Ana Paula Esmeraldo Lima
I, Marly Javorski
II, Maria Gorete Lucena de Vasconcelos
III Universidade de Pernambuco, Faculdade de Enfermagem Nossa Senhora das Graças.
Prefeitura Municipal do Recife. Recife-PE, Brasil.
II Universidade Federal de Pernambuco, Departamento de Enfermagem. Recife-PE, Brasil.
Submissão: 11-09-2010 Aprovação: 08-12-2011
RESUMO
O estudo buscou analisar a literatura publicada referente às práticas alimentares no primeiro ano de vida de fi lhos de mães adolescentes, por meio de uma revisão integrativa nas bases de dados Lilacs, Medline e Cochrane, no período de 2000 a
2010. Foram utilizadas as palavras-chave: adolescente, aleitamento materno, alimentação mista e nutrição do lactente, sendo
selecionados onze artigos científi cos, que compuseram a amostra do estudo. Os resultados apontaram a incipiência de pesquisas publicadas sobre o tema proposto, sobretudo para as que versam sobre alimentação complementar, desvelando uma lacuna na produção mundial sobre o tema. Novas pesquisas, portanto, precisam ser desenvolvidas com foco em mães adolescentes, devendo-se explorar a alimentação infantil em toda sua dimensão.
Descritores: Adolescente; Aleitamento materno; Alimentação mista; Nutrição do lactente.
ABSTRACT
The study aimed to examine the relevant published literature to food practices in the fi rst year of life of teenage mothers’ children, through an integrative review within Lilacs, Medline and Cochrane, databases from 2000 to 2010. We used the
keywords: adolescent, breastfeeding, mixed feeding and infant nutrition, from which we selected eleven articles that composed
the study sample. The results indicated the paucity of published research on the proposed topic, especially for those focusing on complementary feeding, revealing a gap in global production on the subject. New researches, therefore, need to be developed with a focus on teenage mothers, exploring infant feeding in all its dimensions.
Key words: Adolescent; Breastfeeding; Mixed feeding; Infant nutrition.
RESUMEN
El estudio trató de examinar la bibliografía publicada sobre los hábitos alimenticios en el primer año de vida de los hijos de madres adolescentes, mediante una revisión integradora en las bases de datos Lilacs, Medline y Cochrane, en el período de 2000
a 2010. Hemos usado las palabras clave: adolescente, lactancia materna, alimentación mixta y nutrición del lactante, siendo
seleccionados once trabajos, los cuales compusieran la muestra del estudio. Los resultados indicaron la escasez de investigaciones publicadas sobre el tema propuesto, especialmente para aquellos que se ocupan de la alimentación complementaria, con una brecha en la producción mundial sobre el tema. Nuevos estudios, por lo tanto, necesitan ser desarrollados con un enfoque en las madres adolescentes, y explorar la alimentación infantil en todas sus dimensiones.
Palabras clave:Adolescente; Lactancia materna; Alimentación mixta; Nutrición del lactante.
Práticas alimentares no primeiro ano de vida
Eating habits in the fi rst year of life
Hábitos alimenticios en el primer año de vida
Ana Paula Esmeraldo Lima E-mail: [email protected]
AUTOR CORRESPONDENTE
INTRODUÇÃO
A adolescência é considerada como o processo de passa-gem da vida infantil para a vida adulta e tem sua conceituação influenciada por processos históricos, com diferentes
signifi-cados em diversas classes sociais, épocas e culturas(1).
Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), a adolescên-cia está circunscrita à segunda década de vida, entre os 10 e 19 anos de idade, podendo, ainda, ser subdividida em adoles-cência menor (de 10 a 14 anos) e adolesadoles-cência maior (de 15 a 19 anos). Tal fase deve ser entendida como um fenômeno singular, caracterizado por influências socioculturais que vão se concretizando por meio de reformulações constantes de
caráter social, sexual e de gênero(2).
