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Ergodicidade e homeomorfismos anulares do toro

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Academic year: 2017

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(1)

Ergodicidade e homeomorfismos

anulares do toro

Renato Belinelo Bortolatto

Tese apresentada

ao

Instituto de Matem´

atica e Estat´ıstica

da

Universidade de S˜

ao Paulo

para

obtenc

¸˜

ao do t´ıtulo

de

Doutor em Ciˆ

encias

Programa: Matem´atica Aplicada

Orientador: Prof. Dr. F´abio Armando Tal

Durante o desenvolvimento deste trabalho o autor recebeu aux´ılio financeiro do CNPq

(2)

Ergodicidade e homeomorfismos

anulares do toro

Esta vers˜ao definitiva da tese cont´em as corre¸c˜oes e altera¸c˜oes sugeridas pela Comiss˜ao Julgadora durante a defesa realizada por Renato Belinelo Bortolatto em 22/06/2012.

Comiss˜ao Julgadora:

• Prof. Dr. F´abio Armando Tal (orientador) - IME-USP • Prof. Dr. Salvador Addas Zanata - IME-USP

• Prof. Dr. Alejandro Kocsard - UFF • Prof. Dr. Andr´es Koropecki - UFF

(3)

Agradecimentos

Quando eu conheci o F´abio ele j´a havia sido indicado como meu orienta-dor e desde esse dia ele n˜ao foi nada menos do que generoso comigo. Ele provavelmente n˜ao faz id´eia de quanto eu aprendi com ele, n˜ao apenas em matem´atica. Foi um privil´egio e um prazer ter trabalhado ao lado dele esses anos. Obrigado por tudo, F´abio.

Quero tamb´em agradecer em poucas linhas o muito que as professoras Zara, Helena e Luc´ılia acreditaram e investiram em mim durante minha gradu¸c˜ao. Espero deixar vocˆes orgulhosas n˜ao s´o com o t´ıtulo, mas com tudo que o futuro trar´a.

Sendo aluno deste instituto por tanto tempo n˜ao posso deixar de ser grato pelos muitos amigos que conheci e que me fizeram sentir menos sozinho e mais feliz. Sou especialmente grato aqueles que foram meus professores e me ensinaram, inspiraram e ajudaram, cada um a sua maneira. Esses s˜ao muitos, mas em especial gostaria de agradecer a Man´e, Salvador, Rosa, Gladys e S´ergio Oliva.

Por fim, agrade¸co minha fam´ılia: Aline pela companhia e pela bagun¸ca que fez no meu mundo ordenado e chato e meu pai por sempre ter feito por mim mais do que eu pedi. Mesmo sem dizer, espero que vocˆes todos saibam de minha gratid˜ao em todos os dias que restam em nossas vidas.

(4)
(5)

Resumo

Sejaf :T2 T2 um homeomorfismo homot´opico a identidade e F :R2

R2 um levantamento de f tal que seu conjunto de rota¸c˜ao ρ(F) ´e um

seg-mento vertical n˜ao degenerado contido em{0} ×R.

Provamos que sef ´e erg´odico com respeito a medida de Lebesgue no toro e se o vetor de rota¸c˜ao m´edio (com respeito a mesma medida) ´e da forma (0, α) para α∈R\Q ent˜ao existeM >0 tal que|(Fn(x)x)

1| ≤M para

todo x∈R2 e nZ(onde (.)

1 :R2→R´e definida por (x, y)1 =x).

Palavras chave: Homeomorfismos do toro, conjuntos de rota¸c˜ao, ergodici-dade, pontos peri´odicos.

(6)
(7)

Abstract

Let f : T2 T2 be a homeomorphism homotopic to the identity and F :

R2 R2 a lift of f such that the rotation set ρ(F) is a non-degenerated

vertical line segment contained in{0} ×R.

We prove that if f is ergodic with respect to the Lebesgue measure on the torus and the average rotation vector (with respect to same measure) is of the form (0, α) for α ∈ R\ Q then there exists M > 0 such that |(Fn(x)x)

1| ≤M for allx∈R2 andn∈Z(where (.)1 :R2 →Ris defined

by (x, y)1=x).

Key-words: Torus homeomorphisms, rotation sets, ergodicity, periodic points.

(8)
(9)

Sum´

ario

1 Introdu¸c˜ao 1 2 Aplica¸c˜oes do c´ırculo 3

2.1 N´umero de rota¸c˜ao . . . 3

2.2 Intervalo de rota¸c˜ao . . . 6

3 O conjunto de rota¸c˜ao 9 3.1 Defini¸c˜oes . . . 9

3.2 Propriedades gerais dos conjuntos de rota¸c˜ao . . . 11

3.3 A geometria de um conjunto de rota¸c˜ao . . . 13

3.4 Conjuntos de rota¸c˜ao e continuidade . . . 15

3.5 Conjuntos de rota¸c˜ao com interior . . . 16

3.6 Conjuntos de rota¸c˜ao sem interior . . . 17

4 A conjectura do deslocamento uniforme 21 4.1 Nota¸c˜ao . . . 21

4.2 Motiva¸c˜ao da conjectura . . . 21

4.3 Nosso resultado . . . 23

4.4 O papel da ergodicidade . . . 24

5 Os conjuntos B0, Bπ e ω(B0), ω(Bπ) 27 5.1 Defini¸c˜oes; B0, Bπ 6=∅ . . . 27

5.2 ω(B0), ω(Bπ)6=∅ . . . 32

5.3 Estrat´egia da prova . . . 33

6 Prova do teorema 37 6.1 Consequˆencias da nega¸c˜ao do teorema . . . 37

6.2 O caso π(ω(B0))∩π(ω(Bπ))6=∅ n˜ao pode ocorrer . . . 38

6.3 A distˆancia entreπ(ω(B0)) e π(ω(Bπ)) . . . 40

6.4 O caso π(ω(B0))∩π(ω(Bπ)) =∅ n˜ao pode ocorrer . . . 42

7 Coment´arios finais 47

(10)
(11)

Cap´ıtulo 1

Introdu¸

ao

O n´umero de rota¸c˜aoρ(f)∈Rpara homeomorfismos do c´ırculoT1 que

pre-servam a orienta¸c˜ao ´e um invariante topol´ogico bem conhecido cuja desco-berta pode ser atribuida a Poincar´e. Sabemos, por exemplo, que seρ(f)∈/ Q

ent˜ao existe uma semi-conjuga¸c˜ao entre f e a rota¸c˜ao de ˆangulo ρ(f). O exemplo de Denjoy, por sua vez, mostra que em geral n˜ao ´e poss´ıvel obter uma conjuga¸c˜ao. No cap´ıtulo seguinte voltaremos a este assunto fazendo um breve resumo desta teoria.

Algumas vezes, no entanto, ´e preciso considerar n˜ao homeomorfismos, mas endomorfismos do c´ırculo (isto ´e, aplica¸c˜oes cont´ınuas deT1de grau 1).

Ainda no segundo cap´ıtulo apresentamos uma generaliza¸c˜ao adequada para o n´umero de rota¸c˜ao devida a Newhouse, Palis e Takens [NPT83]. Vˆe-se facilmente que essa defini¸c˜ao depende de cada ponto de T1, ao contr´ario do

n´umero de rota¸c˜ao de Poincar´e. Olhando ent˜ao para o fecho da uni˜ao dos n´umeros de rota¸c˜ao pontuais obtemos um conjunto que mostra-se ser um intervalo fechado da reta, eventualmente degenerado. Chamamos assim este conjunto de intervalo de rota¸c˜ao de um endomorfismo do c´ırculo.

Desejamos estudar aplica¸c˜oes cont´ınuas do toro m-dimensional

Tm =Rm/Zm

nele mesmo (diremos simplesmente automorfismos do toro, quando a di-mens˜ao for fixada). Iremos pedir que essas aplica¸c˜oes sejam homot´opicas a identidade pois queremos utilizar como ferramenta uma generaliza¸c˜ao apro-priada do n´umero de rota¸c˜ao para homeomorfismos do c´ırculo. Veremos rapidamente que tal generaliza¸c˜ao ser´a especialmente ´util ao estudarmos as aplica¸c˜oes do toro 2-dimensional.

No terceiro cap´ıtulo definiremos ent˜ao o conjunto de rota¸c˜ao para estes homeomorfismos e falaremos sobre suas propriedades e resultados pertinen-tes. Os resultados s˜ao usados para motivar a conjectura do deslocamento uniforme, que ´e explicada no quarto cap´ıtulo.

No quinto cap´ıtulo apresentamos as ferramentas que ser˜ao usadas na

(12)

2 CAP´ITULO 1. INTRODUC¸ ˜AO

prova de um caso particular da conjectura do deslocamento uniforme no sexto cap´ıtulo.

(13)

Cap´ıtulo 2

Aplica¸

oes do c´ırculo

2.1

umero de rota¸

ao

Seja f um homeomorfismo do c´ırculo T1 =R/Z que preserva a orienta¸c˜ao

(com isso queremos dizer que consideramos uma ordem ≤ na reta e a des-cemos para no c´ırculo: “f preserva a orienta¸c˜ao”se x y implica que

f(x)f(y)). NaturalmenteT1´e uma variedade, de forma que inicialmente

pensamos em “descer”f para R. Contudo do ponto de vista da dinˆamica ser´a ´util “levantar”f para seu recobrimento universal como indica o dia-grama abaixo

R −F→ R

↓π ↓π T1 f T1

ondeπ :R→ T1 ´e definida porπ(x) =x(mod1). Como π ao ´e invert´ıvel

o diagrama acima define apenas uma semi-conjuga¸c˜ao entre f e seu levan-tamento F. O levantamento n˜ao ´e ´unico e por isso sempre precisaremos escolher um. Apesar disso vˆe-se facilmente no diagrama acima que se F1 e

F2 s˜ao dois levantamentos de f ent˜aoF1−F2 ∈Z.

