1 AgradecemosoapoiodoUNICEF,FAPERJeaoPIBIC(CNPq). 2 Endereço:CLAVES–CentroLatinoAmericanodeEstudosdeViolência
eSaúde/FIOCRUZ,Av.Brasil,4.036sala700,Manguinhos,RJ,Brasil 21040-361.E-mail:rpesce@claves.fiocruz.br
RiscoeProteção:EmBuscade
UmEquilíbrioPromotordeResiliência
1RenataP.Pesce2 SimoneG.Assis NiltonSantos
RaqueldeV.CarvalhaesdeOliveira FundaçãoOswaldoCruz
RESUMO–Oartigoanalisaarelaçãodaresiliênciacomeventosdevidadesfavoráveisefatoresdeproteção.Aamostrado estudofoide997adolescentesescolaresdaredepúblicadeensinodeSãoGonçalo/RJ.Comomedidaderesiliênciautilizou-seaEscaladeResiliênciadesenvolvidaporWagnildeYoung(1993).Paramedireventosdevidaforamutilizadasescalasde violênciafísica(Straus,1979)epsicológica(Pitzner&Drummond,1997),itensdeviolêncianaescolaenalocalidade,violência entreirmãoseentrepais,eviolênciasexualentreoutros.Comofatoresdeproteçãoutilizou-se:EscaladeApoioSocialde ShebourneeStewart(conformecitadoporChor,Grip,Lopes&Farstein,2001),EscaladeAuto-Estima(Rosemberg,1989), itensabordandosupervisãofamiliar,relacionamentocomamigoseprofessores.Oseventosdevidanegativosnãoapresentaram relaçãocomaresiliência,enquantoosfatoresdeproteçãomostraram-setodoscorrelacionadoscomoconstructo.
Palavraschave:eventosdevida;fatoresdeproteção;resiliência.
RiskandProtection:Lookingforan
EquilibriumThatProvidesResilience
ABSTRACT–Thearticleanalyzestherelationshipoftheresiliencewithunfavorablelifeeventsandprotectionfactors.The sampleofthatstudybelongedto997schooladolescentsofthepublicschoolsofSãoGonçalo/RJ.Asmeasureofresilience wasusedtheResilienceScaledevelopedbyWagnild&Young(1993).TomeasureLifeEventswereusedscaleofphysical violence(Straus,1979)andpsychologicalviolence(Pitzer&Drummond,1997),violenceitemsintheschoolandintheplace, violenceamongsiblingsandamongparents,sexualviolenceandothers.AsprotectionfactorswereusedtheScaleofSocial SupportofShebourneeStewart(Chor,Grip,Lopes&Farstein,2001),theScaleofSelf-EsteemofRosemberg(1989),family supervision,relationshipwithfriendsandteachers.Itwasobservedthatthenegativelifeeventsdidn’tpresentrelationshipwith theresilience.Ontheotherhand,theappraisedprotectionfactorswereshownallcorrelatedwiththeresilience.
Keywords:lifeevents;protectionfactors;resilience.
operacionaisdoquedescritivo.Asautorasconsiderama resiliênciacomoacapacidadedosujeitode,emdetermi-nadosmomentosedeacordocomascircunstâncias,lidar comaadversidadenãosucumbindoaela,alertandoparaa necessidadederelativizar,emfunçãodoindivíduoedocon-texto,oaspectode“superação”deeventospotencialmente estressoresapontadoemalgumasdefiniçõesderesiliência. Defendemqueotermoresiliênciatraduzconceitualmente apossibilidadedesuperaçãonumsentidodialético,oque representanãoumaeliminação,masumare-significação doproblema.
Eventosdevidaadversoscomofatoresderisco
Sãomuitososfatoresderisco,crônicosouagudos,que estariamafetandoacapacidadederesiliênciadecriançase adolescentes. Condições de pobreza, rupturas na família, vivênciadealgumtipodeviolência,experiênciasdedoença nopróprioindivíduoounafamíliaeperdasimportantessão algunsexemplos.
Eventosconsideradoscomoriscosãoobstáculosindivi-duaisouambientaisqueaumentariamavulnerabilidadeda Compreende-seresiliênciacomooconjuntodeprocessos
sociaiseintrapsíquicosquepossibilitamodesenvolvimento de uma vida sadia, mesmo vivendo em um ambiente não sadio.Esteprocessoresultadacombinaçãoentreosatributos dacriançaoujovemeseuambientefamiliar,socialecultural. Destemodo,aresiliêncianãopodeserpensadacomoum atributoquenascecomosujeito,nemqueeleadquiredurante seudesenvolvimento.Éumprocessointerativoentreapessoa eseumeio,consideradocomoumavariaçãoindividualem respostaaorisco,sendoqueosmesmosfatorescausadores deestressepodemserexperenciadosdeformasdiferentes porpessoasdiferentes,nãosendoaresiliênciaumatributo fixodoindivíduo(Rutter,1987).
criançapararesultadosnegativosnoseudesenvolvimento. Emboraaanálisedoriscoinicialmentetenhaexaminadoesses fatorescomoeventosestáticos,eventualmente,análisesmais sofisticadassugeremqueoriscoéumprocesso,eque,por exemplo,onúmerototaldefatoresderiscoaqueumacriança foiexposta,operíododetempo,omomentodaexposiçãoao riscoeocontextosãomaisimportantesdoqueumaúnica exposiçãograve(Engle,Castle&Menon,1996).
