Dissertação (Mestrado em Direito) – Faculdade de Direito, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2023. Dissertação (Mestrado em Direito) – Faculdade de Direito, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2023.
Narrativa ficcional e democratização de discursos populares
Além disso, a multiplicação desses trabalhos no Brasil, que se intensificou a partir da década de 90, é em grande parte fruto da interdisciplinaridade e utiliza uma metodologia que continua alimentando rótulos, que não entendem o povo brasileiro como uma grande potência discursiva. . Quando será utilizada uma metodologia de interpretação que não crie rótulos e não entre em conflito com o povo brasileiro.
Permanência positivista: a causa e o sintoma
Da margem latina capitalista marginal do mundo de que falamos, somos herdeiros de um modelo de classificação e hierarquização que é eminentemente funcional para a actual procura de ordem. O discurso positivista criminológico sempre forneceu ferramentas “científicas” para suprimir, controlar e exterminar esses corpos, e o braço repressivo criminoso é uma ferramenta funcional para esse fim.
O sentir pelas letras
Na medida em que a arte é [...] um sistema simbólico de comunicação interpessoal, ela pressupõe o jogo permanente de relações entre os três, que formam uma tríade indissociável. A literatura desenvolve em nós parte da humanidade, porque nos dá mais compreensão e abertura à natureza, à sociedade e aos outros.47.
Criminologia e literatura: o consórcio possível
Entramos em águas transdisciplinares que diluem a criminologia e a literatura brasileira para legitimar a possibilidade de articulação para a construção de reflexões menos superficiais, construídas por um viés macrossociológico que se aprofunda no percurso criminológico discursivo sem distanciar o objeto, mas para aproximá-lo. Atravessada pela análise do discurso, a criminologia crítica navega pelo terreno social das ideias e compreende essa história ainda pouco contada contada através de rupturas e permanências.
Análise do discurso: o método resistente
Foi Orlandi quem sentiu o braço opressor do Estado, assim como Rubem Fonseca, e voltou-se para o passado para explicar o caminho da análise do discurso na situação política brasileira. A análise do discurso foi alvo de discursos autoritários, que sempre falavam de uma ameaça ou espectro que atacaria a sociedade pelas costas: o comunismo era o vilão, enquanto os heróis da “pátria, deus e família” roubavam liberdades e direitos do povo. Numa época em que a luta pela palavra é fundamental e onde, como disse noutro trabalho (1992), o silêncio funciona politicamente, significando o que não pode ser dito.”88 A resistência à exigência de ordem na década de 1970 exigiu a análise do discurso como um método, e é por isso que o salvamos hoje.
Portanto, não é apenas a linguística que é afetada pela constituição da análise do discurso e de seu objeto, mas toda teoria que em algum momento de sua prática se depara com a questão da linguagem e da interpretação.111. Portanto, a análise do discurso em nosso estudo é uma passagem, uma forma de conduzir ao rumo dos discursos criminológicos perante o consórcio literário, e não um fim. Portanto, a análise do discurso não trabalha com a linguagem em si, mas com os sujeitos que produzem essa linguagem.
Passos ibéricos
Castro aponta como ocorreram mudanças na forma de interpretar, prevenir e reprimir a criminalidade nos centros urbanos de Portugal. Camilo Castelo Branco aplicou sua perspectiva aos crimes reais que compunham suas produções, incluindo investigação policial e rituais processuais em cenários narrativos. Camilo Castelo Branco representou os portugueses como vinculados a uma sociedade conservadora e propensos à hipocrisia.
Em Os Mistérios do Porto, Gervásio iniciou o seu percurso por uma cidade com potencial para a violência e repleta de ameaças e perigos. O romance mosaico de Gervásio também continha muitas ilustrações, seguindo a tendência da escola criminológica da época e o carinho popular por imagens relacionadas a delinquentes e crimes. O ponto comum entre Camilo Castelo Branco e Gervásio Lobato é claro: a clientela pobre, atraída pelos grandes centros urbanos portugueses, como Lisboa e Porto no século XIX, foi alvo de mecanismos repressivos alimentados pela durabilidade dos alicerces do positivismo escola criminológica.
Narratividade criminológica à brasileira
Narrativa romântica: rendição ao positivismo criminológico
O tema das novelas era defender a abolição da escravatura através de um preconceito que utilizava a mentalidade do Brasil do século XIX. Embora se perceba um tom abolicionista nos três contos de Joaquim Manuel de Macedo, a crítica à escravidão não se apoiou no combate aos discursos de inferioridade e degeneração dos negros, mas o mote do argumento é o risco de a elite nacional fugir de sofrer todas as formas de violência. Pai-Raiol, descrito como um tolo e um monstro africano, também planejou envenenar seus senhores, restaurar-lhes a liberdade e tomar posse de seus bens.
O vocabulário utilizado descrevia Pai-Raiol como desonesto, xaroposo, raivoso e que tinha fama de estar envolvido em coisas de feitiçaria: “Raiol não colaborou. A escrava é sexualizada em suas descrições: “Lucinda era crioula aos doze anos, quase uma mulher, que já havia assumido as formas que mudam ao atingir a puberdade”139. Os três romances, ora apresentando traços do Romantismo, ora de um certo Naturalismo antecipatório, formam um discurso literário que se concentrava nas mudanças que a elite que liderava o Brasil naquele período poderia fazer em relação à questão racial do século XIX.