Tamb´em ´e f´acil ver que F(x+i) = F(x) +i para todo i ∈ Z e neste caso dizemos queF ´e uma aplica¸c˜ao de grau 1. Observe que apesar de f e

F serem semi-conjugados essas aplica¸c˜oes n˜ao possuem, em geral, a mesma dinˆamica: basta considerar emT1R/Za aplica¸c˜ao

r1

4(θ) =θ+

1 4

(para o qual todos os pontos s˜ao peri´odicos) e seu levantamento

R1

4(x) =x+

1 4 que n˜ao tem pontos peri´odicos.

(14)

4 CAP´ITULO 2. APLICAC¸ ˜OES DO C´IRCULO

´

E interessante notar que se f inverte a orienta¸c˜ao (i.e., se x y ent˜ao

f(x) f(y)) pode-se provar que f tem exatamente 2 pontos fixos. Desta forma o caso mais interessante do ponto de vista dinˆamico ´e dos homeomor-fismos que preservam orienta¸c˜ao: esssa hip´otese ser´a usada fortemente no restante dessa se¸c˜ao.

Defini¸c˜ao 1. Denotaremos porh+(T1) o conjunto dos homeomorfismos de

T1 que preservam a orienta¸c˜ao.

Defini¸c˜ao 2. Seja f ∈ h+(T1) e F um levantamento. Quando existir o

limite

τ(F, x) := lim n→∞

Fn(x)

n

diremos queτ(F, x) ´e o n´umero de transla¸c˜ao dex∈Rcom respeito a F.

Proposi¸c˜ao 1. Seja f ∈h+(T1) e F um levantamento. Ent˜ao

1. Existe limn→∞ F

n(x)

n para todo x∈R.

2. τ(F, x) =τ(F), isto ´e, τ(F, x) independe de x∈R. 3. Se f tem um ponto peri´odico ent˜ao τ(F)∈Q.

Note que seF1, F2 s˜ao dois levantamentos def ent˜aoτ(F1)−τ(F2)∈Z.

Isso permite definir o n´umero de rota¸c˜ao diretamente para um homeomor-fismo do c´ırculo que preserva orienta¸c˜ao.

Defini¸c˜ao 3. Se f ∈h+(T1) definimos o n´umero de rota¸c˜ao de f como

ρ(f) =π(τ(F))

Quando n˜ao houver confus˜ao indentificamos ρ(f) ∈ T1 com a parte n˜

ao-inteira deτ(F). Observe ent˜ao que ρ(f)∈[0,1[.

O n´umero de rota¸c˜ao possui duas propriedades interessantes que descre-vemos nos dois enunciados seguintes.

Proposi¸c˜ao 2. Sef, g∈h+(T1)s˜ao topologicamente conjugadas (emh+(T1))

ent˜aoρ(f) =ρ(g).

Proposi¸c˜ao 3. Seja f ∈ h+(T1). Ent˜ao ρ(f) ∈/ Q se e somente se f n˜ao

tem pontos peri´odicos.

Uma pergunta natural nesse ponto ´e quando um homeomorfismo do c´ırculo que preserva a orienta¸c˜ao ´e conjugado a uma rota¸c˜ao. No caso de uma rota¸c˜ao por ˆangulo racional (que claramente possui n´umero de rota¸c˜ao racional) todas as ´orbitas s˜ao peri´odicas e de mesmo per´ıodo; por outro lado sef ∈h+(T1) eρ(f)∈Qa proposi¸c˜ao anterior garante apenas a existˆencia

(15)

2.1. N ´UMERO DE ROTAC¸ ˜AO 5

possuem o mesmo per´ıodo e est˜ao ordenadas como a rota¸c˜ao de ˆanguloρ(f). N˜ao ´e dif´ıcil construir (come¸cando com alguns pontos peri´odicos e fazendo as outras ´orbitas serem heterocl´ınicas a estes pontos peri´odicos) uma infini-dade de aplica¸c˜oes emh+(T1) que possuem n´umero de rota¸c˜ao racional mas

n˜ao podem ser conjugadas a uma rota¸c˜ao.

Neste sentido, o caso de uma rota¸c˜ao por ˆangulo irracional ´e mais inte-ressante. Temos, por exemplo, o seguinte resultado.

Proposi¸c˜ao 4. Seja f ∈ h+(T1) e suponha que ρ(f) ∈/ Q. Ent˜ao existe

h:T1T1 cont´ınua, sobrejetora, que preserva ordem e tal que

h◦f =Rρ(f)◦h

isto ´e, f ´e semi-conjugada a uma rota¸c˜ao de ˆangulo irracional.

Pode-se provar ainda que sef´e topologicamente transitiva ent˜ao a semi-conjuga¸c˜ao no teorema acima ´e uma conjuga¸c˜ao. Note por´em que existe uma aplica¸c˜ao do c´ırculo que possui n´umero de rota¸c˜ao irracional mas que n˜ao ´e conjugada a uma rota¸c˜ao irracional.

Exemplo(Denjoy). Come¸ce com uma rota¸c˜ao irracional e tome uma ´orbita. Mostra-se que trocando os pontos dessa ´orbita por intervalos In

suficiente-mente pequenos (que n˜ao cobrem T1) obtem-se uma aplica¸c˜ao g C1(T1)

que satisfaz g(In) =In+1 e g|(∪n∈ZIn) ´e semi-conjugada a uma rota¸c˜ao irra-cional.

Observe ent˜ao que para uma aplica¸c˜aof do c´ırculo ser conjugada a uma rota¸c˜ao irracional ´e preciso quef tenha todas as ´orbitas densas emT1. Isso

mostra que g n˜ao pode ser conjugada a uma rota¸c˜ao irracional. ´

E poss´ıvel construir esse exemplo de forma que g∈ C1+ε para 0 ≤ε <

1 e de forma que a medida de Lebesgue de ∪n∈ZIn seja qualquer n´umero

estritamente positivo menor que 1.

O teorema de Denjoy diz que se uma aplica¸c˜ao do c´ırculo que preserva orienta¸c˜ao, possui n´umero de rota¸c˜ao irracional, ´eC1 e sua derivada tem va-ria¸c˜ao limitada ent˜ao ela ´e transitiva (e portanto conjugada a uma rota¸c˜ao). Em particular, toda aplica¸c˜aoC2 que preserva orienta¸c˜ao possui n´umero de rota¸c˜ao irracional ´e conjugada a uma rota¸c˜ao por ˆangulo irracional.

Para finalizar essa se¸c˜ao citamos dois resultados que ter˜ao paralelos no pr´oximo cap´ıtulo.

Proposi¸c˜ao 5 ([KH96], Theorem 11.2.9). Se f ´e um homeomorfismo que preserva orienta¸c˜ao do c´ırculo comρ(f)∈/Qent˜aof ´e unicamente erg´odico. Visto como uma transforma¸c˜ao que preserva medida,f ´e m´etricamente iso-morfa a uma rota¸c˜ao irracional.

(16)

6 CAP´ITULO 2. APLICAC¸ ˜OES DO C´IRCULO

Voltamos a notar que nessa se¸c˜ao a propriedade de preserva¸c˜ao da ori-enta¸c˜ao foi decisiva. Entretanto veremos a seguir que podemos, de certa forma, abrir m˜ao desta hip´otese e ainda obter resultados interessantes. Isso indica a possibilidade de que uma vers˜ao adequada do n´umero de rota¸c˜ao dos homeomorfismo do c´ırculo que preservam a orienta¸c˜ao seja ´util no estudo da dinˆamica em variedades de dimens˜ao maior do que um.

2.2

Intervalo de rota¸

ao

O conceito de intervalo de rota¸c˜ao para endomorfismos do c´ırculo aparece em [NPT83] motivado por um problema em teoria das bifurca¸c˜oes. As pro-posi¸c˜oes e provas abaixo s˜ao da mesma fonte.

Denote por End(T1) o conjunto das aplica¸c˜oes cont´ınuas φ : T1 T1

de grau 1. Para φ ∈ End(T1), um levantamento Φ e um ponto x T1

definimos o n´umero de rota¸c˜ao puntual

ρ(Φ, x) := lim sup n→∞

Φn(x)x

n

Definimos o conjunto de rota¸c˜ao por

ρ(Φ) := [ x∈T1

ρ(Φ, x)

Tanto o n´umero de rota¸c˜ao puntual como o conjunto de rota¸c˜ao s˜ao invarian-tes topol´ogicos. Note que, para um homeomorfismo do c´ırculo que preserva a orienta¸c˜ao, o conjunto de rota¸c˜ao coincide com o n´umero de rota¸c˜ao.

