REFLEXÕES CONCERNENTES AO CONCEITO TRABALHO NA COTIDIANIDADE ( em Agnes Heller e Michel Mafesoli)*
Mata Regina Cezar Vzl
RESUMO: Ensaio sobre os escritos de Agnes HELLER acerca da ategoria trabalho, com a i ntenção de marcar paralelos entre os pensamentos desta autora e os de Michel MAFFESOLl. Fica evidenciado que em ambos são manifestas as análises da vida cotidi ana, espaço h istórico do desenvolvimento individual e social. HELLER trabalha eta ate goria - cotidiano - dentro de uma abordagem "construtivista-dialética", onde o sujeito da história é visualizado em sua temporalidade (passado, presente e futuro) , dentro do processo de transformação individual e coletiva. Já a aodagem de MAFFESOLl contém um núcleo "fenomenológico-compreensivo", onde o sujeito da história é perseguido na dimensão do presente ("vida comum/vida banal").
UNITERMOS: Filosoia - Trabalho
PALAVRAS INICIAIS ...
A presente exposição baseia-se n o s escritos de Agnes Heller acerca da categoria trabalho. A intenção i nicial de marcar paalelos ente os pen samentos desta autora e os de Michel Maffesoli efetivou-se de forma que foi possível construir um teto repleto de aproximação e ditanciamento entre eles e a própria a utora .
Tanto em Heller como em Maffesoli são evi dentes as análises da vida otidiana, espaço his tórico do desenvolvimento i nd ividual e social. Heller trabalha esta categoria - otidiano - dentro de uma abodagem "conrtvitadialétia'� onde o s uj e ito da h istó ria é v i su a l izado em sua temporalidade (passado, presente e futuro) , den tro do poceso de transformação i nd ividual e o letiva . Já a abordagem de Maffesoli contém uma núcleo "fen6menológico-compeensio", onde o sujeito da história é perseguido na d imensão do presente ("vida comumvida bana!'?, como ele mesmo d iz: "0 cotidiano nlo é a denegaçlo da História: é a história vivida na dia-a-dia".
Passo agora a apresentar alguns fragmentos do produto de reflexão i nteriorizada , através da linguagem escrita :
Paa Agnes Heller, o trabalho é um dos cami nhos à genericidade do homem . É u ma atividade básica e genéia do homem , é o interâmbio ete a sociedade e a natureza . Natureza apreendida, não como realidade contemplativa e dada, mas enquanto ontução do homem. O tabalho é uma objetividade do homem. Para ela, a vida cotidia na seve de mediadoa entre o mundo imediato e paticular, e as objetivações.
Em Maffesoli esta categoria trabalho não é central nas análises da vida cotidiana. Quando focaliza , é para salientar momentos d o "nlo tra balho", entendido por ele como um "hiato" exis tente na vida cotid i a n a , sendo u ma brecha i nstaladora da duplicidade.
A duplicidade, o simu lacro , a aparênCia , a re petição, a astúcia, a teatralidade .. . aparecem na dimensão do trabalho como "nlo tabalho", o qual é uma das minúsculas situações da vida cotidi ana - pate do imaginári02 - O "nlo trabalho" é
• Trabalho apresentado à disciplina Cotidiano 1 1 do Curso de Doutorado em Filosofia da Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina - U FSC e vinculado ao Núcleo de Pesquisa Educaçao e Trabalho em Enfermagem (NEPETE) -REPENSUL do Curso de Enfermagem da U niversidade do Rio Grande U RG, e como Tema Livre no 46° Congresso Brasileiro de Enfermagem. Poto Alegre, 30 de outubro a 4 de novembro de 1 994.
