De fato, é em Raymundo Faoro que se pode encontrar uma definição mais delineada do que seria afinal um “patrimonialismo brasileiro”. Se Sérgio Buarque atribui este fenômeno a uma indistinção entre o público e o privado no curso de um contexto onde a própria noção de público ainda lutava para vir à tona nas consciências, Faoro reelabora o conceito tendo em vista não uma indistinção, mas uma apropriação crassa daquilo que deveria ser público por grupos que ele chama de os “donos do poder”. A apropriação do público, neste contexto, seria capaz de resistir à modernização econômica e ao ocaso da família patriarcal, perpetuando-se indefinidamente no curso história21.
É principalmente sobre “Os Donos do Poder”, livro mais importante de Faoro, que Jessé Souza desenvolve sua crítica. Esta obra aparece no cenário brasileiro já em 1958, tendo uma repercussão modesta e restrita a alguns círculos intelectuais. A situação muda quando,
21Para uma discussão mais detalhada de como ambos os autores trabalham os conceitos cf. FAORO, Raymundo.
A aventura liberal numa ordem patrimonialista. Revista USP, São Paulo, n.17, 1993; FAORO, Raymundo.
Sérgio Buarque de Holanda, analista das instituições brasileiras. In:__________. A República Inacabada. São Paulo: Globo, 2007.
em 1975, o livro é reeditado e, nas palavras do jornalista Mino Carta, seu autor converte-se e
“outsider” em profeta.
Essa recepção diferencial é explicada, segundo alguns estudiosos do autor (cf.
WERNECK VIANNA, 2010, p.366; RICUPERO, 2008, p.158) pelo momento político vivido pelo Brasil à época. Faoro, jurista de formação e de posições autônomas em relação ao debate acadêmico da época, enfatiza em “Os Donos do Poder” o peso sufocante do Estado, tal como se delineava, sobre a sociedade civil, impedindo que o país de se desenvolver e o povo de assumir o caráter soberano do poder. Nada mais estranho ao Brasil de 1958, quando o projeto nacional-desenvolvimentista, capitaneado pelo Estado, ainda mostrava fôlego e representava no imaginário popular e mesmo acadêmico as grandes transformações econômicas e sociais iniciadas na década de 30. A situação muda quando, em 1975, o livro é reeditado e o Brasil encontra-se sob o julgo da ditadura militar. Neste momento, Faoro encontra um cenário mais aberto ao questionamento das bases autoritárias da formação brasileira, que encontrava, segundo ele, no Estado, o principal mecanismo de produção e reprodução do arbítrio.
De um modo geral, como já dito, o projeto contido em “Os Donos do Poder” consiste em demonstrar o caráter patrimonialista do Estado brasileiro. O exercício do poder do Estado, para Faoro, teria se dado sempre de forma não-democrática, particularista e baseada na distribuição de privilégios indevidos. Originado em um contexto onde o Estado nada mais era do que uma empresa pertencente ao Príncipe, esse “formato” teria sobrevivido às mudanças históricas e se tornado uma constante no cenário brasileiro.
Essa constante, segundo Faoro, estaria ancorada sob a formação de uma camada social cuja solidariedade interna se constituiria a partir de um estilo de vida comum e da noção de prestígio compartilhado. É essa camada que teria conseguido se apropriar do Estado, fazendo dele o lócus do gozo de seus privilégios e instrumento de sua reprodução. A esta camada social, Faoro chama de estamento e as quase novecentas páginas de “Os Donos do Poder”
serão utilizadas para demonstrar sua existência e permanência na história.
Tudo começaria com a própria formação do Estado Português que, a partir da crise de 1383-1385, traria com seu desfecho a ascensão da Dinastia de Avis. A partir daí, teria surgido em Portugal uma espécie de absolutismo precoce, tornando-se o rei senhor absoluto e proprietário da nação (FAORO, 2008b, p.19). Este tipo de formação seria, segundo Faoro, prenhe de consequências, uma vez que ao deixar de ser precedida por um período feudal, a
“modernidade portuguesa” não teria conhecido as relações contratuais recíprocas que em outras partes da Europa imporiam limites ao poder do soberano, que, em Portugal, segundo Faoro, “tudo podia”.
É justamente em um contexto onde o poder real comanda desde a atividade econômica até o poder militar, onde o rei constitui monopólios e produz privilégios, que surge o organismo que pensa, exerce e sistematiza uma constituição político-administrativa que já teria todas as características de um modelo patrimonial, uma vez que tudo era tido como propriedade do rei. Esse organismo, como visto, seria o estamento (Idem, p.60). No entanto, o estamento não poderia ser confundido com um simples quadro administrativo ou uma burocracia racional, uma vez que longe de estar adstrito a uma competência que lhe é imposta de forma externa, é ele quem forja “soberanamente” ou sobranceiramente o escopo de sua própria atuação. O estamento seria, assim, a própria face política do patrimonialismo.
