Consolidação de materiais pétreos em obras de interesse cultural por meio do processo sol gel híbrido
Belo Horizonte
Escola de Arquitetura da UFMG
Consolidação de materiais pétreos em obras de interesse cultural por meio do processo sol gel híbrido
Dissertação apresentada ao curso de Mestrado da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável.
Área de concentração: Bens Culturais, tecnologia e território Linha de pesquisa: Conservação de Bens Culturais / Tecnologia do Ambiente Construído
Orientador: Prof. Dr. Marco Antônio Penido de Rezende Co-orientador: Prof. Dr. João Cura D’Ars de Figueiredo Junior
Belo Horizonte
FICHA CATALOGRÁFICA
M984c Murta, Januaceli Murta. Consolidação de materiais pétreos em obras de interesse cultural por meio do processo sol gel híbrido [manuscrito] / Januaceli Felizardo Murta. - 2015.
195 f. : il.
Orientador: Marco Antônio Penido de Rezende Coorientador: João Cura D'Ars de Figueiredo Júnior.
Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Arquitetura.
1. Materiais pétreos - Testes - Teses. 2. Materiais - Deterioração - Teses. 3. Pedra sabão - Teses. 4. Processo Sol-gel - Teses. 5. Processo Sol-gel hibrido - Teses. I. Rezende, Marco Antônio Penido de. II. Figueiredo Júnior, João Cura D’Ars de. III. Universidade Federal de Minas Gerais. Escola de Arquitetura. IV. Título.
Apesar da inegável solidão, inúmeras são as mãos que realizaram a presente pesquisa e, caso eu me esqueça de citar alguns nomes, perdoem-me.
Agradeço em primeiro lugar à minha mãe (Dona Cleo) pelo extremo cuidado e zelo. Apesar de muitas vezes não compreender o percurso, como eu mesma muitas vezes não compreendi, permaneceu em seu inarredável incentivo.
Em segundo lugar ao meu co-orientador João Cura D’Ars de Figueiredo Junior que, mesmo antes de existir um mestrado, acreditou, confiou, e apostou inteiramente na proposta. Agradeço à sua irrestrita dedicação e empenho, aos inúmeros conselhos precisos, ao comprometimento, à impecável ética demonstrada, à ambição investigativa, à excelente orientação, à leveza, cuidado e compreensão com que conduziu todo o processo que, sabemos, foi árduo. Ao orientador Marco Antônio Penido de Rezende pela compreensão e paciência demonstrada em todo o processo.
À minha família por sua existência e constância, especialmente à minha irmã, Nina.
Aos meus amigos, cúmplices, por dividir uma vida comigo, especialmente à Adriana Parreiras pelo apoio e incentivo.
À minha turma do MACPS que compartilhou boa parte da angústia dissertativa.
Aos professores que contribuíram, durante todo o percurso, para a minha formação, notadamente à Maria Cristina Villefort, Marieta Cardoso Maciel, Beatriz Alencar D’Araújo Couto e Rejane Magiag Loura.
Aos funcionários do programa MACPS/UFMG, principalmente à Victória M. de Leon Grego que tornou menos penoso o entendimento dos trâmites burocráticos.
(Departamento de Geologia, IGC/UFMG). Aos membros da RECOP (Rede Cooperativa da Finep / EEUFMG) Carlos Oliveira, Carlos Eduardo, Cândido e ‘Fuscaldi’. Ao Cleber e aos bolsistas José Henrique, Jorge, Diogo, Isabella, Núbia, Roberta e Raoni do Laboratório de Tecnologia de Rochas do Departamento de Engenharia de Minas/UFMG. Ao Hélvio Junio do LABTECRochas do IGC/UFMG. Selma, ‘Zézinho’ e Bárbara do LACICOR, Escola de Belas Artes/UFMG. À bolsista Patrícia Pozzato. E Alexandre Leão do Laboratório de Documentação Científica por Imagem (ILAB - EBA/UFMG).
Á estrutura e equipamentos disponibilizados pelo Laboratório de Caracterização Tecnológica de Rochas Ornamentais e de Revestimento do Instituto de Geociências da UFMG (LABTECRochas – IGC/UFMG); Laboratório de Tecnologia de Rochas do Departamento de Engenharia de Minas/UFMG; Departamento de Materiais e da Construção Civil da Escola de Engenharia da UFMG; Laboratório de Ciências da Conservação do Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis da Escola de Belas Artes/UFMG; Laboratório de Química de Materiais Moleculares (LQMMOL) do Departamento de Química/UFMG; e Laboratório de Documentação Científica por Imagem (ILAB - EBA/UFMG).
“Para casar e descasar são coisas que se resolvem rápido. [...] Mas, com a profissão não tem jeito de fazer assim. Pra casar, basta amar. Mas na profissão, além de amar, tem de saber.
E o saber leva tempo”.
(Rubem Alves)
“[...] quem elegeu a busca não pode recusar a travessia”.
The stone material is surely the oldest used by man, however is the latest to be
focused by the science of conservation. The stone used in cultural interest goods are
subject to different kinds of decay, having as one of major causes of it the presence
of soluble salts that generate chemical or mechanical changes by loss of core
material and the appearance of various fractures and internal sections, rendering the
stones fragile and brittle - saline decay occurs by the percolation of saline solutions
with crystallization and recrystallization of salts and internal breakage that are
leached by the natural movement of entering and exiting of water. any other
pathologies can be perceived as heat shock, air pollution, biological colonization, and
the action of water. In order to improve the mechanical strength of the stone
worknes, consolidation is recommended to fill up the internal fractures with material
of mechanical properties similar to the stone. One of consolidation procedures is the
sol gel process, previously used, that showed deterioration problems in many cultural
assets as acceleration of the degradation process, and color changes. The research
aims to explore the deficiencies, possibilities and prospects for employment of hybrid
structures of alkoxides with silicones as polidemetilsiloxano (PDMS), specifically in
soapstone taking in to account the considerable number of objects of cultural interest
in Minas Gerais made by this material. Therefore, an exploratory research was
conducted gathering data on the subject and studing of the main pathologies
presented by stone materials. Further studies were performed to obtain and develop
a hybrid sol gel, testing on facsimiles - in order to determining the resistance of salt
crystallisation; the apparent density, porosity and water absorption; compressive
strength; capillary water absorption; and the ultrasonic wave propagation velocity.
Colorimetric test, were also undertaking. it was established that the salts can
penetrate by capillary action in soapstone, characterizing the major obstacle to
conservation. The compound tested for consolidation was efficient, helping to
improve the mechanical properties and hydrophobicity of the facsimiles.
