— pode fazer um soneto sem agravo da sisudez oficial; mas aquela poesia travessa, ligeira, folgazã, de Daniel, poesia de um género novo para João Semana, poesia sem musas nem Apolo, fê-lo sair fora de si.
Joana teve que o ouvir naquele dia.
— Aí está o que você faz, aí está — dizia ele — por sua causa, pela desastrada lembrança que teve de mandar aquele doido em meu lugar é que tudo isto sucedeu. Sempre tem lembranças!
— Deixe lá, Sr. João, olhem a grande coisa! — respondia a criada. — Ora! afinal de contas, não passa de uma brincadeira.
Fosse a rapariga seriazinha, não tivesse aquela cabeça que todos nós sabemos, que já nada disso acontecia.
— Ela não é que tem a culpa.
— Não tem? Pois quem? Ele? Não que ele é rapaz. Nada lhe fica mal.
— Que diz você! Nada lhe fica mal! Então um cirurgião ou um médico pode lá ter essas liberdades? Onde é que se viu um homem na nossa posição fazer versos? Não tem vergonha.
— Ora adeus! São rapazes.
— E a dar-lhe! São rapazes, são rapazes, e acabou-se. Boa des- culpa! Essas e outras é que deitam a perder a classe.
— Mas que perde o Sr. João Semana com isso?
— Que perco?!
O facultativo, por mais que fez, não conseguiu efectivamente dizer o que perdia; por isso, passado algum tempo, continuou:
— Não é bonito aquilo, não; não é.
— Pois sim, não digo que seja; mas com os anos passa-lhe o fogo. Verá.
Em geral, nos tribunais femininos, os delitos da natureza daqueles, de que João Semana acusava Daniel, são julgados como Joana acabava de julgar este. Grande magnanimidade para com o homem, e severo rigor para com a mulher. Entrem lá na explicação do facto os que o tiverem estudado. Eu, por mim, registo-o apenas.
Houve longa discussão entre a criada e o amo, a este respeito, discussão que não deu em resultado a vitória a nenhum dos conten- dores — facto vulgar em quase todas as discussões. — Ela suscitou, porém, em Joana o desejo de se informar melhor das particularida- des do delito e da extensão dele.
Em cumprimento deste desejo, tomou a criada de João Semana a sua capa de pano, e partiu, logo que pôde, a colher noções.
Depois de muito andar, de muito perguntar e ouvir, e de muito ralhar, em defesa sempre de Daniel, ainda que, de si para si, a lisonjeasse um pouco a comparação, que todos estabeleciam, entre ele e João Semana, em grande proveito do último, deu consigo a Sr.aJoana... aonde? Em casa das duas pupilas do Sr. Reitor.
Foi Margarida quem lhe falou. Passados os usuais cumprimen- tos, e depois de tentar recusar o oferecimento do cálice de vinho que Margarida lhe fazia. e que afinal sempre aceitou, trouxe a Sr.aJoana à conversa o assunto que a preocupava.
— Então diga-me cá uma coisa, menina. Que lhe parece o nosso cirurgião novo?
Margarida fitou os olhos em Joana, como para adivinhar-lhe nas feições o sentido da imprevista pergunta.
— Que me parece? Que me há-de parecer?
— Sim; não acha que está um bonito médico para uma rapariga doente mandar chamar? — continuou Joana, sorrindo.
Ignorando ao que a velha criada de João Semana queria aludir, a pupila do reitor, a seu pesar, sobressaltou-se com esta interroga- ção.
— Mas... porque me pergunta você isso?
— Pois não sabe?! Ora a menina que há-de andar sempre fora deste mundo! Aposto que não sabe o que por aí vai com o Daniel?
— Não — respondeu Margarida, sem já poder disfarçar a sua curiosidade, à qual certa inquietação, por ela mesma mal expli- cada, se vinha misturar.
— É o que eu digo! — tornava Joana.
— Mas então que há?
A Sr.a Joana com a melhor vontade informou Margarida da his- tória da menina Francisca; já se sabe, com muita severidade de comentários para com ela, e a costumada indulgência para com Daniel.
— Aquela bandeira de torre — dizia ela — volta-se para onde lhe sopram. Louvado seja Deus! Não há olhos para que se não enfeite. E ainda o acusam a ele! Faz muito bem; é rapaz. Eu sei que para cirurgião devia ter mais juízo, devia; mas, ora!... hoje em dia, já se não repara nessas coisas. E depois ele é uma criança e se a Chica lhe não desse trela... estou que se não atreveria a... Em todo
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o caso, menina, sempre é bom trazê-lo de olho. Aquela cabeça, benza-a Deus, não vale grande coisa, não. Sempre assim foi. Como a Clarita lhe casa agora na família, é natural que ele venha por aqui. Cautela! menina. Eu bem sei que com certa gente não faz ele farinha, mas...
