FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS
ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA CENTRO DE FORMAÇÃO ACADÊMICA E PESQUISA CURSO DE MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
ESCRITÓRIOS ABERTOS: INTERAÇÃO OU CONTROLE?
DISSERTAÇÃO APRESENTADA À ESCOLA BRASILEIRA DE
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
ANA PAULA CORTAT ZAMBROTTI GOMES
FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS
ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA CENTRO DE FORMAÇÃO ACADÊMICA E PESQUISA CURSO DE MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
ESCRITÓRIOS ABERTOS: INTERAÇÃO OU CONTROLE?
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO APRESENTADA POR ANA PAULA CORTAT ZAMBROTTI GOMES
E
APROVADA EM: 21 DE MARÇO DE 2002 PELA COMISSÃO EXAMINADORA
PROFA. SYLVI CONSTANT
VER ~
UTORA
EM EDUCAÇÃOEscritórios Abertos: Interação ou Controle?
AGRADECIMENTOS .. a
Agradeço à Professora Sylvia Constant Vergara, uma pessoa extremamente atenciosa e responsável, as suas sugestões, seu apoio e incentivo. Agradeço a firmeza com que conduziu a orientação dessa dissertação.
Sou grata, também, aos Professores Luis César Gonçalves de Araújo e Angela da Rocha, membros da Banca Examinadora.
Agradeço, especialmente, à Professora Licia de Oliveira pelas orientações, pelo apoio e incentivo desde o meu ingresso no curso.
Aos alunos dos Cursos de Pós-Graduação Lato Sensu da FGV que participaram da pesquisa de campo.
Agradeço à Eliane Bravo pela diagramação, pela paciência e pela colaboração durante a realização da pesquisa de campo.
Aos colegas da Turma 2000/2001 pelas discussões e pelo incentivo.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle?
APRESENTAÇÃO
Esta dissertação foi motivada pela crença de que o espaço físico exerce múltiplas influências sobre o comportamento dos indivíduos. A disseminação dos escritórios abertos tem sido associada à necessidade de aumentar a interação entre os membros das organizações para facilitar o trabalho em equipe e a troca de informações. Por outro lado, discute-se a possibilidade do espaço físico ser um mecanismo de controle.
Nesse contexto, esse estudo buscou verificar a percepção de membros de organizações com relação ao espaço físico do escritório, no que se refere às variáveis interação e controle.
o
estudo está estruturado em seis capítulos. O Capítulo 1 apresenta o problema de pesquisa, os objetivos, a delimitação e a relevância do estudo. Aborda, ainda, a metodologia utilizada.O Capítulo 2 apresenta a análise dos escritórios abertos com base na perspectiva de interação entre os indivíduos. Duas abordagens são tomadas como referência: a abordagem sócio-técnica e a abordagem das relações sociais.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle?
o
Capítulo 4 apresenta a análise dos escritórios abertos com base naperspectiva de controle. Para tanto, são tomados como referência os estudos de Foucault (1979, 1987) acerca do panóptico, um modelo de prisão baseado na arquitetura e na visibilidade constante. Além da arquitetura, outras formas de controle nas organizações são, ainda, discutidas.
o
Capítulo 5 expõe as quatro fases da pesquisa de campo, bem como seusresultados.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle?
RESUMO
Esta pesquisa discute o tema dos escritórios abertos com base em duas perspectivas: a interação e o controle. Busca responder ao seguinte questionamento: Até que ponto o escritório aberto constitui uma forma de aumentar
a interação entre os indivíduos nas organizações ou, ao contrário, é mais um mecanismo de controle? O levantamento do acervo bibliográfico permitiu a identificação de quatro abordagens relacionadas ao tema. Duas foram tomadas como referência para suportar a coleta e a interpretação dos dados, assim como as conclusões do estudo: a abordagem das relações sociais e a abordagem crítica. Os resultados da pesquisa de campo revelaram que o escritório aberto constitui uma forma de aumentar a interação entre os indivíduos nas organizações mas é, também, um mecanismo de controle.
ABSTRACT
Escritórios Abertos: Interação ou Controle?
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Sexo dos Sujeitos da Pesquisa ... 60
Tabela 2: Faixa Etária dos Sujeitos da Pesquisa ... 61
Tabela 3: Tipo de Atividade dos Sujeitos da Pesquisa ... 62
Tabela 4: Tempo de Trabalho na Organização ... 63
Tabela 5: Cargo Ocupado pelos Sujeitos da Pesquisa ... 64
Tabela 6: Ambiente de Trabalho dos Sujeitos da Pesquisa ... 65
Tabela 7: Posso tratar de assuntos de trabalho sem ser ouvido por outros ... 67
Tabela 8: Posso tratar de assuntos pessoais sem ser ouvido por outros ... 69
Tabela 9: Minha área de trabalho propicia a privacidade visual necessária para que eu realize o meu trabalho ... 71
Tabela 10: Tenho a oportunidade de conversar informalmente com meus colegas durante o trabalho ... 73
Tabela 11: Você costuma sair com colegas de trabalho fora do expediente? ... 75
Tabela 12: Seus colegas pedem informações sobre o trabalho a você? ... 77
Tabela 13: Você pede informações sobre o trabalho aos seus colegas? ... 79
Tabela 14: Você pede informações sobre o trabalho ao seu supervisor? ... 81
Tabela 15: Você recebe feedback dos seus colegas com relação ao trabalho realizado? ... 83
Tabela 16: Você recebe feedback do seu supervisor com relação ao trabalho realizado? ... 85
Tabela 17: Você fornece feedback aos seus colegas com relação ao trabalho realizado por eles? ... 87
Tabela 18: Você trabalha após o horário? ... 89
Escritórios Abertos: Interação ou Controle?
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Fatores que afetam a eficiência da organização ... 3
Figura 2: Níveis de Ruído no Escritório Aberto ... 14
Figura 3: Continuum Social ... 15
Figura 4: Escritório Aberto ... 21
Figura 5: Estímulo ao Trabalho em Equipe ... 22
Figura 6: Abertura do Espaço de Trabalho ... 25
Figura 7: Espaço Baseado na Hierarquia: Efeitos de uma Promoção ... 33
Figura 8: O Panóptico ... 38
Figura 9: Sexo dos Sujeitos da Pesquisa ... 60
Figura 10: Faixa Etária dos Sujeitos da Pesquisa ... 61
Figura 11: Tipo de Atividade dos Sujeitos da Pesquisa ... 62
Figura 12: Tempo de Trabalho na Organização ... 63
Figura 13: Cargo Ocupado pelos Sujeitos da Pesquisa ... 65
Figura 14: Ambiente de Trabalho dos Sujeitos da Pesquisa ... 66
Figura 15: Posso tratar de assuntos de trabalho sem ser ouvido por outros (Escritório Aberto) ... 68
Figura 16: Posso tratar de assuntos de trabalho sem ser ouvido por outros (Escritório Fechado) ... 68
Figura 17: Posso tratar de assuntos pessoais sem ser ouvido por outros (Escritório Aberto) ... 69
Figura 18: Posso tratar de assuntos pessoais sem ser ouvido por outros (Escritório Fechado) ... 70
Figura 19: Minha área de trabalho propicia a privacidade visual necessária para que eu realize o meu trabalho (Escritório Aberto) ... 71
Escritórios Abertos: Interação ou Controle?
