• Nenhum resultado encontrado

Das ostras, só as pérolas: arqueologia pública e arqueologia subaquática no Brasil

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2017

Share "Das ostras, só as pérolas: arqueologia pública e arqueologia subaquática no Brasil"

Copied!
238
0
0

Texto

(1)

1

Universidade Federal de Minas Gerais

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

Programa de Pós Graduação em Antropologia / PPGAN

Das ostras, só as pérolas

Arqueologia pública e arqueologia subaquática no Brasil

Bruno Sanches Ranzani da Silva

(2)

2

Bruno Sanches Ranzani da Silva

Das ostras, só as pérolas

Arqueologia pública e arqueologia subaquática no Brasil

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Minas Gerais como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Antropologia (concentração em arqueologia).

Orientador: Prof. Dr. Andrés Zarankin Co-orientador: Prof. Dr. Gilson Rambelli

Belo Horizonte

(3)

3 306 Silva, Bruno Sanches Ranzani da

S586d Das pérolas, só as ostras [manuscrito] : arqueologia pública e arqueologia 2011 subaquática no Brasil / Bruno Sanches Ranzani da Silva. – 2011.

237 f.

Orientador:Andrés Zarankin Co-orientador:Gilson Rambelli

Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas.

.

(4)
(5)
(6)

6 Agradecimentos

A ordem dos tratores não altera a rodovia. Fui escrevendo à medida que minha cabeça foi lembrando.

À minha família, por tudo.

Aos meus orientadores, Andrés Zarankin e Gilson Rambelli, por toda a confiança, paciência e instrução deste jovem padawan. Espero ter-lhes feito valer o esforço.

Aos professores Carlos Magno Guimarães e Pedro Paulo Funari, pela leitura atenta deste e de diversos outros trabalhos.

Além dos professores citados, gostaria de agradecer aos outros docentes que também me acompanharam nas aulas do mestrado. Daniel Simião, Andrei Isnardis, Cristóbal Gnecco e Mary Beaudry. Obrigado por ampliarem meus caminhos entre antropologia e arqueologia.

Aos entrevistados e quase-entrevistados para esta pesquisa. Obrigado pela paciência e interesse em meu trabalho. Peço desculpas por eventuais inconvenientes e desencontros.

Além do Andrés, gostaria de agradecer sua família, Marcia e Lika, por terem me recebido, e continuar me recebendo, com todo o afeto em BH.

Aos meus queridos colegas de turma, pesquisa, morada e salinha: Elis, Igor, Evelyn, Roger, Loulou, Luis, Flávia, Fela, Barbi, Diogo, Ju, Fabiano, Marianinha, Dani-socio, Carol, Xande, Nanda, João e Fernando. Obrigado por me receberem tão calorosamente neste Belo Horizonte de Minas, com muita cerveja, pão-de-queijo, bagunça, carinho e arqueologia.

Ao quarteto fantástico (eu incluso): Rui, Dani-Arq e Camila. Forever Young! (rsrs).

(7)

7 Aos meus irmãozinhos adotivos (aquela parte da família que a gente pode escolher): Lalo, Lau, Galu, Bibico, Chopp e Fer.

Aos queridos amigos sulistas (natos ou incorporados), Loredana, Xico, Lucio, Diniz, Iago, Edivânia, Ro e Paulinho. Obrigado pelas leituras atentas, comentários, diversão, oportunidades, churrascos e doces portugueses.

À galerinha de Blu! Seus ítalo-alemãezinhos sapecas!

À Aninha, Angela e Alessandro, pela dezenas de vezes que me salvaram o couro neste grande mundo burocrático.

(8)

8 Los libros que leí, las teorías que frecuenté,

Se debieron a mis propios tropiezos con la realidad

(9)

9 Resumo

Os conflitos entre a prática arqueológica e o público leigo se tornaram importante ponto de discussão dentro da disciplina nos últimos 30 anos. Minha proposta é buscar na arqueologia pública experiências e abordagens que reconheçam o viés político do conhecimento arqueológico, pensar sobre a responsabilidade social do profissional e promover a interação entre este profissional e seus distintos públicos. Além de uma breve revisão da literatura internacional sobre o tema, proponho-me a discutir sua aplicabilidade ao contexto nacional. Particular atenção será dada ao caso da arqueologia subaquática brasileira, cujos embates entre mergulhadores recreativos e arqueólogos, mediados por uma precária legislação nacional de proteção ao patrimônio cultural submerso, têm chamado a atenção de quem se interessa pela preservação e pela pesquisa.

Palavras chaves: Teoria Arqueológica; Arqueologia pública; Arqueologia Subaquática.

Abstract

Conflicts between the archaeological practice and the lay public have become central issues to the archaeological discipline over the last 30 years. My proposal is to search for experiences and approaches, following the public archaeological perspective, that clarify the political bias of the archaeological knowledge, its responsibility towards society and promote ways of interactions between the discipline and its many different publics. I’ll conduct a brief review of the international literature on public archaeology and discuss its applicability to the Brazilian context. Particular attention will be paid to Brazilian underwater archaeology case, since it has been long concerned with its conflicting relationship with recreational divers, mediated by a weak legislation for the protection of the underwater cultural heritage.

Key-words: Archaeological Theory; Public Archaeology; Underwater

(10)

10 Sumário

Indice de Ilustrações ... 11

1. Antecedentes – A fome antes do bolo ... 12

1.2. Patrimonium, Patrimônio, Patrimônios ... 14

1.3. Arqueologia Subaquática no Brasil ... 22

1.3.1. As primeiras braçadas ... 23

1.3.2. A consolidação da pesquisa submersa ... 27

1.4. Patrimônio civil rumo às profundezas ... 34

2. Introdução ... 36

3. Capítulo 1 - Arqueologia Pública Internacional ... 39

3.1. Entre o civil e o Estado ... 40

3.2. Pós-processualismo e novos olhares... 52

3.3. Arqueologias Públicas ... 60

3.3.1. Imagens e expressões de arqueologia ... 62

3.3.2. Alcance e Educação ... 83

3.3.3. Antropofagia arqueológica ... 97

4. Capítulo 2 - Arqueologia pública e colonialismo no Brasil ... 110

4.1. O “gingado” brasileiro ... 113

4.2. Elegendo identidades ... 122

4.3. Arqueologia pública no Brasil ... 134

4.4. Síntese ... 156

5. Capítulo 3 - The final showdown: arqueologia subaquática, mergulhadores e comunidades ... 157

5.3. Arqueologia subaquática – desafios e estratégias de atuação pública... 182

5.4. Comunidades costeiras, arqueologia e o impacto do turismo ... 198

5.5. Ao território dos lugares ... 210

6. Conclusão – Das pérolas, só as ostras ... 213

(11)

11 Indice de Ilustrações

(12)

12 1. Antecedentes – A fome antes do bolo

A iniciativa deste trabalho partiu de meu interesse pela arqueologia subaquática, tema que havia começado a acompanhar ainda na graduação. Com tal preocupação, meu objetivo inicial foi pensar as estratégias de atuação do profissional de arqueologia frente ao conflito que envolve a prática subaquática no país.

Gilson Rambelli (2009) resume de maneira precisa os problemas que assolam a prática subaquática da arqueologia nacional. Primeiro, a ação de caçadores de tesouros (brasileiros e estrangeiros) com forte influência lobista nos altos escalões do governo (envolvendo o planejamento legislativo nacional); segundo, a atribuição de salvaguarda e cuidados do patrimônio cultural submerso à Marinha, ao invés do Ministério da Cultura (órgão de competência pela proteção e manejo do patrimônio cultural “emerso”); terceiro, a indiscriminação (possivelmente por influência legislativa) entre o resgate de material para conservação e divulgação pública, e o resgate para leilão das peças.

A meu ver, havia três “instâncias” que se envolviam com vestígios humanos submersos e chocavam-se quanto a que destino dar a esses vestígios. O Estado Nacional (1), em posição ambígua pela preservação do patrimônio nacional, mas influenciável pelo lobby da “caça ao tesouro”, os mergulhadores recreativos (2) interessados mais em aventuras e belas paisagens do que em retóricas de pesquisa, e o(a) pesquisador(a) arqueológico(a) (3), tomando parte de uma política internacional pela preservação do patrimônio arqueológico submerso como patrimônio da humanidade.