A sexualidade, embora presente desde o nascimento, é consolidada na adolescência, quando se estabelecem as con-dições para as funções sexuais do adulto. O que se obser-va nos últimos anos, entretanto, é que, cada vez mais cedo, grande número de jovens assume vida sexual ativa, e é nesse contexto que a gravidez na adolescência constitui-se um grave
problema de saúde pública(1).
A insuficiente orientação do jovem sobre seu corpo, sua se-xualidade e seus direitos reprodutivos contribui para a falta de controle da fecundidade, afetando amplamente as mulheres brasileiras, especialmente as de condições socioeconômicas menos favorecidas. A gestação precoce traz problemas de na-tureza biológica e social, não só para a mulher, mas também para o concepto. A falta de perspectivas de futuro, entretanto, faz com que algumas adolescentes representem a gravidez como um meio para o alcance do status de mulher adulta e
até, para o resgate de sua cidadania(3).
A ocorrência de gravidez e maternidade nessa fase da vida traz como conseqüência mudanças que exigem uma
redefi-nição no futuro com um filho, geralmente, não planejado(4).
A adolescente vivencia intensa reestruturação e amadureci-mento pessoal e social, acarretando mudança de identidade e nova definição de papéis. A prática de cuidar do filho exige, portanto, maior esforço de adaptação, que deve ser gradativa, na medida em que vai alterando sua condição de filha
adoles-cente para mãe adolesadoles-cente(5).
Como qualquer mulher que vivencia a maternagem, a jo-vem mãe irá desenvolver um papel fundamental em relação ao cuidado com o filho, sendo o cuidado com a alimentação um dos mais importantes, haja vista as repercussões que de-termina na saúde do infante.
A formação dos hábitos alimentares, então, tem como influência de maior destaque a interação da criança com a própria mãe ou com a pessoa mais ligada a sua alimentação, além do ambiente doméstico, das condições socioeconômi-cas e das relações familiares. Desse modo, a família poderá determinar a adoção de práticas de alimentação, favorecendo o estabelecimento de um padrão de comportamento
alimen-tar infantil adequado ou não(6).
A alimentação dos adolescentes, por sua vez, pouco fre-quentemente pode ser considerada adequada. Mesmo quan-do os hábitos alimentares da família são elogiáveis, o mesmo não se pode afirmar do filho adolescente, que tende a rejeitar
os hábitos alimentares da família e a adotar os hábitos do seu grupo de convivência. As peculiaridades características desta fase, assim, podem contribuir negativamente na instituição da alimentação do filho. Mães com hábitos alimentares inade-quados dificilmente irão estabelecer uma alimentação infantil adequada.
O aleitamento materno exclusivo durante os seis primei-ros meses de vida, a alimentação complementar oportuna e adequada e a manutenção do aleitamento materno comple-mentado até os dois anos de idade ou mais é o esquema re-comendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para as crianças de todo o mundo. Entre os fatores de risco para a baixa taxa de aleitamento materno exclusivo e continuado e introdução precoce de alimentos sólidos, a maternidade na adolescência se destaca como um dos principais. Recente-mente, a OMS lançou documento alertando acerca dos riscos de adoecer e morrer para os filhos de mães adolescentes, en-fatizando a necessidade dos profissionais da saúde estarem capacitados a trabalhar com este grupo, sobretudo no apoio à
alimentação infantil adequada(7-9).
Neste cenário, evidenciou-se a necessidade de buscar na li-teratura referências sobre as práticas de alimentação de filhos de mães adolescentes, a fim de responder ao questionamento: como são instituídas as práticas de alimentação no primeiro ano de vida de filhos de mães adolescentes? A opção pelo desenvolvimento de uma revisão integrativa sobre esse tema deve-se ao fato de que tal revisão possibilita a interpretação de estudos produzidos sobre práticas de alimentação infantil, abrangendo desde o aleitamento materno até a alimentação complementar, que tenham como foco as mães adolescentes, no intuito de compreender como é estabelecida a alimenta-ção dessas crianças, auxiliando no desenvolvimento de futu-ras investigações.
O presente estudo tem como objetivo, pois, analisar a lite-ratura publicada referente às práticas alimentares no primeiro ano de vida de filhos de mães adolescentes.