Figura 1 – Pedreira – Jean Baptiste Debret (1826) ... 30
Figura 2 – Arranjos Produtivos de Base Mineral ... 36
Figura 3 – Mapa geológico do Quadrilátero Ferrífero ... 37
Figura 4 – Igreja São Francisco de Assis, Ouro Preto... 39
Figura 5 – Medalhão com a imagem de São Francisco de Assis, Igreja São Francisco de Assis, Ouro Preto ... 39
Figura 6 – Baixo relevo locado sobre a porta da Igreja São Francisco de Assis, Ouro Preto ... 40
Figura 7 – Portada da Igreja Nossa Senhora do Carmo, Ouro Preto ... 40
Figura 8 – Detalhe da portada da Igreja Nossa Senhora do Carmo, Ouro Preto ... 41
Figura 9 – Sacristia da Igreja Nossa Senhora do Carmo, Ouro Preto ... 41
Figura 10 – Lavabo locado na sacristia da Igreja Nossa Senhora do Carmo, Ouro Preto ... 42
Figura 11 – Portada da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia (Mercês de cima), Ouro Preto ... 43
Figura 12 – Busto da Samaritana, Chafariz do Alto da Cruz, Ouro Preto... 44
Figura 13 – Nicho com a Imagem de Nossa Senhora do Rosário, Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Ouro Preto ... 44
Figura 14 –‘Temperança’, Museu da Inconfidência, Ouro Preto ... 45
Figura 15 – Portada da Igreja de São Francisco de Assis, Mariana ... 45
Figura 16 – Sacada do sobrado do Barão de Pontal, Mariana ... 46
Figura 17 – Casa Capitular, Mariana ... 47
Figura 18 – Cartela em pedra sabão, Casa Capitular, Mariana ... 47
Figura 19 – Portada da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, São João de Rei ... 48
Figura 20 – Cena do monte Alverne, Igreja de São Francisco de Assis, São João del Rei ... 49
Figura 21 – Detalhe da portada da Igreja de São Francisco de Assis em São João del Rei ... 49
Figura 22 – Profeta Abdias, Profetas Amós e Profeta Baruc - Santuário Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas do Campo ... 50
de Matosinhos, Congonhas do Campo ... 51
Figura 25 – Profeta Jonas, Profetas Naum e Profeta Joel - Santuário Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas do Campo ... 52
Figura 26 – Santuário Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas do Campo ... 52
Figura 27 – Portada do Santuário Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas do Campo ... 53
Figura 28 – Detalhe da restauração da Catedral de ‘Pozzuoli’, Napoli, por Dezzi -Bardeschi ... 62
Figura 29 - Mutilações sofridas pelos profetas: dedos de Jonas, e antebraço e pé de Habacuc ... 72
Figura 30 - Mutilações sofridas pelos profetas: mão, punho e painel de Ezequiel, e língua de Jonas ... 72
Figura 31 – Profeta Amós ainda com cajado original, sem data ... 73
Figura 32 – Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, 1880 ... 75
Figura 33 – Santuário Bom Jesus de Matosinhos, 1942-1944, Congonhas do Campo ... 75
Figura 34 – Santuário Bom Jesus de Matosinhos, 1942-1944, Congonhas do Campo ... 76
Figura 35 – Romaria do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, 1950 ... 76
Figura 36 – Romaria do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, 1950 ... 77
Figura 37 – Danos verificados no Profeta Abdias ... 83
Figura 38 – Danos verificados no Profeta Amós ... 84
Figura 39 – Danos verificados no Profeta Baruc ... 85
Figura 40 – Danos verificados no Profeta Daniel ... 85
Figura 41 – Danos verificados no Profeta Ezequiel ... 86
Figura 42 – Danos verificados no Profeta Habacuc ... 87
Figura 43 – Danos verificados no Profeta Isaías ... 88
Figura 44 – Danos verificados no Profeta Jeremias ... 89
Figura 45 – Danos verificados no Profeta Joel ... 90
Figura 46 – Danos verificados no Profeta Jonas ... 91
Figura 47 – Danos verificados no Profeta Naum ... 92
Figura 48 – Danos verificados no Profeta Oséias ... 93
Figura 51 – MTMOS e TEOS ... 100
Figura 52 – Processo sol gel na consolidação ... 101
Figura 53 – Fórmula estrutural do polidimetilsiloxano ... 102
Figura 54 –TEOS (a), e TEOS híbrido (‘b’ e ‘c’) ... 102
Figura 55 – Estrutura de um consolidante híbrido: TEOS, sílica coloidal, e PDMS . 102 Figura 56 – Tufa calcária (1), consolidada com TEOS (2) e com TEOS-PDMS-sílica (3), sendo (a) as amostras,(b) após 5 ciclos de desgaste artificial, e (c) após 6 ciclos de desgaste artificial ... 103
Figura 57 – Peça sã - 5x5x5 cm³ ... 108
Figura 58 - Preparação da solução de sulfato de sódio anidro em agitador (Fisatom) ... 110
Figura 59 – Amostras no momento inicial (a), e após 15 ciclos de ‘desgaste artificial’ (b), sendo rocha sã (1), com produto comercial (2), e com produto híbrido (3) ... 115
Figura 60 – Formulação híbrida produzida com 5mL de TEOS e 15, 10, 5 e 3% de PDMS ... 115
Figura 61 – Imagens dos géis obtidos com Conservare-OH (1), TEOS+1% DBTL (2), e TEOS+1% DBTL+5% PDMS-OH ... 116
Figura 62 - Quebra do gel com Conservare-OH ... 116
Figura 63 – ‘1’ formulação híbrida (TEOS+PDMS+sílica), ‘2’ formulação híbrida (TEOS+sílica), ‘3’ formulação híbrida (TEOS+PDMS), ‘4’ apenas TEOS ... 116
Figura 64 – Amostra sã (a), amostra após quatro ciclos de ‘desgaste’ – resistência à cristalização de sais – (b); e após cinco ciclos de ‘desgaste’ com TEOS (c), com TEOS+PDMS (d), com sílica e TEOS (e), com sílica+TEOS+PDMS (f – 4/1/18%), com sílica+TEOS+PDMS (g – 2/1/20%), com sílica+TEOS+PDMS (h – 1/1/20%) . 117 Figura 65 – Alteração cromática ocasionada pelo uso apenas do TEOS: ‘a’ amostra sã, ‘b’ amostra com TEOS ... 117
Figura 66 - Rotavapor... 119
Figura 67 – Banho ultrassônico ... 120
Figura 68 – Viscosímetro de Ostwald ... 122
Figura 69 – Determinação da velocidade de propagação ultrassônica por meio de transmissão direta ... 129
Figura 72 – Prensa hidráulica ... 137
Figura 73 – Ensaio de absorção de água por capilaridade na amostra desgastada (1) e sã (2): 2,5 horas ... 145
Figura 74 - Ensaio de absorção de água por capilaridade na amostra sã (1) e desgastada (2): 3,5 horas... 145
Figura 75 - Ensaio de absorção de água por capilaridade na amostra desgastada (1) e sã (2): 06 horas ... 147
Figura 76 - Ensaio de absorção de água por capilaridade na amostra consolidada: 03 horas ... 148
Figura 77 – Modelo de cor CIELAB ... 149
Figura 78 – Imagem parcial do conjunto de profetas de Congonhas do Campo, 1985 ... 181
Figura 79 – Profeta Amós, 1985 ... 181
Figura 80 – Profetas Abdias e Baruc, 1985 ... 182
Figura 81 – Profetas Isaías e Jeremias, 1985 ... 182
Figura 82 – Profetas Joel e Oseas, 1985 ... 183
Figura 83 – Profetas Jonas e Naum, 1985 ... 183
Figura 84 – Medidas da velocidade ultrassônica dos profetas Joel (a, c), Isaías (b), e Naum (d) ... 184
Figura 85 – Monitoramento do estado de deterioração dos profetas por meio de fotografias (40 anos aproximadamente) ... 185
Figura 86 – Monitoramento do estado de deterioração do profeta Jeremias por meio de fotografias (40 anos aproximadamente) ... 186
Figura 87 – Estudo das formas de intemperismo nos profetas Isaías, Joel e Abdias ... 187
Figura 88 – Relação das formas de intemperismo com as categorias de danos .... 188
Figura 89 – Documentação das formas de intemperismo encontradas nos profetas, 1994 ... 189
Figura 90 – Categorias de danos dos profetas Joel, Jonas, Naum, Jeremias, Isaías, Ezequiel e Daniel, 1994... 190
Quadro 1 - Amostragem da ‘peça teste’: sã ao 15º ciclo de ‘desgaste artificial’ ... 111
Quadro 2 - Amostragem do 1° ao 20º ciclo de ‘desgaste artificial’ ... 112
Quadro 3 – Processo de produção do consolidante híbrido ... 120
Quadro 4 - Processo de produção do consolidante híbrido... 121
Quadro 5 - Processo de produção do consolidante híbrido... 124
Quadro 6 - Processo de produção do consolidante híbrido... 125
Quadro 7 - Processo de aplicação do consolidante em peças de 7 cm³ ... 127
Quadro 8 - Processo de aplicação do consolidante em peças de 5x5x5 cm³ ... 128
Quadro 9 - Amostras deterioradas após o ensaio de resistência à compressão uniaxial ... 139
Quadro 10 - Amostras consolidadas após o ensaio de resistência à compressão uniaxial ... 140
ABIROCHAS Associação Brasileira da Indústria de Rochas Ornamentais ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas
ASTM American Society for Testing and Materials - Sociedade Americana de Testes Materiais
IBPC Instituto Brasileiro de Políticas Culturais
DBTL Dibutil estanho dilaurato
ICCROM International Centre for the Study of the Preservation and Restoration of Cultural Property - Centro Internacional para estudo e Restauração de Bens Culturais
IDEAS Investigations into devices against environmental attack on stones - Investigações sobre dispositivos contra o ataque ambiental em pedras
IEPHA/MG Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais
IGC/UFMG Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais IPHAN Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
ISRM International Society for Rock Mechanics – Sociedade Internacional de Mecânica das Rochas
LABTECRochas Laboratório de Caracterização Tecnológica de Rochas Ornamentais e de Revestimento
NP Normas Portuguesas
PDMS Polidemetilsiloxano
SPHAN Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional TEOS Tetraetilsiloxano
1 INTRODUÇÃO
A rocha é uma das matérias mais antigas utilizadas nas construções, na qual a arte de esculpi-las é tida também como uma das mais antigas habilidades do ser humano. Apesar de tais indícios, este material é um dos mais recentes a ser enfocado na ciência da conservação, e ainda com soluções incipientes.