O conjunto de rota¸c˜ao ´e fechado por defini¸c˜ao. Queremos mostrar que ele ´e um ponto ou um intervalo da reta. Temos o seguinte lema:

Lema 1 ([NPT83], Lemma (3.1)). Suponha que φ∈End(T1) e seja Φum

levantamento. Se φ n˜ao tem um ponto peri´odico com n´umero de rota¸c˜ao puntual pq com p∈Z eq ∈N ent˜aoρ(Φ)est´a contido em

x∈R|x < p q

ou

x∈R|x > p q

Demonstra¸c˜ao. Observe que, para todox∈R, temos Φq(x)x6=ppois, caso contr´ario, π(x) seria um ponto peri´odico deφ com n´umero de rota¸c˜ao puntual pq. Note que

Φq(x+ 1)−(x+ 1) = Φq(x)−x

isto ´e, Φq(x)−x´e uma fun¸c˜ao peri´odica (emx) de per´ıodo 1. Assim, sendo cont´ınua e podendo ser entendida com dom´ınio [0,1], existe um ε > 0 tal que

(17)

2.2. INTERVALO DE ROTAC¸ ˜AO 7

para todox∈R, ou seja,

ρ(Φ)⊆

x∈R|x < p q

ou ρ(Φ)⊆

x∈R|x > p q

Corol´ario ([NPT83], Corollary (3.2)). Seja φ∈End(T1) eΦ um

levanta-mento. Suponha queα, β ∈ρ(Φ)e que existe pq ∈Qsatisfazendoα≤ pq ≤β. Ent˜aoφ tem um ponto peri´odico com n´umero de rota¸c˜ao puntual pq.

Demonstra¸c˜ao. Se φn˜ao tem um ponto peri´odico com n´umero de rota¸c˜ao puntual pq ent˜ao pelo lema anterior que

ρ(Φ)⊆

x∈R|x < p q

ou ρ(Φ)⊆

x∈R|x > p q

Mas isso n˜ao pode acontecer poisα, β ∈ρ(Φ) e α≤ pq ≤β.

(18)
(19)

Cap´ıtulo 3

O conjunto de rota¸

ao

3.1

Defini¸

oes

Sejaf :TmTm e F :Rm Rm um levantamento fixado. Sejaπ :R2

T2 a proje¸c˜ao natural. Uma forma natural de definir o vetor de rota¸c˜ao

parap∈Tmseria tomarxπ−1(p) e considerarρ(F, x) = limn →∞ F

n(x)−x

n . Definimos ent˜ao o conjunto de rota¸c˜ao baseado empontos como

ρp(F) =∪x∈Rmρ(F, x)

Em tempo, ´e necess´ario nos perguntarmos se ρp(F) est´a bem definido. Para isso usamos o seguinte resultado.

Lema 2. Um homeomorfismo F do Rm ´e um levantamento de um

homeo-morfismo de Tm homot´opico a identidade se, e s´o se,F(x+v) =F(x) +v

para todo x∈Rm evZm.

A demonstra¸c˜ao desse lema n˜ao ´e dif´ıcil, mas necessita de um resul-tado de topologia alg´ebrica que nos desviaria de nosso caminho (uma prova pode ser encontrada em [BLR07]). Ao assumirmos esse resultado ´e ime-diato que, se f ´e homot´opica a identidade, ρp(F) est´a bem definido e

ρp(F) =∪x∈[0,1]mρ(F, x).

Evidentemente, quando m = 1 e f preserva orienta¸c˜ao, ρp(F) coincide com o n´umero de rota¸c˜ao. Contudo, para m ≥ 2, ρ(F, x) pode depen-der de x e de forma a n˜ao possuir em geral boas propriedades topol´ogicas. De fato, mesmo quando F ´e levantamento de um automorfismo do toro 2-dimensional, homot´opico `a identidade, o conjunto ρp(F) n˜ao precisa ser convexo, nem mesmo conexo.

Exemplo. Considere um fluxo do tipo Reeb emR2. Esse fluxo ´e mais

facil-mente explicado por um desenho (veja abaixo). Podemos construir um exem-plo em alguns passos, come¸cando definindo sobre as retas ]− ∞,+∞[×{0},

(20)

10 CAP´ITULO 3. O CONJUNTO DE ROTAC¸ ˜AO

✛ ✲ ✛

③ ③

③ ③

③ ③ ③ ③

Figura 3.1: Fluxo de Reeb representado na faixa ]− ∞,+∞[×[0,1].

]− ∞,+∞[×{12} e ]− ∞,+∞[×{1} um campo v que vale (−1,0), (1,0) e

(−1,0), respectivamente.

Estendemos ent˜ao o campo em ]− ∞,+∞[×[0,1] de forma que as cur-vas integrais restantes sejam assint´oticas as retas dadas anteriormente e satisfa¸cam v(x+ 1, y) =v(x, y) e v(x, y+12) = −v(x, y). Estendemos esse campo para todo plano de forma natural e consideramos o homeomorfismo dado pelo fluxo no tempo1.

Pelo lema 2 esse homeomorfismo ´e um levantamento de um homeo-morfismo do toro homot´opico a identidade. Al´em disso, como a ´orbita de qualquer ponto tende a uma das retas R× 1

2Z, pode-se ver que ρp(F) =

{(1,0)} ∪ {(−1,0)}.

Note que no exemplo acima tomar o fecho topol´ogico de ρp(F) (como foi feito para o intervalo de rota¸c˜ao) nada modifica. Podemos, ´e claro, considerar o fecho convexo de ρp(F), que denotaremos Conv(ρp(F)). O conjunto Conv(ρp(F)) ´e um bom candidato para conjunto de rota¸c˜ao (ao menos coincide com um intervalo nesse exemplo), mas n˜ao ´e, a priori, nossa ´

unica op¸c˜ao.

Outra possibilidade ´e definir como conjunto de rota¸c˜ao

ρ(F) = \ n≥1

[

k≥n

Fk(x)x

k : x∈I

m

ondeIm:= [0,1]m (vide o lema anterior). Esta defini¸c˜ao lembra a no¸c˜ao de

ω-limite e portanto ´e tamb´em natural por tentar capturar o comportamento assint´otico das ´orbitas de forma semelhante ao n´umero de rota¸c˜ao de Poin-car´e. Notamos queρ(F) ´e igual ao conjunto dos pontos de acumula¸c˜ao das sequˆencias

ρk(F, xnk) :=

Fk(x

nk)−xnk

k

(21)

3.2. PROPRIEDADES GERAIS DOS CONJUNTOS DE ROTAC¸ ˜AO 11

que ρ(F) ´e fechado por defini¸c˜ao. Pode-se ver que ele ´e conexo e que, se

m= 2, tamb´em ´e convexo [MZ89].

Podemos ainda apontar mais uma poss´ıvel defini¸c˜ao de conjunto de rota¸c˜ao emTm. ConsidereM(f) o espa¸co de todas as medidas de probabi-lidade, f-invariantes em Tm e ME(f) o subsespa¸co das medidas erg´odicas de M(f). O conjunto M(f) ´e compacto se considerado com a topologia ∗-fraca (mediante a identifica¸c˜ao das medidas com funcionais lineares em

C).

Sejaµ∈ ME(f). Pelo teorema de Birkhoff temos paraµ-qtpx∈X que

1

n

n−1

X

i=0

φ◦fk n−−−→→∞ Z

φdµ

para toda aplica¸c˜ao cont´ınua φ : Tm Rm. Considere em particular a aplica¸c˜ao φ(x) =F(y)−y, onde y∈π−1(x) (que est´a bem definida poisF

comuta com as transla¸c˜oes por vetores deZ2). Temos ent˜ao que

1

n

n−1

X

i=0

φ◦fk(x) = 1

n

n−1

X

i=0

(Fk+1(y)−Fk(y)) = F

n(y)y

n

Conclu´ımos que paraµ-qtpx∈Tm e todo yπ−1(x)

Fn(y)y

n

n→∞

−−−→ Z

φdµ

ou seja, Rφdµ ∈ρp(F) para todoµ∈ ME(f). Definimos

ρerg(F) = Z

φdµ : µ∈ ME(f)

Como os pontos extremais (no sentido da an´alise convexa) de M(f) s˜ao justamente as medidas emME(f), temos que o fecho convexo deρerg(F) ´e

Conv(ρerg(F)) = Z

φdµ : µ∈ M(f)

Definimosρmes(F) :=Conv(ρerg(F)).

3.2

Propriedades gerais dos conjuntos de rota¸

ao

Como as trˆes defini¸c˜oes da se¸c˜ao anterior tem boas raz˜oes de ser, uma boa estrat´egia ´e estudarmos de que forma elas est˜ao relacionadas.

Proposi¸c˜ao 6 ([MZ89], Corollary 2.4). Seja F um levantamento de um homeomorfismo f de T2 ent˜ao

(22)

12 CAP´ITULO 3. O CONJUNTO DE ROTAC¸ ˜AO

Em contraste, temos, para T3 um exemplo em [LM91] que mostra que

Conv(ρp(F))6=ρ(F). Esse ´e um dos motivos porque iremos estudar apenas o casom= 2. No entanto,

ρmes(F) =Conv(ρ(F))

para qualquerF que seja levantamento de uma aplica¸c˜ao cont´ınuaf do toro

m-dimensional, homot´opica `a identidade ([MZ89], Theorem 2.4). Assim, nas mesmas hip´oteses, temos paraTm que

Conv(ρp(F)) =Conv(ρ(F))

e que

Conv(ρ(F)) =Conv(∪x∈π−1

(Ω(f))ρ(F, x))

onde Ω(f) ´e o conjunto dos pontos n˜ao-errantes def(o que ´e consequˆencia de que, com respeito a uma medida µ, quase todo ponto ´e n˜ao-errante). Essa ´

ultima igualdade ´e ´util para determinar o conjunto de rota¸c˜ao de alguns exemplos expl´ıcitos.

