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PACIENTE E O DIREITO DE NÃO SABER

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Academic year: 2023

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O presente estudo tem como objetivo analisar o alcance da proteção da vida privada e da intimidade, em especial a obrigação de reparar danos, com base na decisão proferida no Recurso Especial nº para identificar se o direito de não saber é inerente à privacidade. Tendo como pano de fundo essas considerações, o presente estudo tem como objetivo analisar o alcance da proteção da vida privada e da intimidade, em especial a obrigação de reparar danos, com base na decisão proferida no Recurso Especial nº para identificar se o direito de não saber é inerente à intimidade.

Conceito

Toda vez que alguém sofrer algum tipo de dano, for ofendido física ou moralmente, seus direitos não forem respeitados ou não conseguir o que foi pactuado, certamente recorrerá à responsabilidade civil para obter indenização. Essa perda é o dano, um dos elementos essenciais para a responsabilidade do agente, portanto após esta breve análise conceitual, devem ser abordados os elementos da responsabilidade civil.

Elementos da responsabilidade civil

Isso porque não há necessidade de falar em responsabilidade sem a existência de prejuízo, pois sem o aparecimento de dano não há nada a compensar e, portanto, não há responsabilidade. A terceira corrente, causalidade imediata e direta, foi criada por Agostinho Alvin e defende que a causa deve ter efeito imediato e direto no resultado da execução que causa o dano.

Das espécies de responsabilidade civil

Segundo Nader (2009, p. 29-30), a Teoria do Risco foi adotada porque a responsabilidade subjetiva não satisfaz plenamente o desejo de justiça nas relações sociais. A realização de uma atividade que possa representar um risco por si só exige a reparação dos danos por ela causados ​​(VENOSA, 2007, p. 14).

Princípio da dignidade da pessoa humana

Reconhecendo a existência da dignidade da pessoa humana e a sua eminência, a Constituição transformou-a em valor supremo da ordem jurídica, declarando-a como um dos fundamentos. Silva (1996, p. 39) destaca que o princípio da dignidade humana aparece como referência para o conteúdo de todos os direitos fundamentais. Nota-se que, além do compromisso jurídico, o princípio da dignidade humana tem a responsabilidade no campo ético, moral e político de respeitar e garantir as condições básicas da existência humana, uma vez que nenhum Estado pode almejar garantir a dignidade da pessoa humana sem a implementação efectiva das condições de sobrevivência mínima.

Os intervenientes jurídicos devem compreender que o princípio da dignidade humana constitui uma base independente para a resolução de conflitos. Isto significa que o exercício do poder só será legítimo se for regido pelo respeito pelo princípio da dignidade humana, que se torna condição para o próprio exercício da democracia.

Do direito à privacidade e à intimidade

O direito à privacidade sofre limitações na salvaguarda dos interesses da coletividade, dada a predominância do interesse coletivo sobre o privado. Isso porque o direito à privacidade se posiciona como um gênero ao qual pertencem o direito à intimidade e o direito à confidencialidade. Isto porque o direito à privacidade é muitas vezes confundido com o direito à intimidade, e até à data não foi possível estabelecer uma diferenciação consistente entre os dois.

Contudo, como já foi sublinhado noutros lugares, os direitos à intimidade e à privacidade não são, na prática, absolutos, encontrando os seus limites noutros direitos ou bens constitucionais. Sampaio (1998, p. 384) enfatiza dois momentos de atuação restritiva dos órgãos jurisdicionais: “na autorização de medidas que evitem aspectos do direito à privacidade e na resolução de conflitos entre esse direito e um bem, interesse ou direito constitucional”. , em detrimento disso”.

Conceito de saúde

Além disso, segundo Oliveira (2002, p. 211), “através dos relatos bíblicos, os judeus cuidavam da circuncisão infantil, que aliada aos preceitos religiosos apresenta uma indisfarçável preocupação higiênica e preventiva”, mostrando que a preocupação com o bem-estar remonta até o início da humanidade. Já com o povo grego, e fruto da prática desportiva, o conceito de saúde esteve definitivamente ligado à ideia de equilíbrio orgânico através dos elementos “força” e “beleza”, visando a harmonia entre corpo e alma, segundo o conhecimento científico da época e a infame conquista empírica de Hipócrates (“o pai da medicina”) (OLIVEIRA, 2002, p.211). Na Idade Média renasceu, com maior força, a noção de “prevenção”, que ganhou corpo e foi chamada de “estado de bem-estar social”, para garantir igualdade de tratamento e condições de existência entre as pessoas conforme viviam em sociedade (OLIVEIRA, 2002) , pág. 211).

