A partir dessas reflexões, o objetivo geral deste trabalho é identificar as estruturas narrativas que representam a visão de uma mulher negra sobre o passado da escravidão brasileira, a partir da leitura do romance Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, publicado em 2006. Escrever o romance Um Defeito de Cor representa a libertação a partir de uma perspectiva baseada no colonialismo e numa perspectiva eurocêntrica de recontar o passado escravista.
Silenciamentos do passado
Pensar em construir a Améfrica Ladina é pensar em construir uma nova forma de consciência. No epistemicídio, há uma dupla forma de abdução: pela negação da racionalidade e do universo simbólico, e pela imposição de uma concepção considerada verdadeira.
Ouvindo vozes de liberdade
Segundo Erll (2011, pg.155): ― As obras literárias também podem mudar as percepções da realidade e, em última análise - através das ações dos leitores, que podem ser influenciadas pelos modelos literários -, da prática cultural e, portanto, da própria realidade. 9. Ao longo do século XX, a ideia de nação foi construída sobre a noção de democracia racial.
Afeto em movimento
A construção da cosmopercepção sobre os corpos define a forma como as pessoas estabelecem suas relações. A posição de uma pessoa nas culturas iorubás não pode ser determinada pela visão, mas pelo que se sabe sobre a pessoa e sua comunidade/família, pois a hierarquia é definida de forma relacional e dinâmica, alinhada e nada tem a ver com o corpo. . Assim, a forma como as pessoas vivem também faz parte de uma construção cultural baseada no poder.
Diante de uma sociedade baseada no racismo estrutural, é delegada às mulheres negras a posição do eixo econômico da família, especialmente entre as mais pobres. A concretização de uma política do amor e da possibilidade de expressão do afeto, como agente mobilizador para o estabelecimento de relações sociais, também pode ser vista como uma posição que contraria a visão ocidental do “amor” como mero sentimento individualizado. O movimento decolonial é uma atitude que vem do indivíduo colonizado, “ou seja, atitude é a definição de uma orientação para o conhecimento, o poder e o ser que pode tornar o sujeito decolonial”16 (MALDONADO-TORRES, 2016, p. 23).
Enquanto nos recusarmos a abordar plenamente o papel do amor na luta pela libertação, não seremos capazes de produzir uma cultura transformadora onde haja um afastamento em massa de uma ética de dominação. Enfrentar a violência vivenciada por uma estrutura social, baseada em processos de dominação, a partir de uma abordagem narrativa do amor é um recurso estético utilizado por diversos escritores, especialmente os negros, para construir uma identidade insubmissa diante da violência colonial.
Escrever mulheres
Revisitar o passado escravista e apresentar a luta e a resistência dos escravizados por meio da construção literária é uma das fontes estéticas de autoras negras como Ana Maria Gonçalves em Um Defeito de Cor. Apesar da desinformação, Ana com este trabalho Maria Gonçalves conheceu uma parte importante da história brasileira que lhe foi negada. Ana Maria Gonçalves admite não pertencer à categoria de “jovem historiadora baiana”, mas aceita a provocação de escrever um romance que trate desse tema.
O romance e a escritora também servem de inspiração para Ana Maria Gonçalves ir para a ilha de Itaparica, local onde morou e escreveu os romances publicados até então. E a peça Pretoperitamar – O caminho que vai levar até aqui foi escrita por Ana Maria Gonçalves em colaboração com a atriz e diretora Grace Passô. A produção dramatúrgica de Ana Marie Gonçalves é orientada por uma concepção crítica e criativa de espetáculos em que o teatro e outras expressões artísticas dividem espaço no palco.
Ana Maria Gonçalves também tem presença forte e participativa em crônicas e textos críticos, expressando um olhar atento ao cotidiano. Este breve resumo da obra de Ana Maria Gonçalves apresentou quem é a escritora de Um defeito de cor, destacando sua escrita rebelde e sua visão perceptiva das estruturas de opressão que regem as relações sociais brasileiras.
