Sob esse ponto de vista, analisamos, em especial, o Jornal do Commercio em sua publicação comemorativa do centenário da Independência no período de 1822 a 1831. Guardadas as devidas proporções, um projeto semelhante ao do IHGB seria formulado pelo Jornal do Commercio em 1922. 5 Para uma visão geral da história do Jornal do Commercio, consulte o site http://www.jornaldocommercio.com.br/.
Esse breve contexto deve permitir vislumbrar a importância da fonte e dos problemas que queremos investigar nesta monografia, ou seja, a formação de uma memória histórica nas páginas do Jornal do Commercio em 1922. Jornal do Commercio ( 1922) ) afirma que, ao ler suas notícias, o leitor conheceria a história do Brasil e a própria construção do que viria a ser o Estado nacional brasileiro nos séculos XIX e XX. Diante disso, objetivamos demonstrar que o Jornal do Commercio tem delineado uma identidade nacional por meio da apresentação selecionada de suas notícias históricas.
O Jornal do Commercio, em sua edição de 1922, apresentava uma memória histórica capaz de resumir a história do Brasil para a construção de uma nova identidade nacional.
A República e os novos desafios para a formação da nação
Representações da nação: em busca de legitimidade
É bem possível que a própria consciência nacional, que se cristaliza em torno de uma ancestralidade, língua e história comuns, seja sobretudo um artifício. Como exemplos de história-memória estão as festas, os monumentos, o folclore, as datas nacionais, as bandeiras, os hinos - um património arquitectónico - que converge na identificação do nacional por parte da população. Era preciso voltar ao passado e identificar os mitos da origem da pátria, tarefa também dos construtores da nação, fazendo dessa assimilação a base de sustentação da identidade coletiva.
A República brasileira utilizou esses instrumentos de memória histórica para a construção de um universo nacional, “capaz de organizar o espaço público num processo de constituição identitária, implicando tanto a ênfase nos traços de semelhança e homogeneidade, quanto a diferenciação em relação . ao outro".47 Com a materialização de símbolos, práticas, comportamentos e valores ancorados na vida social, os construtores da nação demarcaram os contornos da constituição da identidade nacional e os modelos que a legitimariam. E é no passado que se devem procurar as raízes dessa totalidade que identifica a sociedade e o indivíduo; o novo deve ser combinado com o retorno à origem”.48 O processo de construção de uma nação republicana. O ideal republicano teria sido uma presença constante ao longo da história brasileira, começando com o Quilombo dos Palmares e a Guerra dos Mascates, passando pela Inconfidência Mineira, a Revolução Pernambucana, Farrapos e Balaiada, para finalmente se materializar em 1889, como o ápice de uma longa luta. .49.
É importante explicar que os republicanos usaram certas memórias da monarquia positivamente para estabelecer sua própria memória. Representante 'único' de uma tendência que tentou implementar uma política baseada em 'leis científicas', rejeitando o 'idealismo'. Os republicanos não tinham hino nacional próprio e cantavam a Marselhesa, por ser considerada o hino nacional dos revolucionários de todos os países.
Segundo os construtores da nacionalidade, a Inconfidência Mineira teria sido um dos eventos que provaram que o ideal republicano já era acalentado pela sociedade brasileira desde então. O papel desempenhado pelos monumentos, constituindo bens culturais associados ao passado, estabelecendo a ligação entre passado, presente e futuro, foi de grande importância para os construtores da nacionalidade na legitimação do seu regime. Os construtores da nação utilizaram principalmente a imprensa, a educação e a oralidade como esferas de ação do intelectual e do político para propagar suas ideias.54 Os intelectuais se destacaram, por meio do pensamento e da escrita, para legitimar a memória.
Vida Intelectual na República
Têm tanto os intelectuais da reação católica, Jackson de Figueiredo e Tristão de Ataíde, quanto os "verde-amarelos", Plínio Salgado e Cassiano Ricardo, ou mesmo Oliveira Vianna e Monteiro Lobato, integrantes de uma elite agrária em crise, atraído. Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, viram que a cidade, centro dinâmico da vida nacional, é o palco onde devem convergir as luzes da nova identidade. A geração intelectual da época compartilhava da ideia da necessidade de construir uma sociedade moderna para o país, mas isso dependeria da reconstrução da nação brasileira.
Com estilos divergentes, os pensamentos propostos pelas correntes tornaram-se referências constantes nos programas de governo. Oliveira Vianna, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, que estabeleceram estilos de pensamento, e principalmente se tornaram marcos obrigatórios de reflexão e ação para aqueles que insistiram e insistem em desvendar a questão nacional”.60. A produção literária no início dos anos republicanos foi de fundamental importância para a formação de uma consciência nacional.
Para o início da República temos as obras de Euclides da Cunha e Lima Barreto que retratam tanto a tensão histórica do período quanto as próprias questões culturais.61 Lima Barreto tem preocupações sociais, questões políticas e. O centenário da independência seria uma ocasião única para a intelligentsia, os republicanos, enfim, todo o grupo de construtores da nação que moldou os símbolos, as alegorias, as identidades que vão sendo recriadas na sociedade.
