recolhendo, nos armários do Terreiro, aqueles objetos que tivessem relação com Mãe Biu e seu período, como as louças mais antigas usadas nos dias de “toque”, mas não as usadas no assentamento31, que é composto basicamente por uma tigela grande, uma pequena e três pratinhos de sobremesa que foram recolhidos ao museu.
A demora na concretização do museu se deveu ao fato de Ivo ter tentado conseguir recursos com pessoas conhecidas, mas sem sucesso. Segundo Hildo, eles não tinham muitos conhecimentos e não atinaram em fazer um projeto.
Enviaram, porém, cartas, pedindo apoio financeiro à Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e à Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), que enviaram seus representantes ao local, mas, embora achassem a ideia interessante, não concederam recursos financeiros. A representante da Fundaj alegou o problema do acesso ao mesmo, pois o terreiro fica situado fora da área central da cidade de Olinda. A reforma do prédio então foi bancada por Ivo, com a ajuda de doações de pessoas amigas.
A criação do museu expressa uma preocupação do babalorixá em manter sua cultura e divulgar para a sociedade; uma busca pela visibilidade, no mercado concorrencial.Mas,vale salientar, a concorrência não é por fiéis, como nos grupos carismáticos e pentecostais, mas por visibilidade na sociedade, através da mídia, na busca por valorização e direitos sociais.
então sempre se agendam as visitas para que alguém possa abrir o terreiro e receber os visitantes.
Estas visitas seguem um padrão: assim que entram no terreiro os visitantes são reunidos no salão, previamente arrumado com cadeiras, e Hildo, ou outro membro do grupo conta aos visitantes a história do terreiro, mostrando as dificuldades, perseguições sofridas e apreensões dos objetos rituais. Os visitantes ficam sabendo que, após a morte de Arthur Rosendo, o pai-de-santo que trouxe a tradição de Alagoas, a maioria das casas de tradição Xambá se misturou realmente com a tradição nagô, mas que eles continuaramsem mudanças. É relatado ainda que, segundo Mãe Tila, mesmo após a morte de Pai Rosendo as práticas eram feitas exatamente como na casa dele. Com a morte de Pai Rosendo, Mãe Biu precisou recorrer a outro pai de santo e o fez a um da nação nagô, mas só para o abate de animais; após o abate ele ia embora e o restante do ritual seguia conforme a tradição xambá.
A questão da resistência e preservação da autenticidade da tradição é sempre enfatizada, explicando que, em Alagoas, grupos que se dizem da Tradição Xambá possuem uma grande identificação dos orixás com os caboclos indígenas, prática que, segundo os membros do grupo, não condiz com a tradição xambá. Esta é a questão da pureza, não cultuar caboclos indígenas no salão.
Após a explanação sobre o terreiro e sua história, o grupo de visitantes sobe ao museu, onde as explicações continuam, relatando desde a vinda da tradição para o Brasil, passando por Alagoas, até chegar a Pernambuco e ao Terreiro de Santa Bárbara.
O acesso ao museu, situado no primeiro andar, era feito através de uma sala onde se situava o memorial (Foto 4). Nesta sala se encontravam uma bancada com um computador em cima, algumas prateleiras com livros e uma mesa em madeira, sobre a qual havia livro para as assinaturas dos visitantes, a data e a procedência do visitante. Mas não havia espaço para comentários sobre o museu, como é comum encontrar em outros museus, embora nada impeça o público de externar seus comentários neste livro. Ainda nesta sala havia uma urna em madeira para o depósito da taxa de visitação, que é simbólica e foi estabelecida após passarem a receber muitos grupos de visitação. O dinheiro das visitas permanece na urna e, quando há alguma necessidade financeira na casa, eles o recolhem e utilizam.
Foto 4 - Espaço do memorial antes de se tornar um depósito
Fonte: A autora, 2010.
Utilizei o verbo no passado porque houve uma mudança neste espaço de acesso, que foi fechado com um portão de grade, dando lugar a um depósito.Sendo assim, a urna e o livro de assinaturas foram colocados dentro do museu, no primeiro andar. A criação do depósito se deve à grande necessidade de espaço para se guardar os objetos do terreiro.
Observamos que os membros do grupo não visitam o museu.Segundo Hildo,“...muitos só foram ao museu no dia da inauguração e nunca mais foram”.
Outros sobem quando trazem pessoas de fora para os “toques” e/ou para conhecer o terreiro, como verifiquei no dia do “toque de Iemanjá”.
No dia deste “toque” (29 de maio de 2011),os membros do grupo vão chegando aos poucos, outros já estavam na casa, mas nenhum deles subiu ao museu. As muitas visitas que ocorreram foram de pessoas de fora do terreiro, não adeptas do grupo.
