Psicanalista. Membrodo CercleFreudien. Professorana Universidadede ParisVII.
Tradução:Contra Capa
DINÂMICADOABERTOEPROBLEMÁTICA
DOESTRANGEIRO
OkbaNatahi
I
niciardandocontadeumlapso;meulapso.EscreveraGé-rardLaniezelheproporcomotítulodeminhaintervenção “DinâmicadoAberto(Ouvert)eproblemáticadoEstrangeiro”, emvezde“DinâmicadoDiverso(Divers)eproblemáticado Estrangeiro”, dá o que pensar. Uma sílaba substituída por outra:ouemvezdedi,ambasacompanhadasdahomofoniavers/vert, garantindo-lhes a articulação. Na dimensão dodi, comodisjunçãoedizer,revelou-seumadimensão,homofô-nica,delugar,onde(où):rumoaooutro(versl’autre),emfavor RESUMO:DigeridopeloOcidente,oOrientenãomaisdálugarà experiênciadoestrangeiro,subsistindomuitopoucodoconfronto doíntimocomoêxtimo.Aborda-se,aqui,aexperiênciadamigração —que,aoconjugarofamiliareoestranho,onataleoestrangeiro, levaaquelequemigraainterrogarasficçõessimbólicasqueoligam àcomunidade—naatualidade,emquevigora,comosintomade uma foraclusão da problemática do estrangeiro, a idéia de uma comunidadecompacta,fechadasobresimesma.
Palavras-chave:Estrangeiro,migração,exílio.
ABSTRACT: Dynamicoftheopennessandproblematicofthefor-eigner.GuidedbytheWest,theEastdoesn’tgiveanymoreroom totheexperienceoftheforeigner,sublivingveryfewfromthe comfort of the intimate with the exterior. It is here studied the migrationexperience—which,byrelatingthefamiliarwiththe strange,thenativeandtheforeigner,takestheonewhomigrates toquestionsymbolicfictionthattiesthemtothecommunity—in thepresenttimeinwhichittakesplace,withthesymptomofa out-inclusionoftheforeignerproblematic,theideaofacompact community,closeinitself.
dooutro.Pode-seescrevê-locomoneologismoDisouvert,ouseja,irrumoao outrocomoumaquestãodedizeredeseparação,etambémcomorelaçãoao lugar,condiçãodeconstituiçãodeumlaço.Ditodeoutromodo,delimitaronde odizerconstituiumendereçamentoquenãoestásituadoaoladodomesmo,do idêntico,doidentitário,dofamiliar,donormal,docomum.ODicionáriohistórico dalínguafrancesaindicaquedis,emlatim,éumapartículaquemarcaaseparação, adiferença,afalha,adistância,ecorrespondeaogregodia ,cujoprimeirosen-tidoé“açãodedividir”,doqualdecorre“açãodeatravessar”,através,presente empalavrascomodialeto,diásporaetc.Odiverso,nacondiçãodeinumerável, sópodetenderparaoaberto,edissodecorreminhaprimeiraproposição:o Estrangeiroseriaumaexperiênciacomqueumserhumanopodeconsentir, quandoseumovimentoesuafalaolevamaosconfinsdodiversoedoaberto, onderesidearelaçãocomaAlteridaderadical.
PorqueinsistonanoçãodeDiverso,seelaestásubsumidapelanoçãode Aberto?ParaquepossamevoltarparaopoetaeescritorfrancêsVictorSégalen, cujainfânciafoimarcadaporumditomaterno,determinantedeseufuturo: “Essefoioprimeiroemisteriososerviçoprestadoporminhamãe:‘Vocênão écomoosoutros’,‘Vocênãoserácomoosoutros’,eisaspalavrasmágicasque proibiam,interditavam,mastambémpermitiammaravilhas.”Ségalen,médico daMarinha,sempresuspeitoudosrelatosdeaventuraeviagensdealém-mar. Isso,contudo,nãooimpediadeconsideraraviagem,maisqueumimperativo queimpulsionaparaalhures,umacontecimentoinacabado,umsuspenseque descortinaumfuturodiferenteparaosujeito.Segundoele,trata-senãodeirem buscaderepresentaçõesinsuspeitasdohumano,queatestariamoImemorial,mas simdesertomadopelavertigemdeumacesuraquetravesteorealesubmeteo autoraumaintranqüilidadeprodutiva.
