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Observações sôbre o bronzeado do algodoeiro Mocó.

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Academic year: 2017

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ALGODOEIRO MOCÓ (*)

A . S. COSTA, engenheiro agrônomo, Seção de Virologia, Instituto Agronômico, FERNANDO MELLO DO NASCIMENTO e HUMBERTO ESCOREL BORGES, engenheiros agrônomos,

Esta-ção Experimental do Seridô, Ministério da Agricultura, Cruzeta

RESUMO

U m a anomalia d o algodoeiro M o c ó , d e n o m i n a d a b r o n z e a d o , v e m sendo observada na região d o Seridó, R i o G r a n d e d o N o r t e , durante o s últimos três anos. Pensou-se, a princípio, que esta anomalia fôsse causada p o r u m vírus, mas as observações relatadas neste trabalho indicam que é causada p o r u m ácaro.

As fôlhas das plantas afetadas, especialmente aquelas da metade superior d o s galhos, m o s t r a m u m a c o l o r a ç ã o b r o n z e a d a n o lado de b a i x o . Essa face da fôlha t e m t a m b é m u m a superfície rugosa, c o m brilho v i d r a d o (est. 1, B), as vezes c o m pequenas áreas de t e c i d o cicatricial. Vistas p e l o l a d o d e cima são mais rugosas d o que as normais e t ê m os b o r d o s c u r v a d o s para b a i x o . N o s casos graves, as fôlhas d o t o p o dos galhos m o r r e m e c a e m (est. 2, A e B).

A espécie de ácaro causadora d o b r o n z e a d o d o algodoeiro M o c ó foi identificada p o r H . H . Keifer, Sacramento, Calif., c o m o pertencente a u m gênero ainda n ã o descrito da família E r i o p h y i d a e . Esta espécie está sendo presentemente denominada Anthocoptes sp. a t é que a sua descrição seja publicada. P o p u l a ç õ e s d e 5 0 0 a 1 . 0 0 0 indivíduos p o r centí-m e t r o quadrado de fôlha j á foracentí-m encontradas. Esse ácaro parece ser centí-m u i t o sensível às c o n d i ç õ e s d o ambiente, visto q u e as p o p u l a ç õ e s d a praga variam entre grandes limites.

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2 - P L A N T A S A F E T A D A S

Nas observações feitas até o presente, o bronzeado foi observado apenas em algodoeiros da variedade M o c ó , que são os únicos plantados na zona d o Seridó. Procurou-se também verificar se as ervas daninhas existentes nas proximidades dos algodoais atacados mostravam sintomas semelhantes aos do bronzeado, mas nenhuma evidência nesse sentido foi obtida.

3 - S I N T O M A S

O sintoma mais característico d o bronzeado é o aparecimento dessa coloração na face inferior das folhas (face dorsal) dos algodoeiros atacados, freqüentemente acompanhada de u m brilho vidrado e às vezes c o m formação de áreas de tecido cicatricial. Observadas pela face superior as folhas afetadas apresentam certa rugosidade não observada em folhas normais e têm os bordos curvados para baixo (est. 1, A e B). A s folhas afetadas se tornam também rígidas e quebradiças, quando comparadas c o m as normais.

Se a planta toda é afetada, ela apresenta aspecto característico (est.

2, A), devido à coloração diferente e à conformação das folhas. H á redução

no crescimento e também no tamanho das folhas. Mais freqüentemente, apenas as pontas de crescimento mostram os sintomas da anomalia, perma-necendo as folhas mais velhas c o m aparência normal. E m casos severos da anomalia toda a ponta de crescimento se torna bronzeada e as folhas mais novas afetadas morrem e caem, ficando o ponteiro despido (est. 2 , A e B). Os sintomas p o d e m estar presentes em apenas u m ou em mais galhos da mesma planta e, às vezes, em apenas uma planta da cova, enquanto que as outras permanecem c o m aparência normal.

O aparecimento d o bronzeado é mais comum em plantações de segundo ano ou mais velhas, sendo rara a sua manifestação nas plantações de primeiro ano. Isto não parece resultar de uma maior suscetibilidade das plantas mais velhas, pois replantas de primeiro ano, feitas em plantações velhas, mos-traram-se também afetadas pelo bronzeado.