Já no dia 15 de maio de 2011, por solicitação do pessoal do Museu da Abolição, o Museu Severina Paraíso da Silva ficou aberto ao público das 13 às 17 horas, sem cobrar a taxa de visitação, devido às comemorações da semana do museu, cujo dia é 18 de maio (Maria do Carmo Oliveira, tesoureira da instituição, Informação oral, abril de 2011).
Neste dia, exposto na fachada do terreiro havia um banner do Circuito dos Museus (Foto 4- sala do memorial), um evento promovido pelo Fórum Nacional dos Museus, aberto a qualquer museu, como também a instituições que não sejam museus, mas que possuam objetos, fotos ou documentos que representem patrimônio cultural. O Arquivo Público Jordão Emerenciano, por exemplo, já fez parte deste evento, que ocorre em um só dia.
Neste ano, porém, o dia coincidiu com o jogo final do Campeonato Pernambucano de Futebol e, pelo livro de assinaturas, pode-se perceber que só foram quatro estudantes de jornalismo. Junto a este livro havia folders com a relação dos museus que faziam parte do circuito.
Também estava previsto para este dia a aplicação de um questionário aos visitantes, com o objetivo de verificar, entre outras informações, como souberam do Circuito do Museu, mas até as 16 horas o material ainda não tinha chegado.
O público mais numeroso é o de estudantes do Ensino Fundamental e Ensino Médio, mas também é visitado por estudantes universitários, turistas de outros estados e até de outros países, além de membros de organizações não governamentais estrangeiras.
No livro de visitações estavam registrados os nomes das várias faculdades e universidades como a Faintvisa (Faculdades Integradas de Vitória de Santo Antão), Facol (Faculdade Escritor Osman da Costa Lins), também de Vitória de Santo Antão, Unicap (Universidade Católica de Pernambuco), alunos do mestrado em Ciências da Religião, Uva (Universidade do Vale do Acaraí), UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Aeso (Faculdades Integradas Barros Melo), UFPA (Universidade Federal do Pará), UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), F afire (Faculdade Frassinetti do Recife), Fir (Faculdade Integrada do Recife) e Universo (Universidade Salgado de Oliveira).
Entre as escolas, algumas eram públicas estaduais, como a Escola Nossa Senhora do Carmo, a Escola Estadual Pintor Lauro Vilares e a Escola Luiz Delgado, e algumas eram particulares, como a Escola Arco-Iris. Estas escolas vêm todos os anos nas datas comemorativas ligadas à raça negra, como o dia da abolição da escravatura, em 13 de maio, e o dia da consciência negra, em 20 de novembro.
Estes dias (13 de maio e 20 de novembro) são os de maior visitação pelos estudantes e tais visitas, em geral, são realizadas por indicação de professores que já conhecem o terreiro e levam seus alunos.
Diferentemente do Museu do Negro no Rio de Janeiro, estudado por Paiva (2009), o Museu Severina Paraíso da Silva não realiza festas comemorativas no dia da abolição, 13 de maio. Neste dia, há apenas uma pequena oferenda a Preto Velho, mas é uma cerimônia restrita, não aberta ao público.
Entre os grupos e instituições visitantes podemos mencionar o Espaço Criança Esperança, situado no Centro de Atenção Integral à Criança (Caic), próximo ao terreiro; Escola Centro da Juventude, em Peixinhos; o Grupo Afoxé Filhos de Gandhi, da Bahia; Caravana Arco-Iris pela Paz, um grupo com membros de vários países como Equador, México, Itália, França e Estados Unidos, que acamparam lá e realizaram atividades com os jovens da comunidade, e um grupo estrangeiro, Quitutes e Batuques, que também passou uma semana lá.
A criação do Memorial Xambá, como é mais conhecido, foi voltada para os membros do grupo, com o objetivo de preservar suas tradições, ou seja, fortalecer o grupo e a própria imagem do negro; a narrativa é de fortalecimento da autoestima do grupo. Diferente de outras exposições sobre o negro, observadas por Santos (2008).
O Memorial e o Museu em homenagem a Mãe Biu remetem à evocação, não de heróis negros como Zumbi dos Palmares, mas à valorização de uma mulher, negra, religiosa, cujo valor se assemelha ao de um herói. O valor não está na luta pela libertação do povo africano, mas pela preservação de crenças africanas contra as perseguições policiais e a discriminação social, remetendo a uma experiência existencial comum, vivenciada pelo povo afrodescendente, em Pernambuco.
Esta exposição exalta o valor de Mãe Biu, diferente das observadas por Santos (2008), cujas narrativas sobre a escravidão variavam de acordo com seus narradores, se estes se identificavam com os que praticaram os atos de violência ou se foram elaboradas por instituições preocupadas com o tema das relações raciais, pois nas primeiras há o risco das narrativas continuarem a reproduzir a violência.
