RES UMO:A partir de um a análise das reflexões de Freud sobre as
m otivações da guerra e as possibilidades da paz, presentes sobretudo nos textos “Considerações atuais sobre a guerra e a m orte” e “Por que a guerra?”, o autor formula a idéia de que o pacifism o poderia ser encarado com o um a expressão da pulsão de m orte, enquanto o reconhecim ento da guerra com o form a prim eira do socius poderia m anifestar um a expressão da pulsão de vida.
Palavras - c h ave : Guerra, paz, pulsão de m orte.
ABSTRACT: Eternal peace? From an analysis of Freud’s reflection on
the m otivations for war and the possibilities of peace present m ainly in the text “Current considerations on w ar and death” and “Why the war?”, the author develops the idea that pacifism could be seen as an expression of death instinct w hereas recognizing w ar as the vary form of the socius m ight m ean an expression of life instinct.
Ke y w o rds : War, peace, death instinct.
“… exigim os o eterno do perecível, loucos.”
Caio Fer n an d o Ab reu , in Pequenas epifanias
E
u poderia com eçar, vou fazê-lo, por um a tautologia que consiste no fato de retom ar a questão ‘Por que a guerra?’, para fazer dela o título de um discurso inspirado por um texto de Freud, m ais precisam ente por sua troca de cartas com Albert Einstein, ela própria intitulada “Por que a guerra?”. Este texto Psicanalista, diretorde pesquisa do CNRS, m em bro do Centro de Pesquisa Universitária Psicanálise e Práticas Sociais da Saúde, CNRS/ Université de Picardie, França.
Tradução de Sim one Perelson
A PAZ ETERNA?
*Mich e l Plon
*Um a prim eira versão desta reflexão foi publicada, a convite de Mario
foi publicado em Paris, em alem ão e em francês, em 1933, e, evidentem ente, pela própria razão da data, proibido no Terceiro Reich, estabelecido por aqueles dias.
Quanto à razão de retornar a este texto, de relê-lo hoje para com entá-lo, a sim ples referência à conjuntura geopolítica deste século responde, m e parece, am plam ente, à questão. Mas além desta atualidade abrasadora, cabe talvez subli-nhar o fato de que, para as pessoas da m inha geração, a guerra foi um a espécie de constante que nunca as abandonou, de perto ou de longe: de início, a guerra m undial, fria ou quente em seguida, lim itada ou nuclear, étnica, colonial ou civil, suja ou “lim pa”, m as sem pre e de qualquer m aneira guerra. Mas há ainda m ais. Com efeito, a leitura da nossa atualidade foi um pouco em baralhada desde que, num a noite de 1989, a cartografia geopolítica na qual estávam os politica-m ente, ou politica-m espolitica-m o ideologicapolitica-m ente construídos, politica-m odificou-se a ponto de fazer com que m uitos perdessem as suas coordenadas, aquelas que haviam se estabele-cido há m ais de m eio século — o Leste contra o Oeste, o liberalism o econôm ico contra o estadism o, a dem ocracia contra o totalitarism o: quer se tenha adotado ou com batido essas oposições, elas constituíam referências m ais consistentes, m ais concretas, m enos enviscadas nessa religiosidade que a oposição, cara ao sr. Bush e aos seus conselheiros, entre as forças do bem e as do m al, religiosidade que o escritor indiano Vidiadhar Suraijprasad Naipaul define com o a incapacida-de incapacida-de consiincapacida-derar o hom em enquanto hom em .
“Por que a guerra?” Durante m uito tem po, este texto, considerado aqui em sua totalidade — interpelação feita por Einstein a Freud, e resposta de Freud —1 foi catalogado pela m aioria dos psicanalistas, e isso não sem algum desprezo, no que se convencionou cham ar de ‘escritos antropológicos’, e m esm o ‘sociológicos’, de Freud, aqueles nos quais o fundador da psicanálise supostam ente teria aban-donado a neutralidade da sua poltrona para descer até a arena do social e do político, correndo o risco de proferir algum as banalidades e até m esm o de dene-grir o brasão psicanalítico. Sabem os ou deveríam os saber que será preciso a leitu-ra lacaniana ( LACAN, 1986 [ 1959-60] ) , especialm ente de O mal- estar na cultura, para que enfim a com unidade analítica, ao m enos um a parte dela, leia ou releia este texto e alguns outros, com o O futuro de uma ilusão, Massenpsychologie und ich- analyse
(Psicologia das massas e análise do eu) Moisés e o monoteísmo, e consiga reconhecer que se tratava, nestes textos, da questão da “condição hum ana”, da angústia existencial do hom em , do “recalcado” e do futuro da civilização.