Diante do termo ‘viagem’, metaforizado por Ségalen na travessia de um desfiladeirodurantesuatemporadaarqueológicanaChina,omundoseabre paraoutrasextensões,outrospossíveis,reunidosnestafrase:“Foientãoqueo Outroveioamim”(1995,p.312).EsseOutroé,aumsótempo,oestrangeiro radical(nenhumacoordenadapodesituá-lo)eíntimo—Unheimlich,diriaFreud —queretomaafulguraçãodesuaadolescência.Ornadodeatributoseuropeus nasmontanhaschinesas,esseOutronãoreconhecido,apesardetodaaafeição quelheédedicadapeloautor—eleoquestionaenãosesurpreendecomseu silêncio—,éumasortedeespectroeestáveladopelarepresentaçãodesua presença.DeleSégalenarrancaestaúltimareferênciarimbaudiana:“oOutro eraeu[...].Oirrespirávelcharmedetodasasesperançasadivinhadas[...]eque adurarealidadesufocaumaauma”(p.313).
fazeradviroestrangeironavidaenalíngua,nolugaremqueoutrospassaram, escreveram,produziramemprofusão.Eisaquiaordemdeumencontrofugidio emisterioso,atravessadoporumaexperiênciaqueretomouapassagempela adolescência,cujavivacidadeSégalenenfatiza:“Meurostomudoudedireçãoao reverooutrorosto.Estouorientadoparaoretorno”(p.314).Orostoéalterado poressapresençaoutra,comoumaferidaabertanoâmagodesi,daqualtrazas marcas,osestigmas.Emsuanudez,aestranhezadorostocorrespondeàmarca doencontrocomoestrangeiro,eaoiniciarseuretorno,Ségalensedescobre outroeestrangeiro,inclusiveemsuaprópriacomunidade.Umamaravilhosa sériedeadjetivosbrotadeseutextoparaexpressarodiverso:estrangeiro,in-sólito,inesperado,misterioso,amoroso,sobre-humano,heróicoeatémesmo divino.Caminhoincansávelqueofazviveraexperiênciasingulardoékso(de fora),absolutamentediferentedoexotismoinsípidodeumClaudeloudeum Loti.Trata-se,pois,deumaexperiênciaquenãoéadacompreensãototalde umoutroqueseenlaçariaasipróprio,masantesapercepçãovivadeumain-compreensão,deumafendaqueimpeleaoencontro.“Oexotismonãoéaquele tantasvezesprostituídopelapalavra.OexotismoétudooqueéOutro.Gozar deleéaprenderadegustaroDiverso”(p.318).
Oquenosreservamosdiasdehoje?AfantasiadoOrientecomometoní-miadoenigmadoqueéoEstrangeiro,nacondiçãode“experiênciainterior” (Bataille)ou“fantasma”(aÁfricafantasmaemLeiris),asercompreendidano sentidoespectraldeumadifraçãoaqueseassociaramBaudelaire,Nerval,Rim-baud,Conrad,Ségalen,Massignonetc.,estádestruída,pulverizada,esgotada.O OcidentedigeriuoOrienteepoucacoisasubsistedesseconfrontodoíntimocom oêxtimo.OOrientenãoémaisolugarimagináriodeumainterrogaçãosobre arelaçãoconsigomesmoecomoOutro,poissetornouolugardefaçanhase explorações,derejeiçãoeinospitalidadedestrutiva.Próximodeumasuperfície perfeitamentelisaesemprofundidade,oOrientesetransformouemumespe-lhoquedeformaapropensãoaumgozonarcísicoplanetário;umasuperfície querefleteapenasocultodesieaacumulação,tendolançadoaexperiênciado estrangeironamaisespessaescuridão.
noregistroquerdapotêncialivre,querdesuaprópriadestruição.Ora,aidéia do‘comum’éado‘estarcom’,estarcomoutros,massemprejulgarofuturo dessecom,queapenasmultiplicaosentrecruzamentosdasforçasquepensama ordemdocom:estarcom,sem,junto,aolado,como,contra.Porconseguinte, nossoolhar,emvezdepinçarooutro,abre-separaoinsuspeitodeseurosto, deseucorpo,desuapostura,desuapresençanomundo,remetendo-nosauma fendacomomarcadenossahumanidade.
