A criminologia como narratividade não é exclusiva dos solos latino-americanos.
Portugal, percurso necessário para entender nossa subjetividade punitiva ibérica, também presenciou o atravessamento promovido por literatos e criminólogos. Andreia Alves Monteiro de Castro, em sua tese de literatura comparada, demonstrou como Camilo Castelo Branco e Gervásio Lobato representaram as mudanças sobre o conceito de crime bem como os mecanismos de combate à criminalidade na segunda metade do século XIX. Entre Lisboa e Porto, o medo, sempre ele, e a insone sensação de insegurança foram agentes funcionais para a criminalização da pobreza. O aparato punitivo se fez presente e atuante para conter as ditas classes perigosas, pois os pobres do mundo sempre se estabeleceram como a ameaça pública.
Para entender esse processo, é preciso iluminar a explosão dos centros urbanos e toda a sua contradição, pois ao mesmo tempo que se estabelecia como espaço de progresso também se revelava como lugar de desordem e gerador de inseguranças. É nessa contradição que a segunda metade do século XIX em Portugal desenha a figura do crime e do criminoso e os lança à berlinda punitiva.
É Andreia de Castro que adentra solo português para:
analisar, [...] em perspectiva comparada, como Camilo Castelo Branco e Gervásio Lobato representaram e discutiram as transformações dos conceitos de crime e criminoso em uma sociedade de regras tão austeras, que eram quase impossíveis de serem cumpridas, sobretudo por quem não tinha privilégios.114
Debruçando-se sobre os Mistérios de Lisboa115 e as Memórias do Cárcere116, de Camilo Castelo Branco, e Os Mistérios do Porto117, de Gervásio Lobato, Andreia de
114CASTRO, Andreia Alves Monteiro de. Realidades, desejos, crimes e ficções: as cidades de Camilo Castelo Branco e Gervásio Lobato. 2017. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Letras,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017, p. 15.
115 De 1854.
116 De 1862.
117 De 1890-1891.
Castro pontua como se deram as mudanças na forma de interpretar, prevenir e reprimir crimes nos centros urbanos de Portugal. Os delinquentes se tornaram protagonistas nos anos oitocentos nos campos criminológico, literário, científico e jornalístico, resultado de uma obsessão paranoica a respeito dos índices de criminalidade. Foi a subjetividade punitiva que alimentou também a afetividade pelo criminal em solo português.
Nesse aspecto, Portugal não se distancia do Brasil. Especificamente em Lisboa, em meados do início do século XIX, “fábricas, quarteis, prisões, hospícios, sanatórios, asilos, orfanatos, internatos, escolas, seminários e conventos funcionaram como instâncias de enquadramento e contenção”118. Crimes e criminosos estavam ao centro como a ameaça que precisava ser expurgada da sociedade portuguesa. E, para tanto, até a polícia foi reestruturada a fim de que se pudesse desempenhar com alto aproveitamento a contenção das classes sociais mais pobres.
Não muito diferente do Brasil e do restante da Europa, na segunda metade do século XIX, Alphonse Bertillon, um criminologista francês, “desenvolveu um novo sistema de identificação humana, composto por descrições físicas, medições antropométricas por fotografia e, mais tarde, por impressões digitais que ampliaram a capacidade de vigilância dos delinquentes”119. Estava lá a criminologia positivista exercendo seu papel fundamental de explicar a inclinações criminosas. Essa função alcançou lugar de destaque na sociedade portuguesa e, por consequência, também nas produções literárias.
O recém iniciado progresso urbano não poderia ser comprometido por uma horda de marginais e inadequados – pobres e trabalhadores - que não achavam lugar naquela sociedade burguesa. Os indesejáveis, assim como em nossas terras latinas, deveriam desempenhar a função de erigir o progresso e proporcionar bem-estar à elite, mas não podiam desfrutar desse resultado. Essa cisão social e do espaço urbano alcançou a literatura e se embrenhou na forma das pessoas sentirem umas às outras, construindo uma subjetividade que tinha obsessão pelo criminal.
As multidões passaram a figurar em narrativas e reportagens, em muitos casos, uma sendo fonte da outra. Camilo Castelo Branco aplicou sua perspectiva a crimes reais que compuseram suas produções incluindo no cenário narrativo inquéritos policiais e ritos processuais. A difusão de muitos romances seguindo esse tipo de temática encontrou fácil escoamento no formato de folhetins publicados nos veículos de
118 CASTRO, op. cit., p. 20.
119 Ibid., p. 32.
imprensa de forma periódica, isso porque o livro ainda era uma ferramenta de acesso dificultoso.
Camilo Castelo Branco representou indivíduos portugueses como atados a uma sociedade conservadora e que tinha inclinações à hipocrisia. A burguesia estava blindada e, contra ela, nada podiam fazer os pobres e trabalhadores. Consciente a respeito de lugares sociais pré-estabelecidos, Camilo não trouxe aos seus textos idealizações. Fazendo-se as voltas como um criminólogo, explicitou as mudanças que ocorreram no século XIX na forma de prevenir, punir e interpretar crimes e criminosos em Portugal por meio da narrativa ficcional e demonstrou que o cárcere não era um lugar destinado a todos indistintamente, mas, ao oposto, um destino traçado para os pobres que nem sempre eram criminosos.
O escritor português também retratou os crimes cometidos pelas classes mais abastadas de Lisboa: “também parece denunciar, pelo destino reservado aos seus criminosos, que, naquele tempo mantidas as aparências, os delitos cometidos por fidalgos decadentes, por clérigos sem vocação e por burgueses ávidos por grandes lucros e notoriedade eram desconsiderados”120. Pelas narrativas dele, é possível constatar que a polícia da época tinha como prática não investigar os crimes e identificar os culpados, mas apontar quem pudesse ocupar o “lugar” de criminoso e que isso parecesse mais aceitável. Evidentemente, a clientela potencial para ocupar esse posto eram os mais pobres da cidade de Lisboa.
