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Análise do discurso: o método resistente

No documento Rio de Janeiro (páginas 42-55)

estudo sociológico. Assim, defendemos que a narrativa ficcional não está em posição inferior nas cadeias discursivas por se tratar de ficção. Em todo discurso que elabora, ali está nosso sujeito atravessado, inevitavelmente, pela lógica do testemunho histórico tratando de acontecimentos datados. Por isso, “o que nos interessa é inserir autores e obras literárias específicas em processos históricos determinados”.81

Nos textos literários, o outro narra a si mesmo e, ao fazê-lo, quebra o pacto da verticalidade discursiva. Dessa forma, observarmos processos de significação considerando que não há sujeito sem discurso como também não há discurso sem ideologia.82 E, tomamos ideologia, segundo Abbagnano, como

toda crença usada para o controle dos comportamentos coletivos, entendendo-se o termo crença (v.), em seu significado mais amplo, como noção de compromisso da conduta, que pode ter ou não validade objetiva.

Entendido nesse sentido, o conceito de I. é puramente formal, uma vez que pode ser vista como I. tanto uma crença fundada em elementos objetivos quanto uma crença totalmente infundada, tanto uma crença realizável quanto uma crença irrealizável. O que transforma uma crença em I. não é sua validade ou falta de validade, mas unicamente sua capacidade de controlar os comportamentos em determinada situação.83

Em nosso recorte, identificamo-nos enquanto sujeitos inseridos na ordem capitalista e, por isso, elencando a análise do discurso enquanto método estaremos atentos para entender a produção de sentidos em sua respectiva condição de produção e de necessidade de controle de comportamentos: quem é o outro que fala a partir da margem capitalista do mundo resistindo a sua desqualificação enquanto sujeito?

Estamos adentrando terreno pantanoso, território que articula o simbólico e o político para observar os rótulos classificadores produzidos como uma prática histórica e social.

A análise do discurso é o método resistente por excelência e, por isso, sua história é a base para trilhar uma análise distante de inclinações que nos afastem da materialidade:

[...] se a Análise do Discurso é herdeira das três regiões de conhecimento – Psicanálise, Linguística, Marxismo – não o é de modo servil e trabalha uma noção – a de discurso – que não reduz ao objeto da Linguística, nem se deixa absorver pela Teoria Marxista e tampouco corresponde ao que teoriza a Psicanálise. Interroga a Linguística pela historicidade que ela deixa de lado, questiona o Materialismo perguntando pelo simbólico e se demarca da Psicanálise pelo modo como, considerando a historicidade, trabalha a

81 Ibid., p. 8.

82 ORLANDI, 2020.

83 ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 533.

ideologia como materialmente relacionada ao inconsciente sem ser absorvida por ele.84

Eni Orlandi nos relata sobre os estudos linguísticos no Brasil nos anos da ditadura empresarial civil-militar, no período de 1964 a 1984, coincidentemente, próximo à publicação de Feliz Ano Novo. A análise do discurso, assim como algumas narrativas ficcionais, está extremamente conectada ao nosso objeto, pois é o método que precisou resistir durante a ditadura no Brasil. Foi Orlandi quem sentiu o braço repressivo do Estado, assim como Rubem Fonseca, e se voltou ao passado para explicar o caminho da análise do discurso na conjuntura política brasileira.

Em finais de 1968 e início de 1969, nas sendas do AI5, Orlandi afirma que

“havia aprendido com a esquerda e com Pêcheux que para falar uma coisa pode-se falar outra. Analisava, então, não o discurso político mas o discurso pedagógico e o religioso”.85 O político, que não podia ser dito, foi o foco de Orlandi em um contexto em que a fábrica discursiva do regime militar estava funcionando muito rapidamente para cristalizar que não era golpe, mas revolução:

Com a censura imposta, eles falavam sem parar, saturando a sociedade com seus sentidos, enorme profusão de propaganda, falta de liberdade, censura e perseguições. E discursos, eu diria, aparentemente anódinos, falando em democracia, em salvar o país. Um exemplo é o ato Institucional número 5.

