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A legislação urbanística e os edificios residênciais privados modernos no centro da cidade de São Paulo entre 1927 e 1957

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Academic year: 2017

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LARISSA CATALDI CIPOLLA

A LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA E OS EDIFÍCIOS

RESIDENCIAIS PRIVADOS MODERNOS NO CENTRO DA

CIDADE DE SÃO PAULO ENTRE 1927 E 1957

(2)

UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE

LARISSA CATALDI CIPOLLA

A LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA E OS EDIFÍCIOS

RESIDENCIAIS PRIVADOS MODERNOS NO CENTRO DA

CIDADE DE SÃO PAULO ENTRE 1927 E 1957

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo.

Orientador: Prof. Dr. Roberto Righi

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...

C577L. Cipolla, Larissa Cataldi

A legislação urbanística e os edifícios residenciais privados modernos no centro da cidade de São Paulo entre 1927 e 1957. / Larissa Cataldi Cipolla – 2011.

241f. : il.; 30cm.

Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2011.

Bibliografia: f. 001-241.

1. Legislação urbanística. 2. Habitação verticalizada moderna. 3. Área central de São Paulo..I. Título.

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LARISSA CATALDI CIPOLLA

A LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA E OS EDIFÍCIOS RESIDENCIAIS PRIVADOS MODERNOS NO CENTRO DA CIDADE DE SÃO PAULO

ENTRE 1927 E 1957

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo.

Aprovada em 17 de março de 2011.

BANCA EXAMINADORA

_______________________________________________________________

Prof. Dr. Roberto Righi

Universidade Presbiteriana Mackenzie

_______________________________________________________________

Profa. Dra. Gilda Collet Bruna Universidade Presbiteriana Mackenzie

_______________________________________________________________

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AGRADECIMENTOS

Primeiramente, ao Prof. Dr. Roberto Righi, que pacientemente me ajudou a crescer através deste trabalho, sempre me orientando e compreendendo em todos os momentos.

Meus especiais agradecimentos aos meus pais, José Hamilton Maturano Cipolla e Maria José Giannella Cataldi, que sempre acreditaram em mim, e pela confiança e apoio na revisão dos textos; a quem dedico esse trabalho.

Aos meus irmãos, Bruno Cataldi Cipolla e Marcella Cataldi Cipolla, pelo valioso incentivo.

Aos amigos arquitetos que ajudaram nos desenhos técnicos: Carolina Bracco, Carolina Calazans, Cláudio Araújo, Helena Oliveira, Marina Ferreira, Maíra Beck e Renata Iarussi.

Aos meus artistas preferidos, João Luis Muterle e Luciana Quinette Maas, que fizeram desenhos artísticos especiais para essa dissertação.

(7)

Município de São Paulo na definição dos edifícios residenciais privados modernos, no período de 1927 até 1957, na região central da cidade. O estudo é realizado a partir de três parâmetros de conceituação e análise, a saber: 1) Estudo do desenvolvimento da arquitetura habitacional moderna vertical e privada e da legislação urbanística da área central do município de São Paulo no período de 1927 a 1957; 2) Avaliação volumétrica de 14 edifícios residenciais selecionados para o período, considerando: os limites legais da área da construção, os recuos, os gabaritos, o desenho urbano, a tipologia arquitetônica, bem como a implantação urbana; 3) Interpretação dos condicionamentos das relações entre as mudanças na legislação urbanística e o desenvolvimento do projeto dos 14 edifícios referenciais, avaliando sua implantação urbana e urbanidade.

Palavras-Chave: legislação urbanística, desenho urbano, arquitetura moderna, habitação vertical, empreendimentos privados; centro de São Paulo.

Eixo: Arquitetura.

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ABSTRACT

The research examines the role of urban laws transformation in defining private housing developments, vertical and modern, through 1927 to 1957, in São Paulo city centre. The study is conducted based on three parameters of conceptualization and analysis, as follows: 1. Study of the development of modern and private housing architecture and town planning legislation in São Paulo city centre in the period of 1927 to 1957; 2. Volume assessment of 14 buildings selected for the reference period, taking into consideration: the legal limits for the area of construction, setbacks, jigs, the urban design, architectural typology, as well as the urban implantation. 3. Constraint interpretation of the relations between the urban and civic law changes and the project development of 14 buildings selected for the reference period, evaluating its implementation urban and urbanity.

Keywords: town planning legislation, urban drawing, modern architecture, vertical housing, private enterprises; São Paulo city center.

Center line: Architecture.

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Figura 3 – Mapa da subprefeitura da Sé com os edifícios selecionados... 23

Figura 4 – Paisagem no centro de São Paulo com seus principais edifícios... 24

Figura 5 – Edifícios Esther (Álvaro Vital Brasil, 1938), Itália (Franz Heep, 1965), Copan (Oscar Niemeyer, 1951) e Hilton todos na Praça da República, São Paulo, 1975... 24

Figura 6 – Perspectiva do Plano de Avenidas... 43

Figura 7 – Esquema Teórico do Plano de Avenidas... 43

Figura 8 – Proposta de Prestes Maia da ligação dos parques do Anhangabaú e Ibirapuera... 47

Figura 9 – Lotes coloniais da Rua Líbero Badaró... 52

Figura 10 – Edifício Sampaio Moreira... 54

Figura 11 – Edifício Martinelli... 54

Figura 12 – A) Edifício Nicolau Barros e B) Rua Líbero Badaró, com o edifício ao centro... 63

Figura 13 – A) Unité D´Habitation: exterior. B) Unité D´Habitation: interior.... 69

Figura 14 – Siedlung – Siemensstant Housing, Berlin, 1929 – Walter Gropius... 71

Figura 15 – Localização dos edifícios estudados... 100

Figura 16 – Linha do tempo legislativa... 101

Figura 17 – Zona Central em 1941... 108

Figura 18 – Localização do edifício Marina Mendes Margarido... 109

Figura 19 – Edifício Marina Mendes Margarido... 110

Figura 20 – Edifício Marina Mendes Margarido... 110

Figura 21 – Localização da área do edifício Marina Mendes Margarido no mapa... 111

Figura 22 – Páginas do Processo nº 22744/31... 114

Figura 23 – Localização do edifício Esther Arthur Nogueira... 116

Figura 24 – Edifício Esther Arthur Nogueira... 117

Figura 25 – Detalhe do edifício Esther Arthur Nogueira... 117

Figura 26 – Edifício Esther Arthur Nogueira... 118

Figura 27 – Edifício Esther Arthur Nogueira. Vista de cima do edifício Residencial Samambaia... 118

Figura 28 – Edifício Esther Arthur Nogueira. Fonte: Revista Projeto... 119

Figura 29 – Processo nº 38267... 124

Figura 30 – Processo nº 50589/53... 125

(10)

Figura 32 – Localização do edifício Guarany... 130

Figura 33 – Edifício Guarany... 131

Figura 34 – Fachada do Edifício Guarany e detalhe à direita... 131

Figura 35 – Requerimento para construção do prédio... 133

Figura 36 – Plantas arquitetônicas do edifício Guarany... 134

Figura 37 – Processo nº 23858-941/41, com certificado de que o prédio recebeu o nº 1092, pelo Parque D. Pedro II, em 12.05.1941... 134

Figura 38 – Localização do edifício Barão de Limeira 1003... 136

Figura 39 – Edifício Barão de Limeira 1003... 138

Figura 40 – Edifício Barão de Limeira 1003... 138

Figura 41 – Edifício Barão de Limeira 1003. Foto: Acervo Família Warchavchik.... 139

Figura 42 – Localização do edifício Porchat... 143

Figura 43 – Perspectiva do edifício Porchat... 143

Figura 44 – Edifício Porchat, visto de cima do elevado Costa e Silva... 144

Figura 45 – Edifício Porchat ... 145

Figura 46 – Processo nº 22.459/41... 147

Figura 47 – Processo nº 156.112/51... 148

Figura 48 – São Paulo sob ataque. Crédito: João Luís Muterle... 150

Figura 49 – Localização do edifício Santa Cruz... 151

Figura 50 – Vista lateral do Edifício Santa Cruz e detalhe das janelas... 152

Figura 51 – Processo nº 88.970/45... 153

Figura 52 – Processo nº 114.677/51... 153

Figura 53 – Processo nº 161.900/54... 154

Figura 54 – Páginas do Processo nº 161.062/54... 154

Figura 55 – Localização do edifício Louveira... 158

Figura 56 – Edifício Louveira... 158

Figura 57 – Entrada do edifício Louveira, área de convivência entre as lâminas, parte posterior do prédio e estacionamento no pátio... 159

