FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS ESCOLA DE DIREITO FGV DIREITO RIO
GRADUAÇÃO EM DIREITO
BEATRIZ LAUS MARINHO NUNES
Impressão 3D: mapeamento de problemáticas
FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS ESCOLA DE DIREITO FGV DIREITO RIO
GRADUAÇÃO EM DIREITO
BEATRIZ LAUS MARINHO NUNES
Impressão 3D: mapeamento de problemáticas
Trabalho de Conclusão de Curso, sob
orientação do professor Ivar Hartmann
apresentado à FGV DIREITO RIO, como
requisito parcial para obtenção do grau de
bacharel em Direito.
FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS ESCOLA DE DIREITO FGV DIREITO RIO
GRADUAÇÃO EM DIREITO
Impressão 3D: mapeamento de problemáticas
Elaborado por BEATRIZ LAUS MARINHO NUNES
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à
FGV DIREITO RIO, como requisito parcial
para obtenção do grau de bacharel em Direito.
Comissão Examinadora:
Nome do orientador: Ivar Hartmann
Nome do Examinador 1: Bruna Castanheira de Freitas
Nome do Examinador 2: Eduardo Magrani
Assinaturas:
__________________________________________________
Ivar Hartmann (Orientador)
__________________________________________________
Bruna Castanheira de Freitas (Examinador 1)
__________________________________________________
Eduardo Magrani (Examinador 2)
Nota Final: 10 (dez)
Aos meus pais, Vicky e Luiz Paulo, e à minha irmã, Marina.
“A dream you dream alone is only a dream. A dream you dream together is reality”.
AGRADECIMENTOS
Agradeço:
A inspiração e empenho do meu orientador e mentor, Professor Ivar Hartmann.
O valioso apoio dos meus coorientadores, Bruna Castanheira e Eduardo Magrani.
A dedicação e conhecimento de todos os professores que acompanharam minha trajetória na FGV.
A colaboração e o conhecimento da Dra. Bruna Rego Lins, Dra. Danielle Borges, Dra. Flávia Castro, Dra. Marianna Furtado de Mendonça e Dr. Sérgio Branco.
O tempo e informação de Eduardo Lopes e Thiago Palhares.
A inspiração e encorajamento das amigas Ana Carolina Gutierrez, Ana Paula Palhano, Christine Bradford, Herminia Maia, Marcella Castello Branco, Marcella Sardenberg, Marcelle Freitas e Mariana Bento.
RESUMO
O presente estudo tem como tema a impressão 3D, um segmento tecnológico que se encontra em constante desenvolvimento. O foco está na dualidade de usuário-consumidor/produtor-consumidor, com interesse específico na dinâmica de comportamento de uso da tecnologia no Brasil e a consequente necessidade de proteção legal das partes lesadas. O estudo propõe situações problemáticas viáveis que envolvem o consumidor e demais atores que atuam neste setor, como plataformas online e empresas multinacionais que tanto oferecem produtos 3D como também prestam este serviço de impressão. No primeiro capítulo, discute-se as implicações da impressão 3D no campo da Propriedade Intelectual, introduzindo a figura das plataformas online e adentrando impactos no Direito do Consumidor. No segundo capítulo, explora-se a impressão 3D de um ponto de vista mais técnico, um passo-a-passo para o seu funcionamento e possíveis desdobramentos de seu uso. O terceiro capítulo contribui com entrevistas feitas a empresas, advogados e juízes das áreas em destaque: Impressão 3D, Propriedade Intelectual, Direito do Consumidor e Tecnologia. O quarto capítulo argumenta, por aproximação e analogia de casos reais e hipotéticos, a aplicação do Código de Defesa do Consumidor como possível forma de resolução de conflitos envolvendo a impressão 3D.
ABSTRACT
This study aims at a segment of an ongoing technological development: 3D Printing. The focus of this study adheres to the duality user-consumer/producer-consumer as far as these players unfold their roles in commercial activities. Here with specific interest in the dynamics of their behavior of use of the technology and subsequent need of Legal protection for the defrauded parts. This study suggests as examples, a few problematic scenarios involving consumers as well as other players, such as online platforms and multinational companies that sell 3D prodcuts as well as 3D printing services. The first chapter explores 3D printing and its impact on Intellectual Property, introducing the online platforms and the consequences that may arise regarding Consumer Rights. The second chapter explains 3D printing from its technical point of view, a step by step of its mechanism and possible outcomes. The third chapter contributes with interviews done to related companies, and to law professionals in areas of: Intellectual Property, Consumer Law, and Technology. The fourth final chapter argues and offers by approximation and analogy of theoretical and actual legal cases, possible solutions to existing conflicts involving 3D printing based on the Brazilian Consumer Code.
Keywords: 3D Printing. 3D Printers. Intellectual Property. Technology. Internet. Liability. User-Consumer. Producer-Consumer. Consumer protection.
LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS
3D Tridimensional;
ABS Acrilonitrila Butadieno Estireno; CAD Computer Aided Design;
CC Creative Commons;
CDC Código de Defesa do Consumidor; MCI Marco Civil da Internet
DI Desenho Industrial; DIY Do it yourself;
DMCA Digital Millenium Copyright Act; IPO Intellectual Property Office; LPI Lei da Propriedade Industrial; PI Propriedade Intelectual; PLA Ácido Poliático;
UM Modelo de Utilidade;
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 12
2 AS IMPLICAÇÕES DA IMPRESSÃO 3D NO CAMPO DA PROPRIEDADE INTELECTUAL ... 20
3 3D PRINTING FOR DUMMIES ... 29
3.1 PASSO A PASSO: COMO FUNCIONA A IMPRESSÃO 3D? ... 32
3.2 A IMPRESSÃO 3D E SEUS DESDOBRAMENTOS: UMA TECNOLOGIA QUE INSTIGA O INTERESSE DE CRIAR UM OBJETO, IMPRIMINDO-O, REIFICANDO-O, COISIFICANDO-O E TORNANDO A CRIAÇÃO PALPÁVEL ... 38
3.3 OS ENVOLVIDOS ... 40
3.4 O CONSUMIDOR SEDUZIDO ... 40
3.5 FOOD-FRIENDLY & HEALTH-SAFE ... 43
4 O QUE PENSAM AS EMPRESAS, ADVOGADOS E JUÍZES: DIFERENTES PONTOS DE VISTA QUANTO Á TECNOLOGIA E SUAS IMPLICAÇÕES ... 47
4.1 EMPRESAS: O QUE PROPORCIONAM AO CONSUMIDOR? ... 48
4.1.1 Cammada... 48
4.1.2 3D Hubs ... 50
4.1.3 Empresa Internacional 3D ... 53
4.2 COMO A IMPRESSÃO 3D PODERÁ AFETAR A PROPRIEDADE INTELECTUAL, O CONSUMIDOR, O MERCADO E A DECISÃO DOS JUÍZES? ... 54
4.2.1 As Hipóteses ... 54
4.2.2 Os Entrevistados ... 55
5 DESVIOS, VIÉSES E REITERAÇÕES DE ANÁLISE LEGAL ... 61
5.1 CONCEITOS ... 61
5.2 ANÁLISE DIANTE DOS EXISTENTES CASOS ... 64
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 73
REFERÊNCIAS ... 76
ANEXO A - XADREZ DUCHAMP ... 84
ANEXO C - FOGUETE TINTIN ORIGINAL, MODIFICADO E
PERSONALIZADO ... 86
ANEXO D - FILAMENTOS ... 88
ANEXO E - MATERIAIS PARA IMPRESSÃO 3D ... 89
ANEXO F - SORTING HAT ... 90
ANEXO G - SAD FACE ... 91
ANEXO H - IMPRESSORA 3D XYZPRINTING NO SITE AMAZON ... 92
ANEXO I - CARRINHO 3D ... 93
ANEXO J - E-MAIL CAMMADA: CONTATO REALIZADO PELO SITE ... 94
ANEXO K - REGRAS DO JOGO CAMMADA ... 99
ANEXO L - E-MAIL: 3D PRINTING AND CUSTOMERS/USERS (3D HUBS) ... 103
ANEXO M - PASSO A PASSO 3D HUBS ... 104
ANEXO N - 3D HUBS: TERMS OF USE ... 107
ANEXO O - PERGUNTAS ENVIADAS À EMPRESA INTERNACIONAL 3D LATIN AMERICA ... 113
ANEXO P - ENTREVISTA COM DRA. MARIANNA FURTADO DE MENDONÇA ... 115
ANEXO Q - ENTREVISTA COM DRA. BRUNA REGO LINS ... 120
ANEXO R - ENTREVISTA COM DANIELLE BORGES ... 124
ANEXO S - ENTREVISTA COM SÉRGIO BRANCO ... 126
1 INTRODUÇÃO
“Like the magic wand of childhood fairy tales, 3D Printing offers us the promise of control over the physical world. 3D printing gives regular people powerful new tools of design and production (…). In a 3D printed future world, people will make what they need, when and where they need it ”. 1
As inúmeras possibilidades na esfera da produção intelectual, a partir do advento da
internet, geraram, paralelamente, um leque de alternativas que apontam para violações de
direitos, e por sua característica global se renovam e se reciclam constantemente à medida que
novos produtos são colocados no mercado.
