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A relação com a comunidade escolar

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 85-88)

No entanto, a partir dessa realidade, Maria passou a buscar mais informações. Ou seja, para além de simplesmente recusar atender essas crianças que eram encaminhadas por não se comportarem dentro do esperado para o seu gênero, ela decidiu encontrar formação para lidar com essa realidade, pois simplesmente dizer que esses casos não fazem parte do escopo de trabalho da educação especial não iria contribuir para acabar com a marginalização desse/a estudante.

Essa preocupação em saber como trabalhar essas questões é o principal motivo que levou as professoras a buscar formação continuada. Rita, no diálogo com as demais professoras durante conversa coletiva, diz que não sabia como lidar quando ouvia dos/as demais profissionais da escola falas que ridicularizavam comportamento de meninos que agiam, na leitura social, de forma afeminada. Ela responde, ao ser questionada dos motivos que a motivaram a buscar formação sobre o tema:

Eu acho que foi mais um incômodo com colegas de trabalho, que rotulavam crianças pequenas. Professores, até o pessoal da limpeza e da cozinha, falar que a criança é isso ou aquilo, por conta do comportamento. Às vezes falar sem cerimônia nenhuma, na frente da criança. E eu sem saber como conversar sobre aquele assunto. Não sabia intervir nessas situações que acontecem na escola. (Rita, 06/12/2016, NC)

Esses aspectos das trajetórias de vida das participantes formam relações com suas práticas, e suas posturas perante as temáticas de gênero e sexualidade na escola. Não poderíamos construir um perfil de professor/a que perceba a importância de discutir essas temáticas na escola, mas Maria, durante a conversa coletiva, oferece uma excelente contribuição para essa reflexão. Questionei o grupo sobre os interesses que a levaram buscar a formação continuada oferecida pelo GDE/UFRJ, quando muitas outras pessoas não demonstram esse interesse, e em muitos casos recusam discutir esses temas. Maria respondeu:

Eu particularmente percebo que as pessoas que se interessam por isso é aquele professor que se interessa pela criança, pela escolaridade da criança pobre, negra. E aquela pessoa que tem um olhar mais progressista politicamente. E aquele cara que pensa nas minorias, valoriza a diferença na escola. Esse tipo de professor que vai se interessar por esse tipo de assunto. Aquele professor que está fechado no tradicional, que acha que escola é pra ensinar a ler e a escrever, e que é só isso que a gente tem que fazer. Esse cara não quer mudar a escola. Várias vezes eu me peguei perguntando nas reuniões: mas qual é o papel da escola? Reproduzir ou transformar?

Muitos acham que é reproduzir. (Maria, 06/12/2016, NC)

discussão de gênero e sexualidade em sala de aula ou em reuniões. Nenhuma das escolas em que elas trabalham já abordaram essas temáticas de forma coletiva. Mais do que o silencio, relataram a resistência de outras/os professoras/es em saber mais do tema. Essa experiência se aproxima do relato de Nardi e Quartiero (2012), ao falar das formações do curso “Educando para a Diversidade”:

Um aspecto levantado pelas/os participantes foi a dificuldade de discussão com suas/seus colegas, uma vez que, ao tentarem socializar os assuntos abordados durante a formação, vários colegas da escola não consideraram o tema pertinente ou importante. Os/as colegas, de acordo com os relatos, mostraram-se resistentes em explicitar e discutir a forma com que trabalham com suas/seus alunas/os, mantendo a atitude de “cada um trabalha do seu jeito dentro da sua sala”. (NARDI, QUARTIERO, 2012, p. 81)

Uma palavra presente em todas as entrevistas, e também na conversa coletiva, é

“silencio”. Para Rita, “a maioria (das/os professoras/es) não se sente preparada para trabalhar esses temas. Não sabe como falar. Tem melindre, né? Medo de ofender. Não sabe como falar então prefere não falar”.

Alós (2011) traz algumas questões para refletirmos sobre argumentos do tipo “não sei como trabalhar isso” ou “ignoro como trabalhar essa questão”. Ele pergunta:

Quando um professor profere algum desses enunciados, será que ele simplesmente desconhece as questões de educação sexual? Será que ele é apenas incompetente para trabalhar com educação sexual (não no sentido pejorativo, mas apenas sem a devida competência)? Ou será que, por trás dessa ignorância, se esconde um saber de outro tipo? Será que, na oposição entre conhecimento e ignorância, a ignorância é apenas ausência de conhecimento, ou é um tipo específico de conhecimento sobre a sexualidade e as diferenças de gênero? (ALÓS, 2011, p. 422, 423)

Nardi e Quartiero (2012), ao falar da experiência do curso Educando para a Diversidade, também discutem sobre a alegação do “não saber”, levantada por profissionais como justificativa por não tratar dessas temáticas:

Este “não saber” protege, pois produz um distanciamento seguro, ou seja, o indivíduo, ao alegar o “desconhecimento” da questão, se desculpa de sua responsabilidade ética, pois como não sabia, não podia intervir. Este tipo de posicionamento, chamado por alguns de homofobia passiva, impede que se formulem questionamentos, uma vez que esses assuntos não entram na “ordem do dia”. (NARDI, QUARTIERO, 2012, p. 72)

Ou seja, o suposto silêncio sobre sexualidade e questões de gênero na escola, esconde o fato de que a escola trata dessas temáticas o tempo todo. Esse profissional que alega não saber abordar gênero em sala de aula vivencia experiências em suas relações com estudantes e demais profissionais que estão envoltas em olhares sobre os papéis de gênero e as diversas normas que devem orientar a sexualidade. Por exemplo, é prática comum nas escolas, especialmente em turmas do primeiro segmento do ensino fundamental, a divisão de crianças por gênero em filas. Essa divisão carrega determinada concepção de gênero. O uso dos

banheiros separados por gênero, não é prática exclusiva da escola, mas talvez seja um dos primeiros lugares em que a criança precisa se habituar a usar um banheiro específico, já que nas residências não existem banheiros divididos por gênero. Ou seja, existem determinados saberes relacionados a gênero e sexualidade que orientam a organização escolar. Mesmo alegando não saber tratar dessas questões, qualquer profissional da escola está envolto e (re) produz práticas baseadas em determinadas concepções de gênero e sexualidade.

Maria, ainda sobre o mesmo assunto, complementa que “existe um grande acordo entre pais, professores e gestão escolar que esse assunto não seja tratado para não fomentar, porque ninguém sabe muito bem do que tá falando, e não se deve falar sobre isso”. Tatiana Lionço e Débora Diniz (2009), ao pesquisarem sobre a temática da diversidade sexual nos livros didáticos, apontam que:

A heteronormatividade impõe um silêncio sobre essa temática: não há gays nas obras literárias, não há relações homossexuais nos textos de orientação sexual e, muito precocemente, as crianças aprendem a indexar o universo social pela dicotomia de gênero. Não existem corporificações para além desse binarismo, por isso não se fala de homossexuais, bissexuais, travestis ou transexuais. O silêncio é a estratégia discursiva dominante, tornando nebulosa a fronteira entre heteronormatividade e homofobia. (LIONÇO, DINIZ, 2009, p. 52)

Torna-se importante pensar no silêncio como reação a uma falta de preparo dos profissionais, como apontado pelas entrevistadas, mas também como causa e efeito da heteronormatividade. O que Lionço e Diniz chamam de “estratégia discursiva dominante”.

Porém, esse silêncio diz respeito principalmente a abordar essas temáticas de maneira formativa, em reuniões ou aulas, pois nos relatos das professoras elas nos trazem diversos exemplos de como a escola fala o tempo todo de gênero e de sexualidade, porém de maneira a reafirmar o que é visto como ridículo, jocoso ou anormal. Rebeca traz um exemplo bem interessante. Ela fala sobre a mãe de um aluno que é lésbica, vive com uma companheira, e isso é sabido por toda a escola, inclusive com a presença da companheira da mãe frequentando a escola. Esse fato é motivo de vários comentários por parte dos alunos e dos profissionais da escola, geralmente comentários ridicularizando o fato dela ser lésbica. Rebeca relata também que as crianças também reagem a isso:

A namorada da mãe vai na escola, às vezes. Mas, o menino tem vergonha. E quando eu comento com as crianças sobre família, uma criança uma vez falou: Minha tia tem uma namorada, e eu não gosto. Aí eu digo: sua tia é feliz? Ela responde que acha que sim. Eu digo: ué, então escolhe, ou você fica com sua tia feliz ou infeliz. A criança diz que quer a tia feliz. Então feliz ela está com a namorada dela. Mas um trabalho grande a gente não desenvolve. E mais assim, em sala, em discussão, só. (Rebeca, 28/11/2016, NC)

Rebeca, porém, abordou esse tema apenas nesse momento, não desenvolvendo também em sua sala uma discussão mais ampla, que viesse a questionar o porquê da criança

não gostar, o que ser lésbica representa para ela e para as demais crianças. Louro (2001) também discute o silenciamento, dizendo que na sua visão:

(...) parece ter por fim “eliminar” esses sujeitos (homossexuais), ou, pelo menos, evitar que os alunos e alunas “normais” os/as conheçam e possam desejá-los. A negação e a ausência aparecem, nesse caso, como uma espécie da garantia da

“norma”. (LOURO, 2001, p. 89)

Torna-se importante pensar como essa teia de relações produz efeitos nas práticas pedagógicas que são desenvolvidas pelas professoras. Quais são os limites e possibilidades que percebem a partir das relações com os/as estudantes, com a família destes/as, com as/os profissionais da escola. Sem dúvida, a prática pedagógica que é desenvolvida por um/a docente está relacionada ao contexto em que está inserido/a.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 85-88)