(13)

13 Nessa situação clara de conflito, as discussões sugeridas pela arqueologia pública me pareceram pontuais. Em suas acepções mais contemporâneas, a arqueologia pública tem como principal ponto de interesse a relação entre a disciplina e o público não acadêmico.

A medida que caminhava minha pesquisa, fiquei cada vez mais interessado em suas propostas e amplitude temática. Entre as polêmicas que o conceito tangencia, dei-me conta (em especial depois do prolongado contato com diversos arqueólogos durante as aulas, congressos e botecos do mestrado) que o relacionamento entre o público não-arqueológo e a disciplina não se resumia apenas à arqueologia subaquática. Tratava-se de um movimento geral da disciplina no país, cuja entrada no mercado cultural tem gerado questionamentos, sobre sua legitimidade, seus deveres, seus direitos e sua ética.

Foi assim que este trabalho mudou um pouco suas dimensões. Ao mesmo tempo em que não conseguia me desligar do tema subaquático, por interesse próprio e por vê-lo como um exemplo central do que se passava na arqueologia nacional, acabei me exaltando no interesse pelas diferentes acepções da arqueologia pública no mundo e como esse conceito tem sido usado no Brasil. Meu foco central dirigiu-se à compreensão da arqueologia pública, tendo a arqueologia subaquática nacional como um estudo de caso.

Antes de dar início às delimitações e argumentos mais precisos do trabalho (seus ingredientes e medidas), me foi sugerido (tomei-a de muito bom grado) a redação desse pequeno “prólogo”, com os pontos fortes que me levaram à concatenação desta produção: patrimônio e arqueologia subaquática brasileira.

(14)

14 pretendo descrever uma breve história, justamente, da arqueologia subaquática brasileira e sua defesa do patrimônio cultural submerso. Desde o final dos anos de 1990, os embates entre representantes da comunidade científica e líderes do Poder Público têm marcado a prática arqueológica submersa nacional. As perguntas que fiz à este “prólogo” foram: o que tratar como patrimônio? E como a arqueologia subaquática brasileira tem tratado o patrimônio?

1.2. Patrimonium, Patrimônio, Patrimônios

O conceito de patrimônio merece, antes de tudo, uma breve discussão. Considera-se, em princípio, a origem do termo patrimônio: a raiz provém do latim, patrimonium, que conjuga o substantivo pater (pai) e o verbo moneo (levar a pensar, lembrar; mesma raiz na palavra monumentum), ou seja, uma linhagem material (que carrega consigo algo de mnemônico) transmitida pelo chefe familiar da aristocracia romana (FUNARI e PELEGRINI 2006). Sua origem epistemológica nos sugere dois aspectos. Em primeiro lugar, sugere a linhagem privada na qual se insere o patrimonium, relembrando a origem aristocrática do termo e que ainda vemos sendo reproduzida, muitas vezes, nos critérios de seleção do patrimônio nacional. Esse primeiro aspecto gera a dúvida que deve ser constante, a meu ver, nos estudos sobre patrimônio arqueológico: quem esse patrimônio representa? Em segundo lugar, sugere uma conseqüência hereditária carregada de ancestralidade, a transmissão dos caracteres sociais adquiridos e a preservação da memória das origens. A ancestralidade tem gerado calorosas discussões em nossos dias por relegar para segundo plano uma qualidade inerente às sociedades: sua dinamicidade.

(15)

15 Para além de sua etimologia, lidar com a questão patrimonial em caráter individual e familiar não é, em definitivo, a mesma coisa que lidar com a questão patrimonial em caráter coletivo.

A coletividade não é a simples soma de indivíduos, assim como o todo não é a mera junção das partes, como afirmou, há 2.500 anos, o filósofo Platão. (...) As coletividades são constituídas por grupos diversos, em constante mutação, com interesses distintos e, não raros, conflitantes (FUNARI e PELEGRINI 2006, p. 9-10).

Nesse aspecto, concordo com o argumento dos autores sobre o surgimento dos Estados Nacionais modernos e uma verdadeira revolução encaminhada ao conceito de patrimônio. A revolução francesa, marco essencial na história dos direitos humanos e do iluminismo, acaba com a noção familiar e privada do patrimônio, dando frente ao patrimônio hereditário social e coletivo da nação.

A Revolução Francesa viria a destruir os fundamentos do antigo reino. Ao acabar com o rei, toda a estrutura do Estado perdia sua razão de ser. A República criava a igualdade, refletia na cidadania dos homens adultos (FUNARI e PELEGRINI 2006, p. 15).

Uma outra autora, a arqueóloga espanhola Margarita Díaz-Andreu parte de uma perspectiva muito interessante em que duas formas de coletividade são derivadas desse processo revolucionário do final do século XVIII e começo do XIX. A Revolução francesa de 1789 primeiramente politizou o conceito de

nação1, uma “soberania” considerada “como a união de indivíduos governados

por uma única lei, e representados pela mesma assembléia legislativa” (Kedourie 1988:5 apud Andreu 2000, p. 40). Esse nacionalismo, Díaz-Andreu chama “cívico”;

Para o nacionalismo cívico ou político, o conceito “nação” estava ligado a conceitos herdados do Iluminismo neoclássico, que ora se associaram intimamente com a nação: cidadania, território, direitos e deveres iguais para todos os cidadãos,

1 Do latim

(16)

16

educação universal e ideologia cívica (Smith, 1991: 9-10 apud Díaz-Andreu 2002, p. 8).

A segunda forma seria aquela atribuível aos movimentos de unificação da Alemanha e Itália, carregando a soberania nacional com pressupostos étnicos. Ou seja, uma nação que fosse, em primeiro lugar, culturalmente coesa, com “costumes semelhantes e/ou uma língua compartilhada” (Díaz-Andreu 2002, p. 10); E, em segundo lugar, uma descendência comum. “Para tudo isso, a História própria de cada nação tinha um papel fundamental legitimador” (Díaz-Andreu 2002, p. 10).

A queda do Regime absolutista e a criação dos Estados Republicanos

alteram a sensibilidade sobre a participação da coletividade no

encaminhamento político do território, da economia e da história. Por um lado, a conquista do acesso à direitos políticos por uma maioria não-aristocrática e não-nobre é um dos grandes avanços das diretrizes iluministas e humanistas, e permitem, a princípio, a maior proximidade ao que seria uma justiça social. “Liberdade, igualdade e fraternidade”. Por outro, o surgimento do Estado não mais centrado na figura do Monarca, mas sim na figura de seu coletivo constituinte exige a unidade e o fundamento desse coletivo ao território em distinção. “O líder da unificação Massimo D’Azeglio, constatou que ‘feita a Itália, é preciso fazer os italianos’” (Funari & Pelegrini, 2006, p. 17). Na constituição das novas nações étnicas é fundamental elencar os monumentos que serão receptáculos da memória coletiva.

(17)

17 descendência de um nascido, determina seu pertencimento ao país (nacionalidade). 2) A tentativa, pós-holocausto, de ampliar o reconhecimento da diversidade étnica dentro do território nacional e garantir seus direitos cívicos através de políticas de estado.

Essa diferença entre Estado “cívico”, resultante de um coletivo heterogêneo, e “étnico”, homogeneizante do coletivo, me parece essencial na compreensão da atual condição dos Estados Nacionais Latino-Americanos. Como no caso do Brasil, onde o direito e promoção da diversidade tem sido carro-chefe das políticas públicas governamentais, dentre o que tange à distinção, nomeação, preservação e aclamação do patrimônio nacional.

Dentro desse novo panorama das nações européias, o trato do patrimônio foi movido por três características básicas: sua materialidade e monumentalidade, sua beleza e exemplaridade, e sua regência por Instituições Públicas (Funari & Pelergini 2006). Portanto, tratava-se de eleger, entre os edifícios e objetos atribuídos à vivencia histórica nacional, quais seriam os maiores, mais belos, e mais típicos do caráter único e grandioso da Nação. A criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em 1945 dão respaldo a essa empreitada nacional de respeito aos direitos do cidadão e à diversidade cultural, direitos que são antes considerados humanos que territoriais.