Figura 58 – Páginas do Processo nº 077.132/46... 161

Figura 59 – Processo nº 077.132/46... 162

Figura 60 – As gravuras mostram as cores desse edifício e a boa manutenção e qualidade até hoje... 165

Figura 61 – Localização do edifício Seguradora Brasileira... 166

Figura 62 – Edifício Seguradora Brasileira... 167

Figura 63 – Páginas do Processo nº 18417/50... 169

Figura 64 – Processo nº 18417/50... 171

Figura 65 – Processo nº 120619/49. Imagens da maquete do prédio... 171

Figura 66 – Páginas do Processo nº 120619/49... 172

Figura 67 – Localização do edifício Copan... 173

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Figura 72 – Processo nº 188.229/66... 177

Figura 73 – Ondas de Niemeyer sob céu de Van Gogh. Crédito: João Luís Muterle. 183 Figura 74 – Localização do edifício Santa Cristina... 184

Figura 75 – Fachada e detalhe do Edifício Santa Cristina... 185

Figura 76 – Processo nº 124.637/51... 186

Figura 77 – Processo nº 128.923/52... 186

Figura 78 – Páginas do Processo nº 128.923/52... 188

Figura 79 – Processo nº 26.119/53... 190

Figura 80 – Localização do edifício Tana... 191

Figura 81 – Edifício Tana... 192

Figura 82 – Processo nº 14.744/50... 194

Figura 83 – Processo nº 66.932/52... 194

Figura 84 – Processo nº 66.932/52... 195

Figura 85 – Processo nº 17.774/53... 195

Figura 86 – Localização do edifício Helena Maria... 197

Figura 87 – Edifício Helena Maria... 198

Figura 88 – Páginas do Processo nº 15.618/53... 199

Figura 89 – Processo nº 15.618/53... 200

Figura 90 – Processo nº 30.352/58... 200

Figura 91 – Gravura. Crédito: Luciana Maas... 202

Figura 92 – Localização do edifício Residencial Samambaia... 203

Figura 93 – Edifício Residencial samambaia... 204

Figura 94 – Edifício Residencial samambaia ao fundo... 204

Figura 95 – Pergolado do recuo... 205

Figura 96 – Vista do telhado... 205

Figura 97 – Porta fechada da suíte 3... 206

Figura 98 – Processo nº 159.503/53... 206

Figura 99 – Páginas do Processo nº 138.149/56... 207

Figura 100 – Processo nº 159.503/53... 208

Figura 101 – Localização do edifício Leopoldo Froes... 210

Figura 102 – Edifício Leopoldo Froes... 211

Figura 103 – Detalhe do edifício Leopoldo Froes... 211

Figura 104 – Páginas do Processo nº 256.488/56... 212

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LISTA DE TABELAS, QUADRO E GRÁFICO

Tabela 1 – Surgimento das indústrias... 28

Tabela 2 – População nos anos de levantamento censitário: Município e

Região Metropolitana de São Paulo, Estado de São Paulo e Brasil.. 31

Tabela 3 – Número de habitações construídas entre 1939 e 1946... 45

Tabela 4 – Boletim da Diretoria de Indústria e Comércio, nº5/6, 1921... 58

Tabela 5 – Evolução das construções e transmissões imobiliárias da cidade de São Paulo, 1939-1944... 59

Tabela 6 – Legislação Anterior X Atual... 216

Quadro 1 – Largura mínima dos corredores para absorverem a iluminação

solar... 104

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BNH Banco Nacional de Habitação BNI Banco Nacional Imobiliário

CIAMs Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna CIESP Centro das Indústrias do Estado de São Paulo

Damp Divisão de Arquivo Municipal de processos de São Paulo EAD Escola de Arte Dramática

EMPLASA Empresa Metropolitana de Planejamento ERA Repartição de Águas e Esgotos

FAU-USP Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Paulo FCP Fundação Casa Popular

FEA-USP Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo

FIESP Federação das Indústrias do Estado de São Paulo IAB Instituto dos Arquitetos do Brasil

IAPS Instituto de Aposentadorias e Pensões

IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística MAM Museu de Arte Contemporânea

MASP Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand PUC-SP Pontifícia Universidade Católica de São Paulo SEMPLA Secretaria Municipal de Planejamento,

SFH Sistema Financeiro de Habitação

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO... 16

CAPÍTULO 1 ELEMENTOS DE CONTEXTUALIZAÇÃO DA LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA RELACIONANDO HISTÓRIA, URBANIZAÇÃO E URBANISMO NA CIDADE DE SÃO PAULO 1.1 Antecedentes... 28

1.2 Histórico... 30

1.3 Urbanismo... 42

CAPÍTULO 2 ARQUITETURA MODERNA RESIDENCIAL PRIVADA VERTICAL 2.1 A verticalização, os edifícios residenciais e o mercado imobiliário... 51

2.2 Modernismo... 68

CAPÍTULO 3 LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA PARA EDIFICAÇÕESDA ÁREA CENTRAL DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO NO PERÍODO DE 1927 A 1957 3.1 Antecedentes... 76

3.2 Histórico... 76

CAPÍTULO 4 LEVANTAMENTO E ANÁLISE DOS 14 EDIFÍCIOS ESCOLHIDOS FRENTE À LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA E AO DESENVOLVIMENTO DOS PROJETOS, ENFOCANDO OS LIMITES LEGAIS DA ÁREA DA CONSTRUÇÃO, RECUOS, GABARITOS, TIPOLOGIA ARQUITETÔNICA E IMPLANTAÇÃO URBANA 4.1 EDIFÍCIO MARINA MENDES MARGARIDO (1927 - 1935)... 109

4.2 EDIFÍCIO ESTHER ARTHUR NOGUEIRA (1934 - 1938)... 116

4.3 EDIFÍCIO GUARANY (1936-1942) ... 130

4.4 EDIFÍCIO BARÃO DE LIMEIRA (1938-1940)... 136

4.5 EDIFÍCIO PORCHAT (1940-1942) ... 142

4.6 EDIFÍCIO SANTA CRUZ (1945-1954)... 151

(15)

4.12 EDIFÍCIO HELENA MARIA (1953-1958) ... 197

4.13 EDIFÍCIO RESIDENCIAL SAMAMBAIA (1955) ... 203

4.14 EDIFÍCIO LEOPOLDO FROES (1956-1958)... 210

CONSIDERAÇÕES FINAIS... 217

REFERÊNCIAS... 225

ANEXO... 235

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(17)

O trabalho é motivado pelo meu interesse sobre o tema desde a faculdade, quando despertei para estes estudos numa iniciação científica, sob o tema: “Planos e Programas do Município de São Paulo no período de 2001 a 2004”.

Na seqüencia houve o trabalho final de graduação em 2007 que teve como título: “Habitação de Interesse Social no Jabaquara, São Paulo”. O objetivo central deste era demonstrar a importância dos conjuntos habitacionais na arquitetura e urbanismo das cidades como forma de inclusão social.

Assim, motivada por estes antecedentes associados com um grande interesse em estudar a cidade na qual nasci, vivo e acompanho suas transformações ocorridas, sempre com a preocupação de entendê-las, pois tive sempre uma grande curiosidade pessoal em desvendar São Paulo.

Observa-se que o centro de São Paulo é muito rico e cada edifício representa a história de sua época. O centro é fascinante, por sua qualidade arquitetônica, mas ao mesmo tempo entristece, pelo abandono. Felizmente, há indícios de que esta realidade pode se transformar para melhor, superando parte deste problema. Assim, é necessário estudar o conhecimento sobre o centro de São Paulo, esclarecer a formação, constituição do seu desenho, para finalmente chegar a sua arquitetura.

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18

Introdução

Nos últimos anos, paulatinamente vem sendo retomadas as funções centrais da área, através de algumas iniciativas novas e de reciclagem ou retrofit. Porém, isto não é suficiente, pois poucas mudanças reais ocorreram, permanecendo nessa área as carências de investimento em novos empreendimentos, na modernização dos equipamentos de infraestrutura, de lazer e de qualificação ambiental.

Vale observar, que o ápice do centro ocorreu nos anos 1950 e que nas décadas posteriores houve mudanças das centralidades em São Paulo, que ocasionaram a gentrificação através da expulsão da população moradora tradicional, menos favorecida financeiramente, através de uma valorização imobiliária.