Figura 21: Tenho a oportunidade de conversar informalmente com meus colegas durante o trabalho (Escritório Aberto) ... 74 Figura 22: Tenho a oportunidade de conversar informalmente com meus colegas durante o trabalho (Escritório Fechado) ... 74 Figura 23: Você costuma sair com colegas de trabalho fora do expediente? (Escritório Aberto) ... 76 Figura 24: Você costuma sair com colegas de trabalho fora do expediente? (Escritório Fechado) ... 76 Figura 25: Seus colegas pedem informações sobre o trabalho a você? (Escritório
Aberto) ... 78 Figura 26: Seus colegas pedem informações sobre o trabalho a você? (Escritório Fechado) ... 78 Figura 27: Você pede informações sobre o trabalho aos seus colegas? (Escritório Aberto) ... 80 Figura 28: Você pede informações sobre o trabalho aos seus colegas? (Escritório Fechado) ... 80 Figura 29: Você pede informações sobre o trabalho ao seu supervisor? (Escritório Aberto) ... 82 Figura 30: Você pede informações sobre o trabalho ao seu supervisor? (Escritório
Escritórios Abertos: Interação ou Controle?
Figura 36: Você fornece feedback aos seus colegas com relação ao trabalho
realizado por eles? (Escritório Fechado) ... 88
Figura 37: Você trabalha após o horário? (Escritório Aberto) ... 89
Figura 38: Você trabalha após o horário? (Escritório Fechado) ... 90
Figura 39: Seus colegas trabalham após o horário? (Escritório Aberto) ... 91
Escritórios Abertos: Interação ou Controle?
SUMÁRIO
CAPíTULO 1 - O PROBLEMA DE PESQUISA E A METODOLOGIA UTilIZADA ... 1
1.1 Introdução ... 2
1.2 Objetivos ... 5
1.3 Delimitação do Estudo ... 5
1.4 Relevância do Estudo ... 7
1.5 Tipo de Pesquisa ... 8
1.6 Universo, Amostra e Seleção dos Sujeitos ... 9
1.7 Coleta de Dados ... 9
1.8 Tratamento dos Dados ... 10
1.9 Limitações do Método ... 11
CAPíTULO 2 - TEORIAS COMPORTAMENTAIS ... 13
2.1 Considerações sobre a Influência do Ambiente no Comportamento dos Indivíduos ... 14
2.2 Teorias Comportamentais: A Abordagem Sócio-Técnica e a Abordagem das Relações Sociais ... 17
2.2.1 A Abordagem Sócio-Técnica ... 17
2.2.2 A Abordagem das Relações Sociais ... 20
2.3 Considerações acerca da Implementação de Escritórios Abertos ... 25
CAPíTULO 3 - ABORDAGEM SiMBÓLiCA ... 29
3.1 Símbolos e Imagem Corporativa ... 30
3.2 Ambiente de Trabalho e Status ... 30
3.3 Funções dos Símbolos de Status ... 33
Escritórios Abertos: Interação ou Controle?
CAPíTULO 4 - ABORDAGEM CRíTiCA ... 36
4.1 O Panóptico de Bentham ... 37
4.2 Foucault: Poder Disciplinar e Panoptismo ... 42
4.3 Sociedades Disciplinares e Sociedades de Controle ... 46
4.4 Foucault: Relevância para os Estudos Organizacionais ... 48
4.5 O Panoptismo: das Prisões às Organizações ... 49
4.5.1 As Fábricas: um Sistema de Disciplina e de Vigilância ... 50
4.5.2 O Espaço Contemporâneo: os Escritórios Abertos ... 51
CAPíTULO 6 - A PESQUISA DE CAMPO E ANÁLISE DOS RESUlTADOS ... 56
5.1 As Fases da Pesquisa de Campo ... 57
5.1.1 A Elaboração do Questionário e o Julgamento do seu Conteúdo por Juízes ... 57
5.1.2 O Teste da Primeira Versão do Questionário ... 57
5.1.3 A Revisão do Questionário e a Elaboração da Versão Final ... 58
5.1.4 A Aplicação da Versão Final do Questionário ... 59
5.2 A Análise dos Resultados da Pesquisa de Campo ... 60
5.2.1 Conhecendo os Sujeitos da Pesquisa ... 60
5.2.2 Situações do Dia-a-Dia no Ambiente de Trabalho ... 66
5.2.3 A Avaliação das Perguntas Abertas ... 92
CAPíTULO 6 - CONCLUSÕES E SUGESTÕES PARA NOVAS PESQUiSAS ... 98
6.1 Conclusões ... 99
6.2 Sugestões para uma Nova Agenda de Pesquisa ... 101
BIBLIOGRAFIA ... 103
Escritórios Abertos: Interação ou Controle?
CAPíTULO 1
"Assim que você achar que sabe como são realmente as coisas, descubra outra maneira de olhar para elas." Prof. Keaton, do filme Sociedade dos Poetas Mortos
O PROBLEMA DE PESQUISA E A METODOLOGIA UTILIZADA
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 2
1.1 Introdução
o
ambiente atual é caracterizado por mudanças cada vez mais velozes epela crescente competitividade dos mercados. Para as organizações, questões como produtividade, redução de custos, criatividade e flexibilidade tornam-se um desafio.
No contexto organizacional, verifica-se uma série de mudanças, tais como: o desenvolvimento de equipes auto-gerenciadas (teamwork); a redução dos níveis hierárquicos; a formação de alianças e parcerias; o desenvolvimento da tecnologia de informação, entre outras.
Escritórios Abertos: Interaçao ou Controle?
habilidade e conhecimento estilo
padrões meta s
base de poder tipo de pessoas relacionam entoa tarefa tamanho idade coesão metas relacionamentos IIder tarefa
estrutura administrativa sistema de controle sistema de recompensa estrutura do poder tipo de pessoas
Liderança história tamanho valores RelaçOes de grupo objetivos sindicatos tipo de pessoas
Sistemas e estruturas
situação pessoal person a lidade
Capa cidad e outras ati vi dades aptidão
experiência hierarqu ia necessária treinamento
resultados esperad o s Idade
nlvel de asplraç ao O
~
recompensas Motivação para
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tem po e lugar o trabalho
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A Organização
economia
Ambiente com petição Eco nOm ico recursos
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Ambiente O
deslocamentos Ffslco
segurança
emprego " Iayout"
barulho
condição da s Instalações
ie tecnologia
rias primas Ambiente
ç ão de trocas Tecnológico Figura 1: Fatores que afetam a eficiência da organização
Fonte: Handy (1976)
A Eflcllmcla
d.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 4
No que concerne ao ambiente físico, o espaço de trabalho exerce múltiplas influências sobre o comportamento dos indivíduos. Fischer (1993), ao discorrer sobre o espaço, espelho da organização, argumenta que as organizações podem ser analisadas de acordo com o espaço que as estrutura. Para o autor, o espaço organizacional, por meio de sua arquitetura e seu mobiliário, reflete ao mesmo tempo o funcionamento da empresa, seus valores e suas regras.