Em termos internacionais, as diferentes nações interagiam mais do que nunca, o que também contribuiu para a dissolução dos conceitos nacionalistas, apesar de os órgãos internacionais, como a ONU e a UNESCO, serem aglomerados de Estados nacionais e defenderem, em muitos casos, a nação como uma suposta unidade, sem contrastes internos. De toda forma, a convivência levou à eleição da diversidade humana e ambiental, como valor universal a ser promovido (Funari & Pelegrini, 2006, p. 23).

(18)

18 A primeira Conferência Internacional para a Preservação dos Monumentos Históricos aconteceu em 1931 em Atenas. Embora sua “internacionalidade” tenha se resumido à presença de países europeus (Choay, 2001), a Carta de Atenas, documento gerado desse encontro, tornou-se referência base à filosofia de preservação, valoração e conservação de monumentos históricos e artísticos. Cita, inclusive, monumentos de interesse arqueológico (parte da carta é dedicada aos trabalhos de restauro e conservação da Acrópole Ateniense) (Sociedade das Nações, 1931). No entanto, seu texto prezava demasiado por quesitos estéticos, recomendando a derrubada de possíveis cortiços ao redor do monumento e enfatizava que nada fosse construído em estilo semelhante ao monumento para não roubar-lhe a atenção (Pelegrini 2006).

Posterior à Segunda Guerra-Mundial, as recomendações da ONU começam a referenciar atenção cada vez maior à diversidade das acepções e importâncias sociais do patrimônio. A Carta de Veneza de 1964 contou com a participação de três países não europeus: México, Peru e Tunísia (Choay, 2001). Esse documento, conseqüente da II Conferência Internacional de Arquitetos e Técnicos de Monumentos Históricos do ICOMOS, trata de normas para a conservação e restauro de monumentos históricos, definindo-os como

(...) criações arquitetônicas isoladas assim como o conjunto urbano ou rural de testemunho de uma civilização particular, de uma evolução significativa, ou de um acontecimento histórico. Refere-se não somente às grandes criações, mas também às obras modestas que tem adquirido com o tempo uma significância cultural (ICOMOS 1964, p. 10).

(19)

19 preservação, de modo a evitar a evasão dos habitantes em virtude de processos especulativos” (Pelegrini 2006, p. 5).

Esse cenário internacional será muito ativo na redação de leis, normas e recomendações de proteção e salvaguarda do patrimônio mundial. Algumas são de extrema importância para a definição e gestão do patrimônio arqueológico. Exemplos: (i) a 13ª Conferência Geral da Unesco em Paris, no dia 19 de novembro de 1964, faz “recomendação sobre medidas destinadas a proibir e impedir a exportação, importação e a transferência de propriedade ilícitas de bens culturais” (Unesco, 1964 apud Funari; Domínguez, 2005, p. 13), que exigem a proteção, dentre outros “bens culturais”, daqueles de “interesse histórico, artístico ou arqueológico” (Unesco, 1964 apud Funari; Domínguez, 2005, p. 14); (ii) a “Recomendação acerca da Preservação de Propriedade

Cultural Ameaçada por trabalho Público ou Privado” (Chih-Hung, 2004)2, em

dezembro de 1968; (iii) a “Convenção sobre os Meios de Proibição e Prevenção da Importação Ilícita, Exportação e Transferência de Posse de Propriedade Cultural” (Chih-Hung, 2004), assinada em 14 de novembro de 1970 em Paris, que trata da “propriedade cultural” como aquela que “por estatuto religioso ou secular, é especificamente designada por cada Estado como sendo de importância para a arqueologia, pré-história, história, literatura, arte ou ciência” (Unesco, 1970, p. única); (iv) a “Recomendação de Paris sobre Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural”, de 1972, que define como patrimônio cultural, em seu Artigo 1º, “elementos ou estruturas de natureza arqueológica, inscrições, cavernas (...)” e “lugares arqueológicos, que tenham valor universal do ponto de vista histórico, estético, etnológico ou antropológico”

(UNESCO, 1972)3.

Não somente cartas com propostas gerais, mas também alguns encontros entre Nações Latino Americanas buscaram suprir as demandas específicas de suas identidades e conjuntos patrimoniais, como a Carta de

2 Todas as traduções dos originais em lingua estrangeira são de minha autoria. 3 Mais documentos estão acessíveis gratuitamente do site da Unesco:

(20)

20 Machu Picchu em 1977, A Convenção de Tlaxcala em 1982 e a Declaração do México de 1985 (Funari & Pelegrini, 2006). As convenções de Tlaxcala e do México reforçaram o caráter popular do patrimônio e sua forma imaterial (ritos, festas, danças) (Pelegrini 2006, p. 5), enquanto a Convenção de Machu Picchu propunha a

(...) reintegração entre a arquitetura e as cidades em todos os seus elementos constitutivos, buscando a manutenção de sua vitalidade e significado contemporâneo, manifestando ainda preocupações com o impacto social gerado pela sobrevalorização das áreas restauradas e/ou revitalizadas e com os danos ao meio ambiente, anteriormente abordados na Convenção de Estocolmo (1972) (Pelegrini 2006, p. 5-6).

Em 1985, o reconhecimento do patrimônio arqueológico como um bem que necessita de cuidados e medidas específicas para sua gestão levou à criação de uma instância dentro do ICOMOS, o Comitê Internacional para

Gestão do Patrimônio Arqueológico (ICAHM, sigla do original em inglês4) (Elia,

1993 p. 97). O primeiro documento internacional a tratar especificamente do patrimônio cultural arqueológico, a Carta da Lausanne, foi redigida por esse órgão em 1990. Seu texto define o patrimônio arqueológico como “a porção do patrimônio material a qual os métodos da arqueologia fornecem os conhecimentos primários” (ICAHM 1990, Art.

1). Seu texto engloba também vestígios “sob as águas”. A abrangência oferecida por essa carta coloca a arqueologia em foco na definição e manejo de um bem cultural específico. A condição ontológica que liga

esse patrimônio à disciplina garante o direito de participação do público em sua gestão (de proteção à integração nas atividades de pesquisa e gerência), e conclama igualmente o Estado ao dever de manejo e respeito à memória pública (ICAHM 1990).

Finalmente, no ano de 2001, durante a 31º Convenção Geral da UNESCO em Paris, é redigida a “Convenção sobre a Proteção do Patrimônio

4 No original,

International Committee on Archaeological Heritage Management.

(21)

21 Cultural Subaquático”. Em seu texto, fica definido o “Patrimônio cultural subaquático” como

Todos os traços de existência humana tendo um caráter cultural, histórico ou arqueológico, que tenham estado parcialmente ou totalmente debaixo de água, periódica ou continuamente, durante pelo menos 100 anos, tais como:

i) Sítios, estruturas, edifícios, artefatos e vestígios humanos, em conjunto com o seu contexto arqueológico e natural;

ii) Navios, aeronaves, outros veículos, ou qualquer parte deles, a sua carga ou outro conteúdo, em conjunto com o seu contexto arqueológico e natural; e

iii) Objetos de caráter pré-histórico (UNESCO, 2001).

A Convenção da Unesco de 2001 igualmente estabelece a prioridade da preservação do patrimônio material subaquático in situ (Art. 2, nº5) e a proibição de sua valoração comercial (Art. 2, nº 7 e Regra 2, Anexo). Essa convenção consagra os esforços da arqueologia subaquática mundial (nascida nos anos 1960). Infelizmente, o Brasil ainda não ratificou a Convenção. Não somente a ignora como aprova uma lei, um ano anterior à Convenção, que viabiliza a atribuição de valor do patrimônio submerso de acordo com as demandas do mercado (Rambelli 1997, 1998, 2002, 2004).

(22)

22 seja, fica a cargo da disciplina arqueológica um papel imensurável na construção de espaços de memória nacionais.

Isso não significa que esse papel seja uma novidade na agenda da disciplina. Tanto os textos citados de Margarita Díaz-Andreu (2000, 2002) quanto outros autores (Cf. Trigger 1984, Fowler 1987, Arnold 1996, Lima 2007) trabalharam com o importante papel que a arqueologia teve na construção das nações européias “étnicas”, através da descoberta de vestígios materiais do purismo ariano nazista e da gloriosa ascendência romana do fascismo, para citar alguns exemplos. Com a desestruturação dos nacionalismos étnicos, a arqueologia é redirecionada para a gestão do patrimônio cívico focado em um desenvolvimento da cultura humana, global e local.