Atualmente temos o conceito de saúde como “uma definição puramente somatopsíquica que deve basear-se num objetivo de “qualidade de vida” que depende de todo um conjunto de direitos inerentes às pessoas e ao ambiente em que se encontram”. Existe um conjunto sistêmico de condições que devem ser mantidas para alcançar o bem-estar individual e social (OLIVEIRA, 2002, p. 211).

O direito à saúde e a sua constitucionalização

O Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, de 1966, trata do direito à saúde, e aponta mecanismos para garantir o seu pleno exercício (OLIVEIRA, 2002, p.212). Para Oliveira (2002, p. 213), a “consequência natural do direito humano mais relevante, que é o direito à vida, é colocada em patamar de igual importância com o direito à saúde, nos seus aspectos individuais e sociais”. 8º, XIV, em que é delegada à União a competência de “estabelecer planos nacionais de educação e saúde” (OLIVEIRA, 2002, p. 215).

Faz parte dos direitos sociais, além dos direitos individuais, com igual respaldo constitucional e garantias do Estado (OLIVEIRA, 2002, p. 215). Portanto, está consagrado nos dispositivos expressos da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, o direito humano à saúde, devendo o Estado efetivar esse direito em todos os seus planos, seja com medidas preventivas ou restaurativas para a saúde. pessoa... agravada em suas condições físicas ou psicológicas, essenciais para uma existência digna (OLIVEIRA, 2002, p. 216).

Compreendendo o caso “Fernando Villas Boas”

Ou seja, isso significa que não há nexo causal entre o sofrimento sofrido pelo requerente e o erro do hospital ao realizar exame não solicitado com a revelação da doença, uma vez que o sofrimento é novamente decorrente da descoberta de um portador do HIV e não de um teste de HIV realizado de forma inadequada. Não satisfeito com a decisão do recurso, o caso foi submetido à apreciação do Tribunal Superior por meio do Recurso Especial nº, que alegou que a violação do art. INTIMIDADE - INCOMPETÊNCIA - INFORMAÇÕES CORRETAS E CONFIDENCIAIS SOBRE A CONDIÇÃO MÉDICA - FATO QUE PROPORCIONA MAIOR PROTEÇÃO AOS DIREITOS DO PACIENTE, DO ACESSO INDIVIDUAL E PÚBLICO - RECURSO JURÍDICO ESPECIAL MELHORADO.

II - Do ponto de vista individual, o direito do indivíduo de não saber que é portador do vírus HIV (se entender que esse é seu direito, em decorrência de sua intimidade), sucumbe e é suplantado por um direito maior, nomeadamente o direito à vida, o direito a uma vida mais saudável, o direito a uma vida mais longa e saudável; VII - Recurso especial negado provimento (BRASIL, Superior Tribunal de Justiça, recurso especial nº relatora Ministra Nancy Andrighi, terceira turma, desembargadora.

Dos fundamentos do voto da Ministra Nancy Andrighi

O ministro relator admitiu que no caso em apreço, uma vez que os pedidos de exames ocorreram com a solicitação de exames no hospital do arguido, com ato de agente que realizou exames diferentes dos solicitados, esta é uma situação que dá origem à reconhecimento da responsabilidade civil de natureza objetiva, nos termos dos arts. Ignorando a análise do tipo de responsabilidade civil, o Ministro relator abordou a questão da violação do artigo. O ministro relator começou por sublinhar que o erro do laboratório que fez o teste “anti-HIV” e não o teste “anti-HCV”, como o médico solicitou, era um facto incontestável e tal acção foi negligente.

O Ministro Relator acrescenta que embora o conhecimento prévio da doença possa oferecer melhores condições de tratamento, não afasta a ilegalidade da atuação do hospital, que permite a realização de exames diferentes dos solicitados, uma vez que a intimidade também inclui o livre arbítrio, o que permite que o indivíduo pode até esconder suas fraquezas. O Ministro Relator concluiu, portanto, que o recurso especial deve ser provido parcialmente, uma vez que o pedido de indenização por danos morais, no valor de R quinze mil reais), devidamente corrigido, é considerado procedente.