Considerando-sequeasexperiênciasdevidanegativas sãoinevitáveisparaqualquerindivíduo,sobressaiaquestão dosníveisdeexposiçãoedoslimitesindividuaisdecadaum. Assim,avisãosubjetivadeumindivíduoadeterminadasitu-ação,ouseja,suapercepção,interpretaçãoesentidoatribuído aoeventoestressoréqueoclassificaráounãocomocondição deestresse.Poressarazão,umeventopodeserenfrentado comoperigoporumindivíduoeparaoutro,serapenasum desafio(Yunes&Szymanski,2001).
Nãohátambémconsensoquantoaonúmerodeeventos devidanegativosnecessáriosparaafetaracapacidadede resiliência do indivíduo. A hipótese de que um indivíduo poderiasofrerapenasumeventoderiscosucumbiriaperante ainterseçãoexistenteentreosfenômenosnavidacotidiana: odivórciodospais,atransiçãoparaapuberdadeougravidez naadolescênciageralmentetrazemconsigoumaconstelação deoutroseventosassociados(Gore&Eckenrode,1996).
Outradiscussãorefere-seaofatodequeoacúmulode fatoresderiscopoderiapredizeraresiliência,jáquetodoser humanopossuiumlimiteparalidarcomoestresse.Celiae Souza(2002)comentamquetermaisdoquequatroeventos estressantesnavidaelevaacondiçãoderisco.Outrosautores advertemparaoperigodautilizaçãodosomatóriodeitens deeventosdevidaencontradosemescalaseinstrumentos paradefinirumindivíduodealtorisco.Éprecisoconsiderar aheterogeneidadedostiposdeeventosquemuitasvezessão classificadosdamesmaforma,alémdoque,muitasvezes omaisimportantenãoéapenassaberseorespondentevi-vencioudeterminadasituação,mastambémcomooevento afetouoindivíduo(Garmezy,1996;Luthar&Cushing,1999; Luthar&Zigler,1991).
Garmezy(1988)sugerequeeventosagudospodemser infinitamentemaisdesastrososdoquecondiçõescrônicas aqueoindivíduojáestáhabituado.Oseventosenvolven-doperdaseseparaçõesdepessoasqueridassãoexemplos dessetipo.Anosdepois,essemesmoautoradmitiuqueo poderdoacúmulodeeventoseacronicidadedaadversi-dadetemsetornadoevidentenosestudosderiscoeque essaabordagemvemsubstituirofocoanteriormentedado aeventosespecíficoscomoantecedentesàsdesordensde comportamento.Assituaçõesdepobreza,segundooautor, sãocamposfavoráveisparaessainvestigaçãopois,nessas condiçõesémaisprovávelosurgimentoderompimentos e discórdias na família, cuidados de saúde inadequados, desempregofreqüente,habitaçãoinadequada,entreoutros (Garmezy,1991,1993,1996).
Umacolocaçãointeressanteemrelaçãoaoacúmulode eventosdevidanegativosecrônicos(porexemplo,discórdia entreospais,criminalidadenafamília,desordempsiquiátrica damãe,ausênciadecuidadosparentais)foiexplicitadapor Garmezy(1993)daseguinteforma,aoinvestigarfatoresde risco familiares: a presença de um único evento estressor
(ounenhumestressor)produzaumentodeumporcentonas chancesdeumadesordempsiquiátricanacriança.Doises-tressoresnomeiofamiliaraumentamparacincoporcentoa possibilidadedadesordem;comtrêsestressores,aschances crescemparaseisporcento;comquatrooumaiseventos somam21porcentodechancesdacriançadesenvolveruma desordempsiquiátrica.Oacúmulodeestressoresfamiliares potencializa33porcentodaocorrênciadeproblemaspsi-quiátricosemcrianças.
Aprofundandoaidéiadecronicidadedoseventos,Rutter (1981)relembraqueeventosagudospodemprovocarefeitos negativosemcurtoprazo,masnemsempreemlongoprazo. Porexemplo,ahospitalizaçãodeumacriançapormenosde uma semana geralmente não está associada com seqüelas posteriores. No entanto, pessoas expostas à adversidade crônicatêmmaisdificuldadeemlidarcomeventosdevida agudos.Porexemplo,oefeitoderepetidashospitalizações seriamaiorseassociadoaadversidadespsicossociaisdoque emcircunstânciasmaisfavoráveisdevida.
Osdiferentesníveisindividuaisdetolerânciaaoestresse tambémoscilamconformeoperíododevidaemqueoevento ocorreeconformeasituaçãoenfrentada:umapessoaéper-turbadaporpequenasmudanças,algumassãoafetadaspor eventosdemaiormagnitude;outrasquandoaexposiçãoao eventoémaisprolongadaouaindaalgumaspodemalcançar seulimitedetolerânciaapenascomoacúmulodepequenos eventosestressantesdodia-a-dia(Savoia,1999).