Afligia-a a leviandade de Daniel.
Estava-lhe, pois, destinada a cruel provação de um desengano destes?
As almas delicadas, como a dela, sofrem intensamente, sempre que vêem projectar-se uma sombra na imagem daqueles, a quem as suas afeições iluminavam de ideal. Ver abaixar-se à região das pai- xões menos elevadas e nobres, o coração que se tinha costumado a fantasiar, palpitando só de generosos instintos, é para as ferir de desalento ou para as atormentar de desespero.
Joana continuava:
— A menina ri-se! É o que eu lhe digo. Não lhe dêem muita con- fiança. Não, que ele tenha mau coração. Credo! Conheço-o de pequeno. Aquilo não faz mal a uma pomba; mas enquanto ao mais... O padre Santo António nos acuda! Eu digo que se eu fosse rapariga... Mas... que tem que está tão falta de cor, menina? Não está boa?... que sente?
— Nada — respondeu Margarida, procurando mostrar-se tran- quila. — Não tenho nada. É que está aqui muito abafado...
E, levantando-se, caminhou para a janela, a disfarçar a sua perturbação e a aspirar o ar mais livre, que chegava dali, batido pela folhagem das árvores.
— Não que olhe que sempre hoje está um calor! — disse Joana.
— Mas isso também há-de ser debilidade. A menina foi sempre de pouco comer. Beba uma água de caldo, que isso passa-lhe. Ou serão vertigens? Olhe que não é outra coisa. Eu também as tenho e daquelas! Às vezes parece que se me parte a cabeça. É como se me trupitasse cá dentro um regimento de cavalaria. O que é muito bom para isso... sabe?
Não se pode calcular para que longa enumeração de receitas tomava fôlego a Sr.aJoana, cujos conhecimentos terapêuticos a con- vivência com João Semana enriquecera, se Margarida a não inter- rompesse, dizendo-lhe da janela:
— Mas quem sabe lá se a inclinação do Sr. Daniel por essa rapariga é sincera?
E, ao dizer isto, passava a mão pela fronte, como se de facto a tivesse tomado uma vertigem.
— Boa! — exclamou Joana. — Sempre tem coisas! A menina então não sabe nem quem é o Daniel, nem a Chica do Esquina.
— Então ele é assim incapaz de gostar de alguém? — pergun- tou Margarida, com afectada indiferença.
— Ele? Ele gosta de todas. Lá por isso... Vá perguntar ao sobri- nho do regedor, que viveu com ele quando andou lá no Porto a estu- dar para padre... e olhe que também saiu um padre!... de se lhe tirar o chapéu; não tem dúvida nenhuma... mas vá-lhe perguntar quem é o menino. Gosta da Chica!...
Neste ponto, a Sr.a Joana fez um gesto, muito seu: fungou rui- dosamente, torcendo o nariz, fechando o olho esquerdo e prolon- gando o lábio inferior — conjunto de sinais fisionómicos, que valia um discurso.
Em seguida continuou:
— Olhe que ele soube-me muito bem dizer, no outro dia, que só lhe fazia conta mulher que tivesse cem mil cruzados, e que a queria da cidade. E ia agora gostar da Chica? estava lindo! A menina está a ver.
Esta conversa torturava Margarida. Joana, sem o saber, era de uma crueldade inquisitorial. A sua loquacidade prometia longa duração, se as badaladas do meio-dia, na torre da igreja paroquial, a não viessem pôr em sustos de chegar a casa depois de seu amo.
— Ai, meio-dia já! Senhor me dê paciência! — exclamou ela, juntando as mãos. — E eu que tenho o jantar tão atrasado! Adeus, menina, adeus, sem mais.
E tomando, toda açodada, a capa que tinha pousado, e ajei- tando à pressa o lenço engomado que trazia à cabeça, ia a sair, ros- nando a oração meridiana:
— Bendita e louvada seja a hora, em que meu Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo padeceu e...
Mas ao transpor o limiar da porta, achou-se inesperadamente em frente de Clara, que a obrigou a parar.
Segundo o costume, vinham radiantes de alegria as simpáticas feições da irmã de Margarida.
Ao ver Joana, saiu-lhe dos lábios uma exclamação de prazer:
— Viva! Já não há quem a veja, Sr.a Joana! Eu até principiei a rezar-lhe todas as noites por alma um Padre-Nosso e uma Ave-Maria.
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Joana, a quem tanto quadrava este génio folgazão e descuidado de Clara, tinha por costume fingir, na presença dela, que o não podia sofrer; mas o jeito que, a seu pesar, lhe tomava a boca, inuti- lizava-lhe a dissimulação.
