DIPLEGIA FACIAL TRAUMATICA
J . FORTES-REGO *
A paralisia facial periférica unilateral é condição freqüente e, embora
a forma considerada idiopática tenha predomínio estatísitco
! ,(
numerosos são
os fatores implicados na sua etiología, cabendo mencionar, entre estes, os
traumatismos cranianos, cuja importância não parece fácil determinar com
precisão, em face dos dados divergentes oferecidos nas diversas casuísticas
relatadas. Assim, entre as 19 causas distintas de paralisia facial encontradas
por May & Lucente
1 9, em 28 dos seus 160 pacientes, não há referência a
traumatismo, no que coincide com a série de 446 casos de Adour &
Win-gerd \ onde 245 apresentaram uma outra afecção aguda ou crônica. Muitas
outras publicações similares poderiam ser facilmente evocadas, porém
pro-curaremos dar maior ênfase àquelas em que o traumatismo craniano é
men-cionado. Eis alguns exemplos: 7 em 2 5 1
1 3, 2 em 7 9
2, 119 em 735
5, 23 em
340
1 2, 1 em 4 8 3
2 9, 72 em 606
1 4, 1 em 8 0
3 0, 15 em 1 4 6
3 3e 2 em 6 1
1 8,
referindo-se esta última a crianças menores de 14 anos. Outros autores
sim-plesmente reportam seus casos de paralisia traumática
1 1>
2 1.
Ponto pacífico entre os autores relaciona-se ao progressivo aumento na
freqüência de paralisias faciais traumáticas, como conseqüência do número
cada vez maior de acidentes de tráfego, industrial e de aviação
2 2. Neste
particular, os números apresentados por K o i k e
1 7e m Niigata, Japão, são
bastante significativos: 1967 — 12, 1968 — 19, 1969 — 28 e 1970 (janeiro
a agosto) — 29 casos. Também Paunescu & c o l .
2 6, ao comunicarem um
total de 33 casos de paralisia facial em crianças, num período de 8 anos,
ressaltaram um importante aumento no número de casos de origem
pós-trau-mática, em contraste com uma considerável redução nos decorrentes de
even-tos não traumáticos. Cremos oportuno destacar ainda a grande importância
que se atribui aos traumatismos de face na produção de parilisia facial
extra-temporal
6.
1 5. Em algumas eventualidades, situações curiosas são
menciona-das em associação com paralisia facial periférica: fratura de mandíbula
2 3,
lesões traumáticas da cadeia ossicular
2 5, tentativa mal sucedida de remoção
de um corpo estranho do conduto auditivo externo
8, após anestesia
tron-cular do nervo dentário inferior acima do orifício superior do conduto
den-tário
1.
É geralmente admitido que a paralisia facial periférica é causada, na
maior parte dos casos de traumatismo fechado de crânio, por uma fratura
do osso temporal, podendo esta ser transversa ou longitudinal. O lugar de
sofrimento do nervo facial parece ser determinado mais pela singular
dis-posição do osso temporal, do que por um tipo particular de traumatismo ou
fratura do crânio. McHugh
2 1, citando vários autores, afirma que o local
mais comum de lesão do nervo facial, em fraturas transversas e
longitudi-nais do osso temporal, é dentro do ouvido médio. No primeiro tipo de
fra-tura, o nervo é freqüentemente lacerado ou completamente seccionado
en-quanto que, nas longitudinais, é distendido, contundido, edemaciado e
com-primido pelos fragmentos ósseos, porém só raramente lacerado.
Uma fratura transversa do osso temporal é usualmente o resultado de
uma força aplicada às regiões occipital ou occipitomastóidea e mostra
con-siderável variação em posição e direção. Nela, há rotura da cápsula óssea
do ouvido interno, perpendicular ao grande eixo da pirâmide petrosa, e o
nervo facial é mais freqüente e severamente lesado. Segundo as estatísticas
de Siebenmenn (1890) e Hahn (1955), citados por Miehlke
2 2,
aproximada-mente 30-50% dos pacientes que sofrem este tipo de fratura, apresentam
concomitantemente paralisia facial.
As fraturas longitudinais do osso temporal, paralelas ao grande eixo
da pirâmide petrosa, são muito mais comuns que as transversas. Este tipo
de fratura usualmente envolve o assoalho da fossa craniana média, poupa
a cápsula óssea do ouvido interno, porém freqüentemente — se não sempre —
lesa o ouvido médio. O nervo facial pode ser atingido na porção timpánica,
distal ao gânglio geniculado ou, em raras ocasiões, na porção vertical, na
mas-tóide. Uma fratura longitudinal é comumente devida a uma força aplicada
à região temporoparietal e, segundo a maioria dos autores, tem um curso
típico. Em 10 a 25% dos casos provoca paralisia facial, sendo esta de melhor
prognósitco com relação às oriundas das fraturas transversas.
A seguir faremos o relato de um caso de paralisia facial bilateral e
hipoacusia esquerda surgida após traumatismo cranioencefálico.
OBSERVAÇÃO
COMENTARIOS
A diplegia facial secundaria a traumatismo craniano é r a r a
1 0.
1 6>
2 0.
2 8.
M c H u g h
2 1osso temporal pode ser uni ou bilateral, parcial ou completa, imediata ou
tardia. A paralisia imediata, geralmente completa, é devida à interrupção
do nervo no aqueduto de Falópio. Nos casos bilaterais, a paralisia pode ser
imediata em ambos os lados, tardia nos dois, ou imediata em um lado e tardia
no outro, ou estar presente quando a fratura é demonstrada pelas
radio-grafias só em um lado. O surgimento tardio da paralisia traumática é
atri-buído a edema ou hematoma no canal facial.
Embora reconheça-se uma origem intratemporal para 90%
3ou mesmo
95%
4das paralisias faciais periféricas, a associação de lesão deste osso com
acometimento do mencionado nervo nem sempre é clara. Assim, T o s
3 1,
revendo 500 casos da doença de Hand-Schuler-Christian registrados na
lite-ratura, encontrou, em 284, lesões do osso temporal, sendo estas bilaterais
144 vezes e considerou surprendente o fato de somente 8 terem apresentado
paralisia facial intratemporal, bilateral em apenas um caso.
Nosso paciente apresentou indícios de fratura de fossa média
(confir-mada radiológicamente à esquerda), paralisia facial periférica bilateral,
in-completa, provavelmente imediata e hipoacusia esquerda. Aliás, é notória a
dificuldade em evidenciar uma fratura de base de crânio, mesmo com a
utilização de técnicas especiais
3 2. Por outro lado, destaca M i l l e r
2 4que a
paralisia facial secundária a traumatismo é muito mais comum na vigência
de perda sangüínea ou liquórica pelo ouvido, em cuja eventualidade costuma
associar-se surdez por lesão do ouvido médio. Um aspecto até certo ponto
particular do presente caso refere-se à extensa fratura mediana do occipital,
exatamente na área de maior consistência do osso.
RESUMO
É relatado um caso de paralisia facial bilateral, incompleta, associada
a hipoacusia esquerda, após traumatismo cranioencefálico, com fraturas
evi-denciadas radiológicamente. Algumas considerações são formuladas tentando
relacionar ditas manifestações com fraturas do osso temporal.
SUMMARY
Traumatic facial diplegia: a case report
A case of traumatic facial diplegia with left partial loss of hearing
following head injury is reported. X-rays showed fractures on the occipital
and left temporal bones. A review of traumatic facial paralysis is made.
R E F E R E N C I A S
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