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De como seria bom se fosse ao contrário

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Academic year: 2017

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Alfa,

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

São P a u l o 29:9-19, 1985.

DE COMO SERIA BOM SE FOSSE AO CONTRÁRIO*

Vera Lúcia d o A M A R A L * *

RESUMO: Trata-se do relato de uma experiência a partir da execução de uma proposta de ficha de leitura como forma de provocar "pressões" para a produção de textos criativos no ensino da Língua Portuguesa, modificando ou ampliando a atitude de ler, bem como o teor da expressão do pensamento em nossa sala de aula, que é mais intelectual que afetivo quando seria melhor se fosse ao contrário.

UNITERMOS: Leitura; ficha de leitura; compreensão e expressão estilística; redação.

Éramos t r i n t a e u m na sala d e a u l a , 6." série d o Colégio Miguel de C e r v a n t e s , bair-ro d o M o r u m b i em S ã o P a u l o , 1.° s emes tr e de 1982.

Dos tr in ta q u e r e a l i z a r a m u m a a v a l i a ç ã o de leitura d o livro Se...Será, Serafina? (13), c o n t e n d o n o v e q u e s t õ e s , s o m e n t e o n z e a l u n o s r e s p o n d e r a m à o i t a v a p e r g u n t a : " Escrever de cabeça p a r a b a i x o foi u m m e i o q u e a escritora e n c o n t r o u p a r a m o s t r a r que Serafina u n e a e m o ç ã o a t u d o o q u e faz. Neste m o m e n t o , p e r c e b a a sua e m o ç ã o . Passe-a p a r a o p a p e l d a f o r m a c o m o q u i s e r " . Estes a l u n o s c r i a r a m textos q u e t i n h a m diferentes tipos de l e t r a s , inúmeros sinais gráficos, d e s e n h o s i n t e r c a l a n d o s e c o m as p a -lavras e v a r i a d a s d is tr ib u iç õ e s gráficas, inclusive c o m textos de cabeça p a r a b a i x o .

Os d e m a i s a l u n o s n ã o r e s p o n d e r a m à q u e s t ã o . U m deles, mais t a x a t i v o , d e c l a r o u " N ã o c o n s i g o " . Q u a t r o n ã o a e n t e n d e r a m , três a s s i n a l a r a m o número d a q u e s t ã o e deixaram u m espaço em b r a n c o c o m o r e s p o s t a e o n z e nem fizeram m e n ç ã o à p e r g u n t a .

O q u e significam p a r a o e n s i n o d a Língua P o r t u g u e s a esses números? P a r a m i m eles d e m o n s t r a v a m c l a r a m e n t e q u e a l g u m a coisa f a lh a v a .

P r o c u r a v a q u e t r i n t a crianças e n t r e o n z e e treze a n o s expressassem linguis ticamente a percepção de suas próprias e m o ç õ e s e o r e s u l t a d o era t ã o d e s a n i m a d o r .

Na r e a l i d a d e , n ã o deveria e s ta r t ã o s u r p r e e n d i d a . Alguém já fizera essa tentativa com elas antes? N ã o . N u m a escola o n d e n ã o faltava n a d a , s o b r a v a c a n e t a p a r a d a n o ar para expressar a e m o ç ã o . M o r t e à l i t e r a t u r a ? M o r t e à língua?

Há o i t o a n o s l e c i o n a n d o e s p a n h o l p a r a brasileiros pela p o r t a d a e m o ç ã o , s e m p r e me p r e o c u p o u o e n s i n o d a n o s s a própria língua pelos c a m i n h o s t e n e b r o s o s da c o n c e p -ção errônea d o ser h u m a n o c o m o p u r a m e n t e intelectual. U m d e s c o n h e c i d o d i a n t e de outros t a n t o s . O p r o f e s s o r e n s i n a , os a l u n o s a p r e n d e m . O q u ê ? U m a p o r ç ã o de r e g r a s , nomes, n o r m a s . M a s e a c o m u n i c a ç ã o ? N ã o é c o m p l e t a nem e n t r e eles m e s m o s , u m a vez que se o l h a m l i m i t a d a m e n t e , se o l h a m via intelecto: se vêem m u i t o p o u c o .

* O artigo é um r e s u m o d o t r a b a l h o a p r e s e n t a d o n o C u r s o de Pós-Graduaçâo Estilística de Língua P o r t u g u e s a , m i n i s t r a d o pela Prof." D r a . Clélia C A . S p i n a r d i J u b r a n , n o 2.° s e m e s t r e de 1985.

(2)

AMARAL, V.L.

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d o — De c o m o seria b o m se fosse ao contrário. Alfa, São P a u l o , 29:9-19, 1985.

P a r a haver c o m u n i c a ç ã o p l e n a , o mínimo q u e poderíamos fazer p o r nós m e s m o s é

ver-nos c o m o seres h u m a n o s c o m p l e t o s — seres intelectuais

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

e emocionais, p o r mais

e m b u t i d a q u e esteja essa e m o ç ã o em nós.

O q u e i n s p i r a r i a A u g u s t o de C a m p o s a c o m p o r o seu " P u l s a r " (6) cheio de estrelas e p o n t o s , com a q u e l a s d i m i n u i n d o e estes c r e s c e n d o g r a f i c a m e n t e , s u b s t i t u i n d o respec-tivamente as vogais et o, e s p a l h a n d o as p a l a v r a s b r a n c a s n o retângulo p r e t o ? O q u e le-varia C a e t a n o V e l o s o , a o m u s i c a r esse p o e m a , ressaltar as estrelas c o m sons de sini-n h o s , sosini-ns a g u d o s e os p o sini-n t o s c o m sosini-ns graves?

V i a j a n d o mais pela a r t e , o q u e levaria T o m i e O h t a k e escolher um t o m a m a r e l o em vez de um r o x o p a r a u m a d e t e r m i n a d a tela?

Poderíamos i n d a g a r páginas e páginas, p a s s a n d o p o r q u a l q u e r t i p o d e e x p r e s s ã o artística, e a r e s p o s t a seria a m e s m a : em p r i m e i r a instância, a e m o ç ã o .

Há um p u l s a r d e n t r o de c a d a ser h u m a n o , i n d e p e n d e n t e dos d o n s artísticos. P a r a os ar tis tas d a p a l a v r a este pulsar se t r a n s f o r m a em vontade de significara essa v o n t a d e , essa subjetividade d o c o r p o q u e vive a siginificação, s e g u n d o Bosi, será responsável pe-lo nexo e n t r e som e s e n t i d o ( 4 , p . 6 0 ) .

