'Eu' devo assumir a responsabilidade do inconsciente.

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RES UMO:Desenvolve-se a idéia freudiana de que a responsabilidade do sujeito ( o analisando) refere-se à coragem de deixar falar o in-consciente; a responsabilidade do psicanalista depende da resposta que ele dá à questão quem fala?.

Palavras - c h ave : Responsabilidade, inconsciente, analisando, psica-nalista.

ABSTRACT: ‘I’ should take on the unconscious responsibility. It de-velops the Freudian idea that the subject’s responsibility ( the ana-lyzed) It refers to the courage of letting the unconscious talk; the psychoanalyst’s responsibility depends on the answer he gives to the question who speaks?.

Ke y w o rds : Responsibility, unconscious, the analyzed, psychoanalyst.

“O m édico deixará ao jurista construir para fins sociais um a responsabilidade

que é artificialm ente lim itada ao ego m etapsicológico.”

( Freu d , 1 9 2 5 / 1 9 7 6 , p.1 6 7 )

O

dom ínio da responsabilidade se divide classicam ente entre ‘responsabilidade civil’, ‘responsabilidade jurídica’ e ‘responsabilidade m oral’. Irem os nos interessar pelo sentido psicológico e m oral da palavra, o qual é bem anterior ao sen-tido social, civil ou penal. Sua definição psicológica une, num laço de solidariedade, o sujeito a seu ato, o que o coloca na situação de ter de responder por este. Podem os acrescentar a este laço as suas conseqüências, que lhe são igualm ente atri-buíveis. A psicanálise retom a este vocabulário, invocando a res-ponsabilidade do sujeito do inconsciente e a resres-ponsabilidade do psicanalista. Irem os seguir Freud através de sua obra; de-Psicanalista,

professor titular de psicopatologia na Université de Poitiers

Tradução: Sim one Perelson

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pois Lacan, para exam inar o que da psicanálise perm ite fundar um a responsabi-lidade do sujeito, privando-se de um a vontade unificada, que é o m eio e o fim de nossas organizações sociais, sobretudo no m undo de hoje, onde o sujeito é con-vidado a tornar-se m estre de si m esm o.

Desenvolvem os, há alguns anos ( GORI e HOFFMANN, 1999) — apoiando-nos em Winnicott e na teoria do sujeito em Lacan — a idéia de que na adolescên-cia há um sujeito capaz de se deixar interpelar pelo Outro e de responder pelos seus atos. O psicanalista se dirige desta form a ao sujeito do inconsciente na trans-ferência com um adolescente. A conseqüência sobre a transtrans-ferência é radical. É que o adolescente reclam a com todo o seu corpo, pedindo justam ente que lhe falem os com o a um adulto-responsável.

A RES PONS ABILIDADE MORAL DO CONTEÚDO DOS S ONHOS

Encontram os a referência prim ordial de Freud à responsabilidade no segundo capítulo de “Algum as notas adicionais sobre a interpretação dos sonhos com o um todo” ( FREUD, 1925/ 1976) . O capítulo tem por título: “Responsabilidade m oral pelo conteúdo dos sonhos”. Efetivam ente, a fam osa natureza im oral dos sonhos serve sem pre com o argum ento para a rejeição do valor do sonho e de sua interpretação: “se os sonhos são o produto inexpressivo de um a atividade m ental desordenada, não pode então haver fundam ento para assum ir responsabilidade (Verantwortlichkeit) por seu conteúdo aparente” ( idem , p.163) .

A questão da responsabilidade do conteúdo m anifesto do sonho foi resolvida desde A interpretação dos sonhos:

“Se olharm os para os desejos inconscientes reduzidos à sua m ais fundam ental e ver-dadeira form a, terem os de concluir, fora de dúvida, que a realidade psíquica é um a form a especial de existência que não deve ser confundida com a realidade material. Desse m odo, não parece haver justificativa para a relutância das pessoas em aceitar a

responsabili-dade pela im oraliresponsabili-dade de seus sonhos.” ( FREUD, 1900/ 1976, p. 658-59)

Freud retom a aqui sua argum entação do fim de AInterpretação dos sonhos, assina-lando novam ente com precisão que o conteúdo m anifesto do sonho é um enga-no e que não há razões para se chocar m ais nem com as ausências de m oral nem com os atentados à lógica.

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significam um a m oção im oral inconsciente; o gozo do sonhador pode significar a ausência de angústia ou a indulgência do sujeito.

Freud nos convida a constatar, corajosam ente, que a m aioria de nossos so-nhos, um a vez interpretados, revelam a realização de desejos im orais: egoístas, sádicos, perversos, incestuosos.