Nesse sentido, vale ressaltar o surgimento e a disseminação de formas alternativas de ambientes de trabalho. Apgar, IV (1998) menciona uma série de alternativas que combinam práticas de trabalho não-tradicionais, localização e cenários que suplementam o escritório tradicional, quais sejam: o escritório aberto (open-office); o escritório virtual; o home-office, entre outros.
o
escritório aberto, foco de atenção do presente estudo, surgiu na Alemanha,nos anos 50. Esse conceito de escritório baseia-se na eliminação de portas, paredes e separações a fim de facilitar a comunicação entre os indivíduos. De acordo com Fischer (1993), esse modelo de escritório associa abertura do espaço, produtividade e desaparecimento dos níveis hierárquicos. Por outro lado, o escritório aberto contempla o princípio da visibilidade constante. Assim, o espaço organizacional pode, também, ser considerado um espaço controlado. Fischer (1993, p.91), ao mencionar o espaço controlado, afirma que:
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 5
Sendo assim, esse estudo pretende responder á seguinte questão: Até que ponto o escritório aberto constitui uma forma de aumentar a interação entre os indivíduos nas organizações ou , ao contrário, é mais um mecanismo de controle?
1.2 Objetivos
o
objetivo final deste estudo foi verificar a percepção de individuos comrelação ao espaço físico do escritório, no que se refere às variáveis controle e interação.
Para o alcance deste objetivo, foram considerados os seguintes objetivos intermediários:
'<> levantar indicadores para medir o grau de interação entre membros de empresas.
'<> levantar indicadores para medir o nível de controle a que membros de empresas são submetidos.
1.3 Delimitação do Estudo
o
levantamento do acervo bibliográfico sobre o tema dos escritórios abertosEscritórios Abertos: Interação ou Controle? 6
relações sociais, a abordagem simbólica e a abordagem crítica. Nesse estudo, foram consideradas as abordagens das relações sociais e a crítica, julgadas as mais adequadas aos propósitos da investigação.
No que concerne às variáveis relacionadas ao estudo dos escritórios abertos, essa pesquisa tomou como base de análise, o controle e a interação.
Na análise do controle, aqui devendo ser entendido como um mecanismo para regular as atividades e o comportamento dos indivíduos, inibindo possíveis desvios, foi enfatizada a percepção dos sujeitos da pesquisa com relação à privacidade visual e acústica.
No que se refere à interação, aqui devendo ser entendida como a troca de informações e de idéias entre os indivíduos, três dimensões foram consideradas: o feedback do supervisor e dos colegas, a troca de informações sobre o trabalho entre os membros da organização e as oportunidades de amizade proporcionadas ou não pelo ambiente de trabalho.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 7
1.4 Relevância do Estudo
Wohlwill, citado por Heimstra e McFarling (1978, p.1), afirma que "são poucos, se é que os há, os campos que não tocam, em algum ponto, no relacionamento existente entre o homem e seu ambiente".
No contexto organizacional, diversos estudos já demonstraram a importância e a influência do ambiente físico no comportamento, nas atitudes e nas percepções dos indivíduos.
No que se refere aos escritórios abertos, verificou-se que diversas organizações, no Brasil, passaram a implementar esses modelos. As razões são diversas: redução de custos; aumento do trabalho em equipe; rapidez na comunicação, entre outros. Essas razões baseiam-se, sobretudo, na abordagem das relações sociais, ou seja, na abordagem dominante no que concerne ao estudo dos escritórios abertos.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 8
Ao questionar até que ponto o escritório aberto constitui uma forma de aumentar a interação entre os indivíduos nas organizações ou, ao contrário, é mais um mecanismo de controle, essa pesquisa contribuiu para ampliar a discussão acerca de duas teorias: a abordagem das relações sociais ou dominante e a abordagem crítica. No que se refere à prática administrativa, Zalesny e Farace (1987) afirmam que ainda há dúvidas sobre os benefícios e as limitações do escritório aberto. Esse estudo tornou-se, então, relevante por considerar a percepção dos indivíduos com relação ao ambiente. Ambiente de interação ou de controle, o espaço físico constitui uma importante questão a ser considerada nas tomadas de decisão.
1.5 Tipo de Pesquisa
Para a classificação da pesquisa, considerou-se o critério proposto por Vergara (1997): quanto aos fins e quanto aos meios.
Quanto aos fins, a pesquisa foi descritiva e explicativa. Descritiva, pois apresentou informações sobre o ambiente de trabalho, estabelecendo correlações entre este e as variáveis interação e controle. Serviu de base para a pesquisa explicativa, cujo propósito foi esclarecer até que ponto o escritório aberto constitui uma forma de aumentar a interação entre os indivíduos nas organizações ou, ao contrário, é mais um mecanismo de controle.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 9
congressos, teses e dissertações. Telematizada, pois buscou informações sobre o tema em estudo na Internet. A pesquisa de campo contemplou profissionais que estão atuando no mercado, conforme explicitado no item a seguir.
1.6 Universo, Amostra e Seleção dos Sujeitos
o
universo da pesquisa foi constituído por profissionais que no ano de 2001estavam matriculados nos Cursos de Pós-Graduação Lato Sensu da FGV. A amostra do tipo não-probabilística, selecionada por acessibilidade, foi composta por 120 alunos.
1.7 Coleta de Dados
Os dados foram coletados por meio de:
a.
PESQUISA BIBLIOGRÁFICAEscritórios Abertos: Interação ou Controle? 10
b. PESQUISA DE CAMPO
De acordo com Gil (1987), o questionário constitui uma técnica para a obtenção de dados, que apresenta uma série de vantagens, quais sejam: garante o anonimato das pessoas; permite que as pessoas o respondam no momento em que julgam mais conveniente; não expõe os pesquisados à influência das opiniões e do aspecto pessoal do entrevistador, entre outras. Nesse sentido, foram aplicados questionários para avaliar a percepção dos membros das empresas, com relação ao espaço físico do escritório, no que se refere às variáveis controle e interação. O questionário foi constituído de questões fechadas e abertas, buscando captar a percepção do indivíduo a partir do seu próprio discurso. A aplicação do questionário aos sujeitos da pesquisa foi precedida de: (a) julgamento de seu conteúdo por juízes; (b) pré-teste com pessoas que não faziam parte da amostra. Dos questionários aplicados, cujos respondentes constituíram a amostra referenciada no item 1.6, foram considerados válidos um total de 115.
1.8 Tratamento dos Dados
As variáveis consideradas nesse estudo, controle e interação, são denominadas variáveis latentes ou não-observacionais, ou seja, são conceitos. Para mensurá-Ias, torna-se necessário, em primeiro lugar, definir cada um dos termos.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 11
possíveis desvios. No que se refere à interação, deve ser entendida como a troca de informações e idéias entre os indivíduos.
De acordo com Babbie (1998), o produto final do processo de conceitualização, ou seja, da definição das variáveis latentes, é a especificação de um conjunto de indicadores para mensurá-Ias. Vale mencionar que indicadores são variáveis observacionais.
Nesse contexto, a análise das questões fechadas, isto é, dos indicadores, foi realizada por meio de parâmetros estatísticos baseados nas freqüências. As questões abertas foram tratadas por meio de análise de conteúdo.
1.9 Limitações do Método
A metodologia escolhida para a pesquisa apresentou dificuldades e limitações.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 12
Outro fator limitante diz respeito ao número de sujeitos selecionados para responder ao questionário, o que faz com que as conclusões refiram-se somente a esse grupo. A generalização dos resultados deve, pois, ser vista com cautela. A percepção dos indivíduos pode variar em função da natureza do trabalho, da cultura organizacional, entre outros fatores.
Apesar das dificuldades e limitações, a metodologia escolhida foi considerada adequada aos propósitos da investigação.