A i n d a p a r a Bosi, os m o v i m e n t o s de q u e os f o n e m a s r e s u l t a m , i n d a g a , " n ã o s ã o , acaso, vibrações de u m c o r p o em s i t u a ç ã o , ex-pressões de um o r g a n i s m o q u e r e s p o n d e , com a p a l a v r a , as pressões q u e o a f e t a m d e s d e d e n t r o ? " ( 4 , p . 4 1 ) .

N ã o c o n c e b o e n s i n o sem p r o d u ç ã o , pois é ela q u e d e m o n s t r a o q u e se a p r e n d e u , o q u a n t o se cresceu em u m a s i t u a ç ã o de t r o c a de s a b e r . P o r t a n t o , n ã o vejo c o m o n ã o p r o v o c a r " p r e s s õ e s " p a r a q u e se p r o d u z a m textos criativos q u a n d o está em j o g o o en-sino d a Língua P o r t u g u e s a (ou de q u a l q u e r o u t r a ) .

Fazer esses c o r p o s t ã o a c o s t u m a d o s à inércia d o s b a n c o s escolares v i b r a r e m , pulsa-rem, serem t o c a d o s em suas e m o ç õ e s e as expressarem através dos códigos lingüísticos, limitados c o m o se sabe p a r a t a n t a s possibilidades q u e vivem em nós, s e m p r e foi meu desafio.

O professor a n t e r i o r — 15 dias de a u l a s iniciadas — havia p e d i d o a leitura de Spharion (1), e eu, sem c o n h e c e r o livro nem os a l u n o s , deveria " c o b r a r " essa leitura e pedir o u t r a em s e g u i d a . E r a u m d a d o de q u e a escola se o r g u l h a v a : a q u i as crianças lêem m u i t o .

P o r este a s p e c t o q u a n t i t a t i v o , n ã o p o s s o deixar de me l e m b r a r das p a l a v r a s de P a u -lo Freire, q u a n d o solicitado a expressar a l g u n s tópicos significativos de sua experiência na área da leitura q u e p u d e s s e m também ser significativos àqueles q u e e n s i n a m leitura (8).

C r i t i c o u , e n t ã o , o q u e c h a m a de " c o m p r e e n s ã o mágica da p a l a v r a e s c r i t a " , expres-sa, p o r e x e m p l o , na leitura q u a n t i t a t i v a : " ( . . . ) q u a n t o mais livro eu c o m p r o , q u a n t o mais livro eu o l h o , q u a n t o mais livro eu p e n s o q u e estou l e n d o , t a n t o mais eu estou sa-b e n d o . (...) t e m o s d e ler s e r i a m e n t e , m a s L E R , isto é, t e m o s de nos a d e n t r a r nos t e x t o s , compreendend»os na sua r e l a ç ã o dialética com os seus c o n t e x t o s e o ' n o s s o ' c o n t e x -t o . " (8, p . 3-4).

Em seguida ele a b o r d a v a u m ângulo d a q u e s t ã o q u e interessa a q u i . A f i r m a v a h a v e r u m a diferença e n t r e a n d a r " s e n t i n d o " a r u a e a n d a r " p e r c e b e n d o " a r u a , q u e r dizer, " a p e r c e p ç ã o crítica implica, n a v e r d a d e , a a p r e e n s ã o d a q u i l o q u e é s e n t i d o e u m a c o m p r e e n s ã o d a r a z ã o de ser d o q u e s e n t e . " (8, p . 4 ) .

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in-AMARAL,

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

V.L. d o — De c o m o seria bom se fosse ao contrário. Alfa, São P a u l o , 29:9-19, 1985.

telecto d o ser — p r i m e i r o c a p t a - s e a e m o ç ã o , d e p o i s t o m a - s e consciência d e l a , " d a ra-zão de ser d o q u e s e n t e " .

R e t o m a n d o o q u e dizia s o b r e e n s i n o e p r o d u ç ã o , este tipo de leitura, p r o p o s t o p o r Paulo Freire, é p r o d u t i v o , ele tem r e t o r n o , mantém-se a r e l a ç ã o dialética d e f e n d i d a pelo A. O leitor, a o perceber c r i t i c a m e n t e o q u e leu, e n r iq u e c e u s e p o r q u e teve q u e a d e n -trar no c o n t e x t o d a o b r a e realizar t o d o u m t r a b a l h o de a p r e e n s ã o e c o m p r e e n s ã o d o que ele próprio sentiu. C o e r e n t e m e n t e c o m o q u e a f i r m a v a em conferência de a b e r t u r a do 3.° C o n g r e s s o Brasileiro d e L e i t u r a , a t o de ler " i m p l i c a s e m p r e p e r c e p ç ã o crítica, interpretação e ' r e - e s c r i t a ' d o lido ( . . . ) . " (9, p . 24).

P e r g u n t a v a - m e c o m o c o l o c a r isso em prática c o m aqueles t r i n t a c o m p a n h e i r o s de aprendizagem e

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Spharion... Li o livro. Se o c o n h e c e s s e , e d e p e n d e s s e de m i m , n ã o o te-ria indicado a o s a l u n o s : n ã o h a v i a m e x i d o n a d a lá d e n t r o , o meu " p u l s a r " n ã o h a v i a m u d a d o de r i t m o , a estória n ã o m e h a v i a t o c a d o . C o m o trabalhá-la a s s im, a frio? O s alunos m e p e r g u n t a v a m se d e v i a m p r e e n c h e r e e n t r e g a r - m e o S u p l e m e n t o de T r a b a l h o (ficha de leitura) q u e a c o m p a n h a o livro. Seria a q u e l e um hábito (abominável) na esco-la? Fui ler a ficha c o m a t e n ç ã o . E s t a v a c o m p l e t a m e n t e fora de t u d o o q u e p o d e r i a levar a uma leitura crítica d a o b r a . N o meio d o c a m i n h o , sem saber o q u e decidir, decidi n ã o decidir. ( A p r e n d i q u e o m e l h o r a fazer, q u a n d o se está indeciso, é aceitar a i m a t u r i d a d e e não se p r e s s i o n a r . )

E n q u a n t o n ã o decidia n a d a s o b r e Spharion, s e g u i n d o as exigências d a escola, pedi

aos alunos q u e lessem o u t r o livro: o m e n c i o n a d o Se... Será, Serafina?

Ele contém d u a s estórias p r o t a g o n i z a d a s p o r Serafina: u m a q u e dá título a o livro e outra com o n o m e d e " O diário de S e r a f i n a " . E n c e r r a n d o a trilogia d a p e r s o n a g e m

existe ainda O Dicionário de Serafina.

Serafina, criança sem i d a d e def inida, o l h a o m u n d o à sua volta com o l h o s críticos e p r o p õ e soluções criativas p a r a o q u e n ã o está de a c o r d o . Âo contrário d o q u e p o d e r i a ser u m a M a f a l d a , de Q u i n o , S e r a f i n a n ã o p e r d e seu caráter infantil, suas fantasias são infantis; n ã o se vê u m a d u l t o p r o j e t a n d o - s e através da máscara da sua p e r s o n a g e m criança.