Especificamente no estado de Minas Gerais, o esteatito, conhecido popularmente como pedra sabão, foi largamente utilizado nos ornatos, e em menor escala nas construções da Minas colonial, com destaque para as obras do mestre Aleijadinho (Antônio Francisco Lisboa).
Logo após a criação do antigo SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) nos anos finais da década de 1930, constatou-se um grande número de elementos em pedra 1 em Minas Gerais, já com processos avançados de deterioração, e intervenções danosas. Até os dias atuais pouco se avançou acerca do tema, principalmente no que tange a pedra sabão em particular. A pesquisa de possíveis intervenções adequadas aos bens de interesse cultural em pedra, visando sua salvaguarda, é imprescindível.
A partir do exposto, a presente pesquisa buscou conhecer as patologias recorrentes no material em evidência, e os métodos existentes de diagnóstico, intervenção e testes (destrutivos e não destrutivos) focados na conservação. Só após este levantamento prévio procedeu-se a caracterização e validação do produto proposto para a consolidação da pedra sabão. A interdisciplinaridade do trabalho é caracterizada pelas inúmeras disciplinas envolvidas (Arquitetura, Conservação, Restauração, Química, Engenharia de Materiais, Engenharia de Minas, e Geologia), propiciando uma ampla abordagem e proposições mais assertivas. Ao longo do trabalho, os conceitos, normas, metodologias e resultados serão detalhados.
1
1.1 Justificativa
Visto o número considerável de esculturas e objetos de arte em material pétreo em Minas Gerais, especificamente em pedra sabão, é indispensável o estudo de medidas eficientes que visem sua conservação e preservação. O trabalho pretende, a partir da consolidação do material por meio do processo sol gel híbrido, fornecer uma medida eficiente de proteção aos bens patrimoniais em esteatito que, devido à sua importância, requer medidas concretas de conservação.
Há a possibilidade de expansão da pesquisa quanto à sua abrangência para, além da área de conservação e restauro, para o patrimônio histórico como um todo, incluindo novos materiais, geologia, química e engenharia.
Patrimônio pode ser entendido como o “legado que recebemos do passado, vivemos no presente, e transmitimos às futuras gerações [...] patrimônio cultural é fonte
insubstituível de vida e inspiração, nossa pedra de toque, nosso ponto de referência,
nossa identidade”. (UNESCO, 200-). Ainda de acordo com o IPHAN (200-):
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional: Constitui o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto dos bens móveis e imóveis existentes no País e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. (Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937).
1.2 Objetivos
1.2.1 Objetivo Geral
1.2.2 Objetivos Específicos
A pesquisa tem como objetivos específicos:
Apontar as principais patologias de bens de interesse cultural em esteatito;
Estudar o processo de aplicação do sol gel híbrido - alcóxidos com PDMS; polidemetilsiloxano [C2H6OSi]n -, com síntese, obtenção e desenvolvimento de
metodologia de caracterização das propriedades desse composto, concedendo subsídios para sua utilização;
Discutir as deficiências, dificuldades e possibilidades da técnica;
Realizar ensaios em fac-símiles com acompanhamento dos processos de deterioração e consolidação por meio de testes não destrutivos (determinação da velocidade de propagação de onde ultrassônica; densidade aparente, porosidade aparente e absorção de água; determinação da absorção de água por capilaridade; teste de colorimetria) e destrutivos (determinação da resistência à cristalização de sais; resistência à compressão uniaxial);
Discutir a relação entre a penetração do composto, a consolidação, e os efeitos sobre a cor;
Capacitar na área de restauração de materiais pétreos, e ampliar a discussão acerca da necessidade da consolidação relacionada intimamente às obras em pedra sabão.
1.3 Hipóteses
altas temperaturas, o que é inviável. A proposta da pesquisa é a inserção de polidemetilsiloxano (PDMS) ao processo, concedendo maior flexibilidade ao produto, tornando-o mais eficaz;
O processo sol gel apenas com uso do TEOS (tetraetoxisilano) cria composto esbranquiçado, o que pode alterar a característica estética da obra. Com adição de PDMS, pode-se chegar a um nível mínimo de alteração cromática dos bens;
O processo híbrido tem maior viabilidade técnica, de manuseio, aplicação e, principalmente, financeira – foi testada uma fonte alternativa de PDMS, bem como compostos de fácil acesso para melhoria da trabalhabilidade do produto.
1.4 Inovação e ineditismo
A inovação da presente pesquisa relaciona-se ao fato de não existir registro da utilização do processo sol gel híbrido e do processo utilizado para a consolidação de pedra sabão. Por meio da aplicação do produto híbrido, de testes para a sua validação e consequente comparação, alcança-se, portanto, o ineditismo.
2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
A consolidação de material pétreo, especificamente com o uso do processo sol gel híbrido, é o viés norteador de toda a pesquisa. A revisão bibliográfica busca portanto embasar os aspectos técnicos, teóricos, econômicos e ambientais para melhor conhecimento da utilização do esteatito e sua consequente preservação.
2.1 O uso da rocha
Acredita-se que o uso da rocha derive da pré história, era que perdurou do início da existência humana até cerca de 4000 a.C. A terra, e consequentemente as rochas, surgiram a 4,5 bilhões de anos, nos primórdios do sistema solar. As evidências mais antigas das primeiras aplicações da pedra são datadas, atualmente, de 165.000 anos e, para Minas Gerais, a documentação arqueológica indica 12000 anos. (COSTA, 2009).
A era da pedra polida (neolítico) é caracterizada pelo sedentarismo do homem, desenvolvimento da agricultura e pecuária e, possivelmente, também do incremento da confecção de utensílios e ferramentas em pedra. Com a descoberta do fogo em algum momento o homem o utilizou para cozinhar seus alimentos e, segundo Wrangham (2010), nesse momento nos tornamos humanos. O ato de ‘cozinhar’ uniu as pessoas ao redor do fogo, estimulando à socialização e reduzindo a agressividade. A partir desse momento a variedade de utensílios e aplicações da pedra foram ampliados.
O uso de pedra no Brasil remonta à primeira metade do século XVI, registrado no regimento passado a Tomé de Souza em 17 de dezembro de 1548: “Fizesse ele uma fortaleza de pedra e cale, se não pudesse construir com esse material, que a fabricasse de pedra e barro, ou então em taipa, ou ainda de madeira”. (VASCONCELLOS2, 1979, p.23). O autor afirma ainda que a construção em pedra data do 1º século, talvez precedidas por taipa de pilão ou sebe. Na Vila Rica do século XVIII os blocos utilizados eram avulsos ou facilmente extraídos e, a partir
2
desse, selecionavam o mais acessível e econômico. Possivelmente as cangas foram as primeiras rochas a serem utilizadas, seguidas do quartzito que foi largamente empregado no período, entre 1735 e 1738.
Telles (1984) informa que os primeiros ‘construtores’ chegaram ao país a partir de 1549 com a instalação do Governo Geral e da cidade de Salvador, tendo a incumbência de erguer fortalezas e cidades. Juntamente com o governador vieram o mestre de obras de fortaleza Luiz Dias, o mestre pedreiro Diogo Peres, e o mestre pedreiro-arquiteto Pedro Góis, que podem ser tidos como os primeiros construtores do Brasil. Logo após são criadas as escolas para preparação da mão de obra, como as aulas de arquitetura militar da Bahia e do Rio de Janeiro. Já no século XVIII, foram relevantes para o quadro construtivo os ‘mestres portugueses’ José Pereira dos Santos, José Pereira Arouca, Domingos Moreira de Oliveira, José Fernandes de Oliveira, Francisco de Lima Cerqueira, Antônio Pereira de Souza Calheiros e, ‘brasileiro’, Antônio Francisco Lisboa.
Segundo Campos (2006), inicialmente as edificações de Minas Gerais eram basicamente a base de barro que, como exigia cuidados periódicos, deu lugar a um surto de construção em pedra ocorrida em meados dos setecentos. Alguns exemplares, como os templos, foram reconstruídos ou reformulados em pedra neste período.