Esta pesquisa examinará aspectos distintivos da impressão 3D e seu impacto na esfera
jurídica, especialmente no que concerne ao consumidor. No âmbito da tecnologia 3D o
consumidor assume uma posição participante e ativa no processo criativo, o que implica que o
consumidor, passivo a danos advindos de produções tridimensionais, tenha acesso a uma
proteção legal.
A análise levará em consideração as seguintes indagações, verdadeiras problemáticas
a serem enfrentadas: Quem deve arcar com eventuais danos ao consumidor? Quais sãos os
direitos e deveres de empresas de impressoras 3D? Quais são os direitos e deveres dos
fornecedores de arquivos de computador compartilhados, CAD (Computer Aided Design), em
plataformas e fóruns online? A quem compete a responsabilidade por possíveis danos ao
consumidor? Quais são as responsabilidades de empresas intermediárias que prestam serviços
de impressão 3D? É plausível argumentar que a responsabilidade é da empresa de impressoras
3D, que de fato gera o produto final e/ou do indivíduo que compartilhou ou alterou os
arquivos indevidamente? Quando se tem o elemento da impressora 3D na relação, altera-se a
forma com que se determina a responsabilidade em caso de dano ou prejuízo? Isto é, há uma
relação de consumo?
A hipótese formulada é a de que os possíveis desdobramentos da tecnologia da
impressão 3D que impliquem o consumidor de alguma forma, serão tutelados pelo Código de
Defesa do Consumidor, uma vez que configuram verdadeiras relações de consumo. Será
1 LIPSON, Hod; KURMAN, Melba. Fabricated: the new world of 3D printing. Indianapolis: John Wiley &
possível identificar no polo ativo e passivo das relações aquele indivíduo que se conceitua
como consumidor e aquele, pessoa física ou jurídica, que se define como fornecedor de forma
geral. Uma vez incorrendo em dano e/ou prejuízo como reação direta da relação contratada,
aplica-se o CDC de forma a conceder ao consumidor a proteção necessária e esperada. Assim,
destacam-se três hipóteses ou cenários: i) o consumidor que adquire uma impressora 3D para
uso próprio e acaba por sofrer um dano por fato do produto; ii) o consumidor-criador que
contrata o serviço da impressão 3D com uma empresa intermediária que o conecta com
terceiros, pessoas físicas ou jurídicas, que se disponibilizam para imprimir o objeto
desenvolvido pelo consumidor; e ainda iii) o consumidor-usuário que acessa plataformas
online para escolha de designs já finalizados para download e impressão e que vem a sofrer
posterior dano. Esses cenários ou problemáticas onde o consumidor se vê prejudicado serão
constantemente abordados durante este estudo, de forma a demonstrar que, tratam-se de
verdadeiras relações de consumo onde deve-se aplicar o CDC.
A tecnologia 3D impõe no âmbito legal esses questionamentos vis-à-vis direitos e
responsabilidade das partes. Este estudo surgiu do interesse em uma área inovadora pouco
regulamentada e explorada, consequentemente carente de doutrina.
A impressão tridimensional permite a mais precisa reprodução do objeto original. Um
design de um objeto é criado em determinado programa de computador e passa a ser um
objeto tridimensional com auxílio de técnicas de impressão 3D. Um dos programas de
computador mais utilizados para criação do design é o Computer Aided Design (CAD). Este
software, entre outros, permite ao usuário criar, alterar e aprimorar um design. Essas criações
são compartilhadas em fóruns online que possibilitam um diálogo entre criadores e
colaboradores sem restrições geográficas. Nesse contexto surge uma nova concepção de um
objeto personalizado, com a possibilidade se sua impressão em formato tridimensional2.
Nesses fóruns ou plataformas online, os usuários compartilham suas criações digitais
que podem ser baixadas e impressas indiscriminadamente com acesso a uma impressora 3D.
As duas plataformas mais populares são: Thingiverse3 e Shapeways4, modelos de repositórios
2 WEINBERG, Michael. What’s the deal with copyright and 3D printing? Institute for Emerging Innovation, Public Knowledge, jan. 2013, p. 01-22. Disponível em: <https://www.publicknowledge.org/>. Acesso em: 20
jul. 2015. Tradução livre: Através da impressão 3D alteramos a forma com que pensamos sobre o mundo. A impressão 3D mescla o físico com o digital. Indivíduos em lados opostos do mundo podem colaborar para design de um objeto e imprimir protótipos idênticos a cada passo do projeto. Ao invés de adquirir milhões de objetos idênticos criados em uma longínqua fábrica, usuários podem customizar objetos pré-desenhados e imprimi-los em casa. Assim como computadores possibilitaram que nós, indivíduos nos tornássemos criadores de filmes, autores de artigos e criadores de música, impressoras 3D permitem que qualquer um se torne inventor de coisas.
3Cf. THINGIVERSE. Thingiverse featured – digital designs for physical objects. Disponível em:
para fabricação e/ou divulgação de designs tridimensionais. Essas plataformas apresentam
diferentes características e, consequentemente, oferecem serviços diversos.
No site Thingiverse os usuários podem livremente fazer o upload dos designs, assim
como modificá-los e distribuí-los. Trata-se de uma biblioteca de arquivos para download e
impressão tridimensional. Já no site Shapeways, líder em impressão 3D, é um mercado online
onde qualquer indivíduo pode concretizar suas ideias. Como mercado virtual, é um espaço
onde criadores e consumidores compram e comercializam seus produtos. Dado que o objetivo
deste modelo é a comercialização de produtos 3D, denota um incentivo para fomentar a
fabricação de impressoras 3D. Será essa uma indicação de que tais fabricantes investem
nesses sites?
No Brasil o site Criar3Dprototipo5 se assemelha ao Shapeways. É um site onde o
usuário apresenta uma ideia a ser concretizada, onde ele encontra as ferramentas necessárias
para criação do seu produto e a instrução para sua impressão tridimensional ou ainda onde
pode adquirir uma impressora 3D. A elaboração de um modelo digital do protótipo
apresentado passa por um software de modelagem 3D, como por exemplo, SolidWorks6. Cabe
mencionar empresas brasileiras como a Sethi3D7, que tanto vende impressoras 3D como
disponibiliza uma gama de soluções tecnológicas para processos criativos, desde a concepção
até o produto final. Há também a Designoteca8, site onde o usuário pode encontrar produtos
finais de criação nacional ou soluções de designs para fabricar em sua própria impressora 3D,
baixando arquivos compartilhados diretamente do site.
