Estetrabalhoéumasíntesedoprimeirocapítulodomeu livro DemocraciaRepresentativa:PrincípioseGenealogia(Repre-sentativeDemocracy:PrinciplesandGenealogy) ,queserápubli-cadopelaUniversityofChicagoPress.Paraauxiliaroleitor, ireiesboçarosargumentosprincipaisdolivro.
Naobra,investigoascondiçõesquetornamarepresen-taçãodemocráticaummododeparticipaçãopolíticaque possaativarumavariedadedeformasdecontroleesuper- visãodoscidadãos.Argumentoqueademocraciarepresen- tativaéumaformadegovernooriginal,quenãoéidênti-caàdemocraciaeleitoral.Aoinvésdeusarumaestratégia polêmica,procuroiluminarassuposiçõesnãoquestionadas quantoàproximidadeepresençafísicaqueapóiamaidéia dequeademocraciadiretaésempreaformapolíticamais democrática,earepresentação,umrecursoouumaalterna-tivasecondbest.Valho-medostrabalhosseminaisdeHanna
PitkineBernardManinparademonstrarquearepresen-NadiaUrbinati
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taçãopolíticaéumprocessocircular(suscetívelaoatrito) entreasinstituiçõesestataiseaspráticassociais.Comotal, ademocraciarepresentativanãoénemaristocráticanem umsubstitutoimperfeitoparaademocraciadireta,masum mododeademocraciarecriarconstantementeasimesma eseaprimorar.Asoberaniapopular,entendidacomoum princípioregulador“comose ”guiandoaaçãoeojuízopolí- ticosdoscidadãos,éummotorcentralparaademocratiza-çãodarepresentação.
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vêaeleiçãocomoaexpressãododireitodeparticiparem algumníveldaproduçãodasleis,nãocomoummétodode transferênciadaspreferênciasidiossincráticasdaspessoasa profissionaispolíticosselecionados.Desdeoséculodezoi-to,teóricosdademocraciarepresentativa(asaber,Painee Condorcet)propuseramsituararepresentaçãodentrode ummistocomplexodedeliberaçãoevoto,autorizaçãofor- maleinfluênciainformal,queenvolviatantorepresentan-tesquantocidadãos.Emvezdeumesquemadedelegação dasoberania,elesviamarepresentaçãocomoumprocesso políticoqueconectasociedadeeinstituições.
Umateoriadademocraciarepresentativaenvolveuma revisãodaconcepçãomodernadesoberaniapopularque contesteomonopóliodavontadenadefiniçãoenaprática daliberdadepolítica.Elamarcaofimdapolíticadosimou nãoeoiníciodapolíticacomoumaarenadeopiniõescon-testáveisedecisõessujeitasàrevisãoaqualquertempo.Isso amplificaosignificadodaprópriapresençapolítica,porque fazdavocalizaçãosuamanifestaçãomaisativaeconsoantee dojuízo acercadasleisepolíticasjustaseinjustasseucon-teúdo.Pode-sedizerquearepresentaçãopolíticaprovoca adisseminaçãodapresençadosoberanoesuatransforma-çãoemumatarefacontínuaereguladadecontestaçãoe reconstruçãodalegitimidade.Portanto,emboraaautoriza-çãoeleitoralsejaessencialparasedeterminaroslimitesea responsabilidadedopoderpolítico,elanãonosdizmuito arespeitodaverdadeiranaturezadapolíticarepresentativa emumasociedadedemocrática.Aseleições“engendram”a representação,masnão“engendram”osrepresentantes.No mínimo,elasproduzemumgovernoresponsávelelimitado, masnãoumgovernorepresentativo.
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aponteaquelesquedeverãopronunciarointeressegeral detodos.Umrepresentantepolíticoéúniconãoporque substituiosoberanonaaprovaçãodasleis,masprecisa-menteporqueelenãoéumsubstitutoparaosoberano ausente(apartequesubstituiotodo),umavezqueele precisa ser constantemente recriado e estar dinamica-menteemharmoniacomasociedadeparaaprovarleis legítimas.Combasenisso,écorretoafirmarqueademo-cratizaçãoeoprocessorepresentativocompartilhamuma genealogiaenãosãoantitéticos.Ojuízoeaopiniãosão sedesdasoberaniatantoquantoavontade,seadmitirmosa soberaniacomocorrespondendoauma temporalidadeinin-terruptaeainfluênciaincalculáveldosprincípioseideais básicosconcernentesaointeressegeral,quetranscendem osatosdedecisãoeeleição.Essareflexãomelevaasus- tentarquearepresentaçãoestimulaumganhodepolíti-caemrelaçãoaoatosancionadorpeloqualoscidadãos soberanosratificamerecapitulam,comregularidadecícli-ca,asaçõesepromessasdecandidatoserepresentantes.
Representatividadeedefesasãoasexpressõesdesseganhoe marcamovínculoinevitável,ativadopeloprocessoelei- toral,entreoladodedentroeoladodeforadasinstitui-çõeslegislativas.
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1.MarkA.Kishlansky(1986:21).
Democraciaerepresentação
OtrabalhocuidadosodeMarkA.Kishlanskysobreonasci- mentodoprocessoeleitoralnaInglaterradoséculodezes-seterevelouumliamecronológicoefuncionalentretrês fenômenos políticos: a adoção do método eleitoral para sedesignaroslegisladores;atransformaçãodoseleitos,de delegadosemrepresentantes;eaemergênciadasalianças partidáriasouideológicasentreoscidadãos.Emboraaselei-çõestenhamsidoconsideradasumainstituiçãoaristocrática desdeAristóteles,nosEstadosmodernosoprocessoeleitoral estimuloudoismovimentosquesetornaramcruciaisparao subseqüenteprocessodedemocratização.Porumlado,ele desencadeouumaseparaçãoentresociedadeeEstadoou, melhordizendo,umatransiçãoderelaçõessimbióticasentre osdelegadosesuascomunidadesparaformasdeunificação queeramtotalmentesimbólicas econstruídaspoliticamen-te.Poroutro,adissociaçãodoscandidatosdesuasposições ouclassessociaisdestacouopapeldasidéiasnapolítica, ou,comoprefeririadizer,opropósitoidealizadordopro-cessoderepresentação.Comoresultado,arepresentação nãopodeserreduzidanemaumcontrato(dedelegação) firmadoatravésdaseleiçõesnemànomeaçãodelegisladores comosubstitutosdosoberanoausente,porquesuanatureza consisteemserconstantementerecriadaedinamicamen-teligadaàsociedade.Emsuma,ahistóriamodernasugere queagenealogiadademocratizaçãocomeçoucomopro-cessorepresentativo.Ademocratizaçãodopoderestataleo poderunificadordasidéiasemovimentospolíticoslevados acabopelarepresentaçãoforaminterconectadosemutua-mentereforçadores1.
