A pesquisa tem como objetivo investigar, a partir da narrativa docente, de que forma as temáticas de gênero e sexualidade permeiam as práticas pedagógicas de quatro professoras da rede municipal de ensino de Nova Iguaçu/RJ. Alunos que estão sob constante vigilância, e também são agentes dela, em relação às normas de gênero e sexualidade.
Gênero, identidade de gênero e sexualidade
É interessante pensar quando estas construções de género e sexualidade entraram em questão. Ou seja, em que momentos históricos essas questões começaram a incomodar e ser questionadas, construindo hoje o que consideramos estudos de gênero na academia e nos movimentos sociais organizados e organizados em torno dessas agendas. Contudo, Piscitelli afirma na mesma obra que “as formulações de gênero que influenciaram a teoria social foram desenvolvidas com base no pensamento feminista da década de 1970” (p.125).
Daí a ideia de gênero como a interpretação cultural do sexo, ou uma interpretação que reflete um determinado gênero. A ideologia de género hegemónica6 assenta na construção binária entre masculino e feminino, onde o feminino se encontra numa posição subalterna face ao masculino. O pensamento de género dominante também determina qual é a orientação sexual natural de cada género, ancorada principalmente em características biológicas.
Corpos sob vigilância: heteronormatividade e experiência
Também não se trata de ver a criança como um ser fora de todo reconhecimento social, livre de noções de género e sexualidade. E é importante ressaltar também que essas crianças, jovens ou adultos que de alguma forma são abalados por concepções binárias e/ou heteronormativas de gênero são reconhecidos como sujeitos LGBT, mesmo que não o sejam. Aliás, a experiência de violência devido à não conformidade com os padrões de género também é partilhada por heterossexuais e/ou cisgéneros.
No entanto, é importante analisar as intersecções de género e sexualidade que estão disponíveis para todos, para compreender os processos de naturalização que algumas identidades enfrentam enquanto outras são vistas como anormais. Pensar as intersecções de gênero e sexualidade nas experiências dos sujeitos sobre os conceitos de gênero e sexualidade, especialmente na escola, exige que localizemos três conceitos relevantes que se tornam simultaneamente justificativas e caminhos metodológicos. Nesta teia de regulação, as relações interpretadas como homossexuais tornam-se um perigo porque desafiam as construções naturalizadas de género e sexualidade.
Interseccionalidade: teias de opressão
O autor defende contra uma possível mudança de “escolha sexual”, retira a culpa da família e de certa forma naturaliza a homossexualidade e a transexualidade, ainda que essa naturalização seja baseada em “defeitos” biológicos. Segundo Brah, a falta dessa teorização, quando focamos nossas análises na opressão, mantém invisíveis os processos de dominação. O problema que se coloca é que focamos as nossas ações na visibilidade destes grupos e não discutimos as relações históricas e sociais que constroem processos de dominação.
Crenshaw chama a nossa atenção para dois problemas que surgem quando não prestamos atenção suficiente a estas intersecções: ela chama-lhes “excesso de inclusão”. Porém, a classificação de “bicha” não deixa de existir, mas está associada às classes populares e “desprezada não só pela sua identidade um tanto sombria, mas também pela sua posição de classe”. Nas experiências dessas mulheres, seja na prostituição ou no casamento, marcadores de raça, gênero, sexualidade e classe social assumem diferentes significados, conectando-se de maneiras que criam experiências que muitas vezes diferem das relações clássicas de dominação que conhecemos.
Escola e violência
Glorificar a diferença como uma marca distintiva de qualquer assunto tornou-se comum, e a esperança é que estas declarações apaguem todas as relações de desigualdade. Quando os discursos sobre diversidade focam apenas assuntos que apresentam características além do considerado normal, corre-se o risco de exotizar a figura do que é considerado diferente e abordar a questão pela lógica da tolerância, o que não questiona propriamente a questão. relações que privilegiam um sujeito como normal e outro como anormal. Contudo, como instituição social, legitima estas organizações ao não questionar as relações sociais que as sustentam.
