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Bibliotecas do passado e do futuro Autor(es):

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Academic year: 2022

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Bibliotecas do passado e do futuro

Autor(es): Bernardes, José Augusto Cardoso Publicado por: Imprensa da Universidade de Coimbra URL

persistente: URI:http://hdl.handle.net/10316.2/46967 DOI: DOI:https://doi.org/10.14195/1647-8436_49_0 Accessed : 29-Oct-2022 23:31:57

digitalis.uc.pt impactum.uc.pt

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BOLETIM DA

BIBLIOTECA GERAL DA UNIVERSIDADE

DE COIMBRA

VOL. 49 (2019)

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Bol. Bibl. Ger. Univ. Coimbra, 49, 2019, p. 11-15

https://doi.org/10.14195/1647-8436_49_0

Bibliotecas do passado e do futuro

As bibliotecas são muitas vezes identifi cadas com o passado.

Nesta aproximação depreciativa pode subsistir uma atitude de res- peito condescendente; mas é raro que se vá além desse limite.

Esta ideia, que vai fi cando arreigada, provém de dois quadrantes diferentes. Deriva, em primeiro lugar, da vertigem tecnológica que levianamente se vem instalando e que confunde as (enormes) possi- bilidades de facilitação que os instrumentos digitais vieram trazer ao trabalho intelectual com o pressuposto (errado) da caducidade de todos os outros meios. Este pensamento revela-se perigoso e chega ao ponto de admitir a dispensabilidade do espírito crítico e do tra- balho perseverante, esquecendo que, hoje como ontem, estes dois meios estão na origem das maiores conquistas humanas.

A descrença nas bibliotecas pode ainda vir de um outro setor: refi - ro-me aos pessimistas radicais, que se deixaram tomar por uma visão sombria do futuro da Humanidade. Para aqueles que proclamam a iminência da catástrofe, as bibliotecas (e também o livro e a razão) não têm nenhuma possibilidade de resistir à barbárie que suposta- mente se aproxima. Num cenário de puro utilitarismo, as casas que guardam livros começaram já a ser vistas como fonte de despesa muito discutível. Por que motivo se haveria de continuar a investir em bibliotecas se nelas persiste apenas justamente aquilo a que as sociedades renunciaram? Num raciocínio de frio pragmatismo, bas- tariam bancos de dados em ampliação constante, sem o escrutínio e o vínculo de autoria que ainda associamos à ideia de biblioteca.

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E, no entanto, há quem, trabalhando nas bibliotecas dos nossos dias, continue a acreditar nelas. E não se trata de uma crença cor- porativa, ditada por um si mples instinto de sobrevivência. Mais do que ninguém, os trabalhadores intelectuais valorizam as bibliotecas na base de uma análise fundada e objetiva. É verdade que os servi- ços por elas prestados se vêm transformando em função dos gran- des progressos tecnológicos que assinalam o nosso tempo. Esses progressos, contudo, não desvirtuam o que tem sido essencial no desempenho da missão de preservar, classifi car e difundir informa- ção. Pelo contrário: em maior ou menor escala, a chegada do digital apenas ajuda a biblioteca a ir mais longe no serviço que presta aos seus leitores.

O segundo argumento pode ser contrariado com o contributo da perspetiva histórica. Torna-se útil recordar, em primeiro lugar, que as bibliotecas nunca foram apreciadas por todos. Assim sucedeu inclusivamente em algumas universidades, no período que costuma situar-se entre a Idade Média e o século XVIII, quando a sebenta do professor era tida por bastante, excluindo, na prática, o recurso a alternativas ou a fontes autênticas. Não faltam sequer testemunhos de casos em que se vedava aos estudantes o acesso a livros consi- derados inconvenientes, mesmo do ponto de vista científi co. Com base nestas realidades, alguns historiadores vão ao ponto de distin- guir entre dois tipos de universidades: aquelas que prestigiaram o livro enquanto fonte de autonomia na conquista do conhecimento e aquelas que viam nele um potencial foco inspirador de heterodoxia, a evitar ou a controlar.

A esse propósito, a Universidade de Coimbra não tem de temer comparações. São muitas as indicações que certifi cam o zelo pelos livros. Existe a Biblioteca Joanina, desde logo; a mesma que foi cons- truída no início do século XVIII, bem antes do advento das Luzes, representando, na sua funcionalidade e no seu aparato, um enorme investimento e uma evidente celebração do esforço intelectual.