4 - C A U S A D O B R O N Z E A D O

Não é moléstia de virus. Julgou-se a principio, que o bronzeado

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produ-ziram brotação sadia, o que geralmente é contrário ao que acontece c o m as moléstias de vírus, cujos sintomas quase sempre se tornam mais severos na primeira brotação formada logo após a poda ; 4) além da recuperação indu-zida pela poda, notou-se a recuperação normal em ponteiros de certas plantas, que apresentavam folhas novas sadias formadas em seguida a outras que apresentavam o bronzeado ; 5) o aparecimento mais ou menos simultâneo e generalizado d o bronzeado nas plantações também é evidência contrária à de uma moléstia de vírus, pois estas geralmente se disseminam a partir de focos iniciais.

O bronzeado resulta de danos causados por u m a espécie de ácaro.

A reprodução experimental d o bronzeado sob condições controladas e c o m testemunhas adequadas ainda não foi feita. Entretanto, as observações efetuadas sobre essa anomalia na zona d o Seridó permitem que se afirme c o m bastante segurança que o bronzeado é devido ao ataque das plantas por uma espécie de ácaro. A s evidências obtidas a favor desse p o n t o de vista são as dadas a seguir. 1) E m material coletado de plantas que apresentavam os sintomas típicos d o bronzeado, de todas as procedências examinadas, cons-tatou-se a presença de uma mesma espécie de ácaro na face inferior das

folhas examinadas. Trata-se de u m ácaro muito pequeno, de corpo alongado,

c o m dois pares de p a t a s ; necessita-se, para vê-lo, de u m aumento de pelo menos 10 a 20 vezes ; é p o u c o ativo, movimentando-se lentamente. Esse ácaro foi constatado em material das seguintes procedências : a) Estação Experimental d o Seridó — constatou-se a presença de populações d o ácaro associadas aos sintomas d o bronzeado em material coletado em abril-maio de

1952 ; em julho de 1954, a presença destes ácaros foi novamente constatada,

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Identificação do ácaro causador do bronzeado. São conhecidas

várias espécies de ácaros que atacam o algodoeiro. E m São Paulo há o ácaro vermelho e o ácaro carijó, que causam danos ao algodoeiro. A l é m dessas duas espécies há outra que ataca essa planta, causando rasgadura

das folhas. Os sintomas da rasgadura das folhas se assemelham e m parte

aos d o bronzeado, sendo que a face inferior das folhas atacadas também adquire brilho vidrado. Entretanto, a coloração bronzeada não é caracte-rística da anomalia causada por esta espécie de ácaro e m São Paulo, e, p o r outro lado, o ácaro causador d o bronzeado n o Seridó não provoca rasgadura da folha.

O ácaro causador da rasgadura das folhas d o algodoeiro em São Paulo é Hemitarsonemus latus (Banks) (8, 12, 13) ; possui corpo arredondado e quatro pares de patas. O ácaro causador d o bronzeado n o Seridó é de corpo alongado, c o m dois pares de patas apenas. O material necessário para iden-tificação deste ácaro foi enviado a u m especialista desse grupo nos Estados Unidos, D r . H . H . Keifer, que o identificou não só c o m o uma espécie nova, c o m o também representante de u m gênero ainda não descrito. Tentativa-mente, o ácaro causador d o bronzeado poderá ser designado por Anthocoptes sp., até que uma descrição jcompleta seja publicada por aquele especialista.

E m algumas das amostras de folhas c o m bronzeado, constatou-se a presença de u m outro ácaro de coloração avermelhada, mas de porte menor d o que o d o chamado ácaro vermelho. Esse ácaro tem o corpo arredondado e possui quatro pares de patas. Foi identificado pelo mesmo especialista c o m o sendo Brevipalpus phoenicis (Geijskes). T e n d o sido encontrado e m pequeno número e apenas em algumas amostras, é de se julgar que a sua ocorrência em folhas c o m bronzeado tenha sido apenas ocasional. É , além disso, uma espécie cosmopolita nos trópicos e sub-trópicos, atacando nume-rosas plantas.

5 - E X I S T Ê N C I A D E P E R Í O D O S F A V O R Á V E I S À M U L T I P L I C A Ç Ã O D A P R A G A

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amostras examinadas das diversas procedências, mesmo daqueles algodoais que nunca tinham sido pulverizados.