As argumentações que aqui se tecem enxergam esses gigantes regimentares como uma das respostas às demandas dos movimentos sociais e um meio de abrir espaço oficial para as minorias. Assim, acredito na importância da proteção desse “patrimônio cívico”, veículo de expressões de diversas memórias sociais.

Ao mesmo tempo, nesse momento de credenciamento do poder da arqueologia na participação dessa sociedade em luta, devemos prestar atenção à responsabilidade que recai sobre nossas resoluções e relatórios. É nesse momento que se começa a exigir a responsabilidade sobre seu papel como mediador entre o público e essa parafernália jurídica encabeçada por políticas humanistas internacionais.

1.3. Arqueologia Subaquática no Brasil

(23)

23 material. Esse relacionamento conflituoso entre público leigo e arqueólogos desenvolve-se pelas tramas confusas da legislação nacional específica desse patrimônio e as posturas evasivas do IPHAN e da Marinha. Entremeando a discussão sobre o patrimônio arqueológico submerso, tratarei brevemente da história da arqueologia subaquática no país com especial atenção à sua participação na preservação da cultura material imersa.

1.3.1. As primeiras braçadas

O primeiro resgate de material arqueológico submerso acompanhado de um arqueólogo foi realizado na costa baiana em 1977. O Galeão Sacramento foi escavado na Baia de Todos os Santos sob coordenação do arqueólogo Ulysses Pernambucano de Mello Neto. O Galeão Sacramento e uma embarcação holandesa não identificada foram apontados por um pescador baiano em 1973 (Cf. Jornal da Tarde. 29 de setembro de 1977), na mesma época em que fora encontrado por dois mergulhadores recreativos (Cf. Jornal

da Tarde. 22 de setembro de 1976)5. A meu ver, a importância do Sacramento

não apenas reside em sua excepcionalidade, mas também em sua exemplaridade da situação que na qual se encontra a gestão dos vestígios materiais submersos.

Várias notícias de jornais já apresentam um dos lados do panorama conflituoso que identifiquei no início do texto. Até o início dos trabalhos da

Marinha no fim de 19756, o Galeão Sacramento passou por alguns anos de

depredação por parte de mergulhadores recreativos e caçadores de tesouro. Algumas atividades viraram motivo da imprensa local e nacional, com manchetes relatando um verdadeiro esquema de contrabando de antiguidades. Os próprios descobridores da embarcação, José Rebelo e Francisco Gordilho (“Chico Diabo”) venderam um canhão holandês no Recife por CR$ 190 mil antes que a Marinha pudesse intervir (Faustino, 1976). “Chico Diabo” também

5 O Jornal do Brasil oferece a data de 1973 (Faustino, 1976).

(24)

24 fez alguns bons negócios com pratos de faiança, os quais vendeu por US$ 1.000,00 a peça (Cf. O Globo. 13 de dezembro de 1976). Ambos haviam difundido a presença de tubarões ao redor do naufrágio, como tentativa “salvaguardar” sua descoberta (Cf. Jornal da Tarde. 22 de setembro de 1976).

Outra notícia que apareceu em diversos jornais da época foi a apreensão de material arqueológico retirado do Sacramento. Seis canhões de

bronze7 foram apreendidos no Recife pela Superintendência Regional da

Polícia Federal, em um ferro velho no aguardo de um carregamento que os levaria a São Paulo, onde teriam já compradores (Cf. O Estado de São Paulo. 22 de setembro de 1976) e outros três estavam sendo procurados pela Polícia Federal de Pernambuco (Cf. Jornal da Tarde. 27 de setembro de 1976). A apreensão somente foi possível, como argumentarei mais adiante no terceiro capítulo, devido à legislação já existente desde 1961 que determinam a posse direta de “bens e sítios arqueológicos” à União. Além da legislação que rege a posse sobre bens encontrados em costa nacional.

No entanto, a falta de regulamentação específica sobre a situação do material arqueológico encontrado, levou (e ainda leva) a desentendimentos entre os órgãos competentes. O Jornal da Tarde informou que o comandante do 2° Distrito Naval, vice-almirante Fernando Ernes to Carneiro Ribeiro, “um dos responsáveis diretos pela seriedade com que agora, afinal, está sendo encarada atualmente a descoberta” (Cf. Jornal da Tarde. 27 de setembro de 1976) descobrira que há meses antes a Marinha permitira a remoção de material submerso por mergulhadores e pescadores. E que somente tomou ciência da situação quando vizinhos de um dos pescadores que guardava consigo um torpedo, vieram reclamar o medo constante de uma explosão (Cf. Jornal da Tarde. 27 de setembro de 1976).

Em cartas trocadas entre o comando do Serviço de Documentação Geral da Marinha e o 2º Distrito Naval, existem informações sobre os trabalhos

(25)

25 da Marinha desde 1975 e as pilhagens de material vendido à colecionadores

nacionais e estrangeiros8. No entanto, não nega que tenham sido essas

descobertas de grande valor histórico e inclusive lamenta que pouco do

material retirado do fundo tenha sido doado ao Museu Naval9.

Após esses casos notórios de depredo e pilhagem do patrimônio nacional, a Marinha, orientada pelo Serviço de Documentação Geral da Marinha sobre o rico acervo que jazia no fundo do mar, começou a realizar

etapas de intervenção e retirada de material ainda em 197510, logo antes da

contratação do “jovem arqueólogo” Ulysses Pernambucano (Cf. Jornal da Tarde. 27 de setembro 1976). O acordo entre a Marinha, através do 2º Distrito Naval, e do Ministério da Educação e Cultura, através do Conselho Federal de Cultura (Cf. Jornal do Brasil. 15 de novembro de 1976) permitiu que os trabalhos arqueológicos no Galeão começassem. A primeira etapa tem início em setembro de 1976 e foi concluída em maio de 1977. Mobilizou 24 mergulhadores, o NSS (Navio de Socorro Submarino) e mais duas corvetas (Purus e Caboclo) e duas embarcações auxiliares (Juruá e Javari) (Cf. O Estado de São Paulo. 22 de setembro de 1976; O Globo. 22 de setembro de 1976).

Do navio holandês, pouco se sabe além de sua localização próxima à ilha de Itaparica. O vice-almirante Fernando Ernesto Carneiro Ribeiro, comandante do 2º Distrito Naval que coordenou pessoalmente as atividades do Projeto de arqueologia supôs que o casco soçobrado em Itaparica fosse de uma nau holandesa que fora destruída durante um ataque feito por Maurício de Nassau à Bahia em 1637 (Cf. O Globo. 13 de dezembro de 1976), afirmando

8 Carta do Contra-almirante Paulo Guilherme Brandão Padilha ao Serviço de Documentação Geral da Marinha. 07/04/1976. Material pesquisado e cedido pela amiga Beatriz Bandeira.

9 Carta do Contra-almirante Paulo Guilherme Brandão Padilha ao Serviço de Documentação Geral da Marinha. 07/04/1976.

(26)

26 que dos 20 canhões retirados, e que permitiram a identificação da nau como holandesa, faltavam ainda 3.

Apesar da crítica concreta ao depredo por mergulhadores recreativos, os trabalhos de arqueologia no Sacramento se limitaram à retirada de materiais do fundo do mar como “ilustração da história trágico marítima”, nas palavras de Gilson Rambelli, arqueólogo subaquático da Universidade Federal de Sergipe

(informação verbal)11. Apesar da notoriedade dos trabalhos no Sacramento, e

das apreensões de venda ilegal de material, não foram levados adiante esforços pela reformulação das confusas políticas de manejo do patrimônio cultural submerso.

Outra crítica feita aos trabalhos de Pernambucano foi sua opção por não mergulhar. Ele acompanhou o trabalho de 24 mergulhadores (Cf. O Estado de São Paulo. 22 de setembro de 1976; Jornal da Tarde. 22 de setembro de 1976; Reportagem 1976a, Reportagem 1976b) desde a superfície. Já na década de 1960, início da arqueologia subaquática mundial, a importância do arqueólogo em campo é reforçada.