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Bol. Bibl. Ger. Univ. Coimbra, 49, 2019, p. 11-15 BERNARDES, José A. C. – Bibliotecas do passado e do futuro

A ponto de numa das inscrições latinas que fi guram no pórtico da Livraria, se falar numa fortaleza da sapiência, que só pode ser con- quistada tendo os livros por capitães. E existe a própria Biblioteca Geral, construída no âmbito da reconversão dos edifícios universitá- rios iniciada na década de 40 do século passado. Na mesma linha do que tinha sucedido com a edifi cação da Joanina, também a trans- formação da antiga Faculdade de Letras na biblioteca moderna que viria a ser aberta ao público em 19 de março de 1962, representa um ato de vontade assinalável por parte de uma Universidade que nunca abandonou a crença nos livros.

Um outro sinal dessa crença, decerto menos notado, é a manu- tenção em Coimbra de uma verdadeira escola consagrada à biblio- fi lia e aos estudos biblioteconómicos. São muitos os nomes do passado que, em Coimbra, se distinguiram nesse campo de pesquisa.

E quando, em tempo de menos apreço pela memória dos livros, se poderia pensar que esse interesse pudesse ter esmorecido, verifi ca- mos que perduram os sinais dessa boa tradição. E é justo fazer notar que esses sinais aproximam a nossa Universidade do exemplo de outras grandes universidades europeias onde a valorização do livro refl ete a valorização do sentido crítico, honesto e racional.

Consideradas na sua valia patrimonial, as bibliotecas continuam a desempenhar um importante papel diferenciador. De tal forma que, na inevitável avaliação competitiva que hoje prevalece nos planos nacional e internacional, as bibliotecas de Coimbra asseguram um lugar de honra à Universidade. Este valor acrescentado começa por ser uma consequência da amplitude e da riqueza de fundos consti- tuídos ao longo dos séculos em que Coimbra deteve o monopólio do Ensino Superior em todo o espaço do império. Mas resulta também de uma sensibilidade especial aos livros e ao reconhecimento da sua utilidade no passado, no presente e no futuro.

Um refl exo indireto desse mesmo apreço é a história deste Boletim, que foi fundado em 1914 e agora alcança o volume 49. Ao

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longo de décadas, nele se publicaram notícias, peças de divulgação, relatórios e materiais de investigação muito diversos, assinados por nomes destacados da biblioteconomia nacional e internacional.

Assim sucede mais uma vez com a presente edição. Tal como o número 44, também este volume é dedicado a um só tema. Trata-se, desta vez, de um estudo levado a cabo por duas bibliotecárias que contam já com mais de duas décadas e meia de trabalho dedicado ao Livro Antigo. Por via da sua especialização, Maria José Ótão e Maria de Fátima Bogalho lidam diariamente com o que de mais precioso existe no nosso acervo, reconhecendo, identifi cando e descobrindo documentos de vário tipo.

Para além das suas tarefas correntes, já de si exigentes em ter- mos de tempo e de qualifi cação continuada, as referidas bibliotecá- rias encontram ainda tempo e gosto para se dedicarem à pesquisa.

Não é a primeira vez que trazem a público o resultado da sua inves- tigação. Desta vez, foram atraídas pela história de uma das muitas livrarias que existiram nos colégios universitários de Coimbra até ao primeiro terço do século XIX: a Livraria do Colégio de Santo António da Pedreira.

O presente trabalho caracteriza-se pela novidade e pelo rigor.

O seu mérito maior, contudo, é o de abrir possibilidades de diálogo com outras pesquisas que vêm sendo desenvolvidas por toda a Europa sobre os acervos das bibliotecas históricas. São numerosos e reveladores os dados agora inventariados, obrigando, em alguns casos, a rever ideias feitas sobre o que era o trabalho desenvolvido nas antigas universidades europeias. Que num colégio de média dimensão houvesse uma biblioteca ampla e diversa, com cerca de 2000 volumes, editados entre fi nais do século XV (é o caso de um precioso incunábulo milanês, que hoje se encontra nos reservados da Biblioteca Geral) e fi nais do século XVIII contraria o preconceito do obscurantismo sistemático que tantas vezes se associa à vida univer- sitária da época.

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É sabido que a história de uma Universidade não pode fazer-se sem ter em conta a dinâmica das bibliotecas que a foram integrando ao longo do tempo. Mas é igualmente verdade que as boas univer- sidades de hoje se distinguem pela forma como encaram o futuro dessas mesmas bibliotecas. Tendo podido contactar de perto com os profi ssionais da Biblioteca Geral ao longo dos oito anos em que exerci o cargo de Diretor e sabendo do especial carinho que o Livro Antigo continua a merecer em Coimbra por parte de uma equipa operosa e devotada, acredito que, também a este respeito, a Universidade vai continuar a seguir os melhores exemplos que subsistem na Europa e no mundo.

José Augusto Cardoso Bernardes (Diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra)

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