O trabalho expressa um aspecto do perfil da verticalização em São Paulo e da afirmação da arquitetura moderna no período entre 1927 e 1957. A partir de 1920, foram surgindo os primeiros edifícios, e até 1939 se concentram no centro histórico de São Paulo. Já em 1940 até 1957, foram virando a maioria em outras localizações da cidade, ainda próximas do centro. É importante destacar que a verticalização em São Paulo, apresenta uma marcante transição dos edifícios ecléticos até a presença maciça da arquitetura moderna, que predominou na década de 1950 (OKANO, 2007). Assim, a partir da década de 1940 a 1950, São Paulo como o Brasil, apresentaram significativas transformações urbanísticas, arquitetônicas, econômicas, culturais e sociais, adquirindo assim uma nova forma de cultura, vestuário, moradia, construção, enfim, de viver (MEYER, 1991). A entrada dos edifícios modernos1 foi para atender a demanda de uma nova classe média que surgiu oriunda da revolução industrial (HARVEY, 2005). São Paulo se modificou com o aumento da taxa populacional, física e econômica, sofrendo transformações urbanísticas, arquitetônicas, econômicas, culturais e sociais. Até os dias de hoje, as políticas habitacionais têm sido insuficientes perante a demanda populacional, pois

1.O moderno é a ruptura da historicidade precedente e futura, com o âmbito de crescimento através de

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vem acarretando a exclusão social. A periferia, área com ausência de infra-estrutura, obtém um acelerado crescimento demográfico em relação à região central, que é equipada. Diante dessa situação, o centro sofreu um grande abandono, surgindo um processo lento de recuperação da área central, pois durante o dia ela é extremamente dinâmica e movimentada, contrapondo-se a noite que é vazia.

A verticalização é parte da produção do espaço em São Paulo (SOUZA, 1994). O crescimento vertical e o aumento em altura da área construída, a verticalização é a reprodução que funciona no solo urbano (SOMEKH, 1987). Não se pode confundir o conceito de verticalização e densidade. O coeficiente de aproveitamento pode aumentar ou diminuir, mas não necessariamente a quantidade de população. Como exemplo pode-se considerar Paris no século XIX que não apresentava verticalidade, mas tinha alta densidade, ao contrário da cidade de São Paulo atual.

O desenvolvimento progressivo em altura obteve um grande benefício através da tecnologia, com um avanço importante ocorrido nos Estados Unidos a partir do final do século XIX, através da utilização do elevador para a circulação vertical. A verticalização dos edifícios apresentava duas opções tecnológicas, através da utilização da estrutura metálica ou de concreto armado. Os americanos utilizavam-se muito da primeira escolha, pois o aço era produzido por eles. Já a produção brasileira possível em 1926, era estimulada com o estabelecimento da indústria de cimento nacional, levando à segunda opção, especialmente no período da Segunda Guerra Mundial, quando houve fortes restrições às importações. O começo da verticalização em São Paulo foi marcado pela casa Médici em 1912, pioneira no uso do concreto armado, localizada na esquina da Libero Badaró com a Ladeira Dr. Falcão Filho (HOMEM, 1984 p.104).

(20)

20

Introdução

em 1929, reunindo várias leis esparsas e ainda dividindo a cidade em zonas: central, urbana e suburbana. A referida norma estabeleceu regras para alinhamento dos edifícios e estilos arquitetônicos.

Os temas da habitação, verticalização, legislação e arquitetura moderna foram estudadas por diversos autores. Este trabalho tem como embasamento os seguintes trabalhos principais: Ambiente Construído e Legislação: o visível e o imprevisível (TARALLI, 1993), A habitação coletiva em São Paulo: 1928-1972 (ROSALES, 2002) e A Promoção Privada da Habitação Econômica e a Arquitetura Moderna - 1930/1964 (SAMPAIO, 2002).

Inicialmente, no desenvolver da dissertação, foram escolhidos 22 edifícios, dos quais foram tirados dos dois últimos trabalhos mencionados acima e também originários da dissertação de mestrado: Verticalização e Modernidade: São Paulo 1940-1957 (OKANO, 2007). Pode ser verificado que está dissertação foi finalizada com o estudo de quatorze edifícios, por inúmeras dificuldades. As obras eliminadas abrangem alguns edifícios que mudaram de uso, não abrigando mais a função habitacional; um não era privado; outros que os moradores não autorizam a retirada dos documentos na prefeitura. Finalmente, não foi possível conseguir a documentação de todos e era preciso correlacionar os edifícios com a legislação, como foco do trabalho.

(21)

A delimitação temporal foi determinada pelo desenvolvimento das construções habitacionais no centro do município de São Paulo, entre o período de 1927 e 1957, que está intimamente relacionado com a história local e nacional. Com o término da Primeira Guerra Mundial, a década de 1920 constitui um período de grande transformação na economia e na política, que levou à dinamização da construção civil. Em 1927 surgiu o primeiro edifício residencial vertical moderno na cidade de São Paulo, que está localizado no início da Avenida Angélica, projetado por Julio de Abreu. O trabalho é finalizado em 1957, quando foi promulgada a lei n° 5.261 de 1957, a qual restringiu os coeficientes de aproveitamento dos terrenos, que regulamenta o coeficiente máximo de aproveitamento em quatro vezes a área do lote para edifícios residenciais, limitando mais a construção no centro de São Paulo, importante fator na transformação urbanística da área mais central da capital.

Para melhor visualizar esse período apresenta-se a seguir duas linhas do tempo, figuras 1 e 2, respectivamente, com as indicações de datas históricas políticas e a legislação do período correspondente, que veio condicionar as iniciativas de construção habitacional na cidade de São Paulo.

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Introdução

Figura 2 – Linha do tempo legislativa (reduzida). Fonte: Larissa Cataldi Cipolla.

A figura 2 representa um diagrama de momentos importantes que serão abordados nesta pesquisa, com maior detalhe no capítulo 3: LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA DA ÁREA CENTRAL DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO NO PERÍODO DE 1927 A 1957.

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Figura 3 – Mapa da subprefeitura da Sé com os edifícios selecionados. Fonte: Prefeitura do Município de São Paulo. Modificado por Larissa Cataldi Cipolla.

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24

Introdução

Figura 4 – Paisagem no centro de São Paulo com seus principais edifícios. Fonte: FUJIOKA (1996).

(25)

Os objetivos da dissertação envolvem o desenvolvimento e a inserção das construções referenciais, no período de 1927 a 1957, considerando a legislação da época. Isto é possível através da descrição do processo de criação dos empreendimentos habitacionais, considerando como o mercado produziu a habitação na área central, desde as quitinetes até os apartamentos senhoriais. Isto indica as conseqüências no perfil e a importância do mercado privado para habitação da classe média, bem como permite constatar as tipologias arquitetônicas ocorridas entre 1927 até 1957 na região central de São Paulo. Tudo isto é perseguido desenvolvendo uma análise comparativa entre as obras pesquisadas, no contexto social e na atuação do governo municipal no período delimitado. Das tipologias residenciais verticalizadas localizadas na área central paulistana na época, algumas com área comercial no térreo, contribuíram para a implantação da arquitetura moderna e o desenvolvimento da legislação na cidade de São Paulo.

A metodologia utilizada na pesquisa foi efetuada através de dados primários, in loco e pesquisas de dados secundários, ou seja, bibliográficos, envolvendo a consulta de fontes diretas e indiretas constituídas por: Arquivos da Prefeitura de São Paulo e Empresas.

Revistas Acrópole2, Projeto3 Design e AU4; entrevistas com arquitetos e urbanistas atuantes no processo; levantamento de campo e das obras selecionadas envolvendo a comparação com referências da arquitetura moderna e transformações urbanas. Portanto teve uma detalhada e profunda pesquisa documental, e através dos dados conseguidos, foi possível fazer uma análise do desenho da cidade urbana vinculada com a legislação.

2 Revista Acrópole, n. 1, ano 1938; Revista Acrópole, n. 176, ano 1952; Revista Acrópole, n. 196, ano 1955. 3 Revista Projeto n. 31, ano 1981.

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Introdução

A estrutura de desenvolvimento e apresentação da dissertação de mestrado é feito através dos capítulos elaborados para o trabalho final.

No primeiro capítulo se aborda os acontecimentos históricos e a contextualização econômica e urbanística da cidade de São Paulo, do modelo econômico cafeeiro ao industrial, onde o centro era o ponto de dinamização econômica do país; alem de serem tratadas as questões do acelerado crescimento demográfico da cidade.

O segundo capítulo é abordado a verticalização residencial em São Paulo, bem como uma breve análise da origem da arquitetura vertical e modernista. Estes temas não foram estudados a fundo, mas são importantes, pois eles delimitam o trabalho. Destaca-se que eles não são estrutura de análise no aspecto da semântica, mas seria impossível não mencioná-los, já que a grande maioria dos edifícios projetados na época era moderna.