Constitui, ainda, evidência de que existe u m período crítico durante o qual a população d o ácaro atinge número elevado e depois decresce, quando as condições se tornam desfavoráveis, o fato já citado de que as plantas po-dadas em três ensaios efetuados pela Estação Experimental d o Seridó e m 1954 (um na Fazenda Seridó, c o m poda efetuada em maio ; outros dois na própria Estação Experimental, c o m a poda feita em junho) produziram brotação aparentemente não infestada. Isso indica que a vegetação formada pelas plantas podadas em maio e junho já crescera em época durante a qual o ácaro não encontrava condições muito favoráveis para multiplicação e que tivessem favorecida a infestação das folhas novas formadas após a poda.

Esse

fato poderá resultar diretamente de condições de ambiente, tais c o m o chuva e temperatura, ou talvez d o aumento d o número de inimigos naturais d o ácaro.

A existência de u m período crítico relativamente curto, durante o qual a praga prolifera abundantemente, pode ser considerada c o m o de vantagem quando se considera o problema de controle, pois permite que os tratamentos sejam concentrados c o m certa antecedência ao período crítico, evitando-se assim que a população venha a atingir os níveis elevados que são prejudiciais. E preciso, entretanto, notar que esse período crítico favorável à praga pode variar de ano para ano, de acordo c o m as condições de ambiente, tornando-se necessária a vigilância contínua dos algodoais para que se possa prever quan-do a população poderá atingir níveis perigosos.

6 - I M P R O V Á V E L A D I S S E M I N A Ç Ã O D O Á C A R O P E L A S E M E N T E

C o m o já foi discutido anteriormente, o ácaro causador d o bronzeado parece ser muito sensível a condições de ambiente, chegando a população dessa praga quase que praticamente a desaparecer quando as condições se tornam desfavoráveis. E também uma espécie de ácaro que parece preferir os tecidos mais novos para sua alimentação, c o m o parece ser indicado pelo fato de

folhas

velhas não serem infestadas na maioria dos casos, enquanto que as

folhas

novas o são. N a época de colheita d o algodão a população da praga já é muito reduzida e, além disso, as sementes de M o c ó são pratica-mente nuas, não oferecendo proteção para o ácaro e sendo difícil de conceber que possam lhe servir de alimento. Considerando-se esses fatos é de se julgar c o m o altamente improvável a possibilidade de este ácaro poder infestar as sementes e por meio delas ser distribuído a outras áreas.

7 - P O S S I B I L I D A D E S D E O S T R A T A M E N T O S C O M I N S E T I C I D A S F A C I L I T A R E M A P R O L I F E R A Ç Ã O D O S Á C A R O S

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cimento d o ácaro só começou a ser notado depois que se iniciaram as pulve-rizações mais ou menos sistemáticas c o m alguns dos inseticidas modernos.

E m São Paulo foi observado em experiências de pulverização de algo-doeiros c o m inseticidas ( 1 1 ) , que as parcelas tratadas c o m Clordane e c o m uma mistura de Aldrin e D D T estavam mais infestadas por ácaros do que as que tinham recebido Lindane e Aldrin. Parcelas tratadas c o m Toxafeno tinham infestação intermediária. U m dos autores observou casos em algo-doais em São Paulo onde a aplicação de certos inseticidas modernos parecia ter auxiliado a proliferação de uma espécie de ácaro causador de sintomas semelhantes aos d o vermelhão. Suspeita-se também em São Paulo que o tratamento dos cafezais c o m alguns inseticidas para o controle d o bicho mineiro ou da broca tenha provocado u m aumento na população d o ácaro vermelho.

O aumento na população de ácaros como resultado da pulverização c o m inseticidas já é muito conhecido em outros países. Pomares na Cali-fornia infestados pelo ácaro vermelho que foram tratados c o m calda sulfo--cálcica mostraram diminuição temporária da praga, ao passo que em poma-res adjacentes não tratados, os ácaros desapareceram naturalmente por períodos mais longos, devido à ação dos inimigos naturais (14). U m aumento na população de ácaros devido às pulverizações c o m D D T foi notado por diversos autores (6, 7). Fatos c o m o esses são bastante conhecidos na lite-ratura entomológica, sendo reconhecido que a aplicação de certos inseticidas pode estimular a multiplicação de outras pragas indiretamente, matando seus inimigos naturais ou modificando a fisiologia da planta de tal m o d o a torná-la mais favorável à sua proliferação. E por essa razão que alguns dos inseticidas modernos são aplicados em mistura c o m o enxofre, c o m o um meio de evitar a proliferação dos ácaros. Parece, entretanto, que isso nem sempre se dá, talvez pelo efeito residual mais curto d o enxofre em comparação c o m o d o outro componente da mistura.