Mas, para isso, Lacan, alguns anos depois deste sem inário sobre a ética, dará um destino particular a este breve texto de 1933, não hesitando em recorrer, a
1 Ainda em 1985, no volum e 2 da com pilação de artigos de Freud publicada pela PUF com o
seu respeito, a essa ironia m ordaz da qual ele tinha o segredo, para apontar que ao aceitar ocupar este lugar que a defunta Sociedade das Nações lhes destinava, a dos especialistas, de sábios da coisa, Freud e Einstein se exauriam , colocando-se a questão da pertinência, da existência e/ ou da essência da guerra, e não chega-vam senão a m ostrar a sua incom preensão desta coisa que, por colocar em jogo o incalculável, a saber, o gozo, não poderá senão ser rejeitada pela ciência ( LACAN, ( 1973-74) .
É preciso acrescentar, e isto não contribui para clarificar o estatuto deste tex-to, que Freud parece que estava, de antem ão, bastante distante quanto ao interes-se por um a troca com aquele que iria tornar-interes-se interes-seu interlocutor sobre esta ques-tão da guerra, posto que, ao narrar a Ferenczi, seis anos antes, seu prim eiro encontro com Einstein, lhe dizia com hum or: “ele é alegre, seguro e am ável, com preende tanto a psicologia quanto eu a física, então nos entendem os m uito bem ” ( FREUD, 2000, p.325) . Mais grave ainda, ao escrever a Eitingon no dia 8 de setem bro de 1932, enquanto estava talvez escrevendo este texto, fala de um a “suposta conversa com Einstein enfadonha e estéril”.2
O fato é que hoje, a leitura e a releitura deste texto no contexto contem porâ-neo — especialm ente o do im aginário dos hom ens políticos e dos m ilitares que rivalizam na invenção de conceitos novos, tal com o os de Estados delituosos [États voyous] , alvos previstos de guerras preventivas, assim com o tam bém o de considera-ções filosóficas, solicitando à psicanálise e aos psicanalistas que se encarregassem de certas m anifestações do psiquism o hum ano que Freud, para m encioná-las neste texto de 1933, m al abordava, tal com o a de crueldade ( DERRIDA, 2003) — conduzem a interrogar outra vez o sentido e o alcance deste questionam ento freu dian o. Em su m a, e com o anu n ciado desde o in ício, u m a in ter rogação repetitiva: em que o “Por que a guerra?” de Einstein e Freud pode nos esclarecer na reflexão que pode ainda suscitar esta questão: Por que a guerra?
ENTRE RABELAIS E MAQUIAVEL
É preciso, a princípio, interrogar este título e aquilo que o acom panha. Foi o próprio Freud que insistiu para que este term o guerra figurasse no título desta troca epistolar com Einstein, e esta insistência, a insistência em um a palavra, não deixa de lem brar o que ele m anifestou a propósito do term o ‘sexualidade’ e, de m odo m ais am plo, a sua convicção de que ceder sobre um a palavra já era ceder em três quartos sobre o conteúdo do pensam ento.3 As razões que ele dá para justificar esta insistência, que se torna rapidam ente exigência, e a sua sugestão,
2 Citado por J. Altounian, A Bourguignon, P. Cotet e A Rauzy, tradutores de Por que a guerra?, in
Freud, S. O C P, v.XIX. Paris: PUF, 1995, p. 63.
3 É Jean Laplanche quem lem bra, precisam ente a propósito dos term os sexual, sexualidade, esta
não m enos insistente, do título definitivo sob a sua form a interrogativa “W arum Krieg?” — form a que, sublinha ele, “soa bem ” em francês e não deixará de fazer efeito4 — são m uitos elem entos que conduzem a levar este título a sério, a des-tacar o fato, que não é um detalhe, de que ele pode dar lugar ao m enos a duas leituras que não são nada m enos do que contraditórias.
Um a prim eira leitura, que eu cham arei de finita, se fundam enta na e alim enta ao m esm o tem po um a posição filosófica, e m esm o política, que podem os desig-nar pelo term o pacifismo; ela é m arcada por um certo perfum e kantiano, particu-larm ente o do projeto da paz perpétua. Um a segunda leitura, talvez haja outras, se inscreve de m aneira inversa na perspectiva do infinito, escapando ao a priori de qualquer form a de consideração m oral, oferecendo aqui à reflexão psicanalítica a possibilidade de poder continuar a se confrontar, para desenvolver a sua abor-dagem , com a coisa política.
