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Moléstia de Hand-Schuller-Christian.

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Academic year: 2017

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MOLÉSTIA DE HAND-SCHULLER-CHRISTIAN

E D Y M A R J A R D I M *

A moléstia de Hand-Schuller-Christian é entidade pouco freqüente, de causa desconhecida, e estudada sob várias denominações, entre as quais as de reticuloendoteliose ou histiocitose ( S n a p p e r1 1

) , liporreticulose (Epstein-D a v i d o f f5

) , disostose exoftálmica diabética e lipidogranulomatose ou xanto-matose óssea crânioexoftálmica ( P o n s8

) . Atualmente, tal enfermidade vem sendo incluída num mesmo capítulo, juntamente com a moléstia de Lette-rer-Siwe e o granuloma eosinófilo devido a certa semelhança em seus subs-tratos histopatológicos.

Trata-se de uma variedade de granulomatose, caracterizada por prolife-ração multifocal de tecido formado por células histiocitárias repletas de esteres do colesterol que tomam o aspecto característico de "células espu-mosas". Esse achado citológico é, segundo R i t v o9

, patognomônico da mo-léstia de Hand-Schuller-Christian, permitindo, a sua diferenciação com as moléstias de Gaucher e de Nieman-Pick.

A moléstia ocorre principalmente na infância, antes dos seis anos de idade, atingindo mais vezes o sexo masculino. Há casos assinalados na idade adulta, porém, muito mais raros (Rocha B r i t o1 0

) . Quanto à heredi-tariedade e ao fator racial, não há concordância entre os vários autores; R i t v o9

admite a influência destes fatores, enquanto Duncan4

não os considera.

Segundo W o l f1 6

, a infiltração histiocitária pelos esteres do colesterol seria devida a uma deficiência do sistema retículo endotelial na remoção do excesso lipídico dos tecidos, cuja retenção provocaria irritação das pa-redes vasculares, seguida por infiltração celular dos tecidos perivasculares, com progressivo bloqueio do próprio SRE. Duncan4

acredita que o depó-sito de material lipídico far-se-ia nos locais que tivessem sofrido trauma-tismos prévios.

Para Cecil e L o e b2

, a moléstia de Hand-Schuller-Christian, a moléstia de Letterer-Siwe e o granuloma eosinófilo, originariamente referidos como entidades bem definidas, são provavelmente o resultado de manifestações relacionadas a estadios diferentes de uma mesma moléstia tendo, como de-nominador comum, a proliferação histiocitária de natureza desconhecida.

A moléstia de Hand-Schuller-Christian costuma ser caracterizada por uma tríade patológica, representada por alterações destrutivas dos ossos

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membranosos (particularmente os do cranio), exoftaimo e diabete insípido. As lesões ósseas não são causadas, segundo Snapper1 1

, por distúrbio pri-mário do colesterol, mas sim por proliferação anômala de histiocitos, célu-las reticulares com atividade fagocitária. As alterações osteolíticas do crâ-nio começam na diploe mas, habitualmente, comprometem ambas as tábuas ósseas. A proliferação dos granulomas lipídicos invade, ulterior e preferen-cialmente, o espaço retroorbitário e a região da sela turca trazendo, como conseqüência, o exoftalmo e o diabete insípido.

O exoftalmo pode ser uni ou bilateral e as pálpebras muitas vezes não conseguem cobrir completamente os globos oculares, dada a intensidade de sua protrusão. Habitualmente é assimétrico, sendo mais intenso num dos lados. Este detalhe permite o diagnóstico diferencial com o exoftalmo do hipertireoidismo, que é sempre bilateral e simétrico.

Aos processos osteolíticos que se instalam quase sempre ao nível das fossas cranianas anterior e média segue-se, muitas vezes, quadro de dia-bete inspido o que, segundo Cecil e L o e b2

, e outros, não é característica indispensável da doença. Os sintomas hipofisários não aparecem tão preco-cemente como aqueles que dependem das alterações osteolíticas ( Y g a r t u a1 5

) .

