Por envolver um número crescente de atores nacionais, a participação do Brasil na cooperação técnica entre países em desenvolvimento (CTPD) representa uma área privilegiada para a compreensão das oportunidades e desafios para a institucionalização da cooperação Sul-Sul nas relações externas do país. 5 O Sul Global não se refere a uma categoria geográfica, mas a um grupo de países em desenvolvimento (países de rendimento médio e países de rendimento baixo).
O que é Cooperação Sul-Sul?
Os países em desenvolvimento partilham conhecimentos, capacidades, competências e recursos para alcançar os seus objectivos de desenvolvimento através de esforços concertados. Alguns autores e instituições optaram por utilizar o termo “Cooperação Sul-Sul para o Desenvolvimento” (CSSD) para denotar a participação dos países na
Breve histórico da Cooperação Internacional para o Desenvolvimento
Liderada pelo Banco Mundial e pelos Estados Unidos, esta abordagem defendia a adopção de políticas intersectoriais envolvendo o financiamento da educação básica e da saúde, estradas, esgotos, etc., que beneficiassem os pobres, a maioria dos quais concentrados em áreas rurais de países em desenvolvimento (LANCASTER, 2007a). A nível multilateral, a partir da década de 1980, foram atribuídos montantes crescentes a programas de ajustamento estrutural, prevalecendo o entendimento de que o investimento directo estrangeiro, e não a ajuda, levaria ao desenvolvimento dos países do sul.
Uma história tentativa da Cooperação Sul-Sul
80 O Programa de Acção de Caracas foi adoptado durante a Conferência de Alto Nível sobre Cooperação Económica entre os Países em Desenvolvimento. Entre as suas funções está a promoção da cooperação técnica e da cooperação económica entre países em desenvolvimento.
Marcos interpretativos da Cooperação Sul-Sul
- Os princípios da CSS e o Sul místico
- Teorias das relações internacionais: o Sul ausente
- Elaborações das teorias sociais sobre a cooperação
- Análise de política externa
As teorias das relações internacionais, mesmo que geradas noutros contextos, podem contribuir para explicar uma série de acontecimentos relacionados com as políticas externas dos países em desenvolvimento (entre outras coisas porque os decisores nestes países tendem a ser socializados por paradigmas dominantes) e certos aspectos da CSS. O peso dos líderes governamentais na agenda de cooperação é consistente com a abordagem proposta por Migdal (1972), que trata as escolhas dos principais líderes políticos como um determinante interno central da política externa dos países em desenvolvimento. Por esta razão, o autor propõe que a análise das políticas externas dos países do terceiro mundo se concentre nos líderes de topo, incluindo os seus valores e objectivos num determinado momento.
Por outro lado, é necessário levar em conta as condições externas da emergência histórica e atual do tema na agenda dos países em desenvolvimento.
Considerações finais
O objetivo deste capítulo é compreender a evolução da política interna de CTPD do Brasil, levando em consideração seus aspectos institucionais, legais, operacionais, decisórios e ideacionais. Devido a restrições políticas, financeiras e legais, não foi possível estabelecer um sistema autônomo nesta área e o PNUD tornou-se a agência central na operacionalização da CTPD brasileira. A segunda parte apresentará um panorama dos dados disponíveis sobre o perfil setorial e geográfico do CSA oferecido pelo Brasil, com foco no CTPD, enquanto a próxima parte tentará compreender até que ponto o discurso e as prioridades estabelecidas pelo ABC são de fato consistentes. , na alocação setorial e localização geográfica da CTPD brasileira.
Na seção seguinte, buscamos compreender quais instituições e grupos de interesse influenciam, e com quais propósitos, o processo decisório da CTPD brasileira.
A evolução histórica do sistema brasileiro de cooperação técnica
O sistema brasileiro de CTI antes da criação da ABC
O então Ministério do Planejamento e Coordenação Geral, por meio da Subsecretaria de Cooperação Econômica e Técnica Internacional (SUBIN), era responsável por estabelecer e coordenar a política interna de cooperação técnica, elaborando prioridades e compatibilizando-as com o plano global do governo, enquanto a formulação de a política de cooperação técnica externa, a negociação dos instrumentos básicos e o encaminhamento das solicitações eram de responsabilidade do MRE por meio do Departamento de Cooperação Técnica (IGLESIAS PUENTE, 2010).125. O decreto que reformou o sistema CTI brasileiro – Decreto nº 65.476, de 21 de outubro de 1969126 – não foi claro quanto às exatas funções a serem desempenhadas pelo MRE no que diz respeito à “política de cooperação técnica externa”, sugerindo que ele apenas desempenharia funções protocolares127 à luz das diretrizes estabelecidas pela SUBIN, que absorveu funcionários e assumiu as funções anteriormente desempenhadas pela Diretoria Técnica. 125 Há registros internos do MRE que mostram a preocupação de que com a reforma de 1969 o sistema cooperativo brasileiro passou a responder ao duplo comando – de um lado o MRE, do outro.