A prim eira leitura im plica escutar na própria form ulação desta interrogação a existência de um a escolha anterior à questão colocada, Por que a guerra? Nesta pers-pectiva, a questão deve ser escutada com o um a colocação em causa desta escolha anterior, um a espécie de questão incluída na questão explícita: por exem plo, “Por que a escolha da guerra?”, ou ainda, um a form ulação m ais crítica: “Por que
esta escolha da guerra?, ou m esm o, explicitação dos term os entre os quais a esco-lha anterior foi feita — ou está prestes a ser feita pois, lem brem o-nos, este texto foi escrito em 1933 — “Por que a guerra e não a paz?” Na perspectiva desta prim eira leitura, é claro que o questionador pretende m anifestar o seu desacordo com a escolha anunciada, na m edida que a adesão a um a escolha im plica que a apoiem os, que a ratifiquem os e não que a questionem os, salvo se usam os esta form ulação interrogativa com o um procedim ento retórico, exclam ativo, anun-ciando um a explicação desta escolha:
“Por que a guerra? Eu vou explicar-lhe! Mas se deixam os de lado este caso particular
de um diálogo im aginário didático, da ordem daqueles que agradam a Freud, e que ele desenvolve particularm ente em seu texto sobre a Análise profana, se optam os pela conotação crítica deste título, devem os esperar que, além da crítica à escolha efetua-da, o texto seja um a defesa de um a outra solução, um a outra solução que não a
guerra, ou ao m enos a defesa de um a busca resoluta e infatigável, verdadeiram ente kantiana, desta outra solução, a paz. Defesa ou resolução argum entada, Rabelais não esperou Kant para exprim ir esta posição pela voz do pai de Gargântua, Grandgousier, que, antes que este enviasse um a carta e seu referendário a Picrochole, que o havia
atacado em suas terras, declarava nos bastidores: “Eu apenas em preenderei a guerra quando tiver tentado todas as artes e m eios da paz.” ( RABELAIS, 2002, p.249)
Mas a questão freudiana pode, tam bém ( segunda leitura) colocar em jogo um a outra, absolutam ente outra anterioridade, aquela que constitui a constatação prévia da existência da guerra em si, fenôm eno, processo ou fato que não é possível buscar erradicar ou substituir, m as do qual se tem a am bição, m ais ou m enos claram ente enunciada, de descobrir a natureza, a essência ou a razão de ser. A guerra, fenôm eno ou dado que se considera com o quase universal e trans-histórico e a propósito do qual se visa dissertar à m aneira por exem plo de um Clausew itz ( 1955) : Da guerra, título program ático dado por este autor à sua obra consagrada por inteiro à explicação e à descrição do fenôm eno ‘guerra’ em seus diversos aspectos. O título freudiano não im plica então nenhum a escolha a priori; ele é ao m esm o tem po um a questão do tipo daquelas que se pode dirigir a um “especialista”, ou suposto especialista, do dom ínio em questão, o expert do qual Lacan zom ba: “Por que a guerra?” deve então ser escutada no m esm o registro de outras questões: “Por que os terrem otos ou os m arem otos?”, questões que anun-ciam , quando revestem um a form a escrita, um a resposta explicativa. A atitude deste “expert” de suposto saber, que ao form ular ou reform ular a questão deixa enten-der que ele vai se esforçar para respondê-la de m odo m ais ou m enos exaustivo, é um a atitude que podem os qualificar de realista m as tam bém de exploradora. Neste sentido, eu falei de um a opção dirigida para o infinito, aberta à pesquisa e às suas surpresas, m esm o que estas sejam paradoxais ou perturbadoras. Tratando-se m ais precisam ente da guerra e das sobrecargas ideológicas de todas as espé-cies, cujo vocábulo é portador, esta atitude realista com freqüência é qualificada de cínica, e m esm o, a título de um a term inologia transviada, de perversa, posto que ela considera a guerra sem julgar ou prejulgar aquilo que o fenôm eno im pli-ca na ordem da m oral: é a atitude que exprim e Maquiavel — atitude que lhe vale ser identificado erroneam ente ao maquiavelismo5 — no final da sua existência, da sua experiência e da sua obra:
“O quão longínquo eu m e lem bre, escreve ele num a carta a Francesco Guicciardini, ou se faz a guerra, ou se fala dela; atualm ente, fala-se dela; daqui a pouco, se a fará e quando ela tiver term inado se falará dela novam ente, e isto de tal m aneira que ela
nunca estará ausente dos nossos pensam entos.”6
5 Cf., para um a refutação radical desta assim ilação, que im plica um a leitura m ais do que
apro-xim ativa da leitura do Florentino, Claude Lefort, Machiavel, le travail de l’oeuvre. Par is: Gallim ard, 1972, particularm ente o capítulo intitulado “ o nom e e a representação de Maquiavel” , e tam -bém , entre outros textos m ais recentes, a apresentação e os com entários de Jean-Louis Fournel e Jean-Claude Zancarini, que acom panham a tradução de O príncipe. Par is: PUF, 2000.
6 Mach avelli, Lettere. Milão: Feltrinelli, 1981, Carta a Francesco Guicciardini de 3 de janeiro de
Para saber qual das duas leituras de um título nada m enos do que enigm ático, convém privilegiar, é evidente que é preciso ler, reler com atenção um texto que descobrim os estar perfeitam ente “em contato” com a nossa contem poraneidade e que abre a am plos desenvolvim entos.