Contudo, vemos a escola como um espaço de poder, capaz de desenvolver estratégias para minar as relações violentas ali estabelecidas. Precisamos de considerar se estamos realmente a discutir as relações de poder que moldam as diferenças nas posições de subordinação/privilégio. Acredito que o conceito de interseccionalidade é necessário para a construção de novas práticas pedagógicas que conectem a opressão para compreender as relações sociais e históricas que colocam os sujeitos em categorias que se afastam das expectativas sociais.
Qual é o lugar da diversidade sexual e de gênero nas políticas públicas?
O documento inclui ainda a orientação sexual e a identidade de género entre os temas que devem estar presentes no projecto político-pedagógico das escolas secundárias. Podemos notar que os documentos oficiais sobre educação tratavam da violência e da exclusão com base na discriminação baseada na orientação e identidade sexual. Por exemplo, o artigo 2º, inciso III, em sua primeira versão, dizia “superação das desigualdades na educação, com ênfase na promoção da igualdade em questões de raça, região, gênero e orientação sexual”.
No Objectivo 3, Estratégia 3.12, os termos “orientação sexual” e “identidade de género” são novamente substituídos por “preconceito ou qualquer forma de discriminação”. É importante ressaltar que esse movimento de eliminação de questões relacionadas à orientação sexual e identidade de gênero foi liderado pela bancada conservadora do Congresso Nacional Brasileiro, dominada por entidades cristãs e/ou organizações políticas de direita. O PNE passa a ser referência para a elaboração dos planos estaduais e municipais de educação e, refletindo a mesma visão, muitos outros planos retiraram de seu texto os termos “orientação sexual e identidade de gênero”.
Os entrelaces entre políticas e produção acadêmica: para que serve o currículo?
Pensar gênero e sexualidade como conhecimentos específicos de uma determinada área invisibiliza a contribuição das ideias hegemônicas desses temas na construção do conhecimento, seja ele científico, social e/ou histórico. Ou seja, a autora afirma que o conceito de gênero pode e deve ser aplicado a qualquer área do conhecimento, uma vez que o conhecimento construído por qualquer área é formulado a partir de uma concepção de gênero. As categorias de gênero e sexualidade devem, portanto, ser gatilhos para questionar o currículo, que permeia todas as disciplinas ditas escolares.
Incluindo os conceitos de biologia, saúde, corpo, embora estejam ligados a uma ideia positivista de ciência no senso comum, como representantes da verdade, também são construídos com base em perspectivas, interpretações, visões de mundo e compreensões históricas e sociais sobre gênero. e sexualidade. A professora em questão articulou o conhecimento sobre o corpo com as interpretações dos alunos, minando a noção de essencialização comumente associada ao campo da educação em ciências e biologia. Portanto, continuaremos pensando na inserção de temas específicos voltados para a discussão de gênero e sexualidade nas escolas, nas novas possibilidades que se criam a partir da “diversidade” e nas relações com a formação de professores.
Relações entre formação e prática
Podemos emprestar esta visão de Scott quando dizemos que os temas de género e sexualidade na escola devem ser meios de questionar o que foi construído como conhecimento e prática. Neste capítulo falaremos sobre a abordagem inicial implementada no Ministério da Educação daquele município, e falaremos com os professores sobre os conflitos, dificuldades, oportunidades, possibilidades e estratégias que encontram e desenvolvem nas práticas relacionadas com o género. e temas de sexualidade nas escolas em que atuam. Como estratégia de pesquisa, buscou-se na Secretaria de Educação de Nova Iguaçu (SEMED/NI) investigar como as questões de gênero e sexualidade permearam ações voltadas principalmente, mas não exclusivamente, à formação avançada de professores.