Encruzilhando narrativas
A maioria dos membros eram mulheres, porque “as mulheres tinham ideias e preocupações diferentes, como cuidar do futuro dos filhos” (GONÇALVES, 2017, p.297). Não sei, e espero que você leia tudo isso apenas como uma história contada exatamente como aconteceu” (GONÇALVES, 2017, p.437). Os papéis amarelados traziam no verso textos que “lembravam um documento escrito em português antigo, as letras minúsculas e muito bem desenhadas, caligrafia contínua, quase sem fôlego nem pontuação” (GONÇALVES, 2017, p.15).
Os jornais haviam escrito a história “de um escravo muito especial, alguém cuja existência não foi comprovada, pelo menos até o momento em que escrevo esta introdução” (GONÇALVES, 2017, p.16). Além de ser responsável pela alfabetização portuguesa de Kehinde, “Fatumbi saiu no mesmo barco que ela [Maria Clara] e também conseguiu esconder alguns livros e cartas para mim, dizendo-me onde ir para conseguir mais tarde, no mato. ‖ (GONÇALVES, 2017, p.103). Ela destaca suas ações como: “Naquela época ela também escreveu um texto onde falava sobre os problemas enfrentados pelos escravos libertos nas ruas da cidade, que foi publicado em um jornal chamado O Homem de Cor” (GONÇALVES, 2017, pg 475).
Havia cartas, notas, recortes de revistas e jornais e pedaços de livros, mas "ele me garantiu que era tudo uma história, e que depois que eu contasse a ele novamente, eu diria o que seu pai lhe pediu para fazer com isto." ‖ (GONÇALVES, 2017, p.616). Foi também Maneta quem conduziu as cerimônias com oferendas às entidades que protegem o céu “pedindo a aceitação da nova criatura chamada Passarola e permissão para que subisse cada vez mais alto” (GONÇALVES, 2017, p.620).
Luísa Mahin em perspectiva
Ela só sabia que era gerida por uma mulher cujo nome ela também desconhecia” (GONÇALVES, 2017, p. 200). Quem visse a cena poderia pensar que sou uma pessoa muito perigosa acompanhada de cinco guardas armados” (GONÇALVES, 2017, p. 561). Pedro II e o doutor Sabino queriam manter a Bahia independente até que o menino atingisse a maioridade e subisse ao trono por ser brasileiro” (GONÇALVES, 2017, p. 565).
Eu estava andando pela rua “quando vi três policiais espancando um velho negro, provavelmente maluco, que gritava viva à República e ao Rio de Janeiro” (GONÇALVES, 2017, p.566). Para Kehinde, ser Ibêji é uma característica definidora de sua identidade e confere certos privilégios à sua família: “Os Ibêjis trazem sorte para as famílias em que nascem e é por isso que minha mãe podia dançar no mercado de Savalu e ganhar dinheiro” (GONÇALVES , 2017, pág. 21). Depois da sua morte, a única forma de isso acontecer é através da imagem num pingente, abençoada por alguém que sabe o que faz” (GONÇALVES, 2017, p. 60).
Kehinde relata as condições em que os três viajaram; o ambiente sujo, as doenças e a violência a que todos estavam expostos: “usavam o chicote e todas as línguas que conheciam para que pudéssemos entendê-los” (GONÇALVES, 2017, p. 51). Escolheram alguns homens fortes e obrigaram-nos a levar dali mais de dez pessoas, todas muito doentes, que mais tarde soubemos terem sido atiradas ao mar” (GONÇALVES, 2017, p. 53).
Questões de fé
Ela era muito velha e parecia conhecer todas as histórias do mundo, pois o mundo era um mundo como ela mesma dizia” (GONÇALVES, 2017, p.81) e ela ia de casa em casa contando histórias e conseguindo algum dinheiro ou comida em troca.. Baseada em personagem registrada na História, ela foi a fundadora da Casa das Minas, em São Luís, Maranhão: "Os vodúnsís africanos trabalhavam em tal casa, as minas, quando os escravos embarcavam na Costa da Mina, na África , foi chamado” (GONÇALVES, 2017, p. 134). Kehinde comparece à cerimônia e quer ser um dos escolhidos; quando não foi, resiste à frustração ao lembrar o que Nega Florinda lhe dissera: “Lembrei-me do conversa com Nega Florinda que minha missão era outra, não relacionada aos voduns, e que deveria esperar o destino” (GONÇALVES, 2017, p. 134).