A impunidade, o desvio a qualquer custo da marginalização e a confusão das noções entre crime e pecado foram também representadas por Camilo no formato de romance folhetim. Através da narrativa ficcional, seguiu por caminho diverso à sociedade lisboeta, pois os discursos cristalizados eram de que a delinquência, o crime e a degradação eram oriundas das classes mais pobres, sendo elas o alvo do sistema punitivo. O escritor construiu personagens diversos destes, os quais eram violentos, amorais e abastados, demonstrando que o ponto criminoso era subjetivo, e não objetivo como defendiam os criminólogos positivistas.
Além disso, o próprio Camilo foi um detento ao ser condenado pelo crime de adultério com Ana Plácido. Após esse fato biográfico, o questionamento da função da pena carcerária enquanto ferramenta ressocializadora figurou em seus textos. Por isso, encontramos um escritor crítico que constatou que a pena é uma construção social
120 Ibid., p. 73.
fundamentada em bases econômicas e religiosas para controlar e eliminar aqueles que ameaçassem a acumulação de capital e o poder da burguesia capitalista: “com que direito racional se lhe escalpela, fibra a fibra, a vida? Como hei de eu considerar social, humana e justa a lei que demarca um túmulo entre as quatro paredes de um cubículo”121. Ainda em suas Memórias do Cárcere, encontramos a descrição da clientela da prisão lisboeta, em grande parte, composta de pobres, loucos e crianças que não tinham para onde ir. Essa população carcerária tinha como destino a prisão ainda que não fossem suspeitos de qualquer prática criminosa e conviviam com assassinos, ladrões e estupradores na Cadeia da Relação. Para ser um criminoso nato, não era preciso subverter as normas do Código Penal Português de 1852:
Ali é que a perdição moral das crianças se consumava com as lições dos ladrões recalcitrantes e matadores condenados a pena última. [...] A origem do mal estava na absurda autoridade, que mandou para a cadeia um demente, e no carcereiro, que o lá retinha. [...] A doida sacudiu as algemas, e irrompeu em gritos de dor e desespero. [...] Os presos, denominados varredores, que a transportavam como canastra de lixo, deixavam-na cair e deleitavam-se segundo o som da pancada que o corpo fazia na pedra da escadaria. [...]. É o que sei da pobrezinha que saiu da cadeia com os pulsos em carne viva, e duas vezes doida, por assim o dizermos, pela mortificação das dores.122
Andreia de Castro nos explica que, também no cenário português, Gervásio Lobato estava afeto aos desejos pelo crime. Todavia, algumas mudanças já tinham ocorrido na sociedade portuguesa, inclusive na estrutura punitiva com a implementação do registro antropométrico de criminosos. As narrativas de Gervásio cotejaram comissários de polícia, peritos, crimes desvendados, discussões sobre o sistema prisional e as novidades tecnológicas e sociais da época a respeito das investigações:
Antes mesmo do emprego recorrente da fotografia, as evidências encontradas no exame pericial se juntavam aos processos criminais através de relatórios médicos e descrições pormenorizadas, acompanhadas de esquemas pré- impressos, representando o corpo humano, nos quais se registravam as agressões encontradas.123
Em Os Mistérios do Porto, Gervásio iniciou o percurso sobre uma cidade que tinha a violência como potencial e estava repleta de ameaças e perigos. As narrativas demonstravam que mesmo uma cidade que priorizava o progresso, bem ao gosto dos românticos positivistas, podia ser cenário de diversos crimes. Então, quanto mais o
121 BRANCO, Camilo Castelo. Memórias do Cárcere. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2001, p. 326.
122 Ibid., p. 144, p. 194 e pp. 308-309.
123 CASTRO, op. cit., p. 216.
progresso e a concentração urbana aumentavam, subiam também os casos de ocorrências criminosas. O romance mosaico de Gervásio também contava com muitas ilustrações, seguindo a tendência da escola criminológica da época e da afetividade popular pelas imagens relacionadas aos delinquentes e delitos.
Os jornais à época também impulsionaram o acesso ao público de laudos detalhistas sobre crimes investigados. Logo, Gervásio absorveu o desejo popular por esse mundo delinquente ilustrado e já oferecido pela imprensa. O discurso jornalístico e literário, capazes de influenciar a opinião pública, lançaram delinquentes - em grande parte pobres, loucos, prostitutas, miseráveis e crianças vadias - ao protagonismo. Além disso, o romance também adentrou na contradição a respeito de organizações criminosas ligadas a casas de jogos e bordéis que eram toleradas enquanto pobres e seus vícios eram duramente reprimidos pela sociedade portuguesa nesse contexto. Reiterando o argumento que já conhecemos muito bem em terras latinas, nunca foi o fato, sempre foi o autor.
A crítica ao sistema punitivo liberal português foi percorrida e desvelada pelos dois escritores portugueses, atentos e sensíveis ao contexto em que estavam produzindo suas narrativas ficcionais. O ponto em comum entre Camilo Castelo Branco e Gervásio Lobato é evidente: a clientela pobre, atraída aos grandes centros urbanos portugueses, como Lisboa e Porto no século XIX, foi o alvo de mecanismos de repressão alimentados pela permanência dos fundamentos da escola criminológica positivista. Embora as suas narrativas tenham caminhado representando temas que pudessem compor novos discursos que seguissem pela via contrária, a ruptura com essa cultura que sustentava o ideal de civilização burguês naquele momento não ocorreu.