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(ogoverno)easociedadecivil.Emboraaestruturaelei-toraldarepresentaçãonãotenhamudadomuitoemdois séculos a despeito da extensão do sufrágio, os teóricos nãodeveriamfazervistagrossaàsmudançascruciaisquea transformaçãodemocráticaengendrounofuncionamento esignificadodasinstituiçõesrepresentativas2 .Aemergên-ciado“povo”(oscidadãos)comoumagentepolíticoativo nãoselimitouameramenterenovarinstituiçõesecatego-riasantigas.Nomomentoemqueaseleiçõessetornaram umrequerimentosoleneeindispensáveldelegitimidade políticaeformaçãodemagistraturas,Estadoesociedade nãopuderammaisserdesligadoseotraçadodasfronteiras separando–econectando–suasesferasdeaçãotornou-se umaquestãopersistentedereajusteenegociação.Arepre- sentaçãoespelhaestatensão.Pode-sedizerqueelarefle- tenãosimplesmenteidéiaseopiniões,masidéiaseopi-niõesarespeitodasvisõesdoscidadãosacercadarelação entreasociedadeeoEstado.Qualquerreivindicaçãoque oscidadãostragamparaaarenapolíticaequeiramtornar umtemaderepresentaçãoéinvariavelmenteumreflexo dalutaparaaredefiniçãodasfronteirasentreassuascon-diçõessociaisealegislação.
Trêsteoriasdarepresentação
Trêsteoriasdarepresentaçãoemergemquandoolhamos comoogovernorepresentativofuncionouaolongodeseus duzentosanosdehistória,doparlamentarismoliberaldos primórdiosatésuacrisee,finalmente,suatransformação democrática, após a Segunda Guerra Mundial. Podemos
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dizerquearepresentaçãotemsidointerpretadaalternati- vamentedeacordocomtrêsperspectivas:jurídica,institu-cionalepolítica.Elaspressupõemconcepçõesespecíficas desoberaniaepolíticae,conseqüentemente,relaçõesentre Estadoesociedadeespecíficas.Todaselaspodemtambém ser usadas para se definir democracia (respectivamente, direta,eleitoralerepresentativa).Contudo,apenasaúltima fazdarepresentaçãoumainstituiçãoconsonantecomuma sociedadedemocráticaepluralista3.
Asteoriasjurídicaeinstitucionalestãointerconecta- dasbemdeperto.Elassãoambasbaseadasemumaana- logiaentreEstadoePessoaeemumaconcepçãovolun-taristadesoberania,esãoexpressasemumalinguagem formalista.Ateoriajurídicaéamaisantigaerequermais atenção,poiscunhouomodeloparaainstitucional,aqual foiseurebento.Elapré-datouaconcepçãomodernade soberaniaestataleanomeaçãoeleitoraldelegisladores.É denominadajurídicaporquetrataarepresentaçãocomo umcontratoprivadodecomissão(concessãode“autori-zaçãopararealizarumaaçãoporpessoaoupessoasque devemserelasmesmasdetentorasdodireitoderealizar essadadaação”4).Delegação(instruçõesvinculativas)e alienação(incumbênciailimitada)têmsidotradicional-menteosdoispólosextremosdessemodelo,aprimeira simbolizadaporRousseaueaúltimaporHobbes,ealém dele,SieyèseBurke(emboraoprimeironãotenhateo-rizado um “protetorado” representativo e o último não
tenhaassentadoarepresentaçãosobreumabasecontra-3.Estastrêsconcepçõessãoidentificáveisnosescritosdosautoresqueopteipor analisarnestetrabalho,marcadamenteRousseau,SieyeseCondorcet.
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tual)5 .Omodelojurídicoconfiguraarelaçãoentrerepre-sentadoerepresentanteconformeaslinhasdeumalógica individualistaenão-política,namedidaemquesupõeque oseleitoresjulgamasqualidadespessoaisdoscandidatos, aoinvésdesuasidéiaspolíticaseprojetos.Destaforma,a representaçãonãoéenãopodeserumprocesso,nempode serumamatériapolítica(queimplique,porexemplo,uma demandaporrepresentatividadeourepresentaçãojusta), deiníciopelasimplesrazãodeque,naspalavrasdePitkin,a representaçãoé“pordefinição”“qualquercoisafeitaapóso tipocorretodeautorizaçãoedentrodeseuslimites”6.Como AnthonyDownscandidamentereconheceu,aocomentar osefeitosdaaplicaçãodomodeloprivadoderepresenta-çãoqueeleendossavaàdemocracia,“nãohánadaparaos representantesrepresentarem”7.
A teoria jurídica da representação reúne as matérias dopoderestataledalegitimidadedentrodalógicadopar
presença/ausência(dosoberano)edescolaarepresentação dadefesaedarepresentatividade,asduasmanifestações políticas--conformelogoexplicarei–queprovêmdesua
5.MuitoemboraomodelomodernodeautorizaçãoteveHobbescomoseupri-meiroteórico,seriaincorretoclassificaraconcepçãodeHobbescomoadeum governorepresentativo,pois,umavezautorizado,oseusoberanopodeagircomo quiser.UmavezqueHobbesnãoprevêeleiçõesapósoatoprimeirodeautoriza-ção,aobrigaçãodosoberanodeagircomvistasaobemcomumdossúditosfica inteiramenteàsuadiscricionariedade.Pode-seobjetarqueointeresse–ointeres-sedogovernanteempreservarseupoder–pode,nãoobstante,atuarcomouma forçanormativaderesponsabilidadeeiraoencontrodosinteressesdasociedade porpazeestabilidade.Estanãoé,contudo,umarelaçãoderepresentaçãopolíti-ca,queexigediretasubmissãoaeleiçõesperiódicaseregulares,poisestanãose apóiasobreojuízodiscricionáriodogovernante.
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8.AorigemdaidéiaderepresentaçãofoiaBulaPapalUnamSanctam,doPapa BonifácioVIII(1302).OcorpusmysticumChristieraaIgrejaunidaespiritualmente porCristoatravésdeseuvigário,oPapa,quecomandavaaIgrejavisíveldosfiéis; ErnstKantorowicz(1957:167-179).Arespeitodasecularizaçãodaunidademística naunidadedoEstadosobapessoadoLíder(führer),sustentadaporSchmitt,ver EllenKennedy(2004:64-81).
relaçãoinevitávelcomasociedadeeaatividadepolíticados cidadãos.ComHobbes,seuprimeirointérpretemoderno, estaabordagemevoluiuparaumatecnologiadeformatação deinstituiçõesquesetornouenormementeinfluentetanto paraosteóricosdogovernorepresentativo(Sieyès,certa- mente)quantoparaseuscríticos.Duranteacrisedoparla-mentarismo,porexemplo,nocomeçodoséculovinte,Carl Schmittrecuperouafunçãoconstrutivistadarepresentação concebidaporHobbeseSieyèseausouparatornaroausente presenteoureconstruiraunidadeorgânicadoVolkacimado (econtráriaao)pluralismodosinteressessociais,atravésda personificaçãodosoberano(nolíderouführer ).Seuobje-tivoeraumEstadounificadomaisfortementedoqueera possívelpormeiodocompromissoparlamentarentreinte-ressesoudo“governopordiscussão”8.Emseuradicalismo, ocasodeSchmittéumexemploútildaincompatibilidade entrearepresentaçãocomoumatécnicadeunidade(místi-ca)dacomunidadeearepresentaçãopolítica.
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9.MarcelDelaBignedeVilleneuve(1929-1931,vol.2:32).
