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A IMPRENSA
NO TRIBUNAL
O comportamento dos meios de comunicação na cobertura do
ruidoso “caso Isabella” é oportuno para discute se a imprensa
está preparada para destrinchar o Direito para o grande público
Por Gabriel Kwak
I
sabella Nardoni, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá. Durante mais de um mês, pelo menos, esses nomes foram tão familiares ao leitor quanto o de seus amigos e parentes. Em 29 de março deste ano, um furo na tela de proteção da janela de um apartamento no Edifício London, no bairro de Vila Mazzei, Zona Norte de São Paulo, ganhou o status de campeão de audiência. A me-nina Isabella fora espancada, esganada e atirada do 6º andar do apartamento de seu pai e de sua madrasta, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá. Concluído o inquérito poli-cial pelo 9º DP, o promotor Francisco Cembranelli ofereceu a denúncia, acolhida pela Justiça. Em prisão preventiva, o casal está sendo processado e pode ir a júri popular. Passado o fragor da hora, o tema volta com as sucessivas tentativas dos advogados de conseguir habeas corpus, negado sistema-ticamente pelos tribunais superiores.Mas nos dias que se seguiram ao assassinato da menina de 5 anos, um estado febril tomou conta das redações, que elegeram o caso como a pauta número um. Repórteres de ou-tras editorias foram deslocados para acompanhar o rumoroso caso, que chocou a opinião pública. O drama doméstico não tardou a interessar as produções dos programas de auditório. Vocábulos como perícia, reconstituição, habeas corpus, in-quérito policial, voto do relator, homicídio qualiicado há muito tempo não eram tão insistentemente empregados pe-los meios de comunicação.
A cobertura deu farta munição à artilharia pesada dos crí-ticos da mídia. Desnudou vulnerabilidades e reabriu
cicatri-zes de nossa imprensa. Leitores, ouvintes e telespectadores acompanharam cada fase da chamada “instrução criminal” como se fosse o enredo de uma telenovela, cujos vilões – ao contrário das tramas de Silvio de Abreu e Gilberto Braga – estavam longe de cair nas graças do público. “A imprensa exagerou como costuma exagerar nessas situações, princi-palmente as emissoras de televisão – como se fosse quase um show de realidade. Foi coberto online”, avalia Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de S.Paulo
desde 22 de abril deste ano.
Muitos analistas da cobertura abraçaram a tese de que o crime só conquistou essa repercussão por ter acontecido no seio de uma família de classe média. “Um crime como esse, na classe média, era uma coisa que tinha a ver conosco. Há certos assassinatos que não icam tão próximos a nós”, nota o vice-diretor acadêmico da Direito GV, Antonio Angarita. Lins da Silva vê essa escolha editorial com naturalidade: “Evidentemente, o jornal tem que se identiicar com seus leitores e eles são em sua maioria da classe média”, diz.
Em busca das luzes da mídia
Qualquer miudeza das biograias dos protagonistas da tra-gédia poderia ser um prato suculento para o público inlama-do por uma cobertura que se revestiu por vezes inlama-do status de espetáculo, na gincana pela informação exclusiva. Populares exigiram punição exemplar ao casal em vigília nas portas das delegacias e das residências de familiares dos réus.
Para o professor titular da Faculdade de Direito da
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versidade de São Paulo e coordenador do curso de especiali-zação Direito e Conjuntura do GVlaw, José Eduardo Faria, alguns meios de comunicação se comportaram como justi-ceiros e colaboraram para desacreditar o Judiciário perante uma população alarmada. “Quando se transforma a Justiça num grande espetáculo midiático e se elimina o garantismo processual, isso abre caminho para certo tipo de protofascis-mo. A população reagiu o tempo todo por um critério de passionalidade e emotividade, e o Direito, principalmente a legislação processual, não é emotivo nem passional”, co-menta. E grifa de todo o caso uma cena que o marcou parti-cularmente: “Sabia-se que a tentativa de fazer um exame, a princípio, pericial, jogando uma boneca do tamanho da me-nina lá de cima, se transformaria numa foto muito forte, que acaba tendo um efeito dramático. Ou seja, num determinado momento, a icção é maior do que a própria realidade”.
Outro sestro observado na cobertura foi o prestígio que os órgãos conferiram a fontes nem sempre revestidas da legiti-midade imprescindível para discorrer sobre o crime, sobre o inquérito, sobre a perícia e sobre as fases do andamento do processo. Um personagem reabilitado pelos veículos no caso Isabella foi o perito alagoano George Sanguinetti, célebre por sua polêmica intrusão nas investigações da morte de PC Farias, o ex-tesoureiro de
campanha do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Contratado pelos advoga-dos do casal Nardoni, o perito desqualiicou laudos periciais da área cientíica da polícia.
