A PROFI SSI ON ALI ZAÇÃO D A GESTÃO D AS EM PRESAS FAM I LI ARES
N U M CON TEX TO D E M U D AN ÇA: u m e st u do de ca so n o se t or t ê x t il
D isse r t a çã o a pr e se n t a da a o cu r so de
M e st r a do e m Adm in ist r a çã o da Fa cu lda de
de Ciê n cia s Econ ôm ica s da Un iv e r sida de
Fe de r a l de M in a s Ge r a is com o r e qu isit o
pa r cia l à obt e n çã o do t ít u lo de M e st r e e m
Adm in ist r a çã o.Ár e a de con ce n t r a çã o:
Or ga n iz a çã o e Re cu r sos H u m a n os.
Or ie n t a dor a : Pr of
a. D r a . Sola n ge M a r ia
Pim e n t a .
Un iv e r sida de Fe de r a l de M in a s Ge r a is
Be lo H or izon t e
Ca r los H e n r iq u e M a u r ício d a Roch a
A PROFI SSI ON ALI ZAÇÃO D A GESTÃO D AS EM PRESAS FAM I LI ARES
N U M CON TEX TO D E M U D AN ÇA: u m e st u do de ca so n o se t or t ê x t il
D isse r t a çã o a pr e se n t a da a o cu r so de
M e st r a do e m Adm in ist r a çã o da Fa cu lda de
de Ciê n cia s Econ ôm ica s da Un iv e r sida de
Fe de r a l de M in a s Ge r a is com o r e qu isit o
pa r cia l à obt e n çã o do t ít u lo de M e st r e e m
Adm in ist r a çã o.Ár e a de con ce n t r a çã o:
Or ga n iz a çã o e Re cu r sos H u m a n os.
Or ie n t a dor a : Pr of
a. D r a . Sola n ge M a r ia
Pim e n t a .
Un iv e r sida de Fe de r a l de M in a s Ge r a is
Be lo H or izon t e
2 0 0 1
AGRAD ECI M EN TOS
A Deus que no seu eloqüent e silêncio e em sua infinit a sabedoria est eve sem pre, m esm o quando não o percebi, orient ando e inspirando m eu cam inho de vida.
Aos m eus pais, José Carlos e Mart ha, pela presença const ant e, am or incondicional e apoio dem onst rados sem pre ao longo da m inha vida.
A t odos os m eus fam iliares, em especial à m inha t ia e m adrinha Magda, pelo apoio irrest rit o do com eço ao fim dest e proj et o.
À Sylvia, pelo am or, incent ivo e força carinhosam ent e t ransm it idos, na m aioria das vezes, de um a dist ância m aior daquela de que gost aríam os.
À professora Solange Maria Pim ent a, que, além de m e t ransm it ir seus valiosos conhecim ent os, soube, com rara sabedoria, com preender m inhas dificuldades.
Aos professores Maria Laet it ia Corrêa e I van Beck Ckagnazaroff, pelas crít icas e sugest ões que cont ribuíram indubit avelm ent e para a m elhoria dest e t rabalho quando em fase de proj et o.
Ao Grupo de Pesquisas em Gest ão, Trabalho, Educação e Cidadania - GETEC – do CEPEAD/ FACE/ UFMG, coordenado pelas professoras Solange Maia Pim ent a e Maria Laet it ia Corrêa, pelo apoio t écnico e financiam ent o do t rabalho de pesquisa.
A t odos os professores do m est rado do CEPEAD, pela cont ribuição t eórica para est a dissert ação.
A t odos os t rabalhadores que se dispuseram , gent ilm ent e, a colaborar para a consecução da pesquisa de cam po.
A t odos os m eus colegas da t urm a de 1998, em especial ao Cláudio Sant oro Lanari e ao Alexandre Maciel da Silva, pela am izade.
Aos funcionários da FACE e do CEPEAD e, sobret udo, à Silvinha, pela prest eza e profissionalism o dem onst rados.
Ao Conselho Nacional de Desenvolvim ent o Cient ífico - CNPq - , por t er m e propiciado condições para a realização dest e t rabalho, at ravés da concessão de bolsa de est udos.
" Todo im pulso é cego, excet o quando há saber .
Todo saber é v ão, ex cet o quando há t r abalho"
SUM ÁRI O
I NTRODUÇÃO... 1 2 1. O ESCOPO DA PESQUI SA... 1 4 1.1 Just ificat iva e problem at ização... 1 4 1.1.1 As em presas fam iliares com o obj et o de pesquisa... 1 6 1.2 Obj et ivo geral... 1 8 1.3 Obj et ivos int erm ediários... 1 8 1.4 Suposições... 1 8 1.5 Met odologia... 1 9 1.5.1 Tipo de pesquisa... 1 9 1.5.2 Universo e am ost ra... 2 0 1.5.3 Colet a de dados... 2 0 1.5.4 Trat am ent o dos dados... 2 2 2 O CONTEXTO DE MUDANÇA: GLOBALI ZAÇÃO, ABERTURA DA ECONOMI A, I NVESTI MENTO EM TECNOLOGI A E REESTRUTURAÇÃO PRODUTI VA... 2 3 2.1 A globalização da econom ia... 2 4 2.2 O processo de abert ura da econom ia no Brasil... 2 7 2.3 O novo cenário com pet it ivo e o processo de invest im ent o em t ecnologia e em novos m odelos de organização do t rabalho... 2 8 2.3.1 O processo de invest im ent o em t ecnologia... 2 9 2.3.2 A evolução do m odelo de organização do t rabalho: da rot inização à
reest rut uração produt iva... 3 1
3 AS EMPRESAS FAMI LI ARES... 4 0 3.1 Origem e hist órico das em presas fam iliares no Brasil... 4 0 3.2 Conceit o de em presa fam iliar... 4 4 3.3 Algum as vant agens e desvant agens caract eríst icas das em presas
5 A TRAJETÓRI A DA EMPRESA PESQUI SADA... 7 1 5.1 Caract erização da em presa... 7 1 5.2 Hist órico da Alfa... 7 2 5.3 A m odernização da Alfa... 7 9 5.4 A profissionalização da Alfa... 9 3
5.5 As relações ent re a m odernização e a profissionalização na Alfa... 106
6 CONSI DERAÇÕES FI NAI S... 110
7 REFERÊNCI AS BI BLI OGRÁFI CAS... 112
LI STA D E GRÁFI COS
LI STA D E QU AD ROS
RESUM O
O present e t rabalho t em com o obj et ivo cont ribuir para o est udo da Adm inist ração e, m ais especificam ent e, para o ent endim ent o das em presas fam iliares, t endo em vist a sua im port ância econôm ica em nível m undial e nacional.
O processo de profissionalização é o foco da invest igação, um a vez que esse se t orna m ais e m ais com plexo diant e do cenário de t urbulência e dificuldades enfrent adas pelas em presas brasileiras após a abert ura da econom ia brasileira no início dos anos 90.
A escolha do set or t êxt il com o cenário dest a pesquisa foi det erm inada por sua im port ância hist órica e econôm ica e pelo fat o de esse set or t er sido um dos m ais afet ados pela concorrência ext erna.
A m et odologia adot ada foi o est udo de caso e a escolha recaiu sobre um a em presa fam iliar de grande port e do set or t êxt il m ineiro. Devido ao desafio da m odernização t ecnológica e de organização do t rabalho, a em presa focalizada decidiu pela profissionalização de seu quadro diret ivo.
ABSTRACT
This research aim s t o help t he Business Adm inist rat ion st udy, specifically t he fam ily business underst anding and it s econom ical im port ance in worldwide and nat ional level.
The professionalizat ion process is focus of t his research once it becom es m ore and m ore com plex due t o t he t urbulent environm ent and difficult ies faced by t he Brazilians com panies aft er t he opening of Brazilian econom y in t he early 90´ s.
The t ext ile sect or was chosen as t he scenery of t his research due t o it s hist orical and econom ical im port ance and because it was one of t he m ost affect ed by ext ernal com pet it ion.
The m et hodology adopt ed was t he case st udy of a large t ext ile fam ily com pany of Minas Gerais. Due t o t he challenges of t echnology m odernizat ion and work organizat ion, t he com pany decided t o m ake professional t he board of direct ors.
I N TROD UÇÃO
O processo de abert ura de m ercado, que t om ou im pulso no Brasil no com eço da década de 90, t rouxe diversas conseqüências para a econom ia do país. As em presas nacionais passaram a se defront ar com a concorrência de produt os est rangeiros, por vezes, de qualidade superior e com preços m ais com pet it ivos.
Muit as em presas não resist iram a essa m udança repent ina de am bient e e sim plesm ent e desapareceram . Mesm o aquelas que conseguiram sobreviver, vivenciaram ou t êm vivenciado m uit as dificuldades. Mudanças, por vezes drást icas, foram necessárias e m uit os em pregos foram sacrificados ao longo desse processo.