No terceiro capítulo analisa-se o desenvolvimento da legislação urbanística e edilícia no período entre 1927 e 1957 na cidade de São Paulo, bem como mudanças legais das instâncias federal e estadual que possuíram repercussões nesta dinâmica imobiliária.

No quarto capítulo é feita a avaliação volumétrica de 14 edifícios selecionados para o período. Considera-se para tanto: os limites legais para a área da construção, os recuos, os gabaritos, a tipologia arquitetônica, bem como a dinâmica das localizações. É por último é apresentado um quadro comparativo com a atualidade.

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CAPÍTULO 1

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Capítulo 1

1.1 ANTECEDENTES

No ano de 1867 implantou-se entre as cidades de Santos e Jundiaí, a primeira ferrovia, a Estrada de Ferro São Paulo Railway (Santos-Jundiaí). Em 1872, foi criada a Companhia Carris de Ferro e cinco anos mais tarde foi implantada a Companhia Cantareira de rede de água. Esta era a resposta para a cidade de São Paulo que estava crescendo, se industrializando. O café estava se tornando uma das grandes riquezas nacional para a exportação em direção à Europa, gerando um mercado interno e a industrialização (BONDUKI, 1998). O rápido incremento da população fica claro na tabela 1.

Tabela 1 – Surgimento das indústrias. Fonte: BONDUKI (1998)

ANO 1872 1886 1890 1893 1900

POPULAÇÃO 23.243 44.030 64.934 130.175 239.820

TAXA - 5% ano 11% ano 28% ano 9% ano

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urbano na cidade de São Paulo. No período seguinte, um grande número de imigrantes chegou ao porto de Santos com destino a capital paulista, muitos ficaram nas imediações do centro, especialmente no Brás, devido à presença da Hospedaria dos Imigrantes – atualmente Museu do Imigrante (BONDUKI, 1998).

A partir de 1983, as condições insalubres que viviam os moradores de cortiços despertaram uma preocupação diante das autoridades com o aparecimento de doenças, em razão da falta de infra-estrutura, como ocorriam de forma freqüente nos bairros de Santa Ifigênia, Bom Retiro, Brás e Bexiga (BONDUKI, 1998).

Nesse quadro, no final do século XIX, as tipologias habitacionais populares na cidade de São Paulo eram caracterizadas por: hotel cortiço; cortiço pátio e casa de cômodos (SILVA, 1989). As importantes soluções incentivadas pelo poder público foram construção de vilas operárias, conjunto de casas iguais e enfileiradas fora do perímetro urbano, evidenciando a forma de participação da iniciativa privada nessa questão e o direcionamento para a exclusão espacial (SAMPAIO, 2002 p.14).

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1.2 HISTÓRICO

Entre 1926 e 1930, no âmbito político-econômico, o presidente Washington Luís governou o Brasil, que representava a oligarquia nacional, que eram os donos de grandes propriedades. Em 1929, com a quebra da bolsa de Nova Iorque, iniciou-se a uma grande depressão econômica mundial (VICENTINO; DORIGO, 1997).

Em 1927, o prefeito Pires do Rio convocou uma comissão para levantar o número de alojamentos da cidade. Faziam parte dessa equipe: João Cintra, Augusto Covello, Vicente Graziano, Cândido Mota Filho e Oswaldo P. de Carvalho. Isso finalizaria um relatório que descrevia algumas causas da insuficiência e precariedade da habitação em São Paulo, “a primeira guerra de 1914, seguida da revolução de 1924, que veio quebrar o vigoroso trabalho de reajuste iniciado em julho de 1919. Foi esse um dos grandes males que a revolução fez à cidade” (SIMONSEN, 1943 apud SAMPAIO, 2002).

No Brasil, a queda dos preços do café foi brutal e os cafeicultores paulistas pediram ajuda ao presidente, que prometeu o crescimento das exportações, fato que não ocorreu, gerando insatisfação. Foi então, que a República Velha, chamada de política do “café com leite”, que alternava presidentes ora um cafeicultor paulista ora um produtor de leite de minas, acabou em 1930 (VICENTINO; DORIGO, 1997).

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Conforme dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), segue uma tabela com os dados do censo demográfico do município de São Paulo:

Tabela 2 – População nos anos de levantamento censitário: Município e Região Metropolitana de São Paulo, Estado de São Paulo e Brasil

ANO 1920 1940 1950 1960

HABITANTES 579.033 1.326.261 2.198.096 3.781.446

Fonte: Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo, 2007

De quase 240.000 habitantes em 1900, São Paulo atingiu um milhão em 1933. Nesses 30 anos, o acelerado crescimento populacional foi um dos principais motivos que levaram a cidade ao déficit habitacional (SAMPAIO, 2002 p.14).

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Nos primeiros momentos do governo Vargas havia disputas de diversos grupos para o exercício do poder, mas nenhum tinha meios para tornar hegemônico, abrindo espaço para a intermediação política, fortalecendo Getúlio Vargas. A composição do governo era formada por gaúchos, mineiros, paraibanos, com a necessidade de satisfazer as diversas forças por trás do poder político. Destaca-se que a força desse governo se encontrava nas lideranças tenentistas. Líderes dos tenentes foram substituir temporariamente os governos estaduais. Em São Paulo foi nomeado João Alberto para desgosto da oligarquia cafeeira. O tenentismo sempre derrubava o regime antigo e com as reformas, pouco sobrava para eles. A alternativa para eles um programa mais amplo, como Prestes que se converteu ao comunismo. Outros tenentes, junto com Juarez Távora, simpatizaram com o fascismo. Formaram as legiões Revolucionárias, que atraíram os operários e os desempregados, que cresceram depois da crise de 1929 (VICENTINO; DORIGO, 1997).

O progressivo fortalecimento pessoal de Getúlio Vargas fez que as duas facções dos tenentes divididas em esquerda e direita entrassem em decadência, que resultou na submissão total deles ao novo presidente. Vargas esboçava o “populismo”, no qual buscava apoio a classe trabalhadora urbana, prometendo benefícios e até leis favoráveis a elas (VICENTINO; DORIGO, 1997). Era época de novas idéias na questão habitacional da população trabalhadora. Era tempo de conquistar o eleitorado urbano, com isso priorizava o trabalho para a construção de um homem urbano, por meio da legislação trabalhista e previdenciária. Assim, a moradia e a família eram peças-chave para atender as carências habitacionais e o desejo dessa população. O período getulista representava centralismo político, portanto o projeto de arquitetura social provinha do governo, era o elemento-chave do seu esquema de sustentação (SAMPAIO, 2002 p.14).

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café, com a concorrência deste produto mundialmente e a formação de estoques imensos. Em julho de 1931, o governo decidiu a política de compra e queima desses excedentes (muitas vezes utilizados como combustíveis de locomotivas). Isso trouxe benefícios em curto prazo no funcionamento da economia brasileira. Graças à atividade cafeeira foi sustentado o setor comercial, bancária, ferroviária e até as pequenas indústrias nacionais. Com a compra do café pelo governo, a remuneração dos produtores era em moeda nacional, o que acarretou na emissão de mais papel-moeda e desvalorizou o mil-réis, inviabilizando as importações. Esses fatores incentivaram o desenvolvimento do ramo industrial brasileiro. Entre 1933 e 1939 a indústria brasileira mostrou um crescimento expressivo, principalmente em setores menos sofisticados, como têxteis e processamento de alimentos. É importante enfatizar que desde o final do século passado vinha-se construindo uma base de indústria leve no Brasil, propiciando a capacidade de um salto tão grande neste setor (VICENTINO; DORIGO, 1997).

“Foi realmente intenso o ritmo do desenvolvimento industrial a partir da crise de 1929. Do total de estabelecimentos existentes por ocasião do Censo Industrial de 1940, em número de 49.418, nada menos de 34.691 haviam sido fundados depois de 1930, sendo que 26.881 entre 1933 e a data do Censo. Não obstante o Censo Industrial de 1940 indicar que 54,4% dos estabelecidos recenseados ocupavam menos de 5 pessoas é inegável a expansão industrial no período 1933-34. Mas, do ponto de vista dos índices e fatores de transformação – técnica, transporte, preços – os resultados não foram tão positivos. O aumento da produção não determinava a qualidade; ao contrário, prevaleciam as limitações estruturais que caracterizavam nossa indústria na década de 1920, A passagem fundamental da indústria de consumo para a indústria de base se fazia de modo extremamente lento e pouco sensível.” (MENDES Jr.; MARANHÃO, 1991).