Emresumo,aperspectivacentradanoEstado,sugeri-dapelateoriajurídica,prefiguradoiscenáriospossíveis.De umlado,comoargumentavaRousseau,arepresentaçãonão tem lugar no discurso de legitimação política pela razão óbvia de que significa transferir o poder de autorização dousodaforça(opodersoberano)dacomunidadecomo umtodoparasua(s)parte(s).Deoutro,comoargumentou Sieyès,arepresentaçãopodeserumaestratégiadeedifica-çãodeinstituiçõesnacondiçãodequesejadadaaossúditos apenasatarefadeselecionaroslegisladores.Tambémneste casoasoberaniaéessencialmentevoluntaristaesuavontade restritaàvontadeeleitoral,comoresultado(eopropósito consciente)dequeanaçãosoberanafalaapenasatravésda vozdoseleitos.Nestaconta,asoberaniaparlamentarpode servista,paradoxalmente,comoumatransmutaçãoeleito-raldadoutrinadavontadegeraldeRousseau,umavezque, transferidaparaaNaçãorepresentada,aquelavontadese tornaumaestratégiaparase“bloquearocaminhoparaa democracia”9.
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organizaçãodopovoedavontadedanação”10.Asuposição subjacenteàseparaçãoentre“ohomem”e“ocidadão”,a qualKarlMarxfamosamentecondenouporsuahipocrisia asinina,eraadequeaesferapolíticadeveserindependente daesferasocial(eemparticulardosinteresseseconômicos edascrençasreligiosas)paraquesejamobtidasaigualdade legaleaorganizaçãoimpessoaldoEstado.Estaéapremis-saaxiológicacomumaambasasteoriasdarepresentação eaconseqüêncialógicadesuaabordagemconstrutivista dasoberania11.Elasemergirameforammoldadasantesda transformaçãodemocráticadasociedadeedoEstadoeper-maneceramessencialmenteimpermeáveisaela.
Representaçãopolítica
Aterceirateoriarompecomestesdoismodelos.Elacria umacategoriainteiramentenovanamedidaemquecon- cebearepresentaçãodinamicamente,aoinvésdeestatica-mente:arepresentaçãonãotemquefazerumaentidade preexistente–p.ex.aunidadedoEstadooudopovoou danação–visível;diferentemente,elaéumaformadeexis-tênciapolíticacriadapelosprópriosatores(oeleitorado eorepresentante).Estateoriafazjusàespecificidadeda representaçãopolíticaemrelaçãoatodasasoutrasformas demandatoeemparticularaoesquemaprivadodeauto-rização.Arepresentaçãonãopertenceapenasaosagentes ouinstituiçõesgovernamentais,masdesignaumaformade processopolíticoqueéestruturadanostermosdacirculari-dadeentreasinstituiçõeseasociedade,enãoéconfinadaà
deliberaçãoedecisãonaassembléia.“Étarefadosrepresen-10.RaymondCarrédeMalberg(1922,vol.1:231).
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12.CarlJ.Friedrich(1963:273);tambémErnst-WolfgangBöckenförde(1991, caps.6-7).
13.Pitkin,(1967:209);Friedrich(1963,chap.17).
tantespopulares,portanto,coordenarecriticar.Aunidade necessárianãoseseguelogicamentedaunidadedaquele que representa, como Hobbes sustentaria, mas deve ser criadaeconstantementerecriadaatravésdeumprocesso políticodeatividadedinâmica”12.Suagradualconsolidação duranteoséculovinte,comaadoçãodosufrágiouniver-sal(emboraumaformulaçãoanteriorpossaserencontrada naargumentaçãodeJohnStuartMillpelarepresentação proporcional),refleteatransformaçãodemocráticatanto doEstadoquantodasociedadeeocrescimentodomundo complexodaopiniãopúblicaedavidaassociativa,quedão aojuízopolíticoumpesoqueelenuncaantesteve.Esboça- daporCarlJ.Friedrichemumcapítuloqueéumaobra-de-artedeclareza,devemossuareformulaçãodeorientação maisdemocráticaaHannahPitkin:“arepresentaçãoaqui significaagirnointeressedosrepresentados,deumamanei-raresponsivaaeles”13.
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osocialpolítico.Vontadeejuízo,apresençafísicaimediata(odireitoaovoto)eumapresençaidealizadamediada(o direitoàlivreexpressãoeàlivreassociação)estãoinextrica-velmenteentrelaçadosemumasociedadequeéelamesma umaconfutaçãovivadodualismoentreapolíticadapresen-çaeapolíticadasidéias,umavezquetodapresençaéum artefatododiscurso.
Arepresentaçãopolíticanãoeliminaocentrodegravi-dadedasociedadedemocrática(opovo),aomesmotempo emquedesprezaaidéiadequeoseleitoresemvezdoscida-dãosocupemestecentro,dequeoatodeautorizaçãoseja maisimportantedoqueoprocessodeautorização.
Continuidade,rupturaeopodernegativo
Quandooconstitucionalismoliberalseestabeleceucomoum projetoconscientedeengenhariadoEstadonoséculodezoi-to,oslídereseteóricospolíticospensavamqueoespaçodual doscidadãoseinstituiçõesrepresentativasproduzidopelas eleiçõeseraosinequanon dalegiferaçãoimparcialecompe- tente,porqueprotegiaoarranjodeliberativotantodaspai-xõestirânicasdamaioriaquantodosinteressesparticulares dasfacções.Estacrençapermeouosescritosdeautorestão diversosquantoMadisoneBurke,quepromoveramumaver- sãoelitistadarazãopúblicadeRousseau,aofazerdelaareali- zaçãodecidadãosselecionadosevirtuosos.Oproblema,con-tudo,éque,umavezqueoslídereseasinstituições,aoinvés deimparcialmentedesvinculadosdasinfluênciassociais,são vulneráveisaelas,estedualismonãofuncionouenãofuncio-nacomopretendido.Somenteseosrepresentantesfossem imparciais,virtuososecompetentesmotupropriopoderiao insulamentodesuasvontadesemrelaçãoaoscidadãossolu-cionaroproblemadaparcialidadeedacorrupção.Seeste fosseocaso,entretanto,aseleiçõesnãoteriamsentido.
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podemcontarcomasorteparaobterbonslegisladores;e, segundo, não existe algo como uma aristocracia natural-menteselecionadaeauto-referencial.Aindaqueaseleições sejamummétododecontroleformalmentelimitadopor-quepost-factumeapenasindiretamenteantecipatório,elas comprovamofatodequeemumademocraciaosrepresen- tantesnãodevemejamaispodemserinsuladosdasocie-dade.Falandohistoricamente,estaéarazãopelaqualas eleiçõessetornaramsinônimodedemocraciaeaexigência deinstituiçõesrepresentativassinônimodareivindicação popularporsoberania.Fazendoumaretificaçãoàconcep-çãominimalistadedemocracia,eudiriaqueacompetição eleitoraltemduasvirtudesdedestaque,nãouma:aopasso queelaensinaoscidadãosaselivraremdosgovernospaci-ficamente,elatambémosfazparticipardojogodetornara simesmoslivresdosgovernos.
Époressarazãoqueodireitoavotofazmaisdoque somente“evitaraguerracivil”14.Odireitoavotoengendra umavidapolíticarica,quepromoveagendaspolíticasconcor-rentesecondicionaavontadedoslegisladoresdeumaforma constante,nãoapenasnodiadaeleição.Eleencorajaodesen-volvimentoamplodeformasextra-eleitoraisdeaçãopolítica, emborasemagarantiadequeainfluênciapolíticaserádistri-buídaigualmenteesetornaráautorizada.Alémdomais,ele realçaoparadoxodavisãoinstrumentalistadarepresentação, aqual,porumlado,refere-seàopiniãodopovocomoafonte delegitimidadee,poroutro,sustentaqueosrepresentantes tomamdecisõesboaseracionaisconformeseprotegemde uma“opiniãopopularsempremanipulável”15.