FREUD ENTRE ILUSÕES E DES ILUSÕES
Desde as prim eiras linhas da carta que dirige a Freud, Einstein circunscreve um a das dim ensões essenciais do problem a e ao m esm o tem po desvela em que con-siste a sua posição, a de um pacifista que longe de dedicar-se beatam ente às suas ilusões, está à procura dos m eios suscetíveis de “liberar os hom ens da fatalidade da guerra” ( FREUD, 1995, p.65) . A tarefa lhe parece ainda m ais im portante, visto que as conseqüências da guerra, com a ajuda do desenvolvim ento tecnológico, tom aram , com o ele escreve, ele que sabe do que fala no que concerne a esta tecnologia, “proporções assustadoras” ( idem ) . Einstein prossegue a sua reflexão constatando que o único m eio de evitar a guerra suporia a instalação de um a autoridade legislativa com condições de arbitrar as situações litigiosas. No hori-zonte deste pensam ento, podem os identificar a então ainda existente Sociedade das Nações, im aginar a sua seqüência, a ONU, instalada depois... da Segunda Guerra Mundial,7 e m esm o, bem m ais tarde, a difícil e sem pre precária constru-ção da entidade européia. Mas, para além disto, se perfila a direconstru-ção desta perspec-tiva que se poderia cham ar de perversa, o horizonte nada m enos do que contra-ditório, voltarem os a isto, de um a espécie de isom orfism o entre um determ ina-do Estaina-do — sua cultura, sua civilização, e m esm o sua língua e o que ela im plica do ponto de vista do psiquism o — com o universo inteiro, a ponto que se alcan-ce um a entidade UMA que não conhealcan-ceria m ais exterior.8 Nada de forçado, m e parece, nesta interpretação do pensam ento de Einstein que escreve: “assim se im põe a m im esta prim eira constatação: a via que conduz à segurança internaci-onal passa pela renúncia incondiciinternaci-onal dos Estados a um a parte de sua liberdade de ação, ou seja de sua soberania,9 e deveria estar fora de dúvida que não há outra 7 Talvez seja necessário sublinhar a pr udência, eventualm ente im pensada, da m aioria dos
auto-res, historiadoauto-res, ensaístas, jornalistas e outros que falam da segunda [deuxièm e] guerra mun-dial e não da segunda [seconde] . [ Advertim os que Michel Plon faz referência aqui a um a distin-ção que não tem os na nossa língua entre os dois ter m os — deuxièm e e seconde — que significam segundo ou segunda. Enquanto, num a enum eração, o term o deuxièm e im plica a existência de um a continuação, quando haveria necessariam ente um a terceira guerra m undial, ou um a quarta, e assim por diante, o term o seconde indica a inexistência de um a continuação — neste sentido, a segunda ser ia tam bém a últim a guerra mundial.] ( N.da T.)
8 Fethi Beslam a observa que, assim , o que se cham ou de “ ocidentalização do mundo” ,
proces-so que se inaugura no século XVI, chegaria ao seu fim neste início do século XXI, englobando então o conjunto do planeta “m arcando ao m esm o tem po o seu fim ao se exterm inar”. Benslam a, Fethi. “ Le m ot de la fin” , L’Hum anité Dim anche, 8 de setem bro de 2002.
via que conduza a esta segurança”( FREUD, 1995, p.66) . Até aqui o grande físico é efetivam ente m ais kantiano do que poderíam os im aginar: ele está próxim o desta distinção que efetua o filósofo entre um tratado de paz, que coloca fim a um a guerra m as não ao Estado de guerra, e uma aliança de paz, cuja extensão em todos os Estados conduziria à paz eterna através da instauração de um poder suprem o. Mas o físico é tam bém realista, sem dúvida m ais que o filósofo: ele observa que a esta sua perspectiva pacifista opõem -se os desejos de poder de todos os Estados pou-co inclinados a aceitar o m enor golpe à sua soberania e nota que este desejo de poder político quase sem pre é a expressão de um outro, m ascarado, o desejo de um poder econôm ico sem lim ites, em anando de pequenos grupos já possuido-res de riquezas.