Segundo Silva (2007), os navios vindos de Portugal já contavam com o uso de lastro em blocos de mármores (“Pedra de Lioz”), sendo importadas por alguns séculos, provavelmente até o século XVIII, materiais da metrópole, essas já trazidas esculpidas – importação motivada pela ausência de mão de obra qualificada, questões estéticas relacionadas ao tipo de rocha, e/ou à ausência de materiais. Em Minas, devido à sua distância do litoral, e contando ainda com estradas de ligação do litoral com o interior em péssimas condições, esse transporte foi impossibilitado, levando ao uso de material local como o quartzito, esteatito (pedra sabão) e os xistos3, e também a uma forma própria de trabalhá-las – acredita-se que por mais
3Os corpos de rocha apresentavam ‘
volume reduzido, e frequentemente na forma de blocos soltos e
que os artesãos locais se inspirassem e copiassem as técnicas e estética portuguesas, a dificuldade de acesso às ferramentas, material e mesmo aos mestres, obrigou-os a desenvolver novos métodos. As Minas seiscentistas sofriam, portanto, com a falta de material pétreo de boa qualidade e de mão de obra.
A extração de blocos regulares se fazia por métodos manuais rudimentares, com perfuração na pedra e nela instalando pequenas cunhas para produzir blocos nos tamanhos desejados, sendo a produção, transporte e manuseio dos imensos blocos realizados por grande contingente de escravos4 (FIGURA 1). (COSTA, 2009). Ainda de acordo com Costa (2009), devido à dificuldade, as rochas eram extraídas nas proximidades das obras, algumas destas com colunas trabalhadas na própria pedreira, e depois desprendidas do maciço e transportadas por inúmeras parelhas de bois e/ou escravos. Acredita-se que era utilizado o ‘modus operandi’ das pedreiras do antigo Egito - os blocos eram retirados manualmente e transportados, possivelmente, por cordas ou por espécie de trenó com troncos roliços de madeira, sobre os quais os blocos deslizavam; ou sobre base molhada, onde a pedra deslizava. (MOTOMURA, 2014.)
Figura 1 – Pedreira – Jean Baptiste Debret (1826)
Fonte: AS MINAS GERAIS, [200-].
4
Não existem registros históricos acerca das antigas áreas de extração em Minas Gerais, estando exauridas as possíveis áreas extrativas à época devido à intensa atividade mineratória da região, ou estarem locadas em atuais áreas de preservação ambiental. (SILVA, 2007).
2.1.1 A Cantaria
Trazida por pedreiros da região norte de Portugal, de Minho e Douro, a cantaria começou a ser implantada na Capitania de Minas Gerais a partir de 1740 como parte estrutural e ornamental em construções civis, públicas e religiosas. (COSTA, 2009; VASCONCELLOS, 1979).
A cantaria, arte de trabalhar a pedra para construção – “lavrar a rocha em formas geométricas ou figurativas para ser aplicada em construções, como parte estrutural ou ornamental” (PEREIRA et al., 2007, p. 15) - é um dos ofícios mais antigos do mundo, existindo na história de grandes civilizações construções de igrejas, palácios, pontes, muralhas, entre outras, erguidas totalmente com o material. Posteriormente o material ganhou espaço nas ornamentações. (NEVES, 2006).
Atribui-se à arte de esculpir pedras o título de uma das mais antigas atividades de engenho do ser humano, relacionada à mudança social na qual o homem deixa de ser nômade abandonando as cavernas, buscando e criando uma organização social definida, além de abrigos mais sólidos. Na civilização egípcia há um dos registros mais antigos da técnica de cantaria (3000 a.C.), frente à disponibilidade do material, e o desejo de construir para a eternidade, tornando-se mestres de obras monumentais como esfinges, pirâmides e túmulos do império. A técnica foi utilizada posteriormente por gregos, etruscos, e romanos, até que no século VI a.C., com as conquistas e expansão do Império Romano, ocorre a organização e regularização do ofício de mestre canteiro. A abundância de material e a facilidade de talhar levaram à difusão da técnica. (PEREIRA et al., 2007).
expansionismo, até a queda do império em 476 a.C.. A partir de então, a associação entrou em decadência e a técnica começou a ser perdida e, já que sem a organização, não havia como dar continuidade à transmissão das técnicas. O refúgio dado pelos clérigos em seus conventos para artistas e arquitetos contribuiu para que os canteiros sobrevivessem às invasões bárbaras, passando os segredos da arte a ficar restritos às associações monásticas. Com a necessidade de expansão no século X, a arte volta a ser difundida por frades que instituíram confrarias laicas e, no século XII, surge uma organização de canteiros instituída por operários alemães (os Steinmetzen), sendo a cantaria difundida em toda a Europa com apoio de guildas (associações) e corpos de ofícios (corporações). Ainda segundo Pereira (2007), a técnica de cantaria chegou ao Brasil no século XVI com a vinda de Tomé de Souza (ano de 1549), e o ápice do primor ocorreu em Minas Gerais no século XVIII.
O período das missões jesuíticas gerou no sul do Brasil obras em arenito avermelhado, realizadas por índios guaranis com alto nível de qualidade e acabamento. Já em Minas Gerais, estes com grande influência portuguesa, as obras se destacam pela peculiaridade do uso de material local, e criatividade dos mestres nativos. A cantaria pode ser encontrada em várias cidades de Minas Gerais, sobressaindo Ouro Preto – esta destacada pela quantidade e qualidade das obras -, Mariana, Congonhas do Campo, São José Del Rei (atual Tiradentes), e São João Del Rei (PEREIRA et al., 2007), com variações relacionadas com a disponibilidade de material, facilidade de transporte, fatores topográficos, geológicos, sociais, econômicos, entre outros, que definiram a configuração destas cidades mineiras. (SILVA, 2007).
Arouca), e a pedra sabão tendo como principal disseminador, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. (PEREIRA et al., 2007).
Antônio Francisco Lisboa (1738-1814), nascido em Ouro Preto, Minas Gerais, é reconhecidamente um dos mais importantes artistas da minas colonial. Arquiteto, entalhador e escultor, tem como principais obras as igrejas franciscanas de Ouro Preto e São João del Rei, e as carmelitas de Ouro Preto e Sabará (1770-1794; estilo rococó ‘sereno e harmonioso’); e as imagens em madeira e em pedra sabão do santuário em Congonhas do Campo (1795-1807: reúne as piores obras e as obras primas do autor no mesmo espaço:
[...] espírito grave, sombrio e sublime em alguns momentos [...] verdadeiras obras primas: arquitetonicamente como grupo; individualmente como obras escultóricas; e psicologicamente, como estudos dos personagens que representam - personagens do antigo testamento jamais executadas, com exceção de Moisés de Michelangelo -1514-1516. (BURY, 2006).
Entre os anos de 1807 e 1812 o artista, já debilitado por doença, apenas delegava e inspecionava os trabalhos de seus oficiais. Aleijadinho, como era conhecido, tem seu nome ligado ao estilo rococó curvilíneo e tridimensional, com grande beleza e originalidade, “representando uma revolução criativa na arquitetura das igrejas brasileiras”. (BURY, 2006).
2.1.2 Breve histórico do uso da pedra sabão
Possivelmente a pedra sabão é usada desde a pré história devido essencialmente à sua maciez e consequente facilidade de trabalho5. Em Minas Gerais foi utilizado mais largamente o material local, como o quartzito, xistos e esteatito (pedra sabão), devido à distância da localidade ao litoral, e das péssimas condições das vias de ligação. O esteatito, especificamente, começou a ser utilizada em 1755 para a escultura de monumentos em Vila Rica, principalmente em peças com entalhes mais finos e delicados, como esculturas, peças de ornamentação, elementos da arquitetura, medalhões, apliques, balaústres, e imagens. Entre o conjunto de esculturas e de outros objetos de arte em Minas Gerais até fins do século XIX, o maior número de obras é em pedra talco ou em pedra sabão. (COSTA, 2009).
As antigas áreas de extração do material em Minas Gerais foram exauridas ou estão locadas em área de preservação ambiental, não existindo registro histórico acerca de sua localização. (SILVA, 2007).
Em Congonhas do Campo, ainda são encontrados pequenos corpos de pedra-sabão, aflorando nos arredores da cidade, mas se esses existiram nas cercanias do conjunto arquitetônico do alto do Morro do Maranhão, onde a rocha foi utilizada para a produção das estátuas dos profetas, já não são mais encontrados, por conta da implantação e crescimento do antigo Arraial das Congonhas do Campo [...]. (COSTA, 2009, p.101-102).
Por vários séculos a extração de pedra sabão, com jazidas superficiais e de fácil acesso, eram locadas em pequenas áreas de extração manual 6 , algumas escondidas em encostas, ou camufladas em meio à paisagem local. Possivelmente entre as décadas de 1970 e 1980 tem início a ação das mineradoras que, dando fim às jazidas superficiais, alteram a relação do extrator com a matéria – o “artesão” passa a depender da venda do subprodutodas mineradoras, reformulando a dinâmica coletiva do ofício, assim como do contato com a materialidade do processo. A inserção das empresas cria ainda brusca ruptura com o espaço, deixando clara a área modificada pelo homem em contraponto com o entorno
5
Storemyr & Heldal (2002) cita o uso da pedra sabão desde os primórdios da civilização, referenciando, entre elas as existentes na Escandinávia, Américas Larina e do Norte, África, Índia e Oriente Médio, chegando aos vikings e à época atual.