Luiz Octavio de Castro Cunha foi outro arqueólogo que se envolveu com arqueologia subaquática na década de 1980. Formado em arqueologia pela Universidade Estácio de Sá em 1986, Castro Cunha cursou, no ano de 1988, pós-graduação em História e Cultura Contemporânea, cuja conclusão se deu com a redação de sua monografia “Arqueologia subaquática no Brasil e no mundo: diferentes tecnologias” (Cunha, 2009). Como chefe da Seção de Arqueologia Subaquática do Museu Histórico e Oceanográfico entre 1991 e 2003, tem publicado alguns poucos trabalhos em arqueologia subaquática (C.f. Cunha 2009), entre eles um texto sobre o Galeão Sacramento, onde relata sua participação na segunda etapa dos trabalhos em 1987 (Cunha, 1990).

(27)

27

1.3.2. A consolidação da pesquisa submersa

No Brasil, Gilson Rambelli e o Centro de Estudos de Arqueologia Náutica e Subaquática (CEANS, hoje vinculado ao Nucleo de Estudos e

Pesquisas Ambientais da Universidade Estadual de Campinas –

NEPAM/UNICAMP) têm sido a principal militância pela revisão dessa legislação e pela proteção do patrimônio submerso nacional. Desde o final dos anos 1990, eles têm publicado textos sobre a necessidade de mantermos compasso com a legislação e parâmetros internacionais de proteção patrimonial (Rambelli 1997, 1998, 2002, 2004; CEANS 2004).

Existe uma depredação contínua, sobretudo dos naufrágios marítimos, provenientes da pouca importância dada a esses bens culturais por parte dos órgãos responsáveis pela gestão patrimonial nacional.

(...)

Com um litoral que se estende por mais de 8.500 km, palco de milhares de naufrágios em quase 500 anos de história trágico marítima, com águas interiores que representam uma das maiores redes fluviais do mundo, temos uma certeza: O Brasil desconhece os bens culturais submersos em suas águas (Rambelli 1997).

Já em 1993, durante a VII Reunião Científica da Sociedade de Arqueologia Brasileira em João Pessoa, Gilson Rambelli e Maria Cristina

Scatamacchia12 sentaram-se com autoridades da Marinha e do IPHAN para

discutir a arqueologia subaquática no Brasil (Rambelli 2008, p. 18). Maria Scatamacchia treinou uma nova geração de arqueólogos subaquáticos no MAE/USP, todos engajados na proteção do patrimônio submerso através da atuação do CEANS.

Em 1999 Paulo Bava de Camargo começa seu mestrado no MAE sobre as fortificações de Cananeia (Camargo 2002). Na tentativa de compreender como se formou o sistema defensivo do Baixo Vale do Ribeira durante o Segundo Reinado e na eventualidade da Guerra Cisplatina, Camargo pretende

(28)

28 ir além dos vestígios dos fortins emersos, já bastante degradados ou de construção menos resistente às intempéries do tempo (Camargo 2002). Os canhões foram alguns dos poucos instrumentos de defesa que sobreviveram, e parte hoje se encontra submersa. Além da busca pelos vestígios, considerar o ambiente aquático foi um dos meios encontrados para entender a formação desses sítios costeiros e ribeirinhos.

Flavio Rizzi Calippo iniciou também seu mestrado em 2000 sob orientação de Scatamacchia com o tema de sambaquis com interface entre os ambientes aquáticos e secos. Seu projeto é igualmente um experimento bem sucedido da aplicação das metodologias de campo da arqueologia subaquática a casos brasileiros. Uma adaptação do vibracoring, instrumento de coleta sedimentar, para as necessidades do estudo dos componentes estratigráficos de alguns sambaquis em Cananéia. A metodologia foi aplicada a sítios tanto fora como dentro d’água, com o objetivo de “compreender a ocorrência desses sambaquis e de contextualizá-los espaço-temporalmente em meio às flutuações holocênicas do nível do mar” (Calippo, 2004, resumo).

Em 2000, a equipe composta por esses pesquisadores do MAE, Gilson Rambelli, Paulo Bava de Camargo e Flávio Rizzi Calippo criaram o Centro de Estudos de Arqueologia Náutica e Subaquática,

objetivando o levantamento, estudo, divulgação, conscientização, gestão, proteção e preservação do patrimônio cultural náutico e subaquático brasileiro e internacional (CEANS, 2010).

Já em 2002, Leandro Domingues Duran começa a freqüentar o Museu em uma disciplina de Introdução à arqueologia subaquática e, em 2003, começa seu doutorado em arqueologia subaquática no MAE, também sob orientação da Scatamacchia, com um estaleiro baleeiro.

(29)

29 agindo dentro dos meios midiáticos, na tentativa de entender estratégias de conversão entre interesses do jornalismo e da divulgação científica (Tega 2004;

2010 – informação verbal13).

Em 2002, o CEANS passa a existir oficialmente como Centro de Estudos vinculado ao Instituto Gaia, e em 2004 muda sua locação para o Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Estadual de Campinas (NEE/UNICAMP). No ano seguinte, membros do Centro de Estudos passaram a ministrar aulas no Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais da mesma Universidade (NEPAM/UNICAMP) relacionadas à “cultura material, relações sociais, políticas públicas e meio ambiente” (CEANS, 2010). Hoje, o CEANS está locado no NEPAM.

Sua atuação na luta pela proteção do patrimônio cultural subaquático será marcante na arqueologia brasileira. Uma vez oficializado, o Centro de Estudos passa a ser a Primeira Unidade de pesquisa especializada no tema com apoio do Comitê Internacional sobre o Patrimônio Cultural Subaquático,

vinculado ao Comitê Internacional de Monumentos e Sítios

(ICUCH/ICOMOS/UNESCO) e com respaldo da Sociedade de Arqueologia Brasileira (CEANS, 2010). Ele publicou em 2004 o “Livro Amarelo: manifesto pró-patrimônio cultural subaquático brasileiro” (CEANS 2004) documento gerado como repúdio às práticas de caça ao tesouro em águas nacionais e à atual legislação (já promulgada em 2000) que transgride os interesses públicos pelo patrimônio submerso, dando prioridade a interesses privados.

Deste modo, preocupado com as atividades que ameaçam o patrimônio cultural subaquático no Brasil e ciente da necessidade de medidas mais rigorosas e urgentes para impedir essas atividades, o CEANS/NEE apresenta este documento informativo – Manifesto – em defesa deste patrimônio cultural tão digno de atenção e respeito quanto sua contrapartida terrestre. O objetivo é contribuir com a sociedade brasileira munindo-a com informações pertinentes sobre o tema e chamando atenção para a necessidade da rediscussão da

(30)

30

atual legislação que trata do patrimônio arqueológico subaquático em águas brasileiras (CEANS, 2004, p. 1-2).

Como parte das empreitadas do CEANS estão cursos de extensão sobre mergulho consciente em escolas especializadas, disciplinas acadêmicas em Universidades estaduais (no caso do NEPAM/UNICAMP) e particulares, bem como presença militante em encontros da comunidade arqueológica buscando respaldo de sua atuação em prol do patrimônio arqueológico submerso.

Em 2005 os participantes do I Simpósio Internacional de Arqueologia Subaquática, evento organizado dentro o XIII Congresso da Sociedade de Arqueologia Brasileira, apelam à assembléia geral da Sociedade com uma Moção

(...) para que a mesma interceda junto às instituições públicas brasileiras envolvidas com esta temática com vistas a pleitear a reformulação da legislação aplicável ao patrimônio arqueológico subaquático, bem como a ratificação da referida Convenção da UNESCO para a proteção do Patrimônio Cultural Subaquático, como meio de promover uma proteção efetiva dos bens culturais submersos em nossas águas (Rambelli, 2005, p. 2).

Essa Moção levou adiante a proposta da Equipe e, em 2006, a deputada maranhense Nice Lobão levou ao Congresso o Projeto de Lei nº 7.566 cuja fórmula carrega os termos sugeridos no Livro Amarelo (Tega 2007). Ou seja, visa derrubar a lei 7.594, bem como suas alterações da lei 10.166, permitindo que o Brasil assine a convenção da UNESCO de Proteção do Patrimônio Submerso.