Não podem os, evidentem ente, deixar de nos espantar com a pertinência, ain-da hoje, destas observações, a ponto de considerar que não apenas a situação do m undo em relação a esta am eaça que constitui a guerra não m udou, m as que talvez ela tenha piorado. A originalidade de Einstein, se fizerm os o esforço de ressituar a sua reflexão em seu contexto histórico, consiste no apelo por ele lançado a Freud para intervir a partir de seu próprio terreno, de m odo a tentar responder por que e como as m assas hum anas aceitam com tanta facilidade colocar suas vidas a serviço de grupos m inoritários. Este questionam ento é no fundo aquele que podem os experim entar, e trata-se aqui de um exem plo dentre vários outros, ao olhar esta foto que todos vocês viram m ais de um a vez, esta foto de um jovem soldado chileno, com um capacete na cabeça com o um soldado ale-m ão dos anos 1940 e arale-m ado coale-m uale-m fuzil ale-m unido de uale-m a baioneta: o que podia se passar na cabeça deste soldado e de tantos outros no Chile, ou qualquer outro lugar, atrás deste olhar duro e fechado; será que verdadeiram ente os seus in teresses, n ão ap en as eco n ô m ico s, estavam d o lad o d e Pin o ch et? Este questionam ento explicitam ente dirigido a Freud indica de m aneira im perceptí-vel um a m udança de posição do físico: de um a posição puram ente pacifista — prim eira leitura indicada do título do conjunto do texto — para um a posição exploradora: ele considera o fato da guerra para interrogar a sua essência. Um a vez que o condicionam ento ao qual as m assas são subm etidas por parte das instituições, aparelhos religiosos ou de com unicação não pode se constituir num a explicação suficiente, é preciso, insiste Einstein, que haja no hom em a presença de um a necessidade de odiar e de aniquilar. O que pensa a esse respeito “o conhecedor das pulsões hum anas?” Este especialista conhece um m eio de dirigir para outros objetivos estas pulsões negativas; existe um m eio de canalizá-las e de dar aos hom ens a possibilidade de resistir a elas?
os “progressos” trazidos pela civilização em troca da coerção exercida sobre os transbordam entos pulsionais dos hom ens e as frustrações vividas pela m esm a razão por cada um deles, assim privados de toda ou de parte das satisfações que teriam podido retirar da realização de seus objetivos pulsionais, fossem eles quais fossem . Mais ainda: é preciso inscrever este breve texto de 1933 na perspectiva aberta pelo de 1915, ele tam bém em parte um texto de “ordem”, Considerações atuais sobre a guerra e a morte ( FREUD, 1988, p.125-155) : o contexto de guerra e de pré-guerra, no qual eles são redigidos, une em prim eiro lugar estes dois escritos, m as tam bém o tipo de jogo ao qual se entrega Freud entre as falsas ilusões e as desilusões não m enos falsas que o fenôm eno da guerra pode alim entar, com o se ele estivesse dividido, desejoso de desafiar toda form a de angelism o, por um lado, m as se recusasse, por outro, a renunciar às suas esperanças pacifistas.
No texto de 1915, Freud com eça declarando antes de tudo um a desilusão:
“Esperávam os que as grandes nações de raça branca, dom inadoras do m undo, às quais cabe a liderança da espécie hum ana, que sabíam os possuírem com o
preocupa-ção interesses de âm bito m undial, a cujos poderes criadores se deviam não só nossos progressos técnicos no sentido do controle da natureza, com o tam bém os padrões artísticos e científicos da civilização — esperávam os que esses povos conseguissem descobrir outra m aneira de solucionar incom preensões e conflitos de interesse. ( ...)
Poder-se-ia supor [ que eles] adquiriram tanta com preensão do que possuíam em com um , e tanta tolerância quanto a suas divergências, que ‘estrangeiro’ e ‘inim igo’ já não podiam fundir-se, tal com o na Antiguidade clássica, num conceito único.” ( FREUD, 1988, p.128-129)
Contudo, assim que term ina de form ular esta longa exclam ação, Freud apres-sa-se em nos esclarecer que a ilusão que ela insinuava era apenas factícia: “Então, a guerra na qual nos recusávam os a acreditar irrom peu, e trouxe desilusão”, um a desilusão m as um a desilusão que “não se justifica, pois consiste na destruição de um a ilusão” ( idem , p.131) , a qual “baseou-se num a ilusão a que havíam os cedi-do. Na realidade, nossos cidadãos não decaíram tanto quanto tem íam os porque nunca subiram tanto quanto acreditávam os” ( idem , p.138) . Não podem os resis-tir à tentação de aproxim ar esta m arca da ancoragem freudiana a um ceticism o que funciona com o lim ite às suas esperanças utopistas, da observação de Michel Foucault que, m esm o parecendo não ter lido o texto freudiano sobre a questão, não deixa de revelar os seus fundam entos em seu com entário sobre Nietzsche:
é o prazer calculado da anim osidade, é o sangue prom etido. Ela perm ite relançar incessantem ente o jogo da dom inação; coloca em cena um a violência m eticulosa-m ente repetida.” ( FOUCAULT, 1971 [ 1994-2001] , p.1.015)
O “prazer calculado”, o “sangue prom etido”, não se trata aqui do que cons-titui a m atéria-prim a do gozo evocado por Lacan ao com entar este texto de Freud e deste registro do pulsional ao qual Freud vai recorrer para responder às questões de Einstein?