Oparadoxodessaabordagemnão-política(jáqueguia-dapelacompetência)dapolíticaéque,adespeitodeelase
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arrogarseramarcaregistradadasliberdadesciviseeconô-micasedoconstitucionalismo,elaabrecaminhoparauma teoriadasinstituiçõesqueétãoinsensívelàrepresentação quantoateoriadeRousseaudogovernodireto.Elasupõe queorepresentantedevasersurdoàopiniãopúblicapara tomarboasdecisões.Nocentrodesseparadoxoestáavisão formalista,geralmentenãorevelada,daparticipaçãodoscida-dãoscomoveredictoeleitoraldosoberano(autorizaçãoaos magistrados)eumavisãoestreitadadeliberaçãodemocráti-cacomoumprocessoqueenvolveexclusivamenteoseleitos erefere-seadecisõesautorizadas.Oresultadoéuma“visão incompletaedistorcida”doquesãoosrepresentantesede comoelesdevemagir16.Aconclusãoprevisíveléadequea eleiçãofuncionaparaconferirpoderaumaclasseprofissio-nalquedeliberaacimadascabeçasdoscidadãos,cujaúnica funçãoé“aceitar”ou“recusar”seuslíderesenuncamolestá- losenquantoelestocamseusnegócios,jáque“devemcom-preenderque,umavezquetenhamelegidoumindivíduo,a atuaçãopolíticaéproblemadeste,nãodeles”17.
Importantesesforçostêmsidofeitosparaseestimular umainterpretaçãonão-formalista.Defato,desdeseuspri-mórdiosconstitucionais,ogovernorepresentativopertenceu aumafamíliacomplexaepluralcujoramodemocráticonão erapropriedadeexclusivadaquelesqueadvogavamporparti-cipaçãoaoinvésderepresentação.Comosustentameulivro, osrevolucionáriosamericanosefrancesesdoséculodezoi-tousavamdoistermosdistintosparadenotarsuasiniciativas inovadoras:governo representativo edemocracia representativa. Aindaqueambosostermostenhamsidousadosporvezes
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comosinônimos,oslíderespolíticosmaisperspicazesesta-vamconscientesdasdiferenças.Porexemplo,Sieyèsnunca usouoúltimo,masCondorcetofez,julgandoqueocidadão soberanodevesseterosdireitoseos“meioslegais”paraser ativoquandoquerqueele/elaoachasse“útilounecessário”. Designarrepresentantesnãoeraoúnicomeiodesepartici-parouaúnicafunçãorelacionadaaodroitdecité.
Retomando a intuição de Condorcet, eu argumen-to que a especificidade e a singularidade da democracia modernaestãonecessariamentebaseadas,aindaqueaisso nãoselimitem,nolançamentodas“pedrasdepapel”por intermédiodovoto18.Elasresidemnacircularidadequeas eleiçõescriamentreoEstadoeasociedadeenocontinuum do processo de tomada de decisões que liga os cidadãos àassembléialegislativa.Estaétambémafundamentação dateoriadiscursivadasoberaniapopular,umaimportan- tecontribuiçãoàinterpretaçãodemocráticadarepresen-tação.Ateoriadodiscurso,contudo,forneceapenasum retratoparcialdoprocessopolíticoderepresentação,pois, aopassoqueenfatizaacomunicação(circularidade)como “aforçasocialmenteintegradora”queunificaosmomentos parlamentareextraparlamentar,elanãoprestasuficiente atençãoaosmomentosderupturadaquelacomunicação, momentosdecircuito quetrazemàbaila,àrevelia,acon-tribuiçãodarepresentatividadeàlegitimaçãodemocráticada representação19.
Em um estilo hegeliano, o modelo de mediação de JürgenHabermasexplicabemmelhorarelaçãoorgânica entreoEstadoeasociedadedoqueacrisedessarelação, quandoacontinuidadeentreosrepresentanteseoscidadãos éinterrompidaeosúltimosficampropensosagerarformas
18.EmprestoaexpressãodeEngels,atravésdePrzeworski“Minimalistconceptionof democracy”(1998:49).
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extraparlamentaresdeauto-representação;quandoformas deespontaneidadepolítica(novosmovimentos)penetram acenapolíticaeenriquecemapluralidadedevozes.Ofenô-menoquerequernossaatençãoencontra-seentreoestado denormalidadeorgânicaeoeventoextremodeumaruptu-raradicaleviolentadaordemlegal,quando,atravésdesua presençaativaecriativa,oscidadãosdesvendamedenun-ciamadistânciapolíticaentreanação“real”ea“legal”,mas nãoreivindicamopoderdetomarasdecisões.
Emumensaionotávelde1789sobretiposdedespo-tismo,Condorcetclassificavaaespéciederegulamentação arbitrária,passíveldeoriginar-seemumgovernonoqual a legislação resulta do consenso dos cidadãos em serem representados, como “despotismo indireto.” Odespotismo indireto “ocorrequandoaspessoasnãosãomaisverdadei-ramenterepresentadasouquandoele[ocorpolegislativo] setornamuitodesigual”paraelas20.Issotrazàtonaostemas domandatopolítico edovínculodeafinidadeentreoselei-toseoscidadãoseleitores,doiscomponentesessenciaisda representaçãopolíticaquenãopodemserexplicadosden- trodocontextodapolíticacomovontade(edademocra-ciaeleitoral),masdependemmuitodopapeldojuízona deliberaçãopolíticadentroeforadoórgãolegislativo.No livro,analisoemdetalheosdoiscomponentesdarepresen-taçãodemocrática,defesaerepresentatividade.Aqui,preciso
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simplesmenteapontarparaofatodequeanovaformade arbitrariedadequeogovernorepresentativoestáprontoa engendrarnãoétirânicanosentidotradicional,poisela nãotomaaformadeumaviolaçãodasregrasconstitucio-naisenormaslegais.Essaéarazãopelaqualo“despotismo indireto”nãojustificaformasviolentasderompimentocom aordemlegal,oumeiosexcepcionais.
Elejustifica,entretanto,formasdepráticapolíticaque sinalizemanecessidadedesesuperaradivisãointernaà cidadaniasimbolicamenteunificada.Alinguagemdodis- cursopolítico,comoadodiscursomoral,“devesersuficien-tementeestávelparaqueoqueumhomemdigarealmente consistanatomadadeumaposição,realmentediga-nosalgo aseurespeito”;continuidadeparaalémdoperíodoeleito-raléanormaqueesperamosqueosrepresentantessigam, deformaquepossamosreconhecê-los,porassimdizer,ou julgá-lossempre,nãosomenteaofinaldeseusmandatos eleitorais. Uma vez que, ao aceitarem suas candidaturas, elesaceitaramsubmetersuasidéiaseaçõesanossojuízo, nãocabeaelessozinhos avaliaremasignificânciadasposi-çõesqueescolheramlivreeresponsavelmentetomar;“não cabe[aeles]sozinhosdecidirseareivindicaçãoinicial[por eles]introduzidafoi[poreles]adequadamenteapoiadae elaborada”21.