ParaKaplan(1999),éacombinaçãoentreanatureza,a quantidadeeaintensidadedosfatoresderiscooquedefine o contexto da adversidade necessária para a resiliência. ParaRutter(1987),pesquisadordereferênciaparaaárea, aproximidadeentrefatoresderiscoeproteçãomereceser prioridade.Sugerequeseuseotermoriscosobaóticade ummecanismoenãodeumfator,umavezquerisconuma determinadasituaçãopodeserproteçãoemoutra.Alertapara operigoemdefinirdeformaarbitráriaeventosisoladoscomo fatoresderisco,dandoimportânciaàidéiadeequilíbrioentre riscoeproteção,deformaqueosprimeirossejammoderados pelossegundos,proporcionandocomoresultadoumaatitude positivafrenteàadversidadedavida.
Sejacomoforqueseconstituiorisco,épossívelaprender formasdeenfrentamentoapartirdaconvivênciacomindi-víduosqueovivenciarameultrapassaramcomsucesso.A respostadoindivíduoaoriscotemsidodescritaemtermos de vulnerabilidade e resiliência. (Luthar, 1991; Antoni & Koller,2000).Porvulnerabilidadeentende-seapredisposição individualparadesenvolvervariadasformasdepsicopato-logiasoucomportamentosnãoeficazes,oususceptibilidade paraumresultadonegativonodesenvolvimento.Nooutro lado,estáaresiliência,comoapredisposiçãoindividualpara resistiràsconseqüênciasnegativasdoriscoedesenvolver-se adequadamente.
Fatoresprotetores
paraacompreensãodotema.Aetapadodesenvolvimento correspondenteàinfânciaejuventudetemsidopriorizada pelosestudiososdotema.Ostermosmaisutilizadospara trataraadversidadesãofatoresderisco,eventosdevidaou estressores,enquantoqueosfatoresdeproteção,são,usual-mentenomeadoscomomediadores(buffers).
Grandepartedosautoresdefinedeformadidáticatrês tiposdefatoresdeproteçãoparaacriança/adolescente(1) fatoresindividuais:auto-estimapositiva,auto-controle,auto-nomia,característicasdetemperamentoafetuosoeflexível; (2)fatoresfamiliares:coesão,estabilidade,respeitomútuo, apoio/suporte; (3) fatores relacionados ao apoio do meio ambiente: bom relacionamento com amigos, professores oupessoassignificativasqueassumampapeldereferência seguraàcriançaeafaçasentirqueridaeamada(Brooks, 1994;Emery&Forehand,1996).
GoreeEckenrode(1996)consideramqueessadivisão tendeaobscurecerasimportantesformasdeinterrelaçãoque ocorrementreapessoaeomeio.Aeficáciadosuportesocial comoredutordoestressepodevariardeacordocomonível deoutrofatordeproteçãocomoaauto-estima.Apresença deumfatordeproteçãopodedeterminarosurgimentode outrosfatoresdeproteçãoemalgumoutromomento.Portan-to,compreenderdequeformaessesmediadoresagempara atenuarosefeitosnegativosdoestresseoudoriscoétarefa tãocomplexaquantodeterminaroqueéfatordeadversidade paracadaserhumano.
Osprocessosdeproteçãotêmacaracterísticaessencialde provocarumamodificaçãocatalíticadarespostadoindivíduo aosprocessosderisco.Possuemquatroprincipaisfunções: (1)reduziroimpactodosriscos,fatoquealteraaexposição dapessoaàsituaçãoadversa;(2)reduzirasreaçõesnegativas emcadeiaqueseguemaexposiçãodoindivíduoàsituaçãode risco;(3)estabeleceremanteraauto-estimaeauto-eficácia, atravésdeestabelecimentoderelaçõesdeapegoseguraseo cumprimentodetarefascomsucesso;(4)criaroportunidades parareverterosefeitosdoestresse(Rutter,1987).
Hádivergênciasnaliteraturasobreacapacidadedesses fatorespredizeremefetivamentearesiliência.ParaTrombeta eGuzzo(2002),apenasosfatoresdeproteçãosãopreditivos deresiliência,enquantoosfatoresderisconãopossuemtal capacidade.ParaYuneseSzymanski(2001),aresiliência éoprodutofinaldacombinaçãoeacúmulodosfatoresde proteção.
Umconceitoimportanteparasecompreenderacapaci-dadederesiliênciadoindivíduoéodecoping(Garmezy, 1988;Rutter,1981,1996).Refere-seaoposicionamentoe àsaçõesindividuaisfrenteàssituaçõesnegativasdevida. Sãoesforçoscognitivosecomportamentaisutilizadospelo indivíduoparalidarcomassituaçõesindutorasdeestresse (Folkman&Lazarus,1985).Podemestardirecionadospara aemoção(esforçopararegularoestadoemocionalassociado aoestresse)ouserfocalizadonoproblema(esforçoparaagir na origem do estresse, tentando modificá-lo). Estratégias decoping mais voltadas para o enfrentamento direto dos problemasouaelaboraçãodasdificuldadessãomaisencon-tradasemindivíduosresilientes,podendomoderaroefeito das adversidades, tornando-se um fator protetivo (Silva, 2001). Nos indivíduos resilientes há menor utilização de
estratégiasdecopingdeevitaçãodosproblemas(Kavsek& Seiffge-Krenke,1996).