Dos fundamentos do voto do Ministro Massami Uyeda

E acrescenta que neste caso houve violação do direito à privacidade ao realizar uma investigação não autorizada, o que se apresenta como uma forma de abuso de investigação da vida alheia, ainda que o resultado não tenha sido divulgado a terceiros. . Decidiu, portanto, que o direito à privacidade foi violado e que o recorrente deveria ser indemnizado pelos danos sofridos, reconhecendo ao mesmo tempo o nexo de causalidade. Esta conclusão derivou da análise se houve ou não violação da privacidade do recorrente através da realização de investigação não solicitada e, portanto, pela inexistência de tal violação, entendeu-se que não houve problemas psicológicos. ocorreu.

À luz de tais considerações, concluiu que não houve violação do direito à privacidade, apesar do erro significativo do hospital em realizar um teste anti-HIV e não um teste anti-HCV solicitado pelo autor, ainda que tal discussão seja, na visão do ministro, irrelevante, porque entra no elemento subjetivo, indispensável quando se trata de responsabilidade civil objetiva. Ao final do seu voto, o ministro lembrou ainda que o interesse público precede excepcionalmente o direito à privacidade, ainda que este seja essencial para a preservação da dignidade humana.

Do voto do Ministro Sidnei Beneti

Apesar do reconhecimento do carácter objectivo da responsabilidade civil, na opinião do ministro o comportamento do hospital não pareceu abusar da vida alheia, uma vez que ao informar o paciente do seu estado de saúde e, assim, manter o sigilo observado, não infringiu a vida de outros. a privacidade do recorrente. Ou seja, implica que o direito à privacidade pode ser sacrificado em prol da preservação de um bem maior, neste caso a informação de que o recorrente é seropositivo, o que tornou possível até um tratamento eficaz através do conhecimento da doença, especialmente num país que conduziu inúmeras campanhas de saúde pública para a prevenção e tratamento da AIDS. Portanto, e levando em conta os argumentos acima, o Ministro Massami Uyeda, que discordava do relator, conforme já observado, negou provimento ao recurso especial.

Por fim, cabe apenas destacar que como o Ministro Massami Uyeda foi o relator do acórdão, seu relatório e voto acabaram trazendo as mesmas justificativas acima. Percebe-se, portanto, que os apelos do Ministro Massami Uyeda foram integralmente acatados pelo Ministro Sidnei Beneti, que não visualizou a violação da privacidade, como fez a relatora Ministra Nancy Andrighi, muito menos o direito de não saber como enraizado no não direito. à privacidade.

Do voto dos Ministros Paulo de Tarso Sanseverino e Vasco Della Giustina

O que não foi apurado, na opinião dos ministros, com exceção do relator, é a ausência de nexo causal entre o comportamento do hospital, que realizou investigação diversa da solicitada, e o choque psicológico sofrido pelo o paciente. recorrente, o que não resulta de um erro do hospital, mas sim do conhecimento de que é portador do vírus VIH. Por fim, é importante destacar que a questão foi encaminhada à apreciação do Supremo Tribunal Federal, que não reconheceu as implicações gerais e, portanto, não admitiu o recurso extraordinário interposto pelo recorrente, enquanto a decisão foi proferida por.

Das críticas tecidas por Caitlin Mulholland ao posicionamento do Superior

O autor conclui, portanto, que o direito de não saber não deve ser garantido, constituindo a divulgação de resultados não solicitados uma violação da privacidade, sem sentido de equilíbrio entre interesses públicos e privados. Durante o presente estudo, procurou-se compreender se o direito de não saber é uma das facetas do direito à privacidade e à intimidade, ou seja, se a privacidade do paciente é violada quando ele toma conhecimento de informações não solicitadas e, portanto, tem direito a reparação civil dos danos sofridos. Portanto, e levando em conta a divergência ocorrida no julgamento do Recurso Especial nº. estabelecido, defende-se uma interpretação ampla da proteção conferida pelo ordenamento jurídico à privacidade e à intimidade, concretizando o direito de não saber.

Esta conclusão decorre do facto de o direito à intimidade e à privacidade também se estender ao livre arbítrio do paciente, ou seja, o direito de querer ou não ter acesso a determinada informação, pois isso é legal para todos, como enfatizou a Ministra Nancy Andrighi, eles escondem suas fraquezas, uma vez que nem todos estão preparados para enfrentar informações como a transmissão do VIH. Diante de todo o exposto, nota-se que a decisão do Superior Tribunal de Justiça nos autos do recurso especial n. com o voto infrutífero da ministra relatora Nancy Andrighi não acertou, pois houve clara violação do direito à privacidade e à intimidade, consubstanciado na divulgação de informações que o paciente não solicita, visto que o direito à ignorância decorre do livre arbítrio inclui o direito à privacidade, a não permitir que a vida privada de alguém seja invadida por terceiros.

Referências

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