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Lógica conversacional e técnica psicanalítica.

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Academic year: 2017

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RES UMO:O presente trabalho tem com o interesse explorar a lingua-gem enquanto parte constitutiva da técnica do m étodo psicanalítico, a partir do enfoque pragm ático da filosofia da linguagem ordinária.

Tendo com o ponto de partida a teoria sobre Lógica e conversação,de H. P.

Grice, analisa os traços gerais da fala em análise, tal com o propôs originalm ente Freud, e o que se diferencia dos traços gerais da con-versação ordinária. Busca-se dem onstrar que a associação livre em conjunto com a atenção ( uniform em ente) flutuante estruturam um princípio particular de cooperação conversacional bem com o m áxi-m as diferenciadas que regeáxi-m a fala analítica.

Palavras - c have : Técnica psicanalítica, associação livre, lógica

con-versacional.

ABSTRACT: Conversational logic and psychoanalytic technique. The

study at hand aim s to exam ine language as an essential and constitu-tive part of the Psychoanalytic Method technique, m aking use of the pragm atic fram e of ordinary language philosophy. Having consid-ered the theory on Logic and Conversation by H. P. Grice as its start-ing point, this study analyses the general traits of analytical speech, as Freud originally suggested, as com pared to the general traits of ordinary conversation. It also dem onstrates how free association, com -bined w ith ( evenly) suspended attention, gives rise to a particular principle of conversational cooperation, as well as distinct precepts, w hich govern analytical speech.

Ke y w o rds : Psychoanalytic technique, free association and conversa-tional logic.

U

m leigo, ao escutar que a psicanálise ajuda um paciente que, a princípio, os m édicos não puderam ajudar, pergun-ta: “O que faz efetivam ente o analista ao tratar um caso de psi-coneurose?” Freud ( 1926) responde: “Nada acontece entre eles, Simone Ribeiro Garcia

Psicóloga, m estre em psicologia clínica pela Universidade de Brasília.

Francisco Martins Psicanalista, doutor em psicologia clínica pela Un iversité Cath oliqu e de Louvain, professor na Universidade de Brasília.

Sim on e Rib e iro Ga rcia e Fra n cis co Ma rtin s

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salvo que conversam entre si. O analista não faz uso de qualquer instrum ento — nem mesmo para examinar o paciente — nem receita quaisquer remédios.” (FREUD, 1926a, p. 83)

Ao contrário da m edicina, que utiliza prescrições m edicam entosas e exam es clínicos, a psicanálise receita palavras. O tratam ento, em síntese, resum e-se em um a conversa. O tratam ento da alm a gira em torno da troca conversacional, e m ostra-se aos leigos, aparentem ente, abstrato dem ais para prom over m udanças concretas na vida de alguém . E segue Freud ( 1926) em sua conversa explicativa com a pessoa leiga:

“‘Assim é um a espécie de m ágica’, com enta ela: ‘O senhor fala e dissipa seus m ales.’ Isto m esm o. Seria m ágica se surtisse efeito um pouco m ais rapidam ente. Um atributo

essencial de um m ágico é a rapidez — poder-se-ia dizer a subitaneidade — do suces-so. Mas os tratam entos analíticos levam m eses e m esm o anos: m ágica tão lenta perde seu caráter m iraculoso. E incidentalm ente não desprezem os a palavra. Afinal de con-tas, ela é um instrum ento poderoso; é o m eio pelo qual transm itim os nossos

senti-m entos a outros, nosso senti-m étodo de influenciar outras pessoas. As palavras podesenti-m

fazer um bem indizível e causar terríveis feridas. Sem dúvida ‘no começo foi a ação’ e a

palavra veio depois; em certas circunstâncias ela significou um progresso da civilização quando os atos

foram amaciados em palavras. Mas originalm ente a palavra foi m agia — um ato m ágico; e

conservou m uito de seu antigo poder.” ( FREUD, 1926a, p. 183)

Se ‘no começo foi a ação’ e a palavra veio depois, tem os a junção dos dois na idéia lingüística dos atos de fala, nas palavras que fazem coisas. Lem brem os de Como fazer as coisas com as palavras (How to do things with words) , de Austin ( 1962) , e toda a idéia pragm ática envolvida na fala. Neste sentido, as palavras podem fazer terríveis m ales e bens

indi-zíveis. Elas constróem , destróem , transform am , revelam e servem de alternativa para a ação e, por conseguinte, atuam com o instrum ento civilizatório.

No percurso de transform ação do m édico Freud em analista, vê-se que o m é-todo tam bém se transform ou, ocorrendo um a apropriação da linguagem , na m e-dida que envolve um a conversa diferente daquelas utilizadas nas consultas, entre-vistas e conversas convencionais. Tanto que a introdução do paciente ao trabalho de associação livre é feita por Freud ( 1913) da seguinte m aneira: O que vai me dizer deve diferir, sob determ inado aspecto, de uma conversa comum. ( FREUD, 1926a, p. 149)

Com os ensinam entos da Filosofia da Linguagem Ordinária, m ais especifica-m ente coespecifica-m Grice,1 tem os um a form ulação lógica acerca dos processos

conversa-1 Herbert Paul Grice, nasceu em 1913 e faleceu em 1988. Trabalhou cerca de 30 anos junto aos

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cionais entre os indivíduos, dos traços gerais que regem as conversas para que estas sejam efetivas. Esses traços lógicos servem -nos aqui com o instrum ento re-flexivo sobre a técnica psicanalítica, posto que o presente trabalho tem com o princi-pal objetivo a com paração da linguagem cotidiana com aquela utilizada em análise.

LÓGICA E CONVERSAÇÃO

Para Grice, um princípio geral de cooperação, em conjunto com quatro categorias e suas respectivas m áxim as, expressam e asseguram a eficiência e efetividade do uso da linguagem em conversações cooperativas. Este Princípio de Cooperação é enunciado da seguinte m aneira: “Faça sua contribuição conversacional tal com o é requerida, no m om ento em que ocorre, pelo propósito ou direção do intercâm -bio conversacional em que você está engajado”2.( GRICE, 1975/ 1982, p. 86)

Esse princípio específico, junto com as m áxim as, afirm am o que os partici-pantes têm que fazer com o intuito de conversarem de um jeito o m ais eficiente, racional e cooperativo possível. Ou seja, falar sincera, relevante e claram ente, for-necendo inform ação suficiente ( LEVINSON, 1983) . Obviam ente, os traços gerais elaborados nessas m áxim as, longe de existirem de m odo concreto, são pressupo-sições lógicas acerca de com o os falantes se com portam e com o esperam que os outros se com portem durante a conversa. A seguir, tem os o quadro com as catego-rias e suas respectivas m áxim as:

filósofo da linguagem , desenvolveu um estudo pragm ático contem porâneo abdicando tanto da form alização do tipo taxinôm ica com o da não-form alização, para se ater fundam ental-m ente aos traços gerais que regeental-m uental-m a conversa.

