Acredito que as nossas relações com as pessoas, com a vida quotidiana e com as escolas mudaram e continuam a mudar para melhor. E com as salas de aula percebo a cada dia que este é o lugar onde quero estar, criar, dar continuidade e ajudar a formar tantas outras redes educacionais. Neste texto incluo algumas imagens de arquivos pessoais e também de redes digitais com as quais podemos conversar.
Imagens como transições, agenciamentos, conversas e conexões com as dimensões éticas, estéticas, políticas e poéticas da vida e da educação. Nossa atenção era direcionada ou dispersa de acordo com as formas, cores, ambientes e vozes que nos eram apresentadas. Depois que nossas vidas mudaram tão rápida e repentinamente para o mundo virtual, começamos a ter experiências únicas e diversas com aulas, escrita, arte, amizades, amores e desgostos, causas sociais e políticas, memórias e vida cotidiana.
Sempre em movimento e articuladas entre si, nossas redes ganharam novas configurações e emaranhados. Pesquisar com imagens, com arte e com criações compartilhadas, que chamo de “criações ‘professor-aluno’”, é embarcar em uma aventura onde as previsões são estilhaçadas pelas incertezas.
Não trago respostas prontas
Em nossos movimentos de pesquisa estamos conectados e alinhados com a alegria que pulsa na vida das crianças, atuando nos anseios coletivos de professores e crianças para criar práticas políticas de alegria e diferença em redes de massas na educação pública. Acreditamos no poder da ação coletiva, que cria resistência política ético-estética às tentativas de modelar e padronizar o ensino, os currículos e os processos de aprendizagem. É por isso que estamos numa luta, uma luta constituída pela alegria e pelo desejo de criar mundos plurais, mundos que possam ser inventados com os desejos e a imaginação da infância.
Portanto, não apresento aqui as artes que cabem em apenas uma disciplina, e que dizem respeito apenas aos professores que têm permissão para falar, usar ou criar com elas. Não estou escrevendo sobre a arte que está armazenada ou exposta nos grandes museus, nas galerias ou salões nacionais e internacionais, ou nos centros culturais ao redor do mundo. Observei a poética da vida cotidiana através das artes e percebi o quanto elas nos empurram para além das estruturas disciplinares e dos currículos normativos.
Que se apresentam como críticas, como provocações de intolerância e preconceito, como informações, frases, histórias em quadrinhos e desenhos que estão ao nosso redor, em muitos ‘interiores’. escolas e ao alcance de nossas mãos e sentidos. Pelo contrário, é imprescindível falarmos sobre esta lacuna de conhecimento, pois entendemos que as artes são instrumentos poderosos para ultrapassar estas barreiras que também fortalecem os corpos e as mentes dos nossos alunos. Apesar da rigidez e da disciplina que tentam impor, as rotinas escolares são também “tempos espaciais” de expansão, diferenciação e afirmação da vida. outros modos de existência, inclassificáveis, inomináveis. E é aqui que se escondem diferentes formas de pensar, multiplicidade de ações criativas e movimentos de resistência ao monitoramento de nossas práticas cotidianas.
Estou apenas tentando mostrar e falar sobre algumas 'teorias da prática' pedagógica que desenvolvi nas escolas públicas municipais onde estive e onde estou, que incentivaram processos de subjetivação criativa que escaparam de planejamentos anteriores e se desviaram de alguns currículos oficiais. padrões. E me fizeram entender que nenhum discurso ou ação é neutro, principalmente quando usamos a arte e os artefatos culturais como criadores de coisas novas e diversas. Temos consciência de que explorar o cotidiano das redes educativas é antes de tudo um processo de autoformação e de criação temporária de versões do mundo.
Tais redes – entrelaçadas nas/com as muitas experiências que adquirimos ao longo de nossas vidas – são constantemente atualizadas nas conversas com nossos interlocutores de pesquisa, para produzir – no encontro – novos ‘conhecimentos-significados’.
Artes, afetações, criações antes da pandemia de Covid-19
Esta foi também uma proposta desenvolvida com alunos do segundo ciclo do ensino básico, quando ainda trabalhava com este público-alvo. Nesta parte apresento algumas de nossas investigações com o cotidiano, onde estamos completamente entrelaçados e imersos. Estudar e pesquisar o cotidiano significa compreender que narrativas, sons, imagens, sentimentos, toques, gestos e gostos são criadores de ‘conhecimentos e significados’ desses ‘praticantes pensantes’.
Além das macronegociações políticas e econômicas” (ALVES, 2019, p. 19), a investigação do cotidiano nos aproxima da complexidade da vida, sem deixar de lado as muitas redes que formamos e das quais emergimos. Enquanto significado hegemónico confirmado pela modernidade, o olhar já não tem um papel primordial nos estudos da vida quotidiana. Para Alves (2019), em seu primeiro movimento, necessário para explorar o cotidiano, as ações e acontecimentos – no caso, o cotidiano escolar – devem ser percebidos com todos os sentidos.
E os mediadores que orientam nossa pesquisa sobre o cotidiano podem ser as falas, sons ou imagens dos alunos, objetos, corpos, paisagens, imagens, argumentos ou artefatos, “fictícios ou reais”, “vivos ou inanimados” (ANDRADE; CALDAS; apresentado ). Alves (2019) e por meio do qual observamos e aprendemos como as questões sócio-históricas que nos envolvem são captadas pelos “praticantes pensantes” da pesquisa da vida cotidiana e assumidas nos currículos.