Além do fortalecimento da autoestima, o museu foi criado também para dar visibilidade ao grupo através da exposição de seu patrimônio material para a sociedade. Segundo Hildo,“...o memorial foi criado para abrir a porta para a sociedade, para o mundo lá fora”. Ele se orgulha em dizer que este se tornou um
ponto de referência do candomblé, utilizado por pesquisadores, estudantes e interessados em conhecer mais a religião (Informação oral, maio de 2010).
O reconhecimento do Memorial, por sua importância para a Cidade do Recife, foi ratificado pela entrega do Troféu Cultura Cidade do Recife de 2005 à Instituição Memorial Mãe Biu Xambá, em 13 de outubro deste ano, pela Secretaria de Cultura e Conselho Municipal de Cultura da Prefeitura do Recife (Anexo C).
Outro aspecto observado em relação ao museu é o desejo de que este pudesse ser fonte de renda alternativa para os membros do grupo e para a casa através da venda, em uma lojinha, de objetos confeccionados por membros do grupo e lembrancinhas como bonés, camisas, canetas, que digam respeito à religião e ao Terreiro.
O desejo de arrecadar dinheiro com as visitas ao museunos faz evocar o fato social total de Mauss (2003).E podemos olhar o museu como tal, com todos os aspectos nele inseridos, desde o simbólico ao econômico, passando pelo social e político.
Os grupos de visitantes chegam por informação de outros grupos; eles não possuem um trabalho de busca, de conseguir visitantes, embora haja a intenção: “É uma intenção nossa, para que a gente não fique só esperando que as coisas aconteçam, a gente também tem que provocar, mas de fato continua sendo assim”
(Hildo Leal da Rosa, Informação oral, maio de 2010).
O turismo, neste início de século, segundo Dias (2003, p.7), impõe-se, cada vez mais, como uma das principais atividades econômicas, sendo o setor que mais emprega pessoas em todo o mundo, além de apresentar as melhores perspectivas de expansão para os próximos anos.
Em suas diversas modalidades, religioso, rural, ecológico etc., ele ganha força como uma fonte de renda alternativa para as cidades.Daí o interesse do grupo em buscar esta alternativa.
Como esta fonte de renda ainda não existe e muitas necessidades do terreiro continuam não sendo atendidas, como uma reforma que se faz necessária há algum tempo, então o grupo lançou uma campanha para arrecadar dinheiro para isto.
O convite para o toque de Oxum, que chegou por email em nome do Quilombo do Portão do Gelo, em 17/2/2014, comunicava que, no domingo seguinte, dia 23/2/2014, a partir das 16 horas haveria, no terreiro, o Toque de Oxum, com a
saída da yaô32Netinho de Oxum, que é neto do Babalorixá Ivo de Oxum. Aproveitava para avisar que estariam vendendo o DVD do Grupo Bongar, "Festa de Terreiro", por R$ 30,00 (trinta reais). O DVD foi gravado no show que o grupo realizou na Praça do Arsenal, no centro do Recife, no dia 29 de junho. Na ocasião, também seria vendido o livro “Do terreiro aos palcos”, de Marileide Alves, por R$ 20,00 (vinte reais), cuja renda seria revertida para a reforma do Novo Terreiro Xambá. Convidava ainda o leitor para se tornar um amigo (a) do Terreiro de Xambá e ser “...um parceiro (a), com uma contribuição de uma parcela de seus recursos para a reforma de sua sede no Portão do Gelo – Olinda – PE, cujo depósito deverá ser feito na conta bancária abaixo” e citava a conta e o endereço onde as pessoas
poderiam saber mais informações. O convite foi assinado por Paulinho de Oxum, da equipe de comunicação.
Este é um toque especial, pois haveria a saída da yaô, que é sempre um momento marcante. A casa, toda decorada na cor amarela, estava repleta e havia alguns fotógrafos documentando o fato.
Além dos objetos citados, ainda estavam à venda camisas de vários orixás, a vela de oxum, bijuterias feitas com pedras e sementes, e um DVD produzido pela Universidade Federal de Pernambuco. Tudo para arrecadar dinheiro para a reforma, que já possui um projeto e um orçamento, faltando apenasa verba.
Cada vez que um membro do grupo leva um novo visitante ao terreiro faz questão de levar o visitante ao museu, pois é uma forma de contar a história do grupo de modo resumido, além de reforçar sua importância pela antiguidade e resistência, categorias que se fazem presentes em todas as mensagens transmitidas sobre o grupo.
32A palavra yaô em iorubá significa “a noiva que vai casar com o orixá”; sendo assim, não importa seé um homem ou uma mulher é sempre usada no feminino a iaô.