Os conjuntos de rota¸c˜ao em Tm possuem algumas propriedades que s˜ao ´

uteis para descrever o conjunto de rota¸c˜ao de seus diferentes levantamentos e o conjunto de rota¸c˜ao das iteradas def.

Proposi¸c˜ao 7([MZ89]). SejaF um levantamento de uma aplica¸c˜ao cont´ınua

f do torom-dimensional, homot´opica `a identidade. Ent˜ao para todop∈Zm

en∈Ntemos que

• ρ(Fqp) =(F)p

• ρ(Fqp, x) =(F, x)p, para todo xRm • ρp(Fqp) =p(F)p

• ρmes(Fqp) =mes(F)p

Al´em disso, sef ´e um homeomorfismo ent˜ao

• ρ(F−1) =ρ(F)

• ρmes(F−1) =−ρmes(F)

Apesar de simples, essas propriedades podem ser bastante ´uteis e ser˜ao de fato usadas no restante da tese. Vejamos um importante exemplo de seu uso a seguir. Assumiremos o seguinte resultado:

Proposi¸c˜ao 8 ([Fra88], Theorem 3.5). Seja F um levantamento de um homeomorfismo f deT2, homot´opico `a identidade. Se 0ρ

erg(F) ent˜ao F

(23)

3.3. A GEOMETRIA DE UM CONJUNTO DE ROTAC¸ ˜AO 13

Provemos ent˜ao a seguinte proposi¸c˜ao.

Proposi¸c˜ao 9 ([MZ89], Theorem 3.10). Seja F um levantamento de um homeomorfismof deT2, homot´opico `a identidade. Suponha que(r/q, s/q)

ρerg(F) para r, s ∈ Z, q ∈ N com mdc(r, s, q) = 1 . Ent˜ao existe um ponto

f-peri´odico x ∈ T2 de per´ıodo m´ınimo q e que satisfaz ρ(F, y) = {(r q,

s q)}

para todo y∈π−1(x).

Demonstra¸c˜ao. Por hip´otese (r/q, s/q) ∈ ρerg(F), logo 0 ∈ ρerg(Fq (r, s)). Pela proposi¸c˜ao anterior temos um ponto z ∈ R2 tal que ρ(Fq (r, s), z) ={0}. Usando novamente as propriedades aritm´eticas deρobtemos queρ(F, y) ={(rq,qs)}para todoy ∈π−1(π(z)).

Seja x = π(z). Observe que fq(x) = x, de forma que x ´e f-peri´odico de per´ıodo q′ que divide q. Temos que Fq′

(z) = z+ (r′, s′) para algum (r′, s′)∈Z2 e calculando

Fq(z) =z+

q q′r

, q

q′s ′

conluimos quer = qq′r′ e s=

q

q′s′. Observe, portanto, que

q

q′ divider, s e q

logo por hip´otese qq′ = 1, ou seja,q =q′.

Corol´ario ([MZ89], Corollary 3.11). Seja F um levantamento de um ho-meomorfismo f de T2. Ent˜ao ρmes(F)Q2 = ∪y

∈Pfρ(F, y) onde Pf ´e o conjunto dos pontosy ∈R2 tais que π(y) ´ef-peri´odico.

Demonstra¸c˜ao. A inclus˜ao ρmes(F)∩Q2 ⊆ ∪y

∈Pfρ(F, y) ´e consequˆencia

da proposi¸c˜ao anterior.

Para a outra inclus˜ao considere y ∈ Pf e obseverve que a medida de probabilidadeµcom suporte em{fi(π(y))}i∈N´e erg´odica e queR φdµ∈Q2

pelo teorema de Birkhoff.

Aqui, a hip´otese de que estamos trabalhando em T2 ao pode ser

dis-pensada. De fato, a maior parte dos resultados dispon´ıveis hoje diz respeito ao toro de dimens˜ao 2, e mesmo assim partes importantes da teoria conti-nuam sem resposta (veremos mais sobre isso posteriormente). No restante desse trabalho estaremos supondo que estamos em T2, o que permite nos

referirmos a ρ(F) unicamente como “conjunto de rota¸c˜ao”.

3.3

A geometria de um conjunto de rota¸

ao

O conjunto de rota¸c˜ao de um homeomorfismo do T2, homot´opico `a

identi-dade, ´e um subconjunto compacto e convexo de R2. Desta forma ele pode

ser um ponto, um segmento de reta ou possuir interior n˜ao vazio.

(24)

14 CAP´ITULO 3. O CONJUNTO DE ROTAC¸ ˜AO

1. Um ´unico vetorvarbit´ario. Como exemplo, basta considerar a transla¸c˜ao pelo vetorv em R2. ´E poss´ıvel construir exemplos mais interessantes,

por exemplo com entropia topol´ogica positiva (e portanto, n˜ao conju-gados a uma rota¸c˜ao).

2. Um segmento de reta que

(a) Tenha inclina¸c˜ao racional e contenha um ponto de coordenadas racionais. Um exemplo ´e o homeomorfismo derivado do fluxo de Reeb, como definimos anteriormente, que tem ρ(F) = [−1,1]× {0}.

(b) Tenha um ponto extremo racional e todos outros pontos irracio-nais (esses exemplos s˜ao atribu´ıdos a Katok). A id´eia ´e basica-mente come¸car com um campo de vetores de inclina¸c˜ao irracional emR2 e criar um ponto fixo. Os detalhes podem ser encontrados

em [Beg07].

3. Qualquer pol´ıgono convexo de extremos racionais [Kwa92]. O caso geral ´e bastante trabalhoso, mas n˜ao ´e dif´ıcil construir um homeomor-fismo para o qualρ(F) = [0,1]2. Considere

G(x, y) = (x+φ(y), y), H(x, y) = (x, y+ψ(x))

onde φ, ψ : R → [0,1] s˜ao fun¸c˜oes peri´odicas e satisfazem φ(t) =

ψ(t) = 0 se t ∈Z e φ(t) =ψ(t) = 1 se t∈ 12 +Z. Para F =H◦G

vˆe-se facilmente que

ρ

F,

1 2,0

= (0,1), ρ

F,

0,1

2

= (1,0)

e que

ρ

F,

0,0

= (0,0), ρ

F, 1 2, 1 2

= (1,1)

de forma que[0,1]2ρ(F). ´E f´acil ver tamb´em queF(x, y)(x, y) =

(φ(y), ψ(x+φ(y))), de forma que Fn(x, y)(x, y)[0, n]2 e portanto

ρ(F)⊆[0,1]2. Esse exemplo foi retirado de [Beg07].

4. Em [Kwa95] ´e construido um exemplo em queρ(F)n˜ao ´e um pol´ıgono pois cont´em uma quantidade enumer´avel infinita de v´ertices. A cons-tru¸c˜ao ´e bastante longa e n˜ao ser´a tratada aqui.

Fran¸cois B´eguin prop˜oe a seguinte quest˜ao em suas notas de aula:

Pergunta ([Beg07]). Existe um compacto convexo K ⊂ R2 que n˜ao ´e o

conjunto de rota¸c˜ao de nenhum homeomorfismo homot´opico a identidade de

(25)

3.4. CONJUNTOS DE ROTAC¸ ˜AO E CONTINUIDADE 15

Esse problema ´e mais simples se trocarmos “homeomorfismo”por “fluxo”. De fato, Franks e Misiurewicz ([FM90]) mostraram que um fluxo do 2-toro cujo conjunto de rota¸c˜ao possui interior vazio no R2 pode ser apenas

1. Um ´unico ponto.

2. Um segmento qualquer de uma linha determinada por zero e outro ponto deQ2.

3. Um segmento de inclina¸c˜ao irracional com um extremo em zero.

e que todos esses conjuntos de rota¸c˜ao s˜ao de fato realizados por algum fluxo emT2.

Franks e Misiurewicz conjecturaram ent˜ao que, se o conjunto de rota¸c˜ao de um homeomorfismo f est´a contido em uma reta ele s´o pode ser de um dos tipos acima. Aparentemente n˜ao houve nenhum progresso significativo na dire¸c˜ao de provar ou desprovar esta conjectura desde que foi enunciada.

3.4

Conjuntos de rota¸

ao e continuidade

Um problema interessante ´e perguntar se Fn → F na topologia da con-vergˆencia uniforme implica queρ(Fn)→ρ(F) na topologia de Hausdorff.

´

E f´acil ver que, em T2, a aplica¸c˜ao F 7→ρ(F) ´e semi-continua

superior-mente usando que ρ(F) =ρmes(F) e que o espa¸co das medidas ´e compacto na topologia ∗-fraca (mediante a identifica¸c˜ao usual que j´a comentamos). Contudo, tamb´em ´e f´acil ver com um exemplo que F 7→ ρ(F) n˜ao ´e semi-continua inferiormente.