Sem m ais desvios, Freud abraça a questão da responsabilidade indicando sua falta de atualidade, a partir da descoberta dos pensam entos latentes do sonho e do recalcam ento. É evidente, diz ele, que devem os nos responsabilizar pelo con-teúdo do sonho: “a m enos que o concon-teúdo do sonho ( corretam ente entendido) seja inspirado por espíritos estranhos, ele faz parte de seu próprio ser” ( 1925/ 1976, p.165) . Freud é firm e e convincente em sua firm eza: “Eu devo assum ir a responsabilidade” do que é desconhecido, inconsciente em m im ( em m eu “Eu”) ou então não estou m ais no terreno da psicanálise.

A m etapsicologia freudiana nos ensinou a não separar o ‘Eu’ do ‘Isso’ pulsio-nal, na m edida em que ele não é senão a parte periférica que sofre suas influên-cias e acaba por lhe obedecer. Essa separação seria, para Freud, um cam inho sem volta. A clínica da neurose obsessiva m ostra bem a culpabilidade de um ‘Eu’ em face de todas as espécies de pensam ento que ele não pode reconhecer com o lhe pertencendo. O ser norm al não se priva desta organização psíquica. Im põe-se a constatação freudiana de um a consciência m oral que é um a form ação reativa contra o m al percebido no ‘isso’. A força da repressão da pulsão é proporcional à severidade da consciência m oral.

Deixem os a últim a palavra a Freud, que sugere àquele que quer ser ‘m elhor’ que a sua natureza hum ana ver se consegue produzir algo que não hipocrisia ou inibição.

A IRRES PONS ABILIDADE DA MAS S A

Quando se trata da m assa, diz Le Bon, o heterogêneo desaparece no hom ogêneo. A singularidade cede diante do idêntico. O que um sujeito pode ganhar ao se despir assim de sua singularidade? A resposta de Le Bon satisfaz Freud ( FREUD, 1921/ 1976, p.98) , pois a m assa lhe dá um sentim ento de poder capaz de sus-pender o recalcam ento das pulsões às quais ele não poderia ceder de outro m odo. É aqui que Freud introduz a responsabilidade do sujeito,1 na m edida que este sentim ento fixa o sujeito. Por outro lado, o anonim ato da m assa, a causa de sua irresponsabilidade, perm ite ao sujeito desem baraçar-se de sua própria responsa-bilidade. O que leva ao desaparecim ento da consciência m oral ou do sentim ento

1 Sobre a questão de com o fundar a possibilidade de um a responsabilidade singular, cf. S.

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de responsabilidade. Espanto algum para Freud, que já havia reconhecido que o cerne desta consciência é constituído de angústia social.

UMA VONTADE UNIFICADA?

“Responsável ou irresponsável?”, estes veredictos da alternativa jurídica, diz Freud ( 1926/ 1976, p.252) , não se adaptam aos neuróticos. Esta questão da responsa-bilidade surge aqui a propósito da vontade do sujeito de não querer curar-se de sua doença: “Este doente ( ...) é ele quem gostaria de não se curar.” A resposta de Freud se fundam enta na unidade perdida do Eu: “O doente quer certam ente se curar, m as ao m esm o tem po ele não quer.” Ele não pode “elaborar um a vontade unificada”, senão ele não seria neurótico. O Eu (Moi) do neurótico é o lugar do retorno do recalcam ento pulsional contra o qual ele não pode lutar, o que faz com que esse eu seja o lugar do desconhecim ento: “ele não sabe habitualm ente nada” sobre o pulsional que o ocupa.

Som os forçados a observar, com o faz Freud, que todas as nossas instituições sociais são talhadas para pessoas com um eu unificado, norm al, que se pode etiquetar de bom ou m al, que ou bem assum e a sua função ou bem é excluído desta em função de um a influência excessivam ente poderosa. Esta constatação é hoje extrem am ente atual num m undo em que cada um é solicitado a tornar-se m estre de si m esm o.

Freud prossegue o diálogo retom ando o exem plo da reação terapêutica nega-tiva que se opõe à cura, preferindo os benefícios secundários da doença ( o gozo da doença) . Cito-o: “form ou-se no eu do doente um a m oção de vontade, que quer m anter a doença ( ...) ”. Este propósito de Freud contribui m uito para que nos interroguem os sobre o que funda a responsabilidade do sujeito freudiano em relação à sua definição jurídica.

