Para tanto, no primeiro capítulo procuro apresentar a “inquietação” ou “sentimento” que levou Jessé Souza a reconstruir. Neste ponto pretendo mostrar como Jessé Souza oferece uma visão alternativa da questão da subcidadania brasileira. 10 Mais uma vez, Jessé Souza não parece estar a criticar o próprio liberalismo político ou económico.
O Brasil Dos Homens Cordiais
Por estas razões, é no mínimo estranho que após algumas gerações Sérgio Buarque seja associado por Jessé Souza ao conservadorismo presente nas sociedades contemporâneas. Na Ibéria de Sérgio Buarque haveria mais sentimentos do que interesses, mais círculos necessariamente particularistas do que cidadãos que lutavam por uma causa comum, facto que teria sido agravado por uma espécie de absolutismo precoce com a ascensão do senhor de Avis e a cooptação da burguesia daquele país, o que teria contribuído para a retirada do “elemento revolucionário” que esta classe oferecia em outros países (Idem, p.36). O ator que emerge de um processo de indiferença entre o público e o privado, o interesse e o afeto e o universal e o particular seria para Sérgio Buarque o “homem caloroso”.
O Brasil do Patrimonialismo
De modo geral, para Jessé Souza, Sérgio Buarque interpretaria assim todos os nossos movimentos históricos e erroneamente, como meras mudanças epidérmicas, feitas para "os ingleses verem", destinadas a garantir a aprovação passageira de outros povos, o que tornaria completamente inautêntica a modernização como nossa traço mais característico (Idem, p. 167). Isso porque a colonização sempre se basearia na figura da coroa portuguesa, que na busca pela criação de riqueza fácil acabou moldando o próprio Estado brasileiro (Idem, p.128). É o que Faoro para Jessé Souza parece fazer quando equipara a presença meramente fiscalista da coroa no século XVIII no contexto da descoberta das minas com a rotação do reino em 180822 (Idem, p.179). .
O Brasil do “você sabe com quem está falando?”
Isso porque “a rua”, como categoria sociológica, representaria o reconhecimento da existência de uma modernização efetiva, que DaMatta identifica como o código universal e individualista das revoluções burguesas. Portanto, se existe alguma explicação para o fenômeno “você sabe com quem está falando?” ou "jeitinho", devem ser buscados em alguma forma de subjetividade decorrente dessa transformação e não em reminiscências da ética pré-moderna. Isso não significa que o Brasil não tenha seus problemas particulares, mas que os mesmos problemas devem ser analisados em termos da eficácia das instituições modernas e não de uma suposta “ausência” de modernização.
A Modernização Seletiva
Primeiramente, tentarei mostrar como Jessé Souza constrói a tese de que vivemos uma “modernização seletiva” que teria relegado toda uma classe de cidadãos à pobreza material e social. A visão que emerge desta ideia é a de um fundo partilhado, opaco e invisível, que permitiria caracterizar as “regras do jogo” da vida social e o repertório comum das sociedades. Para Taylor, vivemos atualmente sob o signo de um “imaginário social” moderno, que está sedimentado por uma ordem moral específica e materializado por certas formas sociais, como o mercado, a esfera pública e a ideia de autogoverno popular. .
Taylor chama essa forma de ver “o self”, que teria a teorização mais desenvolvida em Locke, de “o self preciso” (TAYLOR, 1994, p.210). Contudo, isto não significa que o processo de modernização deva ser tomado como unívoco, nem que o próprio ideal de modernidade se espalhe homogeneamente onde quer que exista. O aspecto fundamental desta construção é que, após a modernização, são os ideais desta “ordem moral” que começam a hierarquizar e povoar as sociedades.
A hipótese constitutiva da análise de Jessé Souza sobre a singularidade da modernidade brasileira surge então da sua condição de pólo receptor de um fluxo que. Visto que as práticas humanas são o tipo de coisas que têm significado, certas ideias são inerentes a elas; Não é possível distinguir os dois para perguntar: o que causa isso? Também na França, obras como Camponeses em Francês, de Eugen Weber, demonstram que um processo de transformação social de homogeneização é um pressuposto da eficácia social da noção de cidadania (SOUZA, 2006, p.99).