JacquesDerridaabreseulivroDahospitalidade ,escritocomAnneDufourmantel- le,comestaspalavras:“AquestãodoEstrangeironãoéumaquestãodeestrangei-ro?Vindadoestrangeiro?Antesdeformularaquestãodoestrangeiro,talvezseja necessárioprecisar:questãodoestrangeiro”(DERRIDA&DUFOURMANTELLE, 1997,p.11).Aberturaluminosaqueacompanhariacomoquestãoumduploeixo arrimandoanoçãodeestrangeiroemumentre-doisinstável,móvel.Derrida desdobrasuademonstração,apoiando-seemOsofista,dePlatão,noqualmostra queXenos(oEstrangeiro)éaquelequelevaadianteoprojetodecontestaçãoda ordemestabelecida,aquelequeenunciaanecessidadedequestionardenovoas tesesdetodafundação.“Rogo-teainda—dizXenosaTeetetos—quenãome consideresumparricida.”“Oquequeres?”,pergunta-lheentãoTeetetos.Xenos responde:“Precisaríamos,emnossadefesa,voltaraquestionaratese(ologon) denossopaiParmênides”(p.13).AdenegaçãodeXenos,todavia,assinalasua demandaeseuprojeto,asaber:aquestãodoparricídioéadoestrangeiro.Aquele queseviuàsvoltascomaquestãodoestrangeiroexperimentaaviolênciade terdesertadoarelaçãocomafiliaçãoecomaancestralidade,voltandoaques-tionarasficçõessimbólicasqueoligamàcomunidade.Aqui,aidéiaéadeuma travessiadoparricídionãoexatamentecomopassagemaoato,esimcomopura eincessanteinterrogaçãoquefazcircularasarticulaçõessimbólicasentreoser eomundo.Oestrangeirovisadesarrumartodametáforapaterna,evitandoo caminhotrágicodeÉdipo,entendidocomoaimpossibilidadedeacontecerem algumlugar.TaléodestinoforadaleideÉdipo,errantenotextoÉdipoemColona, deSófocles:estrangeiroforadetodolugar.
Quandoaexperiênciadoestrangeiroseabreparaaquelequemigra,assisti-mosaumaligaçãohipermnésicacomaobsessãotemidadeterdevoltaraviver oforadolugar.Alógicadaviagemedamigraçãopodefazerohumanoderivar em uma errância incessante, sem-fim, como busca de um alhures cada vez maislongínquo,jamaispróximo,emqueopensamentodafronteirapoderia precipitar-senabuscaiterativadesuaorigem.DinoBuzzatirevelaessamágica edolorosaalegoriaemsuanovelaOssetepassageiros.
acartografiadarelaçãocomomundo,quandoseavançanaexperiênciada migraçãoedaviagem.Nanovela,opríncipequerealizaessaviagemtem38 anos,oitodosquaispassadosnasestradasdoreino(p.10).Confrontadocom osconfins,oslimites,embuscadeoutrosquenãoseriamisomórficosaosde seureino,suainterrogaçãoquaseéobsedadapelasideraçãoepelapossibili-dadedeapreenderoqueéafronteira,justoquandosuaintuiçãolhesugere queelanãoexisteou,pelomenos,nãoéreal.Acompanhadodealgunsservos, opríncipenãopodiaromperdefatocomseupaísecontinuavaembuscade notícias. Assim, escolhe sete de seus melhores cavaleiros para a função de mensageiros.Àmedidaqueseafastadeseureino,asnotíciasdaterranatal custamalhechegar.Aocabodeoitoanosemeiodeviagem,elesedáconta dequeoúltimodeseuscavaleiroslevariadezenasdeanospararetornare, provavelmente,oencontrariamorto.
