitor à informação correta e isenta. Foi por essa razão que eu aceitei o cargo de ombudsman aqui (SÁ, 1994d –
“A foto de perto, a foto de longe”, 24 de abril de 1994).