6
paisagístico.(MELQUÍADES, 2011). Atualmente a extração é em profundidade, destinada primordialmente para a exportação – geralmente grandes blocos -, e gerida por grandes empresas, como a OPPS (Ouro Preto Pedra Sabão), Viamar Mineração, WS Pedra Sabão e Green Mineração. (BARROCCO ARQUITETURA, 2014).
2.1.3 Aspectos relevantes da pedra sabão
O esteatito, denominada também de pedra sabão, é uma rocha metamórfica7 com característica ‘untosa’ ao tato, facilmente riscada. Na Escala de Dureza de Mohs8, o talco, principal constituinte mineral do esteatito, tem o menor grau de classificação entre os diversos tipos – grau 1. A pedra sabão pode ser encontrada em várias tonalidades: “cinza, cinza-azulado, cinza esverdeado, creme e creme avermelhado”. (RODRIGUES, 2012, p.37). A pedra sabão pode ser caracterizada pela presença de ‘talco que resulta na reação que consome serpentina, na presença do quartzo, e libera água’. Podem existir outros minerais em quantidades variáveis: ‘a serpentina, a clorita, o carbonato, anfibólios, óxidos - hematita e magnetita -, sulfetos, como a pirita, e a calcopirita’. (COSTA, 2009, p. 108). Não são encontradas micas nesse tipo de rocha. A presença de talco, clorita e carbonato contribui para uma baixa absorção e porosidade da pedra sabão. Ainda em relação ao talco, quanto maior o conteúdo, mais clara e macia a rocha. Com maior quantidade de clorita, serpentina e carbonato, as propriedades tecnológicas da rocha são alteradas, como a dilatação térmica linear e a coloração - tonalidades de verde, azul e cinza, tendo como
7 “Pedra
-sabão (soapstone) e pedra-talco (talcstone) são designações técnicas e comerciais, aplicadas para variedades metamórficas de rochas ultramáficas. [...] As rochas Ultramáficas (serpentinitos, pedra-sabão e pedra-talco) tem constituição mineralógica basicamente definida por serpentina, tremolita/actinolita, clorita, talco e carbonato, em diversas associações, marcadas pela ausência de quartzo e feldspato. [...] A pedra-sabão, um pouco mais macia que os serpentinitos, tem coloração cinza-escura [...] Sua principal característica é aceitar altas temperaturas (até 1.500ºC) e reter calor, permanecendo aquecida por longos períodos.” (CHIODI FILHO; RODRIGUES, 2009, p. 22).
8
exemplar as peças utilizadas no conjunto de doze profetas de Congonhas do Campo.
O Ministério de Minas e Energia (2011) aponta que as principais reservas de talco estão nos “Estados Unidos, China, Japão, República da Coréia, Índia e Brasil (FIGURA 2) – arranjos produtivos no brasil, sendo que as principais ocorrências de esteatito no Brasil encontram-se nos estados da Bahia, Paraná, São Paulo e Minas Gerais” 9. As reservas mais relevantes no estado de Minas Gerais, especificamente, estão localizadas na região do Quadrilátero Ferrífero, entre elas nas áreas de Ouro Preto (Distrito de Santa Rita de Ouro Preto, esta o acervo mais relevante), Congonhas do Campo, Mariana (distritos de Cachoeira do Brumado, e Furquim), Viriato, Acaiaca e Ouro Branco. (RODRIGUES, 2012).
Figura 2 – Arranjos Produtivos de Base Mineral
Fonte: SCLIAR, 2008.
No contexto geológico, o Quadrilátero Ferrífero (Figura 3) conta com três unidades estratigráficas: os terrenos granitognáissicos arqueanos; as sequências
9
vulcanossedimentares arqueanas; e as sequências de coberturas sedimentares e vulcanossedimentares proterozóicas - representadas pelos Complexo do
Embasamento, Supergrupo Rio das Velhas10, Supergrupo Minas e pelo Grupo Itacolomi, além de coberturas sedimentares recentes. (SILVA, 2007).
Figura 3 – Mapa geológico do Quadrilátero Ferrífero
Fonte: VARAJÃO et al., 2009.
Ainda de acordo com o levantamento geológico de Silva (2007) 11, nas construções do século XVIII foram utilizadas rochas da própria região (região próxima ao monumento) e, ‘em outros casos, rochas que constituem exemplos raros e escassos na região’. Em relação ao esteatito, do contexto geológico é o Supergrupo Rio das Velhas, é procedente de Santa Rita de Ouro Preto e proximidades de Mariana (Furquim, Acaiaca, e Lundes), e aplicado essencialmente em esculturas e fachadas.
Em relação às propriedades da pedra sabão, ela pode aceitar altas temperaturas (até 1.500 ºC), retendo o calor e permanecendo aquecido por longo período. Além do uso já destacado para a estatuária, a pedra é também usada para confecção de
10
Segundo Silva (2007), a pedra sabão ocorre prioritariamente sob a forma de blocos no Supergrupo Rio das Velhas.
11 “
O procedimento de comparação da pedra sabão dos monumentos foi baseado em uma observação visual, além de pesquisa em documento históricos sobre a construção dos monumentos.”
fornos, lareiras, revestimentos, panelas, e elementos de uso decorativo. (MELLO; CHIODI FILHO; CHIODI, [200-]).
2.1.4 Monumentos referenciais em material pétreo em Minas Gerais
Minas Gerais abriga um expressivo acervo escultórico em pedra sabão, podendo ser citada como exemplificação do acervo existente a fachada da Igreja São Francisco de Assis de Ouro Preto12 (FIGURA 4, FIGURA 5, FIGURA 6), de autoria de Aleijadinho, e executada em meados do século XVIII (1774-177513). Segundo Costa (2009), o medalhão (FIGURA 5) representa São Francisco recebendo as chagas de Cristo, e a portada exibe cabeças de querubins, anjos, rocailles, elementos florais e um baixo relevo da virgem.
Está claro que minha pena tão somente por de leve pode descrever estas peças incomparáveis de pedra azul esculpida em altos relevos, pedra que o artista docilmente amoldou a seu pensamento. O êxtase do Santo, a candura elísia da Virgem, a alegria dos anjos, não se pode negar, deram vida e alma à pedra, sob o cinzel palpitante dêste artista assombroso. (TRINDADE et al., São Francisco de Assis de Ouro Preto, p. 375-376).
12
O conjunto arquitetônico e urbanístico de Ouro Preto, oriundo do século XVIII, foi elevado à condição de “Monumento Nacional” no ano de 1933 (decreto nº 22.928 de 12/07/1933), tombado pelo IPHAN no ano de 1938, e declarado “Patrimônio Cultural da Humanidade” pela UNESCO no ano de 1980. (PREFEITURA MUNICIPAL DE OURO PRETO, 200-). (Conjunto Arquitetônico e Paisagístico de Puro Preto, 070-T-38, de 20/01/1938, inscr. 39, fl. 08; LH - Livro de Tombo Histórico - inscr. 512, fl. 98; LAEP - Livro de Tombo Arqueológico, etnográfico e paisagístico – inscr. 98, fl. 47, Proc. 070-T-38.) (BRASIL. Sítios históricos e conjuntos urbanos de monumentos nacionais: sudeste e sul. 2005). 13
Figura 4 – Igreja São Francisco de Assis, Ouro Preto
Fonte: SALGADO, [200-].
Figura 5 – Medalhão com a imagem de São Francisco de Assis, Igreja São Francisco de Assis, Ouro Preto
Figura 6 – Baixo relevo locado sobre a porta da Igreja São Francisco de Assis, Ouro Preto
Fonte: Elaborado pela autora, 07 dez. 2014.
Ainda em Ouro Preto, cita-se também a portada da Igreja de Nossa Senhora do Carmo (1766-1772 / FIGURA 7, FIGURA 8) e o lavabo (177614 /
FIGURA 9, FIGURA 10) presente na sacristia do templo, ambos em esteatito e de autoria de Aleijadinho.
Figura 7 – Portada da Igreja Nossa Senhora do Carmo, Ouro Preto
Fonte: Elaborado pela autora, 07 dez. 2014.
14
Figura 8 – Detalhe da portada da Igreja Nossa Senhora do Carmo, Ouro Preto
Fonte: Elaborado pela autora, 07 dez. 2014.