Em t o d o s os s e n t i d o s , os dois livros, Spharion e Se... Será, Serafina?, são m u i t o

di-ferentes. P o d e r i a t r a b a l h a r essas diferenças, p e n s a v a , e p o r q u e n ã o a p r o v e i t a r e checar outra de m i n h a s a n t i g a s idéias: s o b r e a v a l i d a d e da ficha d e leitura (2)? T e n t a r i a e l a b o rar u m a que p r o p i c i a s s e a " r e e s c r i t u r a " d o l i d o , testaria a p e r c e p ç ã o crítica d o a l u n o -leitor, f u n d a m e n t a n d o - m e b a s i c a m e n t e nas diferenças estilísticas de c a d a t e x t o .

Assim surgiu a ficha de a v a l i a ç ã o q u e i n t r o d u z i m o s n o c o r p o deste e s t u d o .

Antes, porém, de c o m e n t a r as q u e s t õ e s nela c o n t i d a s , gostaria de falar um p o u c o sobre o conteúdo d a s estórias.

Spharion: Aventuras de Dico Saburó. Dico Saburó é u m sensitivo d e 15 a n o s de idade, d o t a d o d e p o d e r e s p a r a n o r m a i s , q u e m o r a com seus pais e u m a i r m ã em Dia-mantina, em u m a c o m u n i d a d e de m i n e r a d o r e s .

A h a r m o n i a d a c o m u n i d a d e é a b a l a d a c o m a m o r t e inexplicada de um m i n e r a d o r e as únicas pistas d e i x a d a s são as m a r c a s q u e a p a r e c e m p i n t a d a s n o seu r o s t o : o n o m e Spharion e as letras F F .

Desta m a n e i r a é i n t r o d u z i d a i n d i r e t a m e n t e a p e r s o n a g e m fio d a n a r r a t i v a q u e se mantém d e s c o n h e c i d a até o m o m e n t o em q u e seu diário é lido e, e n t ã o , d e s v e n d a d o o mistério de u m a s u c e s s ã o d e a ç õ e s d e S p h a r i o n s e m p r e e n v o l v e n d o r o u b o s de p e q u e n o s diamantes.

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AMARAL,

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

V.L. d o — De c o m o seria bom se fosse ao contrário. Alfa, São P a u l o , 29:9-19, 1985.

apresenta c o m o u m a novela de ficção científica. É n a r r a d a em 3 .a pessoa p o r u m n a r

-r a d o -r onisciente q u e inte-rcala sua voz c o m a l .a, de Dico Saburó, em três ocasiões em

que Dico c o n t a suas experiências p a r a n o r m a i s a o p r o c u r a r pistas p a r a a p a n h a r S p h a -rion. Este também se t r a n s f o r m a em n a r r a d o r em 1 .a pessoa q u a n d o i n t e r t e x t u a l m e n t e

o seu Diário é i n t r o d u z i d o n a n a r r a t i v a , d e s v e n d a n d o os mistérios t o d o s .

S p h a r i o n é u m cientista q u e desenvolveu p l a n o s p a r a e x t e r m i n a r os f a b r i c a n t e s de b o m b a s atômicas através de sua força m e n t a l a t i v a d a pelo c a r b o n o 14 e n c o n t r a d o n o s d i a m a n t e s r o u b a d o s . A estória t e r m i n a q u a n d o , a o t r a v a r u m a b a t a l h a m e n t a l c o m Di-co Saburó, S p h a r i o n cai a o m a r e m o r r e .

Se... Será Serafina?è u m livro q u e t r a b a l h a com as p a l a v r a s . S e r a f i n a , a o recriar o seu m u n d o , i n i c i a n d o pelo próprio c o r p o , r e i n v e n t a expressões, " r e n o m e i a " a realida-de, brinca c o m as p o s s ib ilid a d e s d a língua.

Se a gente falasse pelos o l h o s e o lh as s e pela b o c a , " a gente ia ficar o l h i a b e r t o q u a n -do tivesse u m a s u r p r e s a e b o q u i f e c h a d o q u a n d o quisesse d o r m i r ( . . . ) . A gente ia ter u m a m e n i n a d a b o c a e u m céu p a r a c a d a o l h o " . ( 1 3 , p . 4.)

Serafina, em suas a v e n t u r a s , já t i n h a sido u m a girafa, G i r a f i n a . A prefeita d a cida-de, Prefeitina. U m girassol, G i r a s s o l i n a . U m p i r i l a m p o , L a m p a r i n a . U m a s a m a m b a i a , S a m a m b a r i n a . S e r a f i n a , a d e n t r a n d o n o s reinos vegetal, a n i m a l e h u m a n o , d e s v e n d a - o s a o leitor n u m a visão t o d a especial de q u e m está d o l a d o de d e n t r o , de q u e m se sente u m vegetal, n o reino vegetal e u m a n i m a l , n o reino a n i m a l .

O diário de Serafina. S e r a f i n a g a n h a u m diário de p r e s e n t e de aniversário e resolve usá-lo, d e p o i s de a l g u m t e m p o , p a r a c o n t a r u m s o n h o b o n i t o q u e tivera: e s c r e v e n d o - o , n ã o o esqueceria.

O seu u n i v e r s o de criança vai, assim, s e n d o r e g i s t r a d o n o diário, um a m i g o c o m quem Serafina c o n v e r s a , e c o n t a a ida a o circo com o v i z i n h o , seu N o n o ; o dia em q u e o O d o r i c o , p a p a g a i o d o seu N o n o , a p r e n d e a falar Serafina; a festa-surpresa q u e as crianças fazem p a r a c o m e m o r a r o aniversário d o seu N o n o ; o c a m p e o n a t o d a língua d o pê; os p r e p a r a t i v o s p a r a o n a s c i m e n t o d a sua i r m ã ; um dia em q u e t u d o a c o n t e c e a o contrário e ela resolve escrever de cabeça p a r a b a i x o ; o N a t a l e o A n o - N o v o ; as férias no sítio e o n a s c i m e n t o de Severina, sua i r m ã .

T a n t o o diário de S p h a r i o n c o m o o de Serafina a p r e s e n t a m a p a r t i c u l a r i d a d e de n ã o se e n q u a d r a r e m e s t r u t u r a l m e n t e c o m o tal. Em Spharion, o n a r r a d o r , em 3 . " pes-soa, i n t r o d u z a leitura d o diário e x p l i c a n d o : " T r a t a v a - s e de u m a espécie de relatório m a n u s c r i t o , u m t a n t o r e s u m i d o , q u e n ã o p o d e r i a ser p r o p r i a m e n t e c h a m a d o de 'diár i o ' , u m a vez q u e seu a u t o 'diár p a s s a v a vá'diários d i a s , s e m a n a s e até meses sem esc'diáreve'diár n a -d a . " ( 1 , p . 109.)