Se a construção do texto de 1933 m antém -se m arcada de esperanças pacifis-tas e de ilusões de erradicação — sonha-se, aqui, assim com o em O mal- estar, com um a “cam ada superior dos hom ens dotados de m entalidade independente, não passível de intim idação e desejosa de m anter-se fiel à verdade, cuja preocupação seja a de dirigir as m assas dependentes” ( FREUD, 1995, p.79) e o autor im agina um a “situação ideal [ que seria um a] com unidade hum ana que tivesse subordi-nado sua vida de instintos ao dom ínio da razão” ( idem )10 — , a sua tonalidade tende cada vez m ais para um realism o que o conduz a considerar que se trata aqui de m ais do que verossim ilhantem ente um a “expectativa utópica” ( idem , p.79) , e a propor a Einstein, desde as prim eiras linhas do texto, substituir o term o “poder” por “violência” ( idem , p.70) .
É evidente que Freud gostaria de acreditar no direito, na instituição regulado-ra que Einstein invoca, ele que confessa ser, assim com o o seu correspondente, um incorrigível pacifista; m as não pode se privar de observar que essas form a-ções institucionais derivam da violência, que elas são a estabilização momentânea
de um a relação de força — um tratado de paz, não um a aliança de paz — estabilização de um a diferença que havia conduzido ao afrontam ento para se soldar, seja pela destruição de um deles — ao assassinato — , seja pela sua subm issão à lei do vencedor. Mas a nova ordem assim estabelecida não é feita para durar, e se Freud se lem bra das últim as linhas de seu escrito de 1915 e da lem brança do velho adágio com o qual concluía sua reflexão — “se você quer m anter a paz, arm e-se para a guerra” — chegando desta vez a evocar o paradoxo que afirm ava que a guerra pudesse ser o m eio apropriado “para instaurar a paz ‘eterna’” ( idem , p.73) , ele não se deixa enganar de m odo algum por esta ordem , observando que os sucessos da conquista não são nada duráveis, seja porque a entidade vitoriosa tornada UMA não tarda ela própria a se dividir para abrir a um a nova relação de força e a outros afrontam entos violentos, seja porque o subm etido, o escravo,
1 0 Devido à divergência da tradução brasileira e da tradução francesa deste trecho da obra de
não assassinado, espera apenas o m om ento oportuno para se erguer e lutar nova-m ente para reencontrar a sua liberdade.
Em erge então, m esm o se Freud não a identifica com o tal de m aneira explícita em seu texto, um a oposição entre um conflito ou um a contradição aparentemente
prim eiros e incontornáveis, m as a respeito dos quais som os conduzidos a nos perguntar se eles não m ascaram um outro, ou um a outra, o conflito verdadeira-m ente priverdadeira-m eiro, a divisão inicial e fundaverdadeira-m ental. O que parece everdadeira-m ergir neste ponto da reflexão é, com efeito, um conflito entre duas entidades utópicas, duas form as do UM: a resultante da esperança de poder extirpar, exterm inar definiti-vam ente toda form a de guerra11 para alcançar um a paz eterna e a resultante da própria guerra, processo suscetível de conduzir pela violência ao aniquilam en-to12 de toda form a de outro, a um universo não portando m ais traço de qualquer
logos separador. Em sum a, a paz eterna e seu horizonte de um a unidade sem falhas e sem lim ites e/ ou o que Hannah Arendt cham ou de totalitarismo, a dom inação do
UM, indivíduo ou entidade.
Mas trata-se, aqui, de um a oposição falaciosa, de um a falsa contradição entre duas utopias, que vem ocultar a constatação, antes de tudo m aquiaveliana, do prim ado da divisão,13 constatação tam bém foucaultiana,14 que se serve, am pla-m ente, no que concerne a estas questões, da perspectiva nietzschiana da guerra
1 1 Em Actuelles ( op. cit.1988, p. 134) . Freud já obser va a inutilidade, e m esm o a im possibilidade
de qualquer form a de exter m ínio do m al, já que as suas raízes são pulsionais, intrínsecas à hum anidade. Observação que abriria a um a reflexão própria sobre a im possibilidade da idéia de exterm ínio e à exasperação bárbara, a qual este im possível pode conduzir em determ inadas circunstâncias.
1 2 É esta idéia de aniquilam ento que reencontram os nos fundam entos da idéia de fim , quaisquer
que sejam os m eios, violentos ou naturais, que conduzem a ela: fim stalinista da luta das classes, fim , a título de um hegelianism o, assaz desencam inhado, da história. Notem os tam -bém que é este term o “ aniquilam ento” , “ aniquilam ento do estado capitalista” que reencon-trávam os, cem vezes repetido de m odo invocatório, nos textos do m ovim ento das Brigadas Verm elhas, a respeito do qual o m ínim o que se pode dizer é que ele não se privava da econo-m ia do gozo, do “ prazer calculado do encarniçaecono-m ento” e do “ sangue proecono-m etido” .