Nina, Euclides e Mangabeira: uma Bahia paradoxal
A história tratava do extermínio daqueles classificados como irremediáveis, promovido, ratificado e aquecido por discursos legitimadores, pela destruição que constitui o maior crime cometido pelo exército brasileiro: o massacre de Canudos. Motivado pela famosa pergunta de Zaffaroni: “como Lombroso pôde florescer na Bahia?” - nos aproximamos de Euclides da Cunha, que rompeu com o aparato positivista em sua trajetória discursiva. Não há neutralidade nos discursos de Euclides da Cunha sobre Canudos, a Meca dos jagunços.
No caminho da escrita de Euclides da Cunhas, encontramos o Brasil real que resiste ao Brasil oficial, que matou a utopia que se construiu nas terras áridas do país. Além da narrativa ficcional de Euclides da Cunhas, a indignada e pouco conhecida lira de Francisco Mangabeira, com sua Tragédia Épica161, também constitui resistência. Uma geração que teve seus primórdios marcados pelas teorias transplantadas de Nina Rodrigues e pela literatura de Euclides da Cunha e Francisco Mangabeira.
Catálogo criminológico literário
Nesse sentido, o texto de Lemos Britt é extremamente útil para classificar personalidades delinquentes que não se enquadravam no conceito de progresso. Ao discutir O Pária, de Pedro América, o analista destacou que o autor viveu na Itália numa época em que se desenvolviam teorias sobre o “mestre italiano”. O criminologista também olhou para Noite na Taverna Álvares de Azevedo e descreveu-o como uma discussão sobre degeneração e crime.
Em relação ao crime do batedor, afirmou estar convencido de que os criminosos possuem os estigmas fisiológicos, psicológicos e morfológicos de Ferri e Lombroso. O estudo catalogado de Lemos Britto promoveu de certa forma a subjetividade ao inculcar a necessidade de delimitar e eliminar os criminosos da vida social, muito em linha com as teorias da escola positivista de criminologia italiana. De qualquer forma, assim como Nina Rodrigues, os escritos de Britto são valiosos como forma de conhecimento original para a compreensão das questões raciais no Brasil da primeira metade do século XX.
Borges criminólogo, simplesmente
Garófalo revisita el canto vigésimo del Infierno de Dante para demostrar que era natural o el sentimiento de lástima ser despertado sólo por hombres que se parecían. Los positivistas creían en la naturalidad del crimen y la delincuencia, Borges, por el contrario, desconfía de la realidad misma o, mejor, de una interpretación adaptada a la realidad, que es exactamente de lo que hace gala el positivismo con su método experimental.173. Además, el propio Darwin lo reconoció expresamente en esta parte de su obra, explicando que el término "lucha por la existencia" se utiliza "convenientemente en estos diversos significados que se han unido"176.
A relativização de conceitos como “bem” e “mal”, como uma lógica binária limitada, fez com que se afastasse da objetividade ao demonstrar que a generalização dos discursos sobre crimes e criminosos serve apenas para delinear estereótipos. Nesse sentido, estamos próximos de Karl Erik Schollhammer, que salvou Roland Barthes e afirma que o contemporâneo é intemporal, ou seja, que “o verdadeiro contemporâneo não é aquele que se identifica com o seu tempo, ou que está completamente em harmonia com o . Neste sentido, “a literatura contemporânea não será necessariamente aquela que representa a atualidade, salvo uma inadequação, um estranhamento histórico que a faz perceber as áreas marginais e obscuras do presente que se afastam da sua lógica”188.
Literatura, criminologia e territórios: o medo é a ordem
O medo dos outros sempre produziu primeiro um discurso largamente baseado no bom senso e largamente encorajado pelos meios de comunicação de massa. Os espaços públicos foram construídos a partir do discurso do medo do outro, e por isso foi necessário criar um inimigo comum. Em relação a essa “pacificação” nas favelas do Rio de Janeiro, Vera Malaguti discutiu as contradições da UPP no morro do Complexo do Alemão.
A UPP seguiu diretamente essa lógica de controle da massa de despossuídos com uma cultura de extermínio em territórios onde só o estado policial chegava, ignorando a desigualdade e a segregação das pessoas que vivem nos espaços controlados por essa gestão policial da vida. Com o avanço tático pelo território tomado pelo estado policial, fica claro que se a UPP “invadiu” o morro, temos uma identificação no discurso literário de que a favela e o asfalto estão em conflito aberto. Qual seria a sua real função caso a UPP não desse o retorno desejado ao combate ao tráfico de pessoas?
O outro: sequestro e resistência
Em diálogo com Gizlene Neder, Vera Malaguti observou que nem o fim da escravatura nem a República conseguiram instigar uma ruptura com o legado imaginário do medo dos outros e das suas formas de controlo. A subjetividade coletiva no sentido de punir o amor e a alienação do outro também está presente nas narrativas de Rubem Fonseca. Provocar e perturbar esta ordem aproximando-se dos outros e descobrindo que não há nada de ameaçador neles também significa expor a farsa de uma elite branca (in)civilizada.
A formação discursiva de Máiquel revela o processo de produção de sentidos para uma ideologia ainda dominante que quase sempre se embala na forma de assimilação do outro numa democracia racial. O corpo de Máiquel, para análise do discurso, indica ideologias que contribuíram para a construção da desqualificação do outro. Por mais distante que estivesse, Máiquel continua matando tantos outros, inclusive sua esposa Cledir.
O assassino passou pela mentalidade da narrativa do medo do outro construída e ainda presente, visivelmente ainda melhor promovida. Ao caminharmos pelo lado da margem onde se situam os textos literários, compreendemos como a escalada do poder criminoso marcou e sequestrou a figura do outro.