Importante mencionar o chamado Maker Movement, que teve seu início oficialmente
nos Estados Unidos em 20079. A ideia desse movimento, conforme observa o autor Chris
Anderson, é que atualmente qualquer criador de uma invenção ou design pode compartilhar
seus arquivos online em algum tipo de site capaz de produzir tal produto. Uma das primeiras 4 Cf. SHAPEWAYS. Shapeways - 3D printing service and marketplace. Disponível em:
<http://www.shapeways.com/>. Acesso em: 15 jul. 2015.
5 Cf. CRIAR 3D PROTOTIPAGEM. Criar 3D Prototipagem – venda, treinamento e suporte de impressão 3D.
Disponível em: <http://www.criar3dprototipo.com.br>. Acesso em: 21 jul. 2015.
6 Cf. SOLID WORKS. Solid Works Brasil. Disponível em: <http://www.solidworksbrasil.com.br/default.htm>.
Acesso em: 21 jul. 2015.
7 Cf. SETHI 3D. Sethi 3D. Disponível em: <http://www.sethi3d.com.br/>. Acesso em: 21 jul. 2015.
8 Cf. DESIGNOTECA. Plataforma digital que ajuda inventores a documentar, promover e licenciar seus
designs através da web. Disponível em: <http://www.designoteca.com/>. Acesso em: 22 jul. 2015.
9 ANDERSON, Chris. Makers: the new industrial revolution. 2012, p. 20-21. Tradução livre: “O que define o Maker Movement? Trata-se de uma descrição abrangente que engloba uma variedade de atividades, desde da
impressoras 3D a ser desenvolvida foi chamada RepRap10 (Replicating Rapid-Prototyper),
lançada em 2007, com o intuito de ser uma máquina utilizada por indivíduos em suas casas
para criar coisas, mas também pela indústria, devido ao seu baixo custo. A RepRap foi
seguida da MakerBot, atualmente uma das principais no mercado devido a sua característica
consumer-friendly. Em 2012 foram vendidas 5.500 unidades desse tipo11. Com esse avanço,
os consumidores podem fazer uso de uma tecnologia que tende, com o tempo, a ser cada vez
mais acessível em termos de custo. Portanto, os consumidores poderão imprimir produtos
criados por eles mesmos sem sair de casa. Desta forma, consagram o chamado Do It Yourself
Movement12, ou seja, a criação, modificação ou reparação de objetos sem que seja necessário envolver profissionais13.
A impressão 3D vem ganhando espaço e força devido a gama de possibilidade que
oferece e, como tecnologia recente no mercado brasileiro, vem sendo citada com frequência
na mídia. A empresa 3D Systems14, atualmente uma das maiores fabricantes de impressoras
3D, em entrevista, introduz nova técnica desenvolvida para a impressão 3D: a Continuous
Liquid Interface Production, ou “produção contínua em interface líquida” (CLIP). Com essa
inovação, de acordo com o diretor executivo da Carbon 3D15, será possível a criação de
objetos resistentes16 como implantes dentários ou protéticos. Segundo a empresa de análise de
mercado Canalys, em reportagem datada de abril, 2015, estima-se que o mercado de
impressão 3D deve chegar a 20.2 bilhões de dólares em 2019, com os preços de impressoras
10 BOWYER, Adrian; BRADSHAW, Simon; HAUFE, Patrick. The intellectual property implication of low-cost 3D printing. University of Bath. ScriptEd, v. 7, n. 1, abr. 2010, p. 10.
11 MAKERBOT Industries, Introducing the MakerBot Replicator, Press Release, jan. 2012. In: DOHERTY,
Davis. Downloading infringement: patent law as a roadbloack to the 3D printing revolution. Harvard Journal of Law & Technology, v. 26, n. 1, 2012, p. 355.
12 KUZNETSOV, Stacey; PAULOS, Eric. Rise of the expert amateur: DIY projects, communities, and cultures, Human-Computer Interaction Institute, Carnegie Mellon, n. 295, p. 1-10, 2010. In: DOHERTY, op. cit. p. 354. 13 Ibidem, p. 354. Tradução livre: “A impressão 3D avançou de tal modo que consumidores têm acesso à
tecnologia, seja por meio de serviços de impressão de seus designs, seja por meio de impressoras 3D acessíveis para uso doméstico. Esse desenvolvimento representa um boom para a comunidade DIY – a ampla comunidade de indivíduos engajados na criação, modificação ou reparo de objetos sem a ajuda de profissionais pagos”.
14 Cf. 3D SYSTEMS. 3D Systems: rapid prototyping & advance digital manufacturing. Disponível em:
<http://www.3dsystems.com/>. Acesso em: 05 mai. 2016.
15 Cf. CARBON. Carbon 3D. Disponível em: <http://carbon3d.com/>. Acesso em: 05 mai. 2016.
16 CHAO, Loretta. Auto makers, others explore new roles for 3D printing. The Wall Street Jornal, 25 abr. 2016.
3D cada vez mais acessíveis17. Ainda, de acordo com uma enquete aplicada pela empresa de
logística Deloitte18, dentre 900 profissionais pertencentes a cadeia de fornecimento, 14% já
utilizam a tecnologia da impressão 3D e 48% pretendem adotar o uso da tecnologia na
próxima década19. Assim, fica comprovado o crescente número de empresas que passam a
utilizar a impressão 3D em suas cadeias de fornecimento.
Embora crescente popularização da impressão 3D, cumpre analisar algumas
problemáticas. Indivíduoa podem fazer o upload de obra/produto/invenção própria, ou alheia,
em determinada plataforma online onde um terceiro poderá interferir e fazer o seu download,
incluindo alterações ou modificações já feitas, e imprimir tal produto como seu ou de sua
propriedade. O que ocorre caso esse objeto/produto/invenção esteja protegida pela
Propriedade Intelectual? De quem são os direitos? Há como protegê-los? A quem cabe a
responsabilidade por eventual infração?
Para ilustrar esta situação, menciona-se o caso20 que envolveu Marcel Duchamp,
célebre e influente artista do século XX. Duchamp foi percursor da arte conceitual, da arte a
serviço da mente, rompendo com o pensamento convencional da criação artística,
apresentando objetos utilitários como arte, denominou-os de ready-made21. Em 1917 e 1918,
o artista criou o que hoje é conhecido por Jogo de Xadrez de Marcel Duchmap. Ocorre que a
partir de fotografias do artista, os especialistas na construção de modelos 3D, Scott Kildall e
Bryan Cera, reproduziram digitalmente o Jogo de Duchamp. O artefato recriado em arquivo
3D22 foi disponibilizado no site Thingiverse, onde as peças podem ser impressas de forma
gratuita por usuários (ANEXO A). Ocorre que os autores da reprodução digitalizada foram
notificados pelos representantes legais do titular dos direitos da arte de Marcel Duchamp por
violação da propriedade intelectual 23 . Argumentaram que a partir dos arquivos
compartilhados por Kildall e Cera, poderiam surgir produtos comerciais de baixa qualidade,
maculando a imagem do renomado artista. Seria essa uma restrição adequada?
17 CANALYS. Global 3D Printing Market to Reach $20.2 billion in 2019. Canalys, Press Release, Shanghai, 14
abr. 2015. Disponível em: <http://www.canalys.com/>. Acesso em: 14 set. 2015.