As em presas fam iliares ost ent am com o desafio adicional a necessidade de um equacionam ent o bem sucedido da relação fam ília e organização.
A solução m ais propalada por consult ores e pesquisadores que se dedicam ao est udo desse t ipo específico de em presa é o processo de profissionalização que encerraria em seu boj o um a série de m edidas que visaria separar a esfera da gest ão em presarial da fam iliar, post o que a racionalidade peculiar a cada um a delas seria incom pat ível.
Segundo BERNHOEFT ( 1998) , com o processo de profissionalização, a em presa est aria capacit ada a responder com m aior grau de eficácia aos desafios do am bient e de negócios, cada vez m ais com plexo e com pet it ivo.
Cam bridge1, que afirm am que ” ... 80% do sucesso de um a em presa depende de sua at uação se dar no cam po cert o e 20% de sua adm inist ração ” .
No ent ant o, essa assert iva parece válida som ent e no caso de pioneiros ou de exist ência de m onopólios ou oligopólios cart elizados. Em segm ent os concorrenciais, a com pet ência em fat ores com o Gest ão de Cust os, Produção, Market ing, Tecnologia, Recursos Hum anos et c. se apresent a com o um diferencial
com pet it ivo. Em t ais casos o que pode- se quest ionar é se o processo de profissionalização concorre para o aj ust e desses aspect os.
Est e est udo, que se ident ifica fundam ent alm ent e com a propost a do Grupo de Pesquisas em Gest ão, Trabalho, Educação e Cidadania - GETEC – do CEPEAD/ FACE/ UFMG do qual é produt o, t em com o propósit o principal ent ender com o esse processo se art iculou com as dem ais m udanças acont ecidas na esfera da organização do t rabalho, m ais com um ent e conhecida com o reest rut uração produt iva, no âm bit o de um a em presa fam iliar do set or t êxt il e com o se deu sua
cont ribuição ao aum ent o da eficácia organizacional.
Tendo em vist a que os est udos sobre em presas fam iliares se concent ram basicam ent e em dois segm ent os: o prim eiro represent ado pelos est udos de um a perspect iva gerencial e o segundo balizado pela perspect iva das ciências sociais e hum anas, vale dizer que o present e t rabalho se ident ifica m ais claram ent e com o viés gerencial, sem desprezar, no ent ant o, as cont ribuições advindas de out ros cam pos de conhecim ent o.
1 Ver m ais em BETHLEM, A. S. Modelos de por t fólio. Rio de Janeir o, Coppead- UFRJ, 1992 ( r elat ór io
1 O ESCOPO D A PESQU I SA
Nest a part e, procurarem os delim it ar o obj et o de est udo, explicit ando o problem a de pesquisa, as hipót eses, as suposições e os obj et ivos, bem com o a m et odologia ut ilizada para a invest igação propost a.
1 .1 Ju st ifica t iv a e pr oble m a t iz a çã o
As em presas fam iliares são m aioria em t odo o m undo, chegando a represent ar cerca de 90%2 do t ot al das em presas inst aladas ( AVELAR, 1998) .
No Brasil, m ais especificam ent e, segundo pesquisa realizada pela J. B. Lodi Consult oria, ent re as 300 m aiores em presas do país est ão 280 fam iliares que, j unt as, represent am um pat rim ônio da ordem de US$ 46 bilhões. A globalização da econom ia e a abert ura de m ercado int ensificaram a concorrência diret a com as em presas est rangeiras, o que t em feit o com que a gest ão assum a im port ância crescent e no desem penho dessas organizações, pois j á não bast am m ais som ent e o pioneirism o e a t radição no m ercado para garant ir o sucesso ( ROCHA, 1998) .
Convém ressalt ar ainda que, no Brasil, de cada 100 em presas fam iliares, 30 perm anecem na segunda geração e apenas 5% chegam à t erceira geração ( AVELAR, 1998) .
Segundo BERNHOEFT ( 1998) , o capit alism o brasileiro est á exigindo, nessa virada de m ilênio, em presas fam iliares m ais capit alizadas e adm inist radas por
2 Segundo pesquisa r ealizada pela J.B. Lodi Consult or ia, nos Est ados Unidos, 96% das em pr esas
profissionais preparados, o que sugere a im plem ent ação de processos de profissionalização da gest ão.
GALBRAI TH ( 1983: 64) ent ende o processo de profissionalização da gest ão com o algo inexorável j á que
“ . . . as em pr esas t endem a ev oluir no sent ido de subst it uir o em pr esár io, com o for ça
dir ecional da or ganização, pela adm inist r ação, essa um a ent idade colet iv a e im per feit am ent e definida, nos m oldes do m odelo bur ocr át ico” .
A profissionalização, dessa form a, pode ser ent endida com o a evolução do processo de gest ão em presarial, sem pre no int uit o de t ornar a organização m ais eficaz.
Em paralelo a essas m udanças, m uit as em presas fizeram alt erações radicais em seu processo de produção, m odernizando- se t ecnologicam ent e e adot ando novas form as de organização do t rabalho, com pat íveis com as necessidades de qualidade, cust o e flexibilidade cada vez m ais exigidas pelo m ercado.
Dessa form a, part e das em presas fam iliares t eve que conviver ao m esm o t em po com alguns desafios significat ivos: profissionalizar a gest ão, invest ir em t ecnologia e im plem ent ar definit ivam ent e novas form as de organização do t rabalho, em consonância com o processo de reest rut uração produt iva que vem ocorrendo m undialm ent e.
A pesquisa aqui propost a é nort eada pela seguint e quest ão: de que form a o processo de profissionalização da gest ão cont ribui para o aum ent o da eficácia organizacional das em presas fam iliares, num cont ext o de m odernização t ecnológica, reest rut uração produt iva e abert ura de m ercado?
novo padrão de concorrência, baseado não apenas em preços, m as t am bém em qualidade, flexibilidade e diferenciação de produt os.
Concom it ant em ent e à adoção de out ras m edidas com o o invest im ent o em t ecnologia e a reest rut uração do processo de t rabalho, algum as em presas desse segm ent o opt aram pela profissionalização de sua gest ão com o est rat égia para fazer frent e à m udança cont ingencial, represent ada por fort es pressões no sent ido de aum ent ar sua com pet it ividade.
Esse est udo se j ust ifica na m edida em que suas conclusões podem auxiliar no ent endim ent o de com o o processo de profissionalização da gest ão se art icula est rat egicam ent e com out ras decisões em presariais no m om ent o em que o am bient e de negócios cresce em com plexidade.
Vist o que o acirram ent o da concorrência at ingiu e t ende a alcançar out ros ram os de at ividade da econom ia brasileira, o ent endim ent o da problem át ica da profissionalização do set or t êxt il pode servir de referência para a adoção ou não dessa est rat égia por out ras em presas t êxt eis, ou m esm o, por organizações de out ros segm ent os da indúst ria nacional.
1 .1 .1 As e m pr e sa s fa m ilia r e s com o obj e t o de pe squ isa
O cam po de pesquisa sobre em presa fam iliar é prat icam ent e inaugurado em 1953, quando Carl Roland Christ ensen3, num a dissert ação de m est rado, elabora um invent ário dos principais problem as de sucessão em pequenas em presas em crescim ent o ( DAVEL & COLBARI , 2000) .
3 CHRI STENSEN, R. D. “ Managem ent sucession in sm all and gr ow ing ent er pr ises” . Bost on, Har v ar d
Durant e as décadas de 60 e 70, a m aioria dos est udos é focado num a perspect iva m ais gerencial cont em plando preferencialm ent e a t em át ica da sucessão ( HUGRON, 19934, cit ado por DAVEL & COLBARI , 2000) .
Ent ret ant o, é na década de 80 que o cam po de est udos se sedim ent a com a publicação de diversas pesquisas e vários event os, com o a criação do Canadian Associat ion of Fam ily Ent reprise, em 1983; da Fam ily Firm I nst it ut e, em 1984,
bem com o sua revist a Fam ily Business Review ; do Fam ily Business Research, nos Est ados Unidos, em 1988 e do Fam ily Business Net work, na Europa, em 1989.
Esse crescim ent o de int eresse se t raduziu, m ais recent em ent e, na criação do Fam ily Owned Business Educat ors - FOBE - e da - I nt ernat ional Fam ily Business
Program Associat ion – I FBPA. Nos Est ados Unidos, at ualm ent e, m ais de 60
universidades oferecem program as sobre em presa fam iliar; na Europa, o I NSEAD e o I MD cont am com grupos im port ant es de pesquisa; na França, o Laborat oire de Recherches en Économ ie et Gest ion des Organisat ions - LAREGO – dedica boa
part e de suas at ividades ao t em a, acont ecendo o m esm o com o Cent ro de Pesquisa I ESE da Universidade de Navarre e o I nst it ut o de Est udos Superiores de
La Em presa, na Espanha, e o St oy Hayward, na I nglat erra.