METODOLOGIA
A fim de alcançar o objetivo proposto, optou-se pelo mé-todo da revisão integrativa, visto que ele possibilita reunir e sintetizar resultados de pesquisas sobre um determinado tema ou questão, de maneira sistemática e ordenada, contribuindo para o aprofundamento do tema investigado, além de apontar lacunas do conhecimento que precisam ser preenchidas com a realização de novas pesquisas. A realização de uma revisão integrativa exige os mesmos padrões de rigor e clareza
utiliza-da nos estudos primários(10-11).
Para a construção dessa revisão, os seguintes passos foram percorridos: elaboração da questão norteadora, estabeleci-mento de critérios para seleção da amostra, elaboração de um instrumento para coleta de dados, análise crítica dos dados,
interpretação e apresentação dos resultados(12).
on-line (MEDLINE) e Biblioteca Cochrane (COCHRANE). Foram utilizados, para a busca dos artigos, os seguintes descritores e suas combinações nas línguas inglesa e
espa-nhola: Adolescente, Aleitamento materno, Alimentação mista
e Nutrição do lactente. O cruzamento dos referidos
descrito-res foi realizado da seguinte forma: adolescente e aleitamento materno, adolescente e alimentação mista, e adolescente e nutrição do lactente. A tabela 1 descreve o caminho percorri-do no levantamento percorri-dos artigos.
Os critérios utilizados para a seleção da amostra foram: artigos publicados em português, inglês ou espanhol; arti-gos publicados nos referidos bancos de dados no período de 2000 a 2010, que retratassem a temática das práticas de ali-mentação infantil de filhos de mães adolescentes, abrangendo experiências e atitudes frente ao aleitamento materno e/ou à alimentação complementar.
Uma vez acessados os títulos e resumos das publicações, 22 artigos foram selecionados e adquiridos na íntegra. Três artigos não estavam disponíveis como texto completo e foram solicitados diretamente aos autores, que prontamente dispo-nibilizaram suas publicações. De posse de todas as cópias, procedeu-se à leitura integral e crítica dos 22 artigos quanto aos critérios de inclusão, ficando a amostra final composta por onze artigos científicos.
Para facilitar a coleta de dados, foi desenvolvido um instru-mento, preenchido para cada artigo da amostra final do estu-do, contendo itens como título e autores, local de publicação, tipo de estudo, objetivos, resultados, implicações, limitações, dentre outros. A utilização de tal instrumento permitiu a su-cinta organização dos dados, facilitando a comparação dos estudos em tópicos específicos. Os resultados extraídos de cada estudo foram analisados de forma descritiva, discutidos à luz da literatura específica.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A amostra final desta revisão integrativa foi composta por onze artigos científicos, selecionados pelos critérios previa-mente descritos. Desses, a maioria foi identificada na base de dados MEDLINE, seguida pela base de dados LILACS e, por fim, COCHRANE. A caracterização de cada um desses artigos encontra-se descrita no Quadro 1.
Pode-se observar a incipiência de artigos científicos publi-cados sobre o tema proposto. Apesar do elevado quantitativo de estudos sobre as práticas de alimentação infantil, ainda são
escassos aqueles que focam os filhos de mães adolescentes, grupo considerado de risco para instituição de práticas de ali-mentação inadequadas.
Importante salientar, ainda, que entre os poucos artigos encontrados, quase a totalidade versa sobre aleitamento ma-terno. As palavras-chave mais utilizadas pelos autores foram “adolescente” e “aleitamento materno”, presentes em 10 (90,9%) estudos. Percebe-se, assim, que os descritores “nutri-ção do lactente” (encontrado em apenas um artigo) e “alimen-tação mista” (ausente nos estudos selecionados), apesar de serem os que melhor representam a alimentação no primeiro ano de vida, são pouco utilizados pelos pesquisadores. A ní-tida carência de artigos sobre alimentação complementar su-gere a subestima da sua importância para a saúde da criança. Ao analisar o país de origem dos estudos selecionados, percebe-se a predominância dos Estados Unidos, seguido do Brasil. Juntos, esses países respondem por mais de 80% das publicações. A ausência de publicações em língua espa-nhola evidencia a necessidade de pesquisas sobre práticas de alimentação infantil nestes países, já que o tema adquire peculiaridades conforme o contexto sócio-cultural em que está inserido. Esta necessidade é enfatizada por estudo
norte--americano(13), que buscou examinar decisões e práticas de
aleitamento materno entre adolescentes latino-americanas e afro-americanas, reconhecendo a importância do valor cultu-ral para as práticas de alimentação.