Durante o XIV Congresso da Sociedade de Arqueologia Brasileira em Florianópolis, do dia 30 a 4 de outubro, a comunidade arqueológica subaquática se reuniu mais uma vez com um Simpósio de Arqueologia Subaquática.

(31)

31

até a ocupação ao longo dos anos de uma ilha do litoral sul de São Paulo (Tega, 2007a).

No mesmo mês, entre os dias 27 e 28 de outubro de 2007, o Brasil sediou uma reunião do Comitê Internacional sobre o Patrimônio Cultural Subaquático (ICUCH/ICOMOS) por conta do II Simpósio Internacional de Arqueologia Subaquática, cujo tema “Arqueologia Marítima nas Américas: ocupações litorâneas, barcos e navios, portos e áreas portuárias” reuniu pesquisadores de todas procedências nacionais e internacionais.

O evento pretende estabelecer novas perspectivas de pesquisas no Brasil e fortalecer a cooperação entre os países nos trabalhos sobre essa temática.

O Simpósio vem impulsionar o recém criado Núcleo de Estudos Avançados de Pesquisa em Arqueologia e Etnografia do Mar, em Itaparica, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal da Bahia (MAE/UFBA) (Tega, 2007b).

Ao final desse evento, o Comitê Internacional se reuniu e redigiu a Carta de Itaparica, documento oficial recomendando ao Brasil à adoção da Convenção da UNESCO para a Proteção do Patrimônio Arqueológico Submerso (Tega, 2008).

Esse extenso – e tenso – debate sobre a proteção do patrimônio arqueológico subaquático teve suas repercussões positivas junto ao poder legislativo com o Projeto de Lei 7566. Desde 2008, o Projeto foi reestruturado por discussões entre a Marinha do Brasil, o IPHAN e a comunidade arqueológica e foi reapresentado ao Congresso pelo Senado como Projeto de Lei nº 45/08 (Guimarães 2010 - informação

verbal14).

A PL 45/08 é a melhor opção que temos até o momento para uma nova redação que dê respaldo à proteção do patrimônio arqueológico subaquático nacional. Enquanto

14 Entrevista concedida por Ricardo Guimarães a Bruno Sanches no Rio de Janeiro, dia 27 de abril de 2010.

(32)

32 isso, vale pensarmos em outras maneiras pelas quais a arqueologia pode atuar pela defesa do patrimônio e pela representatividade social.

Além da equipe do CEANS, outros arqueólogos brasileiros têm trabalhado com arqueologia subaquática na entrada do novo milênio. Francisco Silva Noelli também é um arqueólogo brasileiro que se aventurou no campo da arqueologia subaquática. Em 2004 ele passou a coordenar as atividades da ONG Programa de Arqueologia Subaquática (PAS), uma empreitada sem fins lucrativos que visava a pesquisa e a proteção do patrimônio cultural subaquático em águas catarinenses (Viana et alii. 2004). Em 2002 a equipe formada por Alexandre Viana, Marcelo L. Moura e Narbal Correa fundaram a ONG PAS com o propósito de gerenciar a pesquisa de uma embarcação encontrada por Alexandre Viana em 1989, na praia dos ingleses (Florianópolis/SC) (PAS 2006). Essa era a embarcação à qual se dedicava o Programa quando do ingresso de Chico Noelli à equipe.

Aceitei colaborar com a ONG PAS – Projeto de Arqueologia Subaquática -, após ver: 1) que o sítio sofria lenta destruição pelo impacto ambiental e antrópico; 2) que era uma área de pesca artesanal de arrasto; 3) que era área de interesse turístico que afetaria seu contexto no futuro; 4) a autorização da Marinha do Brasil; 5) o projeto da pesquisa; 6) o financiamento público da FAPESC fiscalizado pelo Tribunal de Contas de Santa Catarina; 7) as instalações; 8) os tipos de registro; 9) o trabalho de conservação; 10) o destino dos artefatos, a serem integrados a um museu público que se procura estabelecer em Florianópolis; 11) que havia uma exposição permanente na base de pesquisa da Praia dos Ingleses que, sem nenhuma propaganda, foi visitada por mais de 22 mil pessoas (incluindo inúmeras escolas e cursos universitários) (Noelli, 2010)15.

Sob coordenação de um arqueólogo, o Projeto conseguiu a anuência da Marinha e do IPHAN, e em 2004 publicam sua primeira nota na Revista do MAE/USP (Viana et alii. 2004). Os autores, ao mesmo tempo em que aderem aos preceitos metodológicos e teóricos propostos pela academia para o desenvolvimento de um trabalho arqueológico, fazem questão de demonstrar

(33)

33 sua origem de fora da academia como um ponto fundamental das políticas atuais de gestão de bens culturais.

A pesquisa de naufrágios, como alternativa à preservação, é assegurada pela Declaração de Sofia: “A Arqueologia é uma atividade pública, todos têm o direito de indagar sobre o passado para enriquecer suas próprias vidas, e qualquer ação que restrinja esse conhecimento é uma violação da autonomia pessoal” (Viana et alii 2004, p. 388).

Na mesma nota, o Programa já anuncia um segundo projeto de mapeamento de sítios arqueológicos submersos na costa de Santa Catarina. “Primeiro serão mapeados os naufrágios localizados pelas autoridades marítimas, por pescadores e pela equipe do PAS” (Viana et alii 2004, p. 388). Para o prosseguimento desse segundo projeto, os autores já apresentam uma lista detalhada, baseada em leituras sobre a história naval no Brasil, de 13 categorias de sítios, mais que de naufrágios, que poderão ser encontrados na costa brasileira e catarinense (Viana et alii 2004). Hoje o projeto já conta com mais outro artigo publicado na Revista do MAE sobre os trabalhos realizados entre 2004 e 2009 (Noelli et alii 2009), de igual rigor acadêmico, bem como criação de revistas e educação patrimonial (que serão comentadas no terceiro capítulo), publicações conjuntas sobre a história marítima de Santa Catarina (PAS 2006) e convênio com a Universidade do Vale do Itajaí (Noelli et alii 2009).

Na cidade do Rio Grande, o arqueólogo Rodrigo de Oliveira Torres vem atuando em arqueologia subaquática desde 2003, inclusive com propostas e atividades de sítios escolas sobre arqueologia subaquática com excelentes resultados.

(34)

34 somente o recreativo, e sua relevância à sociedade moderna e à história técnica da humanidade. Por outro, lembra que o mergulho recreativo tem sido muitas vezes irresponsável com o patrimônio subaquático, e que instrutores devem dialogar com seus alunos e equipe para o desenvolvimento de um turismo responsável e para que uma prática tão cara ao mundo contemporâneo não se torne danosa à história da humanidade.

Carlos Rios é um arqueólogo pernambucano, inicialmente formado em ciências biológicas, mas que, posteriormente, seguiu carreira na marinha e no estudo de arqueologia naval. Desde 2005 tem trabalhado com a temática. Ingressou no mestrado em arqueologia de um naufrágio na costa pernambucana, em Recife.

1.4. Patrimônio civil rumo às profundezas

Os Estados Nacionais hoje começam a utilizar esse aparato jurídico como ferramenta para gerenciar a propriedade do espaço e da memória, em um contexto social que exige sua atuação cada vez mais atenta às reivindicações da diversidade. Como instrumento de execução da legislação o Estado confia na palavra das ciências específicas a cada tipo de setor da sociedade moderna. No caso do patrimônio arqueológico, cabe à arqueologia trabalhar para sua indicação, preservação e representatividade, o que lhe concede um papel fundamental nas políticas nacionais da memória e territorialidade. O papel social e político da arqueologia e as contribuições da arqueologia pública a essa discussão serão argumentadas durante este trabalho.

(35)

35 científico e de representatividade pública, a revelia do descaso Estatal. Como anunciado no início desta apresentação, alguns desses trabalhos, bem como outras possibilidades, serão resgatados no último capítulo, dedicado à pensar sobre a arqueologia pública no caso subaquático.

(36)

36 2. Introdução

A situação da arqueologia subaquática brasileira, tal como apresentada, me levou a buscar como objeto de pesquisa a relação que a disciplina e seus profissionais têm desenvolvido com o público não arqueológico, em particular com os mergulhadores recreativos. As arqueologia pública, com sua proposta de auto-crítica, reflexiva da responsabilidade social do profissional e abertura para temas relativos à sensibilidade para alteridade à disciplina, pareceu-me a abordagem ideal para o problema em questão.