Este capítulo apresentou o seguinte problema de pesquisa: Até que ponto o escritório aberto constitui uma forma de aumentar a interação entre os indivíduos nas organizações ou, ao contrário, é mais um mecanismo de controle?
Escritórios Abertos: Interação ou Controle?
CAPíTULO 2
"The team is stronger than the individuais that make it up - and what kind of a
team can it be if people work alone behind closed doors?"
J acqueline Vischer
TEORIAS COMPORT AMENT AIS
Escritórios Abertos: Interação ou COntrole? 14
2.1 Considerações sobre a Influência do Ambiente no Comportamento dos
Individuos
o
ambiente é objeto de práticas e intervenções sociais diversas. Como afirmaFischer (1993, p.83), "o comportamento humano não é um sistema passivo" . Sendo
assim, diversos fatores relacionados ao ambiente podem afetar o comportamento e, conseqüentemente , o desempenho dos indivíduos no trabalho, quais sejam: a
temperatura, a iluminação, o ruido , a acessibilidade, a privacidade, a segurança, entre outros. As condições ambienlais podem gerar efeitos positivos, como a
satisfação dos funcionários e o aumento da produtividade, ou negativos, como o
stress,
a distração e a queda no desempenho.Os níveis de ruído, por exemplo, foram apontados em diversos estudos (Heimstra e McFarling (1978), Sundstrom, Burt e Kamp (1980), entre outros) como
um dos causadores de insatisfação para funcionários que utilizam espaços de trabalho como o escritório aberto , conforme pode ser visualizado na Figura 2.
Figura 2 : Níveis de Ruído no Escritório Aberto
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 15
Outro fator que merece destaque é a relação entre a acessibilidade e o comportamento dos individuos, tema do estudo de Sommer (1970) no ambiente de uma biblioteca.
O autor realizou uma pesquisa por meio de observações em três diferentes áreas da biblioteca principal da Universidade da Califórnia, Oavis. No primeiro
ambiente , uma área com 33 mesas retangulares com quatro cadeiras cada, as observações foram realizadas em momentos em que havia a possibilidade de escolha dos assentos. Verificou-se que 64% dos estudantes que entraram nessa área , procuraram mesas vazias para que pudessem ficar a sós. Apenas 10% dos estudantes sentaram ao lado ou em frente a um outro estudante. No segundo ambiente , onde havia mesas com seis lugares, o autor verificou o continuum social, apresentado na Figura 3:
•
•
x
•
•
xx x
Necessidade de Privacidade
x
x
•
•
Inf.raçaox _ lugar ocupado
0 _ lugar vClgo
Figura 3: Continuum Social
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 16
De acordo com o autor, os estudantes que sentaram em lados opostos, em diagonal, demonstravam maior necessidade de privacidade. Por outro lado, os estudantes que sentaram lado a lado interagiram durante o penodo de observação.
Finalmente, no terceiro ambiente, uma área com 18 mesas com 12 lugares cada, verificou-se que 90% dos primeiros dez estudantes que entraram sozinhos, procuraram mesas vazias. Para o autor, a situação de densidade zero é clara, ou seja, os primeiros ocupantes sentam na ponta, um por mesa, quando chegam sozinhos ou dois por mesa quando chegam em dupla.
Considerando-se a acessibilidade e a privacidade como fatores influencíadores do comportamento dos indivíduos, o autor destaca a questão da defesa do território. Verificou-se que os estudantes protegiam sua "privacidade" de diferentes formas, como por exemplo, por meio da utilização de objetos. Diversos objetos como casacos, bolsas, livros e outros pertences foram usados para marcar o território individual de cada um. Para o autor, o espaço pode ser defendido por meio da utilização de objetos pessoais, da posição ou da própria postura do indivíduo.
Ratificando as constatações de Sommer (1970), Fischer (1993, p.85) afirma que "o indivíduo que ocupa um local tende a adotar comportamentos de dominação territorial". Para o autor, o território delimita uma zona de controle particular.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? l7
nas atividades relacionadas com o trabalho, quanto na satisfação estética e sentimento de bem-estar que todos os funcionários experimentam.
Enfim, positivos ou negativos, parece não haver dúvida sobre os possíveis efeitos do ambiente no comportamento dos indivíduos.
2.2 Teorias Comportamentais: A Abordagem Sócio-Técnica e a Abordagem
das Relações Sociais
Duas vertentes de análise podem ser consideradas, a partir das teorias comporta mentais, para explicar os impactos da implementação de um escritório aberto no dia-a-dia dos trabalhadores: a abordagem sócio-técnica e a abordagem das relações sociais.
2.2.1 A Abordagem Sócio-Técnica
A abordagem sócio-técnica, de acordo com a interpretação de Oldham e Brass (1979), sugere que a existência de barreiras físicas pode influenciar o trabalho dos indivíduos de duas maneiras: transformando o ambiente de trabalho numa área privativa e tornando claro o processo de trabalho.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 18
experiências vividas pelos funcionários, no escritório aberto, são diferentes daquelas
sugeridas pela abordagem das relações sociais.
Quatro variáveis são consideradas na análise dos escritórios abertos: autonomia; identificação do processo de trabalho; feedback do supervisor e dos outros funcionários; oportunidades de amizade.
A abordagem sócio-técnica sugere que a mudança de um escritório tradicional para um aberto resulta na redução da autonomia dos funcionários, pois a ausência de barreiras aumenta a probabilidade de interferência no trabalho, por parte do supervisor e dos colegas.
Com relação à identificação do processo de trabalho, essa abordagem sugere que os impactos da mudança são negativos pois a ausência de barreiras dificulta a percepção dos trabalhadores acerca do fluxo de trabalho. Dito de outra maneira, quando o local de trabalho é cercado por barreiras (paredes, por exemplo), os funcionários identificam facilmente suas tarefas, seus equipamentos e a tecnologia disponível para o trabalho.
No que concerne ao feedback do supervisor e dos outros funcionários, essa abordagem considera que a falta de espaço privativo cria desconforto entre os supervisores e os subordinados, dificultando o feedback.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 19
valores e idéias. Nesse sentido, no escritório aberto não há espaços que proporcionem a privacidade, muitas vezes necessária, para tanto.
Oldham e Brass (1979) analisaram as reações dos funcionários de uma empresa jornalística, após a implementação de um escritório aberto. De acordo com os autores, muitos funcionários apontaram que era impossível manter uma conversa reservada com o supervisor e com os colegas, no novo escritório. Um dos funcionários mencionou que não era possível convidar poucas pessoas para uma festa, pois os demais iriam ouvir. Um supervisor notou que não era possível fornecer
feedback aos subordinados, a menos que fossem para a sala de reuniões.
Os autores relatam que após a mudança, não houve alteração significativa com relação à autonomia e ao feedback fornecido pelos colegas. Entretanto, a identificação do processo de trabalho foi afetada de maneira negativa. Também foram reduzidos o feedback do supervisor e as oportunidades de amizade. Grande parte dos resultados dessa pesquisa deram suporte à abordagem sócio-técnica.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 20
pois torna disponível para todos, informações relativas ao processo. Acredita-se, portanto, que outras pesquisas serão necessárias para dar suporte a uma ou outra interpretação.