18 Cf. DELOITTE. 3D printing. Disponível em: <http://www2.deloitte.com/>. Acesso em: 09 mai. 2016. 19 CHAO, op. cit. Ver MATHEWS, Lee. Carbon 3D printed objects magically emerge from a resin pool.
GEEK, 17 abr. 2015. Disponível em: <http://www.geek.com/>. Acesso em: 09 mai. 2016.
20 DORIA, Pedro. Xadrez com Duchamp. O Globo, Coluna Pedro Doria - Vida Digital, 02 out. 2015. Disponível
em: <http://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/xadrez-com-duchamp-17666696>. Acesso em: 15 out. 2015.
21 Cf. MOMA LEARNING. Marcel Duchamp and the Readymade. Disponível em: <https://www.moma.org/>.
Acesso em: 15 dez. 2015.
22 VILELA, Henrique. Imprima em 3D seu próprio jogo de xadrez desenhado por Marcel Duchamp. 3D Pro, 9
jul. 2014. Disponível em: <http://3d.pro.br/>. Acesso em: 15 dez. 2015.
23 KILDALL, Scott. What happened to the readymade: Duchamp chess pieces? Kildall, 02 set. 2015. Disponível
A dificuldade será encontrar uma forma de, ao mesmo tempo, proteger os direitos de
PI, mas não restringir por completo o escopo da impressão 3D, que resultará em mais gastos e
menos resultados. Basta lembrar do que ocorreu com o compartilhamento de música online e
os direitos autorais correspondentes. Contudo, no caso de designs 3D, arquivos protegidos
pela PI são reproduzidos, independentemente de proteção legal. A efetiva aplicação das leis
vigentes é difícil tarefa quando se trata da regulamentação da impressão 3D e possíveis
infrações. Uma das razões para isso é que a impressão 3D acaba por reduzir o papel dos
intermediários na produção, fazendo com que produtos contrafeitos se tornem algo
mainstream.
A impressão 3D nas últimas décadas, tem trazido benefícios extraordinários, como por
exemplo, a impressão de órgão vitais e de próteses aplicados em diversos campos da medicina
em âmbito mundial24.
Por outro lado, pode também acarretar resultados nocivos quando permitido o uso
indiscriminado da tecnologia, hipoteticamente ilícito, e determinado usuário compartilha o
design de uma arma que se torne disponível para uso indevido e prejudicial25. É possível
vislumbrar uma situação hipotética26, onde a partir da impressão tridimensional de uma arma
em arquivo CAD adulterado desenvolve-se a polêmica quanto as suas repercussões negativas
pelo seu modo de uso. Tais repercussões podem vir a gerar danos a terceiros, resultando,
possivelmente, em posterior ação judicial da parte passiva. Este caso hipotético de lesão
decorrido de objeto impresso em 3D envolve um terceiro acidentado que ingressa com uma
ação judicial para obter a reparação dos danos sofridos. Questiona-se: Em face de quem a
ação judicial deverá ser movida? Do designer original ou em face daquele que efetivamente
imprimiu a arma e a usou? O que compete à empresa que fabricou e vendeu a impressora 3D?
Diante desta situação, pode-se supor possíveis consequências de dano advindo de
objeto impresso em 3D, de agentes envolvidos e de grau de envolvimento. Como regular, se é
que é possível ou mesmo aconselhável regular esse aspecto, sem prejudicar ou comprometer o
uso lícito da impressão 3D? Segundo fontes de informação27, o governo americano propôs
24 GUIA impresso em 3D ajuda na recuperação de nervos lesionados. O Globo, Ciência, 18 set. 2015.
Disponível em: <http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/>. Acesso em: 15 mai. 2016.
25 GREENBERG, Andy. Feds tighten restrictions on 3D printed gun files online. Wired, 06 nov. 2015.
Disponível em: <https://www.wired.com/2015/06/feds-restrict-3d-printed-gun-files/>. Acesso em: 20 mai. 2016.
26 BRISSEY, Breia. Situação explorada no seriado The Good Wife, episódio 15, temporada 6: “Open Source”.
Entertainment, 05 mar. 2015. Disponível em: <http://www.ew.com/recap/good-wife-season-6-episode-15>. Acesso em: 05 mai. 2016.
27 CASTANHEIRA, Bruna de Freitas. EUA propõe revisão legal que proíbe exportação de arquivos de armas
revisão legal a fim de proibir a exportação de arquivos de armas impressas. Isto é, veda-se a
transmissão online de arquivos digitais que contenham diretrizes para impressão de armas.
Outra situação hipotética de uso inovador da impressão 3D, e mais uma vez plausível
de implicações legais foi explorada no programa Project Runway28, transmitido nos EUA.
Trata-se de um reality show focado em design e moda, apresentado pela modelo Heidi Klum.
Os designers participam de desafios cada semana, envolvendo temas distintos, mas se
pautando sempre na criatividade e na arte. No mercado da moda, a arte e o design imprimem
nas suas grifes a criatividade da produção do designer que nesse programa televisivo, outro
caso hipotético, utilizou-se como ferramenta de produção, uma impressora 3D, lançando um
novo significado ao conceito de criatividade.
Mudanças, sejam elas qual forem, implicam muitas vezes uma resistência daqueles
que as percebem. O novo é ao mesmo tempo intrigante e desafiador, exige uma atitude ativa
de compreensão, análise, aceitação e uma forçosa reestruturação de preceitos já existentes.
Com o advento da internet um número infinito de possibilidades inovadoras ou não, são
constantemente lançadas em plano virtual e colocadas ao dispor de uma vasta gama de
usuários que atuam nos mais diversos campos da ação. A implicação relevante neste estudo é
de como inovações disponíveis na internet, em específico a impressão 3D, podem ser
utilizadas pelo mercado usuário sob a proteção legal para todas as partes envolvidas no
processo de forma ativa e passiva, bem como de possíveis infrações e violações de direitos
jurídicos.
O presente estudo se inicia com uma breve construção das implicações que a
impressão 3D tem, de forma generalizada, no campo da Propriedade Intelectual. Apesar de
não ser o foco deste estudo, não se pode falar em impressão 3D sem adentrar, ainda que
minimamente, na análise dos principais conflitos que surgem envolvendo a infração de
direitos autorais e de marca. Fica demonstrado neste capítulo a gama de oportunidades que
advém da impressão 3D e seus aspectos mais problemáticos.
Em seguida, explora-se o que é realmente a impressão 3D, como a impressão 3D
funciona, qual o procedimento utilizado - verdadeiros aspectos técnicos. Também neste
capítulo, adentra-se algumas das principais questões que envolvem a figura do consumidor e
como este pode vir a ser impactado pela tecnologia tridimensional. São levantadas
problemáticas, exploradas através de casos hipotéticos, mas perfeitamente plausíveis.
28 MILLSAPS, Bridget Butler. 3D printing hits project runway as designers look toward NYC bridges for inspiration. 3D Printe.Com, 16 out. 2015. Disponível em:
O próximo capítulo propõe-se a demonstrar, através de entrevistas, como funcionam e
atuam empresas no mercado de tecnologia. Ainda, inclui posicionamentos jurídicos de
profissionais que atuam nas seguintes áreas: propriedade intelectual, direito consumerista e
tecnologia.
Finalmente, o último capítulo apresenta uma análise acerca das principais
problemáticas destacadas ao longo do estudo, buscando oferecer possíveis ideias para
solucioná-las. Não se trata, entretanto, de uma certa e fácil resposta – muito pelo contrário –,
propõe-se a levantar novos questionamentos e impulsionar novos estudos acerca do tema aqui
2 AS IMPLICAÇÕES DA IMPRESSÃO 3D NO CAMPO DA PROPRIEDADE INTELECTUAL
Em 2013, o site Thingiverse recebeu uma notice and takedown, isto é, uma notificação prevista na lei norte-americana, a Digital Millenium Act (DMCA)29, solicitando que o
Thingiverse retirasse o design do foguete do cartoon Tintin30 (ANEXO B) de seu site e
cessasse sua venda31. A solicitação foi enviada pela companhia Moulinsart, que é titular dos
direitos de copyright32 referentes ao cartoon. Thingiverse obedece e remove o design. Como é
de praxe, ainda com o design original removido, outro usuário já havia postado um design
similar: o mesmo foguete do Tintin, mas alterado de forma a se tornar um enfeite de natal.