É esta “forma social” que acabaria sendo transposta da metrópole para a colônia brasileira a partir do descobrimento, em um processo iniciado pelo estabelecimento das feitorias e desenvolvido com a consolidação de uma colônia de exploração, que não cessaria nem mesmo com a vinda da Corte Portuguesa em 1808. Isto porque a colonização desde sempre estaria calcada na figura da Coroa portuguesa que, em busca de uma feitorizar uma riqueza fácil, acabara por moldar o próprio Estado brasileiro (Idem, p.128).
A coroa portuguesa teria implementado no Brasil, no curso da colonização, uma espécie de “capitalismo politicamente dirigido”, onde o fito da acumulação, já presente, seria orientado pela vontade soberana da Coroa, conforme suas conveniências e interesses. Essa empresa, por suas próprias necessidades e composição social, teria por complemento administrativo a proliferação de uma “constelação de cargos”, que serviria , além das funções públicas exercidas de fato, para a promoção e nobilitação dos letrados e homens de armas. O patrimônio do soberano se converteria, assim, também na colônia, em um Estado gerido por um estamento burocrático. E seus cargos seriam, no sistema patrimonial, segundo Faoro, não mais que “um negócio a explorar, um pequeno reino a ordenhar, uma miga a aproveitar”.
(FAORO, 2008b, p.197).
O quadro pintado pelo autor sobre os primórdios do Estado brasileiro não viria se alterar, segundo ele, com as contestações e revoltas que marcaram a história do Brasil. Nem mesmo a entrada em cena da ideologia liberal e nem a transmigração da família real seriam capazes, para Faoro, de dar conta do problema. Mesmo que certas mudanças fossem promovidas, elas não passariam de compromissos intra-elites com vista a repactuar o poder entre suas frações. Para Faoro, a ideologia liberal, neste contexto, agiria muito mais como uma ideologia justificadora do que propriamente doutrinária:
A passagem do empresário exportador para o senhor de rendas e produtos coincide com a transmigração da corte, em 1808. Soma-se a maturação interna da colônia um incidente da política europeia, separando o tênue, mas já vivo, anseio de emancipação das tendências liberais, separação singular e inexistente na América espanhola e inglesa. Um rei absoluto realiza, preside, tutela a nação em emergência, podando, repelindo e absorvendo o impulso liberal, associado à fazenda e às unidades locais de poder. Liberalismo, na verdade, menos doutrinário do que justificador: os ricos e poderosos fazendeiros cuidam em diminuir o poder do rei e dos capitães-gerais apenas para aumentar o próprio, numa nova partilha de governo, sem generalizar às classes pobres a participação política (FAORO, 2008b, p.283).
Este seria, para Faoro, o “sentido” das revoltas liberais tanto no curso da transmigração da família real quanto na luta pela Independência. Sempre dispostos em transigir em suas reivindicações, os liberais iriam até onde seus interesses, identificados muitas vezes com o do estamento, permitissem. Aliás, todos os momentos históricos, no curso do pensamento deste autor, teriam algo de “eterno retorno do mesmo” ou, como diria Gabriel Cohn, uma fixação neurótica da história, que sempre repetiria a perpetuação do estamento (COHN, 2008b, p.12).
De fato, é assim que Faoro parece interpretar boa parte dos acontecimentos históricos do país. Para ele, a organização do ministério e da burocracia de D. João no Brasil teria sido feita para servir à camada dominante, com o desfruto e gozo de cargos que seriam criados e proliferados com “a mão larga e a imaginação curta” (FAORO, 2008b, p.289). Da mesma forma, o desfecho do movimento que levou à Independência e ao Primeiro Reinado teria sido o compromisso de uma elite que procurava acomodar o velho arranjo de poder a uma teoria política (Idem, p.320) e que teria conseguido manter seu poder sob mecanismos como o Poder Moderador e uma constituição que não teria sido mais que uma apropriação irrefletida de formas que estariam longe de figurar na cultura política da época.