Uma teoria democrática da representação deve ser capazdeexplicaroseventosdecontinuidadebemcomoas crisese,alémdisso,envolveraidéiadequeopovosobera-noconservaumpodernegativoquelhepermiteinvestigar, julgar,influenciarereprovarseuslegisladores.Essepoder énegativoporduasimportantesrazões:suafinalidadeé deter,refrearoumudarumdadocursodeaçãotomado
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toporcanaisdiretosdeparticipaçãoautorizada(eleições antecipadas, referendo, e ainda orecall*, se sensatamen-teregulado,demodoquenãosejaimediatoe,acimade tudo,rejeiteomandatoimperativoouinstruções)quanto pormeiodostiposindiretosouinformaisdeparticipação influente (fórum e movimentos sociais, associações civis, mídia,manifestações)22.Essepoderpopularnegativonãoé nemindependentedanemantitéticoàrepresentaçãopolíti- ca.Alémdomais,eleéumingredienteessencialdodesem-penhodemocráticodarepresentação,porqueentranhado noprópriocaráterfacedeJanodestainstituição,quetem umafaceviradaparaoEstadoeoutraparaasociedade.A representatividadeconsiste,comoveremosdaquiapouco, nanormaemrelaçãoàqualopodernegativodoscidadãos podeserdescritotantocomoumaforçarevigorantequanto comoumindicadorque,àsemelhançadeumtermômetro, sinalizaostatusda“forçaintegradora”queligaoseleitosea assembléiaquesediaasociedade.Comoopostosimétricoà comunicaçãoenquanto“forçasocialmenteintegradora”,o podernegativodoscidadãoscombinaasnormasdecomu-nicaçãodeliberativa(reciprocidadeepublicidade)coma representatividadedorepresentante.
Emsuma,ateoriademocráticaprecisafazerretifica- çõesàconcepçãominimalistaassimcomoàvisãodelibera-tivahabermasiana,demodoquesecompreendaomundo complexodademocraciarepresentativa.Retificaraprimei-ra,porqueofoconavotaçãocomoresoluçãotemporáriado
conflitopolíticonosmostraalocalizaçãoda“vontade”auto-*Cassaçãodomandatoporvotopopular[N.T.]
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rizadaalegislar,masnãonosforneceumretratocompleto dojogodemocráticoquepõeaquelavontadeemmovimen-toeaforma.Retificaraúltima,porqueofocona“força integradoradacomunicação”jogaluzinsuficientesobrea refregapolítica,quearepresentatividadedarepresentação trazàtona,umacaracterísticaqueésempreumaquestão degraueflutuação,eumaconstruçãoideológicaqueestá sempreabertaàrevisãoeàreavaliação.
Apresençapormeiododiscursoedasidéias
“Umapopulaçãodeeleitoresnãoécapazporsimesmade iniciativa, mas, no máximo, de consentimento”; todavia, umademocraciarepresentativanãoéuma“massadeeleito- resinorgânicos”eseuscidadãossãocapazesdetomarinicia-tivasdiretaseindiretas23.Arepresentaçãopolíticainvalida aopiniãodequeasociedadeéasomadeindivíduosdisso- ciadosquecompetemeseunem,votameagregamprefe- rênciasporatosdiscretosdelivreescolhaecálculoinstru-mental.Elasecontrapõeaumaconcepçãodademocracia comoumamultidãonuméricadeunidadessingularesou associadasforçadasadelegarseupoderpelasimplesrazão dequeumamultidãonãopodeterumavontade,nãopode exercernenhumpoderouserumgoverno.Umapolítica representacionalconcebeasociedadedemocráticacomo umamalhaintrincadadesignificadoseinterpretaçõesdas crençaseopiniõesdoscidadãosarespeitodequaissãoseus interesses;crençasquesãoespecíficas,diferenciadasesujei- tasàvariaçãoaolongodavidarealdaspessoas.Ademo-craciaéúnicaporqueextraidasdiferençasaforçaparaa união(“aspessoassãocapazesdeseunirnadiferença,sem seabstraíremdesuasdiferenças”)24.
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Napolíticarepresentativa,diferentementedademocra-ciadireta,oseleitoresnãosãomerasquantificações.Eles espelhamacomplexidadedeopiniõesedeinfluênciapolí- tica,nenhumadasquaiséumaentidadecomputávelarit- meticamente.Quandotraduzimosidéiasemvotos,tende-mosàsvezesanosesquecerdessacomplexidadeeassumir queosvotosrefletempreferênciasindividuais,aoinvésde representarem opiniões. Muito da argumentação de que aagregaçãodevotosnãoesgotaaexpressãodaopiniãoé familiaraoscríticosdateoriadaescolhasocial.Contudo, algumasobservaçõesadicionaispodemserreunidasparase alteraraleituradavotaçãodemocráticacomoumapartici- paçãoqueseprestaaselecionarnãopolíticas,mastomado-resdedecisão.
Contrariamenteaosvotossobre questõesisoladas(demo-craciadireta),umvotoemproldeumcandidatorefletea lon-gueduréeeefetividadedeumaopiniãopolíticaoudeuma constelaçãodeopiniõespolíticas;elerefleteaatratividade deumaplataformapolítica,ouumconjuntodedemandas eidéiasaolongodotempo(ademocraciarepresentativa temsidoentãoconsideradaumregimedetempo)25.Ovoto direto(ou,naspalavrasdeCondorcet,a“democraciaime-diata”)nãocriaumprocessodeopiniõesenãopermiteque elassebaseiememumacontinuidadehistórica,poisfazde cadavotoumeventoabsolutoe,dapolítica,umasérieúni-caediscretadedecisões(soberaniapontuada).Masquandoa políticaéprogramadadeacordocomostermoseleitoraise aspolíticasincorporadaspeloscandidatos,asopiniõescom- põemumanarrativaquevinculaoseleitoresatravésdotem- poedoespaçoefazdascausasideológicasumarepresen-taçãodetodaasociedadeedeseusproblemas.Issoexplica
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porqueasopiniõesnuncatêmpesoigual,nemmesmono casohipotéticodeduasopiniõesdiferentesrecebendoo mesmonúmerodevotos.Seopesodasopiniõesfosseigual, adialéticadasopiniõeseoprópriovotofariampoucoou nenhumsentido.Ovotoéumatentativadesedarpesoàs idéias,nãodetorná-lasidênticasquantoaopeso,oucom algumpeso26.
Pode-se,portanto,dizerqueademocraciarepresentati-varevelaotrabalho“miraculoso”dasopiniõesenarrativas ideológicasdeumaformaqueademocraciadiretanãoé capaz,poiselanoscompeleatranscenderoatodevotar, num esforço de se reavaliar repetidamente a correlação entreopesodasidéiaseopesodosvotos(napreservação, obtençãoouaumentodoconsentimento).Nademocracia direta,todovotoécomoumnovocomeço(ouumaresolu-çãofinal)porquecorrespondesimplesmenteàcontagem devontadesoupreferências,masnãoénempodeserrepre-sentativodasidéias;esperarpela“próximaoportunidade” nãofazsentido,jáquenelatodadecisãoéabsoluta,porque tornaasopiniõesidênticasàsvontadesecarecedequalquer vínculohistóricocomascadeiasdeopiniõesedecisõespas-sadasefuturas.