Alguns desses inst it ut os, além de m ant erem linhas de pesquisa e fom ent arem est udos sobre o assunt o, t am bém funcionam com o ent idades de apoio às em presas fam iliares e a seus em presários, t ransferindo conhecim ent os e t ecnologia gerencial a esses a part ir de palest ras, sem inários e cursos em geral.
No Brasil, o int eresse da com unidade cient ífica pelas em presas fam iliares é m ais recent e, o que não im pede a exist ência de um a j á considerável lit erat ura no ram o, m uit o em bora um a boa part e dessa se const it ua de livros e art igos escrit os por consult ores a part ir de suas experiências prát icas de int ervenção
4 HUGRON, P. Les fondem ent s du cham p de r echer che sur les ent r epr ises fam iliales ( 1953- 1980)
nesse t ipo de organização, o que faz com suas assert ivas não raro se revist am de um carát er prescrit ivo.
As afirm at ivas desses aut ores, em bora não possam ser desprezadas, são baseadas m ais em im pressões pessoais do que balizadas em pesquisas sist em at icam ent e est rut uradas.
Não obst ant e, j á se observam m ovim ent os em universidades renom adas do país com vist as à criação de linhas de pesquisa específicas volt adas para a problem át ica da em presa fam iliar.
1 .2 Ob j e t iv o g e r a l
I dent ificar e analisar os im pact os do processo de passagem de um a gest ão fam iliar t radicional para um a gest ão profissionalizada num a em presa do set or t êxt il, avaliando de que form a essa est rat égia concorreu para o aum ent o da eficácia organizacional no cont ext o da com pet it ividade set orial.
1 .3 Obj e t iv os in t e r m e diá r ios
1 . Descrever a passagem de um m odelo de gest ão fam iliar para um a gest ão profissionalizada.
2. Est abelecer relações ent re o processo de profissionalização da gest ão, o invest im ent o em t ecnologia, a reest rut uração do processo de t rabalho e o aum ent o da eficácia em presarial.
1 .4 Su posiçõe s
2. O processo de profissionalização da gest ão influencia no aum ent o da eficácia organizacional das em presas fam iliares.
3. Sob um a gest ão profissionalizada, as em presas t endem a reagir com m aior rapidez aos est ím ulos do m ercado, o que facilit a o invest im ent o na m odernização t ecnológica e a adoção de um a nova form a de organização do t rabalho.
1 .5 M e t odologia
Nessa part e, descreverem os os procedim ent os m et odológicos ut ilizados para o desenvolvim ent o do present e t rabalho, especificando o t ipo de pesquisa, o universo, a am ost ra, as est rat égias e inst rum ent os ut ilizados para a colet a de dados e os crit érios e parâm et ros definidos para a post erior análise das inform ações obt idas.
1 .5 .1 Tipo de pe squ isa
O t ipo de pesquisa é qualit at iva, caract erizando- se fundam ent alm ent e, de acordo com GODOY ( 1995: 62) , por t er “ ...o am bient e nat ural com o font e diret a de dados e o pesquisador com o inst rum ent o fundam ent al” , que procura com preender os fat os sob um a perspect iva dinâm ica no cont ext o em que eles ocorrem .
Nesse sent ido, devem ser considerados e exam inados, na m edida do possível, t odos os dados da realidade com vist as a um a com preensão am pla e int egrada do fenôm eno que est á sendo est udado, o que exige um a post ura at ent a à m ult iplicidade de quest ões present es num a det erm inada sit uação, um a vez que a realidade é sem pre com plexa ( GODOY, 1995) .
Procuram os com preender esse processo sob a perspect iva dos suj eit os envolvidos, reconst ruindo, a part ir de suas percepções, suas opiniões, im pressões pessoais e dem ais m anifest ações de sua subj et ividade, o cenário e os acont ecim ent os do qual part iciparam at ivam ent e ou com o espect adores privilegiados.
O est udo de caso foi a est rat égia escolhida, ent re out ras possíveis, para essa invest igação por proporcionar um a visão m ais am pla e profunda da realidade sob indagação, possibilit ando um a análise m ais inform ada da unidade est udada.
Não obst ant e, reconhecem os a priori as lim it ações desse m ét odo, basicam ent e ligadas à sua precária capacidade de generalização ( GREENWOOD, 1973) , o que nos leva a rest ringir as conclusões da pesquisa ao universo invest igado.
1 .5 .2 U n iv e r so e a m ost r a
Com puseram o universo da pesquisa as em presas fam iliares que passaram por processo de profissionalização de sua gest ão recent em ent e em função da necessidade de se adapt ar às novas condições com pet it ivas. Mais especificam ent e, o est udo se refere àquelas em presas que, após a abert ura da econom ia, invest iram em t ecnologia e im plem ent aram novas form as de organização do t rabalho.
A am ost ra foi um a em presa de grande port e ( de acordo t ant o com o crit ério de núm ero de em pregados com o de fat uram ent o anual) de Minas Gerais que se enquadrou dent ro das caract eríst icas acim a. O set or t êxt il foi o escolhido, pois, além de esse ser com post o quase na sua t ot alidade por organizações fam iliares, foi part icularm ent e afet ado pela concorrência de com panhias est rangeiras.
1 .5 .3 Cole t a de da dos
Pe squisa de ca m po, com ent revist as sem i- est rut uradas, post o que conduzidas
por m eio de um rot eiro orient ador com t ópicos e quest ões divididas em vários blocos t em át icos, que variaram de acordo com os níveis organizacionais e/ ou os papéis desem penhados pelos ent revist ados na em presa.
No caso de diret ores, m em bros do Conselho de Adm inist ração, assessores, consult ores e gest ores de form a geral, ut ilizam os um rot eiro com dez blocos de assunt os ( ANEXO I ) . No caso de t rabalhadores de nível adm inist rat ivo, t écnico e operacional, usam os um rot eiro com onze blocos, conform e o ANEXO I I .
Para t erm os um a visão m ais com plet a das m udanças ocorridas, buscam os ent revist ar funcionários com um m ínim o de 6 m eses de em presa, além de selecionarm os t rabalhadores represent at ivos de t odos os processos fabris e áreas da em presa.
Foi realizado um t ot al de 38 ent revist as ent re os m eses de set em bro de 1999 e fevereiro de 2000, no Escrit ório Cent ral e em duas das t rês fábricas pert encent es à em presa, dist ribuídas de acordo com o quadro a seguir:
QUAD RO 1 – En t r e vist a dos por n íve is fu n cion a is e u n ida de s da e m pr e sa
En t r e v ist a d os Escr it ór io
Ce n t r a l
U n ida de
I
U n ida de
I I
T o t a l
D ir e t or e s/ Con se lh e ir os 4/ 1* - - 4
Asse ssor e s 1 - - 1
Con su lt or e s 1 - - 1
Ge st or e s d iv e r sos 1 4 2 7
Tr a b a lh a d or e s - 15 10 25
T o t a l 7 19 12 3 8
* NOTA - Um dos dir et or es ent r ev ist ados t am bém é m em br o do Conselho de Adm inist r ação.
Pesquisa docum ent a l, com análise de dados secundários obt idos na
1 .5 .4 Tr a t a m e n t os d os d a d os
As ent revist as foram gravadas ( com o consent im ent o dos ent revist ados) e seus dados t ranscrit os e, post eriorm ent e, separados por assunt o, de acordo com os próprios rot eiros ut ilizados na sua obt enção, o que facilit ou sua análise. Mant ivem os, nessa fase, a ident ificação dos respondent es, j á que, para o at ingim ent o dos obj et ivos da pesquisa, era relevant e at relar o discurso a seu port ador, de acordo com seu posicionam ent o dent ro da em presa e da fam ília invest igadas.
A essas inform ações uniram - se ainda os dados secundários que nos auxiliaram a m ont ar com m ais exat idão o am bient e, possibilit ando t am bém a verificação, em alguns casos, da coerência ent re esses e a realidade exprim ida pelos relat os dos diversos at ores organizacionais. I sso t am bém foi reforçado pelo fat o de as ent revist as t erem sido realizadas no int erior da em presa, o que nos possibilit ou verificar in loco m uit as sit uações.
2 O CON TEX TO D E M U D AN ÇA: GLOBALI ZAÇÃO, ABERTU RA D A
ECON OM I A, I N V ESTI M EN TO EM TECN OLOGI A E REESTRU TU RAÇÃO
PROD UTI V A
Ant es de nos at erm os diret am ent e às m udanças no cenário que em ulduraram a ação em presarial nos últ im os anos, nos concent rarem os, nest a part e, em enfat izar a im port ância do ent endim ent o do am bient e para um a com preensão m elhor do fenôm eno organizacional, o que é suport ado pela abordagem cont ingencial da Adm inist ração.
Quest ões ext ernas à organização com o o am bient e, a cult ura, a t ecnologia e a polít ica, bem com o quest ões int ernas com o o know- how e a est rat égia em presarial vão influenciar a est rut ura e o com port am ent o organizacional que, por seu t urno, vão exercer influência no m eio social em que se encont ram inseridos a em presa e seu t rabalhador.