2.2.2 A Abordagem das Relações Sociais
De acordo com a abordagem das relações sociais, a ausência de paredes e divisórias, no escritório aberto, facilita o desenvolvimento das relações sociais entre os funcionários. A base dessa abordagem está relacionada com pesquisas em psicologia social, que têm demonstrado a influência da arquitetura no modo como as pessoas interagem entre si.
Oldham e Brass (1979) citam duas correntes de pesquisa para apoiar a abordagem das relações sociais. A primeira considera que os indivíduos estão mais propensos a interagir com outros quando as características físicas do ambiente proporcionam o estímulo para tanto. A segunda considera as prováveis conseqüências da interação estimulada pelas características físicas do ambiente e sugere que quanto maior a interação entre as pessoas, melhores as condições para o desempenho das tarefas.
Segundo a abordagem das relações sociais, o escritório aberto, conforme pode ser visualizado na Figura 4, constitui uma forma de aumentar a interação entre os indivíduos, pois a ausência de divisórias facilita o contato verbal e visual. Sugere também que o aumento da visibilidade nos escritórios abertos possibilita maior feedback do supervisor e dos demais funcionários, com relação ao trabalho
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Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 21
realizado; proporciona várias oportunidades de amizade no trabalho; permite o contato para que os conflitos interpessoais sejam solucionados; permite que os indivíduos compartilhem informações relevantes sobre as tarefas.
Figura 4: Escritório Aberto Fonte: Wah (1998)
Heimstra e McFarling (1978) , ao discorrerem sobre o escritório aberto,
afirmam que esse ambiente facilita a comunicação interdepartamental e o fluxo de
trabalho. Para as autoras (1978, p.75) :
"Desenvolvem-se , presumivelmente, sentimentos de coesão de grande
grupo, devido à falta de paredes entre gerentes, supervisores e funcionários ,
além de manter a cooperação nos pequenos grupos pela colocação de barreiras baixas (80 a 125 centímetros) entre grupos definidos de trabalho."
o
planejamento dos escritórios abertos não considera apenas as estações detrabalho , mas toda a área por onde circu lam os funcionários , conforme apresentado
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 22
primeiro estudo, os autores analisam a implementação de um escritório aberto e descrevem esse novo ambiente. Além das estações de trabalho, o ambiente contava com um "Epicentro Cultural", ou seja, uma cafeteria e uma sala de multimídia no centro do escritório, para que as pessoas pudessem relaxar, conversar, tomar um café , enfim , interagir. No segundo estudo, os autores afirmam que o espaço de trabalho pode ser uma das ferramentas para o alcance dos objetivos da organização. Sugerem um espaço que estimule a interação entre os membros da organização, conforme pode ser visualizado na Figura 5.
Estímulo ao
Trabalho em
Equipe
Figura 5: Estimulo ao Trabalho em Equipe
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 23
Diversos estudos relacionados ao tema dos escritórios abertos baseiam-se na abordagem das relações sociais: Becker e Steele (1995), Hatch (1987), Heimstra e McFarling (1978), entre outros
Heimstra e McFarling (1978) mencionam duas investigações sobre o tema: a de Brookes e Kaplan e a de Nemecek e Grandjean. A primeira, uma avaliação comparativa dos ambientes de trabalho após a mudança para um escritório aberto, revela que apesar da declaração de diversos funcionários sobre o declínio da privacidade, verificou-se, de forma geral, que o novo escritório era mais apto a levar às relações sociais e como tendo mais estímulo estético que o anterior. A segunda investigação foi realizada em 15 escritórios abertos na Suíça e tinha como objetivo verificar a opinião dos funcionários com relação ao ambiente de trabalho. Conforme mencionado pelos funcionários operacionais e administrativos, os escritórios abertos promoviam mais atividade social do que as disposições tradicionais. Verificou-se, ainda, que para 63% dos funcionários, o trabalho era realizado com menos esforço e mais eficiência em escritórios abertos. Por fim, vale destacar que a maioria dos funcionários inicialmente insatisfeitos com os escritórios declararam que haviam se ajustado suficientemente às suas novas condições ambientais de trabalho.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 24
experimentaram menor densidade populacional relataram menores oportunidades de amizade, menor troca de informações e menor feedback com relação ao trabalho. Essa pesquisa, portanto, ratifica as considerações da abordagem das relações sociais.
Por outro lado, a pesquisa de Sundstrom, Burt e Kamp (1980) contraria as considerações dessa abordagem. O objetivo da pesquisa era verificar relações entre privacidade no local de trabalho, privacidade psicológica, satisfação e desempenho, em três empresas diferentes. A amostra contou com funcionários que trabalhavam em escritórios fechados e abertos. Para os autores, não há, praticamente, relação entre abertura do espaço de trabalho e interação entre os funcionários. A acessibilidade proporcionada pela arquitetura estava associada apenas com maior contato entre os funcionários e o supervisor. Os autores afirmam, ainda, que a mudança para um escritório aberto possa, talvez, proporcionar maior interação, mas por um curto período. Com o tempo, os indivíduos retornam aos antigos hábitos relacionados à interação.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 25
2.3 Considerações acerca da Implementação de Escritórios Abertos
o
pensamento de muitos executivos acerca da implementação de escritóriosabertos, ou seja, a abertura do espaço fisico do escritório "abrindo espaço" para o trabalho , pode ser visualizado na Figura 6.
Figura 6: Abertura do Espaço de Trabalho Fonte: Vischef (1999)
São apresentadas, a seguir, diversas considerações de executivos brasileiros
e norte-americanos sobre o tema . Seus depoimentos são úteis, na medida em que
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 26
NICK MACPHEE ~ MICROSOFT - REDMOND, WASHINGTON, USA (VISCHER, 1999)
Nick MacPhee, executivo da Microsoft, considera que as organizações, em geral, optam pela implementação de escritórios abertos visando à utilização eficiente do espaço, ao trabalho em equipe e à redução de custos, deixando em segundo plano questões como a retenção de talentos.
Na Microsoft, grande parte dos funcionários trabalham em escritórios fechados. Verificou-se que os profissionais que trabalham no desenvolvimento de softwares, por exemplo, necessitam de espaços privativos. Por outro lado, o pessoal de marketing e vendas utiliza tanto os escritórios fechados quanto os abertos, com ênfase na promoção de maior interação entre os funcionários. E, ainda, 90% dos escritórios de suporte da produção são abertos.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 27
PAUL O'NEILL - ALCOA - PmSBURGH, PENNSYlVANIA, USA (VISCHER, 1999)
O'Neill, executivo da Alcoa, afirma que a empresa implementou com sucesso o projeto de escritórios abertos. Ele acredita que, atualmente, as empresas líderes são ágeis, privilegiam o trabalho em equipe e a redução dos níveis hierárquicos. Sendo assim, a abertura do ambiente de trabalho pode colaborar para a melhoria da eficiência dos profissionais. Observa, ainda, que os profissionais devem trabalhar bem próximos àqueles com quem interagem a maior parte do tempo.
JOSÉ JARDIM· BAAN - BRASIL (ExAME, 1999)
Jardim, presidente da Baan, considera que a eliminação das paredes não é um problema, mas uma maneira de aumentar a integração na empresa. A Baan implementou mudanças na área de trabalho, recentemente, derrubando divisórias a fim de criar uma sensação maior de proximidade e envolvimento na equipe. Para o presidente, esse novo formato do ambiente de trabalho dará a todos mais agilidade.