Figura 9 – Sacristia da Igreja Nossa Senhora do Carmo, Ouro Preto
Figura 10 – Lavabo locado na sacristia da Igreja Nossa Senhora do Carmo, Ouro Preto
Fonte: UNESP, 2014 a.
Figura 11 – Portada da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia (Mercês de cima), Ouro Preto
Fonte: Elaborado pela autora, 07 dez. 2014.
Ainda em Ouro Preto, o Busto da Samaritana (FIGURA 12) que integra o Chafariz do Alto da Cruz é a escultura em pedra sabão de ‘Aleijadinho’ reconhecida como uma de suas primeiras obras. (CRUZ, 2012).
A Igreja Nossa Senhora do Rosário do Alto da Cruz (conhecida como Igreja de Santa Efigênia), por sua vez, exibe nicho no frontispício com imagem de Nossa Senhora do Rosário em pedra talco (FIGURA 13). Teoricamente a construção da capela durou de 1730 a 1790, tendo sido erguida por escravos. Ainda na fachada há relógio em pedra que é considerado um dos mais antigos do município. (LUZ, 2013). A antiga Casa de Câmara e Cadeia de Vila Rica, atual Museu da Inconfidência, conta com estátuas assentadas nos ângulos da platibanda da balaustrada que representam as virtudes cardeais (Prudência, Justiça, Temperança (Figura 14) e Fortaleza). (COSTA, 2009). Entalhadas por Antônio José da Silva Guimarães (final do século XVIII e início do XIX15), as referências bibliográficas encontradas informam que as peças são em esteatito, mas estudos recentes, ainda inconclusos,
15
questionam tal afirmação, podendo as imagens ser em calcário ou quartzito. (CURSO DE CARACTERIZAÇÃO E CONSERVAÇÃO DA PEDRA, 2014).
Figura 12 – Busto da Samaritana, Chafariz do Alto da Cruz, Ouro Preto
Fonte: CRUZ, 2012.
Figura 13 – Nicho com a Imagem de Nossa Senhora do Rosário, Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Ouro Preto
Figura 14 –‘Temperança’, Museu da Inconfidência, Ouro Preto
Fonte: Elaborado pela autora, 07 dez. 2014.
No município de Mariana16, o templo dedicado a São Francisco de Assis tem cartela em pedra sabão com entalhe atribuído a Aleijadinho (FIGURA 15).
Possui grande portada esculpida, com guarnições de pedra, encimada por verga curva que termina numa grande cartela ladeada de anjos, contendo inscrição dedicada a São Francisco de Assis, com data de 1763. Acima dessa cartela há uma pequena cimalha que serve de apoio para outra cartela, menor, brasonada, encimada por um anjo e, finalmente o crucifixo. (IPHAN, 200-b).
Figura 15 – Portada da Igreja de São Francisco de Assis, Mariana
Fonte: PANORAMIO, 2010.
16
Raro exemplar, o sobrado do Barão de Pontal em Mariana17 da segunda metade do século XVIII, possui sacada com guarda corpo rendado em pedra sabão (FIGURA 16), proveniente provavelmente do Distrito de Cachoeira do Brumado. (COSTA, 2009).
A casa apresenta algumas particularidades que a destacam entre as mais notáveis edificações da época: dois pátios internos fechados, para iluminar, ventilar e facilitar a circulação; e as sacadas em pedra-sabão, em delicado rendado, consideradas únicas no gênero no Brasil e que conferem à edificação excepcional valor como exemplar da arte de ornamentação arquitetônica no período colonial mineiro. (IPHAN, 200-d).
Ainda em Mariana, a Casa Capitular (atual Museu Arquidiocesano de Arte Sacra) (FIGURA 17) expõe cimalinhas das portas superiores e escudo com cartela em pedra sabão (FIGURA 18). A ereção do edifício tem início na segunda metade do século XVIII sob responsabilidade do mestre José Pereira Arouca que morreu sem concluir a obra (1795). A casa, tal qual é encontrada hoje, não obedeceu ao projeto original. (IPHAN, 200-f).
Figura 16 – Sacada do sobrado do Barão de Pontal, Mariana
Fonte: VIEIRA, 2010.
17
Figura 17 – Casa Capitular, Mariana
Fonte: BEGNAME, 2008.
Figura 18 – Cartela em pedra sabão, Casa Capitular, Mariana
A Capela de Nossa Senhora do Carmo18 em São João del Rei19 tem portada e ombreiras em xisto verde, enquanto ornatos como cabeças de querubins, anjos, flores e frutos são em esteatito (FIGURA 19). Acima da portada existe cartela em baixo relevo com a imagem de Nossa Senhora do Carmo portando escapulário. Possivelmente a autoria seja de Francisco de Lima Cerqueira, executado nas décadas finais do século XVIII. Ainda na localidade de São João del Rei, a Igreja de São Francisco de Assis20 possui baixo relevo com a cena do monte Alverne (cena em que São Francisco recebe os estigmas das chagas de Cristo) também em esteatito e, segundo Costa (2009), de autoria de Aniceto de Souza Lopes datado aproximadamente de 1809 (FIGURA 20, FIGURA 21).
Figura 19 – Portada da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, São João de Rei
Fonte: Elaborado pela autora, 04 ago. 2012.
18
Igreja Nossa Senhora do Carmo e Cemitério, 172-T-38. (BRASIL. Sítios históricos e conjuntos urbanos de monumentos nacionais: sudeste e sul. 2005).
19
Conjunto Arquitetônico e Urbanístico de São João Del Rei, 68-T-38, de 04/03/1938 – LBA (Livro de Belas Artes, insc. 01, fl. 2). (BRASIL. Sítios históricos e conjuntos urbanos de monumentos nacionais: sudeste e sul. 2005).
20
Figura 20 – Cena do monte Alverne, Igreja de São Francisco de Assis, São João del Rei
Fonte: Elaborado pela autora, 04 ago. 2012.
Figura 21 – Detalhe da portada da Igreja de São Francisco de Assis em São João del Rei
Fonte: UNESP, 2014 a.
Congonhas do Campo21 (FIGURA 26, FIGURA 27), confeccionados entre 1800 e 1805, embora o templo já estivesse concluído em 1777. (ROBERT, 200-). O conjunto foi tombado pelo IPHAN no ano de 193922, e reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial em 1985. As peças foram esculpidas em pedra sabão quase em tamanho natural por Antônio Francisco Lisboa.
O conjunto de 12 profetas de Congonhas do Campo configura-se como uma das séries mais completas, da arte cristã ocidental, representando profetas. [...] Organizado segundo um jogo de correspondências, os profetas formam um conjunto unitário e ao mesmo tempo diversificado em suas partes, em perfeita organização cenográfica. Apesar da força expressiva de cada peça, é na comunicação estabelecida pela visão do grupo que a eloquência de cada gesto atinge sua plenitude, como num ato de balé. [...] “(ITAUCULTURAL, 2005).
Figura 22 – Profeta Abdias, Profetas Amós e Profeta Baruc - Santuário Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas do Campo
Fonte: Elaborado pela autora, 07 dez. 2014.
21
Inspirado no Santuário do Senhor Bom Jesus do Monte, em Braga, Portugal. (HERKENRATH et al., 1994, p. 46). “Conjunto Arquitetônico e Urbanístico de Congonhas do Campo”, Proc. 238-T-41. (BRASIL. Sítios históricos e conjuntos urbanos de monumentos nacionais: sudeste e sul. 2005). 22
Figura 23 – Profeta Daniel, Profetas Ezequiel e Profeta Habacuc - Santuário Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas do Campo
Fonte: Elaborado pela autora, 07 dez. 2014.
Figura 24 – Profeta Isaias, Profetas Jeremias e Profeta Joel - Santuário Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas do Campo
Figura 25 – Profeta Jonas, Profetas Naum e Profeta Joel - Santuário Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas do Campo
Fonte: Elaborado pela autora, 07 dez. 2014.
Figura 26 – Santuário Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas do Campo
Figura 27 – Portada do Santuário Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas do Campo
2.2 Preservação
2.2.1 Histórico e embasamento teórico
É importante traçar de forma condensada a história da conservação, a fim de entender os desenvolvimentos dos conceitos e as técnicas utilizadas atualmente. Desde tempos remotos o conceito de conservação já existia, embora não com este nome, devido à necessidade de permanência da matéria dos objetos que continham algum tipo de valor, seja ele estético ou afetivo, exposto por algumas culturas. A civilização egípcia já buscava, por meio da mumificação, manter o corpo físico dos líderes intactos e, na idade antiga, os romanos utilizavam métodos para a manutenção física dos bens da civilização uma vez que a longevidade física dos materiais se fazia importante. (CALDEIRA, 2005). A Igreja, com o desenvolvimento do cristianismo, passa a buscar a perpetuação de suas regras por meio da longevidade da matéria, surgindo o critério ‘devocional’ no qual era importante manter a iconografia para a identificação dos fiéis. Posteriormente surge o critério de ‘decoro’, nos quais corpos nus eram cobertos, sofrendo modificações. (ELIAS, 2002).