Um terceiro usuário utilizou então o arquivo compartilhado e modificou essa ideia para que o
objeto fosse iluminado33 (ANEXO C), alterando o design original pela terceira vez.
Casos como esse ilustram a rápida proliferação e a fácil e viável modificação da
informação online. O design do foguete do cartoon Tintin, criado por Hergé, reproduzido e
compartilhado no Thingiverse, deu margem a subsequentes alterações e opções de sua
impressão em 3D. A propriedade intelectual em teoria, assegura a proteção da obra contra
possíveis violações. Questiona-se, no caso mencionado se a ação tomada pelos titulares de
direitos autorais do cartoon, foi a melhor dentre desse contexto. Não se discute que a
Moulinsart agiu dentro do escopo de seus direitos. No entanto, ao invés de impedir essa
reprodução a empresa poderia passar a vender ou licenciar os designs e arquivos digitais do
objeto, contemplando assim os vários consumidores interessados naquele objeto, ao invés de
apenas cessar a venda sem suprir uma possível brecha no mercado. Ainda, vale pensar: a
29 THE DIGITAL Millennium Act of 1998. DMCA, Copyright, 1988, Section 512 (g) (1). Disponível em:
<http://www.copyright.gov/legislation/dmca.pdf> Acesso em: 09 mai. 2016.
30 THINGIVERSE, Disponível em: http://www.thingiverse.com/thing317602. Acesso em: 27 fev. 2016. Nota: Ao acessar novamente em 05.05.16, constava mensagem no site indicando que o design da “cois” (em inglês, thing) se encontra indisponível a pedido do DMCA, decorrente, provavelmente da mencionada notice & takedown.
31 SHAPIRO, Gary. 3D printers will soon change the world, if it’s not strangled in a lawyered up world. Forbes,
17 jan. 2014. Disponível em: <http://www.forbes.com/>. Acesso em: 18 jul. 2015.
32Cf. COPYRIGHT.GOV. United States Copyright Office. Copyright in General - FAQ. Disponível em:
<http://www.copyright.gov/help/faq/faq-general.html>. Acesso em: 09 jul. 2016. Importante destacar que nos EUA, o regime que tutela direitos autorais é o de copyright. No Brasil seriam os “direitos autorais”. Define-se
copyright como sendo uma “forma de proteção fundamentada pela Constituição dos Estados Unidos e reconhecida por lei para obras originais fixadas em meios tangíveis de expressão”. O sistema de copyright e de
direito autorais, apesar de tratarem das mesmas matérias, qual seja, bens intelectuais, contam com diferenças entre si. Esses sistemas, além de possuírem diferentes origens, priorizam direitos diferentes.
33 PERSONALIZED rocket ornament. Thingiverse, 28 nov. 2013. Disponível em:
empresa teria o mesmo interesse em cessar as vendas caso aquele que imprime o faz na
privacidade de seu lar, sem objetivos comerciais?
Diante deste contexto, precisa-se compreender o que é a Propriedade Intelectual. A
propriedade intelectual é vista como “a propriedade sobre as criações do intelecto humano”34.
Mas o que isso significa? Quer dizer que o indivíduo, ao exercer sua criatividade, acrescenta algo à sociedade. Esse “algo” pode vir a ser físico ou não, mas independentemente, só veio a se concretizar devido a uma operação de caráter intelectual que teve como resultado algo
novo. Esse resultado pertence ao seu criador.
A obra produzida poderá ter caráter artístico ou industrial – diferenciam-se no sentido
de que a obra ou a invenção industrial visa a produção de efeitos no mundo material, isto é,
preza-se pela utilidade da coisa. Enquanto que a obra artística produz efeitos no mundo da
percepção, da comunicação. No entanto, independentemente de tratar-se de uma obra
industrial ou artística, o que se protege por meio da propriedade intelectual é a realização em
concreto e não apenas a ideia por trás da obra.35
Conforme explica Newton Silveira, direitos sobre bens imateriais são englobados pela
chamada propriedade intelectual. A propriedade intelectual (gênero) pode ser dividida em
duas espécies: direitos autorais e propriedade industrial. Ambas as espécies tutelam bens
imateriais, isto é, os direitos sobre certos bens incorpóreos constituem direitos reais36, objeto
de PI. Estes de diferenciam conforme explicado acima: enquanto os direitos autorais
protegem a criação artística, a propriedade industrial protege bens voltados para o meio
industrial, objeto com utilidade. Ainda, é no ramo da propriedade industrial que se encontra a
proteção à marca, patente, modelo de utilidade (MU), desenho industrial (DI) e indicações
geográficas.
Cumpre mencionar também o regime de proteção aos softwares, ou programas de
computador. Se inclui na proteção de direitos autorais, apesar de ter legislação específica.
Assim, o ordenamento jurídico brasileiro conta com quatro leis principais: a Lei da
Propriedade Industrial (LPI) – Lei n° 9.279/1996; a Lei de Cultivares – Lei n° 9.456/1997; a
Lei de Direitos Autorais (LDA) – Lei n° 9.610/1998; e a Lei de Software – Lei n° 9.609/1998.
A Propriedade Intelectual passou a ser uma necessidade devido ao rápido
desenvolvimento do processo informacional e da economia industrial. A partir do momento
34 WIPO. General course on Intellectual Property Rights (DL-101). In: APOSTILA de direitos intelectuais.
FGV Direito Rio, 2014, p. 06.
35 SILVEIRA, Newton. Propriedade intelectual: propriedade industrial, direito do autor, software, cultivares,
nome empresarial, abuso de patentes. 5. ed. Barueri, SP: Manole, 2014, p. 13.
em que a tecnologia existente, possibilita a reprodução em série de produtos a serem
comercializados, conforme bem coloca o autor Denis Borges Barbosa, passa a existir, além da
propriedade sobre o produto em si, direitos relativos a ideia de criação, produção e, mais do
que isso, a reprodução de um produto.37
Há grande incidência de infração aos direitos autorais, marcários e àqueles
relacionados a patentes sobre determinada criação, devido a facilidade de compartilhamento
de arquivos em plataformas online. A depender da área da propriedade intelectual, o curso de
ação a ser tomado pelo detentor de direitos diverge.
Por exemplo, no que tange a patentes, Ben Depoorter38 explica que caso um detentor
de patente se sinta prejudicado por determinada impressão 3D e queira entrar com uma ação,
este terá que primeiro apresentar argumentos de que a criação e distribuição de arquivos CAD
seria o equivalente ao uso e venda não autorizados do objeto patenteado. No caso do detentor
de direitos marcários, fica ainda mais difícil de ser provar a infração uma vez que a logo e/ou
a marca identificadora podem ser facilmente removidas dos produtos eventualmente
impressos. Isto tem uma correlação direta com a questão do consumidor, que poderá, de
forma equivocada, adquirir um produto impresso em 3D sem saber de sua origem e que não
se trata de um produto original. Em relação ao copyright, o autor menciona a separação
conceitual, também chamada por alguns de the Severability Rule39, onde ocorre a separação
conceitual dos aspectos úteis e dos aspectos artísticos e criativos do produto/objeto. No
entanto, não há uma regra fixa de como aplicar esse conceito. A lei não acompanha a
tecnologia, obviamente, esta é uma das instâncias de desafio à lei.