Ocopingilustraaimportânciadasdiferençasindividuais nosníveissocial,psicológicoeneuroquímico.Aestratégia decopingutilizadapelacriançaouadolescentenãoébase-adaemumeventoúnico,masapreciadacomoresultadodas experiênciasjávividas.Oacúmulodeeventosaolongodo tempoéoquecontribuiparaaresiliênciaouvulnerabilidade psicológica.Porexemplo,Rutter(1981,1989)questionaa possibilidadedeexperiênciasadversasnosprimeirosanosde vidaalteraremocursodedesenvolvimentosubsequenteou influenciarnasrespostasdoindivíduoaeventosestressores quesurjamemfasesposteriores(juventudeevidaadulta). Oimpactodealgumfatorpositivoounegativonainfância, podemuitasvezesnãosermanifestadoacurto-prazo,mas contribuirnaformaçãodecadeiasdereaçõesondeumevento negativoliga-seaoutroouporoutrolado,umeventobem-sucedidoproporcionaoutrosdomesmotipo.
Diantedosfatorespotencialmentegeradoresdedesequi-líbrioparacadaindivíduo,osmecanismosdeproteçãosão tomadoscomoopontochavenecessárioparaorestabeleci-mentodoequilíbrioperdidoedemonstraçãodecompetência apesar da adversidade. Confirmado que muitas pessoas escapamdasconseqüênciasnegativasdorisco,foraminten-sificadososestudosfocadosemvariáveisquepodemoperar nesseresultadopositivonassituaçõesdevida.
WernereSmith(2001),acompanhandoindivíduosdesde onascimentoatéaidadede40anos,observaramclaramente arelaçãoentrefatoresderiscoeproteção.Entreaspessoas resilientes, quanto maior a quantidade de desvantagens e estresse acumulados ao longo da vida, mais fatores de proteçãoforamnecessáriosduranteainfânciaejuventude paracontrabalançarosaspectosnegativosdesuasvidase aumentarosresultadospositivosnodesenvolvimento.Des-tacaramcomomediadorescaracterísticasdetemperamento dacriançaedasuafamíliaesuporteemocionaldentroefora dafamília.Osadultosresilienteseramdescritosnaprimeira infânciacomopessoasmaisafetuosas,ativas,deboaíndole efáceisdelidar.Quandoadolescentestenderamamostrar maiorauto-conceito,auto-controle,facilidadeeminteragir comamigos,professoreseinserir-seemgrupos.
Outroestudolongitudinalenvolvendocriançasemsitua-çãodealtoriscosocialobservouqueodesfechopositivoou negativonaaquisiçãodecompetênciadeveu-seespecialmen-teaosfatoresdeproteção(Rutter&Quinton,1984).
Conrad(1998),desenvolveuumestudocomcriançasem situaçãoderua,filhasdemãescomsintomasdepressivose surpreendeu-seaoverificarque60porcentodessascrianças nãoapresentaramemidadesmaisavançadasproblemasde comportamento.Atribuiuesseresultadoàpresençadeestrutu-rasexternasqueoferecemsegurançaesuporteaoindivíduo.
Método
Aamostrafoiorganizadaporconglomerados,baseadana populaçãodosalunosmatriculadosna7ª/8ªsériedoensino fundamentale1ª/2ªsériedoensinomédiodeescolaspúblicas domunicípiodeSãoGonçalo.Foramentrevistados997alu-nosentre12e19anos(idademédia=15,4;DP=1,48),com supremaciademeninas(57,7%)nas17escolase37turmas quefizerampartedoestudo.
Resiliência
Nesteestudo,aresiliênciafoimensuradaatravésdaescala de Resiliência desenvolvida por Wagnild e Young (1993) queéumdospoucosinstrumentosusadosparamedirníveis deadaptaçãopsicossocialpositivafrenteaeventosdevida importantes.Possui25itensdescritosdeformapositivacom respostatipoLikertvariandode1(discordototalmente)a7 (concordototalmente).Osescoresdaescalaoscilamde25a 175pontos,comvaloresaltosindicandoelevadaresiliência. Estudostêmmostradoboaconfiabilidadeevalidadedesse instrumento(Wagnild&Young;1993),jáadaptadoparao português(Pesce,Assis,Avanci,Malaquias&Oliveira,no prelo).
Eventosdevida
a) Família: um dos pais ou responsável já ficou ou está desempregado; problemas financeiros sérios na fa-mília; mora ou ter morado amontoado, sem espaço; familiarcomproblemasmédicossérios,comodoenças ouacidentes;problemadedeficiênciafísicaoumental nafamília;familiarindiciadooupreso;mortedepai, mãeouirmão;parentepróximomorto;problemasde álcooloudrogasnafamília;discussõesentrefamiliares envolvendoosfilhos;famíliajásemudoumuitasvezes de casa, bairro, cidade ou Estado; pais separados ou divorciados;paissecasaramnovamenteapóssepara-ção;nascimentodeumnovoirmãoouirmã;mortede animaldeestimação;terficadomuitodoenteerecebido cuidadosmédicos.
b) Comunidade: viu alguém ser gravemente ferido; vive/ viveuemsituaçãodeperigoeinsegurançanavizinhança; játeveacasaassaltadaouroubada.