Banjokô Ajamu Danbiran, onde o segundo nome significa 'aquele que brotou depois da luta', e o terceiro foi uma homenagem a Dan, o vodu adorado pela minha avó, que neste caso também foi uma homenagem a ela" (GONÇALVES, 2017 , página 207). É também no lugar onde ele leva e guarda por um tempo seus orixás – que ainda estavam na casa da dona Ana Felipe para que pudessem ser abençoados e ficar lá e receber oração sempre que o Babalaô Ogumfiditimi pudesse dizê-lo – aí para mim‖ (GONÇALVES , 2017, pág. 222). Entre as conversas de Kehinde e Fatumbi, há diálogos sobre as semelhanças entre sua religiosidade: “Fatumbi também disse que os filhos dos orixás tinham todo o muçurumin para os filhos de Oxalá, que tem o branco como cor simbólica e a água como elemento. , duas coisas muito importantes no culto Muçurumin” (GONÇALVES, 2017, p. 286).
Segundo Kehinde, “o que aconteceu foi que antes mesmo de a igreja sair de seus alicerces, o padre Heinz pregava sobre igualdade e liberdade e alertava que os negros também seriam bem-vindos nesta casa de Deus” (GONÇALVES, 2017, p. 245). . Na organização de uma escola para crianças, incentivada pelo Padre Heinz; “além do dinheiro, os muçurumin também doaram muitas mesas antigas que não serviam mais para o estudo do Alcorão ou para os Mandingos, mas ainda estavam em ótimo estado para uso nas aulas” (GONÇALVES, 2017, p. 293).
Família no plural
Dúrójaiyé significa “fique para aproveitar a vida, nós te imploramos”; Dúróoríìke “fique, você será mimado”; Kokumo “você nunca mais vai morrer, os deuses vão te guardar” e Banjokô “sente-se e fique comigo” (GONÇALVES, 2017, p. 173). O casamento não durou muito, como diz o narrador: “Como minha mãe só atraiu abikus com o passar dos anos, e Babatunde precisava de filhos que vivessem e se tornassem guerreiros como ele, ele não se importou quando ela foi embora com minha avó” (GONÇALVES, 2017, pág. 20). A imagem do “riozinho de sangue” e o cheiro que restou tornaram-se para Kehinde representações da morte, como exemplifica o trecho: “Entre os negros certamente houve mortos quando brigaram com homens armados e deixaram o cheiro no armazém, que reconheci, o cheiro de sangue, igual ao riozinho de Kokumo e da minha mãe” (GONÇALVES, 2017, p. 40).
A relação de cumplicidade e troca entre os escravos, principalmente entre as mulheres da senzala, é retratada no trecho, onde Kehinde ensina que “Oxum é muito importante, porque ela, rainha das águas doces, fertiliza a terra e a vida das mulheres. plantas. úteros, por onde emergem todas as riquezas” (GONÇALVES, 2017, p. 120). O carinho pela família de Titilayo perdura por toda a vida de Kehinde, e quando ela retorna a Ouidá décadas depois, tenta restabelecer os laços com sua família: “Estava ansiosa para ver meus amigos novamente, especialmente Akin e Aina, e por um tempo , aqueles anos de infância voltaram todos à minha memória” (GONÇALVES, 2017, p. 742). Ela devia ter uns trinta anos, nunca se casou nem teve filhos, mas era tão paqueradora quanto vaidosa” (GONÇALVES, 2017, p.262).
Em Um Defeito de Cor, Kehinde, como comerciante na África, estabelece relações comerciais com governantes locais, especialmente com Francisco Félix de Souza, o Chachá, que, após assumir o cargo de vice-rei de Ouidá, "assumiu o controle de todo o grande poder jurídico e o comércio ilegal, que passava por aquele porto" (GONÇALVES, 2017, p. 785), como o tráfico de escravos. 2010, disponível em: www.geledes.org.br/ana-maria-goncalves-lobato-nao-e -sobre-voce-que -vamos-falar/. Disponível em: www.letras.ufmg.br/literafro/artigos/artigos-teurico-criticos/1366-lucia-granja-e-jakeline-longo-porto-paula-brito - Escritor-esquecido Acesso em: 20 fev.
Disponível: http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humans/noticia/2017-0do8/taxa-de-feminicidios-no-brasil-e-quinta-maior-do-mundo Acesso em: 10 de outubro.