À medida que o estudo do tema se aprofundava, comecei a me interessar cada vez mais pela arqueologia pública e o resultado foi que o texto final da minha pesquisa ganhou corpo na revisão conceitual da arqueologia pública no exterior, no Brasil e, conseqüentemente, sua aplicação na arqueologia subaquática como estudo de caso.

O cerne da minha preocupação, e que me levou a buscar cada vez mais exemplos de trabalhos de arqueologia pública, pode ser resumido em uma troca de e-mails com Francisco Noelli (Silva 2010), um dos arqueólogos entrevistados para este trabalho. Em conversa sobre o significado da arqueologia pública e sobre o papel que cabia ao arqueólogo entre a preservação patrimonial e os interesses sociais no presente, Noelli afirma que não vê o arqueólogo como “negociador”, pois o patrimônio cultural não é negociável, defendendo que, justamente aí, no momento em que a arqueologia se insere no debate sobre os diferentes significados do patrimônio, é que exercemos nosso papel social.

(37)

37 arqueologia, em suas atribuições consultivas sobre a história, deve também refletir sobre sua atuação na construção de lugares da memória (Nora 1984).

O objetivo deste trabalho pode ser definido como buscar na arqueologia pública, conceito de gênese internacional, sugestões e exemplos que possam

levar à reflexão da prática arqueológica em contexto nacional, tendo como

estudo de caso a arqueologia subaquática nacional. Rumo ao desenvolvimento

desse tema, meu texto ficou dividido em três capítulos.

O primeiro visa construir um campo conceitual do termo “arqueológica pública” e buscar dificuldades e soluções apresentadas por essa abordagem em trabalhos cujo foco seja a relação entre arqueologia e o público leigo. Meu entendimento da arqueologia pública fica bem marcado pela perspectiva que ganha nos anos 1980, sob influência da arqueologia interpretativa.

O segundo capítulo tenta abordar, primeiramente, a relação de filiação da disciplina arqueológica com o Estado nacional brasileiro e o uso que o conhecimento arqueológico pode adquirir como consultoria para políticas públicas, em especial, após a publicação da Resolução CONAMA nº 001/86, que obriga a execução de estudos de impacto sobre o patrimônio arqueológico em processos de licenciamento ambiental. Em sequência, faço uma breve análise de alguns trabalhos de arqueologia pública, com o propósito de refletir sobre a aplicação desse conceito no contexto nacional.

(38)
(39)

39 3. Capítulo 1 - Arqueologia Pública Internacional

Na apresentação procurei argumentar em especial sobre dois pontos. O primeiro é sobre a responsabilidade social do arqueólogo auferida pelas novas políticas do patrimônio sugeridas nas convenções e recomendações internacionais. Não podemos esquecer de que essas políticas são fruto de mudanças ocasionadas por movimentos sociais posteriores à Segunda-Guerra, como argumentarei brevemente neste capítulo. O segundo ponto foi o percurso da arqueologia subaquática nacional, com especial atenção em sua luta pela preservação do patrimônio subaquático brasileiro. Seu discurso de proteção de um patrimônio civil em nome do aproveitamento coletivo, e conflito com as partes que tendem a usufruí-lo como um bem privado (exploração de seu valor de mercado) me levaram a pensar a arqueologia pública como conceito fundamental para refletir sobre sua atual situação. Encontrei na arqueologia pública um campo de debates rico para ponderar sobre a atuação social da arqueologia e a necessidade de diferentes estratégias para atuar em prol do patrimônio e da diversidade cultural.

Meu propósito com esse capítulo foi fazer da arqueologia pública um objeto de estudo crítico, analisar suas possibilidades, aplicações e significados, antes de poder usá-la como carro chefe em reflexões posteriores. A medida que comecei a atentar para a concepção de arqueologia pública que

preponderava na arqueologia brasileira (educação patrimonial e

(40)

40 As perguntas que me guiaram pelo texto que segue foram basicamente: O que seria exatamente arqueologia pública? Qual a extensão de seu sentido? Como ela tem sido usada fora do Brasil?

Esse capítulo percorre três pontos principais. Primeiro fui à busca da antiguidade do conceito e suas primeiras acepções, para seguir pelas diferentes influências sofridas através dos anos, terminando com uma análise de suas acepções modernas. Em segundo lugar, dedico um item à influência da arqueologia interpretativa na virada conceitual da arqueologia pública, como aproveito para deixar expressa minha afinidade com essa corrente. Finalmente segue um item mais longo sobre diferentes acepções de arqueologia pública. Apesar de ter dado preferência pela bibliografia de língua inglesa, por ser o espaço de origem e de maior aplicação do conceito, alguns textos e comentários sobre experiências na America Latina ou Brasil não foram deixados de lado. Pretendo, no entanto, explorar mais a bibliografia sobre arqueologia pública brasileira no próximo capítulo.

3.1. Entre o civil e o Estado

O atual interesse pela arqueologia pública surgiu de suas atribuições mais recentes, entre as quais se vê que

O campo da arqueologia pública é relevante porque estuda os processos e resultados através dos quais a disciplina de arqueologia se torna parte de uma cultural pública mais ampla, onde contestação e dissonância são inevitáveis. (Merriman, 2004, p. 5).

(41)

41 colegial; um furo jornalístico ou empecilho para o desenvolvimento de empreendimentos de engenharia (Colley 2002).

O propósito da arqueologia pública – ao menos a vejo dessa forma – não é aniquilar a disciplina tendo em vista sua presença como “estrangeira”, e muitas vezes ameaçadora, ao espaço onde trabalha. Mas sim reconhecer essa posição particular como mais uma dentre as diversas outras possíveis sobre a

mesma paisagem16, e pensar como pode se relacionar com elas, de modo a

cumprir seu objetivo (seja um licenciamento ambiental ou uma pesquisa sobre a ocupação indígena do Brasil) conjuntamente com os objetivos alheios.

Essa abordagem nos permite trabalhar com a multiplicidade de enfoques que se vinculam ao termo em questão: divulgação, melhores relações com meios midiáticos, sítios arqueológicos e revitalização econômica, valorização de culturas ditas tradicionais, arqueologia e turismo, gestão de patrimônio arqueológico, arqueologia e legislação, quebra de cientificismo da disciplina... Enfim. Em vista dessa multiplicidade, dessa diversidade de regras que estão sendo propostas para se praticar a arqueologia, acreditei que seria interessante iniciar pela exploração conceitual dessa peculiar combinação de vocábulos.

De fato, trata-se um questionamento que partiu não somente de minha curiosidade, mas de curiosidades alheias. Em todas as ocasiões que me perguntaram de que tratava minha dissertação, costumava responder “trabalho com arqueologia pública e arqueologia subaquática”. Interessante foi observar que a expressão de dúvida aparecia tanto no rosto de arqueólogos quanto de não arqueólogos. “Como assim arqueologia pública, arqueologia do Estado?”, “Arqueologia dos espaços comuns?” Também por essa razão coube-me iniciar por esse capítulo, respondendo às demandas mais freqüentes.

Segundo Tim Schadla-Hall,

(...) o termo ‘arqueologia pública’ primeiramente recebeu ampla atenção com a publicação de Charles R. McGimsey III, Arqueologia Pública em 1972. Esse volume, que recebeu

(42)

42

algum reconhecimento no Reino Unido e Europa na época, foi escrito ‘com dois públicos em mente... colegas de profissão... e o crescente número de legisladores e demais cidadãos que estão se tornando cada vez mais preocupados com a proteção dos sítios arqueológicos de seus estados’ (McGimsey1972: xiii) (Schadla-Hall, 1999, p. 147-8).

Do apontamento feito por Schadla-Hall, podemos, primeiramente, atentar para sua origem nacional. O termo “arqueologia pública” surgiu do inglês “public archaeology”. Como qualquer tradução, as tramas a serem cruzadas de um significado ao outro sempre trazem seus perigos. Pedro Paulo Funari e Erika Robrahn-González já chamaram a atenção para um desses perigos:

No Brasil, a expressão Arqueologia Pública, surgida em âmbito

anglo-saxão, ainda é nova e pode levar a confusão. De fato,

público, em sua origem inglesa, significa “voltada para o

público, para o povo” e nada tem a ver, stricto sensu, com o

sentido vernáculo de público como sinônimo de estatal (Funari

& Robrahn-González, 2006, p.3).