Masessaevidênciadamorte,damortecomoaúltimafronteira,nãodeixao príncipepregarosolhos.Comoaquelequemigra,assisteàsubversãodeseuolhar pousadosobreomundoquejánãolhepodeserfamiliaresedescobreestrangeiro: “asnuvens,océu,oar,osventos,ospássarosmeapareciam,narealidade,como coisasnovas,eeumesentiaestrangeiro”(p.10).Essadescobertaalteraarelação comosoutrosedesconstróisuamemória.Esquecimentos,sensaçõesdoquefoi vividoserevelamaeledemaneirasingular,inabitual.Lembrançascomeçama lhefalaremumalínguadesconhecida,quepodesermetaforizadaporestafrase: “Eles[osmensageiros]metraziamcuriosasmissivas[aserouvidonoregistro dosrastrosoudefalasquedeixarammarcas],amareladaspelotempo,nasquais eudescobrianomesesquecidos,frasesinsólitas,sentimentosquenãochegava acompreender”(p.11).
SegundoFreud,operigoqueespreitaacivilizaçãoserevelaparticularmente aterradorquandoolaçosocialtemcomobaseaidentificaçãodosmembrosde umasociedadeunscomosoutros,relegando-seàobscuridadeaidentificação comoIdealdoEu.Essetipodeidentificaçãoconduzàconstituiçãodoqueele chamade“amisériapsíquicadasmassas”,daqualosEstadosUnidosseriam olaboratórioperfeito,jáquesepõemaestudaressetipodelaçoprejudicialà civilização.Nãosedeveestranharqueopaíscujoatodefundaçãofoiestabe-lecidosobreoprincípiodamigração(comoseuarquivo)dêcorpo,naleitura deFreud,aumacomunidadequesefechasobresimesma,emdecorrênciada identificaçãoentreseusmembros,jáqueseinstauraaíumlaçoexacerbadocom areivindicaçãodaidentidade(cultural,sexual,religiosa,nacionaletc.):sersi mesmo, por meio de um outro semelhante, ou seja, um verdadeiro conluio especular,chamadoporKierkegaardde“umadoençadoeu”.Trata-sedeuma particularidadedosEstadosUnidos,poistalmododelaçosocialoperanopró-priocernedaidéiadecomunidade,éoepicentrodosismoque,hoje,abala“o motivodacomunidade”.Paramim,aquelequemigraéafiguramodernadeum sujeitoqueviveaurgênciadeumanovaescritadaidéiadecomunidade,naqual ressoariamaspotencialidadesmetafóricasdetodanomeação.
Comoquenosconfrontamos?Oshomensatravessamfronteirasnãomais emumverdadeirociclodeviagem,masemumitinerárioeemumadireção parapensareligarumarelaçãocomoestrangeiro,paraelaborarumnovolaço comaquestãodoestrangeiro.Comoquestão,oestrangeiroéepermaneceum enigma.Nãosedevecompreenderqueaquelesquemigram,algunsdosquais movidospelaenergiadodesespero,interrogamaunivocidadedorelatoque osfundamenta,afimdeescrever,noexílio,umnovorelatodesuaorigem,ao mesmotempoquereencontramseresque,namodernidadeocidental,foram tambémexcluídos,entreguesaoimpensadodesuaorigem,tornaram-seestran-geirosaoseuespaçonatal?
Comoesclareceressadimensãodamigração,afimdequeessespassadoresde fronteirasnãopermaneçamaprisionados,emumlaçoexclusivocomsuamemória ouaindasedentáriosemlugaresdesmemoriados,desertadospelamemóriano Ocidente?Comotorná-lossensíveisàvibraçãodapassagememqueseencontram pulverizadasasfronteirasmentaisdaidentidadecultural,asfronteirasestanques emqueseescreveumfechamento,inclusiveaqueleveiculadopeloconceitode diferençacultural?Porfim,comotorná-los,naepormeiodafala,passadores defronteira,nacondiçãodemarcadodesejodeumatranscultura?
nãopodeserconsideradoumconceito,eessaéumaproposiçãominha,um paradigma...