Os granulomas lipídicos podem ser encontrados fora do esqueleto, como na pele, fígado, rins, baço e pulmões. O sistema nervoso central pode ser comprometido, tendo Thannhauser1 3

referido lesões da substância branca ao nível dos pedúnculos cerebelares inferiores na sua área corticopontina, no núcleo denteado e nos tratos olivo-denteados. Áreas de desmielinização po-dem desenvolver-se secundariamente nos tratos ópticos, nos feixes pirami-dais, nas vias cerebelares e nos cordões posteriores. Refere Aita 1

que tam-bém os hemisférios cerebrais são atingidos no decorrer da doença, com conseqüente ocorrência de síndromes convulsivas.

A visão, em grande número de casos, está comprometida, por com-pressão dos nervos ópticos englobados nos processos proliferativos granulo-matosos. Ocasionalmente têm sido observados casos que apresentam outras alterações, tais como retardo mental, distrofia adiposo-genital, pigmentação anormal da pele, esplenomegalia, infantilismo. Os dentes podem estar aba-lados ou chegarem mesmo a cair, alterações estas, atribuíveis a amoleci-mentos que se passam nos maxilares ou a localizações de pequenas massas de lípides que se aglomeram nas raízes.

Radiológicamente, a moléstia caracteriza-se por lesões ósseas únicas ou múltiplas (Taveras e W o o d1 2

) , rarefações ósseas com tamanhos variá-veis, com bordas lisas ou circinadas ( R i t v o9

) que se instalam preferencial-mente nas fossas anterior e média do crânio. Diz Snapper1 1

que, do ponto de vista radiológico, somente poderão aparecer dificuldades diagnosticas quando as lesões não forem encontradas na região crânio-hipofisária que lhe é peculiar, mas em outras partes do esqueleto.

Para o tratamento da moléstia, tem sido preconizada a roentgenotera-pia que, no consenso geral, traz resultados pouco animadores. O A C T H e a cortisona foram utilizados e, segundo Correia e c o l .3

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O prognóstico é desfavorável, tratando-se de doença progressiva, poden-do no entanto, ocorrer remissões espontâneas das lesões ( W o l f1 6

) . Habi-tualemnte é fatal, vindo o paciente a falecer em estado de caquexia e grave anemia.

O B S E R V A Ç Ã O

D . S., 10 anos, sexo masculino, branco, brasileiro. Refere que, desde h á q u a -tro anos, v e m notando a u m e n t o progressivo dos globos oculares, o q u a l de três meses a esta p a r t e teve g r a n d e acentuação. N ã o h á outras q u e i x a s de ordem g e r a l ou n e u r o l ó g i c a . Antecedentes pessoais — Gestação, p a r t o e desenvolvimento neuro-motor normais. T e v e s a r a m p o e "catapora". N e n h u m caso semelhante foi registrado n a f a m í l i a . Exame clínico — P a c i e n t e tranqüilo, bem integrado no a m -biente, colaborante, i n f o r m a n d o bem. Peso 26 quilos. E s t a t u r a 135 cm. P r e s s ã o arterial 8 X 6 . F r e q ü ê n c i a cardíaca de 82 batimentos por minuto. A semiología do coração e dos pulmões mostrou-se dentro d a n o r m a l i d a d e . E x o f t a l m o b i l a t e r a l acentuado, mais evidente no g l o b o o c u l a r direito ( F i g . 1 ) .

Exame neurológico: n a d a digno de menção. Exame oftalmológico: acuidade,

campo visual e e x a m e fundoscópio normais. Exame otorrinolaringológico: massa proliferante invadindo a parte superior das fossas nasais, parte da q u a l foi retirada p a r a e x a m e histopatológico. Exame hematológico: H e m o g l o b i n a 12,4 g/100 m l

(77,5%); glóbulos vermelhos 4.770.000/mm3

; hematócrito 39%; v a l o r g l o b u l a r 0,87; glóbulos brancos 11.900/mm3

(neutrófilos segmentados 56%; eosinófilos 16%; lin-fócitos 21%; monócitos 6%; plasmócitos 1 % ) ; plaquetas aparentemente normais. O exame de urina rotina n ã o forneceu elementos dignos de menção. Teste do P.B.I.