Nos séculos XVII e XVIII são iniciados os estudos acerca das causas da degradação como meio de evitar a deterioração em pinturas. (CALDEIRA, 2005). O século XVIII é marcado ainda por descobertas arqueológicas e pilhagens que acresceram as coleções de diversos museus, acarretando a necessidade de criar acesso a estes bens, assim como de técnicas23 para sua manutenção física. Devido à proliferação de ‘colecionismo’, nasce então o critério de ‘galeria’. (ELIAS, 2002).
O bem cultural passa a ser tratado como de interesse público nas décadas finais do século XVIII24 (‘limitação do direito de propriedade em nome do coletivo’), o que
23
A primeira concepção de restauro utilizada aproximadamente até 1830 baseava-se apenas na recomposição com emprego das partes originais, ou de sua reprodução. (BRAZILIAN-GERMAN WORKSHOP. Concepts and problems of the conservation of historical monuments. [1994?].).
propicia o aprimoramento das técnicas com a criação da conservação de bens culturais e, com ela, a conservação preventiva. (ELIAS, 2002).
As ciências naturais no século XIX, como física e química, passam a fazer parte do corpus do conhecimento25 necessário à manipulação da matéria, fundamentais para a compreensão da natureza e da estrutura dos artefatos antigos. (CALDEIRA, 2005). Concomitante a essa junção de disciplinas, teorias acerca da restauração começam a surgir. Eugène Emmanuel Viollet-Le-Duc (1814 - 1879) 26 propõe o restauro como “imitação” onde deve acontecer uma reconstrução no ‘estilo original’ (“restauro estilístico” 27) – retomada do projeto original com suposição daquilo que o autor faria -, propondo partes que talvez nunca tenham existido, e um estado de arte jamais alcançado. (ELIAS, 2002; CHOAY, 2006).
William Morris (1834 - 1896) 28 e John Ruskin (1819 – 1900) 29 criam o manifesto anti-restauração no qual defendem que a complementação estrutural e construções adjacentes destroem o espírito original dos edifícios antigos30. Se o bem sofrer as ações periódicas de manutenção e conservação, este jamais precisará ser restaurado. Ruskin (2008) defende ainda a aceitação da ‘morte’ do bem, visto que todas as coisas terrenas estão fadadas a isso, e as intervenções visam apenas prolongar a vida das edificações, mas nunca o tornando eterno. Morris destaca que apenas uma sociedade organizada e conscientizada poderia tornar eficiente uma política preservacionista. (ELIAS, 2002; CHOAY, 2006).
25
Louis Pasteur, cientista, foi convidado pela academia de Belas Artes de Paris, no ano de 1864, para dar um curso sobre química e física aplicada à arte. CALDEIRA, Cleide Cristina. Conservação preventiva em bibliotecas públicas da cidade de São Paulo. 2005.
26
VIOLLET-LE-DUC, Eugène Emmanuel. Restauração. 2000.
27Entre os anos de 1830 e 1870, o monumento é visto como possuidor de uma “unidade estilística”, e
o restauro tinha por finalidade restituir esta unidade. (BRAZILIAN-GERMAN WORKSHOP. Concepts and problems of the conservation of historical monuments. [1994?].).
28
MORRIS, William. Manifesto of the Society for the protection of ancient buildings. 1996. P.319-321. 29
RUSKIN, John. A lâmpada da memória. 2008. 30
Em defesa do ‘restauro histórico’ (utilizado principalmente entre 1880 e 1890), Lucas Beltrami (1854-1933) afirma que, mesmo inovadora31, a intervenção deve ser sustentada por profundas pesquisas históricas do objeto. (BRAZILIAN-GERMAN WORKSHOP, 1994; ELIAS, 2002).
Já Camillo Boito (1836 - 1914) 32 enuncia princípios fundamentais do restauro moderno: os monumentos são documentos da história e dos povos; o restauro é necessário para prolongar a vida do bem; priorização da consolidação sobre a restauração; os acréscimos indispensáveis devem ser distinguíveis; reversibilidade; e os acréscimos de diversas épocas devem ser considerados, exceto quando há mascaramentos e alterações. (BRAZILIAN-GERMAN WORKSHOP, 1994; CHOAY, 2006).
Alois Riegl (1858 – 1905) introduz o critério de seleção do patrimônio a partir da noção de valor com respeito ao original, em que o conservador/restaurador deveria conhecer a história (perspectiva história e interpretativa do monumento) para evitar erros, excessos e ações que danifiquem a qualidade estética ou documental dos bens. (RIEGL, 2006).
A Primeira Guerra Mundial (1914 - 1918) gera grandes estragos no patrimônio existente, exigindo maiores habilidades para tratar dos bens culturais, ressaltando a importância das práticas adequadas para a salvaguarda dos bens culturais. (CALDEIRA, 2005). No ano de 1930 ocorre o 1º Encontro Internacional para tratar dos princípios científicos da restauração, como estudos e métodos científicos para o exame e a preservação de objetos, indispensabilidade dos laboratórios de pesquisa, tanto quanto dos estudos de história da arte e museologia, pautada por estudos laboratoriais e pelo conhecimento dos materiais e das tecnologias construtivas. Pela primeira vez é usada a expressão método científico com respeito ao ofício da restauração. (FRONER; ROSADO, 2008).
31
Há a possibilidade de reintegração de partes faltantes para restituir a unidade e a continuidade da obra, entretanto sem ‘inventar’.
32
Neste contexto Gustavo Giovanonni (1873 – 1947) apoia o uso da ciência na conservação (restauro científico ou filológico), além do estudo documental e arquivístico, e da tentativa de normatizar as operações de restauro em um código de procedimentos - é observado o início do uso de tecnologias como o infravermelho, dendrocronologia e o carbono 14. Giovanonni cita que a obra de restauro deveria unir três critérios: razões históricas que não deve cancelar nenhuma ‘fase’ existente na obra, nem falseá-las; divulgação do material das pesquisas analíticas; e o critério deve partir do sentimento dos cidadãos, dos espirito da cidade, das recordações, entre outros. (BRAZILIAN-GERMAN WORKSHOP, 1994; ELIAS, 2002; CHOAY, 2011).
Em 1931, Edward Forbes cria o ‘Department of Conservation and Tecnical Research’, cujo foco é a investigação dos materiais e técnicas de artes, bem como questões relacionadas à procedência. No mesmo ano, começam a surgir as cartas patrimoniais, como a Carta de Atenas (1930). (CALDEIRA, 2005). A Carta de Atenas propõe determinada conduta em relação à preservação e conservação de edificações. As cartas surgidas posteriormente também não detalham acerca do restauro e outras intervenções em monumentos, o que ocorre apenas em 1964 com a elaboração da Carta de Veneza. Entre as cartas, é interessante citar a Norma de Quito (1967) que faz referência à necessidade de existir uma política de planejamento urbano que valorize o patrimônio, e o uso do monumento em função do turismo; a Carta de Restauro (1975) oferece orientações técnicas acerca do processo de restauro; as Recomendações de Nairóbi (1976) define conjunto histórico ou tradicional, sua importância como ‘patrimônio universal insubstituível’, medidas de salvaguarda, e ainda recomendações acerca da função dos conjuntos na vida contemporânea; a Carta de Burra (1980) introduz, em resumo, o conceito de entorno para os monumentos; e a Conferência de Nara (1994) discute os valores e autenticidade do patrimônio cultural. As cartas devem ser complementadas por normas e recomendações, embasada por conceitos e políticas preservacionista, até chegar a uma ação efetiva. Todas as cartas patrimoniais estão disponíveis no IPHAN. (IPHAN. Cartas Patrimoniais. 2000a).
da importância cultural universal, em que cada obra tem importância para a unidade, e a ela é pertencente. Para garantir tal proteção várias associações são criadas, até que em 1956 Philippot e Brandi criam o International Centre for the Study of the Preservation and Restoration of Cultural Property (ICCROM). As décadas de 1950 e 1960 têm intervenções baseadas na teoria destes cientistas, ancoradas ainda nas ciências humanas e exatas, mas, até a década de 1970, a teoria interdisciplinar ainda não seria difundida. (FRONER; ROSADO, 2008).