E por serem tão numerosos e fascinantes, o cotidiano exige “um constante repensar de nossas práticas como pesquisadores” (ANDRADE; CALDAS; ALVES, 2019, p. 20), educadores e aqueles que trabalham em/com coletivos. Com isso entendemos que, nos processos curriculares, didáticos e pedagógicos, somos todos ‘professor-aluno’ e ‘aluno-professor’ pois ‘aprendemos a ensinar’ uns com os outros todos os dias. Entendidas como metodologia de pesquisa com o cotidiano, as memórias, pensamentos, vozes e redes de professores e pesquisadores criam novas e inúmeras possibilidades de articulações curriculares.
Enquanto poderoso artefacto cultural que liga redes, experiências, memórias, histórias e emoções, os filmes também nos ajudam a ‘pensar e criar’ com a vida quotidiana e com tudo o que nos apresentam. E esta “arte de falar” (CERTEAU, 2014), tão importante para a investigação no quotidiano, faz-nos pensar nas vozes que sempre nos convidam ao debate, à luta, e que de alguma forma desestabiliza a nossa certeza e a nossa formação cartesiana. Refiro-me aqui à arte como tudo aquilo que também aparece no/com o nosso cotidiano sem nosso controle ou planejamento prévio: uma surpresa no final da aula, um discurso emocionado, um pequeno bilhete em um pedaço de papel, uma lembrança guardada, um improviso desenho, um poema criado na volta para casa, um sorriso de gratidão, uma colagem com materiais inusitados, uma dobra feita com amor, um mapa interativo feito por uma criança, uma torre de lápis de cor, um penteado diferente, um conjunto de comida delicadamente em um prato, alguns livros organizados por cores em uma estante, um anel moldado em papel, um pôr do sol multicolorido, uma florzinha entregue com carinho no início da aula.
Durante o isolamento social
Ou seja, esse devir currículo, que nasce de encontros e coincidências, nos convida a flertar com o novo, com os movimentos nômades, com os experimentos, desenvolvimentos e subjetividades que acontecem após esses encontros. E é sobre esse descontrole sobre o ‘corpo-mente’ que falaremos agora um pouco mais, já que durante o período de isolamento social os alunos ficaram ainda mais livres para criar com os objetos disponíveis em suas casas e com os diversos ‘sensoriais’ artefatos. Com estas aulas à distância, pude ter acesso a um universo infantil repleto de histórias, sorrisos, sons, silêncios e sentimentos que a todo momento se misturavam com os conteúdos que tantas vezes foram (re)planejados durante o isolamento social.
Ou seja, perpetuam-se e produzem novas composições/criações nos/com os currículos individuais, coletivos e as redes educativas cotidianas que tecemos, no seio das quais estamos tecidos, na medida em que nos colocam novas questões. pensar os modos como a ética, a estética e as políticas de existência e as narrativas sobre a vida e as práticas de ensino e de aprendizagem afetam e são afetadas dentro e fora das escolas. Aqui a hegemonia do olhar se desfaz, pois quando nos aprofundamos na investigação do quotidiano, somos levados a pensar na estética que nos rodeia, nas nossas relações com os outros e com o mundo. Como a experiência estética é inerente às nossas relações com os outros, os sentidos, os sentimentos e a criatividade conduzem vidas como obras de arte.
Devemos ter a coragem de aprender como quem joga as sementes ao vento, esperando os encontros que elas podem produzir, as mudanças que podem provocar, encantando-nos com as muitas criações que delas podem ser produzidas, não querendo que todos o façam. a mesma coisa, ser da mesma forma (GALLO, 2012, p. 9). Com as artes é possível desafiar práticas e atitudes autoritárias, transpor as estruturas dicotomizadas de disciplinas e conhecimentos para a linearidade, produzindo novas formas sensíveis de lidar e sentir o/mundo. Mas quando tive a oportunidade de fazer parte deste grupo de pesquisa, passei a entender que pesquisar o cotidiano significa sair da superfície vazia da ordem e da zona de conforto, e mergulhar nas belezas do caos e da imprevisibilidade.
As narrativas autobiográficas desta pesquisa apresentam-se como uma ação e escolha ética e política que conecta imagens e arte de forma estética e poética, culminando em conversas, criações curriculares e 'conhecimentos-significados' que obscurecem quaisquer crenças e "funcionalidades" de um sistema que intuba o pensamento e o converte em pura funcionalidade” (CARVALHO; GALLO, 2022, p. 160) e à ordem estabelecida pelas fronteiras ficcionais das disciplinas. Além disso, acreditamos que é por meio de narrativas e conversas que nos conectamos com tantas outras histórias e memórias daqueles que formam nossa rede educacional e que ajudamos a formar. É contra tudo isso que luto diariamente ousando desejar uma educação criativa com arte e imagens.
Portanto, sem essa conversa e essa pesquisa que começou no auge dos medos e das saudades causados pela disseminação do novo coronavírus pelo mundo, continuo caminhando firmemente em direção às incertezas que as pesquisas do cotidiano nos oferecem. Considerar as escolas como “espaços-tempos” nos quais se desenvolvem ações com dimensões éticas, estéticas, políticas e poéticas – redes educativas e processos curriculares cotidianos, na beleza e na razão. No encontro com as imagens, aprendendo com a arte: máquinas pensantes pela pele na cultura visual.