Ainda assim, segundo os responsáveis por este núcleo, as questões de género estão presentes na secretaria de educação e consequentemente nas escolas através do setor ligado à Saúde Escolar (Programa Saúde Escolar – PSE). Nova Iguaçu, seguindo o sentido do plano nacional de educação, não utilizou os termos “orientação sexual e identidade de gênero” na elaboração de seu plano municipal de educação. Sob o manto da diversidade, conectamos diferentes discussões sobre temas, ou invisibilizamos a discussão dos temas de gênero e sexualidade na prática escolar.
As relações entre família, vida, aspectos pessoais, religiosos no olhar das professoras
A partir da avaliação inicial de que os temas de gênero e sexualidade não fazem parte oficialmente das ações da Secretaria de Educação e da ausência de qualquer projeto que abordasse o debate e a reflexão sobre esses temas, orientamos as estratégias metodológicas da Pesquisa sobre o relacionamento com professores que foram alunos do curso Gênero e Diversidade na Escola, em 2014, na UFRJ, e que atuam no município. Não nos concentraremos nas perspectivas dos professores sobre a sua prática, nas suas relações com as disciplinas escolares e nos desafios e oportunidades que encontram. Maria ainda atribui seu interesse pelos temas de gênero e sexualidade à educação especial.
Por conta disso, começamos a pensar em cursos para a equipe que tratassem de questões de gênero e sexualidade na escola. Em diálogo com outras professoras durante uma conversa conjunta, Rita conta que não soube enfrentar ao ouvir as falas de outros profissionais da escola que ridicularizavam o comportamento de meninos que se comportavam de forma socialmente feminina. Esses aspectos das trajetórias de vida dos participantes moldam as relações com suas práticas e atitudes em relação às questões de gênero e sexualidade na escola.
A relação com a comunidade escolar
Será que a ignorância na oposição entre conhecimento e ignorância é simplesmente a ausência de conhecimento, ou é um certo tipo de conhecimento sobre sexualidade e diferenças de género? Ou seja, o suposto silêncio sobre a sexualidade e as questões de género na escola esconde o facto de a escola estar constantemente a lidar com estas questões. Essa profissional, que afirma não saber abordar gênero em sala de aula, tem experiência no relacionamento com estudantes e outros profissionais que estão envolvidos nas visões dos papéis de gênero e das diversas normas que deveriam reger a sexualidade.
Mesmo que afirmem não saber lidar com essas questões, todo profissional escolar se engaja e (re)produz práticas baseadas em determinadas compreensões de gênero e sexualidade. A heteronormatividade impõe silêncio sobre este tema: não há gays nas obras literárias, não há relações homossexuais nos textos de orientação sexual e desde muito cedo as crianças aprendem a indexar o universo social através da dicotomia de género. Porém, esse silêncio diz respeito principalmente à abordagem desses temas de forma formativa, em reuniões ou aulas, pois nos relatos dos professores eles nos dão vários exemplos de como a escola fala constantemente sobre gênero e sexualidade, mas de uma forma que é vista como ridícula, brincando ou anormal.
A produção de práticas pedagógicas
Sem dúvida, a prática pedagógica desenvolvida por um professor está relacionada com o contexto em que está inserido. A maioria das abordagens realizadas pelos professores ocorre em momentos de conflitos na sala de aula. Podemos, portanto, procurar experiências em que estes temas tenham tido algum impacto nas práticas quotidianas e no currículo escolar.
Essa sacola continha o emblema do projeto que desenvolveu o curso, denominado “Diversidade Sexual na Escola” da UFRJ. Discutir as conformações apresentadas nas diretrizes curriculares e em que medida elas apontam para a desconstrução das naturalizações relativas à sexualidade e às relações de gênero é essencial para desvendar ocultações, silêncios e apagamentos. Porém, também existem situações em que outras realidades passam a existir, seja no enfrentamento dessa situação, seja na produção de novas formas de vivenciar e ver o mundo.