37 BARBOSA, Denis Borges. Uma introdução à propriedade intelectual. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris,
2003. “A aceleração do processo informacional e o desenvolvimento da economia industrial passaram a exigir a criação de nova categoria de direitos de propriedade. Tal se deu, essencialmente, a partir do momento em que a tecnologia passou a permitir a reprodução em série de produtos a serem comercializados: além da propriedade sobre o produto, a economia passou a reconhecer direitos exclusivos sobre a ideia de produção, ou mais precisamente, sobre a ideia que permite a reprodução de um produto. A estes direitos, que resultam sempre numa espécie qualquer de exclusividade de reprodução ou emprego de um produto (ou serviço) se dá o nome de “Propriedade Intelectual”. Já ao segmento da Propriedade Intelectual que tradicionalmente afeta mais diretamente ao interesse da indústria de transformação e do comércio, tal como os direitos relativos a marcas e patentes, costuma-se designar por “Propriedade Industrial”.
38 DEPOORTER, Ben. Intellectual property infringements & 3D printing: decentralized piracy. Hastings Law
Journal, v. 65, p. 1491-93, 2014. Disponível em: <http://repository.uchastings.edu/faculty_scholarship/1011>. Acesso em: 31 mar. 2016.
39 WEINBERG, op. cit., p. 09. Tradução livre: “Se um objeto detém características artísticas e utilitárias, a
Dada a defasagem entre a tecnologia e a lei, não há como resolver questões como as
mencionadas acima por meio de precedentes, principalmente no Brasil, onde ainda há pouco
conhecimento do que se trata a impressão 3D e suas repercussões legais. Enquanto que nos
Estados Unidos, casos envolvendo direitos autorais são geralmente iniciados com a parte que
se sentiu prejudicada enviando um notice and takedown. Como no caso Tintin, o site
Thingiverse, ao receber a notificação, retira o conteúdo imediatamente.
No Brasil, com a entrada em vigor do Marco Civil da Internet (MCI), Lei nº
12.965/2014, em seu art. 1940, dita-se claramente que quando se fala de “provedor de
internet”, e em consonância com jurisprudência consolidada este só será responsabilizado por
danos decorrente de terceiros se, após ordem judicial específica, deixar de tomar as
necessárias providências para cessar tais danos. No entanto, em se tratando de uma situação
análoga ao caso Tintin, é possível que apenas por meio de uma notificação extrajudicial à
plataforma (que se equivale a um provedor de serviço) efetue a retirada do conteúdo
indesejado por estar infringindo direitos autorais de terceiros. A necessidade de uma ordem
judicial específica, conforme prevê o mencionado artigo, não se aplica quando se estiver
tratando de direitos autorais e conexos. Isto é, permanece em vigor o notice and takedown.
Essa ressalva encontra-se presente no §2º do mencionado artigo41.
Atualmente o entendimento que prevalece é que não cabe ao provedor a
responsabilidade por falta de monitoramento de conteúdo42. Então, quando aplicado este
entendimento, não cabe exigir que aqueles que controlam as plataformas online sejam
obrigados a monitorar conteúdo para identificar eventuais infrações a direitos de terceiros.
Em princípio, plataformas como a Thingiverse e a Shapeways, provedoras de serviço,
têm a obrigação apenas de fornecer dados, cumprindo, em última instância, com as
notificações recebidas. Os seus usuários, que nelas postam coisas, disponibilizam modelos e
designs, se caracterizam como provedores de conteúdo. Aqueles que acessam as plataformas e
40 Marco Civil da Internet (MCI), Lei n° 12.965/2014. Estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para
o uso da Internet no Brasil. “Art.19. Com o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, o provedor de aplicações de internet somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências para, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente, ressalvadas as disposições em contrário”.
“Art.18 O provedor de conexão à internet não será responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros”.
41 Lei nº 12.965/2014. “Art.19, §2º A aplicação do disposto neste artigo para infrações a direitos de autor ou a
direitos conexos depende de previsão legal específica, que deverá respeitar a liberdade de expressão e demais garantias previstas no art.5º da Constituição Federal”.
42 SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. STJ. Recurso Especial nº 1192208/MG, 3ª Turma, rel. Mina. Nancy
fazem uso do que ali se encontra disponibilizado se caracterizam também como usuários, mas
usuários-consumidores. A plataforma Thingiverse no caso Tintin, ao ser notificada, retirou o
conteúdo (o design do foguete), quando já outro arquivo havia sido compartilhado. De acordo
com a jurisprudência consolidada não é viável que a provedora controle o que seus usuários
estão compartilhando ou se violam direitos autorais de terceiros. A evolução rápida da
produção tecnológica e sua comercialização, tende a afastar cada vez mais da aplicabilidade
das leis que não atingem infratores, perdendo sua relevância. Não sendo possível
responsabilizar as plataformas e diante da dificuldade em encontrar o usuário – possível
infrator, a quem cabe essa responsabilidade? Seria possível relativizar esta regra em casos
específicos?
A questão de falta de controle da produção tecnológica e do compartilhamento de
arquivos pode resultar em produtos 3D contrafeitos. Este mercado pirata continua a existir. O
que se agrega com a impressão 3D é a possibilidade do consumidor DIY, isto é, produzir ele
mesmo o produto ou objeto desejado. Isso afetará o mercado, tanto no comércio como na
indústria. Conforme explica Depoorter43, ao imprimir um produto patenteado infringe-se o
direito obtido por meio de determinada patente. Da mesma forma, os titulares de direitos
marcários também são afetados quando da impressão 3D de objeto que inclui marca, ou ainda,
quando a marca identificadora é retirada do objeto. Ressalta-se, no entanto, que uma coisa é
um indivíduo comercializar um produto pirata, o que é proibido por enganar o consumidor
quanto à sua originalidade e possível qualidade inferior, além de que prejudicam a imagem da
detentora dos direitos marcários. Nesse cenário, há um dano evidente, tanto ao consumidor
quanto à detentora dos direitos. Outro cenário, com o crescer do movimento DIY, seria o
próprio consumidor imprimir um produto protegido por direitos autorais ou marcários para
uso próprio, como se original fosse, sem a devida autorização. Há que se falar em dano nessa
hipótese? Não, uma vez que o consumidor, aqui agindo como maker não está sendo enganado
e não tem sua percepção quanto a qualidade dos produtos originais alterada. Não deixa de ser,
entretanto, um problema a ser enfrentado, pois se passa a ser possível a impressão do produto
desejado, perde-se o sentido de adquirir o produto original, o que poderá, ao longo prazo, vir a
afetar o mercado e prejudicar o detentor de direitos.