Que diz proporcionar o que, na verdade, é absolutamente negado à sociedade:

democracia.86

A análise do discurso foi alvo de discursos autoritários, os quais sempre falavam de uma ameaça ou de um fantasma que atacaria a sociedade pelas costas: o comunismo era o vilão, enquanto os heróis da “pátria, deus e família” roubavam liberdades e direitos do povo. Obviamente, a análise do discurso era perigosa, pois era a resistência contra esse projeto nefasto:

Os militares empunham seu patriotismo como argumento político e criam o Milagre Econômico. Paira em todo lugar a ideia do Brasil moderno. Criam o Mobral. Mas silenciam Paulo Freire e, com seus programas, leis, inclusive na Universidade, com o pretexto da modernização, jogam o país em grave crise da educação.87

84 ORLANDI, 2020, p. 18.

85 Id., 2017, p. 17.

86 Ibid., p. 18.

87 Ibid., p. 19.

Todo esse projeto foi construído pelo discurso, alerta Orlandi. Militares golpistas e resistentes estavam, no mesmo momento, lutando através de discursividade. É nessa conjuntura que a análise do discurso, filha da resistência, instala-se enquanto método para destruí a parafernália golpista e desvelar os discursos naquilo que realmente representavam: “é esta a conjuntura em que procura se firmar a análise de discurso. Em um momento em que a luta pela palavra é fundamental e em que, como disse em outro trabalho (1992), o silêncio trabalha politicamente, significando o que não pode ser dito”.88 A resistência à demanda por ordem da década de 70 precisou da análise do discurso como método e, por isso, a resgatamos hoje.

Para promover esse resgate, é preciso perceber que:

De um lado, é na movência, na provisoriedade, que os sujeitos e os sentidos se estabelecem, de outro, eles se estabilizam, se cristalizam, permanecem.

Paralelamente, se, de um lado, há imprevisibilidade na relação do sujeito com o sentido, da linguagem com o mundo, toda formação social, no entanto, tem formas de controle da interpretação, que são historicamente determinadas: há modos de se interpretar, não é todo mundo que pode interpretar de acordo com sua vontade, há especialistas, há um corpo social a quem se delegam poderes de interpretar (logo de “atribuir” sentidos), tais como o juiz, o professor, o advogado, o padre, etc. Os sentidos estão sempre

“administrados”, não estão soltos. Diante de qualquer fato, de qualquer objeto simbólico somos instados a interpretar, havendo uma injunção a interpretar. Ao falar, interpretamos. Mas, ao mesmo tempo, os sentidos parecem estar sempre lá.89

A sensação de liberdade sobre o discurso proferido e suas possibilidades, que parecem concretas, vicia e oculta o real acúmulo de discursos cristalizados por trás da seleção dos vocábulos. Não cabe o espaço da neutralidade, ainda que assim se queira analisar da forma mais ingênua possível, pois “a entrada no simbólico é irremediável e permanentemente: estamos comprometidos com os sentidos e o político”90. Assim, é possível observar quem é esse homem que fala, rotula e classifica, revelando a contaminação das nuances de nosso capitalismo periférico, modelo em que está irremediavelmente inserido, uma vez que o dito, e o não dito, é produzido em um dado contexto ideológico. Portanto, não existe neutralidade nos discursos que produzimos e, sobre eles, precisamos transpor o que parece ser evidente, porque quase sempre é visto como superficial.

88 Ibid., p. 20.

89 ORLANDI, 2020, p. 8.

90 Ibid., pp. 7-8.

Como o primeiro passo para compreender as articulações de narrativas, compreendemos que o sistema capitalista não oferece nem mesmo a liberdade de escolha discursiva:

[...] é um sujeito ao mesmo tempo livre e submisso. [...] Essa é a base do que chamamos de assujeitamento. Tomando em conta a relação da língua com a ideologia, podemos observar como, através da noção de determinação, o sujeito gramatical cria um ideal de completude, participando do imaginário de um sujeito mestre de suas palavras: ele determina o que diz. [...]