✛ ✛

③ ③

Figura 3.2: Perturba¸c˜ao de um fluxo de Reeb

Proposi¸c˜ao 10 ([MZ89], Example 4.8 ; [LM91], Example 1). A fun¸c˜ao

ρ : HomI(T2) → R2 n˜ao ´e semi-cont´ınua inferiormente (aqui HomI(T2)

denota o conjunto dos levantamentos de homeomorfismo em T2 que s˜ao

(26)

16 CAP´ITULO 3. O CONJUNTO DE ROTAC¸ ˜AO

Demonstra¸c˜ao. Tomamos um campo de vetoresvdo tipo Reeb, como de-finimos anteriormente, e consideramos o homeomorfismoF dado pelo fluxo no tempo um. Note queF´e homot´opico a identidade eρ(F) = [−1,1]×{0}. Fa¸camos uma perturba¸c˜ao ˜v dev por “bumps”em torno deR×(12+Z). O homeomorfismo ˜F dado pelo fluxo no tempo um de ˜v tem conjunto de rota¸c˜ao igual a{(−1,0)}(vide a figura acima).

Apesar disso segue com algum esfor¸co e usando que F 7→ ρ(F) ´e semi-cont´ınua superiormente o seguinte resultado.

Proposi¸c˜ao 11 ([LM91]). A aplica¸c˜ao F 7→ ρ(F) ´e cont´ınua em qualquer

F tal que ρ(F) seja um conjunto unit´ario.

Aqui aparece ent˜ao uma distin¸c˜ao entre os casos em que ρ(F) possui interior vazio ou n˜ao-vazio emR2.

Proposi¸c˜ao 12 ([LM91]). A aplica¸c˜ao F 7→ ρ(F) ´e cont´ınua em qualquer

F que tenha interior n˜ao-vazio.

Esse resultado ´e mais delicado, pois precisamos de um tipo de “esta-bilidade”que garanta que para todos vetores de coordenadas racionais que estejam em int(ρ(F)) as aplica¸c˜oes pr´oximas de F ainda tenham pontos peri´odicos com esse per´ıodo.

Em particular, obtemos que o conjunto dos homeomorfismosZ2-peri´odicos

deR2 cujo conjunto de rota¸c˜ao tem interior n˜ao vazio ´e um aberto na

topo-logia da convergˆencia uniforme.

3.5

Conjuntos de rota¸

ao com interior

Exemplos como o homeomorfismo derivado do fluxo de Reeb mostram que, a princ´ıpio, apenas os pontos extremais (no sentido da an´alise convexa) do conjunto de rota¸c˜ao s˜ao realizados por pontos deR2. A seguinte proposi¸c˜ao

mostra que os pontos extremais do conjunto de rota¸c˜ao s˜ao, de fato, sempre realizados.

Proposi¸c˜ao 13 ([MZ89]). Se v ´e um ponto extremal de ρ(F) ent˜ao existe

z∈R2 tal queρp(F, z) ={v}.

Demonstra¸c˜ao. Como ρ(F) = Conv(ρerg(F)) todo ponto extremal de

ρ(F) ´e um ponto deρerg(F). Como argumentamos na se¸c˜ao 2, o teorema de Birkhoff diz que, dadov∈ρerg(F) existez∈R2 tal que Fn(z)−z

n

n→∞

−−−→ {v}, ou sejaρp(F, z) ={v}.

(27)

3.6. CONJUNTOS DE ROTAC¸ ˜AO SEM INTERIOR 17

coordenadas racionais e est˜ao sobre um segmento de inclina¸c˜ao irracional [LC05]). Observe essa propriedade nos exemplos da fam´ılia que demos no item 3 no in´ıcio dessa se¸c˜ao.

O problema geral possui uma resposta mais direta se nos restringimos aos pontos no interior deρ(F).

Proposi¸c˜ao 14 ([Fra89]). Se ρ(F) tem interior n˜ao vazio ent˜ao todos os vetores de rota¸c˜ao com coordenadas racionais em int(ρ(F)) s˜ao realizados por ´orbitas f-peri´odicas.

O resultado abaixo estende a proposi¸c˜ao anterior no caso em que um ponto em int(ρ(F)) n˜ao possui ao menos uma das coordenadas racional.

Proposi¸c˜ao 15 ([MZ91]). Sejaf um homeomorfismo de T2 eF :R2 R2

um levantamento fixado. Sev∈int(ρ(F)) ent˜ao:

1. Existe um conjunto fechado X ⊆T2, n˜ao vazio, f-invariante tal que

ρp(F, y) =v para todo y∈π−1(X).

2. Existe uma medida erg´odicaµ, com respeito af, que satisfaz

Z

T2

(F◦π−1−π−1)dµ=v

Para finalizar essa se¸c˜ao comentamos mais um importante resultado.

Proposi¸c˜ao 16 ([LM91]). Se ρ(F) tem interior n˜ao vazio ent˜ao f tem entropia topol´ogica estritamente positiva.

A aplica¸c˜aof =Idmostra que esse teorema n˜ao ´e verdadeiro seρ(F) tem interior vazio. ´E um problema interessante determinar condi¸c˜oes adicionais sobref para garantir que, quandoρ(F) tem interior vazio,f tenha entropia topol´ogica positiva.

3.6

Conjuntos de rota¸

ao sem interior

Como j´a discutimos, ´e f´acil ver que o conjunto de rota¸c˜ao de uma transla¸c˜ao

Tv por vetor v∈R2 ´e o pr´oprio vetorv. A a¸c˜aoRv induzida porTv em T2 ´e chamada, por analogia ao caso do c´ırculo, de uma rota¸c˜ao no toro.

Temos ent˜ao um problema natural herdado do c´ırculo: Quando um ho-meomorfismo deT2, homot´opico a identidade, ´e conjugado com uma rota¸c˜ao

por vetorv?

(28)

18 CAP´ITULO 3. O CONJUNTO DE ROTAC¸ ˜AO

Consideramos apenas rota¸c˜oes por vetores de coordenadas irracionais pois, como vimos no caso do c´ırculo, ´e necess´ario que todos os pontos sejam peri´odicos para que um homeomorfismo seja conjugado a rota¸c˜ao racional

Rv.

O problema apresentado n˜ao ´e simples (ele cont´em no m´ınimo dificulda-des similares ao caso do c´ırculo, devido ao exemplo de Denjoy) e os resul-tados na dire¸c˜ao de resolvˆe-lo s˜ao recentes. Podemos citar, por exemplo, os trabalhos de Tobias J¨ager que lidam com o caso em quev´e um vetor de co-ordenadas totalmente irracionais (i.e., independentes sobreQ). Precisamos da seguinte defini¸c˜ao.

Defini¸c˜ao 5. Dizemos que uma pseudo-rota¸c˜ao por vetor irracionalRρtem desvio m´edio limitado se

D(n, z) :=Fn(z)−z−nρ

se existec >0 tal quekD(n, z)k ≤cpara todon∈Ze z∈Rm

Proposi¸c˜ao 17 ([J¨ag08]). Seja f ´e uma pseudo-rota¸c˜ao por vetor ρ que preserva ´area e homot´opica a identidade. Suponha quef possui desvio m´edio limitado. Ent˜ao vale que

1. ρ´e totalmente irracional se e s´o se f ´e semi-conjugado a.

2. ρ´e racional se, e s´o se, f possui um ponto peri´odico.

J¨ager mostrou posteriormente ([J¨ag09]) que esse teorema n˜ao vale se f

n˜ao preserva ´area. Outro resultado interessante de B´eguin, Crovisier, Le Roux e Patou, que melhorou um resultado anterior de Kwapisz no caso de difeomorfismos.

Proposi¸c˜ao 18 ([BCRP04]). Seja f uma pseudo-rota¸c˜ao com ρ(F) ={v}. Ent˜ao Rv pertence ao fecho da classe de conjuga¸c˜ao de f.

Ao meu conhecimento, o estudo de homeomorfismos cujo conjunto de rota¸c˜ao ´e um segmento de reta ´e menos desenvolvido. Entre os resultados conhecidos podemos citar o resultado de Jonker e Zhang ([JZ98]), que ´e uma vers˜ao do teorema de Le Calvez que citamos na se¸c˜ao anterior (sobre pontos de coordenadas racionais contidos em segmentos de inclina¸c˜ao irracional) quando o conjunto de rota¸c˜ao n˜ao possui interior.

Ainda com respeito a existˆencia de pontos peri´odicos temos tamb´em um resultado de Franks que ser´a usado na prova de nosso teorema principal e tem um contrastre interessante com o exemplo derivado do fluxo de Reeb.

Teorema(Franks, [Fra96]). Seja f :T2 T2 um homeomorfismo que

pre-serva ´area e ´e homot´opico `a identidade. SejaF :R2 R2 um levantamento

(29)

3.6. CONJUNTOS DE ROTAC¸ ˜AO SEM INTERIOR 19

coordenadas racionais ent˜ao existe um ponto z∈R2 tal que π(z)T2 ´e um

ponto peri´odico de f com v =ρ(F, z). Al´em disso, se v = (p/q, r/q), onde

p, q e r s˜ao relativamente primos ent˜ao o per´ıodo deπ(z) ´eq.

Notamos tamb´em que esse resultado admite uma vers˜ao topol´ogica (vide [KK08]).