Q u a n d o Serafina estréia seu diário, escreve: "Já t i n h a o u v i d o falar de gente q u e fa-zia diário, c o n t a v a segredos p r a ele, e n ã o deixava ninguém ler d e p o i s .

" M a s hoje de m a n h ã a c o r d e i com v o n t a d e de fazer mais ou m e n o s a m e s m a coisa. Eu digo mais ou m e n o s p o r q u e n ã o p r e t e n d o escrever t o d o s , t o d o s os d i a s , nem p r e t e n -do c o n t a r s e g r e d o s , e p o d e ser até q u e eu deixe a l g u m a s pessoas lerem o q u e e s c r e v i . " (13, p . 22.)

São b a s i c a m e n t e d i f e r e n t e s , c o n t u d o , n o t r a t a m e n t o q u e seus n a r r a d o r e s d ã o a o diário: S p h a r i o n n ã o o p e r s o n a l i z a , n ã o d i a l o g a c o m ele, e n q u a n t o Serafina o t r a t a c o -m o u-m ser vivente e q u a n d o c o n t a sua vida o faz c o -m o se estivesse c o n v e r s a n d o c o -m alguém com q u e m tem a f i n i d a d e . Alalguém a m i g o . O q u e faz com q u e o diário de S p h a -rion esteja n u m estilo e o de S e r a f i n a em o u t r o .

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so-AMARAL, V.L.

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

d o — De como seria bom se fosse ao contrário. Alfa, São P a u l o , 29:9-19, 1985.

bre a estória, divididas p o r p e r s o n a g e n s , n a r r a d o r , n a r r a t i v a , m e n s a g e m e e n r e d o . Essa era a ficha de leitura q u e os a l u n o s me p e r g u n t a v a m se d e v i a m r e s p o n d e r .

Em que m e d i d a ela n o s serviria? E m q u e m e d i d a a j u d a r i a a p r o v o c a r u m a r e l a ç ã o dialética e n t r e o c o n t e x t o d a o b r a e o d o a l u n o l e i t o r ? E s t a r i a p r o p i c i a n d o u m a p e r c e p -ção crítica, i n t e r p r e t a ç ã o e " r e - e s c r i t a " d o lido, c o n f o r m e p a l a v r a s já c i t a d a s de P a u l o Freire?

T e m o q u e estaria b e m l o n g e de exercer essa f u n ç ã o , u m a vez q u e ela a p e n a s e x p l o r a a memória d o leitor, e memória intelectual ( n ã o e m o c i o n a l ) .

N o item I — P e r s o n a g e n s , a p e s a r d e i n t r o d u z i r as p e r g u n t a s f a l a n d o em e m o ç õ e s — " A c h o q u e você viveu j u n t o c o m i g o t o d a s as e m o ç õ e s e perigos d o livro, n ã o é mesmo? V a m o s começar r e l e m b r a n d o as p e r s o n a g e n s " — , n ã o há n e n h u m a " b r e c h a " p a -ra que o leitor expresse as suas e m o ç õ e s em r e l a ç ã o às p e r s o n a g e n s .

O que se segue é u m a lista de características p a r a o leitor

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

escreverão l a d o os nomes

das p e r s o n a g e n s q u e as p r e e n c h e m .

A s e g u n d a q u e s t ã o p e d e a m e s m a coisa, só q u e f o r n e c e n d o a g o r a a p e n a s u m a

ca-racterístca. E a terceira desse g r u p o p e d e q u e se faça a descrição de a l g u n s fenômenos

p a r a n o r m a i s o c o r r i d o s c o m D i c o .

O g r u p o seguinte, s o b r e o N a r r a d o r , contém q u a t r o p e r g u n t a s . A p r i m e i r a p e d e

que se diga o capítulo em q u e o c o r r e a interferência d o n a r r a d o r nos fatos n a r r a d o s e

que se transcreva o trecho q u e d e n u n c i a esta interferência. A s e g u n d a , é Dico q u e p e d e

que se diga em q u e páginas ele se t o r n a n a r r a d o r e a razão disso o c o r r e r . A terceira

apresenta l a c u n a s p a r a serem p r e e n c h i d a s . Q u e r s ab er o nome d o terceiro n a r r a d o r , através de q u e recurso ele a p a r e c e e o motivo da A u t o r a u s a r tal r e c u r s o . N ã o se e x p l o -ra a i n t e r t e x t u a l i d a d e , o f a t o d e t e r m o s u m livro d e n t r o d o livro, os r e c u r s o s estilísticos de um e o u t r o n a r r a d o r . A q u a r t a é u m texto c o m l a c u n a s também q u e r e s u m e q u e m são os n a r r a d o r e s e n c o n t r a d o s em Spharion.

O g r u p o I I I , s o b r e a N a r r a t i v a , c o n t i n u a exigindo u m leitor de b o a memória. P r e -meira q u e s t ã o : a o listar a l g u n s d a d o s d a estória em u m a c o l u n a , pede q u e sejam os mesmos r e l a c i o n a d o s c o m pistas n a o u t r a c o l u n a . S e g u n d a q u e s t ã o : p e d e q u e se preencham l a c u n a s , f a z e n d o c o m q u e o texto s u r g i d o seja s in tetizad or d a s ações de S p h a -rion. Terceira q u e s t ã o : através d o m e s m o p r o c e s s o de l a c u n a s há frases q u e , u m a vez c o m p l e t a d a s , c a r a c t e r i z a m S p h a r i o n .

O que v e m o s a q u i além d e r e p e t i ç ã o p u r a e simples d o lido?

O g r u p o IV, s o b r e a M e n s a g e m , se r e d u z a u m a única q u e s t ã o o n d e o leitor estaria " r e l a t i v a m e n t e l i v r e " p a r a fazer o seu t e x t o : " E s c r e v a a q u i u m a m e n s a g e m q u e você tirou com a l e i t u r a . "

Digo " r e l a t i v a m e n t e l i v r e " p o r q u e as intenções maniqueístas d a m e n s a g e m são cla-ras. Dico é a p e r s o n i f i c a ç ã o d a b o n d a d e e S p h a r i o n , d o m a l . A " m e n s a g e m " q u e o lei-tor escreveria a q u i seria n o mínimo a frase c h a v ã o : " O bem s e m p r e a c a b a v e n c e n d o o m a l . " Infelizmente n ã o se checa essa a f i r m a ç ã o ; " C a r o leitor, n o seu c o n t e x t o social também o mal a c a b a v e n c i d o p e l o b e m ? "

N ã o satisfeitos c o m a c o m p r o v a ç ã o d a memória d o leitor, o g r u p o V, s o b r e o E n r e -d o , consiste em u m a q u e s t ã o q u e lhe solicita reescrever t o -d a a estória, " f a z e n -d o um es-forço p a r a se l e m b r a r d o q u e l e u " . A j u d a m - n o através de ilustrações seqüenciais d o li-vro.