Submetendo o sujeito mas ao mesmo tempo apresentando-o como livre e responsável, o assujeitamento se faz de modo a que o discurso apareça como instrumento (límpido) do pensamento e um reflexo (justo) da realidade.[...] O sujeito diz, pensa que sabe o que diz, mas não tem acesso ou controle sobre o modo pelo qual os sentidos se constituem nele.91

Seguindo por um atravessamento marxista, é evidente que não há possibilidade de escolhas frente a alternativas concretas, pois elas não existem. Aqueles que controlam o monopólio discursivo o usa para desqualificar o outro e este precisa resistir pelo discurso contrapunitivo. Logo, não há liberdade no ato discursivo, na escolha dos vocábulos, já que tudo está atravessado por condicionantes históricas e o discurso nunca está voltado apenas para si mesmo: “quando nascemos os discursos já estão em processo e nós é que entramos nesse processo. Eles [os discursos] não se originam em nós. Isso não significa que não haja singularidade na maneira como a língua e a história nos afetam. Mas não somos nós o início delas”92.

A ilusão de um sujeito livre em suas escolhas, promovida pela relação de liberdade-submissão, é condição própria do capitalismo. Essa ordem tem forma de assujeitamento, mas, paradoxalmente, sustenta a ideia de autonomia discursiva individual, pois “este processo é fundamental no capitalismo para que se possa governar”93. O medo coletivo é administrado como estratégia de governabilidade e, do nosso lado da margem, em uma sociedade forjada por relações extremamente hierarquizadas, lugares de poder assim se constituem pela força e permanência. Por isso, alguns discursos, evidentemente, valem mais do que outros.

As escolhas para construções discursivas estão, inegavelmente, atadas às especificidades das relações de produção humana. Essa forma, que vai muito além da visão economicista, é ampla e abarca a maneira como nos relacionamos enquanto sociedade, gerida, evidentemente, pelo sistema vigente. Para alcançar essa percepção, é

91 Ibid., p. 30 e pp. 48-49.

92 Ibid., p. 33.

93 Ibid., p. 49.

necessário observar o capitalismo não apenas como um sistema econômico em um modo de produção – embora também o seja -, mas, na amplitude proposta, como um modo de relação, motivo pelo qual não se pode ignorar seus efeitos materiais concretos.

A partir dessa proposta de observação é que podemos compreender a existência de uma narrativa que sustenta o capitalismo como um sistema possível de regulação de corpos – alguns mais especificamente – e de condutas – ditas criminalizáveis para desqualificar uma massa de subalternos e indesejáveis. Afinal, “o capital precisou sempre de um grande projeto de assujeitamento coletivo, de corpo e alma”94 e “sabe-se de sobra que o tratamento aos que ‘ameaçam’ é brutal, constrangedor, sem limites no uso de seus corpos, sem limites físicos e morais95”. É contra o controle de almas e de corpos que a narrativa ficcional, multiperspectivada, insurge.

Assim, é preciso observar e descristalizar discursos de classes que têm como objetivo manter a hegemonia desse sistema, não havendo dúvidas, portanto, que o direito penal é via mais próxima do braço repressivo estatal: desqualificar pelo discurso para justificar processos de criminalização e extermínios na prática. Então, a análise dos discursos desqualificadores ou qualificadores ao longo do rio discursivo criminológico e literário precisa levar em consideração que os sujeitos:

[...] estão realizando ao mesmo tempo o processo de significação e não estão separados de forma estanque. Além disso, ao invés de mensagem, o que propomos é justamente pensar aí o discurso. Desse modo, diremos que não se trata de transmissão de informação apenas, pois, no funcionamento da linguagem, que põe em relação sujeitos e sentidos afetados pela língua e pela história, temos um complexo processo de constituição desses sujeitos e produção de sentidos e não meramente transmissão de informação.96