PERROW ( 1972) salient a a im port ância do am bient e, caract erizando- o sem pre com o um a am eaça e com o um recurso, m as nunca com o algo que pode ser ignorado, o que explica as diferenças de com port am ent o, via de regra, observadas em organizações que t êm sua origem em um det erm inada região e est abelecem filiais em out ros países, com o as grandes m ult inacionais.
CHANDLER ( 1976) enfat izou em seus est udos a im port ância de um a int eração const ant e ent re o am bient e e a organização, acredit ando que esse, em últ im a análise, dit a as opções est rat égicas adot adas pelas m odernas corporações, dessa m aneira, reafirm ando a necessidade das em presas adot arem m odelos diferent es para serem com pet it ivas em cenários diversos.
pareciam est ar associadas com um a crescent e capacidade para predizer result ados e cont rolar as lim it ações físicas da produção ” .
Considerando o expost o, para m elhor delinearm os o cenário em que est á inserida a em presa est udada, nos dedicarem os a descrever as principais m udanças no am bient e ext erno e int erno das organizações, part indo da globalização econôm ica.
2 .1 A globa liz a çã o da e con om ia
A globalização t em se int ensificado no cenário m undial. Sua influência se est ende às diversas esferas da at ividade hum ana com o a cult ural, a social, a polít ica, a am bient al e a econôm ica ( VI EI RA, 1997) .
Apesar de ser difícil desvincular esses aspect os, j á que se encont ram int errelacionados, nos concent rarem os m ais sobre os efeit os da globalização na econom ia e, por conseqüência, no processo de produção.
Em bora não haj a um a uniform idade t eórica de conceit os e sej a difícil sua caract erização, dent ro de um enfoque financeiro, de acordo com LACERDA ( 1998) , é na ext raordinária m obilidade e no crescent e volum e dos invest im ent os diret os est rangeiros que a globalização revela sua face m ais visível, pont o de vist a corroborado por ALI OTI ( 1998) que, a despeit o de alguns aut ores, com o I ANNI ( 1995) , que advogam que esse fenôm eno sem pre exist iu, ent ende a globalização com o um a nova fase do capit alism o, caract erizada por relações econôm icas que desconhecem front eiras nacionais e diferent es sist em as polít icos.
GONÇALVES 5, cit ado por LACERDA ( 1998: 98) descreve a globalização com o
“ . . . um fenôm eno com plex o que assum e car act er íst icas dist int as nas difer ent es esfer as das r elações econôm icas int er nacionais: pr odut iv a r eal, m onet ár ia –
5 GONÇALVES, R. Globalização e em pr ego. Rev ist a Br asileir a de Com ér cio Ex t er ior . Rio de Janeir o,
financeir a, com er cial e t ecnológica. Não obst ant e, par ece hav er dois elem ent os com uns à dinâm ica do sist em a econôm ico m undial, independent em ent e da esfer a, que são a aceler ação da int er nacionalização e o acir r am ent o da com pet ição. A globalização é um conceit o nov o e út il à m edida que env olv e a sincr onia desses dois elem ent os” .
Do pont o de vist a puram ent e econôm ico,
“ . . . o que at ualm ent e se cham a de globalização pode ser r esum ido com o um
cr escim ent o do com ér cio int er nacional ( de bens e ser v iços) em r it m o consist ent em ent e super ior ao da pr odução m undial6, assim com o um ex pr essiv o incr em ent o dos flux os de capit ais ( de em pr ést im os e r isco) ent r e os países” ( LANZANA COSTANZI , 1999: 35) .
CHESNAI S ( 1996) enxerga o fenôm eno da globalização com o produt o dos seguint es fat ores: a circulação cada vez m ais int ensa do capit al financeiro, a am pliação dos m ercados e a int egração produt iva em escala m undial gerada por m aior int ernacionalização do capit al. Esse processo seria, em últ im a análise, reflexo da adequação do capit alism o a um novo pat am ar de acum ulação, que se caract erizaria segundo SEGNI NI ( 1999: 186- 187) , pela
“ . . . r eor ganização do sist em a financeir o global e o em er gent e poder da coor denação financeir a car act er izados pela pr olifer ação e pela descent r alização das at iv idades financeir as e cr iação de nov os inst r um ent os e m er cados” .
Para o m undo em presarial, a conseqüência principal é que a com pet ição passa a ocorrer em escala m undial, com as em presas freqüent em ent e reest rut urando sua at ividade em t erm os geográficos e sendo beneficiadas t ant o pelas vant agens com pet it ivas de cada país com o pelo próprio nível de com pet it ividade de cada em presa ( NAKANO, 1994) .
A com pet it ividade na front eira t ecnológica passa a im plicar cust os cada vez m ais elevados em t erm os t ant o de pesquisa e desenvolvim ent o de produt os, quant o da necessidade de m ecanism os de consult a freqüent e aos client es, para provisão de assist ência t écnica e adapt ações de linha da produção
I sso t em possibilit ado, no âm bit o do processo de produção, a apropriação de ganhos de escala, a uniform ização de t écnicas produt ivas e adm inist rat ivas e a redução do ciclo do produt o, ao m esm o t em po em que t em m udado o eixo focal da com pet ição, de concorrência em t erm os de produt o para a com pet ição em t ecnologia de processos ( SVETLI CI C, 1993) .
Ainda buscando esclarecer o fenôm eno da globalização, LANZANA e COSTANZI ( 1999) ident ificam quat ro causas que explicam sua int ensificação :
1 . A significat iva redução dos cust os e m elhoria da qualidade dos t ransport es, fundam ent ais para o increm ent o do int ercâm bio de bens e serviços ent re os países.
2 . A sensível redução nos cust os e m elhoria na qualidade das t elecom unicações e inform át ica, fat or explicat ivo do aum ent o do volum e e da velocidade dos fluxos de capit ais de cart eira ou especulat ivo.
3 . A expansão das em presas t ransnacionais t ant o em núm ero quant o em im port ância relat iva na econom ia m undial, o que est im ula t ant o o com ércio int ernacional quant os os invest im ent os diret os est rangeiros.
4 . A form ação de blocos regionais de livre com ércio e as polít icas de liberalização do com ércio ext erior em vários países, em especial, na Am érica Lat ina.
Ainda segundo LANZANA e COSTANZI ( 1999: 36- 37) ,
“ . . . esses pr ocessos são ao m esm o t em po causa e conseqüência da globalização. Causa por que est im ulam o com ér cio int er nacional e cr iam a necessidade de ut ilização de flux os de capit ais par a gar ant ir a solv ência dos países em pr ocesso de aber t ur a com er cial. Conseqüência por que, por ex em plo, foi a liquidez do sist em a financeir o int er nacional que possibilit ou os pr ocessos de liber alização do com ér cio ex t er ior por par t e do Br asil e da Ar gent ina” .
inform am da exist ência nesse novo cont ext o econôm ico de países líderes ( aos quais cabe papel privilegiado) , periféricos e excluídos.
2 .2 O pr oce sso de a be r t u r a da e con om ia n o Br a sil
No Brasil, o processo de abert ura da econom ia com eça a ser art iculado no final dos anos 80, t ardiam ent e, m esm o se com parado som ent e aos dem ais países em desenvolvim ent o.
Mas é no início dos anos 90 que se int ensifica e provoca um a profunda reest rut uração indust rial no país, com im pact os diret os no em prego, em bora t razendo benefícios para os consum idores pela m aior disponibilidade de bens e serviços, m elhores preços e t ecnologia ( MOREI RA, 1999) .
A experiência brasileira de liberalização com eça a ser preparada em 1988, com pequenas m udanças na est rut ura t arifária, via ext inção de alguns regim es especiais. Num segundo m om ent o, novas diret rizes de polít ica indust rial e de com ércio ext erior previam a redução planej ada e gradual das alíquot as de im port ação. Segundo o cronogram a, a t arifa m áxim a deveria ser de 40% , a m édia, de 14% e a m odal, de 20% , ao final de 1993 ( LACERDA, 1998) .
Em bora as m et as iniciais t enham sido m ant idas at é out ubro de 1992, post eriorm ent e out ros fat ores det erm inaram alt erações, com o os com prom issos j unt o ao Mercosul e a polít ica de est abilização, que passou a sobrepor- se à polít ica indust rial e de com ércio ext erior.
De acordo com LACERDA ( 1998: 91) ,
“ . . . após a int r odução do Plano Real em 1994 e da est r at égia de est abilização
Essa t raj et ória, cont udo, foi se m ost rando insust ent ável com o decorrer do t em po do pont o de vist a da cont a corrent e da balança de pagam ent os, j á que, após a abert ura, verificou- se que o coeficient e de export ações da indúst ria não acom panhava o passo do crescim ent o da velocidade das im port ações ( URANI , 1996) .