Para Jessé Souza, as práticas institucionais sob o pretexto de uma revolução burguesa encapuzada ou de uma “revolução passiva” começaram a produzir suas consequências estruturais e funcionais de forma molecular, fechada, mascarada e até imperceptível, justamente pela ausência do conceito relativamente mais explícito componente, consciente e reflexiva como teria sido o caso nas sociedades ocidentais.
O Patriarcalismo E A Escravidão
Apesar de concordarmos com a maioria das críticas habitualmente feitas a Freyre, o fato é que segundo Jessé Souza, em Freyre teríamos primeiro 1) a base do patriarcalismo brasileiro, instituição fundamental para compreender todo o desenvolvimento posterior da sociedade brasileira, bem como como suas condições de surgimento e reprodução, o que sugeriria a modernização peculiar que aqui se desenvolveu;. É na “Casa Grande e Senzala” que, segundo Jessé Souza, encontraremos as características do sistema patriarcal que se formou durante a colônia e que continuou a influenciar os rumos da nação em outros contextos históricos posteriores. Ao mesmo tempo, não havia nenhum elemento “tradicional” nos domínios da família patriarcal brasileira, presente em outras sociedades, como mostram, segundo Jessé Souza, os estudos de Max Weber sobre o patriarcalismo, que era limitado por regras e costumes, ou até mesmo pelo direito consuetudinário, o poder do patriarca (SOUZA, 2006, p.119).
Segundo Jessé Souza, Freyre teve o mérito de compreender claramente que o direcionamento dos principais impulsos agressivos e sexuais depende principalmente da oportunidade e do acaso, ou seja, de influências sociais e externas, muito mais do que da predisposição e da perversidade inata. Para Jessé Souza, em parte, o próprio conceito de sadomasoquismo implica proximidade e até uma forma de intimidade. O facto a considerar, afinal, é que toda a gama de relações possíveis, desde a proximidade e o amor até à distância e à violência brutal, foi decidida pela arbitrariedade e pelos caprichos do proprietário da terra.
Segundo Jessé Souza, esses “homens livres” ofereciam o primeiro contingente da ralé à qual se somaram posteriormente os escravos libertos: homens estritamente dispensáveis, afastados dos processos produtivos essenciais à sociedade. Para aqueles sujeitos ao controlo pessoal, não existem marcas objetivadas do sistema de restrições ao qual a sua existência está confinada: o seu mundo é formalmente livre. Para aqueles que estão vinculados ao poder pessoal, define-se assim um destino imóvel, insensivelmente preso à conformidade.
O estudo do patriarcado em Gilberto Freyre e o papel do homem livre na sociedade escravista de Maria Sylvia de Carvalho Franco constituem assim, para Jessé Souza, sucessivas linhas de interpretação de como a sociedade brasileira forjou em seus primórdios, por um lado, uma poder quase absoluto por um lado, dos senhores camponeses e, por outro lado, a total subordinação de grandes contingentes humanos, que, fechando os seus horizontes de percepção dos seus próprios interesses, viverão apenas em função dos interesses e desejos do senhor . .
Do poder pessoal ao poder impessoal
Mas a natureza deste liberalismo, presente nos seus contornos mesquinhos, manifesta-se em pactos oligárquicos e compromissos entre elites, inicia um abandono secular de um “lixo”, despreparado para enfrentar as novas condições socioeconómicas da sociedade competitiva que estava prestes a nascer (SOUZA, 2006, p. 133). Ao contrário de Florestan Fernandes, que localiza o ponto de inflexão e mudança em 1822 com a independência e a constituição de um Estado-nação autônomo, Freyre antecipa-o em vários anos: sua pedra de toque teria sido a chegada da família real ao Brasil em 1808, o que levaram à urbanização de alguns grandes centros, à abertura de portos e à quebra do monopólio comercial da metrópole (SOUZA, 2006, p.137). Por outro lado, a abertura dos portos significará não apenas o aumento do intercâmbio de mercadorias, mas também a formação de um ambiente econômico que mude o cenário de cidades como o Rio de Janeiro, de agentes comerciais, vendedores, fabricantes, mecânicos e viajantes, europeus, especialmente ingleses (SOUZA, 2006, p.137).