Quanto à periodicidade das publicações, observa-se uma distribuição quase que uniforme de produção anual, já que, proporcionalmente, foi publicado aproximadamente um arti-go por ano. No entanto, é possível notar que 36% das publi-cações concentraram-se nos últimos dois anos, o que pode sinalizar para uma tendência à maior ênfase nas práticas de alimentação de filhos de mães adolescentes. Dos periódicos identificados, apenas dois publicaram mais de um artigo so-bre o tema, sendo um referente à Enfermagem Materno-Infan-til e o outro destinado a estudos sobre aleitamento materno.
Verifica-se que todos os artigos apresentam os objetivos da pesquisa de forma clara, facilitando o entendimento do leitor. Apenas um estudo não expôs com clareza o problema de pes-quisa; cinco (45,4%) dos artigos evidenciaram como proble-ma de pesquisa a necessidade de estudos sobre alimentação infantil na perspectiva de mães adolescentes, reconhecendo a vulnerabilidade desse grupo.
Em relação à abordagem metodológica empregada, identi-fica-se que cinco (45,4%) utilizaram metodologia quantitativa,
Tabela 1. Artigos encontrados e selecionados, segundo bases de dados pesquisadas.
Base de dados Descritores
LILACS MEDLINE COCHRANE
Artigos
encontrados selecionadosArtigos encontradosArtigos selecionadosArtigos encontradosArtigos selecionadosArtigos
Adolescente, nutrição do lactente 160 01 00 - 11 01
Adolescente, aleitamento materno 166 07 775 13 406
-Adolescente, alimentação mista 04 - 00 - 153
Base de dados Título Objetivo País
MEDLINE Adolescent attitudes, beliefs and concerns
regarding breastfeeding(20)
Investigar as atitudes, crenças e preocupações de adolescentes grávidas e puérperas quanto ao aleitamento materno
Estados Unidos
MEDLINE Breastfeeding experiences of urban adolescent
mothers(17)
Examinar a experiência de mães adolescentes em amamentação
Estados Unidos
MEDLINE The influence of adolescent mothers’ breastfeeding
confidence and attitudes on breastfeeding initiation and duration(22)
Analisar a influência da confiança e atitudes de mães adolescentes no início e duração do aleitamento materno
Canadá
LILACS Fatores relacionados às dificuldades no
aleitamento materno entre mães adolescentes da
Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará(23)
Verificar os fatores que dificultam a amamentação entre mães adolescentes
Brasil
LILACS Promoção do aleitamento materno com mães
adolescentes: acompanhando e avaliando essa prática(24)
Avaliar a qualidade do aleitamento materno entre
mães adolescentes Brasil
MEDLINE Breastfeeding behaviors and experiences of(18) Analisar as experiências e comportamentos
relacionados com amamentação de mães adolescentes
Estados Unidos
LILACS Amamentação entre mães adolescentes e não
adolescentes, Monte Carlos, MG(27)
Estimar a prevalência de amamentação entre mães adolescentes e não-adolescentes e os fatores associados ao desmame
Brasil
MEDLINE Adolescent mothers and breastfeeding: experiences
and support needs – na exploratory study(19)
Explorar as vivências e necessidades de apoio de mães adolescentes que iniciam a amamentação
Inglaterra
LILACS/ MEDLINE
A amamentação e a alimentação complementar de filhos de mães adolescentes são diferentes das de filhos de mães adultas? (4)
Comparar o aleitamento materno e a alimentação complementar de filhos de mães adolescentes e não-adolescentes
Brasil
COCHRANE Home and videotape intervention delays early
complementary feeding among adolescent mothers(21)
Avaliar a eficácia de uma intervenção para retardar a introdução precoce da alimentação complementar entre mães adolescentes
Estados Unidos
MEDLINE African-American and Latina adolescent mothers’
infant feeding decisions and breastfeeding practices: a qualitative study(13)
Examinar, a partir da perspectiva da adolescente, a tomada de decisão da alimentação infantil no período pré e pós-natal
Estados Unidos
Quadro 1. Caracterização dos artigos selecionados
cinco (45,4%) realizaram uma abordagem qualitativa e uma desenvolveu pesquisa quanti-qualitativa (descritiva). As abor-dagens quantitativa e qualitativa se apóiam, fornecendo um quadro mais geral do conhecimento das práticas alimenta-res. São métodos complementares, e não competitivos, de-vendo sua escolha ser baseada na natureza do problema de pesquisa(14).