A polít ica de j uros alt os e o câm bio art ificialm ent e valorizado, aspect os m arcant es do Plano Real, funcionavam com o inibidores da com pet it ividade das em presas nacionais, o que cont ribuía para um a sit uação ainda m ais deficit ária. Além disso, esse m esm o processo facilit ava a venda de em presas de cont role nacional para acionist as ext ernos, o que am pliava os gast os com rem essas de lucros e dividendos ( AVERBUG, 1999) .
Dessa form a, não obst ant e o quase desaparecim ent o da inflação nos últ im os anos, foi observada no m esm o período um a significat iva expansão da dívida ext erna e int erna do país. Tudo isso, sem que esse processo se t raduzisse em grandes invest im ent os que produzissem crescim ent o e possibilidade de geração de riquezas para o pagam ent o das dívidas cont raídas ( GI AMBI AGI e ALÉM, 1999) .
Segundo ATTUCH ( 1999: 15) ,
“ . . . dada a t ax a de câm bio, que est im ulav a as im por t ações, sem pr e que a econom ia cr escia cr iav a- se um a r est r ição ex t er na. As em pr esas passav am a im por t ar m ais ainda, ger ando um a necessidade adicional de at r ação de r ecur sos ex t er nos. Com o o que definia a capacidade de at r air dinheir o de for a er a a t ax a de j ur os, o Banco Cent r al er a for çado a elev á- la, o que v olt av a a fr ear a econom ia” .
Foi assim no início de 1995, no final de 1997 e t am bém em m eados de 1998.
2 .3 O n ov o ce n á r io com pe t it iv o e o pr oce sso de in v e st im e n t o e m
t e cn ologia e e m n ov os m ode los de or ga n iz a çã o do t r a ba lh o
Dent re as várias e com plexas conseqüências da globalização e, m ais especificam ent e, da abert ura da econom ia, nos concent rarem os nos im pact os desses fenôm enos sobre as em presas brasileiras, que buscaram a adequação at ravés de invest im ent os em t ecnologia e em novos m odelos de organização do t rabalho.
2 .3 .1 O pr oce sso de in v e st im e n t o e m t e cn ologia
A regulação de preços e a exigência de m elhoria de qualidade, via am eaça ou efet iva facilit ação das im port ações, penalizaram , em alguns casos fort em ent e, o segm ent o indust rial. As em presas se viram frent e ao desafio de enfrent ar concorrent es int ernacionais, t endo que arcar ainda, ao cont rário desses, com j uros elevados, t ribut ação, burocracia excessiva e carência de infra- est rut ura, fat ores de com pet it ividade usualm ent e t rat ados pela m ídia com o “ cust o Brasil” .
Esse novo cont ext o com pet it ivo induziu as em presas a descobrirem a im port ância do m ercado, fazendo com que revissem suas prát icas relat ivas ao preço e à qualidade de seus produt os ( FLEURY e FLEURY, 1997) .
Enquant o algum as em presas buscaram vencer a defasagem prim ordialm ent e at ravés de fusões com parceiros int ernacionais, o que lhes possibilit ou, ent re out ras coisas, aum ent ar a escala de produção e com bat er o at raso t ecnológico, out ras procuraram rever suas polít icas t ecnológicas e organizacionais por m eio de invest im ent os próprios e/ ou ut ilização de linhas de crédit o e adoção de novos m odelos de gest ão, respect ivam ent e ( FLEURY e FLEURY, 1997) .
“ . . . m esm o na últ im a fase do ciclo de subst it uição de im por t ações, a capacit ação
t ecnológica não se colocav a com o um r equisit o efet iv o. O esfor ço t ecnológico int er no r est r ingia- se basicam ent e ao uso e apr endizado das pr át icas de pr odução, sendo no m áx im o necessár ia a adapt ação dos pr ocessos, m at ér ias- pr im as e pr odut os” .
Essas conclusões são reforçadas quando se observa que, desde m eados dos anos 70, os pagam ent os relat ivos à im port ação de t ecnologia no Brasil experim ent aram um a queda acent uada, at ingindo núm eros bast ant e baixos. A im port ação de bens de capit al t am bém enfrent ou um a queda acent uada durant e os anos 80. Para ilust rar m elhor essa sit uação, convém lem brar que a Coréia do Sul, durant e o período de 1972 a 1986, t eve os pagam ent os por t ecnologia im port ada m ult iplicado por t reze, em t erm os absolut os ( BEEL e CASSI LATO7, cit ados por FLEURY e FLEURY, 1997) .
O início dos anos 90 m arcou a ret om ada crescent e dos invest im ent os em t ecnologia pelas indúst rias brasileiras. O governo Collor int roduziu novas polít icas: o Program a Brasileiro para a Qualidade e Produt ividade - PBQP – a Polít ica de I ndust rialização e Com ércio Ext erior – PI CE - e o Program a de Apoio à Capacit ação Tecnológica da I ndúst ria – PACTI - que delinearam obj et ivos claros: aum ent ar a com pet it ividade em t erm os int ernacionais, liberalizar o com ércio, t ornar m ais t ransparent es os crit érios de selet ividade ent re set ores e, a m édio e longo prazos, increm ent ar a com pet it ividade pelo aprim oram ent o das com pet ências e qualidade dos produt os ( FLEURY e HUMPHREY8, cit ados por FLEURY e FLEURY, 1997) .
Em bora esses program as não at ingissem os result ados esperados, post o que a concent ração do foco do governo na est abilização da econom ia acabou por relegar a segundo plano as polít icas indust riais, o cam inho est ava t raçado.
A prova disso foi o significat ivo aum ent o das im port ações de bens de capit al, que só no período de 1989 a 1995 t eve seu coeficient e em relação à produção
7 BELL, M. e CASSI LATO, M. The new appr oach t o t echnology t r ansfer . Est udo da Com pet it iv idade
aum ent ado de 11,1% para 59,4% ( MOREI RA e CORRÊA9, cit ados por LACERDA, 1998) .
MOREI RA ( 1999) , num a análise crít ica, lem bra que um a avaliação posit iva dos im pact os da abert ura ao longo da década de 90 não pode ser confundida com um diagnóst ico de que a indúst ria brasileira j á com plet ou o seu processo de aj ust e ao novo regim e.
Ainda segundo esse aut or, m uit o em bora cert am ent e várias et apas desse processo j á t enham sido percorridas, out ras ainda est ão por vir. A dist ância a ser vencida rum o à best prat ice int ernacional ainda é grande.
MOREI RA ( 1999: 329) com plet a ponderando que
“ ainda há ganhos de pr odut iv idade im por t ant es a ser em r ealizados e um a par t e subst ancial desses ganhos pode ser ex t r aída do efeit o de escala, ist o é, da for m ação de em pr esas com t ecnologia e nív eis de pr odução par a com pet ir de igual par a igual com suas congêner es do m undo desenv olv ido” .
2 .3 .2 A e v olu çã o do m ode lo de or ga n iz a çã o do t r a ba lh o: da
r ot in iza çã o à r e e st r u t u r a çã o pr odu t iv a
Tal com o o processo de inovação t ecnológica, o processo de inovação organizacional irrom pe definit ivam ent e no Brasil a part ir do início dos anos 90, em bora suas raízes rem ont em ao final dos anos 70, quando ent ra em crise o m odelo de subst it uição de im port ações sob o qual se est rut urou a fase ant erior de desenvolvim ent o e a part ir de onde descreverem os, ainda que de form a suscint a, o processo de indust rialização brasileiro.
8
FLEURY, A. e HUMPHREY, J. Hum an Resour ces and t he diffusion and adapt at ion of new qualit y m et hods in br asilian m anufact ur ing. Br ht on, I nst it ut e of Dev elopm ent St udies. Resear ch Repor t , 1 9 9 3 .
9 MOREI RA, M. M. e CORRÊA, P. G. Aber t ur a com er cial e indúst r ia: o que se pode esper ar e o que
A polít ica de subst it uição das im port ações inaugura- se com a Segunda Grande Guerra Mundial, em função da int errupção do fornecim ent o de bens essenciais pelos países m ais avançados.
No início dos anos 50, o President e Get úlio Vargas, considerando que a indust rialização era o cam inho para o desenvolvim ent o econôm ico e, conseqüent em ent e, para a m elhoria das condi ções de vida da população, t endo ainda em vist a o agravam ent o das reservas cam biais ( que levou ao congelam ent o das im port ações à época) , resolveu criar m ecanism os para fom ent ar e prom over o processo de indust rialização e, assim , fazer frent e aos prem ent es problem as econôm icos que o Brasil at ravessava.
Foi criada a Com issão de Desenvolvim ent o I ndust rial - CDI – com o obj et ivo de est udar, analisar e propor diret rizes gerais, que deveriam ser adot adas para a expansão e diversificação da indúst ria nacional.