Essas diferenças não aparecem tão marcantes nas definições fornecidas pelos dicionários. O vocábulo em inglês “public”, visto como um adjetivo (referente ao substantivo “arqueologia”):

1. pertencente a, ou relativo a população ou a comunidade como um todo: fundos públicos; incômodo público.

2. feito, construído, provindo de ação, etc., para a comunidade como um todo: acusação pública.

3. aberto a todas as pessoas: uma reunião pública.

4. da, pertinente a, ou estando a serviço da comunidade ou nação, especialmente um oficial do governo: um oficial publico. 5. custeado por financiamento publico e sob controle publico: uma biblioteca pública; uma estrada pública17.

17

(43)

43

6. de conhecimento geral: o fato tornou-se público 7. familiar ao público; proeminente: figuras públicas 8. aberto a vista de todos; que existe ou é conduzido em público: uma disputa publica

9. pertencente ou dedicado ao bem-estar da comunidade: espírito público

10. de ou pertencente a toda a humanidade; universal. (Dictionary.com 2010).

Enquanto que o vocábulo em português, “público”:

1. relativo ou pertencente a um povo, a uma coletividade 2. Relativo ou pertencente ao governo de um país, estado, cidade etc. Ex.: poder p., funcionário p.

3. Que pertence a todos; comum. Obs.: p. 43pôs. A privado. Ex.: lugar p.

4. Que é aberto a quaisquer pessoas. Ex.: conferência p., audiência p.

5. Sem caráter secreto; manifesto, transparente. Ex.: debate p.

6. Universalmente conhecido. (Houaiss 2010).

De fato, as semelhanças entre as entradas para cada um dos vocábulos nessas duas línguas diferentes não dão conta das sutilezas que nossa percepção cotidiana pode trazer desses termos. Por exemplo, se eu citar “interesse público pela arqueologia”, a impressão transmitida seria de “interesse do Estado pela arqueologia”, “questões políticas envolvendo a arqueologia”, enquanto que, em diversos textos em inglês, essa expressão (public interest for archaeology) faz referência aos interesses leigos que cercam a disciplina.

A segunda observação que pode ser feita sobre sua origem é no aporte conceitual. Schadla-Hall defende que o cerne desse novo termo que passa a existir vem de outros existentes ainda hoje, mas que já haviam feito sua aparição anteriormente ao termo “arqueologia pública”.

McGimsey estava, acima de tudo, preocupado com o manejo dos recursos arqueológicos, e a possibilidade de uma legislação combinada com programas de preservação, bem planejados e sérios, que pudessem proteger os recursos arqueológicos para o futuro. Desde o final dos anos 1960, o termo CRM18 (Manejo de Recursos Culturais) tornou-se cada

18

(44)

44

vez mais freqüente – e consequentemente os termos ARM19 (Manejo de Recursos Arqueológicos) e AHM20 (Manejo de Patrimônio Arqueológico) passaram a ser mais usados. (Schadla-Hall, op. Cit., p. 148).

Cabe aqui um breve esclarecimento. De acordo com Ricardo Elia (1993), a principal diferença entre Manejo de Recursos Culturais e Manejo de Recursos Arqueológicos é basicamente sua amplitude e nacionalidade. O termo “Cultural Resources” (Recursos Culturais) e “Cultural Resource Management” são mais utilizados nos Estados Unidos como referente aos

sítios arqueológicos e patrimônio edificado (monumentos, edifícios). Enquanto que o termo “Archaeological Heritage” (Herança/Recursos Arqueológica(os)) e “Archaeological Heritage Management” são mais comuns na Inglaterra e abordam com um viés predominantemente, embora não necessariamente, arqueológico, deixando de lado o patrimônio arquitetônico (Elia 1993).

A arqueologia pública, afinal, nasce no contexto norte-americano como uma referência às políticas de governo para a preservação do patrimônio arqueológico. Não como ironia à sua compreensão de “voltada para o povo”, pois se trata de uma postura em que a atuação do Estado como protetor do patrimônio cultural é guiada pela ideologia de que ele próprio representa os interesses gerais da população (Merriman 2004a). Sua voz fala por todos. Da mesma maneira, o contexto arqueológico americano dos anos 1970 lida com o passado (e presente) humano deixando de lado as diferenças entre homens e mulheres de todo mundo, como uma postura condizente com o capitalismo globalizante do país mais poderoso do mundo (Zarankin 2010 – com. pessoal) e como uma postura filosófica de repulsa aos genocídios do Holocausto (Colley 2002).

Na busca de mais leituras, encontrei alguns poucos artigos americanos, australianos e ingleses das décadas do final dos anos 1970 que fizessem alguma menção ao termo “arqueologia pública”, numa tentativa de melhor compreender qual sua situação conceitual no momento em que, como foi

19

Do original em inglês “Archaeological Resource Management”.

20

(45)

45 colocado por Tim Schadla-Hall, “arqueologia pública” teria recebido “ampla atenção”.

Brian Fagan possui um artigo publicado em 1977 na American Antiquity entitulado “Teaching archaeology to the great loving public”. Seu enfoque está na educação e acusa de incapacidade o atual sistema de formação de profissionais, que não consegue desvincular a disciplina arqueológica das fantasias da “arqueologia alternativa”. O que aqui tomo como “arqueologia alternativa” será tratado com um pouco mais profundidade adiante, inclusive por se tratar de um fenômeno que perdura até a contemporaneidade, e reflete a separação que existe entre a prática acadêmica da arqueologia e as distintas visões do passado que são produzidas pelo público leigo, ou, no caso, “amador”. “(...) o interesse público pela arqueologia ainda está entre nós, e de fato está levantando, numa onda de escapismo, sérias indagações intelectuais, caçada de potes e loucuras absolutas.” (Fagan 1977, p. 119).

A relação entre o público não acadêmico e arqueologia sempre foi uma preocupação existente e constante. Mas o que está em jogo no artigo de Fagan parece ser uma simpatia pelo público leigo ao mesmo tempo em que toma uma postura paternalista frente à “arqueologia amadora”. Por um lado, ele faz clara sua crítica de que

(...) a maioria deles [cursos introdutórios de arqueologia] são um convite ao estudante para adentrar um “grupo seleto” que sabe sobre arqueologia, a se tornar membro de um clube fracamente exclusivo, e demasiado especializado. (Fagan 1977 p. 121).

Por outro, menciona as “porcarias que os ingressantes devem ter lido na National Geographic” (Fagan 1977, p. 120) e afirma que “o que é importante,

contudo, é que o conhecimento arqueológico que você ganhou com sua experiência de pesquisa ajude-o a formar uma perspectiva intelectual sobre a pré-história que seja útil para seus alunos.” (Fagan 1977, p. 123).

Referências

Documentos relacionados

Logo chegarão no mercado também, segundo Da Roz (2003), polímeros feitos à partir de amido de milho, arroz e até de mandioca, o denominado amido termoplástico. Estes novos

◯ b) Outras empresas, que os utilizam em seus próprios processos produtivos SOC 41.1 Se SIM para a PERGUNTA 41 alternativa (a) , em relação aos processos judiciais ou

Entre as estratégias e práticas coletivas para potencializar o autocuidado e o cuidado entre nós, foram partilhadas experiências de rodas de cuidado e autocuidado entre mulheres

Este trabalho tem como finalidade mostrar o que é JavaScript Isomórfico, quais suas finalidades, quais as características que o diferem de uma abordagem de desenvolvimento

O trabalho se dará por meio da discussão teórica sobre os caminhos do Desenvolvimento crescimento e bem-estar, da importância do Ambiente Institucional na trajetória do

A ligação entre estas duas bombas é fornecida pela di- A ligação entre estas duas bombas é fornecida pela di- fusão molecular, onde as moléculas se movem para lo fusão

225 - meio ambiente ecologicamente equilibrado, neste incluso o do Trabalho (VIII, Art 200)  colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do

No terceiro capítulo apresenta-se a trilha sequencial metodológica adotada, desde a caracterização da área de estudo, até a definição e forma de tratamento dos