Visandoanalisarseonúmerototaldeeventosdevidaseria umavariávelassociadaaonívelderesiliênciaforamcriados: umindicadorcomosomatóriodetodososeventosfamiliares relatadosanteriormenteeoutroindicadorcomosomatório doseventosocorridosnacomunidade.Cadaumdesseseven-tosdevidatevecomoopçãoderespostasimounão,como valorcorrespondendoa1ou0,respectivamente.
Violênciacomoeventosdevida
a) violência entre irmãos (alfa Cronbach 0.5 e índice de correlaçãointraclasse–ICC0.85)eentreospais(alfa 0.61 e ICC 0.71). Medido através da freqüência com queosirmãos/paisbrigamapontodesemachucaremou humilhamunsaosoutros(muitasvezes,poucasvezese nunca);
b) violênciafísicagravepraticadaporpai(alfa0.83eICC 0.79)emãe(alfa0.79eICC0.83)pelomenosumavez navida–ConflictTaticsScales(Straus,1979):chutar, morderoudarmurros,espancar,ameaçarouefetivamente usar arma ou faca contra o adolescente. Apenas uma questãopositivaindicapresençadeviolênciafísicagrave. Foiadaptadaparaalínguaportuguesa,apresentandobons resultadospsicométricos(Assis,1992;Hasselman,1996). Aviolênciagravedamãeedopaisecorrelacionaramcom aescaladeauto-estima,violênciapsicológicaesupervi-sãofamiliar,contribuindoparaavalidadedeconstruto; c) violênciapsicológica(alfa0.91eICC0.86)Aescalade
PitznereDrummond(1997)afereasexperiênciasvividas pelojovem,emqueumapessoasignificativadenegriu suasqualidades,capacidades,desejoseemoções,alémde cobrá-loexcessivamente.Correlacionou-secomaescala deapoiosocial,auto-estima,escalasquemensuramoutras formasdeviolência,itensdeeventosdevidaesupervisão familiar.Asomadosescoresderesposta(sempre,quase sempre,àsvezes,raramenteenunca)foicategorizadade acordocomtercis,compondoníveiselevados,médiose baixosdeviolênciapsicológica;
d) violênciasexualaferidapelaquestão“vocêteveexperiên- ciassexuaistraumáticasquandoeracriançaouadolescen-te?”,quetevecomoopçãoderespostasimounão.
Fatoresdeproteção
a) apoio social (Sherbourne & Stewart conforme citado porChor&cols,2001;Chor,Farstein,Alves&Lopes, 2003):sãoapresentadasnesteartigoquatrodimensões de apoio social: emocional (apoio recebido através da confiança, da disponibilidade em ouvir, compartilhar preocupações/medos e compreender seus problemas – ICC 0.83), de informação (através do recebimento de sugestões, bons conselhos, informação e conselhos desejados–ICC0.82),afetiva(demonstraçãodeafetoe amor,darumabraçoeamar–ICC0.79)edeinteração positiva(diversãojuntos,relaxar,fazercoisasagradáveise distrairacabeça–ICC0.77).Têmsidoencontradosbons índicespsicométricosnaadaptaçãobrasileira(Assis& Avanci,2004;Chor&cols.,2001).Todasasdimensões destaescalasecorrelacionaramentresiecomaescalade violênciapsicológica.Osescoresobtidosforamcategori-zadossegundotercil,configurandoapoiosocialelevado, intermediárioefraco;
b) auto-estima (Rosenberg, 1989): 10 itens designados a avaliarglobalmenteaatitudepositivaounegativadesi mesmo(alfade0.76eICCde0.81).Podeserusadapara adultos e adolescentes, obtendo uma alta consistência interna.Foiadaptadoparaoportuguês,combonsíndices psicométricos(Assis&Avanci,2004).Quantoàvalidade, aescaladeauto-estimacorrelacionou-secomasescalas deviolência,comoseventosdevida,comapoioemocio-naleinteraçãopositiva,oqueteoricamenteconvergem comesteconstruto.Osresultadosforamcategorizados, configurandoauto-estimaelevada,médiaebaixa; c) supervisãofamiliar;medidaatravésdafreqüênciacom
d) relacionamento com amigos e professores: opções de resposta:bom,regulareruim.
Oinstrumentodecoletadedadosfoiorganizadoemcinco blocos:perfilsócio-demográficodoaluno,relacionamento comaspessoasdoseuconvívio(relações,supervisãofami-liar,escaladeapoiosocial),oadolescenteemrelaçãoasi mesmoesuasexpectativasemrelaçãoaofuturo(escalade resiliência,escaladeauto-estima,escaladesatisfaçãodevida eitenssobreauto-confiançaeauto-determinação);eventos negativosdevida;escalasdeviolênciafísica,psicológicae sexual.