Considerando-se o que foi exposto acima, verifica-se que é de grande interesse procurar estabelecer se está havendo correlação entre o uso de determinados inseticidas e o ataque d o ácaro do bronzeado. Se isso fôr verificado, dever-se-á usar outro inseticida para ma/tar o curuquerê ou então combinar o uso dele c o m o de um acaricida.

8 - C O N T R O L E D O B R O N Z E A D O

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pre-SUMMARY

For the last three years a bronzing anomaly of cotton plants of the Mocó variety (Gossypium hirsutum L. var. maria galante Hutch.) has been recorded in the Seridó region (a semi-arid region in the north-eastern part of Brazil), state of Rio Grande do Norte. This anomaly was first thought to be of virus origin, but the observations reported in this paper indicated that it is due to the attack by a species of mite.

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ventral side of these leaves shows some rugosity not present in normal leaves, and in most cases their edges curve downwards. In severe infestations the uppermost leaves on the plants may die and drop (plate 2, A and B).

T h e mite responsible for bronzing of the Mocó cotton was identified by H. H. Keifer, Sacramento, Calif., as an undescribed Eriophyid species that also represents an undes-cribed genus. It has been referred to, tentatively, as Anthocoptes sp. until its description is published. Populations as high as 500 to 1,000 individuals per square centimeter of leaf area were encountered. This species of mite seems to be very sensitive to environ-mental conditions, as populations may drop within a short time from high numbers of mites per leaf to practically none.

LITERATURA CITADA

1. BARNES, MARTIN M . Studies with acaricides for control of mites in apple and pear orchards in Southern California. J. econ. Ent. 44:672-684. 1951.

2. BOYCE, ALFRED M . Insect and mites and their control. In Batchelor, Leon Dexter & Webber, Herbert John. The citrus industry. Berkeley, University of California Press, 1948. p . 665-812.

3. COSTA, A . S. Contrôle de um ácaro da laranjeira em estufas. [Não publicado]

4. Nota sôbre o broto roxo da batatinha. Biológico 7:287-289. 1941.

5. CUTRIGHT, C. R. Late season control of European red mite. J. econ. Ent. 44:363--367. 1951.

6. DE BACH, P. & BARTLETT, B. Effects of insecticides on biological control of insect pests of citrus. J. econ. Ent. 44:372-383. 1951.

7. EBELING, W . D . D . T . and rotenone used in oil to control the California red scale. J. econ. Ent. 38:556-563. 1945.

8. EWING, H . E. A revision of mites of the subfamily Tarsoneminae of North America, the West Indies, and the Hawaiian Islands. Washington, U.S. Department of agriculture, 1939. (Technical bulletin 653)

9. GAINES, J. C , DEAN, H . A. & WD7PRECHT, READ. Tests of insecticides for control of cotton insects during 1950. J. econ. Ent. 44:367-372. 1951.

10. IVY, E. E., DEAN, H . E. & SCALES, A. S. Toxicity of various sulphur and phosphorus compounds applied as sprays on spider mites and aphids. J. econ. Ent. 43:614-619. 1950.

11. GIANOTTI, O . & LEPAGE, H . S. Pulverizações concentradas com diversos inse-ticidas para o controle de algumas pragas do algodoeiro. Biológico 15:73-82. 1952.

12. HAMBLETON, E. J. A ocorrência do ácaro tropical "Tarsonemus latus Banks" (Acar. Tarsonemidae), causador da rasgadura das fôlhas nos algodoais. Arch. Inst. biol. (Def. agric. anim.) 9:201-209. 1938.

13. V R Y D A G H , J. M . Étude de Pacariose du cotonnier, causée par H e m i t a r s o n e m u s l a t u s (Banks) au Congo Belge. Bruxelles, Inst. natl pour 1'Etude agron. Congo Belge, 1942.

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