1 3 Sem entrar aqui num com entário apropriado do texto de Maquiavel — e isto vale tam bém
para as alusões seguintes aos escritos de Michel Foucault — pois o contexto destas poucas notas sobre a reflexão freudiana não se presta a isto, m esm o se esta reflexão convoca a psicaná-lise a ir em direção a este além que lhe faria aproxim ar-se m ais do discurso filosófico sobre a guerra e a política, destacarem os esta observação de Jean-Louis Fournel e Jean-Claude Zancarini em seu texto já evocado qu e, citan do Maqu iavel em su as Histórias florentinas — “ acon tece freqüentem ente que um a dessas duas partes, depois de ter vencido, se divide em duas — sublinham que esta tese do “ um se divide em dois” constitui “ o fundam ento do interesse que pode suscitar Maquiavel no pensam ento m arxista e, m ais am plam ente, em todo pensam ento de ruptura radical” . Op. cit, n. 22, p. 150-151.
1 4 Aqui, outra vez, o contexto não autoriza a entrarm os nos detalhes de um a discussão, aliás do
com o constituindo a tram a ininterrupta da história da hum anidade, da “guerra que se desenvolve assim sob a ordem e sob a paz, [ da] guerra que trabalha a nossa sociedade e a divide de um m odo binário”; constatação que conduz parti-cularm ente Foucault a sustentar a transm utação da proposição clausw itziana — a respeito da qu al ele observa de m an eira in sisten te qu e ela própria é u m a transm utação da proposição inicial e anterior à qual ele assim retorna — para dizer que a política é a continuação da guerra e não o inverso.15 Oposição falaciosa, então, pelo fato de que ela não cessa, qualquer que seja o term o privilegiado da alternativa que a constitui, de descartar, de recobrir, recorrendo para isto e em últim a instância a todas as form as da m oral, laicas ou religiosas, o caráter binário do social, a noção de guerra com o prim eira, guerra no sentido darw iniano,16 depois guerra política fundam entada na soberania, guerra econôm ica e social em seguida, guerra no detalhe de qualquer form a de cotidiano, enfim .
Mas se retornam os à terra natal, psicanalítica, da letra freudiana, a questão que se coloca é saber o que pode acrescentar aqui a psicanálise, ou o que se supõe que ela seja, que não m era repetição.
Cabe em prim eiro lugar considerar que quando Freud escreve que “estare-m os fazendo u“estare-m cálculo errado se desprezar“estare-m os o fato de que a lei, original-m ente, era força bruta e que, original-m esoriginal-m o hoje, não pode prescindir do apoio da violência”( FREUD, 1995, p.75) , ele não se rende, não apenas a um a constatação conjuntural, política, poderíam os dizer, m as introduz o que vai constituir a es-sência da segunda parte da sua carta, a dim ensão deste pulsional, cuja aues-sência Lacan parecia deplorar em sua crítica, e conseqüentem ente a inextricável arti-culação das duas pulsões que o estruturam , pulsão de vida e pulsão de m orte. O que aponta Lacan em seu com entário crítico, este gozo — cuja existência e sentido não podem senão ser ignorados pela ciência, porque escapam a qualquer form a de m edida, porque são rebeldes à dim ensão do quantitativo — Freud, à sua m aneira, o circunscreve, respondendo assim à questão einsteiniana, que po-dem os tam bém reform ular de m aneira brutal, pensando no jovem soldado chi-leno, dizendo: “Por que então os hom ens vão para a guerra?”. Freud responde:
“...quando os seres hum anos são incitados à guerra, podem ter toda um a gam a de
m otivos para se deixarem levar — uns nobres, outros vis, alguns francam ente decla-rados, outros jam ais m encionados. Não há porque enum erá-los todos. Entre eles está
15 Incontornável, a respeito destas questões, se querem os desenvolver essa discussão, que, levada a sério, conduz inevitavelm ente este Por que a guerra? de Einstein e Freud, à leitura do curso de Michel Foucault no Collège de France ( 1976) , Il faut défendre la société, Paris, Hautes Etudes, Gallim ard, 1997.
certam ente o desejo de agressão e destruição: as incontornáveis crueldades que en-contram os na história e em nossa vida de todos os dias atestam a sua existência e a sua força.” ( idem , p.76-77)
Situando esta pulsão de m orte no centro de seu discurso, não sem que repare-m os — e lendo-se o que se diz a seu respeito, hoje, as ladainhas às quais ela dá lugar, a observação conserva m ais do que nunca a sua validade — que a sua “popu-laridade não é de m odo algum igual à sua im portância” ( idem , p.77) , Freud subli-nha que esta pulsão, de destruição quando voltada para o exterior, o outro, o estra-nho, o hostil, não está longe talvez de assegurar ao ser hum ano a preservação da “sua própria vida, por assim dizer, destruindo um a vida alheia” ( idem ) .
