BOLSA FAMÍLIA: UMA ANÁLISE DAS DIRETRIZES DO PROGRAMA DE TRANSFERÊNCIA DE RENDA DO GOVERNO BRASILEIRO. Estas questões estão no cerne da organização das políticas públicas de proteção social que o mundo conhece hoje.
HISTÓRICO DAS DIRETRIZES DAS POLÍTICAS SOCIAIS BRASILEIRAS
O PERÍODO LAISSEFARIANO
Para Medeiros (2001), as políticas surgidas no Brasil no início da década de 1920 já constituíam um panorama da formação do Estado de bem-estar social brasileiro, embora para ele a função fosse atuar como instrumento de controle dos movimentos trabalhistas no país. A sua estratégia foi antecipar algumas reivindicações e assim limitar a legitimidade dos líderes trabalhistas nas reivindicações sociais e limitar a capacidade de mobilização dos trabalhadores em geral.
O PERÍODO POPULISTA-DESENVOLVIMENTISTA
A constituição de 1934 vigorou até 1937, quando Vargas, através de um ato de força, implementou um período ditatorial conhecido como Estado Novo. De forma resumida, podemos afirmar que os primeiros marcos na criação de um sistema de proteção social no Brasil situam-se no período entre aproximadamente 1930 e 1945.
O PERÍODO TECNOCRÁTICO-MILITAR
Além da questão de as políticas sociais serem geridas como estratégias sociais, pode-se dizer de forma geral que o modelo de Estado de bem-estar social dos governos militares acaba por assumir duas linhas bem definidas. Até as reformas ocorridas na década de 1980, o Estado de bem-estar social brasileiro era caracterizado pela “centralização política e financeira no nível federal, fragmentação institucional, tecnocratismo, autofinanciamento, privatização e uso clientelista de políticas sociais” (DRAIBE, 1989, p. 15).
O PERÍODO DE TRANSIÇÃO PARA A DEMOCRACIA LIBERAL
Segundo ele, os vários planos de acção governamental introduzidos neste período priorizam a recuperação da “dívida social”, rejeitando a sujeição da política social a medidas de ajustamento macroeconómico. Essas transformações representaram para Draibe uma mudança radical, para melhor, no perfil das políticas sociais brasileiras.
A CONCEPÇÃO NEOLIBERAL NAS POLÍTICAS SOCIAIS BRASILEIRAS
No geral, esta política é bastante prejudicial ao referido autor porque pede ressalvas. atingir metas acordadas com organismos financeiros internacionais, como o superávit primário e o pagamento de juros e serviços de dívidas internas e externas. No caso do Brasil, o método de ação “direcionada” foi aplicado para atender os comprovadamente pobres, que devem ser “cadastrados”.
POBREZA E ASSISTÊNCIA SOCIAL: DILEMAS PERSISTENTES
UMA APROXIMAÇÃO DE UM CONCEITO DE POBREZA
Demo (1996) levanta a hipótese de que o centro da pobreza não estaria na insuficiência de renda, mas na exclusão política. A primeira refere-se a uma confusão entre causa e efeito; e a segunda, a delimitação da análise à área de mercado, sem levar em conta o cenário político de pobreza. Relativamente a autores que partilham do ponto de vista liberal/neoliberal e que apontam elementos definidores na compreensão da pobreza, é possível verificar diferenças significativas no grau de aceitação da intervenção do Estado na redução/erradicação da pobreza.
A principal diferença entre países ricos e pobres, segundo o autor, reside no que ele chama de “aculturação” – adaptação à cultura da pobreza. De todos os aspectos que reforçam o equilíbrio da pobreza nos países pobres, o mais importante é a falta de ambição, a falta de esforço para escapar desta situação. Ao compreender que a pobreza não é um problema estrutural do capitalismo, as políticas sociais e a distribuição de renda neste modo de produção podem ser vistas como elementos de redução progressiva e sustentável da pobreza até que sua erradicação seja alcançada (GARCIA, 2005).
Garcia (2005) afirma que não obteve muito sucesso em sua pesquisa buscando encontrar autores que descrevessem a pobreza na teoria marxista. Por esta lógica, significa que o aumento da pobreza indica o aumento da concentração da riqueza nas mãos de um grupo cada vez menor de capitalistas. De modo geral, Soto (2003 apud GARCIA, 2005) destaca os elementos centrais da compreensão marxista da pobreza.
A POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL NO BRASIL: CAMPO DO DIREITO SOCIAL?
A introdução da assistência social como política social no campo da seguridade social envolve uma importante inovação conceitual, mas ainda parece repetir o legado histórico da cultura política brasileira. A saúde aparece como direito de todos e dever do Estado; A segurança social será paga com contribuições e a assistência social será prestada a quem dela necessita, independentemente das contribuições. Este encarte, bastante inovador, introduz o campo da assistência social como uma política social que atende à população antes excluída da assistência na perspectiva dos direitos.
E isso foi feito apenas cinco anos depois da Constituição de 1988, quando foi enviada ao Congresso a Lei n, que finalmente regulamentou a assistência social como política social pública não contributiva, credenciando-a, assim, no campo dos direitos sociais. Parágrafo único - A assistência social é implementada em articulação com as políticas setoriais que visam o combate à pobreza, a garantia dos mínimos sociais, a garantia de condições de atendimento às necessidades sociais e a universalização dos direitos sociais (BRASÍLIA, 2003). Após análise da legislação vigente, podemos nos referir ao conceito de assistência social como direito social e ampliação da cidadania.