MÁRIO GUEVARA - BIC - BRASIL (EXAME, 1999)
Escritórios Abertos: I nteração ou Controle? 28
um problema menos importante que os ganhos na comunicação, que fica mais fácil e eficaz.
MARIO MARIZ - MAXITEL- BRASIL (EXAME, 1999)
Mariz, presidente da Maxitel, uma operadora de telefonia móvel celular, afirma que adotou um layout que prioriza a comunicação interna, a funcionalidade e a rapidez. Os postos de trabalho são individualizados, com divisórias baixas, permitindo a visibilidade total do ambiente e a comunicação entre todos. Afirma, ainda, que os diretores e os gerentes podem utilizar salas próprias, mas com paredes de vidro, a fim de integrar, preservando a privacidade e facilitar o acesso imediato à informação.
EGON PRITSH - STHIL - BRASIL (EXAME, 1999)
Pritsh afirma que na Sthil, as salas fechadas foram eliminadas. Ele acredita que a vantagem do ambiente de trabalho sem divisórias é a integração. No que se refere aos problemas de "invasão" de privacidade, acredita que estes são bem menores do que os ganhos que a empresa tem com o trabalho em equipe.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle?
CAPíTULO 3
"É evidente que a utilização de símbolos de status, quer por empresas quer por indivíduos, nunca deixará de existir, pois ela cumpre a tarefa de nos ajudar a
sentir que somos únicos, reconhecidos, prestigiados, privilegiados. "
Maurício Sanches Graça
ABORDAGEM SIMBÓLICA
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 30
3.1 Símbolos e Imagem Corporativa
As organizações, em geral, transmitem mensagens acerca de seus valores, aspirações e expectativas por meio, dentre outras dimensões, da estética.
As mensagens visam tanto ao público externo quanto ao interno. No contexto externo, vale mencionar o artigo Blue is the colour, publicado pela revista The Economist (1998), sobre o renascimento da IBM. O artigo destaca a arquitetura de algumas organizações e as mensagens por ela transmitidas. A fortaleza azul da Intel foi considerada um símbolo de poder e controle. Já os prédios da Microsoft em Redmond foram associados a um campus universitário, caracterizados pela informalidade, mas também sujeitos à instabilidade e à insegurança, em virtude do trânsito de pessoas apressadas. É, também, relevante o artigo de Wood Jr. e Csillag (2000) que ao mencionar o romance Êxtase da Transformação, de Zweig, destaca a dimensão estética de uma organização e a mensagem por ela transmitida, a
burocracia.
No contexto interno das organizações, a dimensão estética refere-se basicamente aos símbolos de status.
3.2 Ambiente de Trabalho e Status
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 31
posição do indivíduo na estrutura hierárquica. Sendo assim, o escritório fechado, privativo, assim como a mobília, o tamanho e a localização da sala, representam uma maneira de diferenciar os indivíduos com base no nível hierárquico.
Konar et ai (1982) conduziram uma pesquisa sobre símbolos de status, satisfação com o ambiente de trabalho e satisfação com o trabalho em três organizações públicas e três privadas. Os autores consideraram quatro variáveis relacionadas ao status no ambiente organizacional, quais sejam:
a. acessibilidade: refere-se à existência ou não de portas e paredes no ambiente de trabalho, ou seja, ao espaço privativo do escritório fechado ou à divisão do ambiente com diversos colegas, característica do escritório aberto. São considerados indicadores de acessibilidade: o número de pessoas no mesmo ambiente, a possibilidade de observar os colegas e a possibilidade de ser observado por eles.
b. área de trabalho: refere-se ao tamanho da sala ou espaço ocupado pelo indivíduo. Em geral, indivíduos que ocupam elevado nível hierárquico possuem espaços mais amplos.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 32
d. grau de personalização: refere-se à existência ou não de objetos pessoais
decorativos, como fotos, quadros, entre outros, além da possibilidade de redisposição do mobiliário.
De acordo com os autores, há diferenças no ambiente de trabalho, em função do nível hierárquico dos indivíduos, no que se refere às quatro variáveis consideradas. Menor grau de acessibilidade, escritórios privativos e amplos, mobiliário de qualidade reconhecida e elevado grau de personalização foram associados aos níveis hierárquicos superiores.
o
artigo de Fischer (1993) ratifica as conclusões a que chegaram Konar et aI.Para o autor, a atribuição do espaço se efetua, dentre outros princípios, segundo o sistema hierárquico. De acordo com Fischer (1993, p. 91), "as formas propostas pelos planejadores mostram uma nítida correlação entre a importância da função, o tamanho do espaço e do equipamento de trabalho". O autor afirma que o espaço organizacional é um espaço político na medida em que ele é o vetor das orientações que o poder lhe imprime. Sendo assim, o lugar maior ou menor que se ocupa indica a posição mais ou menos elevada na organização e, portanto, o uso de tal local reforça por sua vez a dominação maior ou menor do indivíduo que o ocupa. No que se refere à personalização do local de trabalho, o autor relaciona essa atitude à margem de liberdade e poder detidos por um indivíduo, ou seja, quanto maior o nível hierárquico, maior a liberdade para personalizar o espaço.
Escritórios Abertos: InterélÇOO ou Controle? 33
numa empresa de administração de cartões de crédito. O autor revela que: os símbolos de
status
presentes no ambiente fisico de trabalho refletem diretamente o nível hierárquico de seus ocupantes, o grau de personalização do ambiente varia narelação direta do nivel hierárquico de seu ocupante e a empresa prioriza a demonstração de
status
quando da detenminação dos postos de trabalho, uma vezque as alterações realizadas eram causadas em sua maioria por promoções.
3.3 Funções dos Símbolos de Status
Para Konar et ai (1982), os símbolos de
status
são indicadores visiveis da hierarquia nas organizações. Suas principais funções são a premiação, o incentivo ea comunicação.
Os símbolos de
status
podem funcionar como um prêmio pela dedicação do indivíduo ao trabalho, como relata Buss (1982), no artigo Making it electronical/y. Oautor descreve a escalada de um individuo na estrutura hierárquica da organização, marcada por prêmios associados ao poder e à autoridade. A figura 7 visualiza os efeitos de uma promoção, considerando-se os simbolos de
status.
O
•
••
o
O
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Figura 7: Espaço Baseado na Hierarquia: Efeitos de uma Promoção
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 34
Os indicadores visíveis da hierarquia podem funcionar, também, como um incentivo para a melhoria do desempenho.
E, ainda, os símbolos de status auxiliam na sinalização da autoridade dos indivíduos na organização.
De acordo com os autores, ainda há dúvidas se a utilização de símbolos de status é igualmente importante para todos os membros de uma organização ou para todas as organizações.
3.4 Escritórios Abertos, Escritórios Fechados e Símbolos de Status
A discussão acerca dos símbolos de status nas organizações identifica uma questão central: o valor simbólico da privacidade (Hatch (1992); Sundstrom, Burt e Kamp (1980); Zalesny e Farace (1987); entre outros).
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 35
Zalesnye Farace (1987) investigaram a percepção dos funcionários de uma agência governamental com relação à mudança para um escritório aberto. A pesquisa contou com funcionários de nível estratégico, intermediário e operacional. De acordo com os autores, os funcionários de nível estratégico consideraram o espaço menos adequado ao trabalho, após a mudança. Também revelaram menor privacidade. Os de nível intermediário não demonstraram reações significativas relacionadas à adequação do espaço ao trabalho. Mas revelaram menor privacidade. Os de nível operacional consideraram o espaço mais adequado ao trabalho. E revelaram maior privacidade. A pesquisa considerou, ainda, outros fatores. De maneira geral, os resultados deram suporte à abordagem simbólica, pois as reações foram variadas em função da posição ocupada pelo indivíduo.