Malgrado as resistências registradas em ambos os períodos, o poder do estamento também estaria presente no reinado de D. Pedro II (Idem, p.397) e na Velha República (Idem, p.432). No que diz respeito ao Segundo Reinado, o poder do estamento estaria presente na manutenção dos cargos meramente nobiliárquicos e na tutela dos políticos e das eleições pelo imperador. Já na República, que seria também obra não do povo, mas de proprietários agrícolas capazes de falar em seu nome (Idem, p.567), o poder do estamento teria se reorganizado em uma estrutura que envolvia desde o coronelismo local até o pacto oligárquico dos governadores para a eleição do Presidente da República (Idem, p.640). Como não poderia deixar de ser, este arranjo teria gerado graves consequências inscritas na consciência dos brasileiros, domesticada por um poder que lhes vinha como natural, amortecido por relações de compadrio e benevolência seletiva (Idem, p.714).
Mas este não seria o último capítulo da história do “estamento”. Mesmo após a revolução de 30 (último período coberto pelos “Donos do Poder”) ele recobrará as rédeas da história e permanecerá incrustrado no Estado, dessa vez dirigindo as classes e arbitrando os conflitos em direção a um projeto de modernização autoritário e conservador. Este projeto se consolidaria em 1937, quando assentada a estrutura burocrática e industrial, o Estado assume de vez o comando da economia (Idem, p.806).
Se o projeto de “Os Donos do Poder” é demonstrar o caráter patrimonial do Estado brasileiro, seu capitulo de desfecho será denominado propriamente de “A viagem redonda”
onde, retomando o argumento que construíra desde o início, Faoro conclui que estaríamos subordinados a uma constante da história, que teria nos submetido ao julgo de um poder que pouco tem a ver com a soberania popular. Sob um Estado moldado pela colonização e, mais tarde, por um capitalismo politicamente orientado, a comunidade política comandaria e supervisionaria os negócios privados como se fossem seus e faria dos cidadãos muito mais súditos que cidadãos, submetidos a uma estrutura que funcionaria sobranceiramente a seus interesses (Idem, p.819).
Se a crítica de Jessé Souza a Sérgio Buarque funciona como uma crítica genérica ao atavismo ibérico e ao uso de conceitos que para ele seriam frouxos e indeterminados, é sobre Faoro que ele desenvolve os principais confrontos à leitura “patrimonialista” da realidade brasileira. Talvez pela importância capital que o termo assume na tese que Jessé Souza pretende derrubar, sua crítica a Faoro é bem mais pormenorizada e permite uma compreensão mais profunda das razões que se pretende levantar contra uma sociologia da
“inautenticidade”.
A primeira questão que Jessé Souza traz à tona é se realmente seria possível chamar o Estado brasileiro do século XX (arrastando este conceito também para o século XXI) de
“patrimonial”. Isto porque, segundo Jessé Souza, o conceito de patrimonialismo, tal qual desenvolvido em Max Weber, é uma noção que envolve, em suas inúmeras variações concretas, todo o espectro de formas de dominação política que vão desde a superação do patriarcalismo familiar, que não possui quadro administrativo próprio, até o moderno Estado burocrático racional moderno. Nesse sentido, a dominação patrimonial é a forma inerente, ainda que variável, de todas as formas de sociedade tradicional de algum tamanho e densidade que exijam a constituição de um quadro administrativo para intermediar a relação entre dominadores e dominados. A categoria do “patrimonialismo” em Weber, seria assim uma categoria historicamente determinada, que busca dar conta da passagem entre o patriarcalismo familiar e os Estados burocráticos modernos. Segundo Jessé Souza, em Weber este conceito
seria incompatível com uma economia monetária desenvolvida e todas as suas consequências e com uma sociedade que, bem ou mal, possua uma burocracia racionalizada (SOUZA, 2000, p.170).
O ponto de Jessé Souza é que o conceito de patrimonialismo em Weber aparece como conceito dinâmico, historicamente determinado, ao passo que seu uso por Faoro é estático e tendencialmente a-histórico. Faoro teria se interessado pouco pelas transformações históricas do que ele chama de estamento burocrático, sempre ressaltando, ao contrário, uma permanência inexorável do mesmo, ignorando uma série de mudanças e porvires que poderiam refletir em conclusões totalmente díspares. No limite, a categoria do
“patrimonialismo” deixa de ser em Faoro uma categoria histórica para assumir a forma de uma “maldição” (Idem, p.171).
Isso ocorreria, segundo o autor, pelo próprio ideal normativo assumido por Faoro: o de que a modernização deveria se dar, tal como ocorrera nos Estados Unidos, sem a presença do Estado, tomando seu toque de midas, agora invertido, como maculador de todos os processos históricos e sociais. O fato é que para Jessé Souza, se analisássemos a história da grande maioria das nações, o modelo americano seria exceção e não a regra e ao fechar-se para as demais possibilidades de modernização nada restaria a Faoro senão explicar todo o processo histórico brasileiro como uma comédia de erros patrocinada pelo ente estatal (Idem, p.173).