Aformulaçãodoquestionáriobaseou-seemestudose experiênciadospesquisadores(Fiocruz/Ensp/Claves,2003; Minayo&cols.,1999),deixandoparaapartefinaltemas maisdelicadoscomoeventosdevidaeviolência.
ApesquisafoiaprovadapeloComitêdeÉticaemPes-quisadaFundaçãoOswaldoCruz.
Análise
Foram utilizados o Testete a Análise de Variância (ANOVA)paraseencontrardiferençassignificativasaonível de5%nasvariáveisquantitativasequalitativasordinais.O Testet foi empregado nas variáveis qualitativas nominais binárias, para testar a diferença da variável quantitativa resiliênciacomasmédiasdosgruposdasvariáveisdicotô-micas.Aanálisedevariância(ANOVA)foiusadaparatestar adiferençacomasvariáveisqualitativasordinaiscommais deduascategorias;otestedeTukeyefetuouacomparação múltipladasmédiasdosgrupos.
Resultados
NaTabela1podeseverificarainexistênciadeassociação daresiliênciacomtodososeventosadversosdevidainvesti-gados,sejamelesoriundosounãodeviolência.Tambémnão severificadistinçãoquantitativaentreototaldeeventosde vidavivenciadospelosjovensnafamíliaecomunidadeeo nívelderesiliênciaquealcançam.Avariávelsexofoiaúnica associadaaresiliência,comasmeninasapresentandoníveis maioresdesuperaçãodasdificuldadesqueosmeninos.
Aanálisedoseventosadversosdevidasegundoosexo constatouqueapenasaviolênciasexualmostrouassociação comresiliêncianosrapazes,commédiade71,7entreosque nuncasofrerame65,4entreosquesofreram(p=0,03,dados nãoapresentados).
Emrelaçãoaosfatoresprotetores,verifica-senaTabela2, umasituaçãodiferenciada.Adolescentescommaioresníveis deresiliênciatêm:auto-estimamaiselevada;maiorsuper-visãofamiliarmensuradaatravésdafreqüênciaemqueos paissabemaondevaioadolescentequandosaidecasaecom quemestá;melhorrelacionamentocomoutraspessoascomo amigoseprofessores;maiorapoiosocial,sejaeleemocional, afetivo,informacionaledeinteraçãopositiva.
Constatou-setambémqueadolescentesmaisresilientes tendematersempreumadultoemcasasupervisionando-os navoltadaescola(dadosnãoapresentados).
Paraexemplificaraanálisedahomogeneidadedasres-postasparacadavariávelpresentenaTabela2,observa-se queasmédiasdostrêsníveisdeauto-estimadiferemumadas
outras,comumnítidogradientedereduçãodaauto-estima àmedidaquedecaionívelderesiliência.Tomandocomo exemplo o relacionamento com professores, alunos que respondem ter relacionamento bom ou regular têm maior nívelderesiliência,distinguindo-sedosquerespondemter relacionamentoruim.
Outrasvariáveismostraramumagradaçãodiferenciada:a maioriadasdiferençasdemédiasfoiobservadaparaasvariá-veisextremas(apoioelevadoversusfracoourelacionamento bomversusruim),comonívelintermediárioassociando-se aumdospólosderesposta.
Discussão
Os dados encontrados neste estudo mostraram que os eventostraumáticosdevidanãoestãorelacionadoscomca-racterísticasdeumindivíduoresiliente.Nãosepodeafirmar quetervivenciadoumtipodeeventoouváriasexperiências negativascontribuiparaacapacidadedelidarcomaadversi-dade.Essesachados,aindapreliminares,estãodeacordocom ateoriaquenãoencontrarelaçãodiretaentreriscoeresiliên-cia,poisháqueseconsideraroprocessamentodaexperiência negativacomofatorimportanteparaaresiliência.Portanto,
Tabela 1.Resiliência segundo variáveis sócio-demográficas e eventos
adversosdevida
Variáveis N Média p-valor
Sexo* Feminino 352 73,54 0,008
Masculino 266 71,34 faixaetária* 10-14anos 175 72,48 ns
15–19anos 444 72,64 Violênciapsicológica** Baixa 154 74,12 ns
Média 173 72,17
Alta 163 72,14
Violênciafísicasevera–pai* Não 452 72,78 ns
Sim 91 72,30
Violênciafísicasevera–mãe* Não 426 72,88 ns
Sim 179 72,11
Violênciafísicaentre
irmãos** Nunca 37 71,06
ns
MuitasVezes 336 72,71 PoucasVezes 157 72,86 Violênciafísicaentrepais** Nunca 8 67,86 ns
PoucasVezes 83 71,37 MuitasVezes 420 73,00 Violênciasexual* Não 585 72,85 ns
Sim 28 70,14
eventos:família**(0-16) 0-1 4 68,43 ns
2-3 39 75,12
4ou+ 529 72,69 eventos:comunidade*(0-3) 0-1 448 72,98 ns
2-3 168 71,44
Totaldeeventosdevida**: (0-27)
0-7
ahipótesenãodeveriaserqueumavivênciadeviolênciaou qualqueroutroeventoadversocausanecessariamentepre-juízosnavidadoadolescente,massimquequandoojovem sucumbeaorisco,eleestápropensoatermaisdificuldade emsair-sebemfrenteaosdesafiosdavida.Issonãosignifica desprezarosefeitosmaléficosde,porexemplo,umaviolên-ciagravecontraojovem,maspelocontrárioenfatizarqueé possível“sobreviver”aessasituação,aindaquesempreseja inaceitávelqueaconteça.