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fazendeiros paulistas e estimulou o processo de industrialização. Todavia a fortalecida oligarquia cafeeira paulista poderia retomar o poder perdido em 1930. Observa-se também que o relacionamento do político com os paulistas era difícil. Primeiro porque Vargas nomeou o tenente pernambucano João Alberto como interventor em São Paulo. Em 1932, teve que nomear o paulista Pedro de Toledo, indicado pelas próprias elites. Segundo, o governo deveria ser provisório. Terceiro, os setores urbanos da sociedade paulista estavam reunidos no Partido Democrático, que romperam com Vargas. O Partido Republicano Paulista se recompôs e formou a Frente Única Paulista, exigindo a nomeação de um interventor civil e paulista para o estado e uma nova Constituição. Isso atraiu um apoio popular enorme. Iniciou-se a revolução de 1932, que se tratava de um movimento reacionário liderado pela oligarquia cafeeira, que pretendia retornar ao poder e propor a redemocratização. No dia 9 de julho de 1932, São Paulo rompeu com o governo Vargas. Esperava-se por apoio de outros estados. Iniciou-se a organização de um exército constitucionalista, com um enorme alistamento voluntário de jovens da classe média. Foi significativa a não adesão do operariado. Demonstrava a fraqueza do exército constitucionalista, agravada pela falta de armas e o bloqueio das importações. A repressão de Vargas limitou-se a algumas prisões, deportações e cassação de mandatos, pois era impossível ignorar a elite paulista. Assim Vargas fez eleições para aprovar uma nova constituição, com voto secreto, introduzindo o voto feminino e a justiça eleitoral e deputados eleitos pelos sindicatos (VICENTINO; DORIGO, 1997).

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estatal de algumas indústrias; e por fim determinava que o próximo presidente fosse eleito pelo voto indireto da Assembléia Constituinte5. Então o novo governo de quatro anos, ocorrido entre 1934 a 1937, foi caracterizado pelo radicalismo, no qual os interesses econômicos e particulares sempre se sobrepuseram às idéias (VICENTINO; DORIGO, 1997).

Com a crise de 29 e a posterior depressão econômica representaram um colapso no sistema capitalista, em todo o mundo. As reações foram diversas: União Soviética permaneceu quase imune; os Estados Unidos adotaram o intervencionismo estatal; o fascismo de Mussolini e nazismo de Hitler se desenvolveram. Em 1932 surgiu a Ação Integralista Brasileira, indicando o início do fascismo no Brasil. Acreditavam num governo autoritário que pudesse levar a nação ao progresso. Eles repudiavam a democracia liberal e o comunismo6 (VICENTINO; DORIGO, 1997).

A rejeição ao fascismo levou a criação da Aliança Nacional Libertadora (ANL), de oposição ao fascismo e ao autoritarismo, tendo o comunismo à frente. Suas propostas baseavam-se na moratória, nacionalização das empresas estrangeiras, defesa das liberdades individuais, combate ao fascismo, criação de um governo popular e a reforma agrária. Luís Carlos Prestes apoiava a ANL. Ressalta-se que o movimento Ressalta-sempre foi ativo dentro das forças armadas e o PCB estava lutando junto. Em 1935 eclodiu a revolução planejada pela ANL. Após intensos combates, fracassaram. Isso tudo foi um pretexto para que o governo desencadeasse uma violenta repressão a todos os participantes e simpatizantes ao comunismo. Assim Vargas decretou o estado de sítio, o legislativo perdeu autonomia e as forças militares ganharam poder. O regime constitucional deixou de existir. Em 10 de novembro, Vargas ordenou o fechamento do congresso, a extinção dos partidos

5 O presidente eleito foi Getúlio Vargas.

6 Eram racistas assumidos. Apresentavam um forte apelo nacionalista, com o principal líder Plínio Salgado.

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políticos, a suspensão da campanha presidencial e da Constituição de 1934. Estava implantada a ditadura do Estado Novo, que durou de 1937 a 1945. A Constituição de 1934 foi abandonada, sendo substituída pela nova Carta, a de 37. A partir de ato e de força, buscavam justificar-se e ganhar uma aparência de legitimidade através da outorga de uma Constituição. Esta foi inspirada nas constituições fascistas da Itália e Polônia. As principais características eram: centralização política, extinção do legislativo fortalecendo o executivo, subordinação do judiciário ao executivo, indicação dos governadores pelo presidente e a legislação trabalhista. Seus excessos totalitários foram bem amenos perante os da Europa. Com este golpe, a oposição foi mínima no Brasil7. A única oposição fracassada foi a de Plínio Salgado, também integralista, mas mantido à margem do governo. Ele foi exilado e o movimento integralista desapareceu (VICENTINO; DORIGO, 1997).

O fortalecimento do poder do Estado se deu pela criação de diversos órgãos, como o Departamento de Imprensa e Propaganda, DIP, que procurava controlar os meios de comunicação de massa. Havia uma violenta censura e a valorização da figura de Vargas perante aos interesses nacionais. Outro mecanismo foi à criação do Departamento Administrativo do Serviço Público, DASP, que tinha a função de coordenar e controlar a atuação dos órgãos públicos, devido ao crescimento e atribuições ao Estado público, precisando aumentar a eficiência. Nessa época aumentaram-se os cargos de confiança, o nepotismo e a burocracia. As forças policiais se fortaleceram8 (VICENTINO; DORIGO, 1997).

No entanto, o principal fortalecimento político foi a aproximação de Vargas com os trabalhadores urbanos, através da prática populista. Os operários eram diferentes dos de 30, pois havia muitos imigrantes e o contínuo êxodo rural. Além

7 Isso se deveu aos anos de propaganda anticomunista, os governadores iriam se eternizar no poder e o

operariado era refém ao “populismo” varguista.

8 Um grande exemplo dessa violência foi marcado com a alemã Olga Benario, que havia sido presa junto com o

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de que o presidente atendeu algumas reivindicações, como a legislação trabalhista. Em 1º de maio foram introduzidos no Brasil o salário mínimo, 44 horas de trabalho semanal, a Consolidação das Leis do Trabalho, a carteira profissional, as férias remuneradas. Isso tudo viabilizou o processo de industrialização. Assim, o Estado, com um líder carismático, administrava a tensão social falando em nome do povo, diminuindo o conflito, e indiretamente agia em benefício da burguesia (VICENTINO; DORIGO, 1997).

A intervenção de Estado na economia se deu através de um planejamento econômico com destaque a industrialização por substituição de importações. O Estado executou inúmeros órgãos que iriam coordenar e estabelecer diretrizes para a política econômica. Getúlio Vargas iria completar seu 15º ano no governo. O Estado já estava desgastado, Vargas lutou na Europa contra a ditadura e muitos movimentos clandestinos pediam a redemocratização. Com tudo isso, o próprio presidente percebeu que iria ser inevitável, marcando eleições, permitindo a criação de partidos. Mas em outubro de 1945, o próprio exército liderado por Góis Monteiro e Dutra derrubou Getúlio, com um golpe de estado encerrando o Estado Novo.

Em 1945, a atividade econômica industrial ultrapassa a agrícola no Estado de São Paulo. Na década de 40 houve um crescimento do setor bancário, para atender a nova demanda de crescimento da economia paulista. Agora se compunham bancos estatais e estrangeiros, demonstrava-se o dinamismo econômico, a produção industrial e a circulação das mercadorias. Exemplifica-se com: Banco da América, fundado em 1943; Banco Sul Americano do Brasil, 1940; Banco Itaú, 1940; Banco Auxiliar de São Paulo, 1942; Banco Brasul, 1943; Banco Cruzeiro do Sul. Apareciam novos bancos em todo o Brasil (SAES, 2004 p.255).

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Siderúrgico Nacional, 1940; Comissão executiva Têxtil, 1942; Comissão Nacional de Combustíveis e Lubrificantes, 1941; Comissão Nacional de Ferrovias, 1941; Comissão Vale do Rio Doce, 1942; Companhia Siderúrgica Nacional, Usina de Volta Redonda e inaugurada em 1946; Companhia Vale do Rio Doce, 1942; Companhia Nacional de Álcalis, 1943; Fábrica Nacional de Motores, produção de caminhões, 1943; Companhia Hidrelétrica de São Francisco, 1945; entre outras (GREMAUD et al., 1997 apud OKANO, 2007 p.35).