Previa-se que o Ministério do Planejamento reunisse as competências essenciais do sistema GTI brasileiro, a saber: convocar reuniões periódicas para exame colegiado de solicitações e questões gerais de cooperação técnica (com o MRE sempre representado); a decisão sobre quais órgãos e especialistas deverão participar dessas reuniões, dependendo da área sob investigação; a definição e exigência direta ou indireta, neste último caso por parte do Instituto de Planeamento Económico e Social ou de centros de investigação governamentais, de estudos técnicos que subsidiarão as reuniões.
Os condicionantes e propósitos do envolvimento brasileiro na CTPD (anos 50 a
Devido à sua natureza interinstitucional, esse processo muitas vezes ocorreu em paralelo com o MRE e sem que as contrapartes brasileiras se envolvessem em suas próprias visões estratégicas quando se envolveram direta ou indiretamente no fornecimento de cooperação técnica a instituições congêneres em outros países em desenvolvimento. Na análise de Valler Filho (2007, p. 68), que destaca explicitamente os objetivos da ação diplomática brasileira em relação à CTPD na década de 1970, a assinatura de acordos de cooperação técnica entre o Brasil e outros países em desenvolvimento ocorreu num contexto em que. Este programa teve início em 1971, com a assinatura de um acordo com o Paraguai (Acordo para a Implementação de um Programa de Cooperação Técnica; Assunção.
142 Na década de 1970, o PNUD foi a mais importante fonte multilateral de cooperação técnica que o Brasil recebeu, levando o país a ocupar o quarto lugar entre os beneficiários de seus programas de cooperação.
A criação da ABC
O vínculo entre a atração de ICTs e a atração de cooperação em ciência e tecnologia permaneceu objetivo, expresso no fato de o Diretor Executivo da ABC também exercer a função de chefe do Departamento de Cooperação Técnica, Científica e Tecnológica (IGLESIAS PUENTE, 2010 ). A agência herdou desafios fundamentais do sistema anterior, nomeadamente no que diz respeito à falta de recursos humanos e financeiros especializados e à ausência de um quadro regulamentar que autorize a utilização de recursos públicos para promover o desenvolvimento internacional. Apesar das limitações internas ao avanço do sistema CTPD brasileiro, a “pressão” internacional atuaria novamente para que o país assumisse a liderança nesta questão.
Em 1995, o Brasil, juntamente com outros 21 países, foi elevado ao status de “país pivô” pelo Comitê de Alto Nível das Nações Unidas para Cooperação Sul-Sul.
A tentativa de “itamaratização” da ABC e as questões legais da CTPD
Em resposta, o MRE tentou inserir o ABC em sua estrutura funcional e metodológica (“itamaratização” ou “despenudização” do ABC) por meio da criação da Subsecretaria Geral de Cooperação e da realização de concursos públicos para preenchimento de cargos de agência. funcionários. Cooperação Interamericana para a Agricultura (IICA); Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC); Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA); e Organização Internacional do Trabalho (OIT). Ressalte-se que nenhum dos itens acima prevê expressamente a prestação de cooperação técnica, podendo, no entanto, enquadrar-se no terceiro item (“prestação de serviços diplomáticos”).
No entanto, as disposições deste acordo visam que o Brasil receba cooperação técnica da ONU.
Outros avanços e desafios
O atraso na implementação da CTPD deve-se a uma série de factores, incluindo: vários desafios nos países beneficiários (instabilidade institucional, recursos humanos insuficientes, falta de coordenação interna, incumprimento das contrapartes); As próprias deficiências da ABC em termos de recursos humanos, financeiros e metodológicos; e falta de disponibilidade imediata de pessoal vinculado a instituições executoras brasileiras (IGLESIAS PUENTE, 2010). Esforços têm sido feitos em diversas frentes para superar os obstáculos que afetam o fornecimento de CTPD brasileiro. Na verdade, como lembra Iglesias Puente (2010), desde 2005 a ABC criou um banco de consultores com o objetivo de agilizar a implementação da CTPD.
Além da utilização de consultores para a execução da CTPD brasileira, também foi incentivado um maior envolvimento de organizações da sociedade civil, universidades e centros de pesquisa na implementação e monitoramento das ações.