Estaéarazãoporqueovotodiretoemumamatérianão éumaalternativaàguerracivil,mas,narealidade,aumenta oriscodeguerracivileporque,deoutrolado,apolítica representativaéumfatordeestabilidade.Emumademo-craciarepresentativa,acadeiadeopiniões,interpretações eidéiasquebuscamvisibilidadeatravésdavotaçãoemum candidatooupartidoconsolidaaordempolítica–adiver-gênciasetornaumfatordeestabilidade,ummecanismode todooprocessopolítico.Elatorna-seoliamequemantém unidaumasociedadequenãopossuicentrovisíveleque
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vemaseunificarpormeiodaaçãoedodiscurso(experi- ênciascomunsdeinterpretaçãoqueoscidadãoscompar-tilham,narram,resgatamerefazemincessantemente,na condiçãodepartidários-aliados).ComoPainecompreen-deu,asopiniõeseascrençaspodemconverteropoderem umprocessopolíticoincessanteaoqualarepresentaçãodá efetividade,poisenalteceomundopúblicodasidéiasea mediaçãododiscurso,ambososquaistornamnossosvotos maissignificativosdoqueumaporçãoinfinitesimaldavon-tadegeral.Demodobemeficaz,ClaudeLefortsalientoua naturezanão-fundacionaldademocraciamoderna(leia-se representativa),aqual“emvirtudedodiscurso...revelaque opoderaninguémpertence;queaquelesqueexercemo podernãotêmdomíniosobreele;queeles,defato,nãoo personificam;queoexercíciodopoderrequerumacon-testaçãorepetidaeperiódica;queaautoridadedaqueles investidosdepoderécriadaerecriadacomoresultadoda manifestaçãodavontadedopovo”27.
Arepresentaçãopolíticailuminaeenfatizaanature-zaquéruladademocracia.NaRepública,Platãodescreveu (ecriticou)ademocracianãosomentecomoumsistemade igualitarismoniveladorcegoàespecificidadeindividual,no qualoperamaseleçãoporsorteioeaalternânciadecargos aoinvésdaadmissãodoscompetentesporalocaçãofuncio-nal.NadescriçãodePlatão,ademocraciaéprimeiramente, eacimadetudo,umsistemanoqualtodososcidadãosdis-cordamquantoaocontroledogovernoporquetodoseles reivindicamvozativanotratoeresoluçãodessedesacordo. Contudo,damesmaformaqueaparticipaçãonaeleição,a alternânciaeosorteiodissipamalgumasdiscordâncias,mas nãosilenciamadisputaentreoscidadãos.Masporqueos cidadãosdisputamentresi,sesabemdeantemãoqueirão
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todosgovernaremalgummomentoouterãooutrachan-cedeterseusrepresentanteseleitoseseupartidoapoiado pelamaioria?28
Osteóricosdademocraciasuperestimamaescolhadas pessoasesubestimam,porassimdizer,aescolhadepolíticas eidéiasqueaescolhadaspessoasindicaourepresenta29.O caráterdacompetiçãodemocráticaé,entretanto,moldado nãoapenaspelasregrasdojogo,mastambémpelosmeios utilizadospeloscidadãosparaexpressareresolverseusdesa-cordos–qualseja,odiscurso–independentementedesua presençaserdiretaoueleitoral30.Nãoporacaso,escritores clássicosquedescreviamademocraciaatenienserealçaram quetodososcidadãospossuíamumachanceigualnãoape-nasdecompetirpelopoder,mastambémdeproporleise conquistaramaiorianaekklesia .AcríticadePseudo-Xeno-fonteàconstituiçãodeAtenas,emnomedacompetência aristocrática,éoprimeirodocumentorelevanteaatacara democraciaporempregarosorteioeaalternânciaatodos oscidadãosindistintamente,nãoapenasaosmelhoresden-treelesouaosdemesmaestirpe.Umsistemadegoverno
noqualosiguaissãotratadosigualmentenãoénecessaria-28.Platão(1983:305).
29. Na Inglaterra pré-eleitoral, por exemplo, quando os postos parlamentares eramdistribuídosentreosnobrescomoumreconhecimentodehonra,osorteio --nãoaseleições--erautilizadoparasedesignaroscandidatos,porqueconsistia emumsistemaneutroquenãopermitiaojulgamentoouadiscriminaçãoentreos pares(Kishlansky,1986:36).
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mentedemocrático,aindaquesejacertamenteigualitário. Istoé,porexemplo,oquedistingueAtenasdeEspartaea razãopelaqualaprimeira,emvezdaúltima,eraconhecida comoumademocracia,emboraambasutilizassemosorteio eaalternânciaparaselecionarmagistrados,requeressem apresençadiretadoscidadãosnaassembléiae,finalmen-te,restringissemacidadaniaaumconsórciorelativamente pequenodehomensnativosadultoselivres.
ÉinteressantenotarqueRousseau(umadmiradorde Esparta)desdenhava,pelomesmomotivo,tantoademocra-ciarepresentativaquantoadireta,poisambas,umavezque empregavamodiscursocomoumaformadeaçãopolítica (oudeummodoindireto),tinhamquesevalerdacompe-tiçãoparaconquistaroconsenso(fossediretamentecom relaçãoàsquestõesouemrelaçãoaumcandidato).Emsua mente,issofaziadapolíticademocráticaumexperimento permanentedeopiniõeseformaçãodeconsenso,noqual aretóricaeojuízovalorativo–nãoapresençaporsiou avontade–seriamessenciais.Aindamaisinteressanteéo caso de Hobbes, que não acreditava que as democracias eleitoral e direta fossem fundamentalmente diferentes e queapenasaprimeirativesseumcaráteraristocrático.Hob-bescompreendeuqueademocraciaésempreumamistura deigualdadeearistocracia,detalmodoqueelaconsiste tantonoigualdireitodevotocomotambémnoigualdireito defala;eodiscursoéoveículoparaadistinçãoindividual, apluralidadeeaaltercaçãoqueaeleiçãoregula31.
Opartidarismocomoumarepresentaçãoativadogeral
Ademocraciaéum“conflitodelimitado”ouum“conflito semassassinato”:nãoéconsenso32.Todavia,paraqueeste
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sejaocaso,oscidadãosdevemconsentircomcertosvalores ouprincípios,eosvencedoreseperdedoresdevemconfiar queseusadversáriosirãoabrirmãodasarmasindependen- tementedoresultadodaseleições.Seria,portanto,maiscor-retodizerqueademocracia(namedidaemquefuncione eperdure)requeralgumconsensobásicoporque dizrespei-toàdivergênciaetambémaoraciocínioinstrumental.Não importaoquãomínimaadefiniçãodedemocracia,omini-malismopareceviraofinaldeumprocessomaisoumenos bemsucedido,queaspessoastenhamelasmesmasencam-pado33 .Oraciocínioinstrumentaleestratégicoésuficien-tementesofisticadoparaconsistiremumaracionalização posteriordeumamaisoumenosproblemáticaexperiência (detentativaeerro)deaprendizadopelaprática--parafra-seando-seumamáximapragmatista34.