2 No original:

Make your conversational contribution such as required, at the stage at which it occurs, by the accepted purpose or direction of the talk exchange in which you are engaged ( p.45) .

3 No original: 1 .Make your contribution as informative as is required ( for the current purpose of the exchange); 2. Do not make your contribution more informative than is require ( p.45) .

4 No original:

Try to make your contribution one that is true; 1. Do not say what you believe to be false; 2. Do not say that for which you lack adequate evidence ( p.46) .

5 No original: Be relevant ( p.46) .

Quantidade (Quantity) “Faça com que sua inform ação seja tão inform ativa quanto

o requerido ( para o propósito corrente da conversação) ”

“Não faça sua contribuição m ais inform ativa

do que é requerido.”3

Qualidade (Quality) “Trate de fazer um a contribuição que seja verdadeira.”

“Não diga o que acredite ser falso.”

“Não diga senão aquilo para o qual você possa fornecer

evidência adequada.”4

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Modo (Manner) “Seja claro.”

“Evite obscuridade de expressão.”

“Evite am bigüidades.”

“Seja breve ( evite prolixidade desnecessária) ”

“Seja ordenado”6

Essas m áxim as surgem da natureza racional que o hom em utiliza ao conduzir um a conversa ou então ao participar de atividades que são cooperativas e, de certa form a, culturalm ente ensinadas e incentivadas. Do ponto de vista da racionalida-de, essas m áxim as se aplicam a toda atividade na qual a cooperação se faz necessá-ria ou é esperada. Para Grice ( 1975/ 1982) , os passos cooperativos têm com o prin-cipal justificativa o costum e social:

“...é que é um fato em pírico bem conhecido que as pessoas se COMPORTAM dessa

m aneira; elas aprenderam a agir assim na infância e não abandonaram o hábito de assim o fazer; e, na verdade, um a ruptura radical com tal hábito exigiria um grande esforço. É muito m ais fácil por exem plo falar verdade do que inventar m entiras.” ( p. 89)

As m áxim as conversacionais de Grice, inspiradas nos im perativos categóricos kantianos, estabelecem m uitas exigências de perfeição, estando longe de retrata-rem a realidade das trocas conversacionais de cada dia. Existe portanto um exagero e ao m esm o tem po um certo elogio ao consciencialism o e à racionalidade, nessa m eta de clareza e eficiência. Levinson ( 1983) nos fala que um a conversação que segue estritam ente essas m áxim as pode ser vista com o o “paraíso do filósofo”, e Grice reconhece isso na criação do conceito de implicatura. Para o autor, o falante consegue significar algo a m ais do que aquilo que disse de m odo explícito, exato, através do abandono de algum a m áxim a, produzindo, com isso, de form a intencio-nal, o sentido a m ais, que ele denom ina, então, im plicatura.

Grice trabalha com a idéia de discurso consciente, da racionalidade inerente às tarefas cooperativas, e com a intenção consciente dos falantes. Desenvolve um a teoria da conversação baseada na racionalidade, m as que leva em consideração a intenção dos falantes na determ inação do significado das sentenças. Esse aspecto pragm ático, envolvido em sua teoria, da influência da intenção consciente daquele que fala na determ inação de sentido, aponta-nos, na psicanálise, para a influência da pulsão, do desejo, na determ inação de sentido daquilo que é dito.

Freud, por não ser filósofo e sim clínico, dá espaço para a expressão dos

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jos e sentim entos de cunho inconsciente aos falantes. A psicanálise de Freud, con-tudo, constrói um a teoria do desejo m as não um a teoria da linguagem ou m ais especificam ente da conversação. O que Freud vem adicionar é que as palavras, ao contrário de serem apenas expressão da racionalidade hum ana, são tam bém ex-pressão de desejos, de desvarios, de paixões, de em oções, as m ais variadas, carre-gando em si os sentim entos m ais íntim os.

A crença de que as palavras dizem m ais do que aparentam é encontrada tanto na visão de Freud quanto na visão de Grice. Para am bos, os falantes conseguem significar m ais do que aquilo que dizem explicitam ente. A diferença entre seus pontos de vista se encontra no fato de que para Grice essa intenção é sem pre reco-nhecida e consciente por parte daquele que fala, enquanto que para Freud nem sem pre é assim , as m otivações podem ter outra fonte que não a consciência.

No caso do Hom em dos Ratos, Freud ( 1909/ 1996) nos diz que seu paciente dirigia-se a ele repetidas vezes com o ‘Capitão’, e afirm a entender esse equívoco dentro da m otivação inconsciente de seu paciente, já que este sabe, a princípio, que ele não é capitão ( tanto que Freud chegou a dizer no início da sessão que não era com o o capitão, que não gostava de crueldades) . Esse exem plo m ostra a lingua-gem dizendo algo a m ais, na m edida que revela — m esm o que de m aneira indireta — a m otivação inconsciente nesse lapso.

Nas conversas cotidianas, que servem de m odelo para a elaboração lógica de Grice, existe o inconsciente dos falantes, e isso até ele m esm o poderia reconhecer. Porém , nesses casos, o inconsciente não é foco principal, sendo fundam ental ape-nas a intenção consciente do falante. Freud, por sua vez, objetivando um trata-m ento anítrata-m ico, acaba por estruturar utrata-m diálogo diferenciado, cotrata-m utrata-m a lógica outra, visando prim eiram ente o acesso ao inconsciente, que aparece com o um elem ento novo em voga. Na clínica psicanalítica, o inconsciente é fator principal e a linguagem , m uitas vezes, serve com o o quadro onde o desejo se estam pa. Cabe aqui ressaltar a asserção feliz de Freud ( 1905) sobre a m ultiplicidade de aspectos envolvidos nas palavras, e seu variado poder funcional na vida, tanto social quanto psíquica, dos sujeitos: As palavras são um material plástico, que se presta a todo tipo de coisas. ( FREUD, 1905, p. 41)

Verem os, então, que contribuições podem ser obtidas a partir de um a reflexão sobre a lógica conversacional da técnica do m étodo7 psicanalítico, pensando em seus traços discursivos e suas possíveis m odificações. Vejam os a que as palavras se prestam em análise.

7 Em algum as passagens, com o por exem plo em “Um estudo autobiográfico” ( 1925[ 1924] /

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O PRINCÍPIO CONVERSACIONAL DE FREUD

É com um as pessoas organizarem o espaço de acordo com a produção interlocutiva que pretendem . Logo, a organização espacial de um am biente diz, de certa form a, o que ali será feito e qual a relação entre os personagens que freqüentam aquele espaço. O am biente de consultório psicanalítico, por sua vez, tem um a organiza-ção do espaço que dem arca a relaorganiza-ção que ali ocorrerá. Essa configuraorganiza-ção espacial do setting analítico apresenta um a disposição diferenciada daquela apresentada em um a conversa tradicional, sinalizando um novo m odo de trabalho de fala.

Esse am biente, que procura propiciar o relaxam ento e tam bém a fala, costum a ter pouca luz, ser aconchegante, personalizado, silencioso, e, principalm ente, con-tar com a presença de um divã, além de um a poltrona posicionada atrás de sua cabeceira. Com o nos m ostrou Freud ( 1913) , o divã faz parte de um certo cerim o-nial que com põe o fazer clínico da psicanálise. Form a-se, a partir desses aspectos, a atm osfera de base, que alim enta de um sabor terapêutico o consultório.

É usual, nos atendim entos psicanalíticos, serem feitas entrevistas iniciais, com o padrão de entrevistas psicológicas com uns, em que os interlocutores se encon-tram frente a frente, com o em um a conversa. Ao aceitar o paciente para a análise e ao verificar um a neurose de transferência estabelecida, o analista faz o ato de en-trada do paciente em análise, num ritual de passagem ao divã, sendo esta a m arca sim bólica do início do trabalho proposto, im plicando um com prom etim ento com a regra fundam ental.

A passagem ao divã, por significar a introdução ao paciente da regra funda-m ental, tefunda-m cofunda-m o conseqüência todos os aspectos que esta regra envolve: ficar deitado, dizer tudo que vem à m ente, passar da ação às palavras. Estar cooperativo ao que o trabalho propõe im plica em um a entrega à regra que dita, especificam en-te, com o o sujeito deve se com portar ao falar. Significa, de m odo geral, obedecer à regra fundam ental da associação livre, a todo custo.

Tem os, portanto, em análise, de um lado um interlocutor em posição corporal deitada, fazendo um a produção lingüística em livre associação e, do outro, um interlocutor posicionado fora de seu cam po de visão, fazendo, por sua vez, um a escuta uniform em ente flutuante, que, para Freud ( 1912) , consiste simplesmente em não dirigir o reparo para algo específico e em manter a mesma ‘atenção uniformemente suspensa’ ( ...) em face de tudo o que se escuta. ( FREUD, 1912, p. 125)

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“O que vai m e dizer deve diferir, sob determinado aspecto, de um a conversa com um . Em geral você procura, corretam ente, m anter um fio de ligação ao longo de suas obser-vações e exclui quaisquer idéias intr usivas que possam lhe ocorrer, bem com o

quais-quer tem as laterais, de m aneira a não divagar dem ais do assunto. N esse caso você deve

proceder de modo diferente. Observará que à m edida que conta coisas, ocorrer-lhe-ão

di-versos pensam entos que gostaria de pôr de lado, por causa de certas críticas e obje-ções. Ficará tentado a dizer a si m esm o que isto ou aquilo é irrelevante aqui, ou inteiram ente sem im portância, ou absurdo, de m aneira que não há necessidade de

dizê-lo. Você nunca deve ceder a estas críticas, m as dizê-lo apesar delas — na verdade, deve dizê-lo exatam ente porque sente aversão a fazê-lo. Posteriorm ente você desco-brirá e aprenderá a com preender a razão para esta exortação, que é realm ente a única que tem que seguir. Assim diga tudo que lhe passa pela m ente. ...Finalm ente, jam ais

esqueça que prom eteu ser absolutam ente honesto e nunca deixar nada de fora por-que, por um a razão ou outra, é desagradável dizê-lo. ( FREUD, 1914, p. 149-150) ( gri-fos nossos)

Na introdução da regra fundam ental, Freud m ostra que a produção de fala deverá ser diferente, em determ inado aspecto, daquela feita num a conversa co-m uco-m . Esse aspecto está ligado à exigência de que a produção tenha seqüência, porém um a seqüência ditada pelos pensam entos, e que, portanto, não podem ser excluídas quaisquer idéias intrusas que ocorram ao pensam ento, devendo estas serem com unicadas sob qualquer esforço, independente do que seja. Com o a se-qüência da com unicação segue a fluidez do próprio pensam ento, que vai surgin-do de form a espontânea, a exigência de clareza, coerência, concisão, m osurgin-do e rele-vância, existentes nas conversas cotidianas, segundo a visão griceana, dão lugar à exigência de verbalização de pensam entos e idéias espontâneas e estranhas ao as-sunto. O filtro que norm alm ente é usado nas conversas, para que aquilo que é dito possa se adequar ao assunto, deve ser então retirado na associação livre.

A regra de associação livre, para o paciente, e sua contrapartida para o analista, da escuta uniform em ente flutuante, delim itam e esclarecem a essência desse traba-lho, ao dizer exatam ente o que é específico no diálogo clínico psicanalítico. “Ver-se-á que a regra de prestar igual reparo a tudo constitui a contrapartida necessária da exigência feita ao paciente, de que comunique tudo o que lhe ocorre, sem crítica ou seleção”.

( FREUD, 1912, p. 126) ( grifos nossos)

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está engajada. Porém , o propósito específico, em análise, é a auto-observação tran-qüila por um lado e a exigência de tudo dizer, por outro. Isto im plica em um a exigência contrária àquela das conversas com uns. Ser cooperativo, em análise, é esforçar-se para não deixar de falar. Na conversa com um , é falar som ente o que interessa para o assunto corrente.

Isso significa dizer que a conversação específica da análise m antém , com o pano de fundo, o princípio de cooperação de Grice, m as, devido ao seu propósito e direção m uito específicos, sobrepõe um princípio cooperacional próprio que dita o que é requerido no trabalho de análise. Esse princípio específico, baseado no propósito do tratam ento, que é, grosso modo, acessar o inconsciente, tem com o defi-nidoras as características do sistem a inconsciente: não contradição, intem porali-dade, condensação e deslocam ento.

Tom em os os lapsos com o um exem plo com parativo. O conhecido esqueci-m ento de Freud ( 1901) do noesqueci-m e Signorelli e a insistente substituição em sua lem -brança pelos nom es Botticelli e Boltraffio, dentro de um a conversa com um é tom ada com o um sim ples equívoco sem im portância, que deve ser, a princípio, desculpa-do e corrigidesculpa-do, na m edida que a m em ória tornar possível. Num a leitura psicanalí-tica, esse esquecim ento não é algo casual e sem im portância. O entendim ento não é tão sim ples assim , existindo m otivos outros. No exem plo citado, tem os o recal-que de um a idéia envolvido no m otivo do esrecal-quecim ento.

“Já não m e é possível considerar o esquecim ento do nom e Signorelli com o um evento

casual. Sou forçado a reconhecer a influência de um motivo nesse processo. Foi um

m otivo que fez com que eu m e interrom pesse na com unicação de m eus pensam

en-tos ( a respeito dos costum es dos turcos etc.) , e foi um m otivo que, além disso, influen-ciou-m e a im pedir que se conscientizassem em m im os pensam entos ligados a eles, que tinham levado à notícia recebida em Trafoi. Eu queria, portanto, esquecer algo;

havia recalcado algo.” ( FREUD, 1901b, p. 21)

Esses equívocos, portanto, denunciam algo que foi recalcado, sendo o lapso um dado im portante na com preensão dos desejos m ais secretos. Eles surgem a partir de algo que querem os afastar, filtrar por exigência da consciência, m as que acabam por escapulir, ao se reapresentarem insistentemente, a qualquer custo. Ele é o equívoco, o que não deveria estar ali, m as que, para o entendim ento da psicanálise, revela ter um a m otivação inconsciente e, por isso, é im portante ser considerado.

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PRINCÍP IO DE COOP ERAÇÃO DA TÉCNICA PS ICANALÍTICA

A psicanálise, ao m esm o tem po que constrói um princípio particular de pro-dução de fala, tem com o pano de fundo os traços gerais tradicionais do discurso, que afastam a possibilidade de um a fala com fuga de idéias, um a fala totalm ente sem lógica.

AS MÁXIMAS CONVERSACIONAIS APROVADAS

E VIOLADAS NA PS ICANÁLIS E

A técnica do m étodo psicanalítico, com sua regra fundam ental acaba por ditar um outro princípio conversacional específico, que é extraído do princípio de coope-ração conversacional griceano e que configura por sua vez a produção de fala coo-perativa em análise. As m áxim as que acom panham o princípio de cooperação con-versacional são entendidas por Grice com o detalham entos de traços do discurso. Em conjunto, resultam num a essência asseguradora da m anutenção do princípio cooperacional. Logo, se o princípio cooperacional se transform a, assim tam bém acontece com as m áxim as asseguradoras desse princípio. As m áxim as conversacio-nais que acom panham o princípio de cooperação de Grice acabam m ostrando-se inadequadas na psicanálise devido à aderência do novo princípio cooperacional do trabalho analítico.

Partindo dos conceitos clínicos de Freud, m áxim as m antenedoras da associa-ção livre podem ser estabelecidas segu in do a lógica do qu e é feito em an álise. O tratam ento é sustentado pela teoria do aparelho psíquico de Freud e seus fenô-m enos constituintes. As fenô-m áxifenô-m as se baseiafenô-m nas características do sistefenô-m a incons-ciente, suas form ações e nos fenôm enos da resistência e transferência.

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a perm anecerem nas m áxim as tradicionais do discurso, precisa ser considerado na reflexão sobre quais seriam as m áxim as em psicanálise. A resistência dos pa-cientes em verbalizarem tudo o que lhes ocorre à m ente, costum a ser justificada, m assivam ente, com argum entos baseados nos princípios tradicionais e rebatidas pelos analistas com argum entos baseados na regra fundam ental.

As m áxim as conversacionais são sistem atizações lógicas desenvolvidas por Grice e não são expressas ou ditadas de m aneira explícita aos participantes de um a con-versação, exatam ente por existirem com o pressupostos lógicos de cooperação. Em análise, devido ao esforço exigido para m anter-se dentro do princípio da regra fundam ental, e tendo em vista a existência de forças opostas, faz-se uso de argu-m entos que tragaargu-m o paciente de volta ao trabalho analítico. Portanto, podeargu-m os considerar que, diferentem ente da regra fundam ental, que é sem pre introduzida, as máximas do trabalho analítico não são, a princípio, verbalizadas, a não ser quando se faz necessário.

Quando o princípio cooperacional não é obedecido acredita-se que o paciente não pode, por força maior da resistência, tudo verbalizar. Como providência, mostra-se a ele, através de argum entos esclarecedores, com o proceder. Esmostra-ses argum entos nos servem , então, com o m áxim as conversacionais, assegurando que o princípio cooperacional da análise, ou seja, a regra fundam ental, seja obedecida. Um a form a banal disso ocorrer é o paciente iniciar um a sessão em silêncio e em seguida dizer:

hoje eu não tenho nada de importante a falar. A regra fundam ental não exige que seja dito algo im portante. Tal exigência se adequa m ais aos traços gerais da conversação, ditados pela m áxim a relevância. O im portante é que o paciente diga tudo que lhe ocorra à m ente, independente se parece im portante ou não.

As m áxim as conversacionais propostas por Grice — que exigem , basicam ente, clareza, ordem , veracidade, concisão — com o traços fundam entais do discurso, se aplicadas ao trabalho psicanalítico, acabam por im pedir o objetivo proposto pelo trabalho, já que o Inconsciente, contrariando esses traços, tem com o característica ser intem poral, não conter contradição, funcionar sob m ecanism os com o a con-densação e deslocam ento, e ter um a realidade própria. As m áxim as analíticas ser-vem de suporte à associação livre e caracterizam o trabalho, garantindo um m eio de alcance a conteúdos inconscientes. A resistência e transferência tam bém são fenôm enos cruciais em análise. Por esta razão serão refletidas suas im plicações e m odos de aparecim ento em relação a cada um a das m áxim as.

A QUESTÃO DA QUANTIDADE

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o propósito corrente da conversação) e N ão faça sua contribuição mais informativa do que é requerido

( GRICE, 1975, p. 87) . Por conseguinte, pode ser traduzida em nem tanto ao céu, nem tanto à terra, ou seja, faça sua contribuição na m edida certa.

Um a reflexão sobre a categoria quantidade, em análise, inicia-se pelo questio-nam ento sobre o que é ser pontual. Em um a conversa em que tem os um tem a definido e claro, não parece difícil pensar em ser pontual. Porém , tratando-se de questões do inconsciente a coisa m uda um pouco de figura. As características do funcionam ento lógico inconsciente — ausência de contradição, intem poralidade, processo prim ário de funcionam ento — por si só já im pedem que seja aplicado o m esm o parâm etro utilizado para a fala com um . Não podem os ser pontuais sobre algo que nos é, a princípio, obscuro e confuso.

A quantidade do que é dito acaba por variar de acordo com a atuação das resistências. A resistência pode resultar em silêncios longos, o que aparentem ente pode ser um a quebra na m áxim a quantidade. Porém , o silêncio em análise pode dizer m uito ao denunciar a aproxim ação de conteúdos ligados à etiologia da doença ou ao cham ado núcleo do recalque. Freud logo percebeu um a tendência dos pa-cientes em perm anecerem calados logo após aproxim arem -se de algum conteúdo significativo. Portanto, o silêncio pode ser indicador de resistência, e esta, por sua vez, indicadora de conteúdos significativos. Não apenas isso, a elaboração silenciosa é o trabalho que o analisando realiza durante as sessões, às vezes no tempo que medeia as sessões, que visa à superação do traumatismo, provocando, assim, mudanças qualitativas na sua produção livre- associativa, no seu estilo de vida, na sua forma de agir e, principalmente, em sua capacidade de pensamento. (BERLINCK, 2000, p. 263)

Vem os com isso que qualidade e quantidade se entrecruzam , às vezes um a de-pendendo da outra, na m edida que o processo acontece. O tratam ento consiste em um processo, im plicando em m udanças constantes que relativizam , ainda m ais, os im perativos categóricos das m áxim as. A quantidade ideal de fala dependerá sem pre do m om ento específico em que se encontra o trabalho, m ostrando que, às vezes, um a palavra diz m uito m ais do que várias, e que essas questões que nos rem etem à m áxim a Quantidade, dependem sem pre de um contexto e um co-texto psíquico, estabelecido pelo trabalho de análise.

Com o vim os antes, a resistência é sutil e se utiliza de form as variadas para atuar contra o trabalho, aparecendo não somente nos bloqueios momentâneos, como tam-bém nas falas excessivas e esvaziadas de afeto. Estas são resistências contra o propósi-to cooperacional daquela produção, que im plica na alteração da quantidade da fala produzida. Não é problem a, na análise, falar bastante. É isso m esm o que se quer, desde que esse aum ento da quantidade não se dê em conjunto com o esvaziam ento afetivo da fala ou dentro de um distanciam ento do objetivo do trabalho.

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descortinar resistências para poder, então, alcançar conteúdos inconscientes a se-rem interpretados e elaborados. É preciso tem po e possibilidade de repetição para que o paciente se familiarize com suas resistências e, conseqüentemente, com aquilo que recalcou. Por isso, é m ais do que com preensível que o paciente, falando da-quilo que não conhece, acabe por dar voltas im ensas em torno do ponto central de sua questão, e que repita os m esm os conteúdos, ou queixe-se dem asiadam ente dos outros ( num m ovim ento projetivo) , ou até m esm o faça teorizações. A ques-tão é que, em análise, parte-se do pressuposto de que sem pre existirá resistência, que sem pre haverá interferência desta na associação livre do paciente. Se ela é ine-vitável, deve-se considerá-la, de antem ão, adequando o trabalho ao seu m anejo. Por isso para Freud ( 1914) :

“Deve-se dar ao paciente tem po para conhecer m elhor esta resistência com a qual aca-bou de se fam iliarizar, para elaborá-la, para superá-la, pela continuação, em desafio a ela, do trabalho analítico segundo a regra fundam ental da análise.” ( FREUD, 1914, p. 170)

Assim , com o que pelo avesso, a própria transferência enquanto detrim ento da fala em substituição pelo ato, é contribuição inform ativa, ao passo que é entendi-da com o fala através dos atos. Dentro de um a lógica m uito específica, em análise fala-se m esm o estando calado, fala-se em ato, fala-se algo falando em dem asia.

Muitas justificativas racionais, que são entendidas com o resistências, se apóiam justam ente na m áxim a da quantidade. O paciente deixa de falar o que lhe ocorre por já ter dito, por achar que é falar dem ais, ou então por considerar que aquilo não diz respeito ao propósito analítico. Assim , de julgam ento em julgam ento, a resistência vai fazendo seu papel, contrariando a proposta da análise. São esses fenôm enos que im pedem que a categoria quantidade seja vista sob as m esm as m áxim as, da conversa com um , precisando haver um a adequação à exigência da regra fundam ental. Com isso, as m áxim as referentes à questão da quantidade, em análise, podem ser postas da seguinte m aneira:

“Faça com que sua inform ação seja tão inform ativa quanto o requerido ( para o propósito corrente da conversação) .”

“Não faça sua contribuição m ais inform ativa do que é requerido.”

Faça com que sua contribuição seja tão inform ativa quanto requerido para o propósito desse trabalho terapêutico.

Fale o que sabe sobre você, o que acontece em seus pensam entos.

Faça sua contribuição, independente se vá parecer m ais inform ativa que o requerido norm alm ente.

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A QUESTÃO DA QUALIDADE

“O inconsciente é esse capítulo da m inha história que é m arcado por um branco ou

ocupado por um a mentira: é o capítulo censurado. Mas a verdade pode ser reencontrada;

o m ais das vezes ela já está escrita em algum lugar.” ( LACAN, 1996/ 1998, p. 260)

A categoria qualidade ( quality) , de Grice, que objetiva, através de um a super m áxi-m a, que a contribuição seja verdadeira, quando pensada dentro de uáxi-m espaço analítico, precisa ser encarada por outros cam inhos. Essa categoria, que visa infor-m ações passíveis de garantias e que sejainfor-m de fato verdadeiras, teinfor-m coinfor-m o sub infor-m á-xim as: N ão diga o que acredite ser falso e N ão diga senão aquilo para que você possa fornecer evidência adequada. ( GRICE,1975/ 1982, p. 87)

A vida da histérica é uma perpétua mentira ( FORRESTER, 1997, p. 68) .Essa afirm ação diz sobre algo m uito característico das neuroses, de um a prim azia da fantasia pe-rante a realidade, resultando na construção de um m undo paralelo e particular. Nesse m undo fantasioso os neuróticos se refugiam , e, por este m otivo, costum am dizer que os neuróticos constróem castelos no céu. O que caracteriza os neuróticos é prefe-rirem a realidade psíquica à concreta, reagindo tão seriamente a pensamentos como as pessoas normais às realidades. ( FREUD,1913 [1912-13], p. 160)

Como é possível ficar convencido da realidade dessas confissões analíticas, que alegam ser lembranças guardadas da mais tenra infância? E como precaver- se contra a tendência a mentir e a facilidade de invenção atribuídas aos sujeitos histéricos? ( FREUD, 1896, p. 151) . Essas são questões que Freud form ulava, ao lidar com a fala de seus pacientes neuróticos. Nessa m istura entre fantasia e realidade, nessa penetração da realidade psíquica, nesse m undo inconsciente intem poral, alógico, não contraditório, o analista é profissionalmente desin-teressado na diferença entre verdades e mentiras, e sua atitude baseia-se nesse lugar altamente idiossincrático da realidade em psicanálise. ( FORRESTER, 1997, p. 70)

Vejam os a própria regra fundam ental. Ela exclui qualquer critério específico que dem ande um a fala pertinente, ou representativa da realidade efetiva e m ate-rial, ou que fale apenas do seu sofrim ento, ou que seja coerente em seus tópicos. Ela não exige nada sobre esse aspecto, apenas exige, e é de fato um a exigência, que seja dito tudo, qualquer coisa que ocorra à m ente, independente do que seja ou que possa parecer ser, m entira, verdade, invenção, intuição, lem brança.

Apesar dessa liberação que se encontra im plícita na regra fundam ental, de não ser necessário dizer apenas a verdade, os pacientes estão sem pre recaindo num a fala com um . A resistência faz com que a todo m om ento ocorra um im pulso em retornar ao m odo tradicional de conversação, e que os pacientes acabem tentando persuadir os analistas de que estão certos, de que aquilo é verdade, explicando-se. Na verdade, escondendo desejos atrás de confirm ações de verdades.

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funda-m ental, perfunda-m anecendo nufunda-m funda-m odo de produção lingüística funda-m ais característica da conversa ordinária. Todas as form as de resistência que im plicam na não-m anuten-ção da regra fundam ental acabam por acarretar um a retom ada da form a tradicio-nal de conversação. A fala intelectualizada é o exem plo m ais cabal do seguim ento dos traços tradicionais da conversação em análise. O paciente faz teorias, buscan-do ser claro, pertinente, verdadeiro, sucinto, porém não está senbuscan-do cooperativo com o propósito da troca conversacional a que se propôs naquele m om ento. Por-tanto, a m áxim a da qualidade, elaborada por Grice, pode ser interpretada em análise com o resistência ao trabalho e por isso precisa ser pontuada ao analisando.

Entrando ainda m ais no cam po das resistências, cabe aqui evocar o conceito de fala vazia, de Lacan, que clareia o que é considerado com o um a fala de qualidade em psicanálise. A fala vazia é aquela onde o sujeito parece falar em vão de alguém que, mesmo ao se lhe assemelhar a ponto de se enganar, jamais se anexará à assunção de desejo ( LACAN, 1966/ 1998, p. 118) . Por ser estancada de seus conteúdos afetivos, é portanto um a fala alienante, que se baseia no falatório repetitivo e distanciador daquilo que o ser é em si m esm o. Num sentido heideggeriano ( 1984) , a plenitude da linguagem está no fato de ser reveladora da essência do ser. Logo, essa vinculação entre o afeto e aquilo que é dito, que resulta em um a fala reveladora daquilo que é a essência do desejo, é indicadora de qualidade em análise.

Muitas vezes tem os necessidade de, ao m esm o tem po, dizer certas coisas e de poder fazer com o se não as tivéssem os dito; de dizê-las, m as de tal form a que possam os recusar a responsabilidade de tê-las dito ( DUCROT, 1972, p. 13) . Num sentido psicanalítico, essa necessidade se am plia ao inconsciente, resultando em form a freqüente e m uito curiosa de defesa, denom inada ( de) negação, ou seja, o processo pelo qual o sujeito, em bora form ulando um dos seus desejos, pensam en-tos ou sentim enen-tos, até então recalcado, continua a defender-se dele negando que lhe pertença ( LAPLANCHE E PONTALIS, 1987/ 1992, p. 293) . O processo de afas-tam ento do desejo, pelo recalque, acaba por se estender até a fala do paciente, sobretudo quando esta fala é sobre ele m esm o ou de com o se relaciona com as coisas que o cercam no m undo. A ( de) negação serve com o exem plo fundam ental para o entendim ento do inconsciente, por m ostrar sua relação com o desconheci-do, de um real só apreensível a posteriori ( MARTINS & FREITAS, 1995, p. 466) . Com o então exigir a verdade de algo que não se sabe, de algo desconhecido e obscuro, e que a fala analítica visa, de algum m odo, conseguir ainda alcançar. Portanto, em análise, um não pode significar sim , ao passo que a verdade pode em ergir através de um a negação, ou daquilo que se evita, daquilo que não se diz. A pessoa diz a verdade, seu desejo, através de negações. Logo, para Freud ( 1925) , negar algo em um julgamento é, no fundo, dizer: ‘Isto é algo que eu preferia reprimir.’ Um juízo negativo é o substituto intelectual da repressão; ou seu ‘não’ é a marca distintiva da repressão... ( FREUD, 1925, p. 266)

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psi-canalítica, e a forte influência dos pensam entos fantasiosos nos neuróticos, de an-tem ão, relativizam a qualidade da fala em análise. A veracidade do que é dito não pode ser sustentada já que se parte do pressuposto de que existe um a realidade interna, ditando verdades que não precisam necessariam ente ser com provadas na realidade concreta. Em psicanálise, a realidade discursiva é verdadeira, indepen-dentem ente de ela ser ditada pela fantasia, pela realidade psíquica ou pela realida-de m aterial. O que im porta é que, para o sujeito, internam ente, aquela verdarealida-de opera. O próprio sintom a, pelo qual m uitas vezes inicia-se a análise, é entendido com o um a farsa, pois revela-se com o um gozo m ascarado, um substituto do pra-zer. Entretanto, é preciso com eçar por algo, m esm o que seja a m entira, para que ao longo do processo possa ser reencontrada um a verdade perdida.

Dentro do propósito terapêutico pressupõe-se a existência de um a realidade psíquica, que diz respeito a verdades internas atuando no sujeito, m uitas vezes contraditórias com a realidade efetiva e, por isso, im possíveis de serem provadas. Alguns conteúdos estranhos são m uitas vezes evitados pelo sujeito. Um a contri-buição verdadeira, tratando-se de análise, baseia-se m assivam ente em fantasias cultivadas em silêncio, que suportam um a crença determ inante da form a de en-tendim ento dos fatos que se configuram , obviam ente, desviantes da realidade efe-tiva m aterial. Essa é a verdade que precisa ser apresentada num tratam ento psica-nalítico. Podem os, então, parafrasear as m áxim as da categoria qualidade, baseada nos conceitos da realidade psíquica, na prim azia das fantasias e na exigência de plenitude:

Conversação Fala em análise

Qualidade Não deixe de dizer o que lhe ocorre m esm o que lhe pareça falso ou m esm o que seja para os ou tros.

Não deixe de dizer o que você acredita, ou o que lhe ocorre, por não ter evidência disso.

“Trate de fazer um a contribuição que seja verdadeira.”

“Não diga o que acredite ser falso.”

“Não diga senão aquilo para o qual você possa fornecer evidência adequada.”

A QUESTÃO DA RELAÇÃO

A categoria relação ( relation) diz respeito à relevância da contribuição, para o propó-sito daquela conversa. Segundo Grice, essa categoria se m ostra resum ida em ape-nas um a m áxim a, já que se pode reconhecer a variedade de pontos relevantes, possíveis em um a conversação. Em psicanálise, a relevância do que irá ser dito não cum pre os padrões norm ais. Im pera a regra da associação livre.

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é relevante, não im porta se apareça através de sua fala em associação livre, se em ato transferencial, através da negação ou pelos sonhos. O que é relevante em análi-se? Ser relevante significa estar engajado no trabalho, obedecendo à exigência de tudo com unicar. É falar o que sabe de si m esm o, não deixar a vergonha vencer a fala, e, ao mesmo tempo, afrouxar o controle consciente da fala e esforçar-se para manter-se atento. A relevância, em análimanter-se, está totalm ente ligada à idéia de manter-se m anter firme na regra de associação livre e sobretudo estar atento à carga de afeto ligada à fala.

Em análise, existe a previsão de um encadeam ento, específico, diferente da-quele com um ente utilizado. Ao invés de basear-se em escolhas conscientes, parte-se de irrupções no pensam ento, que parecem , num prim eiro m om ento, não fazer sentido algum . Para que isso ocorra, é preciso um certo esforço e disciplina do analisando para que não seja levado pelas tendências tradicionais do discurso, de selecionar o que irá falar. As m áxim as ficam sendo:

A QUESTÃO DO MODO

A categoria modo( manner) deve, para Grice, preocupar-se, sobretudo, não com o que é dito, m as com o m odo, ou m elhor, a m aneira com o aquilo é dito. Visa-se a ausência de obscuridade e, conseqüentem ente, clareza, ordem e concisão. Pense-m os então nos acting out, nos sintom as, nos sonhos, todos eles com o m odos outros de fala, porém , todos com o form as incom patíveis com as m áxim as tradicionais.

No cam po psicanalítico, além da form a verbal com um , tem os através da trans-ferência enquanto resistência, um a form a alternativa de falar através de atos. Isso significa que, ao invés de associar livrem ente, o paciente, envolvido por sua resis-tência, passa a fazer coisas, o que é denom inado acting out:

“podem os dizer que o paciente não recorda coisa algum a do que esqueceu e reprim iu,

m as expressa-o pela atuação ou atua-o (acts it out) [Sic] . Ele o reproduz não com o

lem brança, m as com o ação; repete- o, sem , naturalm ente, saber que o está repetindo.

( FREUD, 1914, p. 165)

Essa repetição, que aparece no lugar das lem branças, deve ser considerada com o conteúdo analítico, da m esm a form a que as lem branças relatadas em associação livre. O im portante, para entender esse m odo específico de fala, através de repeti-ções em ato, é ater-se à essência do com portam ento, no que especificam ente diz

Conversação Fala em análise

Relação “Seja relevante” Fale tudo, m esm o que não pareça relevante. Seja o m ais particular possível.

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através do ato. Alguns exem plos de Freud ( 1914) podem ser ilustrativos para o entendim ento desse modo peculiar na análise:

“Por exem plo, o paciente não diz que recorda que costum ava ser desafiador e crítico

em relação à autoridade dos pais; em vez disso, com porta-se dessa m aneira para com o m édico. Não se recorda de com o chegou a um im potente e desesperado im passe em suas pesquisas sexuais infantis; m as produz um a m assa de sonhos e associações confusas, queixa-se de que não consegue ter sucesso em nada e assevera estar fadado

a nunca levar a cabo o que em preende. Não se recorda de ter-se envergonhado inten-sam ente de certas atividades sexuais e de ter tido m edo de elas serem descobertas; m as dem onstra achar-se envergonhado do tratam ento que agora em preendeu e tenta escondê-lo de todos. E assim por diante.” ( FREUD, 1914, p. 165-166)

Os sonhos, enquanto form ação do inconsciente, carregam em si o padrão ca-racterístico das produções desse sistem a. Portanto, em m eio a condensações vari-adas, deslocam entos, não-contradições, m ostra-se pouco fácil ser claro, não ser confuso ou obscuro. Por exem plo, quanto mais obscuro e confuso parece um sonho, maior a parcela atribuível ao fator do deslocamento em sua formação ( FREUD, 1901a, p. 674) . Existe todo um trabalho onírico próprio que torna obscura, tanto sua recordação quan-to sua com preensão, e, por isso, na m aioria das vezes, surge a sensação de estra-nham ento ou de confusão por parte do analisando ao relatar o sonho. Porém , cabe aqui ressaltar que todas essas form as obscuras, prolixas e pouco claras fazem parte do que consideram os o trabalho analítico, já que podem os tom ar os sonhos com o exem plo do padrão do funcionam ento inconsciente.

Dentro da perspectiva psicanalítica, o conflito é constitutivo do indivíduo, que possui, internam ente, exigências opostas, advindas de instâncias e pulsões, com o tam bém do m eio. O m elhor exem plo é a entrada da lei através do Com plexo de Édipo. A am bigüidade, fruto de conflitos inconscientes, passa a ser ponto cen-tral de alguns sintom as neuróticos. Ocaso do pequeno Hans gira em torno de um a am -bigüidade afetiva, que acaba por desencadear um sintom a fóbico:

“Aqui, então, tem os um conflito devido à am bivalência: um am or bem fundam entado

e um ódio não m enos justificável dirigidos para a m esm íssim a pessoa. A fobia de ‘Little Hans’ deve ter sido um a tentativa de solucionar esse conflito. Conflitos dessa natureza devidos à am bivalência são m uito freqüentes e podem ter outro resultado típico, no qual um dos dois sentim entos conflitantes ( em geral o da afeição) se torna

im ensam ente intensificado e o outro desaparece.” ( FREUD, 1926a, p. 104)

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psiquism o, que se refere a afetos m uitas vezes m antidos afastados pelo recalque, que diz respeito a conteúdos prim ários que aparecem de form a confusa e preci-sam ser elaborados passo a passo na linguagem . A princípio, a categoria modo, que se preocupa com a form a do discurso, visando clareza e não am bigüidades, con-siste exatam ente em seu oposto quando relacionada ao que é feito num consultó-rio psicanalítico. Não se trata de um a exaltação às am bigüidades, m as sim , da cren-ça de que através de verbalização estas possam ir sendo interpretadas, tom ando sentido e, por conseqüência, sendo clarificadas.

Configuram -se, então, as seguintes m áxim as:

“Seja claro.”

“Evite obscuridade de expressão.”

“Evite am bigüidades.”

“Seja breve ( evite prolixidade desnecessária) .”

“Seja ordenado.”

Conversação Fala em análise

Modo Não se preocupe se o que está

dizendo parece obscuro.

Faça sua fala em seu tem po e com o conseguir falar, m esm o que pareça prolixo.

Não se atenha a ser ordenado, deixe que seu pensam ento o conduza.

Com o podem os perceber, as m áxim as utilizadas norm alm ente num a conver-sação, precisam , até certo ponto, ser desconsideradas na associação livre, dando espaço para um a série do que podem os cham ar “argum entos” psicanalíticos, que visam m anter o paciente dentro da regra fundam ental. A dificuldade de m anter-se em associação livre, nessa “diferente conversa”, está na resistência e tam bém na dificuldade de abandonar um padrão conversacional com o qual estam os acostu-m ados desde a pequena infância, desejado e esperado constanteacostu-m ente nas relações sociais.

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necessá-ria essa quebra, que rem ete diretam ente à possibilidade de am pliação do sentido, assim com o as im plicaturas são sinônim o de sentidos a m ais.

Mesm o sabendo que as palavras não são suficientes, as im plicaturas possibili-tam um a riqueza m uito m aior de significados do que aqueles encarcerados nos sentidos tradicionais do uso das palavras. Assim , quanto m ais quebra de m áxim a m elhor. Daí porque na própria regra em bute-se a exigência de fazer tudo, ao con-trário do que se deseja norm alm ente e sem pre atento ao detalhe, de que as regras sejam aderidas num nível m uito m ais profundo. No fundo, sem pre perm anecem os traços do discurso tradicional, que, devido ao costum e, não são fáceis de ser totalm ente abolidos. O paciente nos dois pólos da associação livre — auto-obser-vação tranqüila e exigência de tudo verbalizar — deve fazer um esforço de proce-der nesses novos traços conversacionais. Acredita-se que os traços griceanos estão sem pre delim itando, para que a associação livre não se configure em fuga de idéi-as, m as sim num a possibilidade de exprim ir pequenas loucuridéi-as, tão podadas nor-m alnor-m ente na linguagenor-m quotidiana. O trabalho de análise acaba por exercitar esse novo tipo de m odalidade de diálogo, do analisando com ele m esm o, com suas tendências internas, oferecendo m aior possibilidade de percepção dos sentidos a m ais advindos do inconsciente.

Com o vim os em nosso trabalho, no centro da psicanálise se encontra a fala e o inconsciente. O m étodo de Freud possui um a parte técnica definidora de seu fazer clínico, que conta com um a regra fundam ental, cham ada associação livre, deter-m inante de udeter-m deter-m odo específico de uso lingüístico. O uso diferenciado de produ-ção de fala tem com o justificativa a existência de um a lógica inconsciente e, com o conseqüência, a necessidade de acessá-la por m eio da linguagem . Para isso, Freud, ao criar seu m étodo próprio, reform ula, em alguns aspectos, os traços conversacio-nais a fim de possibilitar o acesso a esses conteúdos psíquicos.

O princípio cooperacional da psicanálise configura-se na regra fundam ental — associação livre e sua contrapartida, a atenção flutuante — que form am um princípio conversacional específico, para o propósito psicanalítico. Pode ser enun-ciado, basicam ente, da seguinte m aneira: “Diga tudo que lhe ocorra à m ente, e eu escutarei prestando igual reparo a tudo.” O analista através da introdução dessa regra fundam ental faz com que seu paciente se com prom eta, pelo m enos cons-cientem ente, com o contrato analítico.

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As m áxim as conversacionais propostas por Grice — que exigem basicam ente clareza, ordem , veracidade, concisão — com o traços fundam entais do discurso, se aplicadas ao trabalho psicanalítico, acabam por im pedir o objetivo proposto pelo trabalho, já que o Inconsciente, contrariando esses traços, tem com o característica ser intem poral, não conter contradição, funcionar sob m ecanism os com o a con-densação e deslocam ento, e ter um a realidade própria. A psicanálise pressupõe que existe resistência ao acesso psíquico. Por essa razão e devido ao fato de visarem o entendim ento dessa realidade psíquica — revelada através de sentidos ocultos, de um texto que se escreve nas entrelinhas, nas lacunas, nos lapsos — dem anda um a relativização nas m áxim as conversacionais propostas por Grice, no que se refere à exigência de quantidade, qualidade, relação e m odo. A tabela com parativa ilustra essa flexibilização:

Diga tudo que lhe passa pela m ente e eu escutarei

prestando igual reparo a tudo.

Faça com que sua contribuição seja tão inform ativa quanto requerido para o propósito desse trabalho terapêutico.

Fale o que sabe sobre você, o que acontece em seus pensam entos.

Faça sua contribuição, independente se vá parecer m ais inform ativa que o requerido norm alm ente.

Não deixe de dizer o que lhe ocorre m esm o que lhe pareça falso ou m esm o que seja para os outros.

Conversação Fala em análise

Princípio de cooperação conversacional Quantidade Qualidade Relação

“Faça sua contribuição conversacional tal com o é requerida, no m om ento em que ocorre, pelo propósito ou direção do intercâm bio

conversacional em que você está engajado.”

“Faça com que sua inform ação seja tão inform ativa quanto o requerido ( para o propósito corrente da conversação) .”

“Não faça sua contribuição m ais inform ativa do que é requerido.”

“Trate de fazer um a contribuição que seja verdadeira.”

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Conclui-se, portanto, que a técnica psicanalítica m odifica os traços gerais do discurso, a partir de um princípio de cooperação conversacional próprio, visando o acesso a conteúdos inconscientes. Essa m odificação, nos traços gerais da conver-sação, faz com que deixe de ser apenas ferram enta de trabalho para transform ar-se em seu m eio e objeto, diferenciando a técnica psicanalítica dos outros m odos de fazer clínica. Retom ando a idéia de Freud: “As palavras são um m aterial plástico, que se presta a todo tipo de coisas”. ( FREUD, 1905, p. 41)

Recebido em 13/ 9/ 2002. Aprovado em 4/ 11/ 2002.

Modo

Conversação Fala em análise

“Não diga senão aquilo para que você possa fornecer evidência adequada.”

“Seja relevante.”

“Seja claro.”

“Evite obscuridade de expressão.”

“Evite am bigüidades.”

“Seja breve ( evite prolixidade desnecessária) .”

“Seja ordenado.”

Não deixe de dizer o que você acredita, ou o que lhe ocorre por não ter evidência disso.

Fale tudo, m esm o que não pareça relevante.

Seja o m ais particular possível.

Diga o que lhe pesa o coração.

Não se desvie do princípio da Associação Livre.

Não é preciso ser breve.

Faça sua fala em seu tem po e com o conseguir falar, m esm o que pareça prolixo.

Não se atenha a ser ordenado, deixe que seu pensam ento o con du za.

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REFERÊNCIAS

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Simone Ribeiro Garcia

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Francisco Martins

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