Os t rabalhos da CDI eram coordenados por várias subcom issões, ent re as quais podem os dest acar a de fabricação de j ipes, t rat ores, cam inhões e aut om óveis, que era a responsável pela elaboração do Plano Nacional de Est ím ulo à Produção da I ndúst ria de Aut opeças, apro vado, em 1952, pelo President e Vargas, e pelo post erior m onit oram ent o da im plant ação gradat iva da indúst ria aut om obilíst ica no País.
Em bora o referido plano não est abelecesse um program a para a inst alação da indúst ria aut om obilíst ica, fixava diret rizes para o processo, direcionadas para:
♦ a criação e o fort alecim ent o da indúst ria de aut opeças, obj et ivando at rair os p rodut ores int ernacionais de veículos para se est abelecerem aqui, fazendo a m ont agem dos veículos;
♦ a priorização na im plant ação de m ont adoras de cam inhões e ut ilit ários, de form a a assegurar a m anut enção, reposição e crescim ent o do t ransport e rodoviário de ca rga, pont o fundam ent al do desenvolvim ent o econôm ico; e
Todo o esforço no sent ido da indust rialização do País, prom ovido pelo governo Vargas por m eio da criação da Com panhia Siderúrgica Nacional - CSN - ,da Pet robrás e da CDI , sofreu um arrefecim ent o com a sua m ort e em 1954. Porém , est ava form ada um a base real que pot encializava a im plant ação da I ndúst ria Aut om obilíst ica Nacional, expressa no clim a de confiança m út ua ent re a classe em presarial e os funcionários do Governo, sendo ret om ados os esforços para a indust rialização com a eleição de Juscelino Kubit schek, em out ubro de 1955.
Durant e o governo Kubit schek, o país part iu definit ivam ent e para a produção local de bens de consum o duráveis em larga escala, t endo com o fat o m ais m arcant e a inst alação da indúst ria aut om obilíst ica.
Os efeit os caract eríst icos da indúst ria aut om obilíst ica se fizeram sent ir sobre o desenvolvim ent o de t oda a econom ia nacional. Nesse período, a indúst ria nacional se viu forçada a se desenvolver, o que foi not ado com m aior nit idez na área de m áquinas e equipam ent os ( FLEURY e FLEURY, 1997) .
Cont udo, no período de 1963/ 1964, um surt o inflacionário aliado à crise polít ico-inst it ucional, fez com que houvesse acent uada dim inuição do rit m o desenvolvim ent ist a em preendido at é ent ão, o que, de cert o m odo, exacerbou a crise, culm inando com a vit ória do m ovim ent o m ilit ar de 1964.
Em bora esse m ovim ent o t enha int errom pido um im port ant e ciclo de desenvolvim ent o polít ico, iniciado após a Segunda Grande Guerra Mundial, do pont o de vist a econôm ico, a segunda m et ade da década de 60 e, sobret udo, a década de 70 m arcaram a consolidação do processo de indust rialização nacional, represent ado não só por um significat ivo crescim ent o da produção e do em prego indust rial, ” ...com o pelo desenvolvim ent o de um a est rut ura indust rial int egrada que se apoiou no processo de indust rialização pesada que se inst aurara a part ir de 1956” ( LEI TE, 1994: 563) .
1 . A indúst ria de t ransform ação am pliou sua part icipação no PI B, de 19% , em 1955, para 30% , em 1990.
2 . Ent re esses anos, o PI B cresceu em m édia 6,3% a.a.
3 . Os produt os m anufat urados, que represent avam cerca de 1% do t ot al das export ações em 1955, chegaram , ao final da década de 80, respondendo por cerca de 50% da paut a ( MOREI RA, 1999) .
Sendo assim , em bora não se possam negar as virt udes desse período, cabe ressalt ar, ent ret ant o, que essa est rat égia de indust rialização foi baseada num alt o grau de prot ecionism o, subsídios diret os aos produt ores de bens que fossem considerados essenciais ou est rat égicos, subsídios indiret os a part ir de m anipulação de preços públicos ( com o energia elét rica, com bust íveis, aço et c.) e um fort e cont role do preço do t rabalho at ravés da legislação t rabalhist a ( FLEURY e FLEURY, 1997) .
Sob t ais circunst âncias, as em presas operavam de m aneira relat ivam ent e confort ável, sem m aiores preocupações com pet it ivas, j á que basicam ent e os produt os eram dest inados a um m ercado int erno em expansão, prot egido e pouco exigent e.
A organização do t rabalho seguia um padrão correspondent e a essas exigências, com m ão- de- obra abundant e e pouco qualificada, à qual correspondia um est ilo gerencial pat ernalist a- aut orit ário ( FLEURY e FLEURY, 1997) .
Essa prát ica, um a adapt ação do m odelo t aylorist a e denom inada por FLEURY1 0, cit ado por FLEURY e FLEURY ( 1997) , de rotinização do t rabalho caract erizava- se t am bém por um baixo nivel de com prom et im ent o do operário com o t rabalho. A produt ividade era sacrificada para que problem as com a m ão- de- obra, decorrent es de um a possível m obilização operária, fossem evit ados.
No ent ant o, ent re o final dos anos 70 e início dos anos 80, esse padrão de uso do t rabalho no Brasil com eça a ent rar em decadência.
I nt ernam ent e, os fat ores que cont ribuíram prim ordialm ent e para isso foram a crise econôm ica, que redundou num a ret ração do m ercado int erno e em pressões para o aum ent o das export ações e o processo de redem ocrat ização polít ica, que perm it iu o ressurgim ent o do m ovim ent o operário sindical, que, por sua vez, forçou as em presas a encont rarem m odelos m enos aut orit ários de gest ão ( LEI TE, 1994) .
Não obst ant e, essas t ransform ações t am bém foram reflexo de m udanças que vinham acont ecendo em nível m undial desde a década de 70, quando, segundo NEVES ( 1999: 329) “ ...o int enso processo de int ernacionalização de m ercados, a fort e concorrência dos produt os j aponeses, a crise do m odelo fordist a- t aylorist a colocam em xeque o Est ado de bem - est ar social nos países avançados” .
Esse quadro se com plet a com o alt o invest im ent o em t ecnologia m icroelet rônica, inicialm ent e pelas grandes em presas m ult inacionais, com a popularização de sist em as inform at izados de planej am ent o, robôs, m áquinas- ferram ent a CNC ent re out ros, que foram devidam ent e acom panhados por inovações de produt o e de processo: ut ilização de sist em as CAD/ CAM/ CAE, j ust - in- t im e , celularização da produção, t ecnologia de grupo e sist em as de Qualidade Tot al em geral, incluindo a ut ilização de Cont role Est at íst ico de Processo - CEP – ( NEVES 1999) .
10
Sendo assim , é possível t raçar as principais caract eríst icas da m udança de um a est rut ura produt iva clássica, de base t aylorist a para um a nova organização da força de t rabalho baseada em dois paradigm as fundam ent ais: a flexibilidade e a int egração.
Esse novo cont ext o, denom inado genericam ent e de reest rut uração produt iva , j á vinha se consolidando nos países desenvolvidos desde a década de 70 com o est rat égia para aum ent ar a produt ividade frent e à concorrência j aponesa.
No Brasil dos anos 80, esse processo é caract erizado pela adoção de Círculos de Cont role Qualidade - CCQ’s – e de novas form as de organização do t rabalho baseadas sobret udo nas t écnicas j aponesas de Tot al Qualit y Cont rol - TCQ – ( Cont role de Qualidade Tot al) de form a parcial, sem que as em presas se preocupassem em alt erar de m odo significat ivo as form as de organização do t rabalho ( LEI TE, 1994) .
A resist ência dos gerent es brasileiros em delegar decisões aos operários im pediu, nessa fase, um m aior avanço das est rat égias em presariais volt adas para a m aior part icipação dos t rabalhadores ( LEI TE, 1994) .
Som ent e a part ir dos anos 90, o processo de reest rut uração produt iva se inst ala de m aneira efet iva no Brasil. A part ir daí, a busca de m aior qualidade e produt ividade se t raduz na adoção de est rat égias int egradas que visavam novas form as de gest ão da m ão- de- obra.
No int erior das em presas, esses esforços, result ado de decisão da direção, se art icularam de form a m ais int egrada a part ir da int rodução de algum t ipo de “ Program a de Qualidade Tot al” ( LEI TE, 1994) .
Em r e la çã o a o pr oce sso de pr odu çã o, NEVES ( 1999: 331) afirm a que “ ...o
t rabalho não m ais se organiza na int erface do operador/ m áquina/ post o de t rabalho, onde t em pos e m ovim ent os são program ados e cont rolados” .
Ainda segundo NEVES ( 1999: 331) ,
“ t ent a- se, de t oda m aneir a, a elim inação dos t em pos m or t os ( t em po de pr epar ação das m áquinas, r egulagem , lim peza, m anut enção, panes) , buscando- se o m áx im o de pr odut iv idade” .