Pensaroexíliocomoparadigmaequivaleaconstituí-lonoregistrodeum conjuntovazioquedemandadesdobrar-secasoacaso,deacordocomasin-gularidadedeumahistória,àsvoltascomumalhuresqueconvocaoadvirno qualseproduzumnovosentido.Assimconsiderado,oparadigmadeterminaa ordemdeumapotencialidadeeindicaotrajetodeumsujeito,aprisionadono confrontocomorealparaproduzirumnovosaber.Pormeiodoexílio,pode-serealçaraidéiadeumaconstruçãoqueéotraçoouamarcadeumaescrita produzidaporumsujeitoe/ouporsuamigração.
Seosentidoquepodeserdadoàidéiadecomunidadeéodesuportara relação de incompletude do sujeito com o mundo, a comunidade pode, do mesmomodo,tornar-seotúmuloemqueseaboletodapossibilidadedepassar paraumaoutraborda,umoutrolugar,eproduzirnovassublimações.Umpen-samentoeumatransmissãosimbólicainstituemquesóháproduçãodenovas ficçõesnointeriordacomunidadeporqueissosupõequenenhumaoutraficção podeserrecebidadefora,tornandopossíveisogozoeacelebraçãodaorigem. Ora,todaficçãoseperfilacomotraduçãoeinterpretaçãoincessantedoquese tramou,produzindoahiância,adistânciaquepermitiuaumsujeitoreformular aquestãodeseuserdesejante.
ditoaTeetetos:“Rogo-teaindaquenãomeconsideresumamatricida”.“Oque queres?”,pergunta-lhe,então,Teetetos.Diotimaresponde:“Precisaríamos,para oamor,pôremquestãoolaçocomamãeecomacomunidade.”
Quandoestajovemmulheratravessouasoleirademinhaporta,trouxe-mea seguintepaisagem:aerrânciaentremuitoshomensárabeseavirgindadeno cerne do seu tornar-se mulher ocupavam todo o espaço. Estava aprisionada nestetrágicoenunciadomaterno:“Vocêsairádecasacomummarido,coberta deouro”,algoque,paraela,soavacomoumamaldição.Essequadrotemcomo panodefundoolutodeseupai,mortopoucotempoantesdeseunascimento, eofatodeseucorpotersidoobjetodepráticasdefeitiçorealizadaspormu-lheres,cujosignificantemaisimportantepoderiasertraduzidocomo:rodeada, aprisionada,marcadaatrásdasmuralhas.
Quandopequena,haviasido,decertomodo,aprisionadapelapreocupação iterativadesuamãeaseurespeito:“Vocêéárabeouéfrancesa.”Paraagradar àsuamãeárabe,manteve-seemumaposiçãoambivalente:“Eupercebiaque minhamãetinhamedodetergeradoumaestrangeira...Esesouambivalente arespeitodareligiãomuçulmana,étambémcomointuitodenãometornar estrangeiraparaminhamãe.”Comosevê,suamãenãolheperguntavaseela eraargelina,tunisiana,marroquina,libanesaetc.,poisareferiaaocampomais amplodalíngua,daculturaedostatusdareligião.
Paraela,perderavirgindadecondensouumaperdadeidentidadereferidaa umarenúnciaàreligiãoeàsuaorigemmagrebinaemterritóriofrancês,onde nasceu.Ouçoessemedo—tornar-seestrangeiraparasuamãe—comoimagem nãoapenasnoregistrofundamentalvividoportodacomunidadesobaobsessão deseudesaparecimento,mastambémcomoumimportantesintomadosdias dehoje.Assim,esseenunciadodesuainfância,apesardesuaprópriamãe,é tantoumapeloquantoumaorientaçãoparaela,abrindoocaminhoparaum laçocomoqueéheterogêneoàsuacomunidade.
remetendo-aaumaversãoincestuosadoamor.Chegouatéaseapaixonarpor alguémdoOrientepróximonafantasiadequeadistânciageográficaatiraria dosufoco,masissodenadaadiantou.