Dado este cenário, é necessário avaliar se medidas agressivas devam ser tomadas e se
tais medidas realmente surtirão os efeitos esperados. A indústria da pirataria desenvolve na
medida em que as restrições aumentam. Neste sentido, Depoorter sustenta que os métodos
agressivos dificilmente solucionam qualquer questão, e poderão atingir o efeito posto,
prejudicando os próprios titulares de direitos. Considera-se as plataformas Thingiverse e
Shapeways, que recebem notificações de forma recorrente por incluírem em seus sites designs
baseados em obras protegida, mais dificilmente resultam em litígios. O autor explica que se os
detentores de direitos foçarem a aplicação das leis de PI, acabarão gerando uma visão
negativa quanto aos seus próprios direitos:
De forma geral, na medida em que detentores de direitos impõe a aplicação e cumprimento de leis, a percepção negativa provavelmente aumentará, o que pode vir a ser prejudicial aos interesses dos detentores de direitos de PI. Se o público entender ser a aplicação de leis excessiva, essa percepção poderá reforçar o entendimento de que o sistema legal não é legítimo ainda, que as regras legais são injustas.44
Depoorter faz ainda uma relevante observação: a impressão 3D, em certas indústrias,
além de diminuir o custo de infrações envolvendo a propriedade intelectual, também reduz o
custo de design e produção. Sendo assim, considerando que os direitos de PI têm como
objetivo incentivar a criação e permitir que os detentores de direitos de PI possam recuperar
seus investimentos, mas quando esses custos diminuem, a necessidade de direitos de PI
também diminui. Portanto, quando a impressão 3D reduz o custo de produção e distribuição
de produtos, a aplicabilidade de direitos de PI na impressão 3D é plausível de criar custos
sociais, sem gerar benefícios. Isso justifica a adaptação do direito de propriedade intelectual
para que o mesmo se adeque ás mudanças sociais e econômicas que passam a ser afetadas
pela impressão 3D.45
Outra discussão de interesse a mencionar é a opinião de autores ingleses sobre a
questão da impressão 3D em âmbito privado, para uso pessoal. Muito se discute se há
diferença entre a reprodução de objeto tridimensional para uso comercial e para o uso pessoal:
O uso pessoal da impressão 3D para fazer cópias de objetos domésticos e partes avulsas não infringe os direitos de PI que comumente protegem tais itens, como a proteção do design, patentes ou marcas.46
No entanto, é difícil provar que determinada pessoa esteja fazendo uso pessoal de um
objeto reproduzido. E, ainda mais, como impedi-la de reproduzir determinado objeto por
quantas vezes ela quiser para uso próprio ao invés de adquiri-lo. Caberá à empresa detentora
44 DEPOORTER, loc. cit., tradução livre. 45 DEPOORTER, op. cit., p. 1503.
de direitos de PI que se sentir prejudicada ingressar com uma ação para demonstrar que
determinado indivíduo não está reproduzindo tal objeto ou produto apenas para uso pessoal.
Diante das situações problemáticas aqui exploradas, as empresas através de suas
tecnologias vêm buscando soluções para suas implicações na Propriedade Intelectual em face
da impressão 3D. Atualmente, no âmbito da impressão 3D, este é o viés que mais se estuda.
Há diversas vias de discussão e propostas de solução a investigar. Por exemplo, em um estudo
independente sobre as implicações da Propriedade Intelectual, comissionada pelo Intellectual
Property Office (IPO) na Inglaterra47, também mencionado no caso Tintin, consta a ideia de
licenciar obras disponibilizadas em plataformas online, assim como evidenciar o tipo de
arquivo CAD sob a proteção do direito autoral. Claro que as propostas de alterações e de
medidas de controle se multiplicam constantemente, mas dificilmente vão impedir o
compartilhamento, que em última instância não é ou não deveria ser o objetivo final. Ainda
que possível, por que frear o desenvolvimento dessa tecnologia? Regras e sugestões de uso,
poderiam alterar a forma com que a reprodução e compartilhamento de arquivos online é
explorada?48
Este estudo aponta para uma pauta de discussão de aspecto fluído de um processo em
andamento, irrefreável, que se alimenta de inúmeras possibilidades e controvérsias. As
situações mencionadas servem como um overview das questões jurídicas que se associam à
impressão 3D. A incidência49 da tecnologia 3D online denota que o usuário-consumidor,
como parte integrante do mercado online, ocupa posição em ambos os polos, ativo e passivo.
O que se evidenciou a partir desta pesquisa é que muito se explora na área da
propriedade intelectual e como vem sendo afetada pela tecnologia da impressão 3D. No
entanto, esta não é a única área do direito que sofrerá impactos. Assim, o que este estudo
objetiva demonstrar é a implicação que a tecnologia da impressão 3D poderá ter no campo do
Direito do Consumidor. Será explorada a figura do consumidor, do consumidor-usuário e do
consumidor/produtor/criador, e como este(s) poderá(ão) se proteger frente a defeitos ou vícios
do produto/serviço. O consumidor interage diretamente com o produto, ele pode criar o seu
próprio objeto e imprimi-lo em sua própria impressora 3D ou então apenas contratar o serviço
de impressão ou ainda interagir em plataformas online, compartilhando suas criações com
47 MENDIS, Dinusha; REEVES, Phil; SECCHI, Davide. A legal and empirical study into the intellectual property implications of 3D printing. Intellectual Property Office, Executive Summary, 2015, p. 6-7. Disponível
em: <https://www.gov.uk/government/>. Acesso em: 21 out. 2015.
48 WIPR. World Intellectual Property Review. The shape of things to come: 3D printing. mai. 2013. Disponível
em: <http://www.worldipreview.com/article/the-shape-of-things-to-come>. Acesso em: 09 jul. 2015.
49 Incidência: é usado como termo jurídico, definido na teoria geral do direito como a coincidência da situação
demais usuários. A possibilidade de interação direta pode levar o consumidor a incorrer em
erro despercebido e inesperado, resultando em dano próprio ou alheio. Daí o surgimento das
questões jurídicas na dinâmica entre deveres e direitos que coexistem em uma relação de
consumo, assim definida pelo Código de Defesa do Consumidor50. Como explorado na
situação hipotética envolvendo a impressão de uma arma em 3D que resulta em danos a
terceiros, quando o consumidor sofrer um dano por falha da tecnologia, por vício desta ou
pelo emprego da tecnologia por terceiros que lhe resultam em dano, a quem o consumidor
deve recorrer? Quem figura na relação? Será sempre tida como uma relação de consumo,
aplicando-se, portanto, o CDC? Recorre-se aos elementos mais “acessíveis” da relação?
O CDC é extremamente abrangente de forma a conceder a maior proteção ao
consumidor, considerado, na maioria das vezes, como hipossuficiente. Assim, é plausível
argumentar que sendo o dano decorrente de erro ou defeito de fabricação da impressora 3D,
responsabiliza-se a empresa que fabricou e vendeu a impressora 3D. No caso de a empresa ser
apenas uma intermediária, prestando o serviço da impressão, mas sem que imprima o objeto
final, seria responsável aquele que efetivamente imprimiu, sem que a empresa tenha qualquer
responsabilidade? E no caso de plataformas online, como a Thingiverse a Shapeways? São
apenas provedoras e não podem ser responsabilizadas? Ao configurarem relações de
consumo, sendo possível identificar consumidor e fornecedor, não há como negar a aplicação
do CDC para resolução de conflitos, conferindo ao consumidor ou consumidor-usuário a
proteção e amparo legal necessários. No entanto, algumas relações podem vir a ser mais
desafiadoras, por exemplo, ao envolver plataformas online e usuários desconhecidos que se
perdem no âmbito da internet.
Reitera-se a afirmação feita no princípio: as diversas instâncias na esfera da produção
intelectual nas plataformas online, inevitavelmente resultam em infrações e violações de
direitos previstos – e mesmo por serem previstos, dado seu caráter de processo em andamento – nas normas legais, que se multiplicam à medida que novos produtos são expostos no mercado.
Tendo exposto essas considerações iniciais quanto às implicações da impressão 3D no
âmbito jurídico, será demonstrado a seguir como se dá o processo da impressão
tridimensional na prática e como esta importará efeitos no âmbito do direito do consumidor
50 Código de Defesa do Consumidor (CDC), Lei nº 8.078/1990 - Dispõe sobre a proteção do consumidor e dá
ou no consumidor-usuário, conceito este também definido de forma clara no próximo
capítulo.