A maioria das construções das Companhias foi custeada pelos Institutos de Aposentadorias e Pensões, os IAPs (OKANO, 2007 p.37). Estes financiam principalmente projetos de “habitações de interesse social” em grandes cidades. Nesta época foram construídos conjuntos residenciais, com casas térreas, ou sobrados, ou no máximo blocos de quatro andares, que não exigiam elevadores. O instituto também disponibilizava recursos para o desenvolvimento de implantação da infraestrutura urbana (SOMEKH, 1987).

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importação de máquinas, equipamentos e matérias-primas, desacelerando a produção industrial (VICENTINO; DORIGO, 1997).

Voltando ao cenário político, no período de 1946-1951 o governo Eurico Gaspar Dutra foi marcado pelo liberalismo, a não intervenção do Estado na economia, o qual abriu o país para as importações, mas devido aos problemas da dívida externa, começou a haver um intervencionismo. Houve um controle do câmbio e a regulamentação das importações, gerando mais uma vez crescimento acelerado. Esta época foi marcada pela Guerra Fria, disputada entre Estados Unidos e União Soviética por áreas de influência, isto é, pela hegemonia no mundo (VICENTINO; DORIGO, 1997). A Companhia Siderúrgica Nacional começou a funcionar em 1946, quando produzia aço na usina de Volta Redonda e serviu de catalisador para a implantação de outras indústrias (GREMAUD et al., 1997).

No período após 1945, a cidade estava se modernizando. Houve um enorme crescimento artístico cultural, dando origem ao Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – MASP – inaugurado em 2 de outubro de 1947; o Museu de Arte Contemporânea – MAM – em 1948; o Teatro Brasileiro de Comédia – TBC – em 19489; Escola de Arte Dramática – EAD – em 2 de maio de 194810; a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, em 1949; entre outras. Destaca-se também a o desenvolvimento na área do ensino superior, que exigia novos profissionais, foram fundadas: a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo – FEA USP – em 1946; a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo com os cursos de direito, Filosofia e Letras – PUC SP – em 13 de agosto de 194611; a Escola de Jornalismo Cásper Líbero, a primeira da

9 ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. Disponível: http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas

/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=cias_biografia&cd_verbete=656. Acessado em:1.12.10.

10 ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. Disponível: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/

enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=cias_biografia&cd_verbete=633. Acessado em: 5.12.10.

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América Latina, em 16 de maio de 194712; a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, primeira do estado de São Paulo e segunda do Brasil, em 12 de agosto de 1947; a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Paulo – FAU-USP – junto com os professores da Politécnica da mesma instituição, em 1948.

Em 1947, as novas construções representavam aproximadamente 47% do investimento nacional privado, principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo. Entre 1946 e 1964, houve um grande desenvolvimento industrial, e o investimento da energia elétrica não acompanhou o crescimento, que com a falta, obrigou as indústrias a produzirem a sua própria energia (OKANO, 2007 p.60). O ano de 1953 foi marcado pela escassez de chuva, acarretando uma crise aguda (SILVA, 2003).

Nos anos de 1951 a 1954 Getúlio Vargas foi eleito e governou o Brasil. Comprometido com o nacionalismo, rejeitando a abertura da economia ao capital estrangeiro, era a favor do controle do Estado sobre o planejamento. Vargas criou a Petrobrás em 1953 através de decreto e planejava a criação da Eletrobrás, além disso, propôs também um reajuste de 100% no salário mínimo, para repor as perdas da crescente inflação (VICENTINO; DORIGO, 1997).

Carlos Lacerda, líder da oposição criticava o governo de “esquerda” e corrupção no executivo. Esse foi ferido e as investigações apontavam Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas. Este em 24 de agosto de 1954 suicidou-se. Seu compromisso sempre foi junto às elites, por mais que apelasse para o povo em seus discursos e lhes abrisse concessões (VICENTINO; DORIGO, 1997).

O vice-presidente, Café Filho, assumiu a presidência. Com posturas da prática liberal, combateu com a crescente inflação. No início de 1955 publicou a

12 Faculdade Cásper Líbero. Disponível: http://www.facasper.com.br/noticias/index.php/ calendario,n=152

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instrução nº 113, concedendo facilidades às empresas estrangeiras importassem material obsoleto superfaturados, assim aumentava o lucro externo e estimulava a atividade industrial (VICENTINO; DORIGO, 1997).

O período de 1956 e 1961 foi marcado pela tranqüilidade política e prosperidade econômica. As prioridades desse governo foram refletidas na situação do desenvolvimento econômico-industrial do país.

“Quanto ao crescimento econômico, o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro cresceu em média 7% ao ano, enquanto a taxa per capita

aumentou num ritmo quatro vezes maior que no restante da América Latina. Os números relativos ao valor da produção industrial são impressionantes, revelando um crescimento de 80% no período (100% no caso da indústria do aço, 125% na indústria mecânica, 300% em eletricidade e comunicações e nada menos que 600% nos transportes)” (VICENTINO; DORIGO, 1997).

A indústria desenvolveu-se a passos largos, diversos produtos começaram a ser fabricados no Brasil. Juscelino incluiu também o Plano de Metas, no qual atingiu o objetivo na área da energia, transporte e indústria, mas não alcançou a meta na parte social, educação e alimentação, o que passou despercebido. E desça-se também a construção de Brasília. Houve um grande crescimento industrial nas áreas de extrativismo mineral e de construção civil, além dos setores de comunicações e serviços. Os que perderam espaço foram a agropecuária, comércio e aluguéis. Estava concretizada a “simbiose do ideal desenvolvimentista com progresso, modernização, articulando os interesses da burguesia nacional com a dinâmica internacional capitalista” (VICENTINO; DORIGO, 1997).

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1.3 URBANISMO

Na cidade de São Paulo, o prefeito Prestes Maia, em sua gestão durante os anos de 1938 a 1945, implantou o Plano de Avenidas, surgiu entre as propostas viárias a do Perímetro de Irradiação de João Florence de Ulhôa Cintra (1887 – 1944), entretanto, o prefeito buscou parâmetros internacionais, europeus e norte-americanos (SOMEKH; CAMPOS, 2002).

A história do crescimento territorial urbano da cidade de São Paulo começou no final do século XIX, quando Victor da Silva Freire, diretor de obras municipais, protagonizou as atividades urbanísticas na República Velha em São Paulo. Logo em seguida, em 1912, o francês Joseph Antoine Bouvard apresentou uma proposta de projeto para o Vale do Anhangabaú. E por último, o Plano de Avenidas de Prestes Maia, publicado em 1930, mas não completamente executado. Este é o período que contextualiza essa pesquisa:

“...trata da mudança do paradigma de estrutura viária radio-concêntrica (composto por vias radiais e perimetrais) do Plano de Avenidas de Prestes Maia para a concepção de redes em forma de tramas direcionais ortogonais adaptadas às características territoriais, que fundamenta o Plano Urbanístico Básico de 1968 e seu desdobramento” (CAMPOS, 2002).

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Figura 6 – Perspectiva do Plano de Avenidas. Fonte: Congresso Internacional de Americanistas, 2003.

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O Plano de Avenidas foi acompanhado pelo Ato n° 663 e o Decreto-Lei n° 92 de 1941, que passou a permitir a construção de edifícios com 11 andares no alinhamento da calçada.Predominavam as obras edilícias de iniciativa privada, que eram símbolos de espaços dominantes da capital paulista (OKANO, 2007 p.31-2). Assim, “Nesse contexto o papel de diversos planos urbanísticos desenvolvidos até então tendia a ser minimizado em face do peso das realizações individuais”. Conforme Fabio Prado, caracterizava São Paulo como uma “cidade sem sistema”, apenas com pensamentos autônomos, sem preocupação com o conjunto, a cidade como um todo (CAMPOS, 2002 p.509).

A construção do Plano de Avenidas gerou despejos e demolições para a construção de edifícios com maior área e alargamento das avenidas, tudo isso em período de crise da habitação (BONDUKI, 1998). Prestes Maia replicava dizendo que as habitações demolidas foram substituídas por novas e maiores, como os edifícios Copan e Montreal de Oscar Niemeyer e no eixo da nova Avenida Nove de Julho (SAMPAIO, 2002 p.25).

Essas obras foram realizadas pelo apoio administrativo e financeiro de Getúlio Vargas e o Estado Novo, 1937 – 1945. Construíram as avenidas Nove de Julho, Paulista, Pacaembu, São João, Rio Branco, entre outras. Observa-se a não conclusão do Plano de Avenidas (OKANO, 2007 p.32).