No final do século XIX, segundo Freyr, o amor romântico entronizou-se na sociedade, independentemente da classe e posição económica dos amantes, como forma dominante e legítima de consórcio entre os sexos, o que comprova a penetração do ideal individualista na vida cotidiana (SOUZA, 2006, p. 139). Segundo Freyre, quando jovem imperador cercou-se de iguais e ajudou a criar o que Nabucco chamaria de “neocracia” (SOUZA, 2006, p. 140). Você terá que lidar com inúmeras instituições impessoais e intermediárias, como a burocracia estatal, os interesses comerciais e os arranjos produtivos, que exigem novas mentalidades individualistas e burguesas, ao mesmo tempo em que valorizam o conhecimento e o talento do indivíduo (SOUZA, 2006, p. 141). ).
Atentar para esse fato, na verdade, para o autor significa rejeitar uma “ideologia espontânea do capitalismo”32 (SOUZA, 2006, p.144), que para ele seria um discurso que sugere uma neutralidade e uma universalidade assumida que as práticas institucionais “ sugerem a si mesmos". Isso resultaria em mais um momento histórico que confirma a tese da prioridade das práticas institucionais e sociais em relação às ideias que marcam o processo de modernização brasileiro (SOUZA, 2006, p.146). Isso porque o liberalismo, formalista e puro, passou a ser associado não mais à expansão da ordem legal e impessoal, mas à elite agrária conservadora exportadora de produtos primários, que buscava perpetuar-se no poder por meio de um pacto oligárquico, que permitia alternância. de alguns dos estados mais ricos no poder (SOUZA, 2006, p.146).
A questão passa a ser elevar a reprodução do mercado e do Estado a um novo patamar, para que possa permitir a participação econômica e política de setores até então marginalizados (SOUZA, 2006, p.148).
O processo de modernização periférica e a constituição de uma “ralé” estrutural 70
Jessé Souza recupera o pensamento de Florestan Fernandes sobre esse ponto e vê nele as sementes de uma nova possibilidade de ‘explicar’ a subcidadania. Contudo, segundo Jessé Souza, haveria também um 'habitus secundário', que teria a ver com a fronteira do 'habitus primário' para cima. Esses dados nos levam a outro tema delineado na pesquisa empírica de Jessé Souza: a má-fé das instituições.
De modo geral, acho que Jessé Souza consegue responder bem às questões levantadas sobre as questões 1), 2) e 3) levantadas sobre sua própria teorização sobre o Brasil. Nesse sentido, a anexação de uma teoria econômica ao trabalho de Jessé Souza sobre imaginação sociológica seria muito bem-vinda como forma de fortalecer sua tese. Nele, Jessé Souza retrata uma forma de ascensão social, principalmente em termos de consumo e “educação”, de todo um segmento de trabalhadores.
Conforme mencionado anteriormente, as questões 4) e 5) voltam-se para a relação de Jessé Souza com a sociologia da inautenticidade. Esses enxertos, nos termos indicados, certamente não desacreditam a percepção de Jessé Souza sobre a existência de uma espécie de cultura atávica ou de memórias pré-modernas em ambos os autores. Isso porque, em relação a este autor, a crítica de Jessé Souza me parece acertada, portanto não há nada a acrescentar a respeito dele.
O crítico de Jessé Souza parece ter isso em mente quando ele ocupa espaço como ele é. De início, porém, é importante abrir o terreno onde o pensamento de Jessé Souza possa se fundir com o pensamento dos advogados. Embora Marcelo Neves identificasse esse fenômeno com o peso do poder pessoal dos “donos do poder”, a tese da modernização seletiva de Jessé Souza parecia fundamental para explicar esse fenômeno.