Referente ainda aos estragos gerados pela Segunda Guerra Mundial, as teorias até então existentes tornam-se insuficientes para a realização das intervenções necessárias, visto que a obra arquitetônica não é um mero documento, mas matéria que exprime um valor afetivo, de identidade, referencial, e de significados diversos, muito além dos anteriormente discutidos. O restauro é tratado então como um processo crítico e criativo, em que o primeiro passo é identificar o valor do objeto para só então recuperá-lo, devendo toda a operação subordinar-se ao valor expressivo daquele bem33. As primeiras formulações coerentes frente a esse novo quadro, denominada de ‘restauração crítica’, consideram os aspectos histórico e estético da obra, desenvolvidas inicialmente por Roberto Pane, e aprofundadas por Renato Bonelli, Pietro Gazzola e Cesare Brandi. (ELIAS, 200-).
Roberto Pane considera prioritário que, antes de qualquer intervenção, seja realizada uma análise crítica visando determinar se o monumento pode ou não ser considerado artístico. Somente após esse reconhecimento deve-se recuperá-lo eliminando todas as partes adicionadas ao longo de sua história, libertando, assim, sua verdadeira forma. (ELIAS, 200-).
A princípio, como citado por Elias (200-), a restauração crítica parece permissiva, porém possui posicionamento teórico restritivo com limite para as intervenções a fim de não incorrer em falso histórico, e não permitindo restauro de obras “cujo valor artístico deu lugar ao valor documental”, como é o caso das edificações destruídas durante a guerra. Bonelli afirma veementemente a impossibilidade de recriar o passado.
33
Anos mais tarde, em 1963, Cesare Brandi (1906 - 1986) 34escreve a ‘Teoria do Restauro’ 35 pertencente à teoria do restauro crítico, na qual propõe que a
relatividade, parcialidade e transitoriedade caracterizam toda e qualquer restauração (é impraticável generalizar as posturas de restauro) e, por mais competentes, sempre guardam as marcas do clima cultural no qual se encontram instaladas. (FRONER; ROSADO, 2008). É parte ainda dos princípios de Brandi a tentativa de tornar o restauro um ato científico, com conceitos e métodos cientificamente determinados, com restabelecimento quanto seja possível da obra sem cometer o ‘falso histórico’ ou ‘falso artístico’ (‘restauro de fantasia’), ou mesmo cancelar e/ou apagar os traços da passagem da obra no tempo (‘restauro retroativo’).
Pertencente também aos teóricos da restauração crítica, Paul Philippot36 defendia a interdisciplinaridade do ato de intervir em monumentos, contribuindo para a escrita da Carta de Veneza (1964). Propõe ainda que uma lacuna, dependendo da situação em que se encontra e sua história, pode não ser reintegrada visto que o ‘estado fragmentário’37
pode ter conquistado seu valor.
Entre as décadas de 1970 e 1980 os museus criam seus próprios laboratórios de pesquisa, e as universidades implementaram pesquisas acerca da origem e tecnologia dos materiais de composição do patrimônio. Nas duas últimas décadas do século XX é iniciada a tendência à especialização, já que não é possível dominar todas as técnicas. Química e física são disciplinas introduzidas mais adequadamente no campo da conservação com Georgio Torraca (1982) e Paul Coremans (1961). Ainda na década de 1980, Torraca escreve o livro ‘Química aplicada à restauração’ em que conhecimentos químicos são analisados a partir da prática ou do uso na restauração. Apenas na década de 1990 há espaço para a conservação preventiva com a introdução de métodos científicos de exame, preservação e controle do ambiente com conhecimentos da engenharia civil e mecânica, conceitos da elétrica, meteorologia, biologia, e ciência dos materiais.
34
BRANDI, Cesare. Teoria da Restauração. 2008. 35
Dá origem à Carta de Restauro de 1972. (ELIAS, Isis Baldini. Aspectos históricos da conservação e restauro de objetos de caráter cultural a partir do século XIX. 200-.).
36
PHILIPPOT, Paulo. Historic Preservation: Philosophy, Criteria, Guidelines. 1996. 37
Atenta-se para o fato de que a conservação preventiva é menos custosa e mais adequada que grandes restaurações em que já há perda significativa da matéria do bem, e situações muitas vezes irreversíveis. (CALDEIRA, 2005; ELIAS, 2002; FRONER; ROSADO, 2008).
A conclusão de que não é possível pensar sobre a conservação sem a sustentação das ciências naturais é obtida apenas no século XXI. Trabalhos de arte38 não têm somente valor estético e histórico, mas também uma natureza física que deve ser considerada, devendo existir a compreensão das propriedades dos materiais, o estado de preservação, os processos da deterioração com o desenvolvimento de materiais e de métodos de conservação, e individualidade de cada caso.
Surge ainda, no século XXI, os conceitos 39 da ‘conservação integral40’ (ou ‘conservação pura’ ou ‘pura conservação’), ‘restauro crítico-conservativo’ e ‘hipermanutenção-repristinação’. As três linhas defendem o “respeito absoluto pelos aspectos documentais das obras” (KÜHL et al., 2010, p.213), excluindo a reconstrução que é vista como um falseamento. As ações devem ser fundamentadas e adequadas, com o objetivo de “transmitir o bem da melhor maneira possível ao futuro, respeitando seus aspectos materiais, formais, documentais,
memoriais e simbólicos”. (KÜHL et al., 2010, p.213). Cunha (200-) informa ainda a provisoriedade e parcialidade da história, dado que é uma visão do presente em relação ao passado, sendo esta uma constante reconstrução, tornando-a precária e sujeita à visão do ‘pesquisador’ (ou historiador).
No restauro ‘crítico conservativo’ (teoria defendida por Carbonara e Miarelli Mariani41) as teorias são prudentemente conservativas mas, ao não propor o congelamento, indica o uso de recursos criativos para abordar questões como adições, remoções e reintegração de lacunas. A postura é fundamentada no juízo
38
Elias (200-) revela que, ainda no século XXI, surge uma tendência que visa separar o restauro arquitetônico das demais obras de arte, mas ainda não é possível elaborar formulações teóricas suficientes e coerentes.
39
Conceitos interpretados por Carbonara e Miarelli Mariani. (KÜHL, Beatriz Mugayar; et al. Temas recentes no restauro na Itália. 2010.).
40O termo é teórico e ‘materialmente impossível’, já que qualquer intervenção, a priori, gera alterações
sobre a matéria. (CUNHA, Cláudia dos Reis e. Restauração e referenciais teóricos. 200-.). 41
histórico-crítico, com análise da relação entre a estética e história de cada obra, caso a caso, que elimina a relação causa-efeito (os aspectos são “coexistentes e paritários”). O ‘juízo’ deve ser embasado, e não um ato arbitrário, com total consciência que o ato é fruto do conhecimento presente, e ‘possui pertinência relativa’. (KÜHL et al., 2010).
Para a ‘conservação integral’ a instância história deve ser privilegiada (as instâncias são indissociáveis, uma vez que a conformação estética da obra é fruto de sua evolução no tempo42), e esta não é conciliável com as ações de restauração e de conservação. As ações de remoção, adição e reintegração de lacunas são repudiadas, pregando ainda a distinção entre conservação e restauro (devem ser mantidas todas as estratificações da obra, mesmo que a leitura da obra torne-se fragmentada ou descontínua43). A manutenção do objeto é essencial, bem como a eliminação das causas da degradação e remoção das patologias. Já quanto ao projeto, há uma fase de “conservação, que respeita, integralmente, os aspectos materiais da obra, tal como chegou a nossos dias” (KÜHL et al., 2010, p.212), e a fase do “projeto de inovação” que é desenvolvido tal qual o projeto arquitetônico que um novo objeto. Além disso, a conservação integral e a teoria crítico conservativa excluem as ‘possibilidades de imitação ou mimetismo’, valorizando a diversidade. (KÜHL et al., 2010). São expoentes de tal teoria Marco Dezzi-Bardeschi (FIGURA 28), Amedeo Bellini, Anna Lucia Maramotti e B. Paolo Torsello.
42
Questionam as correntes que afirmam que existem testemunhos mais relevantes do que outros para a história já que, para tal hierarquização, seria necessário existir um juízo-histórico e um total conhecimento da história. É sabido que os ‘juízos são sempre relativos, e o passado uma construção
de um presente histórico’. (KÜHL, Beatriz Mugayar; et al. Temas recentes no restauro na Itália. 2010.p. 212.).
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