(30)
(31)

Cap´ıtulo 4

A conjectura do

deslocamento uniforme

4.1

Nota¸

ao

Chamaremos, parai= 1,2,

πi :R2 →R (x1, x2)7→xi

Essas duas proje¸c˜oes n˜ao devem ser confundidas com a proje¸c˜ao natural

π : R2 T2. Sempre que for conveniente preferimos a nota¸c˜ao sufixa

(x)i :=πi(x).

Denotamos por λa medida de Lebesgue em T2.

A fun¸c˜ao|.|denota o m´odulo de um n´umero real. Denotaremos porh., .i o produto interno usual do R2 e por k.k a norma associada. . denota a

fun¸c˜ao ch˜ao (que associa a x∈Ro maior inteiro menor que x).

SejaR um subconjunto dos n´umeros reaisR. Dadas duas fun¸c˜oes f, g:

R →R diremos que f ∈o(g(x)) se e somente se para todo M ∈R+ existe

x0 ∈R tal que

|f(x)| ≤M|g(x)| para todo x > x0

tamb´em diremos quef ∈O(g(x)) se e somente se existe M ∈R+ e x 0 ∈R

tais que

|f(x)| ≤M|g(x)| para todo x > x0

Note queo(g(x))⊆O(g(x)).

4.2

Motiva¸

ao da conjectura

Como notamos anteriormente decorre de que f ´e homot´opico a identidade que F(x)−x=F(x+ (p, q))−(x+ (p, q)) para todo (p, q)∈Z2, de forma

(32)

22CAP´ITULO 4. A CONJECTURA DO DESLOCAMENTO UNIFORME

que dadox∈T2 a fun¸c˜ao

(Fn◦π−1−π−1) :T2→R2

est´a bem definida. Suponha agora que ρ(F) = {0} ×[a, b] com a ≤ b. ´E evidente que, dadox∈T2, para todoyπ−1(x),

(Fn(y)−y)1∈o(n)

e em particular (Fn(y)y)

1 ∈ O(n), de forma que o crescimento desta

fun¸c˜ao em termos de n ´e no m´aximo linear. A priori a hip´otese sobre a forma do conjunto de rota¸c˜ao permite que (Fn(y)−y)1 ∈ o(ln(n)), pois

limn→∞ lnn(n) = 0, de forma que (Fn(y) −y)1 n˜ao precisa tender a zero

e portanto n˜ao precisa pertencer a o(1). No entanto, ainda podemos nos perguntar se ´e poss´ıvel que (Fn(y)−y)

1∈O(1) (ou seja, se h´a deslocamento

sublinear).

Conjectura(do deslocamento uniforme). Sejaf :T2 T2 um

homeomor-fismo homot´opico a identidade e F : R2 R2 um levantamento fixado de

forma queρ(F) ={0} ×[a, b]⊆R2, onde a < b.

Nessas condi¸c˜oes existe M > 0 tal que |(Fn(x)x)

1| < M para todo

n∈Z, x∈R.

Podemos ainda motivar esta conjectura da seguinte maneira: Como vi-mos no cap´ıtulo anterior, a geometria do conjunto ρ(F) pode implicar na existˆencia de pontos do plano que se movem assint´oticamente em diferen-tes dire¸c˜oes pela a¸c˜ao deF. Em particular vemos que quando ρ(F) possui interior n˜ao vazio e quando ρ(F) ´e um segmento de rela n˜ao vertical po-demos afirmar que existe x∈R2 tal que|(Fn(x)x)

1|´e ilimitado quando

n→ ∞. Ser´a verdade ent˜ao que quandoρ(F) ´e um segmento de reta vertical (eventualmente degenerado) passando por (0,0) temos que|(Fn(x)x)

1|´e

uniformemente limitado?

Curiosamente, a conjectura do deslocamento uniforme ´e falsa no caso em que ρ(F) ={(0,0)}. Isto foi provado recentemente por Koropecki e Tal (vide [KT12a]), portanto vemos que a hip´otese de quea < b´e indispens´avel. Mesmo assim ainda n˜ao sabemos se essa conjectura ´e v´alida, a n˜ao ser sobre as hip´oteses adicionais que incluiremos a seguir e devido no caso do seguinte resultado.

Proposi¸c˜ao 19 ([D´av11]). Seja f um homeomorfismo de T2 homot´opico a

identidade e suponha que existe levantamenteF :R2 R2 tal que ρ(F) =

{0}×[a, b]coma <0< b. Ent˜ao ou todo ponto de coordenadas racionais em

ρ(F) ´e realizado ou para todox∈R2 existeM >0 tal que |(Fn(x)x)

1|<

M para todo n∈N.

(33)

4.3. NOSSO RESULTADO 23

4.3

Nosso resultado

O que faremos a seguir ´e demonstrar a seguinte vers˜ao parcial da conjectura do deslocamento uniforme.

Teorema. Sejaf :T2 T2 um homeomorfismo homot´opico a identidade e

F :R2 R2 um levantamento fixado de forma queρ(F) ={0}×[a, b]R2,

onde a < b.

Suponhamos quef ´e erg´odica com respeito a medida de Lebesgueλ. Su-ponhamos tamb´em que o vetor de rota¸c˜ao m´edio com respeito a esta medida

ρλ(F) := Z

x∈T2

(F◦π−1(x)−π−1(x))dλ= (0, α)

para algum α irracional. Ent˜ao existe M > 0 tal que |(Fn(x)−x)1| < M

para todo n∈Z, x∈R.

Note que, como f ´e homot´opico a identidade, ´e suficiente mostrar o desejado parax∈[0,1]. Dadom∈Za fun¸c˜aoFmId´e cont´ınua, portanto (Fm−Id)[0,1] ´e limitado. Como para m≥0 temos que ρ(Fm) =mρ(F) e supomos queρ(F) ´e um segmento de reta n˜ao-degenerado podemos assumir, fazendo se necess´ario uma troca de levantamento, que (0,0),(0,1),(0,−1)∈

ρ(F).

O teorema pode ser generalizado para alguns outros conjuntos de rota¸c˜ao que s˜ao segmentos de reta n˜ao degenerados. Isso pode ser feito de maneira simples que portanto deixamos para tratar ao final do texto. Tamb´em discu-tiremos posteriormente esse resultado dentro de uma teoria mais geral, que busca entender alguns homeomorfismos homot´opicos a identidade do 2-toro como aplica¸c˜oes do anel e por sua vez aplicar os resultados dispon´ıveis nesse contexto.

A conjectura do deslocamento uniforme tamb´em pode ser estudada no caso em que f ´e homot´opica a um Dehn Twist. Ela foi provada por Addas-Zanata, Garcia e Tal ([GTAZ11]), mas nesse caso a teoria difere do que discutimos no cap´ıtulo anterior e por isso n˜ao a discutiremos aqui.

A ferramenta que usaremos em nosso caso ´e estudar os conjuntos ω(B0)

(34)

24CAP´ITULO 4. A CONJECTURA DO DESLOCAMENTO UNIFORME

4.4

O papel da ergodicidade

A hip´otese de ergodicidade com respeito a medida de Lebsegue em associa¸c˜ao com as outras hip´oteses do teorema que queremos provar implica, entre outras coisas, que para λ-quase todo ponto p ∈ T2 existe uma sequˆencia

nj j→∞

−−−→ ∞tal que

(Fnj(y)y)

1

j→∞

−−−→0

para todoy ∈π−1(p). Para provar essa afirma¸c˜ao usaremos o lema abaixo que ´e uma consequˆencia do teorema de Atkinson (vide [Atk76]).

Lema 3 (Atkinson). Seja M uma variedade compacta e f : M → M

cont´ınua. Seja µ uma medida boreliana, de probabilidade, erg´odica. Seja

g:M →Rcont´ınua e satisfazendo

Z

M

gdµ= 0

para µ-qtp existe sequˆencia nk k→∞

−−−→ ∞ tal que

fnk(x)−−−→k→∞ x e

nXk−1

i=n0

g(fi(x))−−−→k→∞ 0

Definindog:= (F◦π−1π−1)

1e pondoµ=λsabemos queλ(π(Bε(x)))>

0 para todoε >0 ex∈R2. Comoλ´e erg´odica o teorema de Birkhoff garante

que, paraλ-quase todo p∈π(Bε(x)), temos

1

n

n−1

X

i=n0

g(fi(p))−−−→k→∞ Z

T2

gdλ

Ent˜ao se assumirmos que ρ(F) est´a contido em {0} ×R e como para todo

p∈T2 e yπ−1(p) temos que

j X

i=0

g(fi(p)) = j X

i=0

(Fi+1(y)−Fi(y))1= (Fj+1(y)−y)1

conclu´ımos queRT2(F ◦π−1−π−1)1dλ= 0. Podemos aplicar ent˜ao o lema

de Atkinson para obter uma sequˆencia nj j→∞

−−−→ −∞ e p ∈ π(Bε(x)) tal que paraλ-quase todo y ∈π−1(p) temos quefnj(p)−−−→j→∞ p e (Fnj+1(y)

y)1

j→∞

(35)

4.4. O PAPEL DA ERGODICIDADE 25

Os homeomorfismos erg´odicos, por sua vez, s˜ao um Gδ (i.e., intersec¸c˜ao enumer´avel de abertos) denso na topologia da convergˆencia uniforme den-tre os homeomorfismos do toro que preservam a medida de Lebesgue no toro (esse resultado ´e conhecido como teorema de Oxtoby-Ulam; uma boa referˆencia para o assunto ´e [AP00]).