O operário é cham ado a int ervir e part icipar de m aneira m ais at iva dent ro do processo de produção, opinando e cont ribuindo com dados para a m axim ização do uso das m áquinas.
A t roca const ant e de inform ações, o engaj am ent o e o t rabalho em equipe passam a ser essenciais. A produt ividade passa a ser m ais dependent e da rapidez de planej am ent o e resolução de problem as do que da rapidez dos gest os e m ovim ent os t ípicos do t aylorism o/ fordism o. ( NEVES, 1999) .
Em r e la çã o à e st r u t u r a , a necessidade de agilizar processos e decisões apont a
para um a adm inist ração m ais descent ralizada e m enos hierarquizada. A t endência é de m aior focalização, com a t erceirização de set ores considerados não essenciais. O m ovim ent o consist e t am bém na t ent at iva de concent rar os esforços da em presa na fabricação de produt os nos quais det ém vant agens com pet it ivas, ext ernalizando a produção dos dem ais com ponent es necessários à confecção do produt o final e gerando, via de regra, redes de subcont rat ação com as em presas, das quais passa a com prar os produt os que ant es produzia ( LEI TE, 1994) .
I sso significa um a redução do núm ero de processos de t ransform ação, o que gera a conform ação de unidades produt ivas m enores, m ais especializadas, volt adas para result ados, com m enos t rabalhadores diret os e m ais fáceis de serem gerenciadas ( SALERNO1 1, cit ado por LEI TE, 1994) .
11 SALERNO, M. “ Modelo j aponês, t r abalho br asileir o” . Sem inár io I nt er nacional Aut our du Modele
Não obst ant e, conj unt am ent e à t erceirização, são observados m ovim ent os de qualificação dos fornecedores, o que t eria com o obj et ivo a garant ia da qualidade dos produt os fornecidos.
Em r e la çã o à ge st ã o , observam - se t ransform ações significat ivas, no sent ido de
um m aior invest im ent o no t reinam ent o, form ação, qualificação e est abilização da m ão- de- obra, além da adoção de novos m ecanism os de cont role. Esse últ im o se faria m ais por m eio da adesão e int ernalização das regras, do que via im posição concret a de ordens e proibições. Paralelam ent e, um cert o est im ulo à com pet ição no int erior da em presa, a possibilidade de carreira e a valorização da capacidade de adapt ação at uariam com o m ecanism os com plem ent ares de adm inist ração da m ão- de- obra ( LI MA, 1995) .
Nesse cont ext o, o papel gerencial t ende aparent em ent e a perder o carát er aut orit ário. O chefe passa a t er com o papel principal a função de t radut or das regras da organização para seus subordinados. Seu papel é m ais de m ot ivador e facilit ador do que de com andant e. Sua função é de evit ar os conflit os e criar um clim a harm ônico que perm it a a part icipação e o surgim ent o de um espírit o de equipe, sem pre volt ado para a t arefa.
Em função disso, esse novo gerent e deve adot ar prát icas m ais cient íficas de adm inist ração, baseadas em t eorias psicológicas de abordagem individual e grupal. Usualm ent e, ele é descrit o com o um líder dot ado de visão sist êm ica.
Por fim , no t oca nt e às r e la çõe s indust r ia is , a polít ica é de t ent at iva de criação de um a relação indivíduo/ em presa, est abelecendo- se m edidas para individualizar as reivindicações. O obj et ivo é o de afast ar os t rabalhadores dos sindicat os, que passam a ser encarados com o indesej áveis e desnecessários.
O sucesso ou não dessas polít icas t em sido razão diret a da capacidade da em presa em m obilizar a subj et ividade dos t rabalhadores, criando fort es laços de ident idade ent re esses e a em presa, obj et ivo m aior das est rat égias de Gest ão de Recursos Hum anos dessas organizações ( NEVES, 1999) .
3 AS EM PRESAS FAM I LI ARES
As em presas fam iliares, obj et o m aior de nosso int eresse, t êm especificidades que as diferenciam dos out ros t ipos de organizações. Buscam os, nessa part e, definir, caract erizar, cat egorizar, apont ar vant agens e desvant agens, principais desafios e relacionar as alt ernat ivas apont adas por diversos aut ores para a eficácia da gest ão desse t ipo de em presa.
Porém , ant es de m ais nada, cabe- nos sit uar hist oricam ent e a evolução das em presas fam iliares no Brasil, o que pode cont ribuir para o ent endim ent o do papel relevant e desem penhado por elas nos dias at uais.
3 .1 Or ige m e h ist ór ico da s e m pr e sa s fa m ilia r e s n o Br a sil
As em presas fam iliares surgiram no Brasil logo após seu descobrim ent o, com as capit anias heredit árias, no início do século XVI ( OLI VEI RA, 1999) .
Por esse sist em a, o t errit ório foi dividido por linhas horizont ais no m apa a part ir do oceano At lânt ico. Essas linhas eram espaçadas a cada 50 léguas, aproxim adam ent e 300 Km , e o result ado foi a divisão do Brasil em 15 capit anias ( VI DI GAL, 1999) .
Essas capit anias, por serem heredit árias, podiam ser t ransferidas, por herança, aos herdeiros dos donat ários desses t errit órios, que eram com parados a senhores feudais, “ ...com poderes para doar part e de suas t erras a out ros, cobrar im post os, fazer cum prir a lei, t udo, desde que m ant ivesse sua lealdade e pagasse alguns im post os ao rei ” (VI DI GAL, 1999: 18) .
Ent ret ant o, apenas as capit anias de Pernam buco e São Vicent e1 2 pr osper am e criaram um a base de at ividade econôm ica perm anent e, baseadas no plant io de cana e na produção de açúcar, produt o com alt a dem anda na Europa à época, o
que t razia bons lucros. Na opinião de VI DI GAL ( 1999) , essas duas foram as prim eiras em presas fam iliares do Brasil.
É im port ant e observar que nesses prim eiros em preendim ent os fam iliares o que prevalecia era a progenit ura, o que im pedia a divisão da propriedade, preservando sua unidade. Som ent e m ais t arde, as fam ílias passaram a adot ar um crit ério de divisão da herança igualm ent e ent re t odos os herdeiros. Essa m udança, que veio agilizar o desm em bram ent o das propriedades, facilit ando a fragm ent ação, foi responsável pela decadência e m ort e de um a part e significat iva das em presas fam iliares
A segunda fase da em presa fam iliar no Brasil se caract eriza pelo surgim ent o do em preendedor em presarial, na m edida em que os donat ários das capit anias heredit árias não poderiam ser considerados assim , pois receberam sua propriedade com o present e da Coroa Port uguesa.
Os prim eiros em preendedores brasileiros são os que part iram das cidades em direção ao int erior do nordest e com o int uit o de explorar t erras invest indo o que t inham no cult ivo da cana- de- açúcar para a post erior inst alação de um engenho de açúcar.
Esses em preendim ent os possibilit aram o desbravam ent o do int erior, a const rução de est radas, a inst alação da casa- grande, dos prédios anexos e a m ont agem de um sist em a de abast ecim ent o para alim ent ar os t rabalhadores. “ O em preendedor est ava ao m esm o t em po iniciando um negócio e fundando um a pequena cidade, da qual era o senhor absolut o” ( VI DI GAL, 1999: 19) .
Com o fim do ciclo do café, caract erizado por DEAN ( 1971) pela decadência dos “ barões do café”1 3 de São Paulo, o papel de im pulsionador da econom ia brasileira foi, gradualm ent e, sendo exercido pela indúst ria .
O prim eiro surt o de indust rialização brasileiro coincide com o onda de im igração européia no final do século XI X e início do século XX. I nicialm ent e, essa im igração foi incent ivada pelos cafeicult ores paulist as que, prevendo o fim da escravidão, sabiam que essa m ão- de- obra t eria de ser subst it uída por out ra.
Prim eiram ent e, a idéia era t razer m ão- de- obra para a lavoura. Ent ret ant o, m uit os desses im igrant es opt aram por fixar- se num a cidade e iniciar algum a at ividade ligada ao com ércio e à indúst ria.
Nesse cont ext o, São Paulo foi palco de um grande im pulso indust rial liderado por grande em preendedores oriundos de diversos países europeus. Da I t ália, podem os cit ar, por exem plo, Francisco Mat arazzo1 4, Crespi e Giorgi1 5 e, de Port ugal, Ant ônio Pereira I nácio1 6 ( VI DI GAL, 1999) .
Em Pernam buco, est abeleceu- se o im igrant e sueco, Lundgren1 7, em Sant a Cat arina, os irm ãos alem ães Hering1 8 e, no Rio de Janeiro, o espanhol Larragoit i1 9 ( VI DI GAL, 1999) .
Esses são apenas alguns exem plos que ilust ram a im port ância da im igração européia no processo de indust rialização brasileiro. No ent ant o, não se deve negligenciar a im port ância dos em preendedores brasileiros com o, por exem plo,
13 Gr andes pr opr iet ár ios de fazendas de café, que ex er ciam for t e influência polít ica na época do
I m pér io.