O jornalista Joaquim de Carvalho, autor do livro
Basta! Sensacionalismo e Farsa na Cobertura
Jornalís-tica do Assassinato de PC Farias, não reconhece qualiicação
técnica em Sanguinetti e denuncia a falta de critérios dos órgãos da imprensa em assegurar-lhe espaço tão privilegiado. Para Carvalho, o médico alagoano não pode ser identiicado como legista, pois jamais foi lotado em um Instituto Médi-co-Legal e nunca foi aprovado em concurso público para esse cargo. “Na época do caso PC, Sanguinetti dizia coisas absurdas. Aí fui ao IML de Alagoas e pedi que me informas-sem das necrópsias que ele já havia feito ali. Sabe o que me responderam por escrito? Nenhuma”, contou Carvalho ao Observatório da Imprensa.
O responsável pelo jornalismo do Sistema Globo de Rádio e apresentador da TV Cultura, Heródoto Barbeiro nos conta que Sanguinetti foi “barrado” na cobertura das empresas em que milita: a rádio CBN e a própria Cultura. “É uma fonte sem credibilidade, portanto não pode fazer parte de reporta-gens sérias. Ficou evidente a busca da publicidade de um lado e o desespero da defesa dos acusados de outro”, justiica.
Mas outras fontes palpiteiras foram procuradas pelos ca-nais de TV, programas de rádio e sites em busca de pontos de audiência. “A imprensa entrevistou advogados que não tinham nada a ver com o caso. Por questão de ética, esses bacharéis teriam de dizer: ‘Não dou palpite porque não
te-nho o processo na mão nem sou advogado de nenhuma das partes...’ Mas a imprensa está no seu papel de entrevistar as pessoas...”, declara o advogado e ex-repórter policial, hoje professor de Legislação e Prática Judiciária da Faculdade Cásper Líbero, Edson Garcia Flosi.
Os “jurisconsultos das redações”
Muitas vezes no jornalismo investigativo o consumidor de notícias se depara com informações desencontradas e incompletas quando o fato envolve Justiça e Polícia. E a res-sonância magnética que o também jornalista José Eduardo Faria faz dos proissionais do jornalismo investigativo não é das mais lisonjeiras. “A maioria do reportariado não conhece a legislação civil e penal; não conhece o modus operandi do Ministério Público e do Judiciário, não consegue captar bem qual é a interação que existe entre eles; confunde decisão de mérito com decisão liminar e muitas vezes faz leituras precipitadas e equivocadas tanto da legislação quanto das provas documentais”, acredita.
Nem sempre o repórter está preparado para manusear te-mas do Direito. Edson Garcia Flosi também acredita que os institutos jurídicos e o funcionamento das instituições não são esclarecidos a contento para leitores, espectadores, ouvintes e internautas. Acredita que, no caso Isabella, o noticiário e a imprensa não izeram corre-tamente o dever de casa ao, por exemplo, não explicar de maneira mais comple-ta as razões pelas quais os acusados tiveram sua prisão preventiva decretada. Outro exemplo de desinformação realçado por Flosi: a im-prensa não divulgou que os indiciados tinham direito a não participar da reconstituição do crime, porque o acusado não é obrigado a produzir prova contra si próprio. “A imprensa não explicou essas questões do direito. Não precisa ser uma reportagem técnica, mas tem de conter as informações. Por exemplo, fala-se em homicí-dio qualiicado [o casal foi indiciado por homicíhomicí-dio doloso e triplamente qualiicado], mas muita gente do povo não sabe o que é homicídio qualiicado. Então, você diz que é aque-le que tem pelo menos uma das 14 qualiicadoras previstas no Código Penal, tais como traição, mediante paga, motivo torpe... Não precisa dar os 14 exemplos, mas o repórter pode listar três ou quatro para o leitor entender...”, pondera.
Antônio Angarita relativiza o papel dos jornalistas que militam nas editorias policiais. “No jornalismo especializado, em que o jornalista não é generalista, a cobrança é maior. Mas é excessivo pedir que o repórter tenha o saber que um proissional do Direito tem”, considera.
Lins da Silva enxerga qual é a raiz do despreparo dos jornalistas que circulam na área criminal. “Os jornais não investem no treinamento, em cursos de atualização inter-nos para os repórteres que cobrem essa área. Além disso, há muita falta de curiosidade intelectual por parte desses proissionais”, comenta.
“A maioria do reportariado não
conhece a legislação; nem o
modus operandi do Ministério
Público e do Judiciário”, diz o
editorialista Eduardo Faria
Heródoto Barbeiro prescreve aos repórteres o melhor a fa-zer na cobertura de casos criminais para escapar da confusão no trato com o Direito. “Primeiro, sempre que surgir uma dúvida, procurar um especialista. É melhor perguntar a um advogado do que errar e ter de corrigir”, aconselha.
Visando tapar os buracos nessas coberturas investigativas, em 2003 o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (São Pau-lo) lançou a segunda edição, revista e aumentada, do manual Noções de Direito para Jornalistas, que explica o be-a-bá da legislação e da jurisprudência para o “reportariado”. O guia prático foi distribuído entre as redações.
Pela internet também é possível o jornalista icar atualiza-do com as notícias e tema da esfera atualiza-do Direito por meio atualiza-do site “Migalhas”(www.migalhas.com.br) e da revista eletrôni-ca “Consultor Jurídico” (conjur.com.br).
