INÍCIO DE CRISES EPILÉPTICAS NA MENARCA
DIOSELY C. SILVEIRA* — CARLOS A.M. GUERREIRO**
RESUMO — N o v e pacientes com início d a s crises epilépticas coincidindo com a menarca foram avaliadas. D u a s t i n h a m crises generalizadas e 7 crises com início parcial. O e x a m e físico e neurológico foram normais em todas, exceto em uma que tinha estenose aórtica. O EEG mostrou ondas a g u d a s focais nas regiões temporais em 4 pacientes, ondas lentas intermi-tentes generalizadas em uma e foi normal nas outras 4. Sete das 9 pacientes que tiveram a primeira crise na menarca apresentavam exacerbação d a s crises epilépticas no período peri-¬ menstrual, o que poderia sugerir estarem estas pacientes mais sujeitas a aumento na fre-quência das crises n e s s e período em ciclos subsequentes. E s t e achado necessita de estudo mais amplo para confirmação e pode contribuir para melhor orientação terapêutica n e s s a s mulheres.
Epileptic seizures s t a r t i n g in menaxehe
SUMMARY — N i n e patient w h o s e epileptic seizures had b e g a n in the menarche phase were studied. T w o of these p a t i e n t s had generalized seizures and seven partial seizures w i t h or without generalization. T h e physical and neurologic exam w a s normal in all patients except one w h o had aortic stenosis* The EECr s h o w e d focal spikes in temporal r e g i o n s in four patients, intermitent generalized s l o w waves in one and w a s normal in four patients. Seven of these patients complained of increasing of the seizure frequency near to the menstrual period. Data registered are discussed. It is concluded that the observation of a larger num-ber of patients is necessary to confirm these data.
Em 1885, Gowers relatou tendência de iniciar-se a epilepsia durante a puber-dade 5. Turner, em 1907, também levantou esta questão 27. Mais tarde, Bander et al.2 notaram que 4 de 29 mulheres com crises catameniais tinham tido inicio d a s crises na menarca. Logothetis et a l .1 6 observaram que o início das crises ocorreu dentro
dos três primeiros anos da menarca em 16 de 25 pacientes com exacerbação catamenial. Lennox e L e n n o x i * encontraram a s s o c i a ç ã o entre a primeira crise e o primeiro ano da menarca em 2 5 % de 387 mulheres.
Apresentamos 9 pacientes epilépticas crônicas cujas crises se iniciaram conco-mitantemente ao período da menarca e discutimos a possível fisiopatologia à luz dos dados disponíveis.
CASUÍSTICA E R E S U L T A D O
Nove pacientes do Ambulatório de E p i l e p s i a do Hospital d a s Clínicas da UNICAMP, com idades entre 20 e 44 a n o s e cujas crises epilépticas coincidiram com o período da menarca, sâo estudadas. T o d a s foram s u b m e t i d a s a anamnese detalhada, exame físico, exame neurológico e eletrencefalograma (EECr). A tomografia computadorizada craniana (TCC) foi realizada em três pacientes e o líquido cefalorraquidiano (JJJR) em 7. A presença ou n á o de piora peri-menstrual das crises epilépticas foi avaliada pela a n a m n e s e em três pacientes, e por um calendário: por período inferior a 6 m e s e s em d u a s ; por período entre 6 m e s e s e 2 anos em quatro pacientes.
Os resultados são m o s t r a d o s na Tabela 1. A menarca ocorreu entre 9 e 15 anos. Os tipos de crises foram variáveis, sendo generalizadas em d u a s pacientes e parciais com ou
Departamento de Neurologia, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas ( U N I C A M P ) : * Professor A s s i s t e n t e ; ** P r o f e s s o r A s s i s t e n t e Doutor.
sem generalização s e c u n d á r i a n a s demais. D u a s pacientes t i n h a m s u a s crises controladas por m a i s de um ano, q u a t r o t i n h a m crises u m a a t r ê s vezes p o r mês e t r ê s t i n h a m crises uma a a u a t r o vezes p o r semana.
O exame físico e neurológico foi normal em todias as pacientes, exceto em u m a que a p r e s e n t a v a estenose aórtica. O E E G m o s t r a v a ondas a g u d a s focais na região temporal di-r e i t a em t di-r ê s pacientes, na di-r e g i ã o tempodi-ral e s q u e di-r d a e d i di-r e i t a em uma, o n d a s lentas intedi-r- inter-m i t e n t e s generalizadas einter-m uinter-ma, e foi norinter-mal n a s q u a t r o pacientes r e s t a n t e s . A TOC foi normal em d u a s pacientes e m o s t r o u leve atrofia cortical em uma. O LiCR foi normal em t o d a s as pacientes. D a s 9 pacientes, 7 a p r e s e n t a v a m p i o r a p e r i m e n s t r u a l d a s crises.
COMENTÁRIOS
Há poucos relatos sobre a influência da menarca nas crises epilépticas. Alguns
pesquisadores 8.24 relataram o aparecimento de crises catameniais na puberdade.
Rosciszewska et al.23 estudaram o efeito da menarca em 62 pacientes: em 19 não houve
alteração na frequência das crises, em 20 houve aumento e em 20 houve diminuição
da frequência. Observamos que 5 das 7 pacientes com CPC tiveram aumento da
fre-quência das crises na menarca. Das 9 pacientes que apresentamos, 7 tiveram piora
perimenstrual das crises e, uma das duas que não relatavam esta piora, tinha suas
crises controladas há quatro anos. Portanto, esse achado sugere que essas pacientes
são mais susceptíveis a crises epilépticas no período perimenstrual.
Tem sido sugerida etiologia hormonal para explicar o aumento cíclico das
crises epilépticas. É sabido que em meninas, a partir de aproximadamente 6 anos de
idade, vai ocorrendo aumento de estrógeno plasmático devido ao desenvolvimento
folicular. A capacidade de produção de estrógeno pelos ovários é progressiva até
o início da seleção folicular, quando é iniciado o processo ovulatório e o folículo
torna-se corpo lúteo, ocorrendo a menarca. O progressivo aumento dos níveis
estro-gênicos pode ser um dos fatores envolvidos na fisiopatologia do início das crises na
menarca. Em vários estudos o estrógeno tem mostrado efeito epileptogênico. Assim,
a injeção endovenosa de estrógeno revelou acentuação da atividade epileptiforme no
EEG de 11 dentre 16 mulheres epilépticas 15. Acentuação das crises em mulheres com
exacerbação catamenial foi notada quando lhes era administrado estrógeno
1 6. Por
outro lado, a infusão endovenosa de progesterona provocou diminuição significativa
no número de espículas no EEG de 4 entre 7 pacientes epilépticas
1. Além disso,
grande número de modelos experimentais de epilepsias, utilizando diversas espécies
de animais, mostrou que o estrógeno aumenta e a progesterona diminui a
suscepti-bilidade a crises epilépticas
3,4,6,7,9-ll,13,15-17,19,21,22,25,26,28-30.REFERÊNCIAS
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