— Olhem os meus pecados! — disse ela voltando para a sala. — Inda mais esta! Boa te vai! Estou bem aviada!...
Clara pusera-se a olhá-la com atenção e espanto afectado.
— Então que tafularia é esta?! Lenço novo de cassa! Já repa- raste, Guida? E arrecadas! Ai! Estou para morrer! O mundo perde- -se! Agora é que eu o digo.
— É para que veja — disse Joana, custando-lhe a manter a serenidade.
— Ó Joana, você irá casar-se?
— Olhem, olhem... ela aí vem com as suas tolices! Tenha juízo.
— Não, mas... sério, isto tem que se lhe diga... E penteada! Ai, e penteada!
— Que penteada? que penteada? Cuida que todas são como ela.
Sempre está uma mulher casada!
— Ainda não, se faz favor.
— Pobre do homem! Melhor sorte merecia aquele Pedro, que tão bom mocinho era... e é.
— Ah! como ela diz isto! Querem ver que... Queres tu ver, Guida, que... Pois será com ele? Veja o que faz, Joana, olhe que eu...
— Adeus! Sabe o que mais? Não estou para a aturar. Deixe-me ir embora, ande.
— Embora? Isso é que não vai daqui tão cedo.
— Ih, Jesus Senhor! Deixe-me ir, que é meio-dia e faz-se-me tarde. O meu amo está à espera... Valha-me Deus! Ora o que me havia de aparecer?
— O seu amo? Ainda há pouco ele ia para a banda dos Casais.
— Num momento põe-se em casa. Deixe-me ir, menina.
— Não vai.
— Olhem que praga! Então? Isso não tem graça nenhuma. Não vê ali a Margaridinha como tem juízo?
— Venha-me com isso, a ver se me mete em brios.
— Ai, cuida que eu tenho os seus cuidados? Menina, deixe-me ir embora. Que seca!
— Deixa-a ir, Clara, deixa, que pode fazer falta — disse por fim Margarida, que as estivera escutando, distraída.
— Vá lá; em atenção à Guida. Mas há-de vir então pelo quintal, que lhe quero dar um ramo para o Sr. João Semana.
— Não que ele está agora mesmo à espera dos seus ramos, nem dorme com a lembrança.
— Há-de levar-lhe um ramo de meu mando. Já disse. Amores antigos não esquecem.
— Olhe, deixe antes isso para o cirurgião novo, que esse é que não lho enjeita.
— Quem? o Sr. Daniel? Ai, é verdade... Tu sabes, Guida? — disse Clara, rindo. — A Chica do tendeiro...
— Sei, sei — respondeu Margarida, erguendo-se com vivaci- dade.
— Sempre tem uma cabecinha o tal senhor meu cunhado! Mas eu por mim sou ainda pelo João Semana. Olhe Joana, diz-lhe você que me faça uns versos também? Assim como os do outro.
— Ai, vai já fazê-los; pode esperar por isso.
— Uns versos como os tais da... trigueira... Não eram da tri- gueira?
— Sim, sim; tudo se há-de arranjar.
— É verdade, que eu já sei uns que serviam.
E, saindo com Joana para o quintal, Clara pôs-se a cantar:
Morena, morena, Dos olhos rasgados, Teus olhos, morena, São os meus pecados.
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M
argarida ficou só na sala.Viera aumentar-lhe a turbação, em que estava já, esta cantiga de Clara.
Andava-lhe muito ligada a ideias do passado, para a poder escutar com indiferença.
Aquela toada era para Margarida como as palavras misteriosas que, em certos contos de fadas, se diz terem o condão de evocar dos páramos mais agrestes, jardins, florestas e palácios encantados;
povoara-se-lhe a imaginação, ao ouvi-la, um pouco de recordações ao princípio, e depois, muito de fantasias.
Encostada ao peitoril da janela, e apoiado o rosto nas mãos, assim ficou por muito tempo com o olhar vago e o pensamento mais vago do que o olhar ainda.
Se o espírito, ao sair destas exaltadas abstracções, se volta de súbito para a realidade do presente, o desencantamento é fatal e amargo. Entra-nos então no coração um profundo desgosto da vida, e como que se nos quebram as forças para continuar a acção.
Estava passando por um desses estados o espírito de Marga- rida.
As vozes joviais da irmã e os risos de Joana chegavam-lhe aos ouvidos; e afligiam-na aqueles sinais de alegria.
As vivas cores das rosas e dos cravos atraíam-lhe, a seu pesar, as vistas para os alegretes do jardim, e impacientavam-na; quase lhes queria mal por aquele aspecto festivo.