(36)
(37)

Cap´ıtulo 5

Os conjuntos

B

0

, B

π

e

ω

(

B

0

)

, ω

(

B

π

)

5.1

Defini¸

oes;

B

0

, B

π

6

=

Fixemos a nota¸c˜aoe0 = (1,0) eeπ = (−1,0). Definimos

V0+:={x∈R2|hx, e0i ≥0}={x∈R2|(x)1 ≥0}

e

Vπ+:={x∈R2|hx, eπi ≥0}={x∈R2|(x)1 ≤0}

Considere R2∪ {∞} ∼ S2 a compactifica¸c˜ao por um ponto de R2 e Fb

o homeomorfismo induzido por F em S2 que fixa o infinito. Os conjuntos d

V0+:=V0+∪ {∞}e dVπ+:=Vπ+∪ {∞}correspondem a V0+e Vπ+, respectiva-mente, emS2.

SejaBc0 a componente conexa de

\

n≤0

b

Fn(dV0+)

que cont´em o infinito. Seja tamb´em Bcπ como a componente conexa de \

n≤0

b

Fn(dVπ+)

que cont´em o infinito.

Podemos definir ent˜ao os conjuntos B0 e Bπ em R2 que correspondem, respectivamente, aos conjuntos Bc0 e Bcπ de S2. Vamos mostrar que estes conjuntos n˜ao s˜ao vazios, sob as hip´oteses de nosso teorema, com o lema que ´e consequˆencia dos resultados a seguir.

(38)

28 CAP´ITULO 5. OS CONJUNTOSB0, Bπ E ω(B0), ω(Bπ)

Proposi¸c˜ao 20. Sejaf :T2 T2um homeomorfismo homot´opico a

identi-dade e sejaF um levantamento fixado com ρ(F) ={0} ×[a, b]. Suponha que

f ´e erg´odico com respeito a medida de Lebesgue no toro. Se existe M ∈R,

n(M) ∈ Z e x ∈ R2 tal que (Fn(M)(x)x)

1 > M ent˜ao existe z ∈ R2 e

m(M)∈Z tal que (Fm(M)(z)z)

1 <−M+ 1.

Demonstra¸c˜ao. SejaM >0,n(M)∈ZexM ∈R2tais que (Fn(M)(xM)−

xM)1 > M. Por continuidade dado ε >0 existe δM >0 tal que para todo

y∈BδM(xM) temos

(5.1) M −ε <(Fn(M)(y)−y)1< M +ε

Aplique o lema de Atkinson, como fizemos na se¸c˜ao anterior, para g:= (F◦π−1π−1)

1. Podemos fazer isso poisλ(π(BδM(xM)))>0 e como para

todop∈T2 e yπ−1(p) temos que

j X

i=0

g(fi(p)) = j X

i=0

(Fi+1(y)−Fi(y))1= (Fj+1(y)−y)1

temos, como j´a vimos, pelo teorema de Birkhoff queRT2(F◦π−1−π−1)1dλ=

0. Obtemos assim uma sequˆencia nj j→∞

−−−→ ∞ e p ∈π(Bε(x)) tal que para todoy∈π−1(p) temos que fnj(p)−−−→j→∞ p e

(5.2) (Fnj+1(y)y)

1

j→∞

−−−→0

Temos tamb´em que

(Fnj+1(y)Fn(M)(y))

1 = (Fnj+1(y)−y)1+ (y−Fn(M)(y))1

logo por (5.1) e (5.2) temos que (Fnj(y)Fn(M)(y))

1

j→∞

−−−→ −M. Se defi-nirmosz:=Fn(M)(y) ent˜ao

(Fnj+1(y)Fn(M)(y))

1 = (Fnj+1−n(M)(z)−z)1

de forma que

(Fnj+1−n(M)(z)z)

1

j→∞

−−−→ −M

como desejamos. A demonstra¸c˜ao para M <0 ´e an´aloga.

Proposi¸c˜ao 21. Seja f :T2 T2 um homeomorfismo homot´opico a

(39)

5.1. DEFINIC¸ ˜OES; B0, Bπ 6=∅ 29

Demonstra¸c˜ao. Sejay∈R2 um ponto fixo. ComoF(x+ (i, j)) =F(x) +

(i, j) podemos assumir que 0≤(y)1 ≤1. Seja L:={x∈R2 |(x)1 = (y)1},

i.e.,L´e a reta vertical passando por todos os pontos (fixos) da formay+(0, i) para i ∈ Z. Usando a proposi¸c˜ao anterior podemos mostrar que B0 6= ∅

dividindo em dois casos:

1. Suponha que existe M >0 inteiro tal que para todo x ∈R2 e mZ

temos que|(Fm(x)−x)1| ≤M. Em particular temos que |(Fm(L)−

y)1| ≤M. Observe queL divideR2 em duas componentes conexas

(Vπ++ ((y)1,0))\L e (V0++ ((y)1,0))\L

Como Fm(L) ´e ilimitada na vertical para todo m 0, podemos de-finir uma orienta¸c˜ao “para cima”e dizer quando um conjunto est´a a esquerda ou a direita de Fm(L). Note que tamb´em temos pontos fi-xos em (V0++ ((y)1,0))\L. ComoF−1 ´e cont´ınua preserva o n´umero

de componentes conexas, portanto estes pontos fixos garantem que a imagem da componente conexa que est´a a direita deL tamb´em est´a a direita deF−1(L).

Como|(Fm(L)y)

1| ≤M temos para todo n∈Z

Fn(L+ (M,0))⊆V0+

Observe tamb´em queV0++ ((y)1+M,0) est´a a direita deL+ (M,0),

de forma queFn(V

0+ (M+ (y)1,0)) est´a a direita de Fn(L+ (M,0))

e portanto, para todon∈Z, temos que

V0++ (M+ (y)1,0)⊆Fm(V0+)

logo o conjunto ilimitadoV0++ (M+ (y)1,0) est´a emB0.

2. Pela proposi¸c˜ao anterior podemos supor que para todoM >0 existe

xM ∈ R2 e n(M) ∈ Z tal que (Fn(M)(xM)−xM)1 > M. Note que,

como Fn(M)Id´e invariante pela a¸c˜ao de Z2 podemos tomar x

M a esquerda deL com Fn(M)(x

M) a direita deL.

Em particular dado M > 0 existe n(M) ∈ Z o primeiro inteiro tal queFm(L)(V+

0 + (M,0))6=∅. SejaMk uma sequˆencia ilimitada de inteiros e γk uma curva conexa ilimitada para a direita e que come¸ca emFm(Mk)(L)(V+

0 + (Mk,0)).

Temos ent˜ao que δk := F−m(Mk)(γk) est´a a direita de L. Como F ´e homot´opica a identidade posso assumir, s.p.g., que o ponto inicial de cada curva δk est´a em [(y)1,(y)1 + 1]×[0,1]. Tamb´em podemos ver

que Fi(δk) V+

0 para n(Mk) ≤i ≤0 utilizando que os pontos fixos

garantem que a imagem da componente conexa que est´a a direira de

(40)

30 CAP´ITULO 5. OS CONJUNTOSB0, Bπ E ω(B0), ω(Bπ)

Olhe ent˜ao para as curvasδbk∈S2 que correspondem as curvasδk ∈R2. As curvas δbk ∈ S2 formam uma sequˆencia de conjuntos compactos conexos que portanto possui (na topologia de Hausdorff) uma sub-sequˆencia convergindo para um conjunto fechado conexoΓ, que est´b a a direita deLpoisδk→Γ eF(δk) est´a a direita deL. Note quebΓ6={∞} pois a sequˆencia dos pontos iniciais das curvas δk converge para um ponto de [(y)1,(y)1+1]×[0,1]) Desta forma o conjunto correspondente

Γ⊂R2 mostra queB 0 6=∅.

A prova de que Bπ 6=∅ pode ser obtida analogamente.

No teorema acima podemos argumentar por um racioc´ınio semelhante sem as hip´oteses ρ(F) = {0} ×[a, b] e de ergodicidade para obter que ao menos um dos conjuntos B0, Bπ ´e n˜ao-vazio (pois ou as imagens de L s˜ao uniformemente limitadas em m´odulo - caso 1 - ou s˜ao ilimitadas em ao menos um dos dois lados - caso 2).

Lema 4. SejaF um levantamento fixado de um homeomorfismo homot´opico a identidade que ´e erg´odico com repeito a medida de Lebsegue. Se ρ(F) = {0} ×[a, b]⊆R2, onde a0bent˜aoB

0 en˜ao s˜ao vazios.

Demonstra¸c˜ao. Se a < b, como (0,0) ∈ ρ(F), pelo teorema de Franks existex∈T2 tal que

F(y)−y= (0,0)

para todo y∈ π−1(x). Para o caso a=b = 0 temos que (0,0) ´e um ponto

extremal e a existˆencia do ponto fixo pode ser vista como consequˆencia de outro resultado de Franks que j´a citamos (proposi¸c˜ao 8, p´agina 12). Basta aplicar ent˜ao a proposi¸c˜ao anterior.

Em tempo, conhecemos outras condi¸c˜oes sobre as quaisB0 eBπ s˜ao n˜ao vazios. Veja por exemplo [GTAZ11] e [Tal12].