Nãoénovidadedizerque,emboraosprocedimentos possamconteradesordemsocial,suaeficáciaéamplamen- tedependentedefatoreséticosouculturais.Issoéverda-deiro particularmente no caso da representação, pois o mandatoqueamarrao(a)representanteàsuaconsistência éessencialmentevoluntário;nãoélegalmentevinculativo. Arepresentaçãoconsisteemumapráxispolíticaque“não émeramentearealizaçãoarbitráriadeescolhas,nemmera-menteoresultadodabarganhaentreambiçõesprivadas, separadas”35.Oraciocínioinstrumentaleocompromisso ocorrememumcontextodeentendimentocomumacerca dadireçãopolíticaqueopaísdeveriaounãotomar,com
33.“Ofatodequeconcordamossobrecomocasosparticularesdevamserdeci-didos...mostra...queosmembrosdacomunidadefazemvalerumconjuntode critérioscomum.Semcritérios,tácitosouexplícitos,nossosveredictosseriamno conjuntoinconsistenteseemdesacordocomosveredictosdeoutrosmembrosda comunidade...Logo,apossibilidadedeseparticipardojogodepende,emúltima instância,dofatobrutodequeconcordamos”(Elgin,1999:63).
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aconsciênciadequeeste“nãoéumarealidadequenos sejaobjetivamentedadadeumaououtraforma”36.Nestas condições, tal raciocínio é capaz de distinguir o inimigo totaldopartidáriopolítico,“amuniçãodaeleição”*,para parafrasearMalcomX.Amaiorpartedotempo,sistemasde crençasemesmovaloresestereotipadosestruturamabarga-nhaeoraciocínioestratégico,deformaque,aindaqueos eleitorespossamparecer–ouhonestamentetentar–racio-cinarestrategicamente,elesacabamvotando“contra”ou“a favorde”constelaçõesdeidéiasecrençasquandovotamem umcandidatoindividual37.
JohnRawlsdescreveua“profundidade”ea“amplitu-de”deumconsensosobreposto–oqueHegelchamariade “éthosconstitucional”–nosseguintestermos:
“…depoisqueumconsensoconstitucionalestáemvigor,os grupospolíticossãoforçadosaparticipardofórumpúblico dediscussãopolíticaedirigir-seaoutrosgruposquenão compartilhamsuadoutrinaabrangente.Essefatotorna racionalparaelesseafastardocírculomaisrestritodesuas própriasvisõesedesenvolverconcepçõespolíticasemcujos termospossamexplicarejustificarsuaspolíticaspreferidas aumpúblicomaisamplo,demodoareunirumamaioriaà suavolta”38.
36.FrankR.Ankersmit(1997:47).Contudo,Ankersmitterminadizendoqueo quetornaarepresentaçãosuperioràdemocraciadiretaéofatodeque,umavez que“inexisteumapropostaparaaaçãopolíticadapartedaspessoasrepresenta- das”,seriaequivocadoesperarqueaspessoaspudessemfazerpropostas;“precisa- mosdarepresentaçãoparaquesejamoscapazesdedefinirestaspropostasmes-mas”.Minhavisãodarepresentaçãocomoumprocessodecircularidadeecircuito (entreasinstituiçõeseasociedade)ambicionanãoserumneo-elitismo.
*Nooriginal:“thebulletandtheballot”[NT.].
37.Arespeitodarelevânciadosistemadecrençasnaformaçãodaspreferências doseleitoresedopartidocomoumpólodeidentificação,aoinvésdeumasimples máquinaeleitoral,verAdamPrzeworski(1998:143-144).
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Ospartidospolíticosarticulamo“interesseuniversal” apartirdepontosdevistaperiféricos.Elessãoassociações
parciais-contudo-comunaisepontosessenciaisdereferência quepossibilitamaoscidadãoserepresentantessereconhe-ceremunsaosoutros(eaosdemais)eformaremalianças e,alémdisso,situaremideologicamenteoscompromissos queestãoprontosaestabelecer39.“Mas,defato,umadas característicasmaisimportantesdogovernorepresentativo ésuacapacidadeparaaresoluçãodasdemandasconflitan- tesdaspartes,combaseemseuinteressecomumnobem-estardotodo”40.Adialéticaentreasparteseotodoexplica afunçãocomplexadoarranjolegislativoemumgoverno representativo,comoumórgãomediadorentreoEstado easociedade41 .Arepresentaçãoéainstituiçãoquepos-sibilitaàsociedadecivil(emtodososseuscomponentes) identificar-sepoliticamenteeinfluenciaradireçãopolíti-cadopaís.Suanaturezaambivalente–socialepolítica, particularegeral–determinasualigaçãoinevitávelcom aparticipação.
A representação políticatransforma eexpande a polí-ticanamedidaemquenãoapenaspermitequeosocial sejatraduzidonopolítico;elatambémpromoveaforma-çãodegruposeidentidadespolíticas.Acimadetudo,ela
39.Z.A.Pelczynski(1964:91).
40.Pitkin,1967:217.Friedrichsugeriuqueenfatizarovínculodarepresentação comasociedadeaomesmotempoemqueseseparemasatividadespolíticasin-formaisdoscidadãosdaautorizaçãoeleitoralimplicaem“influência”aoinvésde “participação”:“Falamosadvertidamentedeinfluênciaemvezdeparticipaçãoou controle,jáqueamaiorpartedoscidadãosnãoestápropensaaparticiparnaou efetivamentecontrolaraaçãogovernamental”atravésdarepresentaçãopolítica; CarlJ.Friedrich(1968:278).
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modificaaidentidadedosocial,umavezque,nomomento emqueasdivisõessociaissetornampolíticasouadotam uma linguagem política, elas adquirem uma identidade naarenapúblicadeopiniõesetornam-semaisinclusivas ourepresentativasdeumespectromaislargodeinteres-seseopiniões.Issoénecessárioparaqueelasconquistem umamaioridadenumérica.Todavia,aestratégiaéapenas umaexplicaçãoparcial.Épróprioaoprocessopolíticode representaçãofiltraredarcontadaparcialidadeirredutí-veldasidentidadessociaiseculturais,tornando-asmatérias dealiançaseprogramaspolíticos.Issofazdeleprecisamen-teoopostodarepresentaçãocorporativista,advogadapor teóricosda“participaçãodegrupo”,edademocraciado gerenciamentopluralista42.Apressuposiçãoimplícitade ummodelodedemocracianaformade“pequenasunida-desdescentralizadas”(individuaisoucoletivas)buscando representaçãodiretanaarenapolíticaéaidéiadeque“a co-presençadossujeitosemproximidade”devepurificar apolíticadamanipulaçãoideológicalevadaacabopelos partidos.Oresultado,entretanto,éque,aosepassarpor cimadomundomediadoda“vozedogesto,doespaça-mentoedatemporalidade”,apolíticaé“afastada”aoinvés depurificada43.
Masopartidopolíticotraduzasváriasinstânciasepar-ticularidades em uma linguagem que é geral e tenciona representarogeral.Nenhumpartidodizrepresentarapenas osinteressesdaquelesqueaelepertencemouoapóiam.O partidarismoéumamanifestaçãoativadogeralemvezde
42.Duastradiçõesformamaraizdamisturadedemocraciacomrepresentação corporativa:ateoriadademocraciaforteeateoriadosocialismodeguildaseda democraciapluralista.ParaumpanoramacríticodestasduastradiçõesvejaFrede-rickM.Barnard(2001).