Não seria o m om ento de retornar a este ponto — de algum m odo de dar, de dar de novo vida, se podem os falar assim — a este sentido profundam ente freudiano da pulsão de m orte com o participando da vida, e conseqüentem ente não apenas assim ilável à m orte, com preendida com o processo de desapareci-m ento, de aniquiladesapareci-m ento ou de exterdesapareci-m ínio; da pulsão de desapareci-m orte codesapareci-m o “retorno ao inanim ado”, com o expressão da “necessidade de restabelecer um estado ante-rior” ( FREUD, 1920-1981) ? Som os então conduzidos a perguntar a nós m esm os se o pacifism o, com o que ele im plica de negação da partição, da divisão prim ei-ra, com o que recusa tom ando partido — tom ar partido, estar em um ou outro dos dois pólos da binaridade constitutiva de toda sociedade hum ana — com o que supõe de busca m ais ou m enos confessada e silenciosa — Freud qualifica com o silencioso o trabalho da pulsão de m orte — deste fim último que seria a paz eterna — nunca m ais a guerra — não seria um a das expressões m ais paradoxais — m as se o inconsciente ignora a contradição, ele não rejeita o paradoxo — da pulsão de m orte. Inversam ente, pareceria que o reconhecim ento da guerra com o form a prim eira do socius, e m ais ainda o da sua continuação, na sua form a m enos m arcada de crueldade, a política, produto extrem am ente precioso destes proces-sos culturais aos quais Freud consagra as últim as linhas de seu texto, constituiria a m anifestação da pulsão de vida. Paradoxo de aparência escandalosa, que não se deixará de buscar desm entir confrontando-o a situações concretas das quais se fará um uso apressado e abusivo, um uso inscrito na perspectiva de um a história atual, de um a história de pequena duração que se poderia opor sem dificuldade a um a outra, de longa duração, cara a um Fernand Braudel.
cegueira, que se opõe de todos os lados a este aparente paradoxo, não se traduz pela rejeição e m esm o pela espécie de repugnância que vários de nossos contem -porâneos de todos os países m anifestam em relação à política; se estas m anifesta-ções de desinteresse pela coisa política, que não se lim itam ao abstencionism o eleitoral, que é apenas um sintom a, não seriam anunciadoras de um tem po em que a guerra, a guerra sob todas as suas form as, reencontraria, sem m ediação sim bólica algum a, ou seja, sem entreato político, seu caráter de perm anência constatado por Maquiavel em seu tem po. O tem or, m anifestação da angústia e do m al-estar contem porâneos, deveria então ser ligado não à guerra em si, m ais um a vez prim eira e universal, m as às form as de que ela pode se revestir, aos transbordam entos quase im pensáveis a que pode dar lugar, com os progressos da ciência, contínuos desde os tem pos de Einstein, caucionando um suplem ento de crueldade do qual esta prática que tende a se expandir, nova em sua form a, a dos cam icazes, constituiria um dos sinais m ais evidentes, capaz de escapar aos nossos critérios de pensam ento.
REFERÊNCIAS
CLAUSEWITZ, Carl von. ( 1955) De la guerre. Paris: Minuit.
DERRIDA, J. ( s.d.) États d’âm e de la psychanalyse, Adresse aux États Généraux de la Psychanalyse. Paris: Galilée ( e m ais recentem ente, Voyous. Paris: Galilée, 2003) .
FOUCAULT, M. ( 1971) “Nietzsche, la généalogie, l’histoire”, in Hommage à Jean Hyppolite. Paris: PUF ( retom ado em Dits et écrits, Paris: Gallim ard, 1994, v.II e tam bém edição Quarto. Paris: Gallim ard, 2001, v.I)
FREUD, S. ( 2000) “ Correspondance ( Sandor Ferenczi, 1920-33) ” , in Les années douloureuses. Par is: Calm ann-Lévy.
. ( 1981) “Au delà du pr incipe du plaisir” ( 1920) , in Essais de psychanalyse. Paris: Payot.
. ( 1988) “ Actuelles sur la guerre et la m ort” , in OCP, v.XIII. Paris: PUF. ( “ Considerações atuais sobre a guerra e a m orte” , in ESB, v.XIV.) . ( 1995) “ Pourquoi la guerre? Lettre d’Einstein à Freud”, in OCP,
v.XIX. Paris: PUF.
LACAN, J. ( 1986) Le Sém inaire, livre VIII, L’éthique de la psychanalyse ( 1959-60) . Paris: Seuil.
RABELAIS. ( 2002) Gargantua, prefácio de Michel Butor. Paris: Gallim ard ( Coll. Folio classique) .
Michel Plon