Os “pauteiros das nossas delegacias”
A peça Beijo no Asfalto (1960), de Nelson Rodrigues, é
até hoje de impressionante atualidade como convite à me-ditação para quem quer que se debruce sobre ética no jor-nalismo, sobre os riscos do denuncismo e sobre a prevalên-cia da hipocrisia na sociedade. Podemos resumir a história assim: um homem é atropelado e, antes de morrer, pede a um transeunte – um
ho-mem desconhecido, inclu-sive, casado – que o beije na boca. O passante beija o moribundo, numa cena lagrada por um repórter policial sensacionalista. O jornalista cria uma história fantasiosa – e pirotécnica – em que os dois eram da-dos como amantes. Pronto, estava armado o circo e o
transeunte é submetido à execração pública.
A boa prática jornalística – consagrada nos manuais de redação e nas aulas universitárias de ética no jornalismo – reza que nem réus confessos de homicídio podem ser eti-quetados como assassinos. A edição nº 2057 da revista Veja,
de 23 de abril deste ano, trazia na capa a imagem do casal, envolto numa penumbra, com o título em caixa alta: “Fo-ram eles”. Embora – reconheçamos – ressalvando que as conclusões eram da polícia, a reportagem intitulada “Frios e dissimulados” assinalava: “O ‘monstro’ que matou a me-nina Isabella e que seu pai, Alexandre Nardoni, em carta divulgada à imprensa, prometeu não sossegar até encontrar estava, ainal, diante do espelho. E a mulher, que também em carta airmou ser a criança ‘tudo’ na sua vida, ajudou a matá-la com as próprias mãos”.
“No jornalismo de sucesso imediato, ‘sem texto’, você lê a manchete, o subtítulo e não lê a matéria. Esse jorna-lismo de manchete é para aumentar a clientela”, destaca Angarita. Em seu site, o jornalista Guilherme Fiúza acu-sou a polícia de “excitar” e “jogar iscas” para a imprensa. Reclamou também do fato de a delegada responsável pela investigação ter declarado a dada altura que o crime estava 70% esclarecido. “Os delegados não têm direito de falar em
percentuais, simplesmente porque essa escala não existe – nem para reconstituição de crime, nem para apuração de culpa.” E ironizou: “Será interessante se os locutores de futebol adotarem essa metodologia. Se o time A termina o primeiro tempo vencendo o time B por um a zero, é anunciado que o jogo está 50% ganho. (Se no inal o time B ganhar por quatro a um, bem, paciência…)”
Editorial do jornal Folha de S.Paulo de 9 de maio deste
ano, ao criticar a decisão do juiz que decretou a prisão pre-ventiva do casal – decisão essa injustiicada para a empresa –, protestou contra o fato de as autoridades se deixarem embalar pela opinião pública que cobrava vingança: “As autoridades estavam obrigadas a frustrar a expectativa da mídia, mas colaboraram para o show de truculência que foram a prisão e a transferência de duas pessoas que não ofereciam risco”. Editorial de O Estado de S. Paulo de 11 de
maio intitulado “A Justiça espetáculo” também expressou preocupação com o fato de juízes e promotores deixarem-se levar pelo clamor popular e pela exploração e apropriação do caso pelos veículos de comunicação (não raro atordoa-dos com as questões técnico-jurídicas e coniantes nas de-clarações da polícia).
Em pelo menos dois exemplos, os meios de comunica-ção compraram informa-ções da polícia que foram, depois, desmentidas. Dois investigadores garantiram em entrevista à revista Veja
que Alexandre Nardoni teria dado um tapa em Isabella, durante uma festa no salão do prédio onde moram os pais de Anna Carolina Ja-tobá. Não houve essa festa. Outro exemplo: a imprensa divulgou que o casal teria utilizado uma toalha e uma fralda para deter o sangue que escorria da testa de Isabella. Depois, a polícia airmou que a toalha não existiu. “Não sei se a imprensa tem condições de fazer uma apreciação precisa do que ouviu da polícia, quando só tem esta como fonte”, argumenta Angarita.
A imprensa parece estar vacinada pelo escândalo do sem-pre lembrado caso da Escola Base quando – por causa da pressa na apuração, do clamor popular e da coniança cega em uma fonte oicial irresponsável – seis inocentes tiveram suas reputações irremediavelmente estraçalhadas. Vale lem-brar: os donos da Escola foram acusados publicamente pelo delegado responsável pelo inquérito de submeter alunos a abuso sexual. “Os veículos de comunicação, embora sejam um negócio, são um negócio de outra espécie, que exige uma responsabilidade social e política e deveriam pensar duas vezes diante de apelos mais radicais do público”, con-clui Carlos Eduardo Lins da Silva. “É importante demar-car que a liberdade de imprensa é um bem inestimável no regime democrático e que as leis devem ser cuidadosas, primeiro para não limitar essa liberdade, e segundo para não deixar a imprensa fazer nenhuma maluquice”, arremata Antonio Angarita.