Osfatoresdeproteção,porsuavez,tiveramassociação comaresiliência,confirmandoahipóteseteóricaquemolda esseconstruto.Pode-seinterpretaressarelaçãoentendendo que os fatores de proteção aqui abordados (auto-estima, apoio social, gênero, relacionamento com outras pessoas) atuamcomofacilitadoresnoprocessoindividualdeperceber eenfrentarorisco.
Osresultadosaquiexpostosmostramaindaquefocarum eventodevidaisoladamenteatribuindo-lheadversidadeou considerarosomatóriodestescomoacondiçãoderisconão pareceseramelhorformadeabordaraquestão.Éimprescin-dívelumaanálisemaiscriteriosadosprocessosquedefato proporcionamadversidadeàvida.Kaplan(1999)enfatizaque nãoexisteumcritérioqueafirmequeumavariávelparticular determineumfatorderiscooufatordeproteção,ouainda queambosestejamrelacionadoscomumresultadoresiliente. Definirriscoeproteçãoéumproblematrivialexcetopelo fatodequedefinirmaioroumenorvulnerabilidadedepende de uma determinação inicial do que é considerado risco.
Paradefinirumfatorqueprotegeumacriançaemriscode umresultadopoucoresiliente,éprecisodefinirosignificado deriscoemalgumlugarentreosdoispólos:asituaçãoou circunstânciaqueofereceriscoeoresultadomaisoumenos resiliente.Nessemeiodocaminhopodemestarosfatores queoferecemproteçãoequevãodealgumaforma,ajudaro indivíduoadimensionarorisco.
Osadolescentesinvestigadosnesseestudopertencema umaclassesócio-econômicadesfavorecida,fatoquepode ser interpretado como risco devido às desvantagens asso-ciadasequepodetercontribuídodealgumaformaparaos resultadosobservadosnopresenteestudo.Garmezy(1991) afirmaquedosatributospositivosobservadosemcrianças quevivememmeioapobreza,algunssãoinstiladospela família,algunspelaescolaealgunsporoutrasinstituições comoaigreja.Outrossãoinerentesaoindivíduoecontri-buemparaaforçanecessáriaaosjovensquesofremcoma adversidadebiológica,física,socialoucognitiva.Opoder deumfatordeproteção,segundooautor,podeamortecera tendênciaantissocial,aauto-estimaperdidaeaperformance ecompetênciasembrilho,quetendeaserconseqüênciade elementosderiscopresentesemumambientemarcadopela desvantagemeprivação.
Autilizaçãodereferencialestatísticomaiselaboradopo-deriapropiciaroaprofundamentodoconhecimento,aindaem faseinicialdeelaboração.Aanálisedosefeitosdainteração entreriscoeproteçãodeveseropróximocaminho,buscan-do-seobservarosefeitosdessacombinação,levando-seem
Tabela2.Resiliênciasegundofatoresprotetoresindividuais,familiaresedeapoio/suportedomeioambiente
Variáveis N Média F pvalor
Auto-estima Alta 191 76,5056ª F2,595=23,902 0,000
Média 167 72,3285b
Baixa 240 69,8976c
Supervisãofamiliar Sempre 443 73,1945 F2,614=3,046 0,048
MuitasVezes 105 71,8476
Poucasvezesoununca 69 70,1284
Relacionamento–amigos Bom 562 73,0869 F3,615=13,309 0,001
Regular 51 67,8768
Ruimesemamigos 6 66,5714
Relacionamento–professores Bom 473 73,2504ª F2,616=6,065 0,000
Regular 137 70,8905ª
Ruim 9 64,0635b
Apoioafetivo Elevado 204 69,9832ª F2,602=15,480 0,000
Intermediário 160 72,4393b
Fraco 244 75,1522c
Apoioemocional Elevado 230 70,1839ª F2,598=14,734 0,000
Intermediário 199 73,5678ª
Fraco 172 75,2392b
Apoiodeinformação Elevado 231 70,2041ª F2,598=20,198 0,000
Intermediário 184 72,382ª
Fraco 186 76,2427b
Interaçãopositiva Elevado 240 70,119ª F2,597=16,488 0,000
Intermediário 168 73,4592b
Fraco 192 75,4375b
a,b,c–paracadavariávelquefoipossívelexecutaroTestedeTukey,amesmaletraindicahomogeneidadedamédia.Quandosãousadasasletrasa,b,c,
contaaprecocidadedeseinvestigaressesatributosaindana adolescência,tendoporprincípioasalteraçõesvivenciadas deacordocomomomentocronológico,anaturezadasex-periênciaseapercepçãoindividual.