A eleição de um instrumento do atraso, o Estado, e de seus agentes, o estamento, também permitiriam a Faoro chegar a uma conclusão equivocada, mas de imensa eficácia não só intelectual, mas também política: a de que os problemas do Brasil poderiam ser atribuídos a uma elite má, que intencionalmente, estaria tramando a todo o tempo contra o país (Idem, p.
175). Este tipo de raciocínio, como é lógico, fecharia os olhos para todo o tipo de questões relacionadas ao âmbito das relações privadas e do reconhecimento recíproco entre os particulares. Aqui Jessé Souza parece ter em mente, que a corrupção, o abuso de poder ou o desrespeito às leis também ocorreria nos espaços de mercado e de que haveria um processo de marginalização social cujo responsável não poderia ser somente a elite má, incrustrada em algum lugar, mas o conjunto das disposições psíquicas e sociais espraiadas pela sociedade.
Além disso, Faoro não conseguiria explicar, segundo Jessé Souza, como o estamento conseguiria dominar indeterminadamente a hegemonia sobre as classes e interesses sociais, mais uma vez caindo em um a-historicismo de difícil precisão.
Aliás, o próprio lugar do estamento no padrão explicativo assumido por Faoro, levaria a algumas perguntas sem resposta: como combinar a “onipotência” do estamento e, ao mesmo tempo, afirmar o poder absoluto dos reis e, mais tarde, dos imperadores? Que poder, afinal, se
sobressairia? Além do mais, como dizer que era o Estado, através do estamento, quem comandara desde sempre a colonização frente à tese, quase que universalmente aceita que, em princípio, a colonização brasileira teria sido marcada pela descentralização política e administrativa, pelo menos até a descoberta das minas no século XVIII? (Idem, p.178).
Para além da ênfase no controle do estamento sobre todo o destino da nação, Jessé Souza também critica a visão que parece subjazer todo o raciocínio de Faoro: poderia mesmo se dizer que toda a política estatal é, de fato, patrimonialista? Poder-se-ia classificar sem erro políticas com conteúdos e intenções díspares e até mesmo opostas sobre uma mesma alcunha?
É isso que, para Jessé Souza, Faoro parece fazer quando iguala a presença meramente fiscalista da Coroa no século XVIII no contexto do descobrimento das minas com a transposição do reino em 180822 (Idem, p.179). Se tentássemos esticar esse conceito ainda para os dias de hoje, os problemas de análise seriam ainda mais graves.
De um modo geral, para Jessé Souza, o erro de Faoro consiste em formular uma noção a priori, o patrimonialismo, e subsumir a ela uma realidade de cinco séculos (para não contar a partir da história de Portugal), sem se dar conta da maneira pela qual essa mesma realidade se alterou profundamente. Fatos já mencionados como a abertura dos portos em 1808 e a urbanização do século XIX alteraram profundamente não só as realidades do mercado e do Estado, como também toda uma série de hábitos, ideias e modo de se portar que não podem ser ignorados. Faoro não parece negar essas mudanças e, no entanto, em nome de sua teleologia explicativa, só teria olhos para a repetição do mesmo na história.
Este seria o tom, mais uma vez, segundo Jessé Souza, de toda a sociologia da inautenticidade: insistir em uma leitura de que a realidade brasileira estaria atravessada por reminiscências pré-modernas, que deveriam ser “liquidadas” para o desenvolvimento da nação. Segundo Jessé Souza, esta visão carregaria consigo a leitura liberal clássica de que o Estado seria o lócus de todos os males. No Brasil, teríamos o progresso e o atraso, sendo este último sempre relacionado às práticas estatais.
Como o próprio Jessé Souza reconhece, visões como a de que estaríamos totalmente presos a uma pré-modernidade, frente à todas as mudanças vivenciadas pelo Brasil nos últimos séculos estariam rareando. Porém, a sociologia da inautenticidade continuaria viva através de uma leitura dual: a de que estaríamos vivendo entre dois brasis: o da modernidade e
22 Em texto posterior à “Os Donos do Poder”, Faoro rejeita a leitura de que todos os atos estatais seriam patrimonialistas. No
entanto, a própria necessidade de uma “explicação”, já demonstra que a leitura de Jessé Souza é uma leitura plenamente possível a partir de “Os Donos do Poder” e de que o livro foi de fato associado a ela. Para a “explicação” de Faoro cf.
FAORO, Raymundo. A aventura liberal numa ordem patrimonialista. Revista USP, São Paulo, n.17, 1993.
do atraso. O principal difusor dessa visão, para Jessé Souza, seria Roberto DaMatta, cuja tese passamos a analisar agora.