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umaapropriaçãodogeralporumparticular;éoopostodo patrimonialismo.PorissopôdeHegelescreverquearepre- sentaçãotrazodissensoparaapolíticaporque,aopoliti-zaraesferasocial,elatrazapluralidadeeadiferençapara dentrodopúblico,eWeberpôdeacentuarqueoaspecto políticodovotoresidenachancequetêmoscidadãosde transcenderseusersocialpeloseuprópriofazer ,oqueequiva-leadizerqueagemindependentementedesuaidentidade socialetornam-seelesmesmosrepresentantesdesuacomu-nidadepolítica44.
Pode ser útil recapitular o diagnóstico presciente de Tocquevillesobreasduasformasdeassociaçõesdemocrá-ticasqueoscidadãostendemacriar:associaçõescivis,que reúnem(edividem)osindivíduosdeacordocomseusinte-ressesouopiniõesespecíficose,amaiorpartedotempo, unidimensionais;eassociaçõespartidárias,quereúnem(e dividem)oscidadãosaolongodaslinhasdesuasinterpre-taçõesavaliativasdeproblemasquesãogerais,oude“igual importânciaparatodasaspartesdopaís.”Asprimeiraspro-duzemumafragmentação“adinfinitumsobrequestõesde detalhe”queraramenteconseguemserdealcancegeral, umavezqueavidadasassociaçõescivisdependedorela-tivofechamentodeseuslimites.Asúltimasinterrompema fragmentação,não,contudo,pelaimposiçãodeumahomo- geneidadeouocultaçãodadiferença(quecoloqueasocie-dadeinteiranaimagemdeumpartido),maspelacriação denovasformasde“diferença”entreoscidadãos.Oparti-darismopolíticotantocongregaaspessoasquantoassepara
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comrelaçãoaquestõesquesãogeraisemsuasriquezae implicações45 .Afunçãodospartidosvaimuitoalémdaque-lainstrumental,deprovimentodeorganizaçãoerecursos paraaalternânciadosquadrospolíticosearesoluçãopací-ficadospleitosporsucessão.Suafunçãoéacimadetudo aquelade“integraçãodamultidão”,unificandoasidéiase interessesdapopulaçãoetornandoosoberanopermanen- tementepresentecomoumagentedeinfluênciaesupervi-sãoextra-estatais46.
Estáalémdoescopodesteartigoanalisaropapeldafor-mapartidáriadeparticipaçãonademocraciamoderna,sua transformaçãodeumaorganizaçãodenotáveis,passando porumainstituiçãodemassasetotalizadora,unificadapor umcredopolíticodetiporeligioso,atéummaquinárioelei- toralquecontacomamídia,osanalistaspolíticoseodinhei-roprivado47.Oquestionamentocríticodosproblemasquea liderançadegrupocolocaparaademocraciaeadiscussão doargumentoweberianodequeapolíticarepresentativa ensejaaproletarizaçãodamassaporumaeliteorganizada eorganizacionalrequereriaumtipodepesquisabastante diverso.Ésuficientenotaraquiqueadeclaraçãodacriseda ideologiaeadecorrenteviradacognitivistaqueateoriado
45.AlexisdeTocqueville(1969:174-175).AntecipandoadistinçãodeMaxWeber entreopartidoideológicoeopartidodefuncionamentoeleitoral,Tocqueville distinguiuos“grandespartidospolíticos”dos“partidospequenos”esugeriuque, enquantoosúltimosagregaminteresses“semcredopolítico”,osprimeirosunem oscidadãospormeiodeprincípioseinterpretaçõesacercadodestinogeraldo país.Tocquevillenãosustentouqueosinteressesprivadosoperemapenasem“par-tidospequenos”,emboratenhanotadoqueem“grandespartidospolíticos”os interesses“escondem-seporbaixodovéudointeressepúblico.”Similaràdivisão deTocquevilleeumaantecipaçãodadeWeberfoiadistinçãodeHegelentre hom-mesd’étatehommesàpríncipes,aqualprefiguravaduasformasdiferentesdepartidos (Hegel,1964:325;Weber,1994:152-154).
46.Friedrich(1963:509-523).
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discursoconferiuàdemocraciasãolargamenteresponsá- veispelosilêncioepelamiopiadateoriapolíticacontempo-râneaarespeitodolugardopartidoedopartidarismona políticademocrática48 .Todavia,acrisedospartidosideoló-gicoscomoosdaGuerraFriamostrouqueafragmentação pré-eleitoral–candidatossempartidos–podeseraorigem deespéciesaindamaisendêmicasderadicalismoideológi-coaoinvésdesinaldeumaparticipaçãomaisdemocrática elivredepreconceitos.Livresdasantigasidentificaçõeside-ológicas,oseleitorespodemseacharcapturadosporesob oextraordináriopoderdeoutrostiposdepotentados,tais comotribosétnicasecomunidadesreligiosas,magnatasda mídiaprivadaefiliaçõescomunitáriasque,emvezdeauxi- liaremnadeliberação,nãosemisturamoucriamcompro-missosarraigados49.
Masaseleçãodecandidatosnacondiçãodecompeti- doresisolados,semumpartidooufiliaçãoaumgrupopolí-tico,nãopodeserconsideradaumidealderepresentação democrática,namedidaemquepodeinclusivesetornarum “afastamentodosprincípiosdogovernorepresentativo”50. Narealidade,seaeleiçãofossedefatoumaseleçãoentre edecandidatosisolados–entreedenomesindividuaisao invésdenomesdegrupospolíticos–arepresentaçãoiria
48.Semdúvidaalguma,Habermaséoprincipalautordaversãocognitivistada deliberaçãoedaliberdadedemocrática.Emumacríticamuitoperspicazaalguns deseustrabalhos,QuentinSkinnerdiscutiuaformacomoHabermasafasta-sedas teoriasclássicasdaexistênciasocialcomoumafontedaausênciadeliberdade individual(deWeberatéFoucault),aoatribuiraresponsabilidadepornossaper-dadeliberdade“nãoprimariamente”a“forçascoercitivasexternas”,masa“nós mesmos”,ouporquenosfaltaconhecimentoouporquesomosdetentoresdeuma racionalidade“distorcidaideologicamente”(Skinner,1982).
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desaparecer,porquecadacandidato(a)concorreriaporsi solitariamenteesetornaria,comefeito,umpartidáriode seuprópriointeresse.Oarranjolegislativoseriaumaagrega- çãodevontadesindividuais,maisoumenoscomoaassem-bléianademocraciadireta--incapazdetomardecisõespor meiodeumprocessodeliberativoestendido--e,aofinal, não-representativo,jáqueapenasasidéiaseopiniões(ou seja,ojuízoemumsentidoamplo)podemserpoliticamente representáveis,nãoosindivíduos.Tambémporestarazão,a representaçãonaesferalegislativanãocorrespondesimples- menteaoresultadodaseleições.Melhordito,elaéoresul-tadodaseleiçõesnamedidaemqueocorramdentrodeum contextopolíticoqueenvolvaprogramaseidéiasquesejam maisoumenosorganizadosegerais,mascertamentecapazes deatraireunirosinteresseseasidéiasdoscidadãos(quer dizer,osseusvotos).VotarnoSr.Smithsempreimplicavotar tambémnoqueoSr.Smithdizeacredita,eassim,inevitavel-mente,naquiloemqueacreditamosequedefendemos51.
51.NorbertoBobbio(1996:119-124);KariPalonen(2004,n.o3:114).Portanto,