Acredita-se que a disseminação dos escritórios abertos tem estimulado a discussão acerca dos símbolos de status e da hierarquia nas organizações.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle?
"Tinha-se que viver - e vivia-se por hábito transformado em instinto - na
suposição de que cada som era ouvido e cada movimento examinado, salvo quando
feito no escuro."
George Orwell
CAPíTULO 4
ABORDAGEM CRíTICA
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 37
4.1 O Panóptico de Bentham
Jeremy Bentham, filósofo utilitarista, nasceu em Londres, em 1748. Escreveu o projeto do panóptico, um modelo de prisão baseado no princípio da inspeção, durante a sua permanência na Rússia, em 1786.
É importante mencionar a conjuntura penitenciária na qual o projeto do panóptico estava inserido. Por volta de 1770, a questão das prisões estava sendo bastante discutida. Havia a necessidade de ordenar uma sociedade cuja racionalidade tolerava cada vez menos os improdutivos e perseguia os vagabundos e mendigos. Aconteciam, ainda, rebeliões populares contra as formas "clássicas" de castigo. Nas prisões, não havia segurança. As evasões eram freqüentes e, para acabar com elas, o único recurso consistia em acorrentar os presos. Nesse contexto, Bentham escreveu o panóptico.
Miller (2000, p.77) descreve em A máquina panóptica de Jeremy Bentham, o projeto proposto por Bentham (Figura 8):
"O dispositivo é um edifício. O edifício é circular. Sobre a circunferência, em cada andar, as celas. No centro, a torre. Entre o centro e a circunferência, uma zona intermediária.
Cada cela volta para o exterior uma janela feita de modo a deixar penetrar o ar e a luz, ao mesmo tempo que impedindo ver o exterior - e para o interior, uma porta, inteiramente gradeada, de tal modo que o ar e a luz cheguem até o centro.
Desde as lojas da torre central se pode então ver as celas. Em contraposição, anteparos proíbem ver as lojas desde as celas.
O cinturão de um muro cerca o edifício. Entre os dois, um caminho de guarda.
Para entrar e sair do edifício, para atravessar o muro do cerco, só uma via é disponível.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle?
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Figura 8: O Pan6ptico
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Fonte: Internet site : http://www.ucl .ac.ukJUbraryJspeclal-coIVbentham.htm
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 39
Para Miller (2000), no panóptico, a visibilidade convive com a invisibilidade. Do ponto central, a transparência é perfeita. Das celas, é impossível olhar para fora
e distingüir o ponto central.
Bentham (2000) apresenta as vantagens do seu projeto, quais sejam:
a. a aparente onipresença do inspetor combinada com a extrema facilidade de sua real presença;
b. a economia, em função da redução do número de inspetores exigidos;
c. a possibilidade de manter sob o controle do inspetor-mor, não só os prisioneiros, mas também, os subguardas ou subinspetores e os empregados ou subordinados de qualquer tipo;
d. a carga de problemas e desgostos que tira dos ombros dos ocasionais inspetores de uma posição superior (o incômodo de entrar na cela e ter contato direto com o prisioneiro, além do perigo de uma infecção).
Para o autor, o projeto do panóptico é aplicável a todos e quaisquer estabelecimentos, nos quais queira-se manter sob inspeção um certo número de pessoas, em particular às prisões, manufaturas, hospícios, hospitais e escolas.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 40
insolventes, detidos por falta de pagamento; os malfeitores, a serem moralizados e destinados a sair, um dia; os presos perpétuos. Os presos seriam, pois, alojados em três tipos de prisão, conforme a classe. O primeiro grupo seria alojado em prisões chamadas "Casas de Detenção", de cor branca. O segundo iria para a "Casa Penitenciária", de cor cinza. Finalmente, o terceiro grupo seria alojado na "Casa Negra" que, de acordo com o autor, é, nesta terra, presença do além. Para o autor, a prisão deve chocar, despertando o terror por meio de sua decoração, pois ali é morada do crime.
No que se refere à aplicação do projeto ao negócio das manufaturas, Bentham afirma que a utilidade do princípio da inspeção é óbvia em todos os casos em que os trabalhadores são pagos de acordo com seu tempo. No caso do
pagamento por peça, o princípio é útil para impedir qualquer desperdício ou outro prejuízo. Com relação às partições, o autor afirma que é preciso conhecer a natureza particular da manufatura, pois elas poderão ser vantajosas para impedir a distração, ou desvantajosas, por impedir a comunicação.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 41
No que concerne aos hospitais, estabelecimentos cujo objetivo é o alívio dos aflitos, é marcante o apego ao princípio da onipresença. Com relação às partições, poderiam ser usadas por questões de conforto ou decência. Ao invés de grades, as cortinas dariam aos pacientes a opção de serem vistos. Para separar os pacientes, de acordo com as doenças, seriam usadas partições de maior extensão, dividindo o edifício em seções. O êxito dos hospitais construídos e conduzidos de acordo com o projeto poderia ser percebido pelo visitante, observando o funcionamento do estabelecimento, sem incomodar ou ser incomodado. Poderia, ainda, constatar um atendimento constante e ininterrupto, ao invés de um apressado e precário.
Finalmente, no que se refere às escolas, Bentham menciona dois graus distintos de extensão: a aplicação do princípio da inspeção durante os momentos de estudo ou durante todo o ciclo diário, incluindo as horas de descanso. No que concerne aos momentos de estudo, o objetivo é que a criança dedique-se. Ao contrário das prisões, nas escolas, as grades e os ferros não seriam necessários. A distração e as fraudes conhecidas como "cola" seriam descartadas por discretas partições de tela e pelo controle do mestre. Outras partições seriam utilizadas para separar os quartos. Esses espaços, onde haveria uma cama, uma escrivaninha e uma cadeira, seriam separados por partições de espessura moderada, permitindo ao estudante dormir, assim como estudar, tanto sozinho quanto sob inspeção.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 42
4.2 Foucault: Poder Disciplinar e Panoptismo
F oucault (1987) trata em Vigiar e Punir da evolução da legislação penal, dos meios punitivos, desde a violência física, os suplícios, até os métodos modernos, as prisões. Nesse contexto, o autor analisa a passagem da punição à vigilância, discutindo temas essenciais como o poder disciplinar e o panoptismo.
Foucault (1987, p.118) sugere que "em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes muito apertados, que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações".
De acordo com o autor, as disciplinas, fórmulas gerais de dominação, são métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam
a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade. A disciplina produz corpos submissos e exercitados, corpos dóceis.
Foucault (1987) argumenta que a disciplina procede, em primeiro lugar, à distribuição dos indivíduos no espaço. Para tanto, às vezes, é necessária a cerca, ou seja, a especificação de um local heterogêneo a todos os outros e fechado em si mesmo. Nesse contexto, destaca-se o grande "encarceramento" dos vagabundos e dos miseráveis. Há, ainda, outros locais mais discretos, mas eficientes, como as escolas e os quartéis.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 43
Assim, é preciso evitar as distribuições por grupos; analisar as pluralidades confusas; anular os efeitos das repartições indecisas, do desaparecimento descontrolado dos indivíduos e de sua circulação difusa. A disciplina organiza um espaço analítico, estabelecendo as presenças e as ausências, instaurando as comunicações úteis e interrompendo as outras, enfim, vigiando cada indivíduo.