Este processo fica claro quando a política de assistência social é analisada mais especificamente. Portanto, pode-se inferir que embora o conceito de assistência social tenha uma dimensão de “seguridade social”, que se baseia no conceito de direitos sociais, ele se configura no contexto de uma sociedade que historicamente vinculou a área de direitos. benefícios sociais à versão de compensação para aqueles que, através do seu trabalho, foram dignos de serem atendidos socialmente. O campo da assistência social sempre foi uma área muito nebulosa no que diz respeito à relação entre o Estado e a sociedade civil no Brasil.
A CONCEPÇÃO POLÍTICO-IDEOLÓGICA DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA
A CONSTRUÇÃO DO DEBATE EM TORNO DOS PROGRAMAS DE TRANSFERÊNCIA DE RENDA
Depois há a necessidade de reformar os programas sociais e, neste contexto, os programas de transferência de rendimentos são destacados como uma oportunidade para combater o desemprego e a pobreza. Os programas de transferência de renda são destacados por Suplicy como uma oportunidade concreta, simples e objetiva de garantir o direito humano mais básico, o direito à vida, por meio da participação justa na riqueza produzida pela sociedade (SILVA; YAZBEK; . GIOVANNI, 2004). Silva, Yazbek e Giovanni (2004) afirmam que a primeira discussão no Brasil sobre a introdução de um programa de renda mínima ou programa de transferência de renda, vinculado a uma agenda para erradicar a pobreza no país, data de 1975, conforme publicou Antônio Maria da Silveira. , na Revista Brasileira de Economia, artigo sob o título
Para tanto, apresentou uma proposta baseada no imposto de renda negativo, escrita por Friedman (1962)1, com o objetivo de reduzir a pobreza. Neste contexto, a política de rendimento mínimo transcende o nível da mera utopia e representa uma alternativa concreta à política social. A partir de 2001, penúltimo ano do governo e de Fernando Henrique Cardoso, já em seu segundo mandato, vislumbra-se o quarto momento no desenvolvimento dos programas de transferência de renda no Brasil, marcado pela proliferação de programas iniciados pelo governo federal, com implementação descentralizada a nível municipal.
Segundo Silva, Yazbek e Giovanni (2004), a partir de 2003, com o início do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, podemos observar o início do que os autores consideram ser o quinto momento do desenvolvimento histórico dos programas de transferências. o país. Para eles, este momento é caracterizado por mudanças quantitativas, mas sobretudo qualitativas no sentido da construção de uma política pública de transferência de renda, de âmbito nacional, com vários aspectos que podem se destacar, entre outros: indicação de prioridade no combate contra a fome e a pobreza; início de um processo de unificação dos programas nacionais de transferência de renda (Bolsa-Escola, Bolsa-Alimentação, Vale-Gás e Cartão-Alimentação); aumento dos recursos orçamentários destinados ao desenvolvimento de programas de transferência de renda no orçamento; criação, em janeiro de 2004, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, o que representa mais uma tentativa de unir os dois ministérios na área social (Assistência Social e Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome). Parece que o processo histórico de desenvolvimento da política social brasileira em direção à construção de uma política pública de transferência de renda mostra que os programas de transferência monetária direta a indivíduos ou famílias representam um elemento central na atual constituição do sistema de proteção social brasileiro, especialmente a política de assistência social . .
O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA
Para Silva, Yazbek e Giovanni (2004), sob a justificativa de ampliar os recursos, aumentar o valor monetário do benefício e melhorar o atendimento, a proposta de unificação tem como objetivo mais amplo a manutenção de um programa único de transferência de renda, programas nacionais, articulados estaduais e municipais programas. governos em implementação, com vista ao estabelecimento de uma Política Nacional de Transferência de Renda. A maior controvérsia em torno dos programas de transferência de renda parece residir neste sentido em torno da definição dos mínimos sociais que devem ser garantidos. É o conceito de proporcionar mínimos sociais que está atualmente em ascensão no mundo e no Brasil, sob a influência da ideologia neoliberal da qual Hayek é considerado o mentor intelectual e que considera os programas de transferência de renda como uma decisão política. estratégia. os pobres.
O conceito de proteção social mínima é identificado nas suas origens com o rendimento mínimo. Segundo essa afirmação, segundo ele, os programas de transferência de renda existentes são guiados pelos seguintes critérios: foco na pobreza, subjetividade do direito (deve ser solicitado pelo interessado), condicionalidade (permite prerrogativas e contramedidas), subsidiariedade (é renda adicional) e sujeição do interessado à condição de recursos ou prova de pobreza, não se configuram como programas redistributivos (tirar de quem tem para dar para quem não tem). Assim, os mínimos sociais ou programas de rendimento mínimo ganham um papel central nas políticas de ajuda, independentemente da matriz que os legitima.
Neste sentido, uma das tendências da política social nos países capitalistas é a implementação de programas de transferência de renda como medida unificadora para todos. Do ponto de vista social, os efeitos do programa Bolsa Família na redução da pobreza e das desigualdades, como já visto, não estão suficientemente esclarecidos, pois abrangem que essa redução das desigualdades se deveu a uma redistribuição da pobreza entre os próprios trabalhadores e não devido a uma distribuição eficiente de renda (DRUCK; FILGUEIRAS, 2007). Mas o que se verifica é que o debate sobre os programas de transferência de renda, ou melhor, a experiência em diferentes partes do mundo, abandonou o conceito de renda básica e passou a cultivar a renda mínima garantida, que consiste na transferência de valor monetário , acompanhado de rigorosos testes de recursos e da exigência de que o beneficiário ingresse no mercado de trabalho.
O facto de o programa de transferência de rendimentos desenvolvido pelo governo Lula parecer ter mudado as condições de existência das famílias elegíveis e tirá-las da pobreza absoluta. No Fio de uma Faca: Entre Necessidades e Direitos: Notas sobre Programas de Renda Mínima no Brasil.