Entre os estudos quantitativos, três são não-experimen-tais, abrangendo estudo transversal e de coorte. Um utiliza o desenho quase-experimental, através de estudo correlacio-nal e outro adota o desenho experimental, com um estudo caso-controle.
Desperta a atenção o fato de que nenhum dos estudos qua-litativos explicitou a utilização de algum referencial teórico para embasar a análise e interpretação do fenômeno estuda-do. Apesar de um destes artigos referir a realização de uma “entrevista etnográfica”, não há qualquer menção a utilização da etnografia para análise dos dados.
A maioria dos estudos (90,9%) optou por uma seleção amostral por conveniência, contabilizando um total de 883
adolescentes ao se somar as amostras dos 11 artigos. No en-tanto, apenas três (27,3%) justificam o tamanho amostral, fi-cando aos demais a incerteza da representatividade da popu-lação que se pretende investigar.
A caracterização dos sujeitos, embora não esteja descri-ta em alguns estudos, apresentou aparente homogeneidade, onde a média de idade das adolescentes foi de 16,5 anos; a maioria apresentava baixa escolaridade, embora algumas ain-da estivessem cursando o ensino médio; a renain-da familiar era baixa, sendo que poucas adolescentes contribuíam com essa renda; a maior parte era primípara e estava vivenciando pela primeira vez, portanto, a experiência de alimentar o filho.
a eficácia de uma intervenção para retardar o início da ali-mentação complementar. O tema aliali-mentação complemen-tar, presente em dois estudos, mostrou-se como um “coadju-vante”, restrito à identificação dos alimentos consumidos na ocasião das entrevistas.
O Ministério da Saúde reconhece a ênfase à promoção do aleitamento materno nas últimas décadas, ao mesmo tempo em que uma lacuna de informação se abria quanto à
alimen-tação complementar(15). A alimentação da criança no primeiro
ano de vida, por sua vez, se constitui elemento fundamental para garantir sua sobrevivência e crescimento adequado. Des-te modo, além de receber o leiDes-te maDes-terno, a criança necessita de uma alimentação adequada e oportuna a partir dos seis meses de vida.
A alimentação infantil, por sua vez, deve ser estudada em sua totalidade, o que significa investigar não somente o re-gistro de freqüência e quantidade dos alimentos consumidos, mas os fatores decisórios para escolha do alimento, as formas de preparar e oferecê-lo, contemplando os aspectos
sociocul-turais envolvidos no fenômeno da alimentação(16).
Dos cinco artigos que analisaram as experiências maternas em aleitamento materno, nenhum foi produzido no Brasil. Nesses, as adolescentes atribuíram à decisão de amamentar os benefícios do aleitamento materno, principalmente para a saúde da criança. Referiram, também, que esta decisão per-tencia a elas, independente da opinião dos outros, embora algumas tenham admitido a influência de mães, profissionais,
familiares, amigos e professores(13, 17-20). Naquelas pesquisas
em que se trabalhou com adolescentes no pré e pós-natal, é possível observar a baixa taxa de início do aleitamento mater-no(13,21-22). Tal fato pode ser justificado pela ausência do título
Hospital Amigo da Criança nas instituições sede das pesqui-sas, já que tal título caracteriza o hospital como incentivador da amamentação.