Definitivamente esse m a t e r i a l n ã o p o d e r i a nos servir na e t a p a em q u e estávamos.

(6)

Suple-A M Suple-A R Suple-A L , V.L. d o — De c o m o seria bom se fosse ao contrário.

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Alfa, São P a u l o , 29:9-19, 1985.

m e n t o f o r n e c i d o pela e d i t o r a , a c r e d i t o q u e n o s enriqueceríamos b a s t a n t e . Infelizmente n ã o p u d e m o s realizar esse t r a b a l h o .

Q u e m , p o r sua vez, o l h a r a q u e s t ã o n.° 1 e a p r i m e i r a p a r t e da 5 .a, d a m i n h a ficha

de a v a l i a ç ã o , sorrirá m a l i c i o s a m e n t e e dirá: m a s aqui você fez o m e s m o , a p e l o u p a r a a memória intelectual d o a l u n o - l e i t o r !

Sem dúvida, e p o r esse m o t i v o , as q u e s t õ e s f o r a m a n u l a d a s . O q u e se p e d i a ali n ã o tem a m e n o r importância em r e l a ç ã o a t u d o o q u e v e n h o d i z e n d o q u a n t o a o a t o de ler. Explica-se s o m e n t e p o r u m c o n t e x t o intrínseco à q u e l a 6 .a série, t a x a d a c o m o

indiscipli-n a d a . E s t a v a d a indiscipli-n d o a o s a l u indiscipli-n o s u m a o p o r t u indiscipli-n i d a d e a mais p a r a q u e se a u t o - a v a l i a s s e m em um s e t o r - p r o b l e m a n a q u e l a escola: " a i n d i s c i p l i n a " . C h e g a r 7h05 em vez de às 7h da m a n h ã era indisciplina, virar-se p a r a trás n a carteira era indisciplina, sujar a sala, falar em voz a lta , c o l a r . M a i s u m p o u c o e " n ã o s a b e r " era c o n s i d e r a d o também indis-ciplina.

A n u l a n d o as q u e s t õ e s , quis m o s t r a r a o s a l u n o s d u a s coisas: q u e a q u e l e c o n c e i t o de disciplina era o d a escola, n ã o o m e u . N ã o me interessava se houves s e cola ( c o m o h o u -ve) ou n ã o , se eles l e m b r a s s e m a q u e l e s d e ta lh e s o u n ã o , p o r q u e a s e g u n d a coisa q u e queria m o s t r a r - l h e s era q u e , n a q u e l e c a s o , o q u e i m p o r t a v a era a p r o d u ç ã o q u e surgiria

da leitura, a sua " r e - e s c r i t u r a " d o l i d o , n ã o a r e p e t i ç ã o de n a d a . O q u e q u e r i a e r a

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dialogar com eles, s o b r e u m p o n t o em c o m u m : o m a t e r i a l l i d o ; não inqueri-los (sic). A c r e d i t o q u e se t o r n e fácil a g o r a e n t e n d e r p o r q u e s o m e n t e o n z e , de t r i n t a , c o n s e -guiram e n t r a r p a r a o j o g o d o escrever c o m e m o ç ã o . T o l h i d o s c o n s t a n t e m e n t e n o q u e consiste o g e r m e d a c r i a ç ã o , seria m u i t o difícil soltar de r e p e n te as a m a r r a s .

R e p r o d u z o , a seguir, a ficha de leitura e l a b o r a d a p o r m i m :

N O M E : M E N Ç Ã O :

L . P . 6 .aA / M — P r o f .a: V e r a Lúcia d o A m a r a l D a t a :

I —S e . . . Será, Serafina? e O diário de Serafina são d u a s estórias q u e a edi-tou c o m o n o m e de A p e r s o n a g e m central (ou p r o t a g o n i s t a ) é

II — Q u a l dessas estórias você g o s t a r i a de ter escrito? P o r q u ê ?

III —Existiria alguém p a r e c i d o c o m S e r a f i n a ? E m caso p o s i t i v o , você g o s t a r i a de ter u m a a m i g a c o m o ela? P o r q u ê ?

IV — S u b l i n h e as p a l a v r a s q u e você a c h a q u e c o m b i n a m c o m o m o d o de ser d a pers o n a g e m S e r a f in a : d e pers a pers t r a d a meiga i m p a c i e n t e criativa egoípersta d e b o c h a d a c u r i o s a i n t r o v e r t i d a c o m p r e e n s i v a s o n h a d o r a realista r e v o l u c i o -nária - inteligente - f a l a d o r a .

C o m p l e t e a r e l a ç ã o c o m as características q u e , p a r a você, ficaram f a l t a n d o :

V — A A u t o r a , , u s o u p a l a v r a s q u e n ã o existem na língua (você rião as en-c o n t r a n o dien-cionário), tais en-c o m o :

1 — , 2 — 3 — 4- 5 -

6-E m Se... Será, Serafina?existe, p o r t a n t o , u m t r a b a l h o de c r i a ç ã o em c i m a d a s p a l a v r a s : a f a n t a s i a (Serafina s o n h a ser m u i t a s coisas) e a realidade (o n o m e " S e r a f i n a " ) j u n t a m - s e e f o r m a m p a l a v r a s diferentes.

(7)

IMARAL, V.L. d o — De c o m o seria b o m Se fosse ao contrário.

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Alfa, São P a u l o , 29:9-19, 1985.

VI

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Q u a i s são as diferenças e n t r e o diário de Serafina e o de S p h a r i o n ?

VII

I ma g in e um único f a t o . A g o r a , i m a g i n e q u e você é o S p h a r i o n e escreva esse fato n o seu diário. Faça o m e s m o , i m a g i n a n d o ser Serafina.

YIII

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Escrever de cabeça p a r a b a i x o foi u m m e i o q u e a escritora e n c o n t r o u p a r a m o s t r a r q u e Serafina u n e a e m o ç ã o a t u d o o q u e faz. Neste m o m e n t o , p e r c e b a a sua e m o ç ã o . P a s s e - a p a r a o p a p e l d a f o r m a c o m o quiser.

IX

Você m u d a r i a a l g u m a coisa n o livro? O q u ê ? E x p l i q u e p o r q u ê .