Aorevelarparasuamãeoamorquesentiaporumfrancês,estafoitomada porumódioradical,quenenhumapalavrapodeconter:“Vocêmetraiu,me trocouporumestrangeiro.”Foramessasasprimeiraspalavrasdesuamãe.En-tregueaumdesarvoramentojamaissentido,procuraseuirmãomaisvelho,a fimdelherelatarseuencontro,eestelheperguntaseohomemerafrancêsou árabe.Diantedesuaresposta,umódiofrioconvulsionaocorpodeseuirmão: “Você está vindo buscar o perdão. Não te perdoarei jamais. Nossas relações estãocortadas,nãovoltemaisaminhacasa.”Esseirmão,amadoeaduladopor ela,nãosedetémaí,pois,algumtempodepois,eladescobrequeeleproibira osoutrosmembrosdafamíliaderecebê-la,chegandoinclusiveaameaçarde repúdiosuaprópriamulher.
Amãe,porsuavez,nãoseconformacomoqueconsideraumatraiçãodesua filha.Sustentadaporumacrençainegávelnasvirtudesdafala,ajovemmulher continuatentandoobternotíciasdesuafamília,atéodiaemquesevêoutra vezconfrontadacomaselvageriamaterna.Suamãe,aolhereconheceravoz, grita-lhedesaforos,cujavulgaridadetemoobjetivodearrasá-la:“Puta”(em árabe)e“safada”(emfrancês),concluídoscomum“Morra!”.Odesejodafilha depercorrerumcaminhoquedeslocasseoquesehaviainscritocomoumaló-gicaincestuosanaqualseviaencerradanãoobteveamínimaatençãomaterna. Aoreiteraralógicadoinsultoevomitarseuódio,amãe,infine,desapossa-seda filhasaídadesuasentranhas:“Nãosoutuamãe”.Oirmãomaisvelhoagregaa essarejeiçãoameaçasnãoapenasfísicas,comotambémaquelheerasuprema: “Vocêcometeuperjúrio,vocênãocrêmaisemDeus.”Aqueleiserefereseu irmão,emqualespaçoelesesitua,logoele,quetemfilhosqueflertamcoma delinqüência?Nãohaviasidoeleoeleitopelamãecomoumaespéciedeguar-diãodotemploquedeviarecusarapassagematodoestrangeiroquechegasse paraabrirumpontodeangústia?
comoumdesarrimodoidênticoasipróprio,deixandotodosujeitoàbeirade umafalhadaqualsurgeonovo,oinesperado,pôdepassarparaela?
Precisamosdetempoparapassarporumadeflagraçãocomesta.Comefeito, comodizFrançoisPerrieremseusemináriosobreoamor,“nãohámulherpara quemoamor,aesperança,odireito,aassunçãodoamor,nãoremetaàmãee àrelação‘incestuosa’mãe-filha-mãe”(1994,p.136).Issonospermitedizerque apossibilidadeouaimpossibilidadedealgumasmulheresseremamadasou responderemaoamorestáligadaaoesboçodaligaçãoprimordialmãe-filha,em queoperaostatusnarcísicodocorpocomosignificantedoamordamãeedo olharqueestadirigiuàsuafilha.Todamulheréconvocadaaviveresseponto depassagememqueolaçocomamãeseconjugou.Nocasodestajovem,vários sonhosrepresentaramatravessiadomatricídio.Durantemuitotempo,naoutra cena,eladeslocou,despedaçou,destruiuocorpodesuamãe,atéomomento emqueumsonhofechouaseqüência:“Minhamãehaviamorrido.Tinhasido enterradaeeunãocompareciaoenterro...Fiqueimuitotristepormataressa mãe”,disse-mecobertadelágrimas.Durantesemanas,afetosdeprofundainfe-licidadeetristezaacompanharamsuaspalavras,seussilêncios,suasausências, e“vazio”eraapalavraquelheocorriacommaisfreqüência.
Partedavidadessamulherseacompanhoudeumadevastaçãoquesepoderia lernosseguintestermos:“Preferimosvocêmortaaoseuamorporumestrangei-ro.Vervocêsozinha,celibatária,mãesolteira,loucaoumortaémelhordoque isso.”Apassagemporessepontoévividasobreofundodeumaduplasolidão: aquelaligadaaoprópriodesejo,quesópodesersustentadosozinho,eaquela docorteemrelaçãoaoqueétidocomointracomunitário.