1 Enfermeira, Docente do Curso de Enfermagem da URG.
2 O imaginário faz pate do dado scial, " . . . a pate do imaináio é impotante naquilo que chamamos de inúsculas
ituações da ida cotidiana ( ... ) o fantástico e a ficçao nao possuem outro sentido senao organ izar um espaço vital, formado o cotidiano aceitável". (5. p. 8>87)
aprendido como necessário para a "sobrevivên cia do trabalhador" no processo podutivo. O au
tor, ao meu ver, impulsiona o significado negativo do trabalho para a magem do trabalho produtivo econômio, ou seja, omo atividade que o homem realiza "somente" para suprir suas necessida des imediatas ou mediatas. A paixão, ou pazer ... não apareem no trabalho propriamente, mas sim nos momentos de "não trabalho". O trabalho se
ria como uma ordem social, onde os indivíduos, aparentemente integrados nela, fazem esistên cia por meio do corpo mole - "não trabalho".
O traalho faz pate do lado iluminado e o "não trabalho" do lado do sombra, que engendra a moleza, a passividade e a resistência. Este mo mento de "não trabalho" seve para introduzir o imagináio no posaísmo da vida diáia, neste ao em paticular no trabalh03•
Essa duplicidade (trabalho/não trabalho) usa de astúcia contra o sistema, a qual é " .. . um dos fatres esenciais da iação de um espaço e de um tempo fantástico na vida cotidiana". (5, p. 67-70)
O trabalho seria uma prática societal , que
engenha instituições de trabalho, de controle, de dominação; e o "não trabalho " faria pate do su rrealismo empírico q ue se oferece como concretude. A prática societal permite a ordem da moral, e o surealismo a uma expressão étia, que ajuda o homem a viver o seu destino do dia a-di a , através de u m imaginai l uxuria nte e desodenado. (6)
O trabalho, então, é para Maffesoli uma ins
tância que condiciona o indivíduo, Posso dizer, que o não trabalho, seia a possibilidade de trans fomação/ resistência desse condicionamento.
Para Maffesoli, o mundo social não pode ser reduzido ao mundo da produção (ao mundo da produção político-econômica). Ele propõe um enfoque voltado para as múltiplas e minúscllas situações e práticas da vida cotidiana, onde vive um conjunto misto de objetividades e de fantasi as, de estruturas controláveis e de mitos incom peensíveiS que configuram a realidade.
Assim sendo, não há uma preocupação do autor no afastamento, na superação do cotidia-' no, para buscar atingir a esência do lomem, dado que esta ou não, na própria cotidianidade.
Em Heller a vida cotidiana é a vida que todo homem vive. " .. . sem nenhuma exceção, qual quer que seja sua posição na dvisão do trabalho intelectual e fisico. Ninguém consegue identii car-se com sua aivdae humano�néca a pon- . to de poder desligar-se inteiramente da cotidiandade. E, ao contrário, não há nenhum homem, por insubstancial que seja, que vive tão somente na cotidianidade embora essa o obser va preponderantemente". (2, p.17)
A autora visualiza a paticipação do homem na vida cotidiana com todos os seus aspetos individuais, onde este coloca em funcionamento todos os seus sentidos, todas as capacidades inteletuais, suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, paixões, mil idéias e ideologias. Esse homem da cotidanidade é " ... atuante e lui, atio e eepto, mas não tem tmo nem possibiidade de se absoNer inteiramente em nenhum desses aspectos; por isso, não pode aguçálos em toda sua intensidade". (2, p.17-18) Vejo a posibilidade do humano-genérico osta no des loamento da própria vida otidiana. Deslocamen to que o homem pode oncetizar atavés de suas ações (ate, ciência, filosofia ... e do trabalho). Isto é, através do proceso contínuo de eteriorização do sujeito e ao mesmo tempo do processo de eprdução do paticular.
Agnes Heller, nesta trajetória, apresenta sua concepção de trabalho vinculada ao significadO or Max, onde a ategoria trabalho abange duas dimensões: uma, enquanto execução de um tra balho (Labour), sendo pate orgânica da vida co tidiana, e outra, enquanto atividade de trabalho (Wk), sendo uma objetividade diretamente ge nérica.