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Tabela 3 – Número de habitações construídas entre 1939 e 1946

Ano 1939 1940 1941 1942 1943 1944 1945 1946

Habitações 11.600 12.100 12.600 8.000 7.400 9.400 15.000 19.000

Fonte: SAMPAIO, 2002.p.25.

Segundo Sampaio, Prestes Maia definia “recuperação” como “a aceleração de solução que já vinha sendo utilizada pelos trabalhadores nas décadas anteriores”. Dois elementos cooperaram para a aceleração: a Lei do Inquilinato e a oferta de apartamentos periféricos. Estes eram muitas vezes irregulares, clandestinos ou até por autoconstrução (SAMPAIO, 2002 p.25).

Observa-se, portanto, de um lado a concentração de verticalização no centro e em bairros vizinhos, do outro o aumento da periferização pela autoconstrução, ambas promovidas pela iniciativa privada e anuência do Estado (SAMPAIO, 2002 p.25). A primeira foi limitada com a restrição do coeficiente de aproveitamento em 1957, a segunda havia omissão legislativa.

Prestes Maia sugeria algumas alternativas para combater a crise da habitação:

“1) maior incentivo às atividades construtoras por parte do Estado; 2) evitar que as leis do inquilinato desanimem os proprietários; 3) alterações do regime aduaneiro para facilitar a importação de material de construção que fossem caros, imperfeitos ou escassos entre nós (cimento, material metálico, vidros, aparelhos, tintas, canos);

4) incrementar a produção de materiais úteis, instalações de fábricas e usinas para cimento, cal, produtos cerâmicos, extração ou produção de areia e brita, etc.;

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Segundo Somekh (1987), essas transformações urbanísticas na área central permitiam o máximo uso da base fundiária, proporcionando o crescimento vertical. Nessa época, o Decreto Lei n° 92/1941, esclarecia o limite máximo de altura através da largura da via.

Esse período de governo coincide com a história do crescimento da cidade de São Paulo, que começou no inicio do século XIX, quando Victor da Silva Freire, diretor de obras municipais, protagonizou as atividades urbanísticas na República Velha em São Paulo. Logo em seguida, em 1912, o francês Joseph Antoine Bouvard apresentou uma proposta de projeto para o Vale do Anhangabaú. E por último, o Plano de Avenidas de Prestes Maia, publicado em 1930, mas não completamente executado (CAMPOS, 2002).

Desde 1930, com o modelo urbano expansionista, concentrador e automobilístico, articulado pelo Plano de Avenidas de Prestes Maia, São Paulo caracterizava como “metrópole moderna” (FURTADO, 1964 p.30). No final da década de 40, foi acentuada a construção de rodovias, tais como: a Anchieta, ligação São Paulo – porto de Santos, em 1947; a Anhanguera, ligação São Paulo – Jundiaí, em 1948; a pavimentação da via Dutra, ligação São Paulo – Rio de Janeiro, em 1951 (LEME, 1990).

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que fazia parte dos eixos da Avenida Brasil e da atual Vinte e Três de Maio.13 Esta definia um eixo de expansão do parque do Anhangabaú ao Ibirapuera. O primeiro era central, contextualizado para embelezar e sanear importantes áreas da cidade. Já o segundo representava o crescimento, intervenções urbanas, a força paulistana conquistada ao longo desses anos, a grandeza e a modernidade de São Paulo. Novamente, como em 1930, a questão viária é evidente, assim como a valorização do entorno.14 O mapa da proposta de Prestes Maia está na figura 8.

Figura 8 – Proposta de Prestes Maia da ligação dos parques do Anhangabaú e Ibirapuera. Fonte: OLIVEIRA, 2002.

O parque nasceu do ideário das comemorações do IV Centenário, juntamente com a imagem de potência econômica do país, acompanhado pela arquitetura modernista. Foi fundada a comissão do IV Centenário, em 20 de julho de 1951, que estava incumbida de organizar a festa para os dias 9 a 11 de julho de 1954, com o parque do Ibirapuera como centro das comemorações. Este se tornou o destaque pelos aspectos inerentes quanto espaço de lazer e cultura de grande porte na metrópole paulista e pela importância simbólica até hoje. A equipe de Oscar Niemeyer realizou o conjunto arquitetônico como marco da modernidade. Também foram muito lembrados e divulgados os veteranos combatentes de 1932 que

13 WESLEY Macedo; MIRIAM Escobar. A concretização da imagem do IV Centenário da cidade de São Paulo: o Parque do Ibirapuera. Vitruvius, ano 5, fevereiro. Disponível em:

http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.057/507. Acesso em: 5.12.10.

14 OLIVEIRA, Fabiano Lemes de. O Parque do Ibirapuera: Projetos, Modernidades e Modernismos.

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participaram em desfiles e eventos por toda a cidade15. Nesse evento foram vendidos muitos produtos variados: louças, liquidificador, roupas, apartamento, entre outros. Vinculava-se a idéia de progresso e “nova cultura”. Esta se baseava em uma nova forma de construir, comprar, morar, tudo que gerasse uma vida cosmopolita. O processo de modernização da vida social era marcado pelo “American way of life”, referente ao modo de vida americano do século XX, que era o consumo em massa junto à liberdade e felicidade. Esse jeito de viver foi muito difundido na indústria cinematográfica (OKANO, 2007 p.88-90).

Os edifícios privados e modernos estavam atendendo a uma nova classe média em ascensão, que surgiam da expansão industrial em São Paulo. Essas construções associavam as idéias de: modernização, progresso e pólo econômico da capital paulista. A partir da década de 50 surgiu uma tipologia diferente nos apartamentos residenciais, a quitinete16. São apartamentos pequenos, normalmente entre 25 e 40m², com quarto, banheiro e sala com cozinha. Eram destinados a nova classe média em surgimento, que não tinha dinheiro para comprar um maior (SAMPAIO, 2002). Caracterizava a produção em massa. Emergia também a nova visão de edifício moderno multifuncional, isto é, o edifício cidade, que contém habitação, comércio e serviços. Com a legislação propicia a verticalização, as construções tinham um grande aproveitamento do terreno. Dois grandes exemplos são o edifício Copan de Oscar Niemeyer e o Conjunto Nacional17 de David Libeskind.

É importante notar que, na esfera municipal, entre os anos de 1952 e 1957, ocorreu nova revisão do Código Arthur Saboya e a promulgação de um novo Código de Obras, que passou a abordar o coeficiente máximo de aproveitamento e o zoneamento da cidade de São Paulo, iniciando nessa época, a construção de

15 OLIVEIRA. Fabiano Lemes de. O Parque do Ibirapuera: Projetos, Modernidades e Modernismos.

DOCOMOMO_05. Disponível: http://www.docomomo.org.br/seminario%205 %20pdfs/048R.pdf. Acesso em: 6.12.10.

16 Em inglês, kitchenettes.

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edifícios como o Copan e o Conjunto Nacional, com incentivo ao adensamento. O déficit habitacional trazia discordâncias entre o papel que deveria ser assumido pelo setor público e o privado. Acreditava-se que o setor público não deveria disponibilizar o tesouro público para esse fim, pois demandaria encargo pesadíssimo acima de suas forças e obrigações. Já que essa situação era devido a desastres históricos (SAMPAIO, 2002 p.17).

Fazendeiros, industriais e pequenos comerciantes aplicavam seus dinheiros no mercado rentista, os quais lucravam e se o Estado interviesse, o teria como inimigo nesta concorrência. As medidas tomadas foram ter prudência perante as ações do poder público e incentivar o mercado privado. Observa-se que a instituição pública não estava preparada para substituir o capital privado, dificultando a ação do Estado nessa questão (SAMPAIO, 2002 p.18).

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CAPÍTULO 2

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2.1 A VERTICALIZAÇÃO, OS EDIFÍCIOS RESIDENCIAIS E O MERCADO IMOBILIÁRIO

O edifício residencial moderno surgiu na França no início do século XX. Em 1903, foi construído o Ed. da Rua Franklin, 25, em Paris, de Auguste Perret, precursor da arquitetura residencial multifamiliar, apesar de fortes elementos da Art Nouveau. Através da aplicação da tecnologia de concreto armado, foi já possível desvincular as plantas da fachada. A planta livre estava indubitavelmente presente, dando novos elementos de projeto à primeira geração de arquitetos modernos, como Le Corbusier, que estagiou no escritório de Perret entre 1908 e 190918.

No Brasil, Lucio Costa desenvolveu para Eduardo Guinle um projeto em 1943, os edifícios do Conjunto Residencial Parque Guinle, considerados “os únicos exemplares de edifícios de habitação coletiva moderna, tombado em âmbito federal”19. Apresenta enorme importância como nova tipologia habitacional.