Vários fatores também foram apontados como problemas para manutenção do aleitamento materno, entre eles dor nas mamas, cansaço, frustração, leite insuficiente, ou fraco, retor-no à escola, limitação das atividades cotidianas, ou medo da criança recusar mamadeira e ficar muito dependente da mãe. Importante enfatizar que o constrangimento de amamentar em público foi um dos principais fatores referidos pelas ado-lescentes, relato este pouco comum no nosso país, já que esta percepção negativa de amamentar em público depende da cultura de cada grupo social. Em estudo realizado em Chica-go, EUA, com adolescentes de diferentes etnias, várias adoles-centes latinas referiram que esta cultura norte-americana de considerar o aleitamento materno em público constrangedor
e vergonhoso não existe em seus países de origem(13).
Ambos os artigos que focalizaram nas dificuldades em amamentar são nacionais e identificaram a dor, as dificul-dades na pega e a posição inadequada como os principais problemas para a instituição da amamentação. A oferta de água e chá, principalmente por influência das avós, também surgem como importante fator para interrupção do aleitamen-to materno. O maior número de filhos, em um desses estu-dos, mostrou-se determinante para diminuir as dificuldades
na amamentação(23-24).
A cultura institucional frequentemente atribui à amamenta-ção um processo natural e instintivo e pode contribuir para o surgimento de sentimentos conflituosos para a mãe que se de-para com estas dificuldades. Os profissionais da saúde exercem, então, papel fundamental na promoção do aleitamento mater-no, na medida em que são capazes de reconhecer as vicissitudes
do amamentar e apoiar a nutriz em seu processo decisório(25).
A necessidade de uma rede de apoio para as jovens mães é salientada em uma das pesquisas, na qual se inclui o apoio emocional, encorajamento, apoio técnico/assistencial, orien-tações e apoio da rede social, onde se incluem família,
ami-gos, pares, profissionais(19). Para problemas como retorno à
escola ou constrangimento de amamentar em público, o uso
de bombas de ordenha é frequentemente estimulado(13,17). Esta
recomendação, por sua vez, ainda é pouco comum no Brasil, tendo em vista o elevado custo de tal equipamento, sendo orientada, então, a ordenha manual.
Para estudo realizado em Manitoba, Canadá, as adolescen-tes que apresentavam maior confiança, principalmente no perí-odo pós-natal, tinham mais probabilidade de amamentar seus filhos, e recomenda que os profissionais sejam encorajados a promover a confiança no aleitamento materno, desde o
pré--natal, dissipando mitos e oferecendo suporte necessário(22).
Em uma pesquisa de intervenção, incluída na amostra, verificou-se que através de visitas domiciliares e exibição de vídeo com adolescentes nutrizes, as mães mostram-se quatro vezes mais propensas a aderir às recomendações de introdu-ção da alimentaintrodu-ção complementar a partir dos 4-6 meses de vida. O grupo de intervenção também se mostrou mais capaz de desafiar o preconceito cultural, e negociar com suas
pró-prias mães o manejo da alimentação dos seus filhos(21).
As avós podem influenciar negativamente no aleitamento materno, seja na duração ou no seu caráter exclusivo, o que pode ser justificado pelas experiências destas na alimentação dos seus filhos, já que há algumas décadas o aleitamento arti-ficial era amplamente divulgado e praticado, juntamente com a oferta de água, chás e sucos, ao mesmo tempo em que se acreditava que o leite materno era fraco e insuficiente para
nu-trir uma criança(26). A influência de fatores sociais e culturais,
portanto, não deve ser desconsiderada ao se elaborar ações para promoção do aleitamento materno e introdução da ali-mentação complementar adequada e em momento oportuno. Neste contexto, a visita domiciliar torna-se fundamental para orientar o papel da família e incentivar e apoiar a nutriz.