Na diferenciação entre estes dois conceitos, . trabalho -Wok-e o trabalho como Labour, a au tora, repotando-se a Max, salienta que a dife rença está no próprio trabalho, está em produzir valor de uso. O produto do tabalho contém a po sibilidade do uso, do ser ou não utilizado; nessa direção trabalho seria Wok, onde a prdução de mercadoria em si não viabiliza a sociedade e' a genericidade, mas estas só se realizam através do intercâmbio de mercadorias, na qual todo o trabalho é trabalho abstrato, que produz um
va-3 Ao analiar o ·fantásico coiiano· Mafesol i expressa: ·Ao lao da ireçlo inear e segura que a estlo olHca e econOca oicial tenta oganiza, existe um pocesso ico em acasos, eto e mleza e paidae, que avança ao tmo das paixões, encontros ( . . . ) Aqui nao existe rquê; a causalidade é praticamente sem efeito" . (5. p.se) •
lor, (valor de troca). A sociedade do trabalho, en tão, se efetiva através da troca de mercadorias, mas para que isso ocorra, o produto do trabalho deve sempre satisfazer uma necessidade social e ter o temo de trabalho socialmente necessáio para produzí-104.
Vale dizer agora, que o homem é unidade na divesidade. Todo o homem é um ser singular par
ticular, que apesenta determinadas qualidades e atitudes e necessidades próprias, " .. . sua singu laidade, ainda que paticula, é sempre social,
sociaizada". (3, p.31) .
Mas se ao contrário. meu produto não satis faz a nenhuma necesidade social. ou é produzi do num tempo de trabalho supeior ao socialmen te necessário. não é Work e sim Labour.
O trabalho dirigido a satisfazer as necessida des paticulares e naturais é evidente no homem como fator de primeira impotância; ele sintetiza estas necessidades e as contrapõe como fato sujetivo ao meio natual. que é o oetivo de suas ações.
Na cotidianidade. a concepção de trabalho. para este homem, fica centrada "no que se deve fazer'. onde as experiências e o pensamento do dia a dia não distingue entre "0 que aguém deve fazer' e "0 que deve necessaiamente ser feito".
Deste modo. na consciência cotidiana. o traba lho não significa somente constrição. a concep ção ontém também a causa desta constrjção. sendo o traalho uma atividade que deve er cum prida·para e viver (ganhar o pão de cada dia). O
significado do trabalho fica restrito a um mera descrição empírica. sendo o Wok considerado como Labour.
Agora, então. no plano de repodução do par ticular. o trabalho é uma atividade cotidiana. O que Heller chama de puro labour, carateriza-se quando numa deteminada atividade de tabalho.
torna-se pate da reprodução cotidiana do pati cular como paticularidade. ou individualidade, e seu produto não chega a circular na sociedade.
Heller considera que no plano econômico e
sociológico. a categoria Wok é uma objetivação
imediatamente genérica. como já referido. cujo
fundamento é o processo de produção. o inter câmbio ogânico entre a natueza e sociedade. e cujo resultado é a reprodução material e total da sociedade.
Nesta objetivação. o homem sujeito do traba lho. é um ser genérico. um ser social . que só existe em sociedade e só pode apropriar-se da natureza com a mediação da sociedade. (3, p.31)
A tansformação da natueza se dá movida pela necessidade de satisfazer carências. pois o ho mem em seu estado natural, é desprovido de con diç�s que possam garantir sua plena sobrevi vência. Estas são de exploração e transformação e se convetem em trabalho. em sentido amplo. Através deste. o homem produz sua subsistên cia, transforma a natureza e se transforma (hu mano-genérico) , constrói instrumentos que auxi liam. e/ou satisfazem as carência individuais e coletivas.
Evidencia-se assim . que o trabalho é ao mes mo tempo uma ocupação cotidiana e uma ativi dade imediatamente genérica q ue supera a cotidianidade. e se deriva de sua especificidade antropolgia, não tendo nenhuma elação nees sariamente com sua alienação5.
ÚLTIMAS PALAVAS ...
O privilégio à categoria trabalho contém a in-tenção e a ação de apreender o trabalho como
" .. . o movimento que, sendo em contato a interioridade/exteior do indivIduo com a exteioidade os otos, tansfma os dois extemos na ateidade osta ou onuI da das esrutuas soiais, no inteior das quais
eles se reaizam como indivlduos". (1, p.9)
O homem/sujeito aplica esta imediação (tra balho) nas relações com seus pares - para alcan ce do conhecimento de si mesmo e dos outros. Potanto, o conhecimento do homem ocorre em suas relações. a patir das ações coordenadas formadoras das etruturas propriamente sociais/ materiais/intelectuais .. . - o trabalho.
A patir desta osição. uma pegunta: o que a leitura dos estudos de Mafesoli proporcionou paa
4 Para detalhamentos sobre os significados de valor de troca, valor de uso e tem po socialmente necessário ver o capo referente a mercadoria em O Capital(7, p. 41-93)
"A diferença entre o cotidiano e nao cotidiano nao constitue em absoluto em fenômeno da alienaçao por princIpio, se nao um produto da esecffica dialética entre reproduçao social e i ndividual". Sobre esta afirmaçao ver "A heteogeneidade da ida coiiana". (3. p. 8�1 1 8)
meus con hecimentos? O encaixe daquela C0n cepção e a com preensão acerca do trabalho em Heller são evidentes, dado que esta categoria é apeentada em lugar maante no espaço da vida cotidiana - cenário de suas análise sobre o sujei to e a história.
Mafesol i não apreende o trabalho como foco básio de sua análise da vida cotidiana. Visualiz� esta categoria como periféria, fazendo pate da l ó g i ca ra c i o n a l "do lado iluminado " d a cotidianidade. Ainda mais, não considera que o trabalho se constitua n u m i m pe ativo categórico , p o r re p re s e n t a r, faz e r p a rt e d o s v a l o re s prometeicos, e s u a proposta, com já d ito, é con siderar a vida cotidiana omo um lugar privilegia do d os alternativos valores d ionisíacos que
apa-rece no tempo presente6•
Penso que é aqu i mesmo que enconto a res posta , pois o autor povocou a reflexão acera de minha concepção e sua base teórica , dado que empurou a aminhada para o m undo dos símb los, do subjetivo-concreto om sua "ecundidde
especica". Auxiliando, desta fom a , a retomado
de posição. Poque não d izer, ao rejuvenescimen to d e minha posição. Sem d úvida, estes autores provoam um desloamento paa pontos de cará ter subjetivo , i nterativo ou pontos do vivido no embate do cotidiano aparentemente mais imed i a t o , p o ss i v e l m e n t e u m a d i m e n sã o d e complementariedade em relação à vida Hsocial": e/ou vida "societal".
ABSTRACT: Synopsis about writi ngs of Agnes Heller concening the work eategory, with the purpose to poi nt o ut parallel between her opinions and Michel Maffesoli's. There is evidene that in both are manifests the analsis of daily l ife, hitorie space of i nd ividual and social d evelopment. Heller works this ategoy - daily - i nto an approaching "constructivist - dialetie", where the subjet of historie is visualized i n its tem poality (past, present and future) i nto the poeess of individual and eollective changes. The aproaching of Mafeol i has a nueleus "phenomenolgieal Comprehensive", where t h e historie subjet i s persued in the d imension of present ("usual life/banal life) .
KEWORDS: Philosophy - Work
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Recebido para publicaçao em 20. 1 . 1 995. Aprovada para publicaçao em 22.4. 1 995.
"Mas nao há nenhum homem (nem nenhuma comunidade) que conheça ou seja capaz de conhecer o outro indivIduo em todas as suas relaçOes. Tanto as essoas quanto !S comunidades podem conhecer ou captar, sempre, tao somente aspectos isolados da personal idade, da essência dos indivIduas. Mas isso nao implica de nenhum modo, em uma contraosiçêo necessária entre "essência Intima" e manifestaçêo eterior, Por outro lado, tdo homem pode - mdiante suas experiências sociais e i ndividuais - obter um conhecimento do homem que lhe ermita averiguar se um terminado indivfduo se manifestou num ato impotante, decisivo .. . (2. p, 82), ao onto de expressarem alguma coisa de sua essência.