3 3D PRINTING FOR DUMMIES
Cody Wilson, conhecido por advogar a favor do armamento e por ser o criador dos
arquivos digitais para a arma Liberator, inteiramente impressa em 3D, afirma que “Qualquer
regulamentação governamental será irrelevante na era digital”51. É consenso geral que, por
ainda não ser regulamentado o uso da impressão 3D, este é um fator que dá espaço a casos
como esses. Wilson, junto com o grupo Defense Distributed52, disponibilizou esses arquivos
online. Essa disponibilização viola ao menos duas regulamentações internacionais que
proíbem a exportação de armas que não tenham sido legalmente aprovadas53. Mais do que
isso, a partir da disponibilização online desses arquivos, perde-se por completo o controle no
que concerne ao acesso e a produção (por meio de impressoras 3D) de armas de fogo
totalmente funcionais. No entanto, questiona-se: o ato de disponibilizar os arquivos online se
equipara ao ato de exportar? Seria o compartilhamento de arquivos online de armas
equiparáveis ao compartilhamento do objeto físico? Entende-se por exportação a saída de
determinada mercadoria do território aduaneiro; é um bem ou serviço que é enviado para
outra parte do mundo com fins comerciais54. Pressupõe-se sua legalidade sendo, em regra,
regida por legislações dois países envolvidos. Entretanto, ao se tratar de comércio ilegal, há
quem entenda não se tratar de uma exportação por não estar sujeito a quaisquer regras. Assim,
o ato de Wilson ao disponibilizar os arquivos online seria o mesmo que exportar?
Casos como este servem para nos atentar quanto a falta de regulamentação assim
como as questões de responsabilidade. A partir do momento em que passa a ser possível o
compartilhamento de arquivos CAD para impressão de uma arma de fogo, como será a
51 GREENBERG, Andy. Gun group: we’ll pay $15k for your carbin fiber 3-d printer. Wired, 03 mar. 2015.
Disponível em: <https://www.wired.com/2015/03/gun-group-well-pay-15k-carbon-fiber-3-d-printer/>. Acesso em: 18 mar. 2016.
52 Cf. DEFENSE DISTRIBUTED. Nonprofit anti-monopolist digital publishing. Disponível em:
<https://defdist.org/>. Acesso em: 18 abr. 2016. “A Defense Distributed é uma corporação sem fins lucrativos pendente de autorização no Texas, EUA. Seu propósito é o de defender o direito de ter e portar armas conforme é garantido pela Constituição Americana, além de produzir de forma colaborativa e publicar informação sobre a manufatora digital de armas para o público em geral”.
53 GRUNEWALD, Scott. Cody Wilson’s 3D printed liberator lawsuit on its way to the 5th circuit court of appeals. 3D Print.com, 26 ago. 2015. Disponível em:
<https://3dprint.com/91850/cody-wilson-5th-circuit-court/>. Acesso em: 19 mar. 2016.
54 MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO EXTERIOR. Exportação.
regulamentação55 (se é que haverá regulamentação) desse tipo de impressão? Como impedir o
compartilhamento desses arquivos e sua posterior impressão por qualquer um que tenha
acesso a uma impressora compatível e o conhecimento técnico necessário?
Esses foram alguns dos questionamentos que começaram a surgir em 2013, ano em
que Wilson inventou esta arma e seus componentes que podem ser impressos em 3D. Mais do
que buscar uma forma de controlar e regulamentar algo, passa a ser uma necessidade pensar
nas consequências jurídicas advindas do uso e possível dano consequente de uma arma
impressa em 3D. Alguns alegaram que Wilson, ao disponibilizar esses arquivos digitais, não
estaria distribuindo armas. Isto é, ao disponibilizar os arquivos digitais livremente e distribuir
armas seriam então atos distintos. Se um indivíduo obtém acesso a esses arquivos e decide
imprimir sua própria arma privadamente e acaba usando essa arma –, efetivamente atirando
em alguém, será que este indivíduo seria processado da mesma forma caso tivesse utilizado
uma arma convencional?
Há, portanto, novos elementos nessa relação, começando por aquele que compartilhou
esses arquivos, passando pela plataforma que os disponibilizou e, chegando ao
usuário-produtor que com seu próprio software alterou o arquivo e o imprimiu em sua própria
impressora. E se este indivíduo atirou inadvertidamente? Como reagiria e agiria a
jurisprudência no Brasil diante deste cenário? Diante de uma situação parecida com o
hipotético caso mencionado nas páginas 16 e 17, que envolveu a impressão de uma arma
funcional em 3D, será que a regulamentação de arquivos digitais seria algo razoável diante
deste cenário? Produtores de impressoras 3D poderão ser obrigados a bloquear determinados
arquivos para que estes não sejam impressos em suas máquinas?
A tecnologia da impressão 3D surgiu na década de 70 e vem sendo utilizada tanto para
fins industriais como para fins domésticos. Assim sendo e dada a situação hipotética exposta
acima, deve-se considerar cenários que recentemente eram inimagináveis.
Cabe esclarecer o que é a impressão 3D, quais são as características e as aplicações
desta tecnologia. O que a diferencia de outras tecnologias existentes? Como funciona a
tecnologia 3D? Que impacto causou, e tem causado, no mercado consumidor? Porque seria
ela uma inovação? Em 2013, o Presidente dos Estados Unidos referiu-se à tecnologia da impressão 3D como uma invenção “com o potencial de revolucionar a forma com que
55 CASTANHEIRA, Bruna de Freitas. Lei da Califórnia quer regulamentar uso de impressoras 3D nas
criamos praticamente qualquer coisa”56. Uma informação positivamente generalizante que
aponta para restrições a se considerar quanto a sua aplicação.
A tecnologia da impressão 3D reproduz um objeto físico, lhe dá vida palpável em
tempo imediato. A impressão 3D, de certa forma, atalha um processo industrial específico.
Uma invenção que disponibiliza no mercado objetos e produtos que até o seu surgimento,
seguia um processo industrial tradicional, convencional que impunha um tempo determinado
de fabricação e falta de especificidade em relação à demanda do consumidor. A impressora 3D “doméstica”, para o consumidor, vem ganhando mais espaço e atraindo consumidores que buscam um investimento nesta tecnologia.
Assim, considerando o crescente número de consumidores que passam a buscar e
investir nesta tecnologia, é necessário considerar o impacto que a impressão 3D terá em
relação a outras tecnologias já existentes no mercado. Ainda que a tecnologia 3D requeira
tempo para impactar o mercado em que atua, é possível dizer que a longo prazo a “desintermediação” propiciará maior poder de escolha ao consumidor, manipulando ele próprio a impressora 3D ou contratando serviços terceirizados para impressão do que seja ou
do que já tenha criado. Assim, vislumbra-se uma potencial mudança tanto na produção como
no consumo de certos bens e serviços. A ação direta para obter o objeto ainda que feita por
empresas ou terceiros que o imprimam, se associa a benefícios e ganhos de produtividade
para o consumidor dado que a impressão 3D apresenta vantagens que se sobrepõem ao
processo de manufatura tradicional. Isso claramente impacta o valor do objeto, tanto no que
tange a valor pecuniário como também no que concerne o poder criativo de qualquer
consumidor interessado em dado objeto que lhe possa ser útil ou que supra um desejo sem
viabilidade no mercado.
Quando analisada, a relação do custo benefício é maior tanto financeiramente como
artisticamente quando comparado a simples compra de algo já concebido, não exatamente o
desejado, mas que se aproxima ao idealizado. Portanto, é também necessário considerar a
forma com que essa tecnologia e os benefícios que a acompanham impactarão empresas que,
possivelmente, perderão sua clientela. Assim, ousa-se dizer que muito provavelmente será
necessária uma reestruturação de áreas como direito empresarial. Por exemplo, há uma
crescente preocupação em determinados setores da indústria consumidora no que concerne a
56 REMARKS by the President in the State of the Union Addres. The White House, President Barack Obama, 12