Adorindubitávelatravessadaporessamulheré,emminhaopinião,paradig-máticadoqueseesclareceuquantoaostatusancestraldofemininonasficçõesde suacomunidade.Atraiçãoinominável,adoamorporumestrangeiro,descom-pletaaidéiadecomunidade.Emsuabuscaamorosa,ofundamentalfoiqueela reencontrasseocaminhoperdido,apagado,esquecidodeumafigurafeminina desuaascendência:Hagar,mãedeIsmael,paradelareceberotraçosingularde umoutromododepensaraquestãodofemininoemsuacultura.
Nomomentoemquesedestaca,emsuafalaeemseussonhos,odesejo deterumfilhocomoconseqüênciadoamorporaqueleestrangeiro,apalavra quesurge,expulsadepartealguma,é“esperança”.Aoacharqueelateriadito essapalavra,peçoquemedigaoseucorrespondenteemárabe,eentãosurge:
submissão,resignação,contriçãodossentimentosedasemoções.Pordentro, tudodevepermanecermorto.”ApalavraSabr éumdossignificantesmaisim-portantesdostatusdofemininonomundoárabe-muçulmano,esegueaesteira deHagar,suaancestral.
Hagar,aegípcia,éafiguradeumaconfrontaçãoradicalcomaquestãodo exílio,doestrangeiroedodesejo.AoengendrarIsmaelcomAbraãoemterra estrangeira,elasurge,noGênesis,comoumafigurafemininasingular.Seunome põeemjogoumtrípticosubjetivorelacionadoàquestãodofeminino:empri-meirolugar,comSara,odoimpassedoentre-duas-mulherescomopartilhada transmissão(NATAHI,1990);emseguida,ododomdonomefeminino(NA-TAHI,1991);porfim,odostatusconcluídodarealizaçãododesejofeminino pelamaternidade.OapagamentoouaausênciadonomedeHagarnoAlcorãoé otraçodeumdesmentidodotextodoterceiromonoteísmodiantedessetriplo cruzamento,poisaevicçãodesuaherançafezrebaternapsiquedeseusdescen-dentesapromessaquelhehaviasidofeitapelodivinoquantoàconcepçãoser aúnicapossibilidadederealização.
adefrontar-sedenovocomoqueacarretaosignificanteprimeiro,Sabr,que quer dizer, como vimos, ‘ligar’, ‘amarrar alguém a alguma coisa’, ‘suportar compaciência’e,porfim,‘abster-se’,umavezqueatribuiàmulherogozore-gradopelaperpetuaçãodacomunidade.Paraajovemquemeprocurou,amar oestrangeiroé,simultaneamente,reencontrarocaminhodeHagareabriro
statusdofeminino,deslocandoasficçõesreligiosasqueohaviamencravado.No islamismo,esseéocaminhosobreoqualandaaqueleousobretudoaquelaque migra,jáquesãonomeadosmohager,literalmente“suamãeéHagar”ouentão “filhooufilhadeHagar”.
Entre língua e morte, o exílio reaviva, de maneira pulsátil, a captura do sujeitonossignificantesdademandacomomarcadesuafinitude,desuadi-visãoedesuarelaçãocomaquestãodoestrangeiro.Hajavistaqueoslugares (doaquiedealhures)sãosempreassombradospelapotencialidadedodesejoe peladominaçãodomorrer,nãopodemosdeixardeconstatarquecabeatodo serhumanolutarcontraaderrocadadospoderesdetradução.Nascernoexílio pelapotencialidadedoamorpermiteescreverumnovoenlaceentrefeminino emasculino.Qualéa“novaesperança”dequefalaBuzzatinofimdesuano-vela,aoligá-laàcategoriadefronteiracomopromessa?Elapoderiasedeixar compreendercomoumapromessaemquetodaformademessianismoestaria ausente,jáqueestesempreéumarespostaqueencerraapromessapelareali-zação,apromessacomofaculdadedeprometerumadvir.Parece-meevidente quenossomundopós-modernoestáemviasdeencerraressapromessanaidéia decomunidaderealizadapelocomunitarismo,sintomadeumaforaclusãoda problemáticadoestrangeiro.
Recebidoem9/7/2007.Aprovadoem6/8/2007.
REFERÊNCIAS
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