Com a q u e s t ã o n.° 2 p r e t e n d i a m e d i r a e m p a t i a d a classe com o material literário, dar-lhes a c h a n c e d e dizer o q u e 8, p o r e x e m p l o , d i s s e r a m . N ã o e s c o l h e r a m n e n h u m de-las por:

a) serem infantis 03 a l u n o s b) não gostarem delas 02 a l u n o s c) não gostar desse t i p o de livro 01 a l u n o

d) escolher

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Spharion 01 a l u n o

e) n ã o achá-las i m p o r t a n t e s 01 a l u n o O Diário foi e s c o l h i d o p o r 13 a l u n o s e Se... Será, Serafina?, p o r 9. A escolha recaiu nos mesmos m o t i v o s , i n d e p e n d e n t e d a s estórias e s c o lh id a s ; p o r s e r e m : " i n t e r e s s a n t e s , criativas, i m a g i n a t i v a s , engraçadas".

Após a p r o x i m a r o a l u n o - l e i t o r d a o b r a pela perspectiva d o escritor, tentei-o pela d a personagem ( ques tões 3 e 4), d a n d o o p o r t u n i d a d e p a r a q u e ele relesse c r i t i c a m e n t e a obra, a interpretasse e partisse p a r a u m a p r o d u ç ã o ( ques tões 5, a p a r t i r d a s p a l a v r a s criadas p o r ele, n o seu c o n t e x t o , e q u e s t õ e s 6, 7 e 8).

As questões 6 e 7 f o r a m u m teste p a r a a t e o r i a de q u e , assim c o m o p a r a C h o m s k y " a criança, a o n a t u r a l , ' a p r e n d e ' ( t e r m o i n e x a t o ) a f a l a r " , ou seja, ela extrai as regras de u m a língua em p a r t i c u l a r d a sua i n a t a "gramática u n i v e r s a l " ( 1 1 , p . 8182), t a m

-bém tem c o n d i ç ã o i n a t a p a r a p e r c e b e r e p r o d u z i r textos em diferentes estilos. Acho q u e n ã o foi p o r u m a c a s o q u e Dâmaso A l o n s o em seu método de Crítica Es

-tilística pontificou a intuição c o m o p r i m e i r o c o n h e c i m e n t o poético, seguida da

inquietação crítica e s o m e n t e em terceiro lu g a r o c o n h e c i m e n t o poético pela a b o r d a g e m m e -tódica e científica.

É, p o r t a n t o , através d a análise d a s r e s p o s t a s a estas d u a s p e r g u n t a s q u e tentarei identificar os fatos estilísticos q u e d i f e r e n c i a m u m a e o u t r a o b r a , u m a vez q u e a q u e s tão 6 pede q u e se diga as diferenças e n t r e o diário de Serafina e o de S p h a r i o n , e a q u e s

-tão 7 solicita a o a l u n o q u e i m a g i n e u m único fato e o escreva o r a n o estilo de Spharion

ora no de Serafina.

Três g r u p o s dividem as características a p o n t a d a s c o m o diferenças e n t r e os dois diá-rios: um que c o n c e n t r a as o p i n i õ e s s o b r e o conteúdo ( C ) , o u t r o s o b r e o a s p e c t o formal (F) e o u t r o de reações d o leitor ( R ) . A l g u n s e x e m p l o s : (C) Spharion — fatos i m p o r t a n

-tes, sério, filosófico, científico, u m diário a d u l t o . Serafina — coisas infantis,

engraça-d o , imaginário, c r i a n ç ã o , u m engraça-diário infantil. (F) Spharion — n ã o escreve em f o r m a de

diálogo, p a l a v r a s difíceis, b e m r e s u m i d o . Serafina — escreve c o m o se falasse c o m o

diário, brinca c o m as p a l a v r a s , feito p a r a ser g r a n d e . (R) Spharion — c a n s a ler.

Serafina— g o s t o s o de ler.

C h a m o u m e a a t e n ç ã o o fato de q u e a p e n a s u m a a l u n a registrasse q u e Serafina p a s

(8)

-AMARAL, V.L.

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d o — De c o m o seria b o m se fosse ao contrário. Alfa, São P a u l o , 29:9-19, 1985.

venturas mais sérias" e n a q u e l e "só a v e n t u r a s " e de u m o u t r o a n o t a r q u e o diário de S p h a r io n "é t o t a l m e n t e r e a l " e o de Serafina " t e m a l g u m a s p a r t e s imaginárias".

Isso b a s t a v a p a r a c o m p r o v a r m i n h a s suspeitas de q u e p a r a eles o sério é real, q u e n o sério e real n ã o c a b e m as e m o ç õ e s e q u e , infelizmente, a q u e l e s a l u n o s c o m o m u i t o s de nós crescemos divididos e d i v i d i n d o intelecto e e m o ç ã o , coisa séria de b r i n c a d e i r a , m u n d o a d u l t o de m u n d o inf antil, ciência de a r t e ( q u a n d o as d u a s o b r a s s ã o literárias, c o m o u m a é real e a o u t r a u m p o u c o imaginária?! Só p o r q u e u m a t r a b a l h a c o m t e m a científico?).

Sobressaltos de l a d o , h a v i a algo i m p o r t a n t e : a m i n h a ficha de leitura estava m o s -t r a n d o os " c o n -t e x -t o s " n a sala d e a u l a , es-távamos começando a nos ver!

O s a l u n o s também n o t a r a m o t r a b a l h o d e c o n s t r u ç ã o , a escolha d a s p a l a v r a s , o esti-lo c o n c e n t r a d o de u m e a b e r t o d o o u t r o , u m q u e t e n d e p a r a o escrito, o u t r o q u e t e n d e para o o r a l . E s t a v a c o m p r o v a n d o a m i n h a t e o r i a de p e r c e p ç ã o i n a t a p a r a os fatos es-tilísticos.

O próximo p a s s o seria verificar se n a s r e d a ç õ e s infantis (resposta à q u e s t ã o n.° 7) apareceriam essas diferenças q u e m a r c a r a m o diário de Serafina c o m o mais expressivo que o diário de S p h a r i o n , s e g u n d o r e s p o s t a s à q u e s t ã o n.° 6. A q u e l e es tar ia m a i s c a r r e -gado de a f e tiv id a d e ( s e n t i m e n t o ) , este, m a i s p e r t o d a o b j e t i v i d a d e (idéia), c o n f o r m e discute Bally s o b r e os diferentes níveis ou g r a u s de p e n s a m e n t o em q u e s ã o construídas as mensagens ( 3 , p . 109-123).

O método foi o d a c o m p a r a ç ã o , a nível léxico e morfossintático, n o s 22 p a r e s de respostas d a d a s à q u e s t ã o n.° 7, c o m p a r a r o q u e seria a linguagem o b j e t i v a (intelec-tual) de S p h a r i o n c o m a linguagem subjetiva, expressiva (afetiva) de S e r a f i n a .