Entre os estudos que compararam as práticas de adolescen-tes e não adolescenadolescen-tes, não se evidenciaram diferença estatís-tica significativas de aleitamento materno entre os grupos. A ocorrência de dificuldades para amamentar, no entanto, foi mais freqüente em mães adolescentes, mostrando-se
forte-mente associada ao desmame(27). Os filhos de mães
adoles-centes, ainda, apresentaram estatura ao nascer e peso e IMC com um ano de vida menores que os de adultas, além de
ingerir significativamente menos carne(4).
Segundo a Organização Mundial de Saúde, as taxas de baixo peso ao nascer também são mais elevadas entre os fi-lhos de adolescentes, e quanto mais jovem a mãe maior o
amamentação, estudo realizado em Campinas traz resultados discordantes, onde mães adolescentes ofereceram leite
mater-no por memater-nos tempo aos seus filhos(28). Nos Estados Unidos,
bem como em outros países desenvolvidos, as mães adoles-centes continuam a ter as menores taxas de aleitamento
ma-terno(8). Além do risco mais elevado de desmamar seus filhos
precocemente, as jovens mães também são mais propensas a erros na introdução alimentar, seja pelo seu baixo poder aquisitivo ou pela simples repetição do seu hábito alimentar, geralmente inadequado.
As adolescentes são mais propensas a oferecerem aos seus filhos alimentos comumente consumidos por elas, como re-frigerantes, bolachas e salgadinhos, que são, por sua vez,
ina-dequados para crianças menores de um ano(29). É na infância,
no entanto, que o hábito alimentar é estabelecido, quando as crianças começam a receber a alimentação complementar. Nessa fase, as atitudes em relação à comida são normalmen-te aprendidas, transmitidas por pessoas cuja relação afetiva é
grande, comumente a mãe(30).
Compreender a experiência de alimentar o filho para a mãe adolescente implica em uma atuação mais eficaz do profissional
da saúde, possibilitando-o modificar e redirecionar sua abor-dagem para esse grupo singular, oferecendo apoio sensível e especializado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A realização de uma revisão integrativa sobre práticas ali-mentares de filhos de mães adolescentes possibilitou o le-vantamento e análise de publicações no contexto mundial. Além do Brasil, nenhuma publicação latina foi identificada, revelando uma carência de estudos nestes países. A escassez de artigos demonstra que a pesquisa sobre este tema ainda não está consolidada, sobretudo no que diz respeito à alimen-tação complementar, desvelando uma lacuna na produção mundial sobre o tema.
Novas pesquisas, portanto, precisam ser desenvolvidas com foco em mães adolescentes, devendo-se explorar a ali-mentação infantil além das avaliações de consumo. A realiza-ção de estudos em diferentes etnias possibilitaria o conheci-mento da diversidade cultural, auxiliando o planejaconheci-mento de ações específicas para cada grupo social.
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Vol.64 Nº 4 jul./ago. 2011
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751 Talita Aquira Santos Lima Talita Aquira dos Santos Lima
751 Conclui-se que a produção científica sobre o idoso longevo ainda é singela e irrelevante. Conclui-se que a produção científica sobre o idoso longevo ainda é singela, mas relevante.
751 One concluded that the scientific production on long-lived elderly person is still small and irrelevant. One concluded that the scientific production on long-lived elderly person is still small, but relevant.
751 Se concluye que la producción científica sobre el
mayor de 80 anos es todavía aun simple e irrelevante.
Se concluye que la producción científica sobre el mayor de 80 anos es todavía aun simple, más relevante.
751 AUTOR CORRESPONDENTE Talita Aquira Santos Lima [email protected] AUTOR CORRESPONDENTE Talita Aquira dos Santos Lima [email protected]
Vol.64 Nº 5 set./out. 2011
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Extraído de Pesquisa de Iniciação Científica, financiada pela FAPEMIG, intitulada “Dimensionamento de pessoal de enfermagem frente à classificação dos clientes hospitalizados em um hospital de ensino”.