A Edição comemorativa
As palavras, na epígrafe deste capítulo, proferidas pelo editor do Jornal do Commercio demonstram as intenções do periódico em publicar um número comemorativo do centenário da Independência. O Jornal do Commercio utilizou os vastos recursos documentais de que dispunha para fazer uma publicação comemorativa do centenário da Independência. Assim, pareceu ao Jornal do Commercio que a melhor forma de comemorar a data do primeiro centenário da nossa independência política seria pô-la em prática e que este número especial comprova e concretiza: - o aproveitamento próprio do material que contém .
Se não é possível escrever a história do Brasil sem consultar os acervos do Jornal do Commercio, não nos caberá escrever história senão fazer uma seleção do que nos parece mais adequado para reconstruir o século da independência . vida do país que hoje confirma as felizes esperanças dos seus grandes fundadores.66. Com as análises dessa fonte documental, no período de 1822 a 1831, foi possível identificar que o Jornal do Commercio (edição comemorativa) foi escolhido para republicar, em sua maioria, assuntos sobre política. Note-se que mesmo as notícias sobre política externa, em sua maioria, compunham temas que correspondiam aos temas abordados na política interna.
Nos anos de 1823 e 1824, prevaleceram as notícias sobre a construção de um projeto de Constituição para o país. Esses nomes tiveram constância e predominância marcante durante os anos de 1822 a 1831, circulando entre os assuntos mais publicados no noticiário. Alguns personagens tiveram destaque secundário, mas as notícias em que aparecem fazem parte do projeto de unidade para o território nacional.
O jornal também destacou a notícia que mostra a insatisfação dos funcionários públicos que reclamam dos baixos salários. Como já mencionado, a maior parte das informações publicadas pelo Jornal do Commercio entre 1822 e 1831 era sobre assuntos políticos. A intenção da revista convergia com a ideia de comemorar cem anos de vida independente do país e escrever a história do Brasil por meio de acervos próprios.
O ano de 1922
A história-memória no Jornal do Commercio
O discurso do jornal, em sua redação da História do Brasil nos anos de 1822 a 1831, mostra que se criou uma história comemorativa relacionada a questões políticas. fosse à cultura, ao quotidiano ou à economia, a maior parte das notícias convergia para a sua correlação com as medidas políticas tomadas pelo Imperador. 91 O conceito de história-memória utilizado neste trabalho refere-se à análise feita por NORA, Pierre. Hegel foi um dos pioneiros que questionaram e perturbaram a historiografia - palavra utilizada pela primeira vez por esse filósofo da história - e sua interação com o Estado.
Os anos 1900 marcaram um período de intensa produção de histórias nacionais, exercendo influências correspondentes no estudo da escrita da história. Uma história de memória que começou com a Independência e convergiu para a ideia de progresso contínuo e continuidade tanto na política quanto em outros setores: a educação, a nacionalidade, a busca pela unidade territorial. A revista realizou uma memória histórica para construir uma linearidade capaz de amenizar a descontinuidade do tempo.
Da mesma forma que o futuro visível, previsível, manipulável, balizado, projeção do presente, tornou-se invisível, imprevisível, incontrolável; passamos, simetricamente, da ideia de um passado visível a um passado invisível; de um passado coerente para um passado em que vivemos como uma fratura; de uma história que se buscava na continuidade de uma memória para uma memória que se projeta na descontinuidade de uma história [..].94. Ele tentou visualizar a história como um exemplo, para não cometer os mesmos erros dos antigos. Para o homem dos tempos modernos, o passado traz consigo diferentes períodos de experiência alheios à história como mestra da vida.
O tempo que assim se acelera rouba ao presente a possibilidade de se experimentar como presente, de se perder num futuro em que o presente, impossibilitado de ser vivido, deve ser recuperado pela filosofia da história [...] . 96. A aceleração do tempo provoca um distanciamento de uma memória verdadeira, isto é, associada à oralidade, à experiência e ao processo cíclico; À medida que a memória tradicional desaparece, sentimo-nos compelidos a construir religiosamente vestígios, testemunhos, documentos, imagens, falas, sinais visíveis do que foi, como se este dossiê cada vez mais prolífico devesse ser provado em sabe-se lá que tribunal da história [ ..].97 .
Conclusão
O Jornal do Commercio também viu nas comemorações do centenário uma oportunidade de construir uma história da memória que seria o correlato da história do Brasil. No período de 1822 a 1831, as notícias publicadas mostram que o periódico selecionado em seus acervos reporta-se a uma história política. Vinculando o ano da independência - "o mito fundador da nação brasileira" - como o início de um desenvolvimento que acompanharia o desenvolvimento da própria instituição imperial.
Fontes e Referências Bibliográficas
Antecâmara do Paraíso", "Vale da Luz", "Bazar das Maravilhas" — Exposição Internacional do Centenário da Independência (Rio de Janeiro - 1922). Ronaldo Pereira de Jesus a partir da monografia de pós-graduação de Júlia Ribeiro Junqueira intitulada "A Independência como Mito Fundador da Comemorações do Centenário: A Formação do Histórico da Memória no Jornal do Commercio em 1922", coletada no dia da