Precisaremos tamb´em das seguintes caracteriza¸c˜oes dos conjuntos B0 e

Bπ:

Lema 5. B0 ´e a uni˜ao de todas os conjuntos conexos fechados, ilimitados

C de R2 que satisfazem

(Fn(x))1 ≥0∀n∈N+

para todox∈C. Analogamente,´e a uni˜ao de todos os conjuntos conexos

fechados, ilimitados Dde R2 que satisfazem

(Fn(x))1 ≤0∀n∈N+

(41)

5.1. DEFINIC¸ ˜OES; B0, Bπ 6=∅ 31

Demonstra¸c˜ao. Provaremos apenas a primeira afirma¸c˜ao, pois a segunda ´e an´aloga. Por defini¸c˜aoBc0 ´e conexo e fechado. ClaramenteB0 n˜ao precisa

ser conexo, pois retiramos o ponto no infinito, mas cada uma de suas com-ponentes conexas precisa ser conexa e fechada, al´em de ilimitada. ComoB0

´e a uni˜ao de suas componentes conexas, basta ver que a ´orbita futura de seus pontos permanece emV0+para sempre. Mas isso ´e consequˆencia direta da forma que definimos Fb e dV0+.

Observe tamb´em que, comodV0+,dVπ+ s˜ao fechados eFb´e homeomorfismo, c

B0,Bcπ s˜ao fechados. Assim, B0, Bπ s˜ao fechados (o que n˜ao segue do lema anterior).

Definimos ent˜ao oω-limite de B0, que ser´a denotado por

ω(B0) := ∞

\

i=1 ∞

[

j=i

Fj(B

0) = ∞

\

i=1

Fi(B0)

(poisF ´e homeomorfismo, B0 ´e fechado eFi+1(B0)⊆Fi(B0) parai≥01).

Analogamente

ω(Bπ) :=

\

i=1

Fi(Bπ)

Argumentando como no lema anterior podemos ver queω(B0) eω(Bπ) s˜ao

fechados e todas suas componentes conexas s˜ao ilimitadas. Veja tamb´em queω(B0)⊆B0 (pois F(B0)⊆B0) e queω(Bπ)⊆Bπ.

´

E f´acil ver que F(ω(B0)) =ω(B0). Usando queF ´e um homeomorfismo

F−1(ω(B

0)) =ω(B0). Vemos por indu¸c˜ao queFi(ω(B0)) =ω(B0) para todo

i∈Z. Nesse caso diremos queω(B0) e ω(Bπ) s˜ao totalmente invariantes. Tamb´em precisaremos mais a frente do seguinte resultado:

Proposi¸c˜ao 22. Os conjuntos BC

0 , BπC, ω(B0)C e ω(Bπ)C possuem, cada

um, uma ´unica componente conexa.

Demonstra¸c˜ao. Vamos provar queBC

0 possui uma ´unica componente

co-nexa. O restante da proposi¸c˜ao pode ser provado de forma an´aloga. ´

E claro queB0⊆V0+, de forma que podemos considerar Ω a componente

conexa de BC

0 que cont´em R2\V0+. Como B0 ´e F-invariante temos que

F(BC

0 ) ⊇ BC0, de forma que toda componente conexa de F(B0C) cont´em

uma componente conexa de B0C (lembre que um homeomorfismo preserva o n´umero de componentes conexas). Al´em disso F(Ω)∩Ω 6=∅ e vale que Ω⊆F(Ω). Em particular, ΩC ´e F-invariante.

Seja z∈ΩC e Γ a componente conexa de ΩC que cont´em z. Como ΩC ´e invariante temos que Fi(Γ)Ω = para todo i N. Como (V+

0 )C ⊆Ω 1

Isto n˜ao foi provado, mas ´e trivial. Basta supor queF(B0)*B0 e ver o que acontece

com o respectivo conjunto emS2

(42)

32 CAP´ITULO 5. OS CONJUNTOSB0, Bπ E ω(B0), ω(Bπ)

temos que Γ ´e um conjunto fechado, conexo cuja ´orbita futura n˜ao sai de

V0+.

Al´em disso, como∂(ΩC)B

0, temos que Γ∩B0 6=∅. Sejaz∈Γ∩B0 e

Θ a componente conexa deB0 que cont´emz. Sabemos que Θ ´e ilimitado e

como Θ∩Γ6=∅ ent˜ao Θ⊆Γ. Portanto Γ ´e ilimitado, fechado e sua ´orbita futura n˜ao sai de V0+. Conclu´ımos que Γ⊆B0; isso mostra que ΩC =B0, e

tem portanto uma ´unica componente conexa.

5.2

ω

(

B

0

)

, ω

(

B

π

)

6

=

Veremos nessa se¸c˜ao que, sob nossas hip´oteses, podemos assumir que ω(B0)

eω(Bπ) s˜ao ambos n˜ao vazios.

Proposi¸c˜ao 23. Se (p, q) ∈ Z2 com p 0 ent˜ao B

0+ (p, q) ⊆ B0. Al´em

disso, B0+ (0, q) =B0.

Demonstra¸c˜ao. Seja Γ uma componente conexa de B0. Claramente Γ +

(p, q) ´e conexo, fechado, ilimitado e tal que (Fi(y))

1 ≥ 0 para todo y ∈

Γ + (p, q) (pois (Fi(y))

1 ≥p≥0).

Assim, se x ∈ Γ ⊆ B0 ent˜ao (x+ (p, q)) ∈ (Γ + (p, q)) ⊆ B0. Por fim,

note que sep= 0 ent˜ao segue a igualdade do lema 5.

Podemos facilmente ver que vale um resultado an´alogo para Bπ quando

p≤0. Em tempo, a proposi¸c˜ao seguinte ´e semelhante e ser´a usada mais a frente.

Proposi¸c˜ao 24. Se(p, q)∈Z2 comp0 ent˜aoω(B

0) + (p, q)⊆ω(B0). Se

(p, q) ∈Z2 com p0 ent˜aoω(Bπ) + (p, q) ω(Bπ). Al´em disso, se p = 0

ent˜ao vale a igualdade em ambos os casos.

Demonstra¸c˜ao. Como ω(B0) =T∞i=1Fi(B0) temos

ω(B0) + (p, q) =

\

i=1

Fi(B0)

+ (p, q) =

\

i=1

Fi(B0+ (p, q))

Usando queF ´e homeomorfismo temos da proposi¸c˜ao anterior que ω(B0) +

(p, q) ⊆ ω(B0) e que vale a igualdade caso p = 0. O restante do pedido ´e

obtido analogamente.

Lema 6. Seω(B0) =∅ ent˜ao existe r∈R+∗ tal que

lim inf n→∞

(Fn(x))

1

n ≥r

(43)

5.3. ESTRAT ´EGIA DA PROVA 33

Demonstra¸c˜ao. Afirmo que existe n ∈ N+ tal que Fi(B

0) ⊆ V0++ (1,0)

para todo i > n. De fato, caso contr´ario existe uma sequˆencia ij → ∞ tal que, para todo j, existe um ponto xj ∈V0+ tal que Fij(xj)∈ V0+\(V0++

(1,0)) e portanto 0≤(Fij(xj))

1 <1.

Os inteiros qj = ⌊(Fij(xj))2⌋ s˜ao tais que Fij(xj)−(0, qj) ∈ [0,1]2. Comoxj ∈V0+ ⊆B0 e B0−(0, qj) =B0 temos quexj −(0, qj)∈B0. Mas

por compacidade o conjunto{Fij(x

j−(0, qj))}j∈Npossui uma subsequˆencia

convergindo para um pontow∈ω(B0) : contradi¸c˜ao, poisω(B0) =∅.

Afirmo agora que Fn(B

0) ⊆ B0 + (1,0). Seja x ∈ B0. Pela afirma¸c˜ao

anterior, Fi(x) ∈ V0++ (1,0), ou ainda, Fi(x)−(1,0)∈ V0+ para i > n e desta forma Fi(x)(1,0)B

0 o que prova a afirma¸c˜ao. Veja por indu¸c˜ao

que, para todok∈N+ temos que

Fnk(B0)⊆B0+ (k,0)⊆V0++ (k,0)

de forma que para todox∈B0

lim inf n→∞

(Fn(x))

1 n ≥ k nk = 1 n

Corol´ario. Se ω(B0) =∅ ent˜ao existe v∈ρ(F) com (v)1 >0.

Demonstra¸c˜ao. Pelo lema anterior e pela proposi¸c˜ao 21 existe x ∈ R2,

r ∈ R e N ∈ N suficientemente grande tal que (Fn(x))1

n ≥r > 0 para todo

n > N. Desta forma

(ρn(F, x))1 = (F

n(x)x)

1

n ≥r−

(x)1

n

n→∞

−−−→r >0

Seja {xi}i ∈ N uma sequˆencia em B0 cont´em infinitos pontos podemos

considerar

ρ(F) ´e compacto podemos extrair uma subsequˆencia de Fn(nx)−x n>N que converge para algum v∈ρ(F) com (v)1 >0.

De forma an´aloga podemos ver que

Corol´ario. Se ω(Bπ) =∅ ent˜ao existe v∈ρ(F) com (v)1<0.

Conclu´ımos que, para um homeomorfismo com conjunto de rota¸c˜ao que coincide com um segmento de reta vertical, ´e suficiente estudar o caso em queω(B0) e ω(Bπ) s˜ao ambos n˜ao vazios.

5.3

Estrat´

egia da prova

Referências

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