Por hora, junto com Freud, adm itim os que a psicanálise perm itiu reconhe-cer que “ é m uito raro a com plexidade de um caráter hum ano, im pelida por um lado por outras forças dinâm icas, subm eter-se a um a escolha entre alterna-tivas sim ples, com o levaria a crer nossa doutrina m oral antiquada” ( 1900/ 1976, p.659) .

A PARTICIPAÇÃO DO S UJEITO EM S UA DES ORDEM NEURÓTICA

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sub-jetiva na corte da qual era o objeto e na ficção da quadrilha que lhe perm itira sustentar, até então, o seu desejo ( LACAN, 1966) .

Nesta parte de gozo encontra-se a participação do sujeito, e ela im plica a questão da escolha ( HADDAD, 1995) , assim com o Freud fala da escolha da neu-rose e até m esm o da recusa da cura.

Podem os agora dar um salto com Lacan e reconhecer que “por nossa posição de sujeito, som os sem pre responsáveis” ( LACAN, 1966, p. 858) .

O QUE DEVO FAZER?

A ética da psicanálise se articula a um Sollen, um dever que em nada deixa a desejar a Kant, o que o adágio freudiano diz m uito justam ente: “dali onde isso estava, Eu devo advir”. No fundo, diz M. Safouan em sua análise do sem inário de Lacan sobre a ética:

“( ...) a fórm ula de Lacan: ‘o desejo é a sua interpretação’ é a m esm a que aquela que descreve o processo de análise com o um a travessia do fantasm a. Ora, este desejo de

jogar fora a m áscara ( com o indica, por exem plo, o lapso) aponta para um dever particular, aquele que se exprim e no adágio: ‘dali onde isso estava, Eu devo advir’.” ( SAFOUAN, 2001, p. 140)

Nisto a ética da psicanálise é um a ética do desejo de “elucidar o inconsciente do qual você é o sujeito” ( LACAN, 2001, p. 199) . Resta acrescentar: “m as todos sabem que eu não encorajo ninguém , ninguém cujo desejo não esteja decidido”. Em outros term os: “não pergunta ‘o que fazer’ senão aquele cujo desejo se apaga”.

A RES PONSABILIDADE DO PS ICANALISTA

Com o acabam os de ver, a responsabilidade do sujeito ( o analisando) está relacio-nada à coragem de deixar falar o inconsciente, o que Freud reconhecia no poeta, não sem chamar a atenção sobre o limite próprio à estética, a saber, a produção de gozo. Com Dora, já respondem os à questão da responsabilidade do analista, na m edida que “é ele, em sum a, quem , com o auditor ou com o ouvinte, funda o sujeito que se dirige a ele” ( SAFOUAN, 1983, p.47) . É do analista que depende a resposta à questão quem fala? Pela escolha que faz da interpretação do sentido do discurso que lhe é dirigido, ou do que aprende da condição do sujeito falante. Assim , um analista de língua estrangeira atribuirá a sua im possibilidade de dizer à sua im potência de desem penho na língua estrangeira, isto até a sua descoberta da im possibilidade de dizer o ‘m aternal’ em sua língua de origem . Este im possí-vel é a condição estrutural do sujeito falante.

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REFERÊNCIAS

FREUD, S. ( 1976) Edição standard das obras psicológicas com pletas de Sigm und Freud. Rio de Janeiro: Im ago.

( 1900) “ A inter pretação dos sonhos” , v.IV e V.

( 1921) “ Psicologia de gr upo e a análise do ego” , v. XVIII, p.87-179. ( 1925) “ Algum as notas adicionais sobre a interpretação de sonhos com o um todo” , v. XIX, p. 155-173.

( 1926) “ A questão da análise leiga” , v. XX, p.205-293.

GORI, R. e HOFFMANN, C. ( 1999) La science au risque de la psychanalyse. Par is: Erès.

HADDAD, G. ( 1995) “ La responsabilité du sujet et le discours freudien” , Le Trimestre Psychanalytique n.1, ALI.

HOFFMANN, C. ( 2001) Introduction à Freud. Le refoulem ent de la vérité. Hachette Pluriel.

LACAN, J. ( 1966) “ La science et la vérité” e “ Intervention sur le transfert” , in Écrits, Paris: Seuil.

. ( 1974) Télévision, Paris: Seuil.

SAFOUAN, M. ( 1983) Jacques Lacan et la question de la formation des analystes, Pa-ris: Seuil.

. ( 2001) Lacaniana, Paris: Fayard.

THIBIERGE, S. ( 2003) “Massenpsychologie et logique du sujet, ou Pourquoi l’on ne se sauve pas seul” , La Célibataire n.7, EDK.

Christian Hoffm ann

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References