Não é possível ignorar que discursos são decisões políticas, frutos de muitos acúmulos, provenientes de uma classe hegemônica que transportou métodos principalmente dos países europeus. Através dos discursos, podemos ler complexas relações políticas de poder. Isso se reflete na comunicação e na elaboração discursiva, superficialmente entendidas como manejos livres do sujeito. Para romper essa lógica, é que se precisa mais do que abrir os olhos, é necessário dilatar as pupilas para, por meio da contribuição da análise do discurso, cultivar um “estado de reflexão e, sem cairmos

94 BATISTA, 2011, p. 19.

95 COIMBRA; SCHEINVAR, op. cit., p. 61.

96 ORLANDI, 2020, p. 19.

na ilusão de sermos conscientes de tudo, permite-nos ao menos sermos capazes de uma relação menos ingênua com a linguagem”97.

A “estranha potência” das palavras, de Cecília Meireles, destacada por Nilo Batista nos atenta para o perigo dos vocábulos que rodam a órbita do campo semântico do sistema de controle penal. Por isso, é necessário vigilância para perceber o risco de escolhas vocabulares nada inocentes e questionar: “afinal, fomos capazes de teorizar sobre ‘homens perigosos’ e até mesmo sobre ‘classes perigosas’; por que não conseguiríamos identificar palavras perigosas?”98 Estamos travando uma batalha discursiva ainda que pareça impossível: descristalizar o campo semântico impregnado na maneira de sentir o outro pela questão criminológica usada para nos desqualificar.

É na ordem discursiva que os entraves se iniciam. A superação se oferta nas incontáveis maneiras e oportunidades de desconstrução da lógica desqualificadora e, consequentemente, de seu discurso, ainda que os tempos sejam os mais obscuros.

Colocar-se na trincheira contra a ordem capitalista, contaminada desde o início por um modelo de ordem que se sustenta na desigualdade, é compreender como discursos que inflam sentimentos punitivos se cristalizaram em nossa margem periférica. E, assim como Nilo Batista indica o caminho para desacreditar a palavra segurança, desacreditamos discursos desqualificadores sobre o outro.

O medo, construído em torno do outro que o classifica como aquilo que pode ser denominado como “sujeito matável”99, tem um percurso, nossa grande difusão histórica.

Essa construção costura a crença no sistema de controle criminal, sobretudo nas penas, ocultando um modelo colonial e racista, muito mais nocivo na margem periférica.

Assim, por décadas o sujeito matável é constantemente atualizado, como verdadeiro produto de uma cultura discursiva, em uma lógica do inimigo interno, para sustentar discursos de que o castigo é destinado a todos. “Na constituição do sujeito matável é fundamental assinalar a visão seletiva do sistema penal”100 com sua funcionalidade perversa.

Todavia, resistimos volvendo um passado empoeirado de presente:

Podemos demarcar aí a rápida passagem dos projetos no sentido de novas políticas públicas no setor para uma crescente ânsia de segurança ancorada nos medos históricos advindos da paisagem da memória escravista. O Rio de

97 Ibid., p. 8.

98 BATISTA, Nilo. Criminologia sem segurança pública. Revista Derecho Penal y Criminología.

Buenos Aires, ed. La Ley: v. 10, pp. 86-90, 2013, p. 87.

99 BATISTA, 2020.

100 Ibid., p. 303.

Janeiro foi um dos centros do escravismo brasileiro e o medo branco foi sempre o grande vetor de políticas de truculência e extermínio contra a movimentação da população afrodescendente pelas ruas da cidade. Suas estratégias de sobrevivência, resistências e suas próprias existências foram sempre alvo de corporações policiais brutais e brutalizantes. A tortura e morte dos corpos negros é uma permanência histórica de longa duração em nossa história e uma espécie de paisagem natural do nosso cotidiano.101

Revolvendo a poeira de outras épocas, Vera Malaguti cita um trecho editorial de um jornal local do Rio de Janeiro do século XIX a respeito da Revolta dos Malês, o qual desenha o ponto sensível da formação de nossa polícia:

Parece que as mais obvias e imediatas que se devem tomar, he estabelecer primeiramente huma Policia activa e vigilante, que observe com cuidado todos os passos que os Africanos derem que pareção encaminhar-se a conjurações contra nossa existência, para que a tempo se previnão, empregando para esse fim todos os meios que mais convincentes forem para se descobrirem tenções tão pavorosas: segundo, termos huma força armada sufficiente, que pela sua disciplina, gente escolhida de que se compozer, nos insipire confiança, e aos escravos infunda terror...102

Caminhamos sobre uma teoria materialista do discurso para detectar como esse outro, a quem é preciso se “infundar terror”, é vendido como uma permanência discursiva, pois “o dizer tem história”103, principalmente naquilo que oculta. Da margem em que falamos, as questões de raça e classe atravessam o rótulo e “as palavras simples do nosso cotidiano já chegam até nós carregadas de sentidos que não sabemos como se constituíram e que no entanto significam em nós e para nós”104.

O estranhamento e a criminalização são introjetados sobre a figura do outro, a quem tudo sempre se negou, para que o medo possa sustentar a função real desse sistema de controle. É dissipado um discurso fácil que exige maior rigor punitivo, as custas da ocultação de um mecanismo muito funcional ao controle dos subalternos, por meio da “manipulação de [...] uma multidão paranoica: é a união assustadora de pessoas aterrorizadas”105. E já sabemos que “sociedades assombradas produzem políticas histéricas de perseguição e aniquilamento”106.

O medo, fio dos discursos legitimantes das ações de controle criminal do Estado, é o que alimenta a construção de um estereótipo do outro enquanto um sujeito que deve

101 Ibid., p. 300.

102 BATISTA, 2003, p. 192.

103 ORLANDI, 2020, p. 47.

104 Ibid., p. 18.

105 ZIZEK, op. cit., p. 46.

106 BATISTA, 2003, p. 26.

ser controlado e quase sempre aniquilado, sem esquecermos de que a guerra às drogas foi, e é, alicerce na construção de desse não-sujeito:

No Rio de Janeiro das duas últimas décadas do século XX, milhares de crianças e jovens, predominantemente negros e invariavelmente habitantes de favelas, são mortos por incursões policiais que, a serviço da cruzada contra as drogas, cumprem na verdade a tarefa de intimidar uma população insatisfeita e faminta, numa espécie de controle social penal preventivo pelo terror. [...]

As oligarquias brasileiras contemporâneas, que estimulam e enaltecem – velada ou expressamente – a permanente opressão que a polícia, a pretextos da “guerra santa” contra as drogas, exerce sobre as comunidades faveladas, com seu saldo fantástico de mortos, mais do que cúmplices de um terrorismo permanente e sistemático, são dotadas de confortável indiferença a que aludimos; elas também pensam, como o abade Arnaud, que Deus reconhecerá os seus.107

A construção seletiva do outro, inimigo público interno, precisa trabalhar na sua cumplicidade perversa essa visão de ser identificado como um todo monolítico criminoso para que se justifique um destino de toda sorte de perversões e punições. Em nossa margem, o capitalismo produz uma insone sensação de insegurança, o que, sem dúvida, é também um produto que se constrói e se alimenta de discursos punitivos.

Estamos a tratar de permanências: discursivamente, constrói-se para ocultar.

O papel dos mass media é implacável para vender o desejo punitivo e oferecer seus produtos garantidores de segurança. A solução midiática, que nada tem de ingenuidade, é sempre pela via do controle criminal. Esses meios alimentam, cotidianamente, as validações criminosas sobre esse outro depósito de toda a ira punitiva:

Nessa perspectiva, se os mass media alardearem uma grande cifra de crimes em sua programação, além de qualificarem cotidianamente certas leis penais de brandas ou defasadas, bem como determinadas instituições de ineficazes, esta imagem produzida será fatalmente introjetada como verdade, reverberando em medo e insegurança que, por sua vez, conduzirão à fragilização dos vínculos sociais e a demandas por respostas estatais mais duras [...]. Desse modo, para que logrem êxito ou legitimidade, pressupõe-se necessário o encontro de alguma ressonância na coletividade, a qual pode ter astutamente esculpida com o manejo de estereótipo e de etiquetamentos ou, então, representada pelos comentários de (e)leitores em jornais, cujo clima estampado convergirá em ferramenta perspicaz.108

O consenso reforça a imagem perversa e distorcida de que o outro é, portanto, um sujeito matável. Sempre caminhamos sobre a imposição de flagelo sobre o corpo

107 BATISTA, Nilo. Matrizes ibéricas do sistema penal brasileiro, I. Rio de Janeiro: Revan: ICC, 2002, p. 241.

108 GOMES, Luiz Flávio; ALMEIDA, Débora de Souza de. Populismo penal midiático: caso mensalão, mídia disruptiva e direito penal crítico. São Paulo: Saraiva, 2013, pp. 141-142.

dele, é uma necessidade. Consequentemente, a ilusão creditada ao sistema de controle criminal, amparada no amor à punição, faz crer e atravessar discursos cristalizados de que “com a imposição de uma pena aos responsáveis por aquelas condutas, toda a violência, todos os perigos e ameaças, todos os problemas estarão sendo solucionados”109. Nesse caminho discursivo perverso, oculta-se a real funcionalidade do sistema penal em sua plena operacionalidade: ele não se destina a todos, sendo sua lógica a da excepcionalidade.

Podemos então, finalmente, enxergar além da carapuça de um sistema que tem se mantido de pé por meio de um discurso da igualdade da lei, da segurança jurídica e de tantas outras artimanhas elaboradas para seu triunfo.

(...) O sistema penal funciona e funciona bem. Funciona para os fins para os quais foi sempre dirigido: manter as pessoas onde estão. (...) Como meio racionalizador das práticas penais, o saber penal procura justificar teoricamente as ações de todas as agências do sistema, naturalizando as ilegalidades e os excessos como meio de legitimação do aparelho de controle.110

Nessa estrutura obsessiva, o outro perigoso, perversamente construído, precisa fazer o empréstimo compulsório de sua figura para manter oculta a real estrutura de dominação do sistema de controle criminal. Afinal, como não punir e aniquilar esse outro? Não o fazer é, evidentemente, pensar na ordem do impossível. No passado o positivismo separou e deixou os indesejáveis para o exército de reserva. Agora e aqui, muito rapidamente, aplaudimos abatimentos de corpos estranhos a nós. E os discursos são a origem de tudo, cristalizados por décadas e, muitas vezes, propositalmente pelas próprias instituições de controle.

Sem sermos obcecados por achar a origem mas preocupados em interromper a permanência desqualificadora, a análise do discurso se afina à criminologia crítica para observar narrativas ficcionais, pois ambas carregam em si a marca da transdisciplinaridade:

[...] o dispositivo teórico e analítico da análise do discurso produz um deslocamento no olhar leitor e trabalha a interpretação enquanto exposição do sujeito à historicidade (ao equívoco e à ideologia), na sua relação com o simbólico. Isso permite aos que trabalham em diferentes disciplinas, seja das ciências humanas ou sociais, a literatura, e mesmo as ciências da vida ou da natureza, ter em conta a linguagem e não se iludirem com sua transparência.

Ao ter em conta a análise de discurso, esses cientistas não estacionam na análise de conteúdo (o que o texto quer dizer) mas no como estes textos

109 KARAM, Maria Lúcia. Utopia transformadora e abolição do sistema penal. In: PASSETTI, Edson;

SILVA, Roberto Baptista Dias da. (Orgs.). Conversações abolicionistas: uma crítica do sistema penal e da sociedade punitiva. São Paulo: IBCCRim, 1997, p. 70.

110 FLAUZINA, op. cit. p. 27.

No documento Rio de Janeiro (páginas 42-55)