14 Fundador das I ndúst r ias Reunidas Fr ancisco Mat ar azzo, j á falida, 0que chegou a ser o m aior
gr upo em pr esar ial da Am ér ica Lat ina ( VI DI GAL, 1999) .
15
Pioneir os da indúst r ia t êx t il ( VI DI GAL, 1999) .
16
Fundador do Gr upo Vot or ant im ( VI DI GAL, 1999) .
Mauá2 0 e Delm iro Gouveia2 1 ( VI DI GAL, 1999) .
Ent re as décadas de 30 e 40, t am bém foi im port ant e no financiam ent o de em presas pioneiras o capit al de grandes fazendeiros, que se t ornaram líderes de grupos indust riais e financeiros ( BETHLEM, 1994) .
A part icipação dos im igrant es na criação de em presas no Brasil volt ou a ser bast ant e significat iva no segundo surt o indust rial brasileiro ocorrido por volt a da década de 1950, iniciado no governo Vargas e int ensificado durant e o governo Kubit schek, sobret udo at ravés do advent o da indúst ria aut om obilíst ica, conform e j á m encionado ant eriorm ent e.
Convém , cont udo, ressalt ar que esses im igrant es, que deixavam a Europa arrasada pela Segunda Grande Guerra Mundial, t inham m elhor nível cult ural e não raro possuíam experiência em presarial, diferent em ent e da m aioria dos im igrant es de fases ant eriores, que eram , na sua m aioria, cam poneses, m uit as vezes, analfabet os, o que concorreu, cert am ent e, para a m odernização da base indust rial brasileira e para o increm ent o da at ividade com ercial local.
At é que houvesse um novo ím pet o de criação de indúst rias na época do governo m ilit ar, liderado pela criação de grandes est at ais com o SI DERBRÁS, TELEBRÁS e ELETROBRÁS, ent re out ras, pode- se afirm ar que, prat icam ent e, t odo o crescim ent o era oriundo da at ividade privada baseada quase que exclusivam ent e na em presa fam iliar.
20 Gaúcho, descendent e de por t ugueses, foi r esponsáv el, ent r e out r as r ealizações, pela const r ução
da pr im eir a est r ada de fer r o br asileir a, pela nav egação com er cial na Am azônia e pela ilum inação a gás no Rio de Janeir o ( VI DI GAL, 1999) .
21 Cear ense, r esponsáv el pela const r ução de um a m oder na fábr ica de linhas de cost ur a no ser t ão
3 .2 Con ce it o de e m pr e sa fa m ilia r
Definir o que é um a em presa fam iliar parece, à prim eira vist a, um a t arefa sim ples. Ent ret ant o, quando nos deparam os com a lit erat ura a respeit o do assunt o, observam os alguns pont os de divergência ent re os aut ores. Além disso, conform e a abordagem dada ao t em a, det erm inadas caract eríst icas são m ais enfat izadas em det rim ent o de out ras.
Um conceit o bast ant e adot ado é o de DONNELLEY ( 1967) que define com o fam iliar a em presa que conserva o vínculo com um a m esm a fam ília durant e pelo m enos duas gerações e na qual a relação em presa/ fam ília exerce influência t ant o sobre as diret rizes em presariais com o sobre os int eresses e obj et ivos da fam ília.
Ainda segundo DONNELLEY ( 1967: 161- 162) , essa relação exist e quando est iverem present es um ou m ais dos seguint es fat ores:
− “ a r elação fam iliar é um fat or , dent r e out r os, na det er m inação da sucessão
adm inist r at iv a;
− esposa ou filhos do at ual ou de ant igos dir et or es t iv er em assent o no Conselho de Adm inist r ação;
− os v alor es inst it ucionais im por t ant es da em pr esa est ão ident ificados com a fam ília , sej a por m eio de publicações for m ais da em pr esa, sej a at r av és das t r adições da or ganização;
− as ações de um det er m inado m em br o da fam ília ex er cem influência, ou pelo
m enos, acr edit a- se que ex er çam , sobr e a r eput ação da em pr esa, independent em ent e de sua par t icipação for m al nos quadr os adm inist r at iv os da m esm a;
− os par ent es sent em - se obr igados a possuir ações da em pr esa por r azões que
não são ex clusiv am ent e financeir as, par t icular m ent e quando a em pr esa incor r e em pr ej uízos;
− a posição ocupada pelo m em br o da fam ília na em pr esa influenciar á sua sit uação fam iliar ; e
− um m em br o da fam ília dev er á r elacionar - se clar am ent e com a em pr esa a fim de det er m inar sua pr ópr ia v ida pr ofissional” .
DAI LEY et al. ( 1977: 784) classificam com o em presa fam iliar aquela na qual o vínculo com a fam ília exist a há pelo m enos um a geração m ediant e um a relação dinâm ica ent re os m em bros da fam ília e os execut ivos da em presa, de form a a
exercer fort e influência sobre a polít ica da em presa. Os aut ores dest acam algum as sit uações indicadoras dessa relação:
− “ a pr esença de m em br os da fam ília em post os de dir eção;
− a ex ist ência de algum acor do par a m ant er o cont r ole da fam ília sobr e a polít ica fut ur a da em pr esa;
− que as ações da em pr esa não sej am negociadas em bolsa e est ej am nas m ãos
de m em br os da fam ília com nenhum ou poucos acionist as não par ent es;
− as car act er íst icas dos pr odut os ou ser v iços, ou as t r adições da em pr esa est ej am r elacionadas com o sobr enom e da fam ília; e
− t er ceir os v inculem esse nom e à im agem da em pr esa” .
Para BARRY ( 1978) , o cont role acionário da em presa por um a única fam ília é considerado a condição principal para que um a em presa sej a definida com o fam iliar, sej a ela de capit al fechado ou abert o.
LODI ( 1986a) , resgat a o conceit o de DONNELLEY, quando afirm a que o que define um a em presa com o fam iliar é a influência recíproca ent re a fam ília e a firm a.
Em presa fam iliar, para LODI ( 1986a: 6) , “ ...é aquela em que a consideração da sucessão da diret oria est á ligada ao fat or heredit ário e onde os valores inst it ucionais da firm a ident ificam - se com um sobrenom e de fam ília ou com a figura de um fundador” .
OLI VEI RA ( 1999: 18) reforça esse conceit o quando afirm a que “ ...a em presa fam iliar caract eriza- se pela sucessão do poder decisório de m aneira heredit ária a part ir de um a ou m ais fam ílias” .
Avalizando alguns dos conceit os j á expost os, para VI DI GAL ( 1999) , a em presa fam iliar é caract erizada por sua t ransm issão do fundador para seus herdeiros e sucessores, aliada à m anut enção do cont role acionário na própria fam ília. Nesse sent ido, GUERREI RO ( 1996: 29) o com plem ent a quando diz que na em presa fam iliar “ ...t odos ou alguns dos sócios possuem ent re si laços de parent esco ”.
DAI LY & DOLLI NGER2 2 ( 1993) vêm reforçar a im port ância do relacionam ent o ent re em presa e fam ília at ravés das gerações com o fat or condicionant e para a dist inção da em presa fam iliar, acrescent ando, no ent ant o, que essa não perde sua caract erização caso não sej a dirigida por um m em bro da fam ília.
GRACI OSO ( 1998b) cont rast a com esses últ im os quando alert a para o fat o de que a propriedade não é suficient e para definir em presa fam iliar, sendo necessária t am bém a exist ência de um a est rut ura gerencial na qual a m aioria dos cargos–chave é preenchida por m em bros da fam ília propriet ária.
GALLO & LACUEVA ( 1983) reforçam esse pont o de vist a usando com o parâm et ro o cont role acionário- adm inist rat ivo da em presa, classificando com o fam iliares as em presas em que t rabalham duas ou m ais gerações de um a m esm a fam ília, que, além de sócia m aj orit ária, det êm a m aior part e das responsabilidades da alt a direção.
LEACH ( 1994) t am bém dest aca a influência exercida pela fam ília no cont role da organização. Para esse aut or, fam iliar é a em presa que possui m ais de 50% das ações com direit o a vot o ou que possui um núm ero significat ivo de posições na alt a adm inist ração.
Segundo LANZANA & COSTANZI ( 1999: 33) ,
“ um cr it ér io m ais adequado se encont r a na r elação ent r e pr opr iedade e cont r ole. Com base nest e enfoque, pode- se definir em pr esa fam iliar t r adicional com o aquela em que um ou m ais m em br os de um a fam ília ex er ce( m ) consider áv el cont r ole adm inist r at iv o sobr e a em pr esa, por possuir ( ir em ) par cela ex pr essiv a do capit al” .
22 Cat her ine M. Daily & Mar c J. Dollinger ( 1983) desenv olv er am a pesquisa “ Alt er nat iv e