(Protein-Bound Iodine) pelo método de B a r k e r e col.: 7,6 m i c r o g r a m a s / 1 0 0 ml

( n o r m a l : de 4 a 8 m i c r o g r a m a s / 1 0 0 m l ) . Exame de líquido céfalorraqueano: p u n -ção l o m b a r ; líquido límpido e incolor; citología 2 1 / m m3

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de f i x a ç ã o de complemento p a r a cisticercose, n e g a t i v a s . Dosagem do colesterol

total no soro: 156 m g / 1 0 0 mi ( m i c r o m é t o d o de C a r a w a y e F a n g e r modificado, com

v a l o r e s n o r m a i s de 180 a 250 m g / 1 0 0 m l ) . Exame radiológico a b r a n g e n d o todos os ossos d o esqueleto: apenas no crânio f o r a m verificadas extensas lesões osteolíticas, nas fossas a n t e r i o r e média ( F i g . 2 ) . Exame histopatológico da m a s s a t u m o r a l r e t i r a d a da parte superior das fossas n a s a i s : tecido polipóide, com revestimento de epitelio pseudo-estratificado, em torno de u m tecido fibro-histiocitário, com extensas á r e a s de células a b a l o n a d a s , de citoplasma ópticamente vazio, excepto em a l -g u m a s partes que a p r e s e n t a v a m t r a m a tênue e i r r e -g u l a r .

Com o diagnóstico p r o v á v e l de moléstia de H a n d - S c h u l e r - C h r i s t i a n o paciente foi e n c a m i n h a d o p a r a t r a t a m e n t o roentgenoterápico, sendo e m p r e g a d a a telecobal-toterapia, em série inicial de 3.000 R que n ã o resultou em benefício. O b s e r v a m o s que, a p e s a r do t r a t a m e n t o , o e x o f t a m o acentuou-se p r o g r e s s i v a m e n t e d u r a n t e o período de internação. O paciente teve a l t a a pedido.

C O M E N T Á R I O S

Ficamos, portanto, diante de um caso no qual, além do pronunciado exoftalmo bilateral, encontramos, ao exame radiológico, extensas lesões os-teolíticas cranianas, invasão das fossas nasais pelo processo tumoral, sem manifestações neurológicas ou de natureza endocrina.

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Não constatamos a presença de hipercolesterolemia, fato que não é constante na enfermidade, nem julgado por vários autores, como necessário para o seu diagnóstico. Aliás, Y g a r t u a1 5

assinala o fato de que o aumento das taxas de colesterol sangüíneo pode aparecer tardiamente na evolução da doença. Para Vampré e c o l .1 4

, W o l f1 6

e outros, existe habitualmente hipercolesterolemia; Duncan4

refere o achado desta alteração em apenas 50% dos casos, ao passo que Snapper 1 1

diz que usualmente não é encontrada.

Em nosso paciente a invasão da parte superior das fossas nasais pelo processo tumoral permitiu que, com relativa facilidade, fosse obtido mate-rial para exame histológico, que revelou aglomerados de células histiocitá-rias, de citoplasma bastante vacuolizado. Em virtude deste último dado morfológico, as células tomam o aspecto "espumoso", fato que para Cecil e L o e b2

, R i t v o9

e Snapper1 1

, constitui elemento básico no diagnóstico da doença, e assim admitido pela maioria dos autores consultados.

S U M Á R I O

É relatado um caso de moléstia de Hand-Schuller-Christian, estudado do ponto de vista radiológico e histopatológico. É ressaltado o fato de que, apesar do exoftalmo bilateral acentuado e das extensas lesões osteolíticas cranianas, não tenham sido observados sinais ou sintomas neurológicos ou endocrinos.

S U M M A R Y

Hand-Schuller-Christian disease: a case report.

A case of Hand-Schuller-Christian disease is reported. Radiologic and histopathological studies were done. Endocrine and neurologic impairments were not observed.

R E F E R Ê N C I A S

1. A I T A , J. A . — N e u r o l o g i c M a n i f e s t a t i o n s o f G e n e r a l D i s e a s e s . C h a r l e s C. T h o m a s , S p r i n g f i e l d , 1964.

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Referências

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