N o nível morfológico, m e d i a e x t e n s ã o d o s textos em número de p a l a v r a s . P a r a as crianças, o diário de S p h a r i o n era " b e m r e s u m i d o " e o de Serafina " f e i t o p a r a ser g r a n d e " . De o n d e se d e d u z q u e p a r a elas a l i n g u a g e m objetiva é c u r t a e a s u b j e t i v a , longa.

As r e d a ç õ e s p r o d u z i d a s c o m o Serafina u l t r a p a s s a r a m em 3 0 % o total de p a l a v r a s das p r o d u z i d a s c o m o S p h a r i o n (537 x 403).

C o m p a r a n d o c a d a p a r numérico, c o r r e s p o n d e n t e às r e d a ç õ e s de S p h a r i o n e d e Se-rafina, r e s p e c t i v a m e n t e c o m as r e s p o s t a s q u e as m e s m a s crianças d e r a m à p e r g u n t a n.° 2 (Qual dessas estórias —

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Se... Será, Serafina?e o Diário — você g o s t a r i a de ter escrito? P o r q u ê ? ) , verificase q u e d o s 22 p a r e s de r e d a ç õ e s , a p e n a s 5 têm o texto de S p h a -rion mais e x t e n s o q u e o d e S e r a f i n a . C o n t u d o , desses 5 a p e n a s dois a u t o r e s infantis a p r e s e n t a r a m c o e r ê n c i a e n t r e suas p r o d u ç õ e s (a esse nível de e x te n s ã o ) e a escolha feita na q u e s t ã o n.° 2: n ã o e s c o l h e r a m n e n h u m a d a s estórias e n ã o p r o d u z i r a m textos mais longos q u e os q u e fizeram c o m o S p h a r i o n .

Da m e s m a f o r m a , 4 a l u n o s q u e n ã o h a v i a m es colhido nem Se... Será nem o Diário

p r o d u z i r a m , i n c o e r e n t e m e n t e , textos mais extensos p a r a Serafina q u e p a r a S p h a r i o n . Treze (mais d a m e t a d e ) e s c o l h e r a m u m d o s dois e p r o d u z i r a m , c o e r e n t e m e n t e , textos mais extensos p a r a S e r a f i n a .

(9)

A M A R A L , V.L. d o — De c o m o seria bom se fosse ao contrário.

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Alfa, São P a u l o , 29:9-19, 1985.

Sobre o nível sintático, fiz dois tipos d e análise: um q u e d e m o n s t r a s s e a c o m p o s i ç ã o do período e o u t r o q u e c o n s t a t a s s e os tipos de frases.

Q u a n t o a o t i p o de períodos, as r e d a ç õ e s de S p h a r i o n , n o seu t o t a l , a p r e s e n t a r a m a seguinte c o m p o s i ç ã o : 8 o r a ç õ e s c o o r d e n a d a s assindéticas; 20 c o o r d e n a d a s sindéticas; 19 s u b o r d i n a d a s e 13 o r a ç õ e s a b s o l u t a s .

E n q u a n t o as r e d a ç õ e s de S e r a f i n a f o r a m c o m p o s t a s d e : 9 assindéticas; 27 sindéti-cas; 37 s u b o r d i n a d a s e 7 a b s o l u t a s .

Se a c o o r d e n a ç ã o , em princípio, " t r a d u z u m a visão objetiva d o m u n d o " (12, p . 132), o diário de S p h a r i o n escrito pelos a l u n o s refletiu essa o b j e t i v i d a d e a o g u a r d a r a p r o p o r ç ã o de 28 o r a ç õ e s c o o r d e n a d a s p a r a 19 s u b o r d i n a d a s . A o contrário d o diário de Serafina, q u e q u a s e ig u a lo u em número de c o o r d e n a d a s e s u b o r d i n a d a s .

C o n s i d e r a n d o também q u e u m a d a s diferenças f omais a p o n t a d a s era a de q u e Spharion n ã o escreve em f o r m a de diálogo e Serafina escreve c o m o se falasse c o m o diário, talvez fosse p e r t i n e n t e p e n s a r n a p o s s ib ilid a d e d o predomínio d a p a r a t a x e n a linguagem escrita e d o d a h i p o t a x e na l i n g u a g e m o r a l .

Em relação à análise q u e c o n s t a t a s s e os tipos de frases, p r o c u r e i d e t e c t a r as frases intercaladas, s e g u n d o classificação de O t h o n G a r c i a (10, p . 85-108), e as frases inorgâ-nicas e os a n a c o l u t o s , s e g u n d o G l a d s t o n e C h a v e s de Melo (12, p . 123, 190-193).

F o r a m e n c o n t r a d a s , r e s p e c t i v a m e n t e , n o s textos c o m o S p h a r i o n e c o m o S e r a f i n a , 3 frases inorgânicas c o n t r a 9, 1 frase i n t e r c a l a d a c o n t r a 5 e 1 a n a c o l u t o c o n t r a 6.

A c r e d i t o q u e estas diferenças numéricas v e n h a m de e n c o n t r o às características formais n o t a d a s pelos a l u n o s , p a r a os q u a i s o diário de S e r a f i n a é escrito de " f o r m a e x t r o -v e r t i d a " , " b r i n c a c o m as p a l a -v r a s " e tem " l i n g u a g e m mais a b e r t a e c r i a t i -v a " .

De f a t o , este t i p o de frases p r o v o c a u m a linguagem mais expressiva, na m e d i d a em que r o m p e c o m a l i n e a r i d a d e . A p r o x i m a - s e mais d o p e n s a m e n t o c a r r e g a d o de e m o ç ã o que de idéia, está mais p e r t o d o afetivo q u e d o intelectual. G l a d s t o n e , c o n s i d e r a n d o os fatores de p r o d u ç ã o das frases inorgânicas, cita " f o r t e c a r g a e m o c i o n a l " (predomínio da c o m o ç ã o s o b r e a r a z ã o ) , " n e c e s s i d a d e de c o m u n i c a ç ã o rápida" e " p a r a desenca-dear, na ficção, a e m o ç ã o d o s l e i t o r e s " (12, p . 124-125).

Nos níveis léxico, morfológico e sintático, as r e d a ç õ e s dos a l u n o s n o estilo de Serafina a p r e s e n t a m c o n t r a s t e s m a r c a n t e s em r e l a ç ã o aos textos p r o d u z i d o s c o m o S p h a -rion.