A disciplina possibilita, ainda, a criação de espaços úteis. Foucault (1987) utiliza o exemplo de uma manufatura do século XVIII, considerando-se a necessidade de ligar a distribuição dos corpos, a arrumação espacial do aparelho de produção e as diversas formas de atividade na distribuição dos "postos". A manufatura era composta de uma série de oficinas especificadas de acordo com o tipo de operação. No andar reservado à impressão, as mesas eram dispostas em duas fileiras ao longo de uma sala. Cada operário trabalhava em uma mesa. Assim, era possível constatar a presença do operário, sua aplicação e a qualidade do seu trabalho, ou seja, vigiar cada operário, individualmente, e todos os operários, simultaneamente.
A disciplina, segundo Foucault (1987), cria espaços arquiteturais, funcionais e hierárquicos. Cria espaços para a fixação e para a circulação, marca lugares, indica valores, garante a obediência dos indivíduos e a economia do tempo. Cria, portanto, espaços complexos.
o
poder disciplinar tem como função adestrar para retirar e se apropriar aindaEscritórios Abertos: Interação ou Controle? 44
o
exercício da disciplina inclui a observação e as técnicas que tornamvisíveis aqueles sobre os quais os efeitos do poder devem ser aplicados. O olhar hierárquico age sobre os indivíduos por meio de uma arquitetura planejada. Não se trata mais, como observa o autor, de uma arquitetura feita simplesmente para ser vista (fausto dos palácios) ou para vigiar o espaço exterior (geometria das fortalezas), mas de uma arquitetura para permitir um controle interior, articulado e detalhado, para tornar visíveis os que nela se encontram. O olhar hierárquico vigia,
controla e transforma os indivíduos. Conforme diz Foucault (1987, p. 148):
"Permite ao poder disciplinar ser absolutamente indiscreto, pois está em toda parte e sempre alerta. Em princípio, não deixa nenhuma parte às escuras e controla continuamente os mesmos que estão encarregados de controlar. É absolutamente "discreto", pois funciona permanentemente e em grande parte em silêncio."
A sansão normalizadora, o castigo no contexto do poder disciplinar, é corretivo. Sua função é reduzir os desvios. O castigo se dá por meio do aprendizado intensificado, multiplicado, muitas vezes repetido. A disciplina classifica os indivíduos, marcando os desvios e hierarquizando suas qualidades, competências e aptidões. Ela recompensa por meio das promoções e pune por meio do
rebaixamento.
O exame é uma combinação do olhar hierárquico com a sansão normalizadora. É um controle que permite qualificar, classificar e punir. Como diz Foucault (1987, p.156):
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 45
o
modelo do dispositivo disciplinar é, para Foucault, o Panóptico deBentham. Foucault (1979) descobriu o panóptico, estudando as origens da medicina clínica e, mais tarde, os problemas da penalidade.
No panóptico, a visibilidade é uma armadilha. É um local onde basta uma arquitetura e um olhar. Um olhar que vigia sem ser visto. Um olhar que produz um poder visível e inverificável. Visível, pois o preso pode ver a torre central de onde é vigiado. Inverificável, pois é impossível saber se está sendo observado. O essencial é que ele se sinta vigiado.
Para Foucault (1987, p.166), o efeito mais importante do panóptico é:
"Induzir no detento um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder. Fazer com que a vigilância seja permanente em seus efeitos, mesmo se é descontínua em sua ação."
O panóptico é, de acordo com a análise de Foucault (1979, p.219), "uma máquina que circunscreve todo mundo, tanto aqueles que exercem o poder quanto aqueles sobre os quais o poder se exerce". O poder, portanto, não é identificado com um indivíduo. Não há um titular. Entretanto, alguns postos são preponderantes.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 46
Aplicações de um projeto que permite manter sob vigilância um certo número de pessoas e permite aperfeiçoar o exercício do poder, o panoptismo é, para Foucault (1987), um princípio geral cujo objeto e fim são as relações de disciplina.
Sendo assim, o autor (1987, p.187) questiona:
"Devemos ainda nos admirar que a prisão se pareça com as fábricas, com as escolas, com os quartéis, com os hospitais, e todos se pareçam com as prisões?"
4.3 Sociedades Disciplinares e Sociedades de Controle
o
panóptico tornou-se, a partir da análise de Michel Foucault, o meio deconfinamento por excelência, o símbolo das sociedades disciplinares. Conforme observa Deleuze (1992, p.219):
"Foucault analisou muito bem o projeto ideal dos meios de confinamento, visível especialmente na fábrica: concentrar; distribuir no espaço; ordenar no tempo; compor no espaço-tempo uma força produtiva cujo efeito deve ser superior à soma das forças elementares."
Entretanto, de acordo com Deleuze (1992), os meios de confinamento (prisão, hospital, escola e fábrica) encontram-se numa crise generalizada. Para o autor, as sociedades de controle estão substituindo as sociedades disciplinares.
Diz o autor (1992, p.216):
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 47
possível que os confinamentos mais duros nos pareçam pertencer a um passado delicioso e benevolente."
A mudança segundo a qual a sociedade parece estar passando de uma lógica disciplinar para uma lógica de controle é, também, discutida por Veiga-Neto (2000). Para o autor, a imagem da sociedade moderna materializada pontualmente no panóptico parece estar se tornando uma realidade. O autor observa que o barateamento dos circuitos fechados de televisão e os potentes e rápidos sistemas de informação e bancos de dados estão possibilitando, por um lado, a ampla disseminação e a contínua presença da visibilidade panóptica, e, por outro lado, o abrandamento das tradicionais formas de confinamento. Nesse sentido, os avanços tecnológicos contribuem para a introdução de uma nova lógica, a lógica das sociedades de controle.
Escritórios Abertos: Interação ou Controle? 48
4.4 Foucault: Relevância para os Estudos Organizacionais
Não há dúvida sobre a relevância de Foucault para os estudos organizacionais. Diversos estudos comprovam a atualidade de sua análise: Alcadipani e Almeida (2000), Barker (1993), Burrel! (1997,1998), Townley (2001), Zuboff (1988), entre outros.
Barbara Townley (2001) analisa a dinâmica entre o conhecimento e o poder nas organizações, enfatizando a relevância do trabalho de Foucault para a compreensão das relações de trabalho e das sutilezas do funcionamento das práticas adotadas pela "administração de recursos humanos".
A autora ao mencionar o trabalho de Foucault, destaca o desejo de compreensão das relações de poder, isto é, como os mecanismos de poder afetam a vida diária. Destaca, ainda, as dimensões políticas da visibilidade: o exercício do poder em virtude de as coisas serem conhecidas e de as pessoas serem vistas.
Considerando-se o contexto das organizações e da evolução das relações de emprego, Townley (2001, p.133) destaca que:
"É preciso cuidar para que os indivíduos no trabalho se tornem visíveis. Nas organizações de trabalho, devem ser criados sistemas para inspecionar os trabalhadores, para observar sua presença e aplicação, para inspecionar a qualidade do trabalho, para comparar os trabalhadores uns com os outros e para classificar os trabalhadores de acordo com a habilidade e a velocidade."