Em São Paulo, o Edifício Esther de 1938, foi o primeiro edifício de porte com uso residencial moderno, objeto de concurso, vencido por Álvaro Vital Brasil e Adhemar Marinho, em 1936. O edifício tem base de função comercial, os três primeiros andares comerciais e os pavimentos superiores residenciais. O prédio é complexo e diversificado, com alguns apartamentos duplex.

Por volta de 1910, os poucos prédios que existiam na área central da cidade tinham a altura mínima exigida pela legislação da época, que era de três a quatro pavimentos. O primeiro registro da verticalização na área central de São Paulo, foi a

18 DREBES, Fernanda Jung. 5º Seminário DOCOMOMO Brasil, São Carlos, 2003. Disponível:

www.docomomo.org.br/seminario%205%20pdfs/051R.pdf. Acessado em: 11.12.10.

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Capítulo 2

casa Médici, edifício de escritórios construído em 1912, na esquina da Rua Líbero Badaró com a ladeira Dr. Falcão Filho. Com estrutura de concreto armado foi calculado para suportar vários pavimentos.20

A morfologia urbana do município de São Paulo formou-se na área central a partir do parcelamento dos lotes urbanos coloniais, que geralmente eram de pequenas larguras e enormes comprimentos, e normalmente não apresentavam recuos frontais nem laterais (OKANO, 2007).

Figura 9 – Lotes coloniais da Rua Líbero Badaró. Foto: Larissa Cataldi Cipolla, 8.12.10.

20 Bens culturais arquitetônicos no município e na região metropolitana de São Paulo. (SNM) Secretaria dos

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Assim, a verticalização na capital paulista passou a ser, “vista como uma geografia dos espaços metropolitanos, materializada na produção de edifícios, constitui-se numa possibilidade inusitada de articulação das múltiplas formas do capital num objeto, o edifício, um mesmo lugar, o urbano, num tempo/circulação extremamente reduzidos, dessa forma, a verticalização se realiza espetacularmente com acumulação e reprodução” (OKANO, 2007 p.10). Segundo Somekh (1987), de 1920 a 1939, 70% dos edifícios estavam no centro, já de 1940 a 1957 apenas 30%.

Os prédios construídos no período entre 1927 e 1957 tinham como característica a fachada frontal, que representava o elemento estético, já que a implantação tinha muita restrição legislativa, já que os terrenos eram estreitos e compridos e tinham o máximo de aproveitamento dos lotes e apenas testada aparente (OKANO, 2007 p.26). As fachadas apresentavam formas modernizadas, porém não era a arquitetura do movimento moderno, que enfrentava os problemas sociais, e que representava a demanda inserida pelo aumento da produtividade no capitalismo. Isso era alcançado retirando os ornamentos das fachadas das antigas arquiteturas ecléticas, simplificando-as, sem gerar novas técnicas para obter novas formas (SOMEKH, 1994). Também outra peculiaridade dos edifícios centrais da cidade de São Paulo da época era a ocupação plena dos terrenos21 (OKANO, 2007 p.26).

Interessante observar a pesquisa realizada por Okano (2007 p.26), sobre a origem da palavra apartamento, que significa apartar ou separar, aludindo a uma casa dividida em várias unidades habitacionais, tornando-se um edifício de casas separadas, apartamentos.

Muitos autores indicam que o primeiro arranha-céu construído em São Paulo foi o edifício Martinelli22, inaugurado em 1929 com 72,5 metros de altura, isto é,

21 Com exceções a confirmar tal regra, o Edifício Guarani, no Parque D. Pedro II, já o elegante bairro de

Higienópolis, respeitava recuos frontais e laterais.

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Capítulo 2

com 25 andares e 45 mil metros de área construída (SOMEKH, 1987). Já Christiano Stockler das Neves alega que é o edifício Sampaio Moreira e também autor deste, mas com certeza o edifício Martinelli foi o primeiro arranha-céu no Brasil.

Nesse cenário, a construção de prédios passou a ter outras características na sua tipologia: quitinetes; apartamentos com áreas comum e duplex, além da utilização dos seus pavimentos, para o comércio e serviços no térreo, e nos primeiros pavimentos. Também se observou a implantação de grandes edifícios, sem recuo frontal para a rua, perfilados lado a lado, com grande número de pavimentos e apartamentos, além da construção de unidades habitacionais Figura 10 – Edifício Sampaio Moreira.

Disponível em: http://www.skysc

rapercity.com/showt hread.php?t=466513. Acessado: 09.11.10.

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pequenas, de 25 a 30m², constituindo, provavelmente, expressivos lucros dos incorporadores (SILVA, 1989). Nessa época, o Código de Obras Arthur Saboya normatizava as condições de implantação na área central da cidade, sendo que na sua maioria, os edifícios assumiam a forma do lote, como a legislação incentivava.

No inicio do século XIX São Paulo crescia, embora o centro econômico e político do Brasil fosse a cidade do Rio de Janeiro. Este período inicia-se a aceitação por parte da classe média e alta da cidade de São Paulo para a realidade vertical, desde que reproduzissem as condições da casa isolada, com o conforto dos tipos de palacetes de gente abastada (LEMOS, 1996).

Com a expansão econômica entre os anos de 1940 e 1950, São Paulo passou por novas transformações sociais, econômicas, culturais e urbanísticas, elevando-se como metrópole. Esse fomento na urbanização fez com que surgissem novos hábitos de viver (MEYER, 1991).

Conclui-se, portanto, que a verticalização em São Paulo foi fomentada em dois períodos. O primeiro de 1920 a 1939, a cidade seguia os padrões europeus. E o segundo de 1940 a 1956, nomeada de verticalização americana, que começa com a implantação do registro de elevadores até a restrição do coeficiente de aproveitamento dos terrenos conforme a Lei n° 5.261 de 1957 (MEYER, 1991), ressaltando-se que no segundo período há a predominância de edifícios residenciais e na maioria quitinetes (OKANO, 2007).

Do quadro de urbanização da capital paulista decorreram as contradições e discrepâncias sociais na distribuição da ocupação residencial.

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Capítulo 2

Nesta época, o edifício Martinelli já estava cercado por novos arranha-céus, com destaque ao vizinho, o edifício Altino Arantes.23 Os edifícios comerciais dominavam perante os residenciais na área central do município de São Paulo.

A verticalização da região central de São Paulo, a partir de 1920, teve como uns dos fatores importantes a construção de edifícios, em geral de seis a oito pavimentos, com fachadas ricamente ornamentadas, em imagem e semelhança aos palacetes da época.

Nas décadas de 1930 e 1940 os edifícios passaram a ostentar linhas retas e buscavam inspiração na arquitetura moderna. Já nessa época os termos “edifício” ou “prédio” passou a representar toda construção com mais de três pavimentos e de uso residencial, coletivo, comercial ou misto (GAGETTI; RIGHI, 2001).

Assim, os prédios passaram a ser reconhecidos como produto de uma nova tecnologia implantada no Brasil, e que necessitava de dois elementos construtivos básicos: o cimento, para o concreto armado, e o elevador, como equipamento de circulação vertical. Os dois dependiam de perfis importados, mas a sua combinação com a alvenaria tradicional e ao baixo custo da mão de obra, permitia a construção da maioria dos imóveis baixos da cidade. A conjugação dos elementos básicos necessários à construção dos arranha-céus por ter maior custo, foi implantada por iniciativa privada com a disseminação da verticalização pelo poder público.

A modernização da cidade de São Paulo acontecia graças às transformações econômicas, a urbanização, a institucionalização e burocratização (MEYER, 1991 p. 27). O rápido crescimento foi impressionante. No começo do século XX, a cidade compreendia 240.000 habitantes e em 1954 tinha uma população de 2.817.600, que indicava uma superação em relação à atual capital federal e maior cidade da época,

23.O edifício Altino Arantes, mais conhecido como Banespa ou Banespão, é atualmente o terceiro maior da

Imagem

Figura 5 – Edifícios Esther (Álvaro Vital Brasil, 1938), Itália (Franz Heep, 1965), Copan  (Oscar Niemeyer, 1951) e Hilton todos na Praça da República, São Paulo, 1975
Figura 8 – Proposta de Prestes Maia da ligação dos parques do Anhangabaú e Ibirapuera
Figura 9 – Lotes coloniais da Rua Líbero Badaró. Foto: Larissa Cataldi Cipolla, 8.12.10
Tabela 5 – Evolução das construções e transmissões imobiliárias da cidade de São  Paulo, 1939 – 1944
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