Em Serafina há: 1. p e r s o n i f i c a ç ã o d o diário, q u e a p r o x i m a o texto d a l i n g u a g e m oral e d o d is c u r s o d i r e t o ( E x . "Diário!, você n e m sabe o q u e vai a c o n t e c e r a m a n h ã " ) ; 2. linguagem c o l o q u i a l ; 3 . r e d u ç ã o de p a l a v r a s ( " D e m o r a , né diário?", "tá h a v e n d o u m a g u e r r a n u m a s t a i s " ) ; 4 . c r i a ç ã o de p a l a v r a s ( " u m a S u b s t a n t i n a b e m D i f e r e n t o -n a " ) ; 5.. gíria ( " f o i o m a i o r b a r a t o " ) ; 6. i m p r e c i s ã o ou i -n d e t e r m i -n a ç ã o léxica, o q u e contrasta c o m a l i n g u a g e m científica de S p h a r i o n ( " E s s a tal de g u e r r a n a q u e l a i l h a " ) ; 7. adjetivação p e j o r a t i v a ( " a g r a c i n h a d a 5 .a série"); 8. a u m e n t a t i v o s e d i m i n u t i v o s ,

salientando o a s p e c t o af etivo ( " c o i t a d i n h a d a P a u l a " ) ; 9. p a r t i c u l a r i z a ç õ e s semânticas através de escolha lexical ( " h o j e na escola entreguei m e u s a m i g o s " ) ; 10. sinais de p o n -t u a ç ã o , frisando o e s -t a d o e m o -t i v o ; 11. acréscimos sin-tá-ticos c o m frases i n -t e r c a l a d a s , inorgânicas, c o o r d e n a d a s , q u e a m p l i a m as idéias, d ã o m a i s d e ta lh e s e t o r n a m a m e n s a gem mais subjetiva ( " a s b l u s a s s e r ã o c o m a r a m e d e n t r o . O l h a q u e legal! P a r t i r ã o a m a -n h ã " ) e 12. rejeição à -n o r m a c u l t a ( " O -n t i ... d o vô i . . . " — " O -n t e m . . . d e meu avô e . . . " ) .

(10)

ati-A M ati-A R ati-A L , V . L . d o — De c o m o seria bom se fosse ao c o n t r a r i o .

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Alfa, São P a u l o , 29:9-19, 19S5.

tude de ler. L e m b r o - m e a q u i d o q u a n t o está certa Eglé F r a n c h i (7), p o i s , a o discutir as técnicas p a r a p r e p a r a r o a l u n o p a r a a escrita, diz algo q u e serve p a r a q u a l q u e r o b j e t i v o e d u c a c io n a l: o p r o b l e m a d a a p r e n d i z a g e m d o s a l u n o s c e r t a m e n t e n ã o se resolve a p e n a s com a busca d e n o v a s técnicas o u m e t o d o l o g i a s , m a s c o m u m a p r o f u n d a m o d i f i c a ç ã o nas a t i t u d e s .

A o tentar modif icar a a t i t u d e de ler, d a q u e l e s a l u n o s , descobri os seus c o n t e x t o s de m u n d o d iv id id o , p r i n c i p a l m e n t e n o t o c a n t e à visão de h o m e m intelectual e e m o c i o n a l .

Descobri q u e suas p r o d u ç õ e s lingüísticas revelam u m a p e r c e p ç ã o i n a t a d o s fatos es-tilísticos da língua, a o t r a b a l h a r m o s c o m dois textos estilisticamente d i f e r e n t e s .

Confirmei o fato de q u e a identificação ( e m p a t i a ) c o m o texto facilita a sua interaç ã o , o diálogo c o m ele, a sua i n c o r p o r a interaç ã o a o n o s s o c o n t e x t o ; o q u e c h a m o de u m a c o -m u n i c a ç ã o c o -m p l e t a , facilitada pela presença d a e -m o ç ã o j u n t o à nossa p e r c e p ç ã o inte-lectual.

E s t o u c o n v e n c i d a de q u e a m i n h a ficha de leitura foi c r i a d a a p a r t i r d a e m o ç ã o q u e

me despertou a leitura de

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Se...Será, Serafina?. As m e t a m o r f o s e s de Ser af ina, l e v a n d o a

m e t a m o r f o s e s lingüísticas, a p o s s ib ilid a d e de " b r i n c a r " c o m as p a l a v r a s , e x e r c e r a m uma salutar " p r e s s ã o " s e n tid a i n t e r i o r m e n t e q u e " e x - p r e s s o u " c o m a p a l a v r a a q u e l a ficha.

C e r t a m e n t e n ã o m e n o s p r e z o o d e s e n v o l v i m e n t o intelectual h u m a n o , sem o q u a l a t r a d u ç ã o desse " p u l s a r " n ã o seria translúcida.

E n t r e t a n t o , notei q u e m e s m o ós a l u n o s c o m dificuldades de e x p r e s s ã o , a p r e s e n t a n do " d e s v i o s " à n o r m a c u l t a , c o n s e g u i r a m diferenciar seus textos estilisticamente. C o n -seguiram c a p t a r e e x p r e s s a r i a seu m o d o , diferenças de estilo.

P o r último, g o s t a r i a de d e f e n d e r , a favor d o e n s i n o d a língua, a p r o d u ç ã o verbal bem c o m o a n ã o - v e r b a l , seja ela gráfica ou n ã o . Se, através de um texto literário, p o r e x e m p l o , conseguese t o c a r a e m o ç ã o , incitar à p r o d u ç ã o , à " r e e s c r i t u r a " d o s c o n t e x -tos que se i n t e r a g e m (obra-público-autor), p o r q u e n ã o através de um d e s e n h o , de u m a p i n t u r a , de u m a e x p r e s s ã o c o r p o r a l , de u m a música?

N o t o , r e e x a m i n a n d o as r es pos tas à q u e s t ã o n.° 8, q u e os recursos u s a d o s pelos alu-nos (diferentes tipos de letras, sinais gráficos, papel de cabeça p a r a b a i x o , d e s e n h o s intercalando-se c o m p a l a v r a s e t c ) , são a l g u n s d o s m u i t o s meios q u e t e m o s de expres-são d o n o s s o e m o c i o n a l . E c o m p r o v o a necessidade de e x p a n s ã o d o c a m p o de e s t u d o s da estilística; a fônica, a léxica e sintática c o b r e m a p e n a s u m a p a r t e d a p r o d u ç ã o h u -m a n a .

(11)

A M A R A L , V.L. d o — De c o m o seria bom se fosse a o contrário. Alfa, São Paulo, 29:9-19, 1985.

A M A R A L , V . L . d o — H o w good it would be if it were the opposite. Alfa, São P a u l o , 29:9-19, 1985.

ABSTRACT: This paper is an account of an experiment carried out in the classroom having a spe-cial book report as its starting point. It was used to prompt the production of creative texts in the pro-cess of teaching Portuguese. The aim was to change or broaden the students'approach to reading, as well as the tenor of thought expression in a classroom situation, which is usually intellectual rather than emotional: it would certainly be much better if it were the other way round.

KE Y- WORDS: Reading; book report; stylistic comprehension and expression; composition.

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Referências

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