O perfil da Cooperação Sul-Sul para o Desenvolvimento brasileira e o
168 Embora a expressão utilizada no relatório seja “cooperação técnica, científica e tecnológica”, apenas estão incluídas iniciativas de cooperação técnica. Em termos de cooperação técnica através de canais multilaterais, destacam-se os desembolsos com a OPAS e a OMS (16%) e o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (11%). Em termos regionais, o relatório mostra que as Américas e a América Latina e o Caribe foram os destinos mais relevantes para a cooperação técnica durante esse período, seguidos pela África Subsaariana (Tabela 2).
Diante da falta de disponibilidade de dados públicos detalhados sobre o perfil da cooperação técnica oferecida pelas entidades participantes do estudo Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento Internacional, foram acrescentadas informações sobre a distribuição setorial e geográfica dos recursos e iniciativas sob a coordenação da ABC .
O discurso oficial: princípios, propósitos, prioridades e abordagens
Resta saber se, e em que medida, o perfil da CTPD brasileira está alinhado com o discurso e as prioridades definidas pelo governo. O diplomata Iglesias Puente (2010, p. 33) concorda com a COBRADI ao afirmar que as restrições orçamentárias fizeram com que a CTPD brasileira se concentrasse na troca de técnicas e conhecimentos. Curiosamente, no período em que a prioridade para a América do Sul foi claramente estabelecida como diretriz - desde 2004 -, a participação da região na CTPD brasileira em termos de recursos utilizados ainda é inferior à da África.
Considera-se que o PNUD, assim como outras organizações, iniciaram iniciativas brasileiras de CTPD por meio de embaixadores que dirigiram a ABC.
Os condicionantes domésticos do processo decisório da CTPD brasileira
O Governo Cardoso
Diversos trabalhos voltados à análise da política externa do governo Lula apontaram fatores que poderiam explicar suas rupturas e/ou continuidades com o governo FHC. De modo mais geral, os diagnósticos e os meios para alcançar os objetivos duradouros da política externa brasileira – desenvolvimento, autonomia e maior projeção do Brasil no cenário internacional – começarão a ser percebidos de forma diferente sob o governo Lula. A política externa do governo Lula marcou assim uma mudança da “autonomia através da participação” para a “autonomia através da diversificação”.
Contudo, não se pode dizer que os ideais tradicionais do PT tenham sido os únicos determinantes das diretrizes da política externa do governo Lula.
Considerações finais
Em outras palavras, o envolvimento da EMBRAPA na CTPD não resultou, em princípio, da sua própria percepção institucional do papel desta forma de envolvimento internacional no cumprimento da sua missão. O apelo para que a EMBRAPA atuasse como agente diplomático durante o governo Lula foi inicialmente bem recebido pela estatal, mas o aumento exponencial das exigências feitas à empresa começou a despertar resistências internas, dada a necessidade de cada vez mais recursos humanos disponível para promover o desenvolvimento internacional. A segunda parte aborda a evolução do papel da EMBRAPA na CTPD, buscando captar as transformações durante os governos Lula e Dilma no que diz respeito ao relacionamento da empresa com os componentes diplomático, humanitário e estratégico da CTPD brasileira.
Por fim, as reflexões finais resumem o conteúdo do capítulo, destacando avanços e desafios na sustentabilidade do envolvimento da EMBRAPA na CTPD.
A evolução da inserção da Embrapa na cooperação internacional: da
Atualmente 18% dos pesquisadores da EMBRAPA possuem mestrado, 75% doutorado, enquanto 7% dos pesquisadores são pós-doutorados (EMBRAPA, 2013b). Segundo um dos funcionários do SRI entrevistados durante o processo de elaboração desta tese, a maioria dos candidatos às vagas da EMBRAPA exige formação mínima. Num segundo momento, a partir da década de 90, o acúmulo de conhecimento pelos pesquisadores da EMBRAPA teria levado à transição da importação de conhecimento para um modelo baseado no intercâmbio com os centros de pesquisa dos países.
Diante dessa mudança de perfil, a formação dos pesquisadores da EMBRAPA no exterior migrou de cursos rígidos de pós-graduação para pós-doutorado ou cursos específicos de formação de curta duração, por vezes ministrados no Brasil por meio da contratação de consultores estrangeiros.
A evolução do envolvimento da Embrapa na CTPD: da indução à busca
A evolução do componente diplomático
A evolução do componente humanitário
A evolução do componente estratégico
Considerações finais
Cooperação recebida: histórico e avaliação
Cooperação prestada: indução, inserção estratégica e desmobilização
A evolução dos componentes diplomático e humanitário
A evolução do componente estratégico
Considerações finais