Aopçãodeutilizarvariáveisdenaturezadiferentefoi definidapelarelevânciadosfatoresderiscoeproteçãonafun-damentaçãoteóricasobreresiliência.Écomumemestudos sobreresiliência,autilizaçãodevariadosinstrumentosdena-turezaetamanhosdiferentesprincipalmentepeladificuldade emseatingiraresiliênciaatravésdeumúnicoparâmetrode medida.Poressemotivo,aescaladeresiliênciafoicompa-radacomvariáveisafinscomooseventosnegativosdevida (fundamentaisparaexistênciadaresiliência),aauto-estima eoutrascaracterísticasdepersonalidade(queteoricamente estariam positivamente correlacionadas com a resiliência) eapoiosocial(tambémumadasbasesparaconstituiçãode umapersonalidadefortificada).
Mais do que problematizar a agregação de diferentes variáveis,importaqualificaraspropriedadespsicométricas decadaescalautilizada.Nopresenteestudo,osresultadosda validadedeconstrutodãoforçaaorecorteutilizado(Pesce &cols.,noprelo).
Luthar(1991)utilizoudeformasimilardiversasmedidas paraalcançarresiliênciaemadolescentesdeescolaspúblicas. Os instrumentos escolhidos mensuravam eventos de vida, característicasdemográficasdapopulação,medidasdecom-petêncianaescolaeentrecolegas,característicasindividuais depersonalidadecomointeligência,comportamentossociais e auto-controle, além de medidas para sintomatologia de depressãoeansiedade.
Semdúvidaoconceitoderesiliênciatemsidofundamen-talnocampododesenvolvimentoedasaúdehumana.Os conceitosderiscoeproteçãonãopodemserconsideradosho-mogêneos.Énecessáriaumaanálisediscriminadaapontando paraapossibilidadedediferentesgruposdeeventosdevida adversosproporcionaremefeitosdequalidadesdistintasna vidadoindivíduo.Damesmaforma,osfatoresdeproteção, apesardeteremmostradoumarelaçãomaisdiretacoma resiliência,devemserentendidostantoseparadamentequanto emconjunçãocomoutrosfatoresecomoprópriorisco.
Outralimitaçãodotrabalhorefere-seàprópriadefinição deresiliência,poisainda“nãopossuiumadefiniçãoúnica, nemumparâmetroinquestionável,nemumamedidaunifor-me”(Slap,2001,p.173).
Diantedessasquestões,éimportantedestacarcomoos fatoresdeproteçãoatuamsobreoseventosdevidaadversos eemqueocasiãoumevento(oueventos)apresenta-secomo ameaçaaodesenvolvimentodacriançaedoadolescente.
Definircomsegurançaoqueconstituiounãoumfator deproteçãoouumfatorderiscoexigecuidados,principal-mentequandosepensanascriançaseadolescentesquesão privadosdeumabasefamiliarsólidaedeacessoaredesocial deapoioeaindaassimsemostramresilientesecompetentes frenteàadversidade.Paraesseindivíduosobrariaapenasa listadequalidadespessoais.Searesiliênciaforvistanessa perspectivaindividualtorna-secomplicadaaelaboraçãode programasouintervençãosocial,fatoquevemsendoalvode muitosestudossobreotema(Bloom,1996;Masten,1999; Munist&cols.,1998).
ConsideraçõesFinais
Aemergênciadosestudosemresiliênciaprincipalmente nasúltimasduasdécadasrepresentaumaabordagempara conhecercomoacriançasedesenvolvequandoconfrontada com circunstâncias adversas. Nestas situações, muito se focalizavanosfatoresderiscoenaetiologiadosproblemas dacriançaeadolescente(comousodeálcooledrogas,psi-copatologia, delinqüência e comportamento violento). No entanto,importantesaprendizadospodemseradquiridospela convivênciacompessoasqueultrapassaramcomsucessoo risco.Ainvestidanaresiliênciatemenfraquecidoofocona “patologiadadesvantagem”evalorizadoaquelesqueobtêm sucessodealgumaformaemsuasvidas.
Esteestudofoiumatentativadecontribuirparaacom-preensãodesseconstructo,queemboraestimulante,deixa antevermuitasquestõesaseremabordadasnofuturo.Um fatorassociadoàresiliênciaemumdomíniopodeserefetivo emoutrosdomínios?Dequeformaosprocessosrelacionados àresiliênciamudamcomopassardotempo?Pode-sefalar sobreresiliênciadamesmaformaemestudosrelacionados àresistênciaaoestresseeàquelesqueenvolvemboarecu-peraçãoaotrauma?(Al-Naser&Sandman,2000;Jenkins, 1997).
Mesmosabendo-sedosavançosquearesiliênciapode oferecer na área da saúde, deve-se ter a preocupação em nãotransformararesiliêncianumconceito“damoda”que subestime circunstâncias de vida penosas para a criança, como,porexemplo,ocontextodeviolência.Aênfasena promoçãodaresiliêncianãodevesubstituiraspolíticasde combateàdesigualdadesocialecondiçõesdevidaprecárias dealgunssujeitos.Aresiliência,incorporadanamedidacerta aosestudosnessaárea,poderenderfrutoslouváveis.
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Recebidoem04.02.2004 Primeiradecisãoeditorialem